4.5. Modelos? Para que?

As evidências aqui apresentadas sugerem que os estereótipos podem ser aplicados aos três entes sociais e não deixam dúvidas a respeito da necessidade de considerar como a entitatividade e as teorias implícitas contribuem para um entendimento mais rigoroso dos estereótipos. Essa solução permite uma melhor diferenciação dos estereótipos em relação a outros conceitos correlatos; sem a entitatividade, os referentes do julgamento seriam estritamente os entes individuais, não ocorrendo, portanto, a desindividualização, uma operação mental imprescindível para a formação dos julgamentos estereotipados e, sem a dimensão das teorias implícitas, os entes seriam apenas interpretados como protótipos, sendo impossível aplicar os predicativos que constituem o próprio julgamento estereotipado.

As evidências discutidas também apontaram para a necessidade de modificar a definição inicial que adotamos na qual sugerimos que os estereótipos são crenças socialmente compartilhadas a respeito de determinados entes, em geral membros de uma categoria social, que têm por referentes suposições sobre a homogeneidade grupal e sobre os padrões de comportamento comuns adotados pelos membros do grupo e cujos fundamentos são encontrados nas teorias implícitas a respeito dos fatores que determinam os padrões de conduta dos indivíduos. Face aos resultados previamente expostos, torna-se imperativo aperfeiçoar essa definição. Em primeiro lugar, em que pese a tradição de trabalho na área, as categorias sociais não podem receber o papel de destaque recebido na definição original, pois os grupos sociais foram alvo de estereotipização com a mesma intensidade que as categorias sociais. Em relação ao domínio da entitatividade, a homogeneidade percebida não parece ser mais importante do que a direção comum, que se apresentou como a dimensão entitativa aludida com mais frequência. Finalmente, em relação às teorias explicativas, a ênfase em explicações causais em detrimento das teorias fundamentadas na intencionalidade também não se mostrou justificada, uma vez que elementos como a história causal das razões e, sobretudo, os fatores habilitadores foram utilizados com mais frequência que as explicações com base em traços ou essências para a elaboração de explicações. Na versão modificada da definição de estereótipos continuamos a considerar que eles cumprem a dupla função de organizar a realidade social e fornecer elementos de justificação e de legitimação dos arranjos sociais, mas julgamos importante defini-los nos seguintes termos: sistemas de crenças socialmente compartilhados, elaborados com base em teorias que se sustentam em arrazoados de natureza intencional ou em teorias explicativas causais que se referem a padrões comuns de conduta ou à homogeneidade entre membros de um ente social.