Uma breve digressão histórica

A principal referência de estudo da história dos preconceitos e estereótipos na psicologia social permanece sendo a obra de Duckitt (1992a, 1992b, 2010), da qual adotamos a perspectiva geral que orienta nossas análises no presente capítulo. Duckitt, e outros estudiosos da história dos preconceitos, acolhem a suposição de que até o final da segunda década do século XX o preconceito não era visto como um problema social, inexistindo, portanto, a preocupação em evitar expressá-lo. Isto não significava, obviamente, que antes desta época grupos sociais, etnias ou nacionalidades não avaliassem de forma negativa ou convivessem com imagens mentais desqualificadoras dos outros grupos sociais, donde a necessidade de lançar mão de fontes mais amplas para o estudo da história dos estereótipos.

 Para recensear alguns estereótipos desenvolvidos ao longo da história sobre os povos da antiguidade adotamos como referências as obras A invenção do racismo na Antiguidade (Isaac, 2004), Repensando os outros na Antiguidade (Gruem, 2011) e A invenção do racismo. Antiguidade e medievo (Delacampagne, 2000). Para a discussão dos estereótipos na idade média e no início da modernidade, servimo-nos, sobretudo, da edição em português do livro de Bethencourt (2020), que embora dedicada ao racismo e parta da premissa de que o racismo e os preconceitos sociais devem ser entendidos como fenômenos decorrentes dos projetos políticos dos vários agentes sociais, discute como os estereótipos serviram, ao longo da história, como um meio de oferecer legitimidade e respaldo a tais projetos políticos. Consideramos estas obras, em conjunto com outras referências distribuídas ao longo desta seção, fundamentais para o estudo a evolução histórica dos estereótipos, preconceitos e racismos.

A palavra preconceito (Brown, 1995), no sentido como a compreendemos hoje, uma antipatia injustificada em relação a algum grupo social, não existia, e muito menos o entendimento de que algumas pessoas eram mais preconceituosas do que outras. A noção de estereótipos é ainda mais recente, surgindo apenas no final do século XIX, embora na segunda década do século XX tenha conhecido um deslize de significado cujo resultado permitiu a assunção do sentido ao qual a atribuímos hoje em dia.

A naturalização das relações desiguais não é algo estranho às sociedades humanas, se considerarmos que desde a antiguidade, até os nossos dias, a escravidão e o domínio de uns povos sobre outros foram fenômenos recorrentes nos contatos entre os grupos humanos. As relações assentadas em critérios assimétricos eram vistas como absolutamente naturais até o início do século XX, quando se impôs uma certa sensibilidade em relação aos problemas das diferenças entre os indivíduos e os grupos humanos. Dominar, colonizar e escravizar apenas de algumas décadas para cá passa a ser concebida como práticas que devem ser tratadas como abomináveis, injustas e pouco éticas, sendo mais comum, na longa trajetória da humanidade, considerar que alguns grupos tinham o direito, e em algumas versões, até mesmo o dever, de conquistar as terras pouco civilizadas e impor suas visões de mundo aos povos dominados.

Esta seção do capítulo é dedicada a apresentar, de forma necessariamente breve e esquemática, a evolução histórica de alguns das principais crenças estereotipadas ainda hoje vigentes. Para tal, o argumento será desenvolvido com base em um modelo, encontrado na figura 3, no qual estão incluídas as etapas clássicas da periodização histórica, sem descuidar dos desenvolvimentos dos estereótipos a partir do século XX.

história dos estereótipos e preconceitos
Figura 3: desenvolvimento dos estereótipos e preconceitos, da Antiguidade ao século XX

Discutiremos inicialmente os estereótipos nas sociedades tradicionais e na antiguidade, prosseguiremos com as formulações presentes no período medieval até chegarmos à idade moderna. Como bem deve suspeitar o leitor, os argumentos apresentados são essencialmente especulativos e construídos à luz dos conhecimentos disponíveis na atualidade a respeito de como teriam sido as relações entre diferentes grupos humanos nos distintos períodos da história humana.

 Importa assinalar os elementos decisivos na construção das teorias psicossociais que balizam a nossa narrativa, pois nos referiremos à três modalidades de teorias, as assentadas sobre as diferenças individuais, elaboradas sobretudo a partir de argumentos centrados na ideia de descendência, as teorias cuja ênfase recai nos elementos contextuais, particularmente aos associados com o impacto do clima e da geografia nas condutas humanas, assim como enfatizaremos as teorias conflitualistas centradas nas análises das diferenças de poder e de status entre os grupos.

Segundo a interpretação de Bethencourt (2020), a construção dos relatos sobre o outro exige a atribuição sistemática de significados e o desenvolvimento de interpretações por parte dos percebedores a respeito de uma série de pistas e indicadores visuais, como também dependem de teorias, elaboradas a partir do senso comum, nas quais são aludidos fatores como os efeitos dos diferentes tipos de ambiente, as características comuns herdadas pelos membros de um grupo e a influência das concepções religiosas nas condutas dos indivíduos. No caso dos estereótipos, as pistas visuais se associam sobretudo à aparência física, destacando-se elementos inerentes às características fenotípicas (cor da pele, anatomia dos olhos, lábios e narinas, tipo de cabelo, barbas e pilosidades), bem como fatores estritamente associados aos vestuários (roupas, enfeites e acessórios). Estas pistas tendem a ser utilizadas para a elaboração de teorias e articulação entre os elementos perceptuais e as teorias ajudam o agente a elaborar explicações e justificar as suas condutas em relação aos outros e a si mesmo.

Sociedades tradicionais

Em geral, os grupos étnicos atribuem a si um nome, cujo significado pode ser traduzido como humano. Os egípcios antigos, por exemplo, denominavam a si mesmos rame, os homens, considerando os demais povos uma massa amorfa. Nestes termos, os outros povos não seriam tão humanos quanto os que assim se autonomeiam, sendo plausível supor um claro distanciamento entre o próprio grupo, os autóctones, e o os outros, os estrangeiros. As interpretações sobre este estranhamento em relação ao diferente estariam na base das atitudes negativas em relação aos estrangeiros, bem como explicariam as tensões e desconfianças surgidas nas circunstâncias nas quais as interações entre os grupos se tornam imperativas.

É cabível especular o quanto estilos de vida diferentes proporcionam percepções negativas relativas aos grupos que acolhem concepções de mundo distintas. Com o surgimento da agricultura, e o potencial de mudança representado por esta transição, torna-se possível imaginar o impacto exercido pela adoção de um estilo de vida sedentário e os efeitos desta decisão na percepção dos residentes destes primeiros aldeamentos agrícolas sobre os grupos nômades que permaneciam apegados aos modelos tradicionais de sobrevivência, centrado nas atividades de coleta e de caça.

Trabalhos desenvolvidos na primeira metade do século XX pelo botânico russo Nokolai Vavilov (1887-1943) permitiram mapear como os humanos domesticaram as plantas. É interessante notar, conforme apresentado por Jones (2019) numa revisão recente, que este movimento ocorreu de forma praticamente concomitante nos vários espaços alcançados pela espécie humana na sua longa difusão através dos continentes. A figura 4 sinaliza os prováveis locais onde surgem as primeiras culturas agrícolas, espalhando-se por territórios tão distantes entre si como as Américas Central e do Norte (1), do Sul, o Pacífico andino (2) e mais ao sul (3), o Atlântico (4), a África (5), a Europa mediterrânea (6), o Oriente Médio (7), a Península indiana na Ásia (8), a Ásia Central (9) a China e Coreia (10) e as ilhas de Java e a Malásia (11), no Pacífico Sul.

Figura 4: locais prováveis de surgimento das culturas agrícolas

O que determinou, após o final da última era glacial, o estabelecimento destes assentamentos agrícolas na trajetória da espécie humana? A resposta para esta questão poderia ser resumida em uma palavra, calorias (Jones, 2019). Quais foram as ações humanas passíveis de serem interpretadas como compatíveis com o fomento do consumo calórico? Quais os reflexos destes movimentos numa natureza praticamente virgem? Pelo jeito, parece que não começamos bem, pois um dos primeiros indicadores da ocupação humana sedentária se associou com uma enorme devastação em áreas até então intocadas. A utilização do fogo e as modificações topográficas e orográficas introduzidas por agentes humanos transformaram por completo a superfície de algumas regiões do planeta. A irrigação obrigou a mudança do percurso de alguns rios ou a criação de cursos de água artificiais. Um segundo aspecto a ser enfatizado se refere à ação humana de destituir as espécies nativas da liberdade genética, uma expressão da área de estudos da arqueologia vegetal que se refere à impossibilidade de algumas espécies continuarem com o seu fluxo de descendência de forma espontânea, sem a intervenção humana. Entre os vegetais, este efeito foi marcante no caso dos grãos, em especial o trigo, o arroz e o milho. No caso dos animais, a condição dos bovinos é particularmente emblemática, pois dificilmente imaginaríamos, nos dias de hoje, uma manada de bois e vacas a vagar em estado selvagem por um território intocado. Estas transformações, tanto na paisagem, quanto no bioma vegetal e animal, não se impuseram sem consequências, pois foram acompanhadas por uma série de doenças e parasitas que passaram a afetar aos vegetais, animais e humanos (Jones, 2019). Uma terceira consequência da expansão humana e das modificações produzidas pela nossa espécie se relacionou diretamente com a mudança da composição da atmosfera, sendo particularmente marcante a mudança nos níveis de dióxido de carbono e metano, cujos efeitos, desse então, vêm impactando todo o ecossistema.

A estas transformações na crosta terrestre, na biosfera e na atmosfera se agregaram mudanças de porte nas organizações sociais, que se tornaram bem mais complexas. Registros dos primeiros assentamentos agrícolas retroagem há cerca de 9000 anos, tendo sido documentados em locais usualmente situados em vales próximos às bacias hidrográficas, a exemplo de Çatal Hüyük, na Turquia, de Jarno, próximo ao rio Tigre, na Mesopotâmia, e de Yangshao, nas imediações do Rio Amarelo, na China. Estes primeiros assentamentos humanos estão na origem das primeiras vilas e cidades, cuja história remonta há cerca de 8.000 anos. Pouco a pouco estes conglomerados alcançam estágios de maior complexidade até o surgimento de um tipo de organização social centrada claramente numa dimensão que podemos qualificar como hierárquica, tal como se identifica nos grandes impérios agrícolas surgidos há cerca de 6000 anos e nas organizações sociais despóticas posteriores.

A previsibilidade dos dias numa aldeia agrícola primitiva em nada se assemelhava com incertezas da atividade forrageira exigida para os grupos nômades, sendo possível supor, desde logo, que entre sedentários e nômades tenha se criado uma série de interpretações acerca da vida e das características de uns e outros e, mais do que isso, que estas visões estereotipadas tenham sido marcantes nas prováveis relações de troca estabelecidas entre estes grupos. Podemos supor, adicionalmente, que alguns destes efeitos tenham sido transmitidos por gerações. A representação dos nômades, como contraponto aos civilizados, chegou aos autores da antiguidade, a se considerar a maneira pela qual os gregos caracterizaram as tribos nômades, tratando-as como gente que não trabalha, não semeia, não come pão, nem mesmo erige estátuas e templos para honrar aos deuses (Isaac, 2013).

Mundo antigo

Ainda que o passado humano se estenda por milhares de anos, a história humana é muito curta e se sustenta nos registros escritos. As premissas da psicologia histórica sugerem que as mentalidades são determinadas pela ação conjunta da história e da geografia, uma vez que tanto a época, quanto o lugar, moldam a nossa percepção de mundo e a maneira pela qual interpretamos a realidade (Parot, 2000; Penna, 1981). Alguns esquemas classificatórios podem nos ajudar nesta tarefa, particularmente se buscarmos auxílio em estudos acerca da evolução das organizações sociais, ainda que saibamos o quanto a caracterização das etapas da evolução da civilização humana se defronta com uma dificuldade decisiva, pois o ritmo de desenvolvimento das civilizações pulsa de forma independe uma das outras. Um mesmo continente pode estar ocupado por civilizações com níveis de organização social diferentes; se algumas destas civilizações podem ter mantido contatos, outras podem estar absolutamente isoladas, mesmo ocupando territórios não muito distantes. Em que pese os riscos, a adotar um esquema geral nos parece inevitável, donde lançarmos mão da classificação encontrada em Christian (2004), cujas diretrizes gerais estão expostas na figura 5. As discussões encetadas na seção anterior, iniciando com a pré-história até alcançar as primeiras cidades e vilas, se referem aos tipos de organização social classificados entre os modelos 1 a 4.

Figura 5: escalas da organização social humana (simplificação baseada no modelo encontrado em Christian (2004)

Aquelas às quais iremos nos referir na sequência podem ser incluídos nos tipos 5 e 6, cujos registros históricos indicam que teriam surgido há não mais do que cinco mil anos. A elaboração dos documentos que alcançaram os nossos dias, e ainda hoje são utilizados no esforço de desbravar a história, dependia do trabalho especializado de escribas, uma categoria que certamente deve ter ocupado uma posição privilegiada na estrutura burocrática das primeiras sociedades organizadas. Podemos supor que o trabalho destes primeiros registradores tenha sido relativamente diversificado. Alguns devem ter se dedicado à perenização dos mitos de legitimação e a confecção de relatos laudatórios dedicados à celebração das vitórias militares, enquanto outros por certo se especializaram no registro daquilo que se supõe decisivo para o estabelecimento de qualquer ordem governamental e administrativa, em particular o registro documental de atos que preservassem a incolumidade das fronteiras e permitissem a obtenção e o ordenamento dos recursos necessários para a organização das defesas contra as incursões de inimigos.

A passagem dos assentamentos e aldeias agrícolas a para uma nova ordem social permitiu a criação das primeiras civilizações. Civilização nos parece um termo um tanto dúbio, pois estas formas societais foram marcadas por conquistas e conquistadores, invasões e invasores. Nesta nova ordem, no mundo civilizado recém inaugurado, a presença do outro, o estrangeiro, nos limites ou mesmo a uma certa distância, não passava desapercebida e os cuidados para mantê-lo apartado podem ser considerados fundamentais na manutenção da estabilidade política destas primeiras civilizações humanas.

As cidades, surgidas há cerca de 5500 anos, numa região compreendida entre os rios Tigre e Eufrates, dependiam inteiramente da produção de excedentes alimentares. A introdução do arado e de outros implementos agrícolas permitiu o aumento da produção. Se as necessidades alimentares passaram a ser atendidas com o trabalho de relativamente poucos agricultores, um número razoável de habitantes deve ter passado a desempenhar outras funções, o que supõe uma diferenciação social bem mais especializada que as encontradas nas formas de organização anteriores. Erigidas preferencialmente em vales de bacias hidrográficas, as primeiras cidades estavam situadas em regiões com uma certa instabilidade climática. A alternância entre as inundações e as épocas de seca suscitava períodos de grande escassez alimentar, o que tornava estes sítios alvos de visitantes indesejáveis. Os invasores, genericamente denominados bárbaros, saqueavam, destruíam e vilipendiavam os (não tão) pacíficos moradores destas cidades, donde o surgimento das primeiras paliçadas e muralhas, construídas com a dupla finalidade de proteger os ali estabelecidos e manter à distância tudo aquilo que se supunha indesejável.

A elaboração de estratégias de defesa contra as invasões bárbaras supõe um certo acordo político e, como sabemos, a política envolve fundamentalmente relações de poder e de desigualdade. Estabelece-se assim a distinção entre uma incipiente aristocracia guerreira e, do outro, todos os não aquinhoados pelos deuses com as habilidades de esfolar o inimigo, brandir uma espada, empunhar um arco e desferir certeiras flechadas. Aos últimos restava o trabalho no campo ou, no melhor dos cenários, dominar as atividades laborais que começaram a se fazer necessárias, a exemplo da elaboração de potes e vasos de barro ou cerâmica e o trabalho com pedras, tinturas, couros, madeiras, conchas e outras materiais presenteados pela natureza. O trabalho artesanal se torna mais sofisticado e uma nova classe de artesãos passa a ocupar uma posição intermediária entre os que passavam o dia a lutar, irrigando a terra com o suor do próprio rosto, e uma elite guerreira, dedicada aos labores de defesa, saques e conquistas. Se o estoque de proteínas era fundamental, o domínio político dependia do controle do excedente agrícola, o que demandava uma série de cuidados e restrições. Os alimentos deveriam ser semeados e vigiados; a colheita realizada no momento oportuno; a produção, removida dos campos e armazenada em silos, mantidos sob constante vigilância para evitar as subtrações indevidas; o estoque, cuidadosamente distribuído pela população, evitando injustiças que por certo criariam fissuras na organização social. Estes trabalhos demandavam o esforço organizador de uma burocracia, a cada dia mais especializada. A contabilização dos excedentes alimentares foi facilitada pela criação dos números e com o desenvolvimento da escrita, cada vez mais fonética e menos dependente de recursos imagéticos. O período exato da semeadura dos campos se encontrava inteiramente subordinado ao fluxo do tempo, das estações do ano, dos ventos e do incessante movimento de cheia e vazante dos rios, cuja previsão requeria o desenvolvimento de conhecimentos cada vez especializados. Trabalhar o conhecimento exige dedicação e horas de estudo e reflexão e os primeiros a se dedicarem a tais atividades já não mais precisavam se preocupar em labutar de sol a sol, nem com os labores de semear e colher o grão de cada dia, sujar as mãos nas matérias primas da produção artesanal e, muito menos, empunhar a espada nas atividades de defesa. Quem eram estes pensadores, senão os descendentes dos demiurgos anteriormente referidos?

Ambientes, tipos humanos e hierarquias

Em consonância com a nossa definição inicial, a ativação de um estereótipo envolve dois processos, a desindividualização e a posterior formulação de teorias implícitas. Este duplo movimento, por sua vez, atende a dois objetivos fundamentais, o de facilitar o processamento cognitivo ao se transformar o fluxo da informação perceptual em entidades discretas, as classes ou categorias, e a formulação de discursos de legitimação e justificação, mediante a utilização de teorias implícitas.

A partir do momento em que os grupos se diferenciam uns dos outros e adotam nomes para aludirem a si mesmos e para fazerem referências aos outros enquanto totalidades que transcendem aos indivíduos, entramos no território da desindividualização. Trata-se de uma operação cognitiva básica que independe da formulação de silogismos. O processo de aplicação de teorias implícitas, ao contrário, envolve a formulação de arrazoados relativamente longos, que culminam em conclusões fundamentadas em explicações a respeito da realidade física e social e das relações entre estes dois domínios. Postulamos que as teorias implícitas tenham desempenhado uma função primordial no surgimento e na estabilização das primeiras civilizações, pois ofereceram o suporte para legitimar a diferenciação social e justificar práticas como a dominação, a escravização, sobretudo, mas não apenas, dos estrangeiros e as conquistas territoriais.

De acordo com Isaac (2013), os estereótipos a respeito dos habitantes das cidades e regiões do mundo antigo se organizaram a partir de um conjunto de teorias, elaboradas por filósofos, geógrafos, historiadores, poetas e cronistas, e rapidamente acolhidas e difundidas pelo senso comum. O impacto destas primeiras teorias sobre o mundo físico e social ideias não se restringiu, no entanto, ao mundo antigo; muitas destas crenças ainda permanecem vivas nas nossas estruturas de pensamento. As versões originais destas teorias, formuladas no século V antes da nossa era, atravessaram a antiguidade romana, todo o período medieval, se robusteceram no Iluminismo e na Renascença até, finalmente, ganharem roupagem científica nos séculos XIX e XX. Quais foram estas ideias, ou melhor, quais as versões iniciais destas teorias acolhidas pelo senso comum que transformadas pela passagem do tempo têm sido utilizadas de forma explícita ou implícita para a formulação dos estereótipos étnicos e locais?

a) a crença no determinismo ambiental, cuja formulação sistemática ocorreu em meados do século V antes da nossa era. Sustentava-se na suposição de que as características particulares de um grupo de pessoas ou de uma coletividade eram inteiramente determinadas pela geografia e, consequentemente, pelo clima. Os antigos acreditavam que os europeus, sujeitos a um clima menos convidativo, difeririam dos asiáticos, que por viverem em climas mais amenos ostentavam características pessoais e coletivas muito distintas. Conceitos como os de vontade, desejo, intencionalidade ou as características peculiares das pessoas não eram importantes na elaboração da teoria, vez que os atributos idiossincráticos das pessoas que viviam em uma determinada região seriam inteiramente determinadas pelo clima. O ambiente se responsabilizaria por definir as virtudes humanas e a partir delas seria possível estabelecer a diferenciação entre os povos de qualidade superior e aqueles que inevitavelmente deveriam se inclinar sob o peso dos melhores. O caráter hierarquizador desta teoria implícita serviu como arcabouço intelectual para justificar a expansão geográfica e o domínio sobre outros territórios;

b) a crença na hereditariedade dos caracteres adquiridos. A concepção de que os bons frutos são gerados por uma boa semente é contemporânea e correlata ao princípio do determinismo ambiental. Esta crença se sustenta no entendimento de que, ao definirem as características de uma coletividade, a geografia e o clima determinam que as virtudes e vícios dos povos sejam transmitidos de geração a geração. Encontramos, neste caso, uma formulação primitiva do essencialismo biológico, ainda que no lugar dos genes sejam albergadas noções como as de semente ou germe. Esta teoria serviu de contraponto ao ambientalismo extremado da tese exposta no item anterior e acena para um lugar de destaque ocupado pelas características herdadas pelos indivíduos, o que supõe uma preocupação rudimentar com as diferenças de caráter entre os seres humanos;

c) a crença no determinismo social, sendo particularmente significativa a suposição de que o caráter de um povo reflete inteiramente as características do governo o qual se encontra sujeito. Um governante fraco deveria ser responsabilizado pela fraqueza da sociedade por ele governada; um regime político deteriorado terminaria por fragilizar toda a sociedade. Esta crença respaldou não apenas o imperialismo militar, ao fundamentar a tese de que um regente enfraquecido não será defendido vigorosamente pelos súditos, como também fortaleceu os argumentos hierarquizadores, ao tornar absolutamente naturalizada e insuperável a diferenciação entre aqueles a quem compete as tarefas de governo, e os demais, aos quais restariam apenas os deveres da obediência;

d) a crença na interação entre o ambiente e as características pessoais herdadas. Esta crença também ofereceu um forte respaldo para elaboração de proposições essencialistas, ao sugerir que o efeito contínuo do ambiente físico e social, aliados aos fatores transmitidos de geração a geração, imporiam uma série de características permanentes e estáveis às futuras gerações. Se, afinal, uma civilização foi talhada em um ambiente que a tornou naturalmente melhor e cujas características foram aperfeiçoadas a cada geração, presume-se, portanto, que ela inevitavelmente se tornará ainda mais poderosa, habilitando-a a se impor sobre outros povos e civilizações. Esta tese oferece uma atitude legitimadora à conquista, à guerra e à dominação e suscitou uma nova ordem de preocupações: qual seria o destino que aguardava este povo dominador ao se estabelecer em um território não tão abençoado quanto o seu torrão natal, e ao se misturar com a raça inferior dos dominados?

e) a crença na autoctonia e na linhagem pura, na qual se assegurava que um povo que sempre viveu no território que lhe é próprio e foi capaz de manter a linhagem pura, ao não se misturar como outros, permanecerá superior aos povos que abandonaram o território natural e degeneraram o sangue aos misturá-lo com o dos povos inferiores. Desta tese derivam outras crenças, em particular a de que a mistura entre os povos inevitavelmente gerará uma descendência degenerada, como também favoreceu ao argumento da hierarquização, ao diferenciar um grupo de linhagem pura, superior, e os inferiores, de sangue misto ou conspurcado. O reflexo recente mais acentuado desta crença foram as ideologias do eugenismo e do branqueamento, que ganharam corpo no século XIX e popularidade no século XX;

f) a crença no poder explanatório da fisiognomia, ou seja, a confiança que passou a ser depositada numa disciplina ou saber dedicado à identificação das tendências pessoais, das propensões, do caráter e do destino de uma pessoa a partir da análise das características físicas observáveis. Estas teorias psicológicas rudimentares foram utilizadas na antiguidade para reforçar argumentos relativos às diferenças psicológicas e morais entre os povos. A teoria de que o ambiente desempenha um importante papel na manifestação das características físicas, psicológicas e morais permitiu a elaboração e a difusão de inferências sobre as pessoas, supondo-se que os estados mentais internos poderiam se expressar nos traços fisionômicos e na postura corporal. O acúmulo de conhecimento a respeito das características psicológicas de uma coletividade se torna um elemento estratégico na ação política, pois ao ser possível identificar os atributos diferenciadores dos distintos povos supostamente se tornaria mais fácil os contatos e a comunicação com os estrangeiros e, por suposto, a tarefa de submeter e civilizar os povos inferiores;

g) a crença de que mediante o estabelecimento de comparações com os animais podemos conhecer melhor os humanos. Esta crença se fundamentava nas supostas semelhanças físicas entre as características de algumas espécies de animais e os atributos de determinados agrupamentos humanos, assim como na suposição de que muitas coletividades humanas se organizam de uma maneira semelhante ao que pode ser observada na organização social de algumas espécies de animais. Ela também se nutre de fábulas e narrativas populares, nas quais as características morais e intelectuais associadas a determinadas espécies animais são utilizadas com a finalidade de ensinar lições de moral e apresentar exemplos de civilidade a serem adotados pelos humanos. Esta aproximação simbólica entre alguns grupos humanos e determinados animais ofereceu justificativas moral para a prática da escravidão, pois os grupos escravizados podiam ser desqualificados da sua humanidade ao serem considerados mais próximos ao reino animal do que à natureza humana. Esta crença permanece vive, em particular na expressão dos estereótipos sob a forma de raciocínio essencialista animalizador;

h) a crença de que os estrangeiros, em especial os imigrantes, não são dignos de confiança, seja por trazerem práticas e hábitos que conspurcam e minam o vigor de toda uma sociedade, seja por introduzirem valores e costumes contrários à concepção de mundo dos nativos. Esta crença possui relevância na atualidade em teorias que diferenciam a maneira pela qual os membros do endogrupo e do exogrupo se percebem e se tratam mutuamente nas sociedades contemporâneas.

Estas crenças, como todas as crenças, se organizam sob a forma de sistemas,. No presente caso podemos diferenciar três crenças básicas e cinco derivadas, tais como se apresentam no diagrama encontrado na figura 6. Nele pode ser observado o posicionamento das três crenças centrais, as duas contextualistas, tanto as que fazem referências ao ambiente físico, quanto as que aludem ao ambiente social, e uma tese individualista, na qual se postula a transmissão das características hereditárias. Destas crenças se derivam outras crenças, que constituem as explicações e os arrazoados que fundamentaram as teorias implícitas acolhidas por várias civilizações da antiguidade e, uma vez modificadas, transformadas, simplificadas ou aperfeiçoadas, se difundiram pelos vários continentes e épocas até chegarem praticamente intactas aos nossos dias.

Figura 6: crenças no mundo antigo

Os estereótipos na antiguidade

Identificadas as teorias implícitas a partir das quais as crenças estereotipadas se desenvolveram, passamos a analisar as formas particulares pelas quais os estereótipos se manifestaram nas relações concretas entre os povos da antiguidade. O período ao qual estamos no referindo se estende por um interregno de quase quatro mil anos e inclui um número substancial de civilizações, distribuídas em muitos rincões do planeta. Quase nada sabemos acerca de algumas destas civilizações e o pouco que podemos antecipar a respeito dos estereótipos cultivados entre elas se constitui em especulações escassamente documentadas.

Entre os historiadores parece ser consensual a tese de que as primeiras civilizações se originaram na região que se convencionou denominar Mesopotâmia. Sobre uma destas civilizações primeiras, a suméria, quase nada sabemos além do fato dos sumérios terem elaborado uma das primeiras modalidades de escrita, a cuneiforme. Talvez os legados mais significativos deixados pelos sumérios para os estudiosos dos estereótipos se refiram, em primeiro lugar, ao reconhecimento de que foram os responsáveis por cunhar a palavra álcool e, além disso, e bem mais importante, que deixaram para a posteridade, e para alegria de não poucos, as primeiras receitas de cerveja sobre as quais temos notícias (Roberts, & Westwad, 2013).

Reputação por reputação, também nos chegaram umas tantas informações sobre o esplendor da civilização babilônica, sendo muito usual, mesmo em círculos nos quais a educação formal não se destaca, o uso corrente da expressão o ouro da Babilônia, embora quase nada saibamos sobre estes deslumbrantes tesouros além daquilo que tentou nos contar Raul Seixas.

Ainda na Mesopotâmia, uma das primeiras civilizações a despontar está associada com a numinosa cidade de Ur, inseparável da saga do gigante Gilgamesh, um personagem frequentemente adotado pelos roteiristas de cinema, televisão e histórias em quadrinhos, além de muito apreciado pelos criadores e aficionados de videogames, a considerar a quantidade de vezes que o gigante guerreiro aparece em jogos eletrônicos, a exemplo da série Civilization, do clássico Final Fantasy, e dos menos conhecidos Tales of Phantasia e Devil May Cry 4, apenas para citar alguns poucos títulos.

Posteriormente, cerca de 2300 anos antes da nossa era, instaura-se a civilização acadiana, que para muitos historiadores representa não apenas a primeira estrutura política a ser referida no autêntico significado do termo como um Estado. Esta civilização se tornou particularmente importante na dimensão organizacional, pois suspeita-se que aí tenha se estabelecido os princípios da separação formal entre as autoridades religiosas e as seculares, entre o poder secular e o religioso. Se atualmente testemunhamos um crescimento acentuado da influência de agentes políticos religiosos nos parlamentos, no judiciário e no poder executivo de inúmeros estados modernos e a consequente assunção de um fundamentalismo religiosos sem disfarces ou retoques, podemos imaginar o quanto os antigos ainda podem nos ensinar e o quanto somos menos civilizados do que gostamos de nos imaginar.

Egípcios

Se pouco sabemos sobre a civilização suméria e outras civilizações antigas, em contrapartida, somos bem mais informados sobre os egípcios, quando nada pela indústria cultural e pela enorme fascinação exercida pelos faraós, por Elizabeth Taylor a interpretar Cleópatra com uma cobra bem fotogênica a deslizar pelo colo e, claro, pelas inúmeras múmias que de quando em vez retornam para causar calafrios nas salas de cinema. Acentue-se, no entanto, que o interesse pela civilização egípcia não é um fenômeno dos nossos dias, pois já despertara admiração entre estudiosos antigos. Nas palavras de Heródoto (485 antes da nossa era – 425 antes da nossa era), o famoso historiador grego, em um ponto os egípcios em nada diferiam dos outros povos, pois também denominavam bárbaros a todo e qualquer povo que não falasse a língua egípcia, ainda que o próprio Heródoto, como um bom grego, considerasse bárbaro a todo aquele que não compartilhasse a língua e a cultura grega. Se este era o caso, por outro lado, entre os gregos era corrente a interpretação de que os egípcios não se assemelhavam fisicamente a nenhum outro povo e nem adotavam quaisquer costumes estrangeiros, preservando a própria ancestralidade (Isaac, 2004).

O barbarismo dos egípcios, tal como interpretado pelos gregos, se expressava nas práticas cotidianas que adotavam, absolutamente estranhas a outros rincões, pois era dito que na terra do Nilo enquanto as mulheres se dedicavam ao comércio e urinavam em pé, os homens, indolentes, permaneciam sentados em casa, não se levantando nem mesmo para verter água. Como se não fosse o suficiente, acreditava-se que os egípcios se aliviavam fora de casa e se alimentavam no interior das residências, no mesmo espaço onde mantinham inúmeras criaturas de estimação, algo execrável em outras terras. O costume considerado mais estranho, à época, era a devoção mais do que religiosa aos bichos de estimação, acolhendo-se o costume de condenar à pena capital o incauto causador da morte, mesmo que acidental, de algum animal sagrado (Gruen, 2011).

No plano religioso, além da zoolatria, os egípcios também eram alvos de uma acusação que horrorizava muitos povos da antiguidade, ainda que os acusadores também adotassem o mesmo costume de oferecer vítimas humanas em sacrifício aos deuses. No caso egípcio, porém, a acusação era particularmente grave pois se as vítimas habituais eram os estrangeiros, imagine-se, pois, a hospitalidade com que se premiava o incauto visitante atrevido o suficiente para colocar os pés naquelas terras.

Em um terreno mais ameno, a História universal de Diodoro Sículo (90 a.n,e. -30 a.n.e.) relata um costume interessante dos egípcios, que pode estar na base dos estereótipos contemporâneos sobre uma categoria profissional frequentemente alvo de crenças estereotipadas. Ele se referia à interdição imperante nos tribunais egípcios que os abstinha de acolher relatos orais, pois todas as provas deveriam ser apresentadas por escrito, dado que um defensor dotado de eloquência e de destacada capacidade retórica poderia comover, e até mesmo levar às lágrimas, um magistrado experiente e beneficiar injustamente um acusado sobre o qual recaía claramente uma acusação verídica. Para minorar qualquer influência de uma boa retórica, o acusador deveria elaborar um documento escrito, expondo as queixas e acusações, o que e como ocorrera o evento e o tipo de dano ou injúria proporcionado pelo ato. Por sua parte, o defensor deveria recolher o documento apresentado pelo acusador, responder, também por escrito, a toda e qualquer acusação, indicando porque o seu cliente não poderia ser responsabilizado pelos atos de que era acusado ou, caso reconhecesse a falta, indicar os atenuantes que obsequiariam a aplicação de uma sentença mais leniente. Oferecia-se, posteriormente, a possibilidade da réplica para o acusador, da tréplica para o defensor, até a sentença ser finalmente lavrada pelos tribunais (Diodoro Sículo, 2001, parágrafos 75 a 79).

Africanos

Na antiguidade, os estereótipos sobre os africanos estavam fortemente fundamentados nas crenças sobre o determinismo ambiental. Ao discorrer sobre a qual povo caberia a primazia de ter habitado o planeta e do qual todos os outros derivariam, Diodoro Sículo acena com o argumento de que o povo que estivesse mais perto do sol por certo deveria receber esta distinção, pois a luz do sol ao aquecer o planeta e secar a terra impeliria o pronto florescer da vida. E qual povo estaria mais próximo ao sol senão os etíopes, cujo nome significa precisamente aquele que tem a face tostada pelo sol?

Os estereótipos sobre os africanos foram influenciados por um debate de considerável peso na antiguidade greco-romano acerca do simbolismo das cores e o quanto este simbolismo poderia ser associado às características físicas e psicológicas dos diferentes povos. Este simbolismo era discutido sobretudo em torno da dicotomia branco negro e se manifestava em um conjunto de oposições binarias, a exemplo das relações entre a luz e as trevas, o dia e a noite, a alva limpeza e a enodoada sujeira, a nítida clareza e a opaca escuridão ou o alvorecer da vida e o denegrir da morte. Alguns destes simbolismos ainda se encontram presentes no nosso linguajar cotidiano e têm sido combatidos por um movimento de oposição ao racismo que ainda se insinua na nossa linguagem cotidiana (Bagno, 1999; Labov, 2008; Oneill, & Massini-Cagliari, 2019).

 Este simbolismo não deve ser interpretado, no entanto, como um indicador da existência de intensos estereótipos negativos sobre os africanos. A se considerar as evidências apresentadas por muitos historiadores (Isaac, 2004; Snowden, 1999), os estereótipos sobre os africanos na antiguidade eram relativamente positivos ou, pelos menos, se mostravam bem menos negativos do que os atribuídos pelos gregos aos persas ou pelos romanos aos cartagineses. De guerreiros valorosos e justos, nos relatos homéricos, até uma representação equilibrada entre os satíricos romanos, a representação dos africanos na antiguidade em nada se confundia com a versão extremamente negativa que passa a vigorar nos últimos séculos.

Gregos

A civilização minoica, nome supostamente derivado do Rei Minos, de quem se diz ter sido o pai do Minotauro, floresceu na ilha de Creta, a maior das ilhas gregas, desenvolvendo-se durante centenas de anos até desaparecer por razões que ainda hoje intrigam os historiadores. Hábeis no cultivo das vinhas e da oliva, os produtos mais característicos do Mediterrâneo, e famosos pela produção artística e pelo artesanato, especialmente pelos vasos que marcaram época, foram considerados os responsáveis por introduzir os ideais civilizadores na Grécia continental.

Um dos primeiros registros da antiguidade clássica a chamar a atenção para a questão das diferenças entre as pessoas é a alegoria poética O trabalho e os dias, supostamente escrito por Hesíodo no século VIII antes da nossa era, cujo ponto de partida reside numa analogia entre a qualidade dos metais e cada uma das raças humanas (versos 109 a 201). Apresenta-se, já no alvorecer da história, um modelo de hierarquização das qualidades, com a raça de ouro a ocupar uma posição privilegiada em uma ordem superior, na qual se vivia uma eterna primavera e todos usufruíam do mel a gotejar incessantemente de frondosos arvoredos. Para que lavrar? Para que trabalhar, se os deuses suprem o necessário para a eterna felicidade? Este paraíso duraria pouco, pois os deuses gregos sempre se caracterizaram pela instabilidade emocional e, no meio de um entrevero entre Pandora e Prometeu, Zeus, impaciente, decidiu punir esta raça primeva, dizimando-a. Surge a raça dos homens de prata. Se os homens de ouro desfrutavam a eterna primavera, os de prata se encontravam sujeitos aos ciclos de frio e calor, o que os obrigava a construir abrigos nos quais poderiam se proteger das inclemências do clima. Se a raça de ouro vivia numa eterna juventude e a morte se aproximava apenas quando o doce embalo dos sonhos sinalizava o fim da vida, os de prata foram obrigados a esperar o fim da vida a magoar as mãos no embalo do arado e a sulcar os campos para dele retirar o alimento que já não mais brotava das árvores. Esta raça, dominada pelo orgulho tão caro aos gregos, deixa de prestar reverência aos deuses, sendo extinta por um outro ato discricionário divino, dando lugar a uma ainda menos consagrada, a raça dos homens de bronze. Bronze não é prata, muito menos ouro, o que a destituía da nobreza característica das raças superiores. Os homens de bronze se esmeravam nas lutas, com armas feitas do mesmo bronze que moldava o caráter com o qual eram distinguidos e, de tanto lutarem uns contra os outros, pereceram. Por fim, no ponto mais baixo da escala, Hesíodo se referiu à raça dos homens de ferro, entre os quais miseravelmente se incluiu, ao afirmar que preferia ter perecido antes ou vivido depois dessa raça infame, cuja vida se restringia a vaguear sem rumo em um mundo marcado pelas mentiras, enganos, maldades e vergonhas.

Para Vernant (1990), a obra de Hesíodo acena, na antiguidade clássica, para uma ordem na qual a hierarquia ocupa um papel decisivo, pois descender significa, antes de qualquer coisa, mergulhar na desordem e na decadência. Na obra As origens do pensamento grego o mesmo Vernant postula diferenças dignas de nota entre os sistemas de pensamento da civilização micênica, que ocupa o lugar deixado pela cultura minoica, e a civilização dos dórios. A realeza micênica representava uma aristocracia constituída por guerreiros orientados por demonstrações individuais de coragem e destemor, qualidades que se mostraram insuficientes para livrá-los das inúmeras invasões as quais estiveram sujeitos durante séculos. Ao analisar a mentalidade dos gregos, Vernant (2002) comparou a organização social micênica, contrastando com a organização social implementada a partir da ascensão dos dórios, uma civilização orientada por uma visão de mundo mais centrada nas ações e nas decisões coletivas, politicamente definidas nos acordos obtidos no espaço público da ágora e organizada militarmente a partir de uma estrutura de tropas que avançava ou se defendia sob formação cerrada, algo que a diferenciava dos atos intrépidos e corajosos, porém desembestados e inócuos, dos guerreiros micênicos.

Desde os tempos antigos as diferenças hierárquicas entre os indivíduos vinham sendo observadas, donde a origem da preocupação em diferenciar seres humanos em função das suas características particulares. Platão, por exemplo, estabeleceu a diferenciação entre três classes de pessoas, as nascidas para comandar, portanto regidas pelo cérebro, as que eram talhados para o campo de batalha, logo dominados pelas paixões, e os escravos, subordinados única e exclusivamente aos apelos do ventre, contentando-se apenas em comer e fornicar. Podemos supor que muitas destas tipologias pioneiras ganharam difusão ao longo dos séculos e não apenas tenham chegado aos nossos dias, como também refletiam um estado de espírito geral da sociedade ateniense de então a respeito dos fatores que determinavam as relações entre as cidades-estados.

Os estereótipos sobre os gregos se tornaram particularmente negativos com os romanos, os quais estabeleciam uma distinção fundamental entre a cultura grega clássica e as suas incomensuráveis contribuições intelectuais e os gregos da época em que viviam, cujos atributos pouco lisonjeiros serviam para reafirmar a tese de que qualquer sociedade, mesmo a mais bem qualificada, poderia se degradar com a passagem do tempo. Para ter uma vaga ideia dos elementos salientadas no que concerne às diferenças entre os costumes da elite romana e os das classes privilegiadas gregas, a ostentação de uma reluzente barba, uma prática quase obrigatória entre os gregos, era explicitamente rejeitada entre as classes superiores do Império Romano. Muitos romanos se insurgiram contra os costumes gregos e o uso da língua grega no dia a dia de Roma, algo a ser interpretado como uma atitude de afirmação da latinidade em relação à então decadente cultura helenística (Isaac, 2004).

Asiáticos

Em um mundo cujas fronteiras geográficas começaram a se tornar voláteis, o Tratado sobre o ar, água e os lugares, supostamente atribuída à pena de Heródoto, estabelece uma distinção essencialista entre Oriente e Ocidente, fundamentando-a em arrazoados ambientalistas. Aos asiáticos, ao viverem em climas mais suaves e prazerosos do que os europeus, faltariam coragem, tenacidade e energia. Os eflúvios do bom clima os tornariam menos propensos às atividades guerreiras e os condenariam a terem uma constituição física e de caráter bem mais frágil que a dos europeus, moldados sob climas mais carregados (Cairus, 2012).

As diferenças entre estas duas visões de mundo, Oriente e Ocidente, se refletem nas batalhas e escaramuças frequentes no século IV antes da nossa era entre os gregos e os persas. Discute-se, amiúde, a origem do sentimento de xenofobia, ainda que para alguns estudiosos nesta época a xenofobia representasse necessariamente a desqualificação dos inimigos (Gruen, 2011). No caso da civilização grega, a xenofobia se sustentava na distinção entre a civilização helenística, e os seus valores de liberdade, poder de decisão e democracia, em oposição aos regimes despóticos orientais, regidos pelas noções opostas de opressão, servidão e barbarismos. Teríamos de um lado, nós, os civilizados; no campo oposto, eles, os desclassificados, aqueles que fomentam e convivem com a tirania. Seria a representação na qual se postula que nós somos civilizados e eles tiranos a mais corriqueira nas relações entre os povos no alvorecer da história?

Fenícios

Nesta seção evitaremos a qualquer custo afirmar que os fenícios foram concebidos por Sabatino Moscati e fabricado pela Fiat (Quinn, 2018) e assumiremos que os estereótipos sobre os fenícios cultivados na antiguidade nos levam a acreditar que se tratava de um povo nascido a bordo de impressionantes embarcações tingidas de negro a singrar todos os mares do mundo conhecido. Capazes de fundar assentamentos onde se fizesse necessário e empreender inúmeras jornadas, comprando aqui, vendendo acolá, granjearam fama em todo o mundo conhecido. Comerciar significa barganhar e barganhar não está separado de levar vantagem, donde a aproximação milenar entre os labores do comércio e a desconfiança entre as partes. Os fenícios conviviam com esta dupla fama de serem navegadores exímios e comerciantes traiçoeiros raramente dispostos a arcar com algum prejuízo nas transações. Esta fama acabou por firmar um dos principais estereótipos sobre os fenícios na Antiguidade, o de serem avaros.

Um outro estereótipo, muito impopular na Antiguidade, mas também atribuído aos fenícios, se referia à prática religiosa de oferecer sacrifícios humanos, embora estes se defendessem assegurando que este ritual não lhes pertencia com exclusividade, sendo amiúde adotado em outras civilizações (Mazza, 1988).

Persas

Os persas, no século V antes da nossa era, eram conhecidos como exímios guerreiros. Nos campos de batalha, segundo Heródoto, os exércitos persas eram imbatíveis e se distinguiam por nele porfiarem os mais portentosos e corajosos soldados de toda a Ásia (Isaac, 2004). Algum tempo depois, no entanto, os persas, aos olhos dos gregos, não passavam de afeminados, covardes e desprezíveis. Afinal, como esta representação se transformou e, dois séculos depois, predominou a interpretação de que se tratava de um povo afeminado, degenerado e covarde? Na guerra, o doce sabor da vitória nunca se confunde com o fel da boca dos derrotados. Por mais que os historiadores da Antiguidade tenham procurado preservar a saga heroica de comandantes militares como Xerxes ou Ciro e dos seus poderosos exércitos, estas narrativas não conseguiram se sobrepor a uma outra, na qual os derrotados foram dilapidados em vida e tiveram as suas memórias destroçadas após as cinzas. As crenças coletivas passaram a festejar a vitória da Europa, da razão e da democracia sobre a tirania e a irracionalidade dos bárbaros asiáticos (Isaac, 2004). Os gregos representavam os ideais europeus e, uma vez derrotados os persas, a expansão da civilização europeia por outras terras seria uma mera questão de tempo. As crenças ambientalistas forneciam ímpeto a esse discurso, aceitando-se que o clima tornaria os europeus mais aptos para o combate e a dominação, enquanto os asiáticos, corruptos e amaciados pela riqueza, pela dissolução moral, fisicamente degenerados pelos governos despóticos e afeminados pela tepidez do clima, jamais poderiam se opor ao extraordinário destino que aguardava a civilização europeia.

A representação dos persas entre os romanos pouco difere da elaborada pelos gregos, cingindo-se a reproduzir as acusações tradicionalmente levantadas contra os inimigos de guerra. Traiçoeiros, truculentos, pérfidos, brutais, selvagens, dissolutos, impetuosos, insolentes, corruptíveis…. A lista de adjetivos é enorme; um a mais, um a menos, pouco bastaria para desqualificá-los o suficiente.

Cartagineses

Na Roma antiga, os cartagineses também foram objeto de uma estereotipia intensa. A reputação deste povo, oriundo dos fenícios, também os distinguia como arrojados marinheiros, hábeis em estabelecer assentamentos e empreender negócios. Os negociantes são frequentemente objeto de estereótipos e a associação entre os termos fenícios e negócios pode ter criado a reputação de que se tratava de um povo sem palavra, sempre voltando atrás naquilo previamente combinado, donde a expressão punica fides, popularizada pelos romanos para se referir a quem não honra a palavra empenhada.

Depois de três guerras contra os cartagineses, entre 264 e 146 antes da era moderna, naturalmente começaram a circular entre os romanos a crença de que todo os cartagineses, e não apenas os soldados regulares, eram particularmente cruéis, como também os eram os seus comandantes, que não vacilavam em ordenar aplastar o corpo dos inimigos capturados sob as enormes patas dos elefantes de campanha. A esta acusação se acrescentava a suposição de que em algumas circunstâncias adotavam o costume do canibalismo e a prática religiosa de imolar vítimas humanas, sacrificando-as aos deuses (Isaac, 2004).

Voltando à expressão punica fides que supostamente retrata os cartagineses, pode-se assinalar que ela contribuiu muito mais para moldar a identidade social dos romanos, utilizando as características negativas dos outros como contraponto a aquilo que consideravam positivo na própria identidade. Se os romanos se viam como respeitadores dos tratados, acusavam os cartagineses de não os levarem a sério quando as circunstâncias o exigiam; se os romanos se definiam como seres civilizados, consideravam os cartagineses traiçoeiros; se se percebiam como sinceros, aqueles eram enganadores, iníquos e soberbos. De onde vieram estes estereótipos? Uma interpretação possível se assenta no entendimento de que a destruição de Cartago, na terceira guerra púnica, foi absolutamente prescindível, pois o domínio do Mediterrâneo pelos romanos já se cristalizara. Como justificar o ato de dizimar uma civilização? Como enfrentar às admoestações dos estrangeiros de que uma civilização foi desnecessariamente destruída? Simplesmente mediante o vilipêndio infligido aos derrotados, a partir do desenvolvimento de argumentos acusatórios destinados a arrasar a reputação e a humanidade dos vencidos (Gruen, 2011).

Romanos

O estudo dos estereótipos sobre os romanos na antiguidade deve ser entendido como uma via de mão dupla, no qual se festeja a conquista e o ideal de um império de fronteiras intermináveis, alcançado às custas de conquistas e da subordinação de povos valorosos, mas com qualidades inferiores, afinal foram derrotados, e o temor de que a vida dos valentes romanos nestes locais de dissolução e de imoralidade poderia acarretar o enfraquecimento dos soldados do exército imperial e trazer a Roma, o centro do mundo, imigrantes que patrocinariam cultos estranhos, costumes dissolutos e hábitos nefastos.

Gregos, judeus, asiáticos e todos os povos considerados inferiores representavam uma ameaça à integridade do império e não poucos tribunos, retóricos e políticos se dedicaram a acentuar o quanto os atributos negativos dos estrangeiros eram perigosos, o que permitiu construir uma narrativa na qual se festejava a superioridade dos romanos e de Roma e os perigos da proximidade com os povos submetidos.

A Roma eterna, cujas fronteiras alcançavam os limites do desconhecido, sofria da própria grandeza, das conquistas e dos germes invisíveis importados nas bagagens dos soldados de volta dos campos de batalha e infestados no batalhão de submetidos trazidos sob grilhões. O grande temor dos romanos era o de que a grandeza do império poderia ser a razão da própria derrota, sendo imprescindível acender todos os sinais e ativar todos os alertas sobre os perigos que vêm de fora. O que corromperia mais do que usufruir sem limites as riquezas dos vencidos? Como manter a dignidade se o luxo poderia ser encontrado em todos os sítios? Como permanecer na retidão moral se um punhado de vícios estava ao alcance, na dobra de cada esquina? O que seria de Roma, a eterna Roma, se os seus valorosos cidadãos se deixassem arrastar pelos prazeres do mundo e mergulhassem na degenerescência imoral dos conquistados? Os estereótipos sobre os estrangeiros são decisivos na construção na imagem e na elaboração dos estereótipos acerca do próprio povo, pois se os romanos sabiam não ser tão numerosos quanto os hispanos, artísticos quanto os gregos, espertos quanto os fenícios ou fortes quanto os gauleses, não encontravam dificuldades em se reconhecer e em serem reconhecidos como o povo escolhido para se impor sobre todas as nações (Isaac, 2004).

Gauleses, germanos e bretões

A tentativa de dominar outros povos parece ser um terreno fértil para a criação e difusão de estereótipos, particularmente sobre aqueles que contrapõem uma intensa resistência a serem conquistados. Os estereótipos cultivados pelos romanos a respeito dos gauleses, contra os quais Júlio César lutou durante quase uma década, reforçam este entendimento. Eles eram retratados como altos, fortes e musculosos, o que explicaria a resistência às inúmeras investidas das forças romanas, mas ao mesmo tempo eram reputados como beberrões convictos, orgulhosos, dissimulados, nada confiáveis, irascíveis, pouco persistentes e absolutamente sujeitos às influências supersticiosas dos druidas e bardos. Estas características negativas justificavam por que jamais teriam conseguido se furtar a serem submetidos, mesmo sendo fortes e valorosos.

A relação dos romanos com os germanos, um conjunto de tribos que viviam de forma quase nômade, em harmonia com a natureza, forjados pelo gelo e pela neve e em condição de quase pobreza, tornou-se particularmente desarmoniosa após a conquista da Gália e a aproximação dos romanos com os territórios situados além das margens do rio Reno. Os constantes ataques e as incursões ferozes de algumas tribos germanas contribuíram para a formação de estereótipos que os caracterizavam como gente pouco confiável e inimigos sorrateiros.

Sêneca, o poeta, estabeleceu uma analogia entre os germanos e os animais, sugerindo que a vida livre e selvagem característica dos germanos os aproximariam muito mais de bichos como lobos e leões do que dos humanos, entes bem mais fáceis de serem submetidos e governados (Isaac, 2004). Após discorrer genericamente sobre os germanos, valorizando-os pelos ideais de pureza, simplicidade, por viver a vida em comunhão com a natureza e o respeito às mulheres e à prole, o historiador Cornélio Tácito (1952) descreveu as particularidades de algumas tribos da Germânia. Aos catos, acusou de adotarem o costume de deixarem crescer o cabelo e a barba até terem abatido a um inimigo no campo de batalha, donde a origem da expressão popular barba, cabelo e bigode. Sobre os cheruscos, asseverou que se faziam notar pela covardia e estultice, atributos que os tornavam diferentes dos suevos, que eram apenas sujos e preguiçosos. Muitos cuidados deveriam ser tomados em um fortuito encontro com os fenos, um bando de salteadores, selvagens e miseráveis. Em relação aos helúsios e oxiômes, mesmo considerando o relato um tanto lendário, não deixou de acenar quão estranho seria se defrontar com estes estranhos seres, com cabeça e rosto humanos e membros de feras. Importante assinalar, no entanto, que os estudiosos da obra de Tácito aludem que os argumentos a respeito dos germanos se referiam muito mais à fantasia dos romanos do que as características próprias dos povos da Germânia, no que não diferem muito do uso que até nos nossos dias tem sido feito das representações estereotipadas.

Como não poderia deixar de ser, por conta da expansão do Império Romano, os habitantes da Bretanha também foram objeto de estereótipos, a se considerar a advertência de Cícero a Ático para não adquirir escravos na Bretanha, pois estes seriam tão estúpidos, incapazes e desprovidos de qualquer possibilidade de aprender que não se prestariam a fazer parte de um lar civilizado (Biesanz & Biesanz, 1972).

Judeus

Os judeus também foram objeto de estereótipos cultivados pelos romanos, particularmente na época do cerco a Jerusalém pelas tropas romanas, no ano 70, ainda que estes estereótipos não correspondessem à representação posteriormente dominante. A interpretação predominante era a de que a percepção dos romanos acerca dos judeus não era nem a de fobia, nem a de acolhimento, mas a de uma relativa indiferença, pois se tratava de um povo até interessante, embora nem tanto quanto os egípcios ou os fenícios. Um interesse maior pelos judeus se tornou manifesto apenas com a difusão e a popularização do cristianismo, pois os judeus passaram a ser vistos como um dos poucos povos que se furtaram à onda da cristianização e preservaram religião e os costumes autóctones (Bohak, 1997).

O determinante demográfico pode ser considerado um elemento importante na elaboração dos estereótipos dos romanos sobre os judeus, pois ao contrário de outros grupos nacionais e étnicos, cujo quantitativo não era digno de nota, os judeus representavam uma comunidade numericamente importante entre os estrangeiros residentes na cidade de Roma (Isaac, 2004). Ao chamar a atenção pelo tamanho da comunidade, pelo envio corriqueiro de contribuições financeiras para o Templo de Salomão, em Jerusalém, pela ausência sistemática de contato com outros grupos, pela natureza relativamente diferenciada das práticas alimentares e pelo exotismo dos ritos religiosos, a exemplo de guardar o Sabbath e de circuncidar os filhos, desenvolveu-se o estereótipo de que se tratava de um povo antissocial, que se afastara dos deuses e eram marcados por uma inclinação toda própria para a luxúria. Os seus ritos eram vistos como desqualificados e as restrições alimentares objeto de zombarias, tal como se retrata nas obras de Cornélio Tácito e de Sêneca, nas quais eram reputados como perniciosos, a se considerar as palavras colocadas na boca do poeta por Santo Agostinho (Gruen, 2011).

Bárbaros e vândalos

Se o mais comum na elaboração dos estereótipos sobre os povos da Antiguidade era vincular determinadas características psicológicas com os nomes dos grupos sociais aos quais aquelas eram associadas, dois casos merecem destaque particular, o dos bárbaros e o dos vândalos. O conceito de vandalismo permanece até hoje associado às noções de crueldade e destruição, ainda que na origem se referia apenas aos vândalos, um povo que viveu no norte da África e que com uma certa frequência se dedicava a fazer incursões e ataques a algumas cidades do mediterrâneo, sendo particularmente conhecido o cerco a Hippo, onde vivia Agostinho, o santo.

O termo bárbaro possui uma conotação diferente, pois se com os vândalos encontramos uma situação na qual um substantivo evolui até se transformar em adjetivo, o termo bárbaro, ainda que tenha uma história prévia, foi popularizado pelos gregos para se referir ao balbucio incompreensível dos estrangeiros, que não diferia do beabá dos infantes, embora tenha mudado de concepção com a passagem do tempo, cristalizando-se, em definitivo, na antiguidade clássica, associando-se aos povos não subordinados à civilização imposta pela pax romana, em particular, as tribos germânicas que frequentemente invadiam e conquistavam porções do Império Romano.

Na Índia o termo mleccha era adotado para se referir aos sons desagradáveis emitidos por todos aqueles que não dominam o sânscrito. De acordo com Thapar (1971), tratava-se de uma situação curiosa, pois a civilização ao qual o termo bárbaro era aplicado poderia ser considerada mais avançada que a dos nômades invasores, o que proporcionaria uma condição na qual um grupo social que vivia em um ambiente urbano era assinalado como inferior por um grupo que se encontrava em condição de nomadismo. Com o avançar do tempo, e estabelecido o domínio territorial e político pelos arianos, o termo assumiu uma conotação mais ampla, passando a ser utilizado tanto para aludir a grupos linguísticos cuja linguagem era incompreensível, como também para se referir aos povos que viviam em florestas ou em regiões remotas, a exemplo dos habitantes do Himalaia. A relação das estranhas raças que viviam ao largo da civilização foi recenseada pelo geografo grego Megástenes, que viajou pela Índia no século IV antes da nossa era. Além dos pigmeus, já conhecidos dos gregos, por conta da obra de Homero, Megástenes se referiu a outros povos fabulosos, como um que tinha os pés com oito dedos virados para trás, a um povo da montanha cujas vestes eram feitas com animais e que tinham a cabeça de cachorro em lugar da humana, uma raça de povos nômades que no lugar das narinas apresentam apenas uns orifícios e falavam sibilando como as cobras e um povo que vivia nos confins das montanhas, não era dotado da cavidade oral e se alimentava apenas dos odores das plantas e raízes que conseguiam aspirar (McCrindle, 2008). O termo bárbaro, com a passagem do tempo, amplia os alvos de referência, passando a ser também utilizado para aludir, no contexto do sistema de casta, a toda e qualquer pessoa associada às categorias consideradas impuras, assim como para se referir aos invasores estrangeiros, particularmente aos hunos e, mais adiante, aos turcos. Os indianos, considerados pagãos pelos religiosos turcos muçulmanos, por sua vez, foram estereotipadamente representados como feios, escuros e servis (Armstrong, 1996)

Conclusões sobre os estereótipos na antiguidade

Para sintetizar algumas destas crenças estereotipadas e facilitar o acompanhamento do até aqui assinalado incluímos uma representação gráfica na qual podem ser visualizadas as relações entre os entes sociais objeto de julgamento estereotipado e as principais teorias implícitas aplicáveis a estes grupos durante a antiguidade.

Figura 7: grafos com as relações entre grupos e estereótipos na antiguidade

Os fundamentos a partir dos quais as teorias foram elaboradas sugerem o quanto elementos inerentes ao ambiente, particularmente as diferenças entre o Ocidente e o Oriente e entre a Europa e a Ásia, ocuparam um papel destacado na elaboração das teorias implícitas. Além deste elemento contextual, também assinalamos o papel decisivo desempenhado pelas teorias implicitamente acolhidas a respeito das características dos indivíduos e de como elas foram adotadas para estabelecer diferenciações no interior de uma mesma sociedade. Estas características foram interpretadas como atributos transmitidos e herdados pelas gerações posteriores e contribuíram para a formulação de teorias implícitas ainda mais especializadas a respeito das características particulares dos vários povos. Assinalamos, ademais, a importância das teses hierarquizadoras e como elas levaram ao entendimento de que tanto os indivíduos quanto os povos poderiam ser posicionados ao longo de uma escala na qual se estabelece a diferenciação os melhores, nascidos para dominar, e outros, sujeitos a um destino funesto que lhes reservara apenas o direito a ocupar os sítios inferiores.

Mundo medieval

Denomina-se medieval a um período que se estende por quase mil anos, cujo ponto de partida foi a queda do Império Romano, no ano 47. Iniciaremos a discussão sobre os estereótipos neste período retomando o tema dos bárbaros, pois este conceito, como vimos, ocupou uma posição central no imaginário dos povos da antiguidade, sobretudo para diferenciar os habitantes de um ideal mundo civilizado em contraposição aos povos que viviam fora dos limites da sociedade helenista e, posteriormente, do mundo abarcado pelo Império Romano.

Jones (1971), numa monografia dedicada ao estudo da imagem dos bárbaros na Europa medieval, indica que o sentido habitual atribuído até então ao termo bárbaro se tornou insustentável, uma vez soçobrado o poder político do Império Romano entre os séculos V e VII. A manutenção desta classificação imporia que a Europa como um todo, a partir de então dominada por povos como os germanos, os ostrogodos, os visigodos, os vândalos e os francos, tivesse de ser considerada bárbara. Isto, claro, tornaria o termo sem sentido, pois a persistência do uso tradicional obrigaria tais povos a aplicarem o termo bárbaro em referência a si mesmos, o que seria um contrassenso.

Com a crescente conversão dos reis e da população da Europa ao cristianismo e a forte influência exercida pelas instituições e práticas religiosas nos costumes e na sociedade, o termo bárbaro logo conhece um deslize no significado e passa a se referir sobretudo aos pagãos. Com isso, perde o caráter cultural com o qual estava investido na antiguidade clássica e ganha uma forte conotação religiosa, passando a ser utilizado para fazer alusão os povos não subsumidos pela fé cristã. Esta nova concepção, no entanto, não impediu a preservação das antigas associações semânticas, imputando aos bárbaros atributos psicológicos extremamente negativos, a exemplo das noções de brutalidade, ferocidade e traição. A partir de então o termo passa a aludir principalmente aos eslavos, aos vikings e aos sarracenos, ou seja, aqueles povos ainda situados fora da crescente zona de influência do cristianismo.

Segundo o mesmo Jones, no período tardio da Idade Média o termo conheceu mais um deslize de significado, passando a ser aplicado aos infiéis muçulmanos, numa acepção por certo confusa, pois poderia tanto se referir aos povos berberes habitantes do norte da África, quanto aos turcos, cuja imagem se tornara particularmente negativa no final da Idade Média devido aos relatos de mercadores gregos e italianos que acompanharam in loco o cerco e a tomada de Constantinopla.

Qual seja o significado assumido, o principal contexto no qual termo continuou a ser adotado não diferia de forma significativa do encontrado no mundo antigo, referindo-se ao conflito de longa duração entre os que se viam como civilizados e aqueles que eram percebidos como alheios ao alcance da civilização, a exemplo das tribos germânicas, nos séculos VI e VII, dos mongóis, nos séculos XIII e XIV, e dos infiéis otomanos, durante o período das cruzadas.

Conforme assinala Bethencourt (2020), na época das cruzadas, um período no qual as invasões e as execuções dos infiéis se tornaram motivo de honra e orgulho, os estereótipos visuais eram amiúde adotados para, resguardada uma certa distância física, identificar os inimigos, em especial aqueles que representavam uma ameaça existencial imediata. Um encontro fortuito com uma expedição viking, entre os anos 800 e 1050, não deveria ser uma experiência tranquila, dada a descrição deste povo como feroz e obstinado por espoliar os bens dos incautos que se deixavam capturar. Os estereótipos, assim entendidos, poderiam ser interpretados como mapas mentais ou princípios orientadores e cumpririam um papel funcional de proteção, pois forneceriam um certo senso de segurança em uma longa jornada, amiúde insegura e sujeita a percalços, intempéries e emboscadas.

A ideia de mapas mentais ou de princípios orientadores respalda o entendimento de que cada sociedade cultivava a respeito das outras um conjunto de representações marcadas por elementos que poderíamos, à luz do nosso conhecimento atual, configurar como assentada em generalizações. Os exageros na avaliação deveriam ser interpretados como o resultado de um processo de simplificação funcionalmente válido, a partir do qual se tornava mais fácil assegurar a diferenciação imediata entre os aliados e os que poderiam ser classificados como inimigos.

Imagens e identidade nacional

Na época da formação dos estados nacionais é possível postular um importante papel desempenhado pelas crenças estereotipadas, em particular pela facilidade com que elas poderiam ser adotadas para fundamentar estratégias discursivas destinadas a amalgamar materiais simbólicos e pictóricos importantes para a diferenciação étnica e construção das identidades nacionais.

Em um estudo a respeito das representações estereotipadas acolhidas pelos universitários radicados em Paris no século XII, Weeda (2010), após assinalar a frequência das dissenções e disputas entre os estudantes em função das suas vinculações nacionais e o quão estas condutas incomodavam aos tutores, passa a recensear um farto catálogo dos estereótipos em circulação na comunidade de estudantes da Universidade de Paris: os ingleses, beberrões; os franceses, arrogantes, fracos e afeminados; os germanos, furiosos e de maneiras desagradáveis; os normandos, fúteis e orgulhosos; os bretões, frívolos e inconstantes; os lombardos, gananciosos, maliciosos e covardes; os romanos, sediciosos, violentos e avaros; os sicilianos, tirânicos e cruéis; os flamencos, autoindulgentes, ricos e comilões.

É interessante notar, na interpretação de Weeda, que os estereótipos acima listados constituem uma novidade pois, exceto os aplicados aos germanos e italianos, não se tem constância de terem sido documentados nos séculos anteriores, representando produtos do próprio século XII e do contexto social e histórico no qual se situavam aqueles estudantes e os grupos nacionais aos quais os estereótipos se referiam. Reforça-se o entendimento de que os estereótipos podem ser interpretados como mecanismos utilizados pelos membros de um grupo com a finalidade de reforçar a própria identidade, mediante a desqualificação e desvalorização dos outros grupos, uma tese que ganhará popularidade na psicologia social europeia na segunda parte do século XX.

Conforme assinala Bethencourt (2020), a avaliação negativa dos outros grupos, e a concomitante aplicação dos estereótipos, possui uma conotação relacional, pois o bom muçulmano Ibn Khaldûm (1332-1406) se referia aos muçulmanos da Península Ibérica, onde residiu, quando comparados com os verdadeiros seguidores do islã, como fracos de espírito e sem sentimento de pertença ao grupo, já que lhes faltavam o instinto de cooperação e capacidade de ação necessária para resistir às investidas dos inimigos cristãos. Neste universo de enfrentamentos entre os grupos, a atribuição de características negativas aos oponentes era imperativo. Os ingleses acusavam os irlandeses de falta de higiene, pois adotavam cabelos compridos, não se barbeavam ou usavam calçados e eram chegados à bestialidade. Para enfatizar a natureza relacional dos estereótipos e preconceitos, Bethencourt (2020) também se vale da obra do geógrafo Abd Allah Yaqut (1179-1229), ao acentuar que este se referia com desprezo aos sicilianos, acusando-os de serem capazes de ultrapassar os judeus em imundície e desonestidade. Esta mesma tendência relacional fica ainda mais nítida se consideramos o comentário de um intelectual árabe do século XI: “As raças ao norte dos Pirineus são de temperamento frio e nunca atingem a maturidade, são de grande estatura e de cor branca, mas não possuem agudeza de espírito e de penetração intelectual” (Biesanz & Biesanz, 1972).

O caso dos judeus se reveste de importância nas discussões a respeito do surgimento e da sobrevivência dos estereótipos, pois se não foram alvos de estereótipos particularmente negativos na antiguidade, a partir do período medieval se tornaram objeto preferencial de representações negativas, especialmente no que concerne à acusação de terem sido os responsáveis pela crucificação de Jesus Cristo. Talvez por isso, tenham sido retratados como possuidores de uma inclinação perfeitamente natural para a realização de rituais diabólicos. Felsenstein (1990) chama a atenção da persistência destas representações na Inglaterra, perguntando-se como os estereótipos negativos sobreviveram se os judeus foram expulsos em 1290, por um decreto do Rei Eduardo I, retornando apenas em 1655. A persistência das crenças estereotipadas na ausência física dos alvos sugere que uma representação estereotipada pode ser interpretada muito mais como uma versão imaginária, irreal e fantasiosa do uma descrição fundamentada em elementos de realidade. No caso particular dos judeus na Inglaterra esta tese se reforça se considerarmos algumas particularidades acerca dos estereótipos sobre os judeus dominantes na sociedade inglesa da época: 1) por serem os responsáveis pela morte de Jesus Cristo, os judeus passaram a exalar um cheiro acre característico, que milagrosamente se transformava num odor mais doce que a ambrosia, no momento em que eram premiados com o batismo cristão; 2) por Pedro ter negado a Cristo, por três vezes, os judeus eram dotado de uma propensão absolutamente natural a xingar e a se servirem de uma linguagem profana e grotesca; 3) por conta do sangue de Cristo derramado na cruz, tanto os homens quanto as mulheres estavam condenados a menstruar mensalmente e a sofrerem frequentes hemorroidas; e 4) por serem extremamente lascivos, nunca se furtavam a perpetrar orgias com meninos e meninas em rituais nos quais as cerimônias cristãs eram parodiadas (Felsenstein, 1990).

A atribuição de características negativas não se restringia aos judeus e nem se fundamentava apenas em arrazoados religiosos. De modo geral os grupos nacionais e étnicos se tornaram objeto de descrições que nem de perto poderiam ser consideradas positivas ou de valorização. Os africanos foram retratados como selvagens, indolentes e pouco inteligentes; os turcos, como infiéis; os bizantinos, vistos como maus; os eslavos, representados como covardes; os indianos, tratados como promíscuos. Não poucos documentos, elaborados sobretudo por intelectuais e autoridades religiosas, esmeraram-se em identificar uma série de adjetivos moralmente reprováveis aplicados aos infiéis: os sarracenos imorais; os sírios desonestos; os egípcios afeminados; os árabes fracos; os judeus usurários. Intelectuais de renome e muito prezados na história do pensamento filosófico não se encontravam imunes a estas interpretações estereotipadas, a exemplo de Santo Tomás de Aquino, que associava os judeus à escravidão perpétua e não fazia questão de esconder a opinião de que estes dependiam da usura para a sobrevivência econômica. O renomado historiador de ascendência árabe Ibn Khaldûm, numa obra de introdução à história, acentuou que os negros se prestam à escravidão, já que praticamente nada possuíam que fosse essencialmente humano, assemelhando-se muito mais aos animais irracionais, pois viviam nas matas ou escondidos em cavernas, em um isolamento selvagem, alimentando-se de ervas que conseguiam encontrar, embora fossem mais chegados a se banquetear uns aos outros (Bethencourt, 2020). Esta tendência a minimizar as características positivas e a enfatizar as negativas atravessa toda a Idade Média e adentra a modernidade, como pode ser visto no comentário apresentado no século XVI pelo poeta e filósofo escocês James Beattie (1735-1803), que ao discutir o contexto político da época, sustentou que todas as nações europeias, e talvez do mundo, seja nas questões de traje ou de conduta, ridicularizavam-se mutuamente (Rothbart, 1995).

Os estereótipos e o conhecimento

Por certo, o papel dos doutores cristãos e dos intelectuais árabes na criação e difusão dos estereótipos não pode ser desprezado. Mais do que uma particularidade que afligiria especificamente a alguns povos, devemos entender este movimento como uma tendência geral, sobretudo se considerarmos a nossa interpretação de que os estereótipos dependem da formulação de teorias implícitas, o que nos habilita a sustentar que o ambiente no qual os intelectuais circulam deve ser considerado um espaço privilegiado para a criação e difusão dos estereótipos, os quais encontram um forte nicho de expressão nos livros didáticos, nos romances, bem como nas canções, gestas e anedotas registradas pelos estudiosos da cultura popular.

Da mesma forma, as artes, a exemplo da escultura e da pintura, também ocuparam um papel nada desprezível na formulação e difusão dos estereótipos ao incrementarem associações entre, por exemplo, o preto, uma cor, e uma série de referentes negativos, a exemplo do pecado, do mal, das trevas, da imundície, da infidelidade, do luto e do infortúnio (Bethencourt, 2020). A associação entre as características simbólicas da cor preta aos negros reflete esta tendência, parecendo-nos lícito admitir que o poder comunicacional e persuasivo dos símbolos impediu a ruptura destes significados, que ainda hoje estão entranhados na nossa linguagem cotidiana, ao enunciarmos sentenças como “isto aqui está preto!” ou “um futuro negro se avizinha para todos nós!”

Os livros e manuscritos também foram decisivos na difusão dos estereótipos. No caso dos tratados médicos isto se tornou claro no empréstimo tomado à antiga teoria dos humores, até então adotada para diferenciar os indivíduos, como um recurso retórico destinado a postular diferenças entre os grupos nacionais, por exemplo, ao se sustentar que os europeus do norte eram fleumáticos ou que os judeus eram melancólicos (Weeda, 2014).

Uma outra área de conhecimento na qual a utilização de estereótipos ocupou uma posição preponderante foi a geografia, particularmente com a elaboração dos mapas do mundo, que se tornaram muito populares a partir do século XII. Nestes mapas, elementos pictóricos, cuja base poderia ser encontrada na antiga disciplina da fisiognomia, foram utilizados com a finalidade de identificar as características físicas e psicológicas dos povos que viviam espalhados em um vasto mundo que começara a se descortinar. Belos mapas do mundo, como os de Pietro Visconti (1320), o atlas catalão (1375), de Mecia de Viladestes (1413), o mapamundi, dos Borgia (1450), o genovês (1457), o português (1471) e o Atlas de Diego Homem (1565), se tornaram objeto de desejo das camadas letradas e se encarregaram de difundir representações estereotípicas sobre os não-europeus, mediante o uso profuso de imagens de indivíduos associadas aos povos de origens raciais diversas, usualmente acompanhadas de descrições vívidas sobre as características físicas, psicológicas e costumes destes estranhos personagens. Para o leitor mediano da época se tornara claro que o mundo se estendia além das fronteiras conhecidas e que os costumes civilizados, aparentemente naturais, não eram acolhidos em todos os sítios e nem valorizados em todos os cantos.

Classificações e taxionomias

A preocupação com a identificação das diferenças físicas, psicológicas e morais entre os povos ganhou corpo com o avanço da Idade Média. Os intelectuais árabes desenvolveram um esquema classificatório das civilizações, no qual estavam incluídos persas, sírios, gregos, romanos, líbios, turcos, indianos e chineses, diferenciados segundo suas qualidades, defeitos e a aparência física. Com a apropriação dos textos árabes pelos estudiosos europeus, muitas destas formulações se tornam a base da difusão dos estereótipos ao longo do período de expansão colonial europeia (Bethencourt, 2020).

O catálogo dos povos existentes na Terra, de inspiração bíblica, tal como antecipado pelo historiador romano Flávio Josefo (37–100), sistematizado por Santo Agostinho (354-430) e padronizado na enciclopédia do conhecimento da época publicada no século VI por Isidoro de Sevilha (560-636), assegurava a existência de 73 povos descendentes de Noé, 15 dos quais oriundos de Jafé e seus filhos, 31 da descendência de Sem, enquanto os restantes 27 se deviam à ascendência do filho caído em desgraça, Cam. Ainda que catalogar estes povos seja uma empreitada necessariamente imprecisa, uma listagem relativamente incompleta pode ser visualizada na figura 8.

Figura 8: alguns povos supostamente descendentes de Noé e seus três filhos

Se atentarmos para as épocas em que viveram Isidoro de Sevilha ou Santo Agostinho não encontraremos dificuldades em reconhecer quão bem sobreviveu a interpretação religiosa acerca das características destes povos, sendo identificados relatos com poucas mudanças dignas de nota, cujo início remonta à antiguidade cristã, atravessa todo o período medieval e alcança praticamente intacto o início da idade moderna. A interpretação predominante sobre as características destes povos decerto foi marcada por exageros e generalizações sem fundamentos, sendo frequentemente entremeada por alusões a povos monstruosos ou aos habitantes dos antípodas, não sendo difícil entender o quão estas caracterizações, por mais simplificadoras, exageradas ou fantasiosas que tenham sido, devem ter exercido um efeito marcante nas percepções mútuas entre os povos.

A necessidade de elaborar narrativas a cada dia mais descritivas e persuasivas a respeito das relações entre os povos ou etnias fortaleceu a preocupação com a criação de um movimento intelectual dedicado a descrever e caracterizar os diversos grupos. Dada a diversidade de povos e as características por eles apresentados, a identificação de critérios capazes de ajudar na elaboração das classificações se torna objeto de acalorados debates entre os estudiosos. Regino de Prum (842-915), ainda no século X, elaborou uma listagem na qual deveriam ser incluídos fatores como a ascendência, os costumes, as línguas e a formalização das relações, estabelecidas através do direito. Um pouco depois, o geógrafo muçulmano Abu Abdulá Maomé Idrisi (1099-1165 ou 1666) ampliou esta lista, passando a incluir elementos como a aparência física, a tendência natural, a religião, os ornamentos, o vestuário e a linguagem. Estabelecia-se, cada vez mais, os elementos a serem considerados na elaboração dos relatos a respeito dos diferentes povos e, na medida em que esta listagem de critérios diferenciadores ganhava em amplitude, os detalhes se tornaram decisivos, donde a frequente utilização nos relatos de elementos estereotípicos chamados à cena para enfatizar as particularidades dos grupos alvos (Bethencourt, 2020).

As narrativas acerca das diferenças entre os povos ganham em sofisticação a partir do momento em que surgem os primeiros catálogos dos tipos humanos. Muitos destes registros ostentam uma forma estritamente visual, conforme a análise de Bethencourt (2020) sobre o afresco criado pelo escultor Nicola Pisano (1220 – entre 1278 e 1284) em meados do século XIII, na catedral de Siena, Itália, no qual os povos africanos, nórdicos, mediterrâneos e asiáticos foram representados com a vivacidade trazida pela pintura.

Aos poucos, uma tendência presente na Antiguidade se torna hegemônica no mundo medieval, pois a elaboração das tipologias passa a caminhar ao lado do conhecimento geográfico disponível e as descrições das características dos povos se tornaram consonantes com os continentes por eles ocupados, conforme assinalado, em 1310, pelo poeta Dante Alighieri (1265-1321), ao diferenciar as características dos povos asiáticos, africanos e europeus. Esta tendência a associar algumas características estereotípicas aos três continentes é analisada por Braude (1997), ao comentar como o mito de Noé deixou de ser tratado na complexidade analítica esperada e acabou por se tornar um dos elementos de legitimação do discurso racista, a partir do momento em que a descendência de um dos filhos passou ser associada com a depravação, ao tempo em que esta noção termina associada ao continente africano. Com a passagem do tempo, a descrição dos tipos humanos se tornou cada vez mais especializada, passando a levar em conta as diferenças entre os povos que habitavam um mesmo continente, a exemplo da diferenciação entre os europeus do Norte, brancos, e os do Sul, mistos, o que abriu um enorme potencial para a criação de estereótipos ainda mais rebuscados. A utilização de elementos fenotípicos, como a cor da pele e dos cabelos, facilitou a criação de narrativas das diferenças entre os povos, ainda que não fossem os únicos critérios adotados para a elaboração das representações estereotipadas. Estas tipologias particulares, uma vez associados a determinados grupos sociais, se tornaram espaços privilegiados para a criação e a difusão de novos estereótipos.

Novas categorias

A intensificação dos estereótipos nacionais no período medieval muda de registro a partir do momento em que um atributo até então adotado estritamente para aludir a uma categoria profissional passa a ser associado a grupos nacionais, étnicos ou religiosos. Mell (2018), fundamentando-se numa profusa bibliografia, analisa como o estereótipo de usurário, que até o século XII era aplicado sem nenhuma conotação nacional ou étnica específica, se torna um estereótipo generalizado sobre os judeus, servindo como umas das justificativas utilizadas para legitimar a expulsão deste grupo da França no século XIV. 

 A difusão dos estereótipos profissionais também ganha popularidade e se torna cada vez mais difundida em função da representação dos profissionais em romances, peças de teatro e crônicas literárias. Um exemplo claro desta tendência é encontrado nos estereótipos dos cozinheiros como pessoas violentas e oriundas das camadas de baixo status, frequentemente manipulados pelos aristocratas para alcançar fins inconfessáveis. Esta representação se populariza a partir do século XII, conforme assegura Merceron (1998), ao analisar a utilização dos estereótipos dos trabalhadores de cozinha nas obras literárias francesas da época.

As tipologias se tornam cada vez mais especializadas com a passagem do tempo. Ao classificar, em uma obra publicada em 1575, as pessoas segundo o grau de engenhosidade, o médico Juan Huarte de San Juán sustentou que em todas as repúblicas seria possível identificar três tipos de pessoas engenhosas, além dos verdadeiramente sábios: os que são sábios e não parecem; os que parecem sábios, mas não são; e os que nem são e nem parecem sábios (Huarte de San Juán, 2000, cap XII).

Outros critérios também passam a ser adotados para a criação de narrativas, a exemplo da ascendência. Na Península Ibérica, por exemplo, a antiga teoria do sangue puro foi utilizada para diferenciar e criar narrativas capazes de fomentar atitudes estereotipadas, em particular em relação aos judeus e muçulmanos convertidos ao cristianismo. Esta diferenciação, em si, acentua a importância das crenças religiosas na formação das representações dos diversos povos e, com base nas características supostamente atribuíveis aos crentes, passam a ser difundidos em alguns estereótipos ainda hoje presentes nas sociedades modernas.

Raça e sangue

O final da Idade Média testemunhou, na Espanha, uma nova forma de discriminação, fundamentada na ideia de raça e sustentada na noção de sangue, cujas características diferiram muito das encontradas na Antiguidade, em que os povos conquistados eram assimilados e se tornavam cidadãos da Grécia ou de Roma, desde que acolhessem a língua dominante e os hábitos e costumes dos vencedores.

Um crescente número de judeus, que cada vez mais apresentavam sinais visíveis de riqueza, foram forçosamente convertidos ao catolicismo, algo que proporcionou o surgimento de uma forte inquietação entre os cristãos de estirpe. Neste contexto de embates econômicos se inaugurava a prática de diferenciar os convertidos dos cristãos verdadeiros, de raiz, impondo-se aos primeiros um conjunto de restrições sociais, políticas e econômicas, caso fosse identificado que ostentavam algum indicador de ascendência judaica nas cinco gerações anteriores. Estabelece-se, assim, uma nova prática, a prova de pureza racial, definindo-se um marcador biológico destinado a identificar diferenças intransponíveis entre as raças superiores e as inferiores. A partir de 1478, com o advento da Inquisição, as provas de pureza racial se tornam muito mais inclusivas, passando a abranger os muçulmanos conversos e os ciganos e, transplantadas para as Américas, também passam a ser aplicadas aos descendentes de negros e de indígenas (Sussman, 2014).

Conclusões sobre os estereótipos no período medieval

Em resumo, podemos afirmar que muitos estereótipos da antiguidade continuaram a prevalecer na idade média, ao tempo em que outros foram modificados e ganharam uma nova roupagem. Devido ao incessante fluxo de pessoas entre as fronteiras, em decorrência das atividades comerciais, missões diplomáticas e guerras de conquista, o conhecimento das características morais e psicológicas dos diversos grupos étnicos e linguísticos se tornou uma tarefa imperativa para o europeu médio, o que suscitou o surgimento da preocupação em conhecer em detalhes os costumes e as características psicológicas e sociais dos diversos povos. Com o surgimento das primeiras universidades, especialmente no que concerne ao perfil nacional diversificado dos estudantes que as frequentavam, as descrições sobre as características nacionais se tornaram cada vez mais objeto de interesse e de estudos, em especial porque os debates em torno das identidades nacionais não raro se transformavam em altercações resolvidas pelas vias de fato. As discussões sobre as características que impunham diferenças entre os povos se tornaram objeto de reflexão e discussão, tanto por parte daqueles versados nas minúcias das discussões filosóficas, quanto nos que se dedicavam à retomada das disciplinas científicas. Uma vez que os estereótipos eram elaborados a partir de teorias do senso comum, e as teorias do senso comum se originavam de argumentos bem elaborados, as crenças estereotipadas terminaram por se difundir entre as camadas mais educadas da população, ganham força e intensidade e nos séculos seguintes ganham difusão em um novo mundo que se descortina.

Período moderno

Na historiografia tradicional, o início da idade moderna é inseparável da ampliação dos horizontes geográficos, pois se o entendimento de que o universo se resumia à Europa, a Ásia e a África se encontrava estabelecido desde a antiguidade, mantendo-se intacto durante todo o período medieval, com as navegações e a descoberta de um novo continente, a América, tornou-se claro que o mundo estava longe de ser limitado por bordas e beiras, crença que abriu espaço para a exploração de novos caminhos possíveis e inimagináveis.

Falar em descobertas parece ser uma acepção imprópria, pois se trata de um eufemismo. O que ocorreu foi um movimento pelo qual as aristocracias europeias se envolveram numa disputa cujo prêmio maior representava a conquista e o domínio de novas terras, o que ampliaria a grandeza das monarquias absolutistas. Ao se imporem pela violência, os impérios coloniais europeus foram os principais responsáveis pelo extermínio dos povos autóctones e impuseram a expansão dos idiomas espanhol, português, francês e inglês em territórios então habitado por povos incapazes de defesa face a enorme inferioridade em relação às armas e ao poder de fogo dos conquistadores. A expansão das línguas europeias nas Américas, África e Ásia acarretou não apenas o transplante de diferentes modos de fala, pois uma língua representa muito mais do que um recurso expressivo, podendo ser caracterizada como uma forma de violência, sustentada na imposição de uma visão de mundo a povos que viviam sujeitos a uma outra mentalidade. O resultado desta expansão, no que concerne ao nosso objeto de estudos, está fortemente associado com o que pode ser denominado eurocentrismo, um fator ainda poderoso na expressão dos estereótipos e preconceitos.

Navegações e descobertas

Entre a última década do século XV e a primeira do século XVI uma série de eventos produziram reviravoltas extraordinárias na maneira pela qual as sociedades europeias se viam e se representavam. A chegada de Cristóvão Colombo ao continente americano, em 1492, o estabelecimento do Tratado de Tordesilhas, celebrado em 1494, no qual se definiam os critérios para a distribuição das terras encontradas fora da Europa, a chegada às Índias pelo navegador português Vasco da Gama, em 1498, a exploração do continente sul-americano pelo navegador Américo Vespúcio, em 1499, a descoberta do Brasil, por Pedro Álvares Cabral, em 1500, o desbravamento do Oceano Pacífico, por Nunes Balboa, em 1513 e do Rio da Prata, por Juan Dias de Solis, em 1516, e a derrota imposta em 1519 ao Império Asteca, por Hernán Cortés, são registros mais do que suficientes para antecipar as transformações econômicas, políticas e sociais que se avizinhavam.

As navegações e descobertas proporcionaram contatos com povos nunca vistos e o catálogo das gentes conhecidas, já por si extenso na Idade Média, tornou-se ainda mais volumoso na medida em que foram incluídas as criaturas encontradas durante estas viagens. Ainda que estes povos fossem catalogados e incluídos em um extenso inventário, os exploradores não se inibiram em enviar à Europa exemplares das estranhas gentes encontradas durante as viagens de exploração e conquista, inicialmente para o deleite de reis e da aristocracia, e posteriormente, para atender à curiosidade da população, que não hesitava em pagar somas não exatamente desprezíveis para assistir ao espetáculo das raças.

Os catálogos de povos foram elaborados por autores genuinamente europeus ou oriundos de outras áreas, mas que tiveram a sua formação intelectual realizada em terras europeias. A imposição de uma interpretação eurocêntrica se tornou ainda mais nítida com a posição de proeminência exercida pelas potências europeias e a posição destacada por elas ocupadas após as viagens de domínio, colonização e escravização. As novas informações, trazidas por navegadores que estabeleceram contatos com povos tão diversos e cujas vidas transcorriam em locais tão distantes, por certo obrigaram os enciclopedistas a reformularem a cartografia das terras e mares conhecidos, assim como a aperfeiçoar os catálogos das gentes do mundo. Os 73 povos descendentes de Noé se multiplicaram, na mesma rapidez com que se criavam novos atlas da superfície terrestre e se abriam espaços para as representações reais, imaginárias e fantasiosas destas novas gentes, que rapidamente passaram a despertar curiosidade entre as pessoas letradas, sustentando um mercado editorial que florescia desde a época medieval tardia.

Colonizar

Até o início do século XX, época em que o colonialismo e a escravidão ainda dominavam as mentes, ser preconceituoso estava longe de ser um problema e o tratamento desigual era visto como algo natural, sendo considerado uma resposta inevitável dos dominadores para com os dominados. É interessante notar que os últimos impérios coloniais – Portugal, Inglaterra, França, Alemanha e Bélgica – ainda resistiram até meados do século XX (Ukawuilulu, 2008a, 2008b; Trumbull IV, 2008; Ndege, 2008; Neumann, 2008; Pretes, 2008), conforme observado no diagrama encontrado na figura 9.

Figura 9: colônias europeias na África, em 1914

O que, afinal, justificaria o direito de dominar, colonizar e tornar civilizadas outras terras? Civilizar seria necessário, como assinalaram dois antropólogos brasileiros da segunda metade do século XIX, após terem analisado crânios subtraídos de cemitérios indígenas, porque “os indígenas brasileiros, ao lado dos esquimós e dos habitantes da Patagônia, ocupavam a posição mais baixa na escala de evolução humana das Américas, num estado biológico de selvageria que havia se mantido imutável por mais de 3000 anos” (Andermann, 2004, pp. 137).

O domínio colonial de uns povos sobre outros também era visto como algo normal, como um processo imanente à natureza humana, sendo para muitos um dever sagrado levar a cultura e a civilização para bárbaros e selvagens, o que servia como pretexto ou justificava para os esforços despendidos no árduo dever de colonizar. Exercido o domínio pela força, a tarefa dos colonizadores se desdobrava em duas direções. Por um lado, o imperativo destrutivo de dizimar pelas armas os resistentes, os revoltados, os que se insurgiam contra a metrópole e, por outro, a tarefa ‘construtiva’ de civilizar, trazer luzes para o reino das trevas, salvar as almas dos primitivos, oferecer os meios para os infelizes se tornarem gente de verdade. O esforço civilizatório podia se dar mediante o extermínio dos remanescentes de uma população inteira, se esta não contasse com as letras L, F e R no alfabeto (Gandavo, 1575), o que a impediria de conceber as ideias de lei, fé e rei, ou poderia se dar pela via da educação, a exemplo do sistema educacional imposto pelos portugueses em Moçambique, onde o ensino oferecido aos nativos tinha por objetivo conduzir gradualmente o nativo da vida selvagem para a vida civilizada (Maloa, 2013).

Escravizar

A escravidão, não a decorrente de dívidas contraídas ou devido ao tráfico internacional de seres humanos, que é caracterizada como criminosa e ilegal, ainda é um desafio a ser vencido, mas a escravidão, com caráter oficial e regulamentada por lei, persistiu até 1961, quando foi abolida na Arábia Saudita, desaparecendo em definitivo apenas nos anos oitenta do século passado, quando, finalmente, alcançou o estatuto de ilegal na Mauritânia, ainda que as suas consequências não tenham simplesmente desaparecido (Otazu, 2015).

Conforme analisa Hofbauer (2006), na antiguidade a escravidão compreendia uma relação muito mais complexa do que simplesmente um grupo atacar um outro, vencer a batalha, se apossar dos bens materiais, escravizar os vencidos e forçá-los a trabalhar em meio a incessante e intermináveis maus-tratos. A escravidão, desde o período helênico, passando pelos romanos e árabes, até chegar aos conquistadores europeus, envolvia uma relação particular entre senhor e escravo, configurando-se como algo absolutamente inerente a alguns tipos de relações sociais, sendo impensável, em algumas sociedades, conceber outras formas de organização social que não a fundamentada nas práticas escravistas (Walvin, 2007).

Entre os antigos, os escravos estavam diretamente vinculados aos serviços domésticos. Geralmente capturados nas incursões e conquistas militares, os escravos eram usualmente estrangeiros. Neste sentido, aproximavam-se mais da condição de servos, do que a conotação que atribuímos usualmente ao termo escravo, sendo uma figura bastante comum no cenário das cidades gregas e no Império Romano. A paz romana estabeleceu uma trégua na escravização dos povos espalhados pelos territórios conquistados, ainda que a aquisição de cativos em regiões estranhas ao império continuasse sendo praticada. Em 476, com a queda do Império Romano e os conflitos geopolíticos suscitados pela expansão dos povos germânicos, foram retomadas as condições para o ressurgimento de ataques a populações indefesas e a intensificação das práticas escravistas, embora aos poucos estas se mostrassem economicamente inviáveis, face ao custo da supervisão constante inerente ao controle do trabalho obrigatório. O empobrecimento da população e as novas condições econômicas inviabilizaram a continuidade do trabalho escravo na Europa, o que proporcionou o surgimento de uma nova relação de trabalho, a servidão, e um nova categoria social, os servos. Estas mudanças acarretaram uma transformação no mercado, levando os comerciantes de escravos a se voltarem para uma rota bem mais lucrativa, o Oriente Médio. A partir do século VII se inicia uma nova era de incursões, capturas e comercialização desta valiosa matéria prima viva para os novos mercados consumidores. Estas incursões se tornaram generalizadas, persistindo sem grandes interrupções até o surgimento, a partir do século VIII da nossa era, dos primeiros estados nacionais europeus, cujo equilíbrio militar acabou por inibir a prática de invadir, conquistar e escravizar estrangeiros. A escravidão no continente europeu praticamente desapareceu, ainda que tenha persistido nas regiões dos Balcãs e próximo ao Mar Morto, reduzindo-se apenas com a expansão do Império Otomano no século XIV, o que fez com que os mercadores de escravos direcionassem seus esforços para as costas africanas, nos séculos XV, XVI e, sobretudo XVII, época em que este comércio se intensifica com a expansão do capitalismo, em particular com o desenvolvimento da mineração e da agricultura no continente americano (Inikori, 2008).

No início da idade moderna não apenas a escravidão, mas, em especial, o tráfico de escravos nos navios negreiros se tornou uma atividade moralmente condenável entre os que se concebiam civilizados. Os que sustentavam este comércio e dele dependia para enriquecer tentaram justificar esta prática mediante o acolhimento de um sistema de crenças no qual os escravos africanos eram considerados seres inferiores, quase animais, que jamais se igualariam aos civilizados europeus. Além deste argumento da diferença, expandiu-se a crença de que os europeus apenas reproduziam o que encontraram estabelecido, uma vez que no continente africano a escravidão era uma prática mais do que corriqueira. Se, afinal, os negros se escravizavam mutuamente, por que aos europeus não deveria ser concedido o direito de também escravizá-los? Estas linhas argumentativas ainda atraem adeptos nos nossos dias, mesmo sendo insustentáveis, não apenas por se fundamentarem em generalizações infundadas, ao considerar que a África como um todo era semelhante em termos de relações econômicas e práticas culturais, como também por não reconhecer que a escravidão entre os africanos era uma prática relativamente restrita, encontrada apenas nas áreas de influência islâmica, uma vez que na costa atlântica do continente africano não foram encontrados, até a chegada dos europeus, indicadores da extensão das práticas escravistas (Inikori, 2008). Uma outra crença, também ligada à escravidão negra, foi elaborada com a finalidade de oferecer justificativas não para a escravidão em si, mas para a migração forçada a qual milhões de africanos foram submetidos durante um período de quase quatrocentos anos. O argumento legitimador se fundamentava na suposição de que as condições de vida na África, fossem pelo clima desértico, fossem pelo subdesenvolvimento econômico, eram tão degradantes que o resultado teria sido o mesmo, pois mesmo que os europeus não tivessem forçosamente obrigado os africanos a se deslocarem, estes imigrariam naturalmente para outros continentes em busca de melhores condições de vida.

A diáspora africana, o nome pela qual ficou conhecido a transumância forçada de africanos para outros continentes, envolveu o tráfico, entre os anos 1440 e 1860, de um número estimado entre 12 e 20 milhões de indivíduos (Inikori, 2008), sendo especialmente significativa nas Américas, nas quais se estendeu por quase dois séculos, iniciando-se com o transporte dos primeiros africanos conduzidos aos Estados Unidos, pelos Quakers, em 1688, e se encerrando apenas em 1888, com a abolição formal da escravatura no Brasil (Sinha, 2008).

Iluminar

Ezel (1997), ao elaborar o capítulo introdutório de uma coletânea de textos sobre as relações entre raça, racismo e o iluminismo, sugeriu que quase duzentos anos de viagens, navegações, descobertas e acúmulo de riquezas foram suficientes para os europeus se considerarem os principais responsáveis pelas grandes contribuições científicas, culturais e artísticas encontradas na trajetória da humanidade. Esta crença na própria superioridade, aliada a um vigoroso mercado de livros de relatos de viagens por terra distantes e estranhas, terminou por acentuar o interesse em comparar a civilização europeia com os costumes e práticas encontradas em outros locais, fortalecendo ainda mais o entendimento de que existia uma clivagem fundamental entre o mundo civilizado e banhado pelas luzes, e as outras terras, imersas na escuridão e ocupadas por povos inferiores, selvagens e primitivos. O sentido do iluminismo, iluminar, não significava apenas encandear as trevas das superstições com o facho da cultura, opor a razão ao pensamento religioso, ou substituir o mito por logos, mas também levar as luzes da civilização para a parcela do mundo que vivia sob a égide da ignorância e das superstições.

Pouco importava, para os iluministas, o valor das contribuições intelectuais não europeias, como as dos antigos chineses, egípcios ou indianos, ou as obras de nomes como os de Avicena ou Ibn Khâldum, decisivas para manter viva a chama do conhecimento em uma época na qual as discussões religiosas eram prioridade entre os pensadores europeus. Os grandes nomes do pensamento filosófico iluminista europeu não estavam alheios a este ideal civilizatório, mas em algumas passagens interpretá-los à luz do nosso tempo, pode acarretar injustiças. Insinuar, entretanto, que os comentários por eles tecidos e atualmente interpretados como racistas, representam a parte menor da obra destes grandes autores se configura, no máximo, como um lenitivo, que de uma certa forma pode minimizar o mal-estar, mas em nada retira a crueza dos enunciados.

No Novum Organum, publicado no início do século XV, um texto que se encontra na origem da ciência moderna, o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626)  sugere que no ermo e na solidão das vinte e cinco centúrias que mais ou menos se encontravam compreendidas o saber humano, apenas três época geraram contribuições frutíferas para o saber, a época dos gregos, a dos romanos  e a dos nossos (lá dele) povos ocidentais da Europa. Bacon, inaugura uma tendência que se mostrou relativamente comum entre os iluministas posteriores, pois se o principal ponto de discussão sobre o racismo na obra de David Hume (1711-1776) foi uma nota de pé de página, posteriormente modificada, na qual ele informa suspeitar que os negros e as outras espécies de humanos eram naturalmente inferiores aos brancos e que, seguindo John Locke (1632-1704), não lhe constava algum conhecimento sobre outras civilizações tão complexas quanto as erigidas pelos brancos ou já ouvira notícias de pessoas tão eminentes em termos de ações ou de especulação intelectual quanto os brancos, isso não significa que o que se afirmou é menos importante na obra de Hume por se tratar de um pé de página, ainda que escrita pelo autor dos Ensaios sobre o entendimento humano. Se os textos kantianos sobre a geografia e a antropologia, nos quais as discussões raciais receberam destaque, não desfrutam da reconhecida importância da Crítica da Razão Pura, isso não retira o fato de que o grande filósofo assentiu que os negros oriundos da África, ao contrário de espanhóis, ingleses, franceses, alemães e outros povos europeus, não foram dotados pela natureza de sentimentos que lhes permitiam ultrapassar a barreira da insignificância. Também não temos como evitar fazer alusão às insinuações de George. W. F. Hegel (1770-1831) de que o continente europeu, por estar sujeito ao predomínio do clima temperado, difere muito dos outros, principalmente se comparado com a América, onde até mesmo os animais são menores, mais fracos e menos poderosos, ou mesmo a cultura dos humanos aí encontrados, que de tão fraca e sem importância desapareceu facilmente, submetida pelo vigor cultural das nações coloniais europeias mais avançadas.

A grandeza do iluminismo vai além disso, pois, nas palavras de Eze, este movimento intelectual inaugura a dimensão da intertextualidade, pois Kant, ao elaborar o argumento sobre as diferenças raciais, cita Hume, que por sua vez já citara Buffon, que se referira a Linneus. Da mesma forma, e numa perspectiva distinta, James Bettie apresentou firmes objeções a Hume, que se viu obrigado a diminuir o peso da mão, enquanto Kant se sentiu obrigado a se posicionar face às objeções de von Herder relativas a alguns pontos de vista que defendera vigorosamente em publicações prévias.

Dentre as contribuições mais emblemáticas do iluminismo se destacam as enciclopédias, obras monumentais dedicadas a compilar o conhecimento adquirido pela espécie humana em todos os campos de estudos. Enciclopédias universais renomadas, como a britânica ou a francesa, atravessaram gerações e impuseram aos seus leitores perspectivas de apreender a realidade que por certo podem ser interpretadas como um retrato dos sistemas de crenças predominantes na época. O verbete negro, publicada na versão norte-americana de 1798 da Enciclopédia Britânica, elucida de forma significativa a representação estereotipada acolhida na época, pois nele os negros são definidos como uma variedade da espécie humana, encontrada nas zonas tórrida, em especial na parte da África situada entre os trópicos. Após esta breve contextualização antropológica e geográfica, o verbete não se inibe em desenhar um retrato bastante estereotipado das particularidades físicas dos negros, acentuando características como as bochechas salientes, a testa elevada, um nariz grande e achatado, os lábios espessos e entumecidos, os ouvidos de pequena dimensão, a feiura e a irregularidade das formas, especialmente nas mulheres, desafortunadamente dotadas de uma cintura muito fina e de nádegas avantajadas, que as faziam parecer como se carregassem uma sela de cavalo nas costas. Do ponto de vista das características psicológicas, o verbete também não economizou impropérios, acentuando o quão deveria ser infeliz esta raça marcada por inúmeros atributos desqualificadores: a ociosidade, a trapaça, a vingança, a crueldade, o descaramento, o roubo, a mentira, a difamação, a sensualidade, a maldade, o descontrole, a ausência de sentimentos de compaixão, enfim, todas as formas vis de corrupção.

Note-se, no entanto, que por mais estarrecedor aos nossos olhos que possa ser o relato, ele retrata a percepção das gentes instruídas, daquelas que circulavam em um circuito na qual se produzia e consumia livros de esclarecimento. Se a nossa imaginação é marcada por fortes associações entre a idade média e noções como a de trevas, superstições e as perseguições da inquisição espanhola, isto se deve em boa parte às contraposições feitas pelos iluministas entre a era das luzes e o período medieval. O iluminismo representou bem mais do que um movimento de revolta contra os exageros do cristianismo ao postular o retorno à idade da razão e a valorização das virtudes humanas, que deveriam se sobrepor às superstições do passado. O retorno à sabedoria dos gregos e dos romanos da idade clássica, desterrada durante a longa noite do medievo, deveria ser uma tarefa imperativa, uma obrigação para os intelectuais, e algo desejável para a maior parte da população, ainda sob o domínio das trevas.

Uma diferença fundamental se apresenta no século XVIII, pois se por um lado encontramos parte da população tomada por um autêntico fervor religioso, no lado oposto se identifica uma outra parcela, constituída por camadas mais intelectualizadas e apegadas a uma interpretação de mundo secular e racional. Se a oposição entre as nascentes disciplinas científicas e o fervor religioso foi o primeiro conflito que caracterizou o iluminismo, não devemos desconsiderar um outro, tão importante quanto o inicial, que se sustentava na ênfase a ser oferecida ao conhecimento científico ou aos cânones da estética (Mosse, 1999). Estes dois conflitos repercutem acentuadamente nas discussões posteriores acerca do lugar dos seres humanos no mundo, das semelhanças que os aproximavam e das diferenças que os apartam e nos acalorados debates suscitados pelas discussões a respeito das hierarquias entre os povos e as raças.

Ademais, estes dois conflitos se relacionavam fortemente com a questão dos estereótipos raciais. Por um lado, encontrávamos uma nascente antropologia, cujos esforços se encaminhavam no sentido de identificar o lugar do ser humano na natureza, mediante observações, mensurações e sobretudo, comparações entre humanos e animais. Este movimento suscitou a revalorização da antiga disciplina da fisiognomia e proporcionou o aparecimento da doutrina da frenologia. Em contrapartida, numa dimensão oposta, poderiam ser encontradas pessoas fremidas por um autêntico fervor religioso, imbuídas por um espírito de congraçamento que supostamente apenas as religiões seriam capazes de oferecer e que se sentiam compelidos a concluir que todo e qualquer ser humano deveria ser acolhido e definido como filho de deus. Como, afinal, levar a sério o ponto de vista dos doutores, dos estudiosos, que com seus limitados instrumentos elaborados com a finalidade de apalpar, medir e calcular, jamais conseguiriam entender aquilo que apenas a intuição e os instintos, aquilo que o senhor tinha colocado em cada ser humano, seria capaz de conceber?  Se o conflito no plano do conhecimento se materializava nas discussões entre razão e intuição divina, no plano estético ganhou força um movimento no sentido de retomar os ideais de beleza dos clássicos, sendo particularmente relevante a utilização dos parâmetros reconhecidos nas estátuas de deuses gregos e romanos, adotados como critério para o estabelecimento de comparações entre os diversos grupos humanos e entre os humanos e os símios. Acentue-se, no entanto, que por mais científica que tenha sido esta aproximação, a dimensão padrão para a implementação das comparações permaneceu sendo a estética, o que sugere que desde as origens o saber científico nunca desprezou ou deixou de lado a busca por soluções marcadas pela beleza e por um forte senso de ordenamento estético (Mosse, 1999).

Conclusões sobre os estereótipos no período moderno

O período moderno, cujos limites temporais alcançam o final do século XVIII, foi inaugurado com as descobertas possibilitadas pelas grandes navegações, pela batalha entre as potências da época em conquistar e manter suas colônias, pelas estratégias de colonização dos territórios conquistados e a posterior subjugação dos povos que os ocupavam. Ainda que muito antiga, a escravidão desempenhou um papel decisivo na expansão colonial europeia, resultando em diásporas que espalharam a população negra, por outros continentes, sobretudo nas Américas. O iluminismo, ao estabelecer a distinção entre razão e mito aponta as grandes direções dos debates a serem encetados a respeito dos grupos humanos e as suas relações.

Ao lado das abordagens individualista e contextualista, a perspectiva hierárquica permanece uma característica central na representação sobre os povos no período moderno, tal como podemos identificar no relato do historiador espanhol López (2021), o qual recolhe em uma nota ao livro no qual narra história militar da conquista mexicana, por Hernán Cortés e sua gente, uma passagem atribuída a um jurista a serviço de Fernando, o Católico, o Doutor Palácios Rubios. Este, eivado pela melhor das intenções, redige um tratado com a finalidade de ensinar ao filho o valor do justo combate e no quanto nele estão envolvidos o ideal cavalheiresco do esforço como marca registrada dos vencedores e a clemência como a norma exigida em relação aos derrotados. Um aspecto importante da obra se relacionada ao desprezo demonstrado pelo aristocrata com as armas que matam à distância – espingardas, mosquetes, trabucos, escopetas,  etc. -, dispositivos de guerra que não apenas impediam a luta franca a curta distância, uma oportunidade para os cavaleiros demonstrarem as habilidades aprendidas ao longo dos anos de formação, como também permitiam, pasmem, um plebeu ter a chance de matar um nobre. A perspectiva hierárquica conflitualista, enquanto tal, permanece sendo uma característica decisiva no julgamento social, interferindo inclusive no entendimento de como as vidas de superiores e inferiores poderiam, e deveriam, ser subtraídas.

Mundo contemporâneo

A revolução francesa tem sido adotada pelos historiadores como o divisor de águas que introduziu a modernidade, afinal as ideias que lhes serviram de sustentação defendiam a liberdade, em contraposição aos modelos que pregavam o absolutismo político e religioso, a igualdade, em um mundo marcado pela diferenciação entre os aristocratas e os que vieram ao mundo apenas para a estes prestar serviços, e a fraternidade, em um mundo no qual as conquistas e a colonização estavam perfeitamente instaladas.

Ciência, raça e tipos humanos

Diferentes dos viajantes e navegadores, preocupados apenas em relatar o que viam com os próprios olhos, os biólogos do século XVIII ostentavam uma preocupação genuinamente científica em organizar as evidências com as quais se deparavam em um sistema cujo desiderato final era o de classificar e ordenar a natureza em consonância com um padrão racional capaz de representá-la em sua totalidade (Curtin, 1999). Esta tradição de pensamento é bem representada pelo médico e botânico sueco Carl von Linnaeus (1707-1778), cuja obra mais representativa, Systema Naturae, publicada em 1735 e revisada inúmeras vezes, exerceu uma profunda influência nos estudos subsequentes. Como não poderia ser diferente, os humanos, ainda que situados no cimo da hierarquia, também deveriam estar inscritos neste grande esquema de classificação dos seres vivos.

Uma crença fundamental, acolhida pelas camadas educadas da população, e por uma enorme parcela dos intelectuais, asseverava que deus, ou a natureza, na perfeição que a ambos caracteriza, ordenou todos os seres, do mais alto até o mais baixo, numa hierarquia irrepreensível e irretocável, conformando uma Grande Cadeia do Ser. Uma questão ganha importância neste contexto, pois se durante as navegações foram encontrados tantos humanos em inúmeros lugares e se estes eram tão diferentes entre si, por suas próprias características e por viverem em diferentes estágios civilizacionais, como sustentar que estes distintos grupos humanos estariam sujeitos à mesma ordem hierárquica que presidia o mundo natural? Como oferecer resposta para esta questão, se o debate esbarrava no dogma cristão de que o criador teria sido o responsável pelas suas criaturas, que seriam, neste particular, uma única e mesma espécie?

 A tentativa inicial de solução envolveu a elaboração de um sistema de classificação, fundamentado tanto na nascente biologia, como em teorias climatológicas ambientalistas presentes desde a antiguidade, no qual se supunha a diferenciação entre quatro raças humanas, branca, amarela, negra e vermelha, as quais se encontravam associadas aos determinantes climáticos dos quatro continentes nos quais elas se desenvolveram, Europa (Homo europeaus), Ásia (Homo asiaticus), África (Homo afer) e América (Homo americanus). Esta classificação rapidamente ganhou prestígio, passando a ocupar o lugar então desfrutado pela classificação religiosa tripartite fundamentada na diferenciação geográfica relacionada às vicissitudes dos filhos de Noé.

Esta solução não apenas eludiu o conflito travado entre os iluministas a respeito das relações entre as leis da natureza e a força da religião, como também facilitou a proliferação de vários sistemas de crenças nos quais se atribuíam aos indivíduos de distintos perfis raciais uma série de características físicas e psicológicas capazes de diferenciá-los entre si. Os povos autóctones da América foram caracterizados como de cor de cobre, cabelos escuros e espessos, cenho severo, face sem pilosidades, narinas largas, trajados com nada mais do que linhas pintadas com tinta vermelha, coléricos, obstinados e regulados pelos costumes. Os europeus, de cor branca, olhos azuis e cabelos claros, cobriam completamente as vergonhas com vestes magníficas, eram sanguíneos, gentis, agudos, inventivos e governados pelas leis. Os asiáticos, de pele amarelada, cor de fuligem, cabelos negros e olhos escuros, se vestiam com roupas leves, eram altivos, cobiçosos, sérios, dignos, avaros e regulados pelas opiniões. Os africanos, com a pele negra, nariz achatado, lábios túmidos, que no lugar de trajes se ungiam com graxa, foram caracterizados como fleumáticos, astutos, preguiçosos, lúbricos e governados pelos caprichos (Linné, 1997). Além destas grandes categorias, Linneaus também encontrou espaço para se referir aos habitantes das áreas montanhosas, ativos, pequenos e tímidos, aos naturais da Patagônia, grandes e indolentes, aos pouco férteis hotentotes, aos americanos sem barba, aos chineses de cabeça cônica e aos canadenses de cabeça achatada.

A noção de raça não se mostrava um conceito unívoco, pois as fortes associações que mantinha com os modelos taxionômicos da florescente biologia, embora aceitável para a classificação dos animais, não se prestava exatamente para a elaboração de modelos a respeito das diferenças entre os grupos humanos. A busca de um conceito mais maleável, cujo uso se prestasse mais facilmente à condução de comparações, favoreceu a aceitação do conceito de tipos humanos, que se impôs como uma ideia facilmente utilizável tanto na história natural, quanto na linguagem comum (Banton, 1999). Um problema fundamental suscitado por esta definição passou a ser o de alocar a ordem dos tipos humanos na Grande Cadeia do Ser, algo mais complicado de ser alcançado na ausência de critérios objetivos capazes de sustentar esta classificação, algo exequível a partir do momento em que os ideais de objetividade científica foram abandonados e substituídos por critérios compatíveis com os supostos valores definidores da civilização europeia, a exemplo das realizações na arte e na ciência ou do simples fato de deus ter legado aos brancos europeus a verdadeira religião.

Estes novos sistemas de crenças não apenas ofereceram legitimidade intelectual às hierarquias raciais e nacionais, como também contribuíram para amalgamar diferentes tradições de pensamento em uma linha argumentativa na qual as relações entre as características raciais, os estereótipos, os preconceitos e as produções culturais se tornaram perfeitamente articuladas (Curtin, 1999), tal como pode ser exemplificado no trabalho publicado em 1770 pelo anatomista holandês Petrus Camper (1722-1789), no qual se apresenta um método para a diferenciação das raças mediante a análise do ângulo das faces, cujo modelo, publicado postumamente em 1791, pode ser esquematicamente representado na figura 10.

Figura 10: ângulos das face como critério de diferenciação entre as raças humanas e os grandes macacos

O modelo foi construído a partir de uma linha horizontal traçada entre a abertura do ouvido e a base do nariz e uma outra, a linha facial, que unia a testa aos lábios, calculando-se o ângulo facial a partir da interseção entre as duas linhas (Brace, 1999). Com base no material que encontrou à disposição na Holanda natal, esqueletos de orangotango oriundos de parte da Indonésia sob controle holandês, de um crânio de um adolescente negro e de restos esqueléticos obtidos na Ásia Central, Camper desenvolveu o argumento de que se nas estátuas dos deuses gregos e romanos, exemplares por excelência da representação artística humana, o ângulo da face correspondia a valores entre 95 e 100 graus, na população branca o valor médio correspondia a cerca de 80 graus, a comparação destes valores com o mensurados entre os negros e os asiáticos, aproximadamente 70 graus, indicaria que estes últimos estariam mais próximos dos orangotangos, nos quais os valores do ângulo facial oscilavam entre os 42 e os 58 graus, do que dos humanos (Haller, 1971).

Johann Friedrich Blumenbach (1752-1840), em 1781, procurou ser ainda mais abrangente no que concerne aos critérios de classificação ao levar em consideração a combinação de elementos como a cor da pele, o cabelo, o esqueleto, a forma do crânio e algumas caraterísticas faciais. Estes parâmetros permitiram a elaboração de uma taxionomia na qual a espécie humana foi diferenciada em cinco grandes grupos raciais, tal como representado na figura 11. Os mongóis e os etíopes, nada mais que uma degeneração da raça original, os caucasianos; os indígenas americanos, a transição dos caucasianos para os mongóis; os malaios, a fase intermediária entre os caucasianos e os etíopes (Gould, 2014; Junker, 1998).

Figura 11: geografia das raças de Blumenbach

Nesta classificação a proeminência dos europeus continuou a receber destaque, fundamentando-se na crença de que se algumas raças eram apenas uma degeneração da perfeição, outras representavam a degeneração dos degenerados. O termo degeneração se destaca, pois com ele fica clara a conclusão exposta no final a obra de Blumenbach, na qual se sustenta que independente das particularidades e dos destinos de cada raça, todas pertencem a uma única e mesma espécie, a humana.

Nem todos aceitaram a tese monogenética difundida por Blumenbach. Um forte movimento, presente desde o final do período medieval, sustentava um sistema de crenças na qual se supunha não apenas que as raças humanas diferiam entre si, mas também que os brancos não se originaram de um mesmo tronco compartilhado com raças tão degeneradas. A crescente importância do pensamento naturalista fez com que a análise das características físicas, sobretudo as que se manifestavam na superfície corporal, tenha se tornado um critério decisivo para a elaboração de argumentos destinados a provar a existência de diferenças entre os povos ou as raças e a posicionar uma delas, a branca, no topo desta hierarquia.

Uma técnica de grande sucesso no século XIX, a craniometria, cultivada pelos chamados frenologistas, ofereceu um forte impulso ao programa hierarquizador ao sugerir que a grande diferença entre os brancos e as demais raças residia no volume da caixa craniana, significativamente superior nos brancos se comparados com os valores encontrados entre as raças inferiores. A frenologia se tornou popular inicialmente entre anatomistas europeus e encontrou espaço para continuar se desenvolvendo ao chegar às Américas. A viagem aos Estados Unidos do médico alemão Johann Gaspar Spurzheim (1776-1832), um discípulo de Franz Joseph Gall, e uma estrela em ascensão do movimento frenologista, ilustra bem as ideias sobre o quão as diferenças entre as pessoas poderiam ser estimadas pela mensuração do crânio. Recebido entusiasticamente pela elite, morre inesperadamente acometido pela febre tifoide, sendo honrado com uma cerimônia fúnebre na qual multidões se enfileiraram para prestar uma última homenagem ao grande homem de ciência.

Os anos seguintes, no entanto, não testemunharam o crescimento do prestígio dos apalpadores de crâneos, pois pouco a pouco o conhecimento frenológico perdeu importância entre os estudiosos, ao tempo em que ganhou espaço em demonstrações sempre populares nas barracas de feira, ao lado de ilusionistas, leitores de fortuna e prestidigitadores, o que oferece um bom indicador de quão popular era a noção de que as características das pessoas poderiam ser identificadas mediante a análise da aparência física. Apesar disso, a sobrevida da craniometria nos anos 1830 foi garantida pela apropriação dos argumentos frenológicos pelo movimento escravista do sul dos Estados Unidos, que encontrou suporte científico para a defesa da inferioridade inata dos negros, para a propagação das virtudes da escravidão e, sobretudo, como fundamento intelectual para justificar e oferecer legitimidade ao extermínio dos povos nativos (Horsman, 1999).

Ainda que vozes tenham se insurgido contra os argumentos racialistas, a suposição sobre as diferenças insuperáveis entre as raças se popularizou na primeira metade do século XIX e conseguiu sobreviver, em que pese as fortes críticas, até a segunda metade do século. Os estudiosos passaram a desenvolver critérios cada vez mais esmerados para sustentar a diferenciação e hierarquização, a se considerar a contribuição de Peter A. Browne, que publica em 1852 um trabalho no qual considera a dimensão capilar para estabelecer as distinções raciais entre os brancos, de cabelos ovais, em relação aos negros, dotados de cabelos excentricamente empilhados sob forma elíptica, e aos indígenas, com os seus cabelos cilíndricos.

A procura de uma ciência apta a sustentar as hierarquias entre os povos e confirmar a posição de superioridade dos brancos em relação aos demais se espalhou pelas Américas na segunda metade do século XIX. O livro Types of Mankind, publicado em 1854, por Nott e Glidon, obteve um sucesso imediato, esgotando-se uma primeira edição em menos de um ano e alcançando dez reimpressões até o ano de 1871. Qual a principal tese defendida e em que sentido ela contribui para que a obra se tornasse um estrondoso sucesso de vendas? Basicamente apresentava argumentos pseudocientíficos, baseados nas ideias de pensadores então muito populares, nas quais eram oferecidas justificativas científicas para a escravidão. Fundamentalmente, não apenas a tese da superioridade branca ganhava uma roupagem científica como também se acentuava o perigo para a civilização da mistura das raças, advogando-se a inutilidade de envidar esforços no sentido de escolarizar e educar as chamadas pessoas de cor.

Uma das principais linhas de argumentação dos escravistas residia nas admoestações contrárias aos casamentos interraciais e ao risco que esta prática poderia gerar em termos de degeneração da espécie humana. Em 1867, J. Douglas, após analisar parâmetros como a dimensão corporal, o tamanho da cabeça, a força, os dentes, a visão, a respiração e a capacidade pulmonar de brancos, negros, mulatos e indígenas, sustentou que os resultados deveriam ser interpretados como indicadores de que a miscigenação proporcionava um produto com a qualidade bastante inferior à identificada entre os brancos puros. Uma prova ainda mais definitiva da qualidade do sangue branco em relação ao das raças inferiores foi supostamente apresentada em 1869 por Sanford B. Hunt. Após comparar os cérebros de soldados mortos na guerra civil estadunidense, Hunt acreditou ter identificado que o cérebro dos mulatos era menor do que o dos brancos, embora maior do que o dos negros e se permitiu concluir que o fluxo de sangue branco, mesmo em pequena quantidade, fora suficiente para aumentar o tamanho do cérebro dos desvalidos negros.

Aos negros, claro, restaria agradecer a enorme deferência por parte destes criteriosos cientistas brancos, sem esquecer de outros benefícios, como o de ser escravizado, pois, conforme assinalou Paul Topinard, em 1868, após identificar um aumento considerável das taxas de mania e de idiotia entre a população emancipada negra, o fim da escravidão acarretou um maior acometimento de doenças mentais na população negra, um indicador preciso de quão benéfica teria sido a escravidão para a vida mental dos negros.

Médicos que exerciam os seus afazeres no exército estadunidense também se encarregaram de reforçar os discursos relativos às diferenças raciais. W. J. Burt, em 1882, após analisar inúmeros relatórios sustentou que se comparados aos soldados brancos, os militares negros demonstravam menor chance de resistir a um procedimento cirúrgico, o que provaria o quão a raça negra estava menos preparada para sobreviver, afinal as condições de vida no exército eram as mesmas para soldados brancos e negros. R. M. Cunningham, em 1894, não se permitiu ficar para trás e, fundamentado na suposição de que se as taxas de mortalidade dos prisioneiros negros eram maiores do que as dos prisioneiros brancos, concluiu que os negros estariam menos preparados para sobreviver que os brancos, dado as condições de vida na prisão serem as mesmas para todos os prisioneiros.

Indicadores relativos ao crime e à delinquência também representaram um terreno fértil para a formulação de comparações raciais, a exemplo da conduzida em 1903, por William T. English, na qual se vaticinou uma maior propensão dos negros para a delinquência moral e sexual, quando nada por estarem bem mais próximos aos ancestrais sub-humanos que os brancos, algo facilmente evidenciado pelo ávido apetite sexual característico dos afrodescendentes. Esta relação entre os negros e o animais ainda se encontrava presente em trabalhos publicados em pleno século XX, a exemplo do artigo de Edward C. Spitzka, de 1903, no qual, com base na análise de necropsias, comparou o cérebro de um intelectual notável com o de um negro zulu e concluiu que a diferença de proporção entre o cérebro de uma pessoa inteligente e um africano é a mesma que a deste último em relação a um gorila, um argumento que lhe pareceu suficiente para sustentar, a partir das diferenças de mensuração do volume cerebral, a tese de que os negros estão bem mais próximos aos ancestrais sub-humanos do que aos brancos.

O conjunto de exemplos apresentado nesta seção, compilados na obra de Haller (1971), ajuda-nos a refletir sobre os cuidados a serem tomados no que concerne aos critérios de aceitação do conhecimento científico. Por mais absurdas que possamos considerá-las nos dias de hoje, as teorias sobre as diferenças raciais acima aludidas já foram consideradas cientificamente justificadas e uma parcela importante da comunidade científica foi incapaz de se dar conta de que as conclusões respaldadas pelo que se supunha ser o conhecimento científico da época acerca da evolução das espécies deveriam ser interpretadas como discursos legitimadores elaborados com a finalidade precípua de considerar a raça branca como a mais desenvolvida e as demais, em particular, a negra, como o resultado do processo de degenerescência da raça original ou, na melhor das hipóteses, uma raça inferior.

Exposições e zoológicos

A ausência de qualquer sensibilidade ou preocupação em relação aos diferentes pode ser exemplificado pelos espetáculos públicos nos quais os “anormais” eram expostos num autêntico circo de aberrações, no sentido literal da expressão. Anões, obesos, africanos, indígenas, bosquímanos, uma fila de gente com formas, altura, estrutura morfológica, cor de pele, modos de fala e estilos de vida diferentes se tornaram objeto de curiosidade e escárnio do público, que inundava as grandes feiras e desembolsava os centavos de praxe para assistir ao incessante desfile dos ‘infra-humanos’.

O exemplo de Ota Benga ilustra, da pior maneira possível, como eram obtidos os exemplares desta fauna exótica exibida ao público (Bradford & Blume, 1992). Originário da floresta tropical da hoje República Popular do Congo, Benga foi capturado, após ter a aldeia incendiada e a família morta, durante a incursão de uma tribo inimiga, e tomada como escravo por uma tribo fiel ao rei Leopoldo, da Bélgica, nação que dominava o então Congo Belga. Permaneceu em regime de escravidão até ser adquirido por um santo homem, o missionário Samuel P. Werner, que recebera a missão de “contratar” alguns pigmeus, que então despertavam um interesse popular extraordinário, para serem exibidos na Exposição de St. Louis, de 1904. Benga não apenas se juntou aos esforços do missionário, como também convenceu alguns dos seus, que se encontravam nas mesmas condições, a demonstrarem, na exposição, o autêntico modo de vida africano. Finalizada a mostra, volta à África com o missionário, onde permanecem por um ano e meio, antes de retornarem a Nova Iorque. O missionário-explorador, ao não conseguir vender a coleção de objetos adquiridos durante o tempo de peregrinação na África, declara falência e o “acervo” é apropriado por uma companhia seguradora. Antes de voltar para a sua Carolina do Sul natal, o missionário deixa Benga aos cuidados dos curadores do Museu Americano de História Natural. Os responsáveis pelos cuidados de Benga, eivados pela melhor das intenções, decidem doá-lo ao zoológico do Bronx, onde passa a ocupar uma jaula, tendo como companheiro de residência um sisudo orangotango. Retirado do zoológico e após trilhar por um sem-número de instituições de caridade, Benga finalmente veio alcançar a paz ao se infligir um tiro de revólver, desencantado por não poder mais voltar à sua terra natal. No website ‘Human Zoos The Invention of the Savage’ encontramos algumas imagens destes zoológicos.

Estas exposições atendiam uma dupla finalidade, a de exibir o estranho, para obter lucros, e a de educar, para obter frutos. A prática de trazer exemplares de povos conquistados para exibição sempre foi uma constante na história. Os romanos o faziam com os escravos conquistados na Ásia e na África; entre os conquistadores europeus era comum a prática de embarcar nativos nas caravelas para expô-los ao público civilizado. Cristóvão Colombo, Américo Vespúcio e Cabral, forneceram nativos para a Península Ibérica, Jacques Cartier, para a França, Martin Frobisher e James Cook, para a Inglaterra, em uma época em que que não se hesitava em retirar os nativos do solo natal para levá-los a terras distantes, para o deleite de imperadores, aristocratas e súditos.

O alemão Carl Hagenbeck fez fortuna com a aquisição de animais exóticos para serem vendidos a zoológicos e, com um tino de negociante acima do comum, percebendo uma queda no interesse do grande público pelos animais e a depreciação dessas commodities no mercado interno, iniciou o negócio de exposição de gente. Aconselhado por um amigo, incluiu uma família de lapões, suas armas, cabanas e trenós no que deveria ter sido uma exposição de renas. Percebendo o grande interesse do público em assistir pessoas de origens diferentes fazendo coisas habituais, em especial, a curiosidade do público em acompanhar uma mamãe amamentando cuidadosamente uma doce garotinha de quatro anos, o empreendedor não hesitou em encomendar ao seu fornecedor habitual, residente no Sudão, além de animais e de objetos de labuta diária, um bom número de nativos. E o show de Hagenbeck não parou. Esquimós, uma tropa constituída por elefantes e habitantes originários do então Ceilão, foram visitados pelo grande público, bem como pela realeza e pela fina flor da aristocracia (Rothfels, 2002). A segunda preocupação, com a educação do povo, também estava na origem destas exposições, extremamente populares no final do século XIX (Arteaga & El-Hani, 2010). Elas colocavam em manifesto que as raças humanas, segundo o ponto de vista da biologia e da antropologia, pertenciam a diferentes espécies, devendo os grupos não-brancos serem vistos muito mais como pertencentes à categoria dos símios do que a dos humanos.

Uma mãozinha para a natureza

O substrato teórico para estas aproximações “científicas” era a teoria eugenista, fortemente associada ao nome do francês Joseph Arthur de Gobineau (1816-1882). Aristocrata por origem familiar e, como tal, renhido opositor da Revolução Francesa, poderia ser considerado um pessimista, ao acreditar que a humanidade tinha se enredado numa franco processo de decadência, impossível de ser interrompido, pois os europeus perderam a pureza do sangue ao misturá-lo com o das raças inferiores durante o período de expansão colonial. Neste sentido, também poderia ser considerado um ambientalista, ao acentuar que se os brancos tivessem permanecido nas suas fronteiras, sem se acercar de outros climas, o mundo por certo seria outro, e bem melhor (Banton, 1999). Gobineau considerava os negros inferiores e muito mais próximos à dimensão da animalidade do que a de humanidade, algo comprovado pela energia, vitalidade e sensualidade que os caracterizam. Apesar dessa vivacidade, a proximidade com o reino animal os condenariam a serem incapazes de diferenciar a virtude dos vícios e a desprezarem o valor da vida, não apenas as dos outros, como também as suas próprias vidas. Estes estereótipos diferiam dos atribuídos aos asiáticos, caracterizados como apáticos, sem energia, sem vontade e medíocres, porém obstinados. Em contrapartida, e ao contrário dos negros, eram respeitadores das leis, e se mostravam muito mais dedicados à reflexão do que à ação. O que dizer dos brancos, se comparados aos negros e os amarelos, senão que eram seres tão energéticos como os negros, embora com uma energia bem temperada pela inteligência? Muito além das qualidades que os diferenciavam dos negros, os brancos não eram tão impassíveis e sem propósito de vida quanto os amarelos e se diferenciavam por serem portadores de um senso de utilidade que os colocava acima das demais raças. Nunca esmoreciam, mesmo frente aos grandes obstáculos, superados facilmente graças ao uso engenhoso da extraordinária força física com que foram premiados (Biddiss, 1999). Por tudo isto, como não se esperar que os brancos possuíssem uma tendência inata que aliada a uma clareza insofismável os obrigavam as se reconhecer como uma raça superior às demais?

Infelizmente, para os brancos, lamentou-se Gobineau, a hibridização conduziu esta raça extraordinária a caminhar em direção à decadência. O sangue se tornou conspurcado pelos casamentos interraciais; as virtudes desapareceram, inundadas pelo sangue contaminado. Por serem incapazes de se furtar ao impacto de dois instintos contraditórios, a lei da atração, que impelia as pessoas de uma raça a demonstrarem uma doentia curiosidade sobre e se sentissem sexualmente atraídas por aquelas de raças distintas, e a lei da repulsão, que imporia que mesmo atraídas as pessoas sentissem ojeriza ao estabelecer contatos íntimos com as de outras raças, a civilização europeia ocidental estava definitivamente fadada ao extermínio, pois o efeito destas duas leis condenara inelutavelmente a raça branca a uma contínua e inevitável degenerescência (Poliakow, 1999).

 Muito pensadores, no entanto, não acolheram a perspectiva pessimista do taciturno Conde Gobineau, pois vislumbravam uma alternativa para salvar o mundo ocidental da quase inevitável decadência. A tese do eugenismo foi o exemplo mais conhecido deste sistema de crença e ofereceu fundamentos para o desenvolvimento de muitos estereótipos. O inglês Francis Galton (1822-1911), primo de Charles Darwin, cunhou o termo eugenismo, cuja origem retroage ao grego, e se refere à vaga noção de bem-nascido, definindo-o como um saber destinado a limitar a força do acaso, substituindo-o por um controle social e científico destinado a aperfeiçoar a raça humana, afastando-a do desvirtuamento proporcionado pela miscigenação (Kevles, 1985).

A ideia de eugenismo por certo não era nova, pois Platão, na antiga Grécia, assinalara a importância de casamentos bem arranjados para o aperfeiçoamento da sociedade, pois a descendência gerada por essa instituição deveria ser objeto de interesse e controle por parte do Estado. Esta ideia ganha um forte respaldo com a popularização da obra de Charles Darwin sobre a evolução das espécies por meio da seleção natural, na qual se postulava que o processo de evolução acarretaria um aperfeiçoamento consistente na qualidade dos organismos vivos. Esta evolução, no entanto, perdera força nas sociedade modernas, pois os avanços médicos, aliados às iniciativas de caridade pública e privada, acarretaram a interrupção do processo de seleção natural e proporcionaram, desafortunadamente, um crescimento extraordinário no número de incapazes, idiotas e doentes, que não apenas não tiveram a existência ceifada antes de alcançarem a idade reprodutiva, como também se lhes permitiram a união sexual com outros degenerados, favorecendo ainda mais a sobrevivência de uma enorme legião de humanos inferiores. Se esse era o retrato da maioria da população, no polo oposto, as camadas superiores, regidas por um ideal de paternidade responsável, estavam gerando muito poucos descendentes. Qual o resultado deste duplo movimento, senão a prevalência de um modelo de sociedade cada vez mais imersa na degeneração?

Se o problema era de dupla ordem, um número cada vez mais reduzido de pessoas com características superiores e um acréscimo considerável de pessoas nas camadas inferiores, o programa eugenista deveria se desdobrar em duas grandes direções, o eugenismo negativo, cujo desiderato fundamental envolvia desencorajar os inferiores a gerarem descendência, e o positivo, destinado a encorajar as pessoas superiores a terem filhos, no maior número possível e o quanto antes puderem.

De onde surgem estas ideias? Galton publicara em 1869 a obra o Gênio Hereditário, na qual sustentara que as pessoas já nascem com traços fixos e as que alcançaram sucesso na vida o fizeram por terem herdado hereditariamente traços que os favoreceram. O inverso seria igualmente verdadeiro para os pobres, degenerados e fracassados, donde a necessidade de impedir que a plebe transmitisse as suas taras hereditárias. Uma leitura breve e superficial em um compêndio das pessoas de sucesso, supunha Galton, seria suficiente para demonstrar que seriam encontradas quase que exclusivamente entradas relativas às pessoas brancas, dado que estas seriam mais preparadas pela natureza para alcançar o sucesso, um resultado nada dependente do ambiente. As diferenças de qualidade seriam inerentes às próprias raças, concebendo-se uma hierarquia na qual os brancos ocupavam o topo, os negros se posicionavam dois degraus abaixo e os aborígenes australianos estariam numa posição ainda pior. No interior de cada grupo racial também poderiam ser identificadas diferenças hierárquicas, com os gregos da Antiguidade, como não poderia deixar de ser, ocupando a posição mais privilegiada entre os brancos, sendo importante assinalar o quanto o fato das mulheres de Atenas não serem muito chegadas ao casamento e à procriação tenha levado os excepcionais gregos a procurarem parceiras em outras terras, encontrando-se aí a raiz da decadência da civilização grega (Paul, 2008).

O movimento eugenista granjeou espaços e muito sucesso, sobretudo na primeira metade do século XX, na Europa, nos países escandinavos, na Ásia e nas Américas. No Brasil, o movimento esteve imerso numa série de debates, alguns de natureza científica, a exemplo do conflito entre o neo-lamarckismo e o mendelianismo, outros relacionados com a ideologia racial, no qual se discutia se os negros deveriam ser segregados ou assimilados, assim como sobre as múltiplas propostas de ação política, relativas a temas como a higiene pública, a proteção materna, a legislação do trabalho e o controle de imigração (Stepan, 1990).

A tentativa de aperfeiçoar a raça brasileira, mediante a implementação de um programa eugenista, foi concebida segundo a perspectiva da chamada eugenia positiva, consonante com a suposição de que qualquer raça poderia ser aperfeiçoada desde que a população, com o auxílio dos agentes públicos, se esmerasse em obter uma descendência saudável, o que dependeria da realização de matrimônios eugenicamente comprovados e da adoção de um ideal de paternidade consciente e responsável. Estas ações estavam subordinadas a um princípio eugenista, a tese do branqueamento, bastante popular entre os estudiosos brasileiros nos anos 1920 e 1930. O ideário eugenista contemplava comungar os esforços de políticos e das elites nacionais no sentido de fazer desaparecer de forma gradual, mas ininterrupta, o sangue negro e indígena da população brasileira, tornando-a, em algumas décadas, eminentemente branca. Se a própria natureza se encarregava de dar um empurrãozinho nessa direção, afinal os negros e indígenas eram vistos como mais propensos a serem dizimados por epidemias e doenças endêmicas, manifestavam uma clara preferência pela branquinha e a população se encontrava dispersa e desorganizada após o fim da escravidão, seria necessário dar um impulso adicional ao trabalho da natureza e implementar políticas imigratórias destinadas a trazer genes brancos – europeus, não asiáticos, a se considerar o ácido debate sobre a conveniência de proibir a entrada de colonos japoneses no país – para purificar o sangue nacional. Este ideário de extirpação da parte gangrenada, se acarretava a preocupação em criar um futuro para a nação, um futuro que deveria ser branco e ocidentalizado (Schwartz, 1994), também não desconsiderava o papel exercido pelas condições sociais, em particular, pelas condições sanitárias e de saúde pública. Nesse contexto, nem o clima, nem a raça, nem mesmo a saúva, poderiam ser considerados os responsáveis pelo surgimento do personagem estereotipado do Jeca, e levou parte do movimento eugenista brasileiro a considerar a saúde pública um elemento bem mais decisivo que a seleção natural ou a genética (Stepan, 1990).

A afirmação da raça

A ampliação da importância dos discursos raciais é inseparável da reação dos intelectuais negros que vieram a público marcar um posicionamento contrário às teorias hierarquizadoras. De acordo com Banton (1999), um dos primeiros representantes deste movimento intelectual foi o médico James Horton, formado na Escócia, mas nascido em Serra Leoa, que em um livro publicado em 1868 desafiou as teorias raciais defendida pelos antropólogos da época. A esta obra se seguem várias outras, publicados na Europa e nas Américas nos anos imediatamente posteriores ao livro de Horton, nas quais se acentua cada vez mais a crítica às teorias raciais até então prevalentes. Se a divulgação e circulação destas ideias não parece ter sido suficiente para exercer um efeito de contraposição aos modelos teóricos hegemônicos, elas ganham importância por indicar, na origem, o surgimento de uma perspectiva intelectual que se imporá na segunda metade do século XX, com o trabalho de pensadores que expressamente deixaram claro o quanto qualquer mudança da situação dos negros nas sociedades racistas será possível de ser alcançada apenas quando os próprios negros – ou os demais vilipendiados – tomarem nas mãos os seus próprios destinos.

Conclusões sobre os estereótipos no período contemporâneo

A expressão dos estereótipos no mundo contemporâneo se tornou inseparável das teorias científicas que tomaram corpo com a finalidade de oferecer justificativas para o domínio colonial e a legitimação as hierarquias sociais e raciais. Os estudos subordinados à perspectiva do darwinismo social ganharam destaque, tendo sido adotado por uma parcela científica dos estudiosos. Numa perspectiva distinta, assiste-se ao surgimento de uma nova sensibilidade social e científica, a partir da qual se torna possível a formulação e a difusão de teorias e obras destinadas a combater as teorias que respaldavam as visões hierarquizadoras ainda predominantes no final do século XIX.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s