2.4. O que a história pode nos ensinar acerca dos estereótipos?

Os argumentos apresentados no presente capítulo nos ajudam a compreender a origem dos mais corriqueiros estereótipos ainda hoje em circulação. O nosso ponto de partida exigiu que indicássemos os entes sociais aos quais eles se aplicavam – povos, categorias sociais, grupos sociais, religiosos e nacionais, raças – e as teorias implícitas – ambientais, hereditárias ou tipológicas – que em cada época ofereciam sustentação para os julgamentos socialmente compartilhados sobre os grupos humanos e as categorias sociais. Ainda que os argumentos tenham nos ajudado a mapear a trajetória dos estereótipos, não custa assinalar que quase sempre nos referimos ao conteúdo das crenças estereotipadas – usualmente estruturas argumentativas expressas a partir de adjetivos ou de imagens prototípicas – que refletiam as percepções cultivadas pelos grupos sociais a respeito de si mesmos e dos outros grupos. Os conteúdos, no entanto, resultam de um processo, no nosso caso, o processo de estereotipização. Acentuar a diferenciação entre processo e conteúdo não é nova nas ciências sociais e voltaremos ao tema no próximo capítulo, no qual analisaremos o desenvolvimento dos estudos sobre o processo de estereotipização em consonância com a perspectiva científica que tem dominado este campo de pesquisa nos séculos XX e XXI.

Antes de avançar, sentimo-nos obrigados a retomar a diferenciação estabelecida pelos estudiosos da história dos estereótipos e preconceitos assinalando que nas duas primeiras décadas do nosso século era possível identificar duas teses que se encontravam em disputa, podendo-se supor que as pesquisas sobre os estereótipos ainda hoje refletem o resultado deste embate. Uma primeira linha de pensamento, assentada tanto nas teorias ambientalistas quanto nas teorias da poligênese, oferecia respaldo a argumentos hierarquizadores. Como assinalamos, pela regra colonial de domínio das potências e pela naturalização da interpretação de que os brancos tinham direito a colonizar e escravizar os atrasados, esta tendência se refletiu na ausência de qualquer preocupação em evitar ser preconceituoso. A questão científica mais premente passou a ser a de identificar e mensurar as diferenças dos inferiores, uma preocupação respaldada pelas teorias raciais que ofereciam o substrato teórico para a condução de pesquisas destinadas a comparar e, principalmente, a hierarquizar as capacidades mentais de indivíduos de distintos perfis raciais e nacionais. Obviamente, dada a natureza da ciência defendida e a condição privilegiada ocupada por aqueles que as defendiam, as comparações levaram a uma conclusão inevitável: a comprovação científica da superioridade dos brancos sobre as outras raças. As conclusões obtidas em estudos desenvolvidos por teorias cunhadas em vários domínios do saber respaldavam as diferenças entre as raças e, a partir de comparações entre os brancos e outros grupos raciais, ofereceram os meios necessários para comprovar “cientificamente” a suposta superioridade dos brancos.

Conforme assinala Sussman (2014), o grande momento dos defensores da tese hierarquizadora foi a promoção do I Congresso Internacional de Eugenismo, realizado nas instalações da Universidade de Londres em 1912. Noticiado pelos grandes jornais como o New York Times e London Times, incensado como uma das maiores realizações da capacidade intelectual (dos humanos brancos) por periódicos científicos como a Nature e o Journal of the American Medical Association, patrocinado por grandes conglomerados industriais e financeiros como a Kellog`s, a Johnson & Johnson e a J. P. Morgan, respaldado por altas autoridades governamentais europeias e americanas, prestigiado por intelectuais de renome e personalidades como George Bernard Shaw, H. G. Wells, Émile Zola e John Maynard Keynes, o evento foi descrito como um acontecimento decisivo para o futuro da humanidade. Decisivo em que sentido? Por difundir ainda mais e para um público muito amplo, as quatro propostas civilizatórias do eugenismo, tais como se apresentavam no início do século XX. Assinalamos anteriormente quais foram as orientações destinadas a proporcionar esta mudança decisiva e supostamente para melhor nos rumos da espécie humana, mas não custa retomá-las. Em primeiro lugar, promover acasalamentos seletivos, pois se até mesmo o mais torpe dos fazendeiros sabia o quanto isso era necessário para a obtenção de rebanhos mais aperfeiçoados, o que justificaria os cientistas e governantes desconsiderarem este ensinamento? A maneira mais efetiva encontrada pelos eugenistas para implementar estas e outras ações de aperfeiçoamento do estoque genético humano foi buscar apoio e se articular com os poderes políticos para a aprovação de leis destinadas a proibir os casamentos entre as pessoas inferiores. Qual o critério adotado para diferenciar as pessoas socialmente inaptas, impedindo-as de se acasalarem? O mais inclusivo possível, começando pelas de mente fraca e as retardadas mentais, mas também outras nove categorias de infelizes, incluindo os indigentes, os alcoolistas, os criminosos, os epilépticos, os insanos, as pessoas de constituição física frágil e doentia, aqueles acometidos por doenças, os deformados e, claro, os cegos, surdos e mudos, independente do grau ou da intensidade do comprometimento. Esta primeira orientação não era apenas restritiva, pois também os eugenistas se esmeravam em patrocinar certames destinados a popularizar as práticas corretas de formação de famílias eugenicamente aptas, nas quais os vencedores eram louvados e agraciados com medalhas e certificados de boa linhagem.

A segunda orientação era mais consistente com a perspectiva da eugenia negativa e postulava a esterilização ou, até mesmo, a castração dos incapazes. Neste caso, o embate político foi bem mais difícil, embora existissem precedentes legais vez que alguns estados norte-americanos já dispunham de leis destinadas a esterilizar obrigatoriamente alguns tipos de pessoas, particularmente aquelas que tinham cometido crimes ou estavam internadas nos sanatórios abarrotados de doentes mentais. Os eugenistas, no entanto, consideravam estas leis muito tímidas, pois elas se aplicavam exclusivamente a indivíduos com características específicas, o que limitava o alcance social da medida. Era urgente, pois, segundo o ideário eugenista, aprovar leis aplicáveis não apenas aos indivíduos identificados como incapazes, mas também estender o alcance das leis de esterilização forçada, aplicando-as de forma a abranger categorias e grupos sociais mais amplos, como algumas linhagens familiares e vários grupos étnicos e raciais (Sussman, 2014). O poder persuasivo dos eugenistas, com o suporte do pensamento científico, contribuiu para a aprovação, a partir da segunda parte da década de 1920, de leis relacionadas com a esterilização obrigatória e forçada, não apenas nos Estados Unidos da América, como também em outros países a exemplo da Dinamarca (1929), Alemanha (1933), Canadá (1933), Noruega e Suécia (1934), Finlândia (1935), Estônia (1936) e Islândia (1938).

A terceira orientação eugenista estava voltada para o aperfeiçoamento e utilização de instrumentos especializados na identificação dos incapazes, o que promoveu o uso dos cada vez mais aprimorados testes científicos de inteligência para identificar e segregar alguns grupos sociais, nacionais e raciais. Neste sentido, a adoção do teste de inteligência de Binet-Simon foi decisiva; a sua redefinição, a partir do momento em que deixa de ser concebido como uma medida parcial e específica de determinadas dimensões da inteligência e se transforma em um teste destinado a mensurar a inteligência geral, converteu-o no padronizado e popularizado teste do QI. A normatização dos instrumentos de mensuração da inteligência se tornou imprescindível nos trâmites finais a que estavam sujeitos os imigrantes, sendo razoável assinalar que estes foram os instrumentos por excelência adotados para materializar a quarta orientação eugenista que pregava a implementação de políticas inibitórias destinadas a dificultar, inibir e obstar a entrada dos grupos nacionais e raciais considerados inferiores (Sussman, 2014), os quais supostamente deveriam ser mantidos à distância.

Com base nas discussões conduzidas no contexto imposto pelas teses hierarquizadoras materializadas no movimento eugenista não é de se estranhar que o preconceito, ou seja, não gostar, sentir asco, desconforto ou algum tipo de temor perante os não brancos, tenha sido considerada a resposta natural frente aos povos considerados inferiores. Se tudo parecia levar a crer que as teses hierarquizadoras dominariam o debate e se tornariam o modelo hegemônico de pensamento, a história apontou para uma direção distinta. Neste particular, não podemos desconsiderar a importância do papel desempenhado pelas disciplinas científicas. O surgimento de conceitos cientificamente orientados, como as de distância social, preconceitos e estereótipos, desempenharam um importante papel não somente na expressão dos fenômenos, mas também na forma como passamos a refletir sobre as relações entre os grupos humanos e as civilizações.

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