Resenha:    Diferença e Igualdade nas Relações de Gênero – Revisitando o Debate

setembro 13, 2013

Luciana Alfano Moreira

   O texto Diferença e Igualdade nas Relações de Gênero: Revisitando o Debate, de autoria da Doutora em Psicologia pela USP/SP Maria de Fátima Araújo, visa debater as mudanças nas relações de gênero e a crise na masculinidade sob o impacto do feminismo, a partir de um levantamento bibliográfico utilizando diversos estudos de gênero sobre as subjetividades femininas e masculinas.
A autora inicia o artigo trazendo o conceito de gênero e a discussão do seu uso como categoria de análise, fazendo, primeiramente, a diferenciação entre o significado gramatical que serve para designar os indivíduos de sexos diferentes, relacionado à Biologia, e o seu significado cultural, relacional e situado na esfera social, baseado no uso do conceito de gênero pelas feministas. E esse caráter relacional do gênero levou a uma revisão dos estudos centrados nas mulheres, abrindo a demanda para os estudos sobre as relações de gênero, em que os homens não podem ser estudados independentemente das mulheres e vice versa. E no que tange à utilização do gênero como categoria de análise, a autora busca os estudos de Scott(1995), da brasileira Saffiotti(1997), e da historiadora francesa Louise Tilly(1994) para defender o seu uso, visto que a autora Maria de Fátima Araújo entende o gênero como uma categoria empírica, história e, portanto, analítica.
De acordo com Scott, o gênero é uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado, um elemento construtivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos e, também, um modo primordial de dar significado às relações de poder. E estudar as mudanças na organização das relações sociais é estudar as mudanças nas representações de poder correspondentes. Ela busca compreender como o gênero constrói as relações sociais, como a política constrói o gênero e como o gênero constrói a política. Tilly corrobora com o pensamento de Scott e defende a necessidade de tornar o gênero uma categoria de análise, em detrimento dos métodos descritivos dos estudos sobre a história das mulheres. Já para Saffiotti, gênero (como etnia, raça e classe) são categorias de análise e operam na realidade empírica enquanto categorias históricas.
A autora também entende o gênero como sendo uma categoria política que pode ser usado para estudar a problemática da igualdade e da diferença. Historicamente, a discussão sobre as diferenças entre os sexos desenvolveu-se a partir de duas concepções: a) a essencialista: que acreditava na diferença sexual e na “essência feminina”, supõe um feminismo universal; e a b) culturalista, na qual as diferenças sexuais são resultados da socialização e da cultura. Uma terceira concepção proposta por Françoise Collin(1992) traz igualdade e diferença constituindo uma única categoria, em que há o respeito pelas diferenças, mas também a necessidade delas. Collin propôs pensar a diferença em 3 níveis: entre o sujeito-mulher e sua condição de mulher; entre as mulheres; e entre as mulheres e o mundo dos homens. Para Collin, uma mulher não é só uma mulher, ela não se reduz a sua feminilidade, é um sujeito heterogêneo.
Scott também compactua essa posição, com a afirmação de que a própria oposição binária igualdade-diferença oculta sua interdependência, já que igualdade não é a eliminação da diferença e a diferença não impede a igualdade. A enorme diversidade de identidades supera as classificações macho/fêmea, masculino/feminino, sendo tais diferenças a própria condição das identidades individuais, o verdadeiro  sentido da identidade.
O artigo de Maria de Fátima também traz um breve histórico do movimento feminista e da luta pela igualdade, logo substituída pelo debate igualdade-versus-diferença, na segunda metade da década de 70, quando se passou a falar de diferença cultural feminina, experiência feminina, e do reconhecimento da diversidade cultural de gênero. Revistas as estratégias de luta, ao final dos anos 80, as mulheres passaram a defender a igualdade não mais em nome da capacidade de se assemelharem aos homens, mas, sobretudo, por desejarem a igualdade nas diferenças.
A estratégia de luta da igualdade nas diferenças propiciou uma possível mudança nas relações de gênero, a valorização do feminino e até a libertação, por parte dos homens e das mulheres, de velhos estereótipos. Mas ao levantar a bandeira da igualdade nas diferenças, e propor tal valorização do feminino, o discurso feminista também esbarram no antigo dualismo masculino/feminino, atribuindo valores e características diferentes para cada sexo e excluindo outras possibilidades de que homens e mulheres se diferenciem dos modelos estereotipados e rígidos.
Para Maria de Fátima Araújo, as transformações propiciam que os homens se libertem do peso do machismo e que as mulheres se livrem do imperativo do feminino, adquirindo autonomia e liberdade, sem ter que seguir as características determinadas pelo gênero. Mais uma vez trazendo e consolidando a ideia do gênero como construção social; e nessa perspectiva reconstruir o feminino implica também numa reconstrução do masculino.
Na última parte de seu texto, a autora encerra de forma bastante otimista, afirmando que os homens estão tomando consciência dos conflitos impostos pelo machismo, fugindo do sexismo, e que homens e mulheres estão se distanciando dos modelos estereotipados de gênero e desenvolvendo novas formas de subjetividade. Não se pode discordar que um novo modelo de homem esteja surgindo como consequência de fatores como a independência financeira das mulheres e das políticas de proteção, além de anos e anos de luta feminista, dentre outras coisas, mas também é sabido que essas mudanças caminham a passos lentos. A posição otimista da autora não pode ser simplesmente estendida a todos os homens, nem mesmo a todas as mulheres, que também são propagadoras de pensamentos machistas, preconceituosos e estereotipados em relação a elas mesmas. Transformações como as que a autora já enxerga levam várias gerações para acontecer e dependem de vários outros motivos além dos expostos pela autora Maria de Fátima Araújo.

Referência: Araújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17,2,41-52


Resenha: Dizer não aos estereótipos sociais – As ironias do controlo mental

setembro 13, 2013

Gisele D. Alberton

   O artigo inicialmente fornece uma breve introdução a respeito da influência dos estereótipos nas impressões, julgamentos, avaliações e comportamentos, destacando a importância da categorização e estereotipização ao simplificar a percepção social e facilitar o entendimento do observador sobre a realidade social. O estereótipo pode ocorrer de forma espontânea e automática. Assim a autora mostra duas visões no campo das pesquisas em relação ao controle dos estereótipos. Alguns autores defendem que o controle do pensamento estereotipado mesmo sendo difícil pode ser realizado e outros que a tentativa consciente de controlar o preconceito pode não ser conseguida com sucesso, e ainda, aumentar os pensamentos e respostas estereotipadas comparado com uma situação em que não houve tentativa de controle dos pensamentos estereotipados.
Este artigo de revisão intitulado como “Dizer <<não>> aos estereótipos sociais: As ironias do controle mental” cuja autoria é de Dora Luisa Geraldes Bernardes (2003) tem o objetivo de apresentar uma revisão teórica sobre os mecanismos de supressão dos estereótipos e das condições em que este leva ou não a consequências indesejadas. Para alcançar o objetivo citado a autora faz incursões sobre a ativação e uso dos estereótipos, os mecanismos de controle mental, as consequências da supressão dos estereótipos e as influências de moderadores para diminuir o efeito ricochete após a supressão.
Em relação à propensão para o uso de estereótipos Bernardes argumenta que o conhecimento das pessoas sobre um determinado grupo social forma o estereótipo sobre os mesmos. Essa informação é armazenada na memória e influencia a percepção e os comportamentos dos indivíduos em relação ao grupo e aos seus membros. Baseada nas ideias de Macrae (1994) a autora argumenta que os estereótipos servem para simplificar a percepção, julgamentos e ação. Este processo dá sentido ao ambiente social. Por outro lado, os estereótipos podem enviesar as percepções sociais sem que os indivíduos tenham consciência ou intenção e causar sérios danos a relações sociais. A partir de estereótipos os indivíduos podem ter a tendência a responder ao alvo estereotipado constrangendo seu comportamento e os indivíduos que são alvos podem inclinar-se a responder de modo consistente com o estereótipo (Word, Zana, & Cooper, 1974).
No que se refere aos mecanismos de controle mental a autora destaca que na tentativa de controlar as respostas, as pessoas tentam abolir os pensamentos estereotipados da consciência suprimindo-os. No entanto, essa tentativa pode fazer com este mesmo pensamento fique mais acessível. Para exemplificar sua argumentação ela busca o modelo de Wegner (1994; Wegner & Erber, 1992) explicando que é formado por dois processos cognitivos, a monitorização que busca investigar na consciência qualquer sinal do pensamento estereotipado e a reorientação da consciência que é garantir o afastamento do pensamento indesejado e focar a atenção em outro pensamento. Uma questão que a autora levanta é que enquanto o primeiro processo opera de forma automática e eficiente, o segundo requer recursos cognitivos adequados, o que não acontece de forma frequente. Outra questão é que para o indivíduo detectar o pensamento indesejado ele deve estar consciente daquilo que deseja suprimir, o que pode fazê-lo acessar muitas vezes este pensamento. O efeito irônico que a autora se refere nesse artigo é chamado de ricochete (Wegner, 1994), ou seja, a estratégia de supressão que ao mesmo tempo é uma tentativa de frear o pensamento estereotipado, também estimula o indivíduo a acessá-lo mais vezes. Por este motivo a autora questiona se é possível de fato controlar o uso dos estereótipos e erros perceptuais que estão associados aos mesmos.
Sobre as consequências da supressão dos estereótipos a autora salienta que esses pensamentos ao serem suprimidos retornam à consciência e têm impacto nas avaliações e nos comportamentos dos indivíduos em relação aos grupos. Uma segunda consequência é sobre a supressão espontânea do estereótipo. Tentativas de supressão induzidas pela situação podem aumentar a consciência das normas culturais contra a estereotipização e o preconceito através de pistas situacionais, e assim, estimular esforços espontâneos de supressão dos estereótipos. No que tange a consequências na memória, Bernardes evidencia que a supressão do pensamento estereotípico requer maior atenção, gastando uma quantidade significativa de recursos.
Nos argumentos apresentados pela autora percebe-se que a supressão pode levar a resultados indesejados como a maior acessibilidade ao pensamento que se quer suprimir. No entanto, ela nos apresenta outro grupo de autores que defendem a possibilidade de suprimir esses pensamentos sem o efeito ricochete. Ela foca em elementos que podem moderar esse efeito após a supressão dos estereótipos. Um deles é a mediação da atitude pessoal no efeito que a supressão exerce na acessibilidade ao estereótipo. Pessoas com crenças de que não aceitam estereótipos e preconceitos evitam estereotipizar os outros porque elas acreditam que os estereótipos vão contra suas crenças de justiça e igualdade. O segundo elemento são os objetivos de processamento que podem contribuir para o indivíduo não aplicá-los.
A autora aponta alguns fatores que permitem explicar porque motivo indivíduos com baixo preconceito são capazes de evitar sua ativação. Nessas pessoas há probabilidade de não chegar a ocorrer, assim o efeito ricochete será totalmente evitado. Outra possibilidade é que os estereótipos sejam brevemente ativados, e posteriormente, elas sejam eficazes em suprimi-los, não se verificando tal efeito. Outro fator seria a motivação para inibir os estereótipos. Apesar de indivíduos com baixo preconceito terem sucesso a evitar o efeito ricochete, um aspecto importante a considerar na motivação é a distinção entre interna e externa. Quando a motivação é interna para controlar o preconceito, a discrepância com as crenças pessoais leva a sentimentos de culpa e auto recriminação. Quando a motivação é externa, a discrepância leva a sentimentos de ameaça e medo. Quanto mais baixo o nível de preconceito mais forte é a motivação interna para controlar o preconceito. As normas sociais salientes também podem servir como uma fonte reguladora de motivação externa para diminuir os estereótipos após o período de supressão.
Além destes fatores citados anteriormente a autora apresenta estratégias alternativas à supressão do estereótipo. Ela argumenta que indivíduos com baixo nível de preconceito podem recorrer a outras estratégias de controle dos pensamentos para evitar o efeito ricochete, as quais seriam:
a) a substituição do pensamento estereotipado: mais do que suprimir os pensamentos indesejados esses pensamentos podem ser substituídos por crenças igualitárias. A disponibilidade de pensamentos substitutos previne a ocorrência do efeito ricochete. No caso das pessoas com alto preconceito suas crenças pessoais são fortemente estereotípicas ficam sem pensamentos disponíveis que possam substituir os pensamentos intrusivos.
b) a individuação do alvo: pessoas com baixo preconceito podem procurar informações individuais sobre o alvo e formar impressões com base nessas informações.
Em relação ao segundo elemento citado anteriormente (os objetivos de processamento do indivíduo) indivíduos que têm como objetivo consciente não estereotipizar podem tentar criar outro estado mental e não suprimir o existente. Por exemplo, ao invés de tentar suprimir os estereótipos, eles poderiam adotar pensamentos mais justos com relações igualitárias. Esta estratégia leva o estado de monitorização a procurar pensamentos que não são consistentes com o estado mental reduzindo o efeito irônico.
Através das reflexões de Bernardes há possibilidade de pensar que as pessoas têm determinados conhecimentos sobre os grupos sociais que são considerados ao percebê-los. O problema é que essa informação estereotipa pode enviesar as percepções sociais e causar sérios danos às relações sociais. Desse modo a importância de fazer o controle das respostas estereotipadas reside no fato de que as injustiças sociais que resultam da ativação e uso desses estereótipos podem ser evitadas. Embora a autora afirme através de sua revisão que a supressão poder ser uma estratégia pouco eficaz de autorregulação devido aos seus efeitos irônicos, ainda sim é necessário uma quantidade maior de estudos sobre a mesma já que é um fenômeno complexo que pode ser influenciado por vários fatores como os motivacionais.
A forma de fazer este controle é importante para que seus efeitos a curto e longo prazo possam ser positivos nos contextos sociais. Uma alternativa que a autora traz em suas reflexões é dizer “não” ao estereótipo substituindo os pensamentos estereotipados ou criando outros estados mentais para transformar a informação existente em algo que não prejudique os grupos e seus membros e assim promover relações mais igualitárias. Mas, independente das estratégias o ação de controlar estereótipos e preconceito é um processo necessário, árduo que requer motivação, consciência e recursos cognitivos.
Referência: Bernardes, D. L. G. (2003). Dizer <<não>> aos estereótipos sociais: As ironias do controlo mental. Análise Psicológica, 3, 307-321.


Resenha: Aparência física e amizade íntima na adolescência – Estudo num contexto pré-universitário

setembro 13, 2013

Luciana Alfano Moreira

   O artigo de Raul Cordeiro sobre a amizade íntima na adolescência começa com uma reflexão acerca da importância do desenvolvimento de relações de intimidade nessa fase da vida do indivíduo, e a percepção sobre o auto-conceito. Para tanto, conceitua a intimidade como uma relação emocional caracterizada pela concessão mútua de bem estar, pelo consentimento explicito para revelação dos assuntos privados, podendo envolver a esfera dos sentidos e pela partilha de interesses e atividades em comum. Cordeiro também afirma que o conceito de intimidade pode ser estruturado em oito dimensões: sinceridade e espontaneidade; sensibilidade e conhecimento; vinculação; exclusividade; dádiva e partilha; imposição; atividades comuns; confiança e lealdade.
Na esfera individual, a intimidade é mais facilmente expressa e desenvolvida, quando se tem a experiência do autoconhecimento e se tem conhecimento dos objetivos do indivíduo para a sua vivência social. Segundo o autor, esse exercício possibilita que o autoconhecimento ocorra simultaneamente ao conhecimento do outro. Dessa forma, cordeiro também aborda o conceito de intimidade corporal, essencialmente estruturada pela percepção que o sujeito tem de si e do próprio corpo, o auto-conceito. O autoconceito é importante na satisfação global, sendo importante também para a satisfação relacional.
Na adolescência se desenvolvem as verdadeiras amizades íntimas porque a necessidade de intimidade aumenta, porque o adolescente está mais apto a viver essas relações, e porque há uma mudança no modo como ele expressa sua individualidade e intimidade perante os outros. Nessa fase também, os adolescentes se sentem mais a vontade com seus pares do que com os adultos. Cordeiro também afirma que as mudanças decorrentes da puberdade e dos impulsos sexuais devem ser consideradas, as quais, evidentemente, ocorrem de forma diferente entre rapazes e moças, e só vai se equilibrar perto da fase adulta.
O autor salienta que a importância das relações de amizade íntima na adolescência também está na possibilidade que o jovem tem de se expressar, sem temer ser ridicularizado ou criticado. É determinante, segundo Cordeiro, na construção da identidade, dos valores, objetivos e sentimentos de pertença e autoestima. Talvez caiba acrescentar nesse tópico do autor que a identificação com os pares é sim, fundamental. Estar entre iguais e o conforto do sentimento de pertença são importantes nessa fase da vida.
Mas também se deve considerar que é na adolescência que ocorrem, cada vez com mais frequência, os casos de bullying. Adolescentes são ridicularizados por adolescentes por causa de características físicas consideradas fora do padrão, como excesso de peso ou baixa estatura, por comportamentos considerados afeminados por parte dos meninos, ou masculinizados por parte das meninas, pelo modo de se vestir ou de acordo com a “tribo” a qual o adolescente pertence. E, acrescendo ao que foi exposto pelo autor, a existência dessas “tribos”, muitas vezes estereotipadas e que rivalizam com outras tribos, serve para que um jovem tenha abertura da sua individualidade com outros, os adolescentes encontram experiências de vidas, gostos e afinidades semelhantes para relatar e compartilhar. Assim, os adolescentes se sentem seguros, protegidos em suas relações.
O estudo de Raul Cordeiro teve como objetivo geral analisar as relações entre a percepção sobre a aparência física e as relações de amizade íntima na adolescência, e como o próprio autor relata, esse objetivo é subdividido nos seguintes: a) avaliar a percepção sobre a aparência física em adolescentes de ambos os sexos; b) avaliar o nível de desenvolvimento de relações de amizade íntima, no mesmo grupo de adolescentes de ambos os sexos; e c) identificar diferenças entre sexos em relação à percepção sobre a aparência física e ao nível de desenvolvimento de relações de amizade íntima. A principal hipótese formulada é a de que a percepção que os adolescentes tem da sua aparência física influencia a forma como estabelecem relações de amizade íntima.
O estudo foi feito com 309 alunos distribuídos em duas escolas pré-universitárias, com idade média de 18 anos. A Intimate Friendship Scale foi utilizada com o objetivo de avaliar a amizade íntima, a The self-perception profile for college students (sete escalas das 13 originais), e a Notação Social da Família – Graffar adaptado. Além disso, outras variáveis como escola, sexo, idade, dentre outras, foram avaliadas.
Dentre os resultados observados, vale observar que a Escala de Amizade Íntima aponta que há um grau mais elevado de maturidade no sexo feminino, e que são também entre as mulheres que os resultados de amizade íntima são mais elevados, como já visto em estudos anteriores. O autor afirma que esse resultado se deve provavelmente à definição mais precoce da identidade no sexo feminino e, consequentemente, das uma definição mais clara do seu papel nas relações com os outros. Ainda na escala de Amizade Íntima as dimensões Confiança e Lealdade obtiveram maior valor médio, o que para o autor, indica que os jovens primam por amizades que possam partilhar segredos e que não haja traição da revelação.
Outro dado interessante é que a percepção de autoconceito foi elevada no geral, sendo que os valores femininos foram menores que os masculinos, assim como na dimensão percepção sobre aparência física. No item amizade íntima com o melhor amigo a dimensão atividades em comum teve pouca diferença entre os sexos. O grupo estudado realça a importância das atividades em comum, como no lazer, no desempenho das tarefas ou da ocupação do tempo livre. Entretanto, o autor acredita que o resultado que não difere entre rapazes e moças se dá porque eles tem as atividades em comum como uma das expressões mais importantes da amizade.
Em amizade íntima com a melhor amiga houve maior consenso entre ambos os sexos nas dimensões amizade íntima, vinculação, confiança e lealdade. Já nas dimensões sinceridade e espontaneidade, sensibilidade e conhecimento mútuo, exclusividade relacional, dádiva e partilhas e atividades comuns, foram encontradas diferenças estatisticamente significativas entre os sexos.
Na discussão, o autor conclui que a vivência das relações de amizade íntima na adolescência é fortemente influenciada pelo sexo. Nas mulheres, o fenômeno de identificação inter-pares, e para os rapazes, a necessidade de afirmação perante o sexo oposto. O estudo ignora adolescentes de orientação homossexual, e não considera essa variável. Além disso, Cordeiro observou que os valores de percepção sobre a aparência física se revelam mais influentes num baixo autoconceito feminino, provavelmente porque as cobranças quanto a aparência física feminina seja muito mais forte do que em relação aos homens. Mulheres são preparadas para serem bonitas e atraírem o sexo oposto desde muito novas, e quem não se encaixa no padrão de beleza exigido acaba sofrendo mais, chegando a ter problemas de autoestima.

Referência: Cordeiro, Raul A. Aparência física e amizade intima na adolescência: Estudo num contexto pré-universitário. Análise Psicológica, 24, 3, 509-517, 2006.


Resenha: Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana

setembro 13, 2013

Gisele D. Alberton

No resumo introdutório o autor discute a função de perceber e categorizar como processos fundamentais da vida social. O processo de categorização auxilia os indivíduos na organização da realidade social, no entanto este processo também influencia o julgamento dos grupos ou seus membros.
O ensaio intitulado como “Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana” com autoria de Marcos Emanoel Pereira tem objetivo de avaliar e esclarecer alguns mecanismos psicológicos envolvidos na manifestação do julgamento estereotipado pelos habitantes dos centros urbanos, enfatizando o papel exercido pela confirmação e desconfirmação das crenças.
Inicialmente o autor destaca a complexidade da vida urbana e argumenta que a sobrevivência humana nos centros urbanos é possível porque o ser humano tem dois sistemas de aprendizagem, um que permite lidar com as rotinas diárias e outro que o ajuda a lidar com as situações inesperadas. Esses sistemas são complementares.
As informações que são adquiridas no cotidiano através da capacidade de percepção dos indivíduos são organizadas e armazenadas na memória em termos de crenças. Isso é possível devido à categorização. O autor explica que os estudos atuais apontam que uma parte do pensamento é regida por dispositivos mentais que permite pensar os indivíduos com quem se interage em termos de categorias mais amplas e não a partir das particularidades de cada pessoa encontrada no mundo. Assim, esta modalidade também permite que rótulos verbais sejam aplicados a objetos presentes nos domínios: físico, mental e social da vida.
Esse repertório de conhecimentos adquiridos ao longo da vida geram expectativas e são utilizados como base para guiar os comportamentos no mundo social. Baseado nesse conjunto de argumentações o autor destaca a influência que a categorização exerce sobre a percepção social. A partir da ativação dessas estruturas é possível realizar julgamentos sobre os membros da categoria ativada. O autor ainda apresenta exemplos durante suas reflexões (e.g., faxineira no prédio – que vive na periferia ou que vive num bairro próximo) em que é possível visualizar como os estereótipos podem atuar no cotidiano dos indivíduos. Também mostra evidências na literatura que as ideias estereotipadas poderiam ser mais frequentes em centros urbanos porque as pessoas se deparam com uma variabilidade maior de grupos sociais. No entanto, outros autores citados neste ensaio defendem que o pensamento estereotipado se manifesta menos em pessoas que vivem em centros urbanos porque a literatura aponta que a vida nesses locais possibilita maior acesso a informações, o que vai contra as concepções estereotipadas, e também, proporciona maior vivência entre pessoas diferentes. O autor coloca que o fato de as pessoas terem maior acesso à informação não há indício de que elas irão rejeitar ou inibir a expressão das crenças estereotipadas. Em algumas circunstâncias as categorias podem ser ativadas de forma incondicional enquanto outras serão ativadas de forma condicional.
O autor apresenta evidências na literatura sobre a ativação incondicional dos estereótipos que são derivados do trabalho de Gordon Allport sobre a natureza dos preconceitos. Nesta linha a ativação da categoria é um processo inevitável. Em contraposição a esta ideia, o autor relaciona estudos que se posicionem sobre a ativação dessas categorias de forma condicional e que dependem de disparadores adequados. A aplicação do raciocínio categórico torna-se mais comum quando falta ao percebedor motivação, tempo ou capacidade cognitiva para lidar com as demandas sociais.
Assim, não é necessariamente a maior quantidade de informações a que se encontra exposto nos ambientes urbanos que acarretará em um menor grau de estereotipização. O que vai fazer a diferença nas interações sociais é a qualidade dos contatos onde indivíduos podem obter as informações necessárias para fazer julgamentos sociais adequados, o que não é privilégio dos grandes centros urbanos.
Este artigo demonstra que a questão crucial é evitar o predomínio dos estereótipos, pois eles influenciam a percepção, e consequentemente, os pensamentos e comportamentos prejudicando as relações sociais. O mais importante é estar atento ao contexto em que se vive e adotar práticas de reflexão das próprias ações.
Referência: Pereira, M. E. (2008). Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana. Ciências & Cognição, 13(3), 280-287.


Resenha: Interagindo com homens sexistas dispara a ameaça a identidade social entre mulheres engenheiras

setembro 12, 2013

Gustavo Siquara

O estudo em questão teve como objetivo avaliar a ameaça a identidade social de mulheres engenheiras em interação com homens sexistas e a possível diminuição do desempenho. Na interação entre os indivíduos existem padrões e julgamentos que fazemos sobre os outros. A interação pode ser um pouco mais complicada quando se trabalha com o papel de gênero. Nesse sentido atitudes sexistas despertam um interesse particular na interação tal como na área de engenharia e matemática. Mulheres nesse campo de atuação normalmente tem um estereotipo negativo de incompetência e atitudes sexistas de ameaça ambiental.
A ameaça à identidade social pode resultar em um baixo desempenho e incertezas sobre o seu pertencimento. O que os autores propõem é que o estereotipo negativo e comportamentos sexistas dos homens criam um ambiente de desvalorização da mulher e das suas contribuições e habilidades. A hipótese do estudo é que atitudes sexistas dos homens engenheiros e matemáticas possam ativar a ameaça à identidade social em mulheres através dos comportamentos interpessoais que desvalorizam as contribuições e habilidades das mulheres. Para a investigação do estudo foi realizados um total de cinco experimentos. No estudo 1, foi investigado se o nível de sexismo do homem poderia predizer o comportamento para as mulheres com quem eles interagem. Nesse caso os autores procuraram predizer se quanto mais sexista o homem poderia mostrar uma maior dominância sutil na interação com as mulheres. Nos estudos de 2 a 5 os autores examinaram se o nível de sexismo tem efeito sobre os padrões de interação. Ou seja, eles investigaram se os homens sexistas poderiam ativar a ameaça a identidade social.
As discussões gerais do estudo ressaltam que as mulheres são minorias no campo das engenharias e matemáticas, com isso tem mais interações com homens. O estudo mostrou de modo geral que a interação pode ter consequências negativas para o desempenho das mulheres nesse campo. Quando as mulheres engenheiras ou matemáticas interagem com homens sexistas podem experienciar ameaça a identidade social e especificamente ameaça ao estereotipo o que pode diminuir o desempenho nesse domínio. O resultado do estudo 1 apontou que quanto maior o escore de sexismo do homem maior domínio e interesse sexual ele exibiu para a mulher com quem ele acredita ser uma colega estudante de engenharia. Nos estudos 2 a 5 evidenciou que mulheres ao detectarem sinais de comportamentos sexistas elas serão desvalorizadas e correm o risco de serem vistas sobre a lente de um estereotipo negativo. Com isso as mulheres que tiveram interação com homens sexistas tiveram um desempenho pior em comparação quando as mulheres tinham interação com homens não sexistas. O ambiente pode ser um potente local para criar a ameaça.
Outro achado interessante foi de que as mulheres intelectualmente de baixo desempenho reportaram sentir mais atraídas pelos homens que mostraram dominância e comportamento de interesse sexual. Esses resultados são complexos, mas o comportamento dos homens sexistas pode ser reforçado pelas mulheres nesses casos, resultando na atração por eles. Assim cria um ciclo que aumenta o atraso apresentado pelas mulheres e continuam com o domínio que eles têm sobre os estereótipos negativos.
O estudo mostra a influencia da ameaça ao estereotipo a partir do ambiente e da sua relação interpessoal. Proporcionar um ambiente menos sexistas, ou discriminatório é essencial para o desenvolvimento de todas as pessoas. No estudo foi apresentado a interação comportamental em relação às mulheres e homens sexistas a partir da matemática, no entanto poderíamos pensar em outros temas como classes sociais ou étnicas. De maneira geral isso reforça a importância de se buscar um ambiente mais inclusivo e menos estereotipado. Pois em muitos casos os estereótipos podem ter influencia negativa a partir da categorização social ou de gênero das pessoas. Os métodos de intervenção devem ser baseados na mudança do estereotipo já que a forma de inter-relação irá afetar diretamente o desempenho do individuo. Um dos achados mais interessantes no estudo foi o caso das mulheres que tinham um desempenho inferior reforçavam o comportamento dos homens sexistas. Isso pode fazer com que se perpetue o estereotipo e cada vez mais as mulheres vão se sentir menos eficaz nessa área de conhecimento. Se esse ciclo não for quebrado cada vez mais o estereotipo irá afetar as relações interpessoais e os grupos minoritários.

Resenha: Logel, C., Spencer, S. J., Iserman, E. C., Walton, G. M. Hippel, W. Bell, A. E. (2009) Interacting With Sexist Men Triggers Social Identity Threat Among Female Engineers. Journal of Personality and Social Psychology, 96, (6), 1089-1103.


Resenha: Neurociência da Raça

setembro 12, 2013

Gustavo Siquara

Os autores do estudo trazem fazem uma revisão sobre os artigos que utilizaram Neuroimagem e as estruturas cerebrais a partir da exposição a faces de pessoas negras e brancas. O objetivo dessa resenha foi analisar os achados encontrados do artigo que apresenta e discute os estudos de neuroimagem em respostas a categoriais de raça negras e brancas em participantes Americanos. Com o advento da neurociência está sendo possível demonstrar as bases neurais de diferentes processos psicológicos e sociais. A algumas décadas os cientistas já estudam sobre a representação mental de raça e etnia. Mais atualmente tem surgindo estudos que apresentam evidências eletrofisiológicas, ressonância magnética funcional e outros métodos fisiológicos para entender como os indivíduos processam, avaliam e utilizam a variação humana ao longo da dimensão da raça. As áreas cerebrais que apresentam maiores ligações com a temática de etnias e raças são: amigdala, Córtex cingulado anterior, córtex pré-frontal dorsolateral e giro fusiforme.
A amigdala é uma estrutura subcortical muito relacionada a estudos de atitudes, crenças e tomada de decisão no estudo de brancos e negros. Em humanos a amigdala tem um papel essencial relacionado a aprendizagem emocional e medo. Essa estrutura apresenta muitas ligações com o córtex que detecta estímulos emocionalmente relevantes no ambiente, modulando o funcionamento cognitivo a atenção e a memória. A história das relações raciais nos EUA é especialmente marcada por emoções complexas incluindo medo e hostilidade. Embora ainda não seja encontrada em alguns estudos, existe uma predominância maior da ativação da amigdala quando tem que julgar faces de seu outgroup. Essa diversidade de achados está ligado principalmente a complexidade do funcionamento cerebral, principalmente por um fenômeno tão complexo como o preconceito. Outras áreas cerebrais serão apresentadas mais a frente a respeito da ativação da amigdala.
Há algumas décadas já existem estudos que apresentam medidas de associação implícitas em relação brancos e negros e o preconceito. As medidas implícitas tem apresentado um bom poder preditivo em relação ao preconceito. Os estudos também apontam que existe associação entre as medidas implícitas e a ativação da amigdala, com isso atitudes preconceituosas relacionadas à raça podem ser mediadas pela amigdala em respostas a faces de ingroup e do outgroup. No entanto a ativação da amigdala e consequentemente das medidas implícitas parecem ser moduladas por outras áreas cerebrais que apresentam efeito em atitudes sobre o preconceito.
Estudos com crianças que apresentam síndrome de Willians, que é uma condição genética marcada por comportamento excessivamente amigável, tem uma redução de ativação da amigdala em situações de ameaça e do giro fusiforme na interação com faces brancas e negras. A baixa ativação da amigdala foi detectada para faces relacionadas à raça mais não relacionadas ao gênero. Esse resultado sugere que a variabilidade da ativação da amigdala entre os indivíduos e as diferenças individuais dos grupos parece emergir de muitas influencias, incluindo temperamento, diferenças individuais e exposição a atitudes culturais. Em outras palavras a ativação da amigdala pode refletir a percepção da mente que diferencia a característica perceptual do estimulo da raça. Os resultados sugerem que a representação neural de atitudes implícitas e explicitas em relação a raça provavelmente está dentro de um larga sobreposição e interação de sistemas cerebrais.
Outra região cerebral que tem apresentado relações nos estudos sobre raça é a região do Córtex cingulado anterior. Geralmente as pesquisas apontam essa região sendo ativada quando o individuo experiência algum conflito entre uma resposta preponderante e intencional. São resposta que exigem um controle cognitivo como a tarefa de Stroop. Alguns estudos têm apontado que o córtex cingulado anterior reflete o conflito entre a resposta preponderante, automática de atitudes raciais e as respostas explicitas intencionais sobre a crença do igualitarismo sobre a raça. Nesse sentido os estudos indicam que a resposta de ativação da amigdala está correlacionada com o aumento da ativação do córtex cingulado anterior. Ou seja, quando o individuo inibe a resposta preponderante e regula a expressão do preconceito vai haver simultaneamente o aumento da ativação do córtex cingulado anterior. Outras pesquisas já apontam previamente que indivíduos podem ser intrinsecamente motivados ao controle de atitudes raciais, mas outros necessitam de uma motivação externa como as normas de igualitarismo para implementar o controle do preconceito. Os resultados dessas pesquisas mostram que a motivação intrínseca de inibição do preconceito é mais eficaz em comparação a indivíduos que são externamente motivados. Os indivíduos que são motivados mais internamente conseguem controlar mais expressão do preconceito.
A região dorsolateral pré-frontal está relacionada ao controle dos estímulos. Os estudos apontam essa área como ligada a regulação cognitiva das emoções modulando as respostas da amigdala. Também está envolvida no monitoramento e implementação do controle do comportamento. Conjuntamente com o córtex cingulado anterior a região dorsolateral pré-frontal no controle de respostas conflitantes e em atitudes implícitas no controle e regulação dos comportamentos ligados a raça. Lesões nessa região estão associados a redução do autocontrole e auto monitoramento. As regiões do córtex cingulado anterior e o dorso lateral pré-frontal são ativadas quando os indivíduos veem faces negras ou brancas e são correlacionadas com medidas implícitas. Essa região parece ser uma base para o controle da expressão do preconceito.
Os sistemas de controle de atitudes raciais são explicados de duas formas. A psicologia social tem proposto que processamentos complexos sociais e pessoais motivam e influenciam outros aspectos menos complexos a construir categorias bases, como as raças. Nesse processamento primeiro requer a detecção e categorização da avaliação da raça. A outra proposta envolve o alto processamento cognitivo pessoal e motivacional que exerce algum controle sobre processos cognitivos mais baixos. Nesse caso quando existe um conflito as áreas do córtex cingulado e do dorsolateral pré-frontal que regulam as emoções envolvidas na ativação da amigdala. Há evidencias de que outras regiões do córtex pré-frontal também está envolvida nesse processo de regulação racial.
A circuitaria cerebral envolvidas nos processos raciais são maleáveis. Os estudos apontam que a ativação dessas áreas cerebrais automatizadas é resultado de aspectos maleáveis que dependem de situações e fatores diferentes. Em um estudo que foi apresentado fotos de familiares, pessoas negras admiradas e indivíduos brancos, houve uma mudança na ativação da amigdala na apresentação de estímulos de raças de outros grupos. Ou seja, houve uma diminuição da ativação da amigdala quando apresentados em membros do outgroup. Esses achados implicam na exposição a contra estereótipos/faces familiares podem diminuir a presença do preconceito.
Um dos objetivos do artigo foi entender quais os processos cerebrais e como os circuitos neurais estão implicados na emoção e no processamento cognitivo que podem estar envolvidos na identificação, avaliação dos grupos e a expressão do comportamento. Outros estudos devem estar presentes no sentido de entender como a raça pode influenciar a tomada de decisão.
Os avanços na área de neurociências permitem entender melhor o comportamento. Ao analisarmos algo complexo e multideterminado como é o nosso comportamento não podemos deixar de levar em conta aspectos biológicos e também sociais. A integração de ambos os estímulos iram provavelmente oferecer as melhores respostas sobre o nosso comportamento. A negação ou preponderância de qualquer uma dessas questões, acredito que irá diminuir e limitar o nosso entendimento sobre o comportamento. A medida que entendermos cada vez mais comportamentos sociais mais que também tem influencias biológicas (vice-versa) iram surgir novas questões que deverão ser respondidas e se tornaram naturalmente cada vez mais complexas.

Referência: Kubota, J. T., Banaji, M. R., Phelps, E. A. (2012) The Neuroscience of race. Nature Neurosciense, 15(7), 940-948.


Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

setembro 12, 2013

Gilcimar Santos Dantas

O objetivo do texto é analisar as novas formas de expressão do preconceito e do racismo que se manifestam nas sociedades formalmente democráticas e que começaram a surgir após as mudanças sociais decorrentes dos direitos civis e da declaração dos Direitos Humanos. Para isto, os autores analisam os racismos simbólico e moderno, da Austrália e dos Estados Unidos, o racismo ambivalente, dos Estados Unidos, o preconceito sutil, da Europa, e o racismo cordial, do Brasil.

Para os autores, dentre as várias formas possíveis de preconceito, existe uma que é peculiar e que se dirige a grupos com características físicas supostamente herdadas. Neste sentido, o racismo possuiria processos de hierarquização, exclusão e discriminação a partir de características físicas externas, mas se diferenciaria do preconceito porque além de possuir as características acima, este não existe apenas em um nível individual, mas também institucional e cultural. Ou seja, o racismo não seria apenas uma atitude, mas também englobaria processos de discriminação e de exclusão social. Neste caso, os autores trabalham as novas formas de racismo a seguir.

O racismo simbólico seria uma forma de resistência a mudanças no status quo das relações raciais, na qual as atitudes contra os negros seriam, muito mais, decorrentes de uma percepção de ameaça aos valores e à cultura do grupo dominante do que de uma noção de ameaça econômica. O racismo moderno se baseia nas crenças de que o racismo é uma coisa do passado, de que os negros estão subindo rapidamente em espaços aonde não são bem vindos e que os meios e as demandas dos negros são injustos e que as instituições estão lhe dando muito crédito. Segundo o racismo aversivo, pessoas brancas, ao entrarem em contato com pessoas negras, elas não as discriminariam, pelo contrário, elas as tratariam de modo igualitário, mas quando há um contexto no qual se justifica a discriminação, essas mesmas pessoas discriminariam indivíduos negros. O racismo ambivalente possui duas orientações que podem gerar conflito ou ambivalência por parte de quem faz o julgamento. Sendo assim, pessoas brancas podem sentir simpatia pelos negros ao aderirem a valores humanitários e de igualdade. Por outro lado, a adesão a valores individualistas levaria os brancos a verem os negros como desviantes destes mesmos valores. O racismo sutil seria uma forma mais velada de racismo que se caracteriza pelas crenças de defesa dos valores tradicionais, pelo exagero das diferenças culturais e pela negação de emoções positivas aos membros do exogrupo. O racismo cordial, típico do Brasil, decorre do mito da democracia racial e da ideologia do branqueamento. Seria um racismo sem intenção e, às vezes, de brincadeira, mas que exerce influência negativa na vida das pessoas negras.

Sobre a discussão a respeito das formas abertas de racismo, o Brasil parece estar em uma condição diferente. Os estudos sobre formas mais sutis e ambíguas de racismo nos Estados Unidos e na Europa mostram que esta forma de preconceito começa a surgir no início da segunda metade do século XX. Entretanto, no Brasil, as formas sutis de racismo já começam a entrar em prática no fim do século XIX quando se tenta trabalhar em uma forma de lidar com um país recém-saído da escravização (Azevedo, 1988). Ideias de que o Brasil é um país igualitário aonde pessoas de todas as raças convivem de modo harmônico, que os maiores problemas do país são de ordem econômica e que aqueles que tentam discutir as diferenças com base na questão racial são causadores de problema é algo antigo e não só defendido pelos mais conservadores. O que parece (principalmente após o surgimento das políticas de Ações Afirmativas) é que muitos brasileiros tem caminhado na direção contrária em relação à questão racial, contradizendo uma perspectiva que foi mantida com muito orgulho durante muito tempo. Pode-se ter como exemplo as reações contrárias à política de cotas com protestos nas ruas, artigos nos jornais, produções de livros e falas públicas de pessoas famosas. O racismo velado já existia há muito tempo no Brasil, disfarçado pela cordialidade. A suposição é que, de certa maneira, ele tem mostrado seu lado mais explícito à medida que grupos não dominantes têm trabalhado para mudar essa realidade.

Referências: Lima, M. E. O. e Vala, J. (2004). As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos de psicologia, 3, 401-411.
Azevedo, C., M., M. (1989). Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX. Anamblume. São Paulo.


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