3.5. Sínteses e pluralidades

Ao contrário das seções anteriores, nas quais a prioridade recaiu nos eventos e teorias formuladas no século XX, na presente seção nos dedicaremos a identificar as tendências que marcaram o estudo dos estereótipos nas duas primeiras décadas do século atual. Inicialmente passaremos em revista os primeiros manuais sistemáticos dedicados ao assunto. Esta decisão decorre do entendimento de que, embora o campo de estudo dos estereótipos contasse com compêndios de leituras (Austin, & Worchel,1979; Mackie, & Hamilton, 1993; Macrae, Stangor, & Hewstone, 1996; Oskamp, 2000), obras monográficas de excelência (Dovidio, & Gaertner, 1986; Fraser & Gaskell, 1990; Hamilton, 1981; Jost, & Hamilton, 2005; Quinn, Macrae, & Bodenhausen, 2003; Spears, Oakes, Ellemers, & Haslam, 1997), assim como uma forte tradição de revisão da literatura em manuais gerais de psicologia social (Brewer, & Brown, 1998; Fiske, 1998; Harding, Proshansky, Kutner, & Chein, 1968; Operario, & Fiske, 2004; Stephen, 1985) e em periódicos generalistas e especializados (Gaynes, Jr. & Reed, 1995; Hilton, & Von Hippel,1996; Messick, & Mackie, 1989), os estudiosos ainda se ressentiam da ausência de manuais especializados, responsáveis por sistematizar as principais teorias, os grandes achados empíricos e as tendências mais frutíferas de pesquisa.

Dedicaremos algumas páginas à análise dos conteúdos destes manuais na esperança de que ela nos ajude a entender o estado em que se encontra o estudo e a pesquisa dos estereótipos na atualidade. A análise dos manuais aponta para um cenário cuja marca mais característica é a diversidade, pois neles são encontrados conteúdos que extrapolam os limites tradicionais da psicologia social e abrangem contribuições oriundas de campos do conhecimento tão diversos como a biologia, as neurociências, a psicologia do desenvolvimento, a psicologia dos processos grupais, a psicologia política e a sociologia. A partir do momento em que os pesquisadores se consideram capazes de identificar, selecionar e, em seguida, enumerar estas diversas contribuições, surge uma questão ainda mais difícil de ser enfrentada, a de organizar as contribuições em torno de uma estrutura teórica ordenada e inclusiva, o que demanda o desenvolvimento de modelos metateóricos mais elaborados, algo facilitado pela elaboração e popularização de aplicativos computacionais a partir dos quais passam ser submetidos à prova modelos multiníveis e hierárquicos (Gelman, & Hill, 2007; Hox, 2010; Verbeke, & Molenberghs, 2013).

 Somente a partir do entendimento de que a realidade deve ser interpretada como multifacetária e complexa é que se torna viável reconhecer a necessidade de articular os fenômenos que se manifestam nos vários planos. Esta articulação implica em destituir a importância dos modelos centrados na noção de níveis de análise, pois estes apenas se dedicam a considerar um plano de cada vez, preocupando-se, sobretudo, em assinalar as viabilidades e limites de cada um dos planos de tratamento do problema em estudo. Os novos desdobramentos teóricos passam a exigir a adoção de um entendimento mais amplo a respeito da multidimensionalidade de todo e qualquer fenômeno psicológico e social, o que demanda a construção de modelos explicativos nos quais as contribuições de cada um dos domínios explicativos sejam integradas de forma simples e organizada.

3.5.1. Revisões sistemáticas

O conteúdo dos três principais manuais, representados na figura 78, servirá como fio condutor dos argumentos apresentados na presente seção relativos ao esforço de síntese conduzido pelos pesquisadores da área. O primeiro manual sistemático sobre os estereótipos, denominado simplesmente Psychology of stereotyping, foi publicado em 2003 por David Schneider, professor da Rice University. Amplamente referido e, principalmente, elogiado pelos principais pesquisadores do campo, exerceu um forte impacto na maneira como as obras posteriores passaram a distribuir os capítulos e na determinação das ênfases analíticas adotadas pelos sistematizadores, terminando por se impor como um modelo a partir do qual foram organizados os manuais posteriores.

Figura 78: primeiros manuais sobre a psicologia dos estereótipos

Composto por 15 capítulos, o manual inicia com uma excelente discussão sobre as inúmeras dificuldades encontradas pelos pesquisadores na definição dos estereótipos e aponta com insistência a necessidade de diferenciar este conceito dos outros a ele relacionados. O segundo capítulo, dedicado aos métodos de pesquisa, acentuou a diferenciação entre os métodos diretos e indiretos de estudo. O terceiro capítulo abandona a ênfase metodológica ao introduzir a perspectiva da categorização social e, após discutir as diferenças na categorização de objetos naturais e sociais, é finalizado com a discussão sobre a categorização de pessoas, bem como sobre os diversos efeitos da categorização tanto para o percebedor quanto para os alvos. Os três capítulos subsequentes, caudatários da tradição teórica da cognição social, se voltaram para a discussão da utilização dos esquemas mentais durante os sucessivos estágios de processamento da informação, assim como identificar as relações entre os estereótipos e as teorias implícitas da personalidade (Dweck, 2012). O capítulo 6, ainda na perspectiva cognitiva, direcionou-se para a discussão dos estereótipos como hipóteses, probabilidades e expectativas a respeito da conduta de indivíduos percebidos como associados a determinadas categorias sociais (Fiedler, & Walther, 2003).

A importância dos grupos sociais na discussão dos estereótipos foi acentuada no capítulo 7, onde foram enfatizadas as questões suscitadas pelas relações intergrupais, concebida em termos da diferenciação entre endogrupo e os exogrupo, acentuando-se, em particular, o tratamento do favorecimento endogrupal e os efeitos deletérios da percepção de homogeneidade. O capítulo 8 se voltou para a discussão das relações entre os estereótipos, os preconceitos e a discriminação, levando em consideração a perspectiva que denominamos previamente como atitudinal. Os capítulos 9 e 10 foram dedicados, respectivamente, às dinâmicas da formação e desenvolvimento dos estereótipos e ao processo de mudanças e redução dos estereótipos. A ênfase do capítulo recaiu na análise de três grandes estratégias de diluição dos estereótipos e redução das atitudes preconceituosas; uma na qual estavam envolvidas mudanças na categorização (recategorização, categorização cruzada, individualização etc.), outra que se centrava na hipótese do contato e, por fim, a análise da influência da mídia, da educação e dos programas de intervenção na redução de estereótipos e preconceitos. Os capítulos 11 a 14 foram dedicados à discussão dos conteúdos estereótipos sexuais, etários e raciais, bem como na discussão dos estigmas. No capítulo conclusivo Schneider acenou para o futuro da pesquisa sobre os estereótipos, acentuando a importância da discussão dos estereótipos enquanto dispositivos de generalização e o quanto isto poderia significar em termos de acurácia e aceitação social das representações estereotipadas.

No fim da primeira década do século XXI a editora Psychology Press publicou o primeiro handbook ostensivamente dedicado ao tema, ao qual seguiu uma segunda edição, bem mais parcimoniosa, publicada poucos anos depois (Nelson, 2009; 2016). A primeira edição, prestigiada pela participação dos mais importantes pesquisadores da área, foi organizada em 26 capítulos, o que por si só indica o crescimento da teoria e da pesquisa, assim como representa um bom indicador da importância do estudo dos estereótipos na psicologia contemporânea

Após o capítulo introdutório que seguiu os moldes inerentes a uma apresentação histórica geral de uma obra temática, o manual oferece um capítulo dedicado à discussão do desenvolvimento das atitudes étnicas e raciais nas crianças. O capítulo 10 também ostenta um caráter mais geral e entrega aos leitores uma discussão bem conduzida a respeito da acurácia dos estereótipos. A definição dos estereótipos como generalizações indevidas sobre os grupos sociais torna-se objeto de contestação, ao tempo em que se defende a tese de que a acurácia dos estereótipos deve decidida a partir de dados empíricos. Para contribuir com este esforço, o capítulo fornece alguns critérios que podem ajudar a estimar o grau em que os estereótipos constituem uma representação adequada ou não dos grupos sociais aos quais eles se referem e acena com os meios de conduzir esta avaliação.

Os métodos de pesquisa dos estereótipos foram abordados em três capítulos. Destes, os capítulos 16 e 17 foram dedicados aos métodos indiretos recentemente incorporados pelos psicólogos sociais numa tentativa de enfrentar os limites impostos pelos métodos de autorrelato. Os estudos conduzidos em consonância com as medidas dos potenciais relacionados a eventos permitem identificar a ordem temporal em que os percebedores formam e gerenciam as impressões sobre os alvos dos grupos objeto de estereótipos e preconceitos mediante a mensuração de sinais elétricos associados à ativação dos neurônios, nos quais se mensuram indicadores como a amplitude da onda cerebral e a latência da resposta. O capítulo 18, ao contrário dos anteriores, dedicados aos métodos emergentes de pesquisa, apresenta uma breve revisão dos métodos tradicionais de pesquisa, diretos e indiretos, indicando os pontos fortes e os limites de cada um deles. Entende-se o reconhecimento acerca da necessidade de utilização de recursos diretos e indiretos como uma clara consequência da admissão de que os estereótipos e preconceitos conhecem diferentes modos de expressão e que nenhum método em particular seria capaz de estudá-los na complexidade que eles exigem.

Um bloco de capítulos foi dedicado a teorias gerais sobre os estereótipos e preconceitos, como é o caso do terceiro, no qual se aborda a teoria da ameaça intergrupal e se apresentam os antecedentes e as consequências das ameaças intergrupais. O quarto capítulo, também voltado para as teorias psicossociais sobre os estereótipos e preconceitos, discutiu os processos automáticos e controlados e em que medida eles influenciam os estereótipos e preconceitos. Foram apresentadas evidências do impacto dos automatismos, da sua variabilidade e maleabilidade, bem como discutidas as formas pelas quais eles interferem nos vieses de julgamento. O capítulo também discute as distintas modalidades de controle dos automatismos, enfatizando técnicas como a individualização, a correção, a supressão de pensamentos intrusivos, os recursos intencionais e a autorregulação. O capítulo procura acentuar as relações de interdependência entre automatismos e controle e como elas podem interferir na expressão dos estereótipos e preconceitos. O capítulo 6 retoma a discussão do tema do automatismo e se dedica a identificar as possibilidades e os meios pelos quais seria possível, segundo a perspectiva do percebedor, controlar a expressão dos estereótipos e preconceitos. Entre os mecanismos individuais foram destacados os motivacionais e os cognitivos e, entre os fatores contextuais, a ênfase recaiu sobre tópicos como as interações interpessoais, o comportamento verbal e não verbal, os afetos integrupais e os contextos institucional e cultural. O capítulo 13 retoma a discussão do automatismo, enfatizando o quanto algumas estratégias podem ser intencionalmente implementadas para impor algum controle às formas automáticas de expressão dos estereótipos e preconceitos. O ponto de partida reside na admissão da existência de crenças e atitudes implícitas e discorre sobre o quanto os percebedores não se encontram em condições de reconhecer os seus piores pensamentos e sentimentos. Sendo obrigados a admitir que vivem numa sociedade na qual os estereótipos e preconceitos estão presentes, os percebedores terminam por reconhecer que estes são muito mais um problema do meio em que vivem do que deles individualmente. O capítulo ainda indica os recursos pelos quais os percebedores procuram controlar a expressão das crenças e atitudes preconceituosas, particularmente no que se refere aos mecanismos que podem não apenas exacerbar, mas também limitar os efeitos dos vieses de julgamento.

O capítulo 7 permanece no campo das matrizes teóricas e se debruça sobre a teoria das mudanças de padrões, um recurso conceitual utilizado para explicar de que forma a passagem de um padrão de julgamento subjetivo para um outro que apresenta uma dimensão mais objetiva é utilizado como um meio para a manutenção dos estereótipos e preconceitos. O capítulo 8, seguindo a tradição de pesquisa sobre a ameaça dos estereótipos, se volta para a análise e identificação dos fatores que interferem na ameaça à identidade, especialmente daqueles que determinam a redução do desempenho, tanto numa dimensão a curto prazo quanto na própria trajetória de vida das pessoas alvos de julgamentos estereotipados. Foram compulsados e revisados os fatores relacionados com a ativação das identidades sociais, . Foram compulsados e revisados os fatores relacionados com a ativação das identidades sociais, assim como discutidas as consequência de salientar os aspectos positivos ou negativos das categorias alvos do julgamento. O capítulo é finalizado com a identificação e a avaliação de algumas estratégias elaboradas com a finalidade de reduzir o impacto das ameaças à identidade. Também relacionado com as matrizes teóricas, o capítulo 15 foi dedicado à teoria do gerenciamento do terror que, conforme assinalamos, possui uma caráter existencial, voltando-se para estimar as consequências do reconhecimento da mortalidade nas relações intergrupais e, em particular, como o gerenciamento do temor a experiências com a morte e com a perspectiva de, mais cedo ou mais tarde, vir a morrer se relaciona com os estereótipos e os preconceitos, assim como com as demais experiências que marcam a existência humana.

O capítulo 5, dedicado ao tema da discriminação, inicia-se com uma questão fundamental: qual a melhor estratégia a ser adotada por quem se sente discriminado, ficar a atento e vigilante aos sinais de existência da discriminação ou minimizar estes sinais evitando, consequentemente, o sofrimento psíquico de se reconhecer vítima de um tratamento injusto? Posteriormente, discute-se os moderadores da percepção de discriminação, enfatizando o papel exercido pelo evento, pela situação e pela pessoa, para finalizar com a discussão das consequências de ser discriminado. O tema é retomado entre os capítulos 19 e 23 que abrangem diferentes formas de expressão dos estereótipos, incluindo o racismo, o sexismo, o idadismo, o preconceito quanto à orientação sexual e o preconceito em relação aos obesos. Todos os capítulos acentuam o quanto os estereótipos e preconceitos estão difundidos na sociedade, analisam como eles vêm sendo modificados em função das mudanças normativas que se impuseram nas últimas décadas em função do esforço empreendido pelos grupos de pressão, consideram as consequências físicas, psicológicas e sociais que a experiência de ser alvo de estereótipos e preconceitos trazem para os alvos e acenam com as estratégias que têm sido adotadas para combatê-los.

O capítulo 9 se volta para o nível grupal de análise, particularmente ao discutir a percepção de entitatividade e de homogeneidade e especular como estes dois processos se associam com o desenvolvimento dos estereótipos. O capítulo 11 contempla o estudo das diferentes identidades sociais, tais como elas se manifestam no contexto das relações intragrupais. Postula-se uma diferença fundamental em função da perspectiva de percebedor, pois esta pode se direcionar para um modelo centrado no eu, no qual o objetivo fundamental é o favorecimento de si e do próprio grupo às custas da desvalorização dos membros do exogrupo, ou para um sistema em defesa do grupo, alcançável com o desenvolvimento de práticas destinadas a oferecer suporte, compreender e cuidar dos outros. O acolhimento de cada um destes sistemas de respostas gera consequências tanto imediatas quanto a longo prazo, sobretudo relativas à maneira como os percebedores conseguem se relacionar e gerenciar encontros com os grupos objeto de estigmas sociais, seja por enfatizar modos de enfrentamento que levam a uma espiral ascendente, no qual se privilegia as características positivas dos grupos e das relações, seja por permitir que as relações se encaminhem em direção a uma espiral descendente em que os estereótipos negativos e os preconceitos encontram pleno espaço para manifestação.

O capítulo 12 se organiza em torno da distinção entre as pessoas que estão posicionadas numa zona de conforto e, como tais, são detentoras de alguma forma de poder, e aquelas menos poderosas. Centrando-se na análise da expressão dos estereótipos a respeito das mulheres nas áreas de ciências, matemáticas e engenharias, o capítulo passa em revista alguns estudos voltados para a discussão das noções de poder, relações intergrupais e categorização social e apresenta alguns estudos clássicos nos quais se postula que as pessoas com baixo status e pouco poder são bem mais motivadas a adotar o raciocínio categórico que aquelas mais poderosas (Fiske, 1993). Consequentemente, se dá como assegurado que se os poderosos tendem a utilizar a raciocínio categórico e a perceber da maneira mais estereotipada possível as pessoas que pertencem aos grupos-alvo de estereótipos, os menos poderosos tendem a adotar modos de julgamento mais cuidadosos, refletindo com esmero e considerando as características individuais das pessoas que supostamente são agraciadas com o poder. Ao individualizar os poderosos, os desfavorecidos tendem a criar a ilusão de que são capazes de fazer previsões sobre as condutas dos poderosos, o que favorece um aumento na percepção de que dispõem de algum poder na relação. Recomenda-se, no entanto, analisar cuidadosamente esta tendência geral, pois ela se expressa de forma mais acentuada em algumas situações ou pessoas do que em outras.

Ainda na perspectiva das relações entre os grupos, o capítulo 14 foi dedicado à teoria das emoções intergrupais, posicionando-se numa perspectiva voltada para relativizar a importância das abordagens puramente cognitivas ao enfatizar a importância das emoções no âmbito da vida humana e, em particular, das relações intergrupais. As emoções, assim concebidas, estariam fortemente associadas com o processo de categorização social e com as identidades sociais, devendo ser analisadas de forma muita mais complexa do que simplesmente atribuir emoções positivas às experiências com o próprio grupo e negativas às experiências com os membros dos exogrupos. Reconhece-se que as emoções desempenham um papel fundamental nas ações grupais e devem ser mais valorizadas nas análises das relações intergrupais do que têm sido até então.

Os capítulos finais, dedicados às perspectivas de intervenção, recensearam as principais estratégias aventadas para diluir os efeitos dos estereótipos e a minorar as atitudes negativas em relação aos grupos e categorias sociais alvos de tratamento injusto. Trata-se, como se pode imaginar, de um problema de difícil solução, uma vez que as origens dos estereótipos e preconceitos são variadas, as formas de manifestação são muito heterogêneas e os grupos-alvo são os mais diferentes possíveis. A solução, entretanto, não é simples, nem única e muito menos garantida. As estratégias devem ser entendidas, sobretudo, como intervenções práticas, quase sempre testadas em contextos artificiais e fundamentadas em modelos teóricos não necessariamente elaborados com a finalidade de diluir estereótipos e reduzir preconceitos. O capítulo 24, por exemplo, enfatiza as contribuições da teoria da identidade social e parte da suposição que os estereótipos e preconceitos se nutrem de processos psicossociais básicos como os mecanismos de valorização do endogrupo e desqualificação dos exogrupos. Uma vez que uma identidade local oferece a base para a expressão dos estereótipos e dos preconceitos, torna-se cabível imaginar que a passagem de uma identidade local para uma outra de amplo espectro, uma identidade social comum, poderia gerar resultados satisfatórios em termos de diluição dos estereótipos e preconceitos. Sustenta-se que a assunção de um novo padrão de identidade seria capaz de proporcionar mudanças positivas no âmbito das relações intergrupais, envolvendo uma maior atitude de comparação, o que favoreceria o desenvolvimento de novas formas de contatos, tanto no plano interpessoal quanto na dimensão intergrupal.  O capítulo 25, dedicado a autorregulação dos estereótipos e preconceitos, encontra os fundamentos em estratégias de intervenção centradas no entendimento de que os sistemas normativos impõem que as pessoas evitem expressar e reconheçam como indesejáveis suas próprias crenças estereotipadas e atitudes preconceituosas, o que as leva a procurar minorar os efeitos ou fazer desaparecer estas tendências negativas. Entre as estratégias foram consideradas a supressão de pensamentos que, sabidamente, pode suscitar um efeito rebote indesejável, e a autorregulação, que embora seja dependente de uma série de condições de difícil alcance, a exemplo do esforço e do automonitoramento constante, tem se mostrado mais promissora do que a pura e simples supressão de pensamentos e emoções indesejáveis.

O manual organizado por Dovidio, Hewstone, Glick e Esses (2010) apresenta uma estrutura de textos mais parcimoniosa, ordenando os capítulos em torno de uns poucos eixos temáticos, uma estrutura textual também utilizada na composição da segunda edição do manual de Nelson (2013). A organização dos capítulos também oferece uma boa síntese do estado dos estudos sobre os estereótipos e preconceitos no início da segunda década do século XXI. A primeira parte consubstancia uma apresentação geral, na qual foram apresentadas algumas considerações iniciais sobre os tópicos dos estereótipos, dos preconceitos e da discriminação. Na sequência encontramos um capítulo de natureza histórica, além de um subsequente que apresenta os métodos de pesquisa diretos e indiretos. As discussões expostas nos três capítulos se encarregaram de oferecer um breve panorama do estado atual da pesquisa na área, preparando o leitor para os capítulos temáticos.

Na segunda parte do manual foram apresentadas e discutidas as principais contribuições relacionadas com os processos básicos considerados fundamentais para o entendimento de como os estereótipos e os preconceitos se formam e se expressam. Alguns capítulos contemplam tópicos intrinsecamente relacionados com disciplinas de base biológica, a exemplo dos mecanismos neurais e evolutivos. Também encontramos nesta parte do manual um capítulo dedicado às relações entre o desenvolvimento ontogenético e a expressão dos estereótipos e dos preconceitos, abrangendo a formação dos estereótipos na infância e o percurso que os convertem em uma característica comum entre os adultos. No que diz respeito aos processos psicológicos básicos, encontramos capítulos que abordam a influência dos componentes cognitivos, dos afetivos e dos motivacionais, além de um outro dedicado ao tópico das diferenças individuais. No âmbito dos processos sociais, encontramos capítulos dedicados à identidade social e à categorização, à competição entre os grupos, às influências das estruturas sociais e um último dedicado às influências dos meios de comunicação de massa na formação e difusão dos estereótipos e preconceitos.

A terceira parte do manual é dedicada à expressão dos estereótipos, preconceitos e da discriminação, diferindo um pouco do conteúdo encontrado no manual de Nelson. Com este último compartilha capítulos sobre o racismo, o sexismo e o heterossexismo e, embora não inclua um capítulo específico sobre os estereótipos e preconceitos em relação ao obeso, pode ser considerado mais abrangente ao contemplar temas como o das relações entre as atitudes e interações grupais, o das relações diádicas entre membros de grupos diferentes e o dos vieses relacionados aos imigrantes.

A quarta parte do manual contempla os impactos dos estereótipos e preconceitos na vida cotidiana e inclui tanto capítulos dedicados à análise dos mecanismos psicológicos quanto a discussão das influências sociais de maior escopo. No primeiro caso inclui um capítulo voltado para a discussão da ameaça dos estereótipos, um segundo voltado para a discussão dos mecanismos psicológicos utilizados pelos percebedores para fazer frente às ameaças encontradas no ambiente e, um terceiro, na mesma linha, dedicado à discussão dos meios encontrados pelos alvos para fazerem frente aos vieses a que se encontram sujeitos. No caso dos impactos sociais, encontramos dois capítulos, ambos voltados para a discussão dos vieses; um relativo aos que se manifestam nas instituições e outro referente aos vieses que se manifestam nos ambientes organizacionais, além de capítulos relacionados a influências mais distais como as políticas públicas e as disparidades no âmbito dos cuidados de saúde.

A parte V do manual, como não poderia deixar de ser, se dedica à apresentação e discussão das diferentes modalidades de enfrentamento aos estereótipos e preconceitos, incluindo um capítulo sobre as estratégias de autorregulação e de como elas podem ser ativadas para inibir os vieses de julgamento. Também entrega um capítulo dedicado às estratégias de enfrentamento dos estereótipos e preconceitos centradas na categorização social, no qual a ênfase é direcionada para a discussão das diferentes formas da identidade social, além de outro, especificamente sobre o processo de categorização social. A seção também inclui estratégias de escopo mais amplas, a exemplo do capítulo voltado para discutir os requisitos para que os contatos intergrupais possam contribuir para a redução dos estereótipos e preconceitos, além de um outro em que se discute como os estereótipos e preconceitos podem ser reduzidos mediante a implementação de estratégias de mobilidade individual. Um último capítulo é voltado para a análise das transformações e mudanças sociais de maior alcance e analisa como os estereótipos e preconceito podem ser reduzidos mediante estratégias coletivas de ação.

A partir da análise dos manuais acima referidos, bem como de capítulos sobre os estereótipos e preconceitos publicados em obras recentemente publicadas, podemos compor o seguinte cenário a respeito das dimensões de análises a serem consideradas na investigação científica atual dos estereótipos:

  1. Os agentes, a depender das circunstâncias, podem fazer questão de exprimir os estereótipos que acolhem, tentar inibi-los ou nem se dar conta de que os conteúdos estereotípicos foram ativados;
  2. Os alvos dos estereótipos podem ser percebidos como indivíduos, como parte de um agregado, como membros de uma ou mais categorias sociais, e como membro de um grupo social;
  3. Os eventos nos quais os estereótipos se manifestam podem ser intencionais e diretamente observáveis, intencionais mas não observáveis, não intencionais e diretamente observáveis e não intencionais e não observáveis;
  4. Os contextos, nos quais os agentes, alvos e eventos se posicionam, podem favorecer a expressão, inibir ou serem neutros em relação à expressão dos estereótipos.

 A integração destas diversas dimensões e das suas distintas formas de expressão se apresenta como um problema decisivo na pesquisa atual sobre os estereótipos. A análise histórica conduzida no segundo capítulo deixou claro que desde a antiguidade se reconhecia a necessidade de acentuar tanto a influência dos indivíduos quanto a do contexto social para identificar as diferenças entre os povos. Com o passar do tempo e as diferentes formas de organização social que caracterizou a trajetória da humanidade nos dois últimos milênios não apenas os fatores acentuados pelos antigos continuaram a influenciar a maneira pela qual concebemos as relações entre os grupos, como também foram introduzidos novidades e aperfeiçoamentos na maneira de se pensar estas relações.

Com o surgimento da ciência moderna e os avanços inerentes às ciências naturais e humanas, um novo padrão de complexidade passou a ser exigido na análise dos fenômenos naturais e humanos, ficando claro que a explicação de qualquer fenômeno deve se dar em função das circunstâncias particulares em que ele se exprime. Isto representou uma nova questão para os cientistas e, como não poderia deixar de acontecer, repercutiu numa questão central no campo de estudos dos estereótipos e dos preconceitos.

3.5.2. Como abandonar o mundo estratificado e se inserir num universo multidimensional?

Dentre as características da ciência moderna, uma chama particularmente a atenção, a multidimensionalidade, um conceito que imaginamos representar um avanço decisivo no desenvolvimento das explicações científicas. Uma das características mais importantes de qualquer domínio científico é o sistematismo, entendido como um princípio que sugere que as disciplinas científicas devem manter relações profícuas com as outras ciências, estabelecendo pontes interdisciplinares nas circunstâncias em que isso se fizer necessário. Eivados por este entendimento, apresentaremos, na esteira de Vallverdu (2016), a evolução da noção de causalidade tal como se apresenta na disciplina da epidemiologia, com a esperança de que esta analogia possa nos ajudar a entender os desenvolvimentos contemporâneos das pesquisas na área dos estereótipos.

Conforme apresentado na figura 79, as primeiras explicações a respeito das doenças foram elaboradas a partir de intervenção de entidades sobrenaturais. Explicava-se o surgimento de uma doença como a consequência da ação de forças mágicas ou sobrenaturais que poderiam ser domadas por indivíduos vocacionados a estabelecer algum tipo de relacionamento com as entidades situadas além do mundo natural. Ainda que no plano epistemológico o pensamento animista tenha perdido espaço com o sucesso das explicações naturalistas surgidas na Grécia antiga, este modelo de explicação das doenças ainda permanece em muitos meios, sobretudo nos grupos regidos por uma visão de mundo exacerbadamente religiosa. O apelo a causas como a magia, o enfeitiçamento, a bruxaria, as forças do além e as ações de entidades situadas no mundo dos espíritos tem sido registrado ao longo da história humana e ainda possui um poder de atrair adeptos que, em definitivo, não pode ser desprezado (Sherman, 1987). A crença em entidades não-naturalistas como fatores explicadores das doenças persistiu até a modernidade, como no caso da teoria dos miasmas, na qual os fundamentos se baseavam na crença de que o ar estava preenchido por entidades invisíveis, oriundas da deterioração da matéria viva, cujos efeitos nefastos seriam os principais responsáveis pelo surgimento das doenças.

Figura 79: diagrama simplificado da evolução dos modelos de epidemiologia

A hegemonia das explicações não naturalistas acerca das doenças se estabelece muito cedo na história humana. Conforme assinalamos ao nos referirmos à obra Ar, terra e locais, supostamente atribuída a Hipócrates e publicada no século V antes do presente, as doenças passaram a ser explicadas levando em consideração a dinâmica das relações entre os seres humanos e o ambiente físico, embora os modelos naturalistas de explicação das doenças apenas tenham se tornado hegemônicos a partir da perspectiva naturalizadora imposta pelo pensamento iluminista no século XVII, ganhando hegemonia no século XIX com as descobertas associadas aos fatores biológicos responsáveis pelas doenças infectocontagiosas, como a tuberculose ou a febre tifoide, produzidas respectivamente pelo bacilo de Koch e pela Salmonela enterica sorotipo Typhi. Uma formulação preliminar desta crença se assentava no entendimento de que o sucesso no controle das doenças dependia do isolamento do vetor e da implementação de ações compatíveis com a erradicação do elemento patogênico. Bastaria uma causa única e delimitável para explicar uma doença que poderia ser debelada de maneira relativamente simples, desde que o vetor fosse identificado e eliminado. O papel das vacinas, ao proporcionar o controle e a possível erradicação de muitas doenças epidêmicas e endêmicas, foi decisivo. Este resultado, obviamente, não se deveu exclusivamente às vacinas, mas também às novas descobertas médicas, como os antibióticos, e à imposição de um novo padrão de exigências sanitárias, a exemplo do suprimento de água potável, da rede de esgotos e de mudanças nos padrões alimentares, algo imperativo nas sociedades modernas.

Em um mundo onde a sobrevivência do pensamento mágico e das crenças religiosas ainda não desaparecera totalmente, a imposição de visão de mundo marcada pela ciência moderna ofereceu suporte para a aceitação das explicações naturalistas, algo mais fácil de ser adotado pelo senso comum quando as teorias sobre as causas naturais das doenças se tornaram conhecidas da população. O predomínio da explicação monocausal, uma primeira formulação naturalista, se deve à obra do patologista alemão Edmund Koch, o cientista que elaborou o modelo a partir do qual foram apresentados os parâmetros que suscitaram o definitivo abandono das explicações sobrenaturais das origens das doenças.

Figura 80: modelo explicativo monocausal

Na figura 80 apresentamos as condições requeridas para a identificação de um agente patógeno e a eclosão da doença decorrente da presença deste agente em um organismo saudável. Uma primeira condição a ser atendida envolve o reconhecimento de que, se um organismo está sob impacto de uma doença, esta resulta dos efeitos de um agente patógeno, por exemplo, um vírus ou uma bactéria. Este deve ser encontrado de forma clara e abundante no organismo doente, ao tempo em que não deve ser detectado em organismos saudáveis. Atendido este primeiro requisito, impõe-se um segundo, marcado pela exigência de obtenção de amostras do agente patógeno nos fluídos corporais do organismo infectado e, mais do que isso, este agente retirado do organismo cultivado em um meio de cultura apropriado deve ser capaz de se multiplicar. O terceiro passo envolve a reintrodução do agente patogênico isolado em organismos saudáveis, os quais, por sua vez, devem evidenciar os efeitos da doença. Um quarto e último passo para a confirmação da origem da doença exige que se isole novamente o agente patógeno no organismo que foi artificialmente inoculado e que o agente seja reconhecido como igual ao inoculado na etapa anterior.

Atendendo-se a este conjunto de requisitos poder-se-ia suspeitar, definitivamente, que o agente patógeno seria a causa funcional e determinante da doença. Este método produziu um sucesso extraordinário, oferecendo os meios para o controle de inúmeras doenças até então de difícil domínio. O cólera representa o melhor exemplo dos avanços das intervenções científicas epidemiologicamente orientadas, tornando os relatos heroicos de John Snow (1813-1858) quase lendários nos anais da epidemiologia: uma interminável correria entre os poços, as ruas lamacentas de Londres e o laboratório de pesquisa, no qual buscava identificar o vetor do mal que, à época, afligia aquela grande cidade.

Na primeira metade do século XX, devido ao controle de boa parte das doenças infectocontagiosas, ganha prevalência as patologias de etiologia mais complexas, como o câncer, o diabetes, as úlceras e as doenças cardiovasculares, suscitando a transformação dos modelos epidemiológicos. As explicações monocausais perdem o sentido e são rapidamente substituídas por modelos explicativos que levavam em conta um conjunto de fatores. As hipóteses explicativas passaram a ter caráter multi ou interdisciplinar, abandonando-se em definitivo qualquer tentativa de explicar estas patologias mediante o desenvolvimento de explicações monocausais.

A primeira sistematização das explicações multicausais se assentava no entendimento de que a expressão das doenças de etiologia mais complexa, ou seja, as que passaram a afetar mais a saúde da população a partir do momento em que as doenças infectocontagiosas foram relativamente controladas, dependia de um conjunto de fatores. O modelo multicausal em cadeia representou a primeira versão dessa perspectiva ao definir a necessidade de identificar os fatores que ajudam a explicar a manifestação de uma doença. A explicação da tuberculose, por exemplo, ainda que demandasse a contaminação por um agente biológico claramente identificado (fator casual 1, no modelo), deveria levar em consideração uma reação em cadeia e era dependente de outros fatores, como as condições de habitação do paciente (fator 2), ou os padrões alimentares (fator 3). A elaboração de um modelo explicativo com estas características demandou o desenvolvimento de desenhos de pesquisa mais elaborados, capazes de isolar as variáveis confundidoras e permitir o acompanhamento da evolução da doença em coortes distintas de pacientes oriundos de uma mesma população ou de populações distintas. O papel dos desenhos fatoriais e, em particular, o surgimento e a difusão de testes estatísticos mais sofisticados como a ANOVA, os modelos de regressão linear e logística e a análise loglinear, ofereceram os meios para a formulação destes primeiros modelos multicausais. A elaboração destes modelos explicativos se defrontava com dois grandes desafios metodológicos, sendo o primeiro deles determinar a natureza e a intensidade das relações entre os fatores causais e, o segundo, inferir como estes padrões de associações determinavam os fatores biológicos característicos de cada patologia. As dificuldades encontradas em oferecer solução para estas questões terminaram por evidenciar que as explicações elaboradas com base no modelo de causas encadeadas pareciam ser muito limitadas, face à complexidade analítica exigida para a explicação das doenças.

Figura 81: modelos explicativos multicausais

A simples inspeção visual do modelo em cadeia evidencia que um dos principais problemas inerentes a esta explicação reside no nivelamento injustificado dos fatores causais. Nesta perspectiva, o agente biológico (fator 1) se posiciona em um mesmo nível que um fator inerente ao ambiente (fator 2), o qual se relaciona com um fator relativo aos hábitos (fator 3). A homogeneização dos determinantes não parece compatível com o pressuposto de que os fatores que contribuem para a manifestação da doença diferem em importância e em centralidade, o que impõe que sejam tratados diferencialmente quando da elaboração dos modelos explicativos, daí o surgimento de modelos multicausais centrados na ideia de rede de relações entre os fatores. Formulações desta natureza exigem a elaboração de modelos hierárquicos e multiníveis de pesquisa, destinados a tratar de forma diferenciada fatores situados em níveis ontológicos distintos. No caso da tuberculose, o fator causal 1 inerente ao agente patológico é de natureza biológica, posicionando-se em um plano analítico distinto ao fator 2, ao passo que este se encontra no mesmo nível hierárquico que o fator 3, o ambiente social. A elaboração dos modelos em redes procura respeitar estas diferenças e se tornou exequível com a difusão de técnicas de análise de dados mais sofisticada como a modelagem por equação estrutural, a análise condicional com moderadores e mediadores e a análise multinível (Fairchild, & MacKinnon, 2009; Hayes, 2012; Judd, & Kenny, 1981). O predomínio das explicações de base multicausal perdurou até o advento dos modelos de investigação mais modernos e dos novos desdobramentos metodológicos ocorridos nas últimas décadas. Assiste-se, a partir de então, o surgimento de uma perspectiva na qual se assegura que as hipóteses devem levar em consideração não apenas a integração dos múltiplos níveis de explicação (ver figura 82), mas também que considerem fatores tão diversos quanto os vetores e organismos patológicos, a predisposição genética do indivíduo receptor, as condições evolutivas da população a que pertence o indivíduo, o contexto ambiental onde o vetor e o organismo infectado se encontram, as condições econômicas e sociais dos vários grupos populacionais e como elas podem favorecer ou dificultar a manifestação e o controle da doença, os recursos intelectuais, materiais e técnicos disponíveis para as intervenções de prevenção e cura e, não menos importante, o alcance das políticas públicas destinadas a fazer frente à expansão da doença. Ao levar em conta esse conjunto de fatores as hipóteses tornam-se obrigatoriamente multidimensionais, algo impensável de ser alcançado na ausência dos métodos de análise de dados mais poderosos e sem a formalização de modelos causais sofisticados. 

Figura 82: modelo explicativo multinível

Voltemos ao caso da tuberculose para entender as diferenças entre os modelos multiníveis e os anteriores, particularmente no que concerne à necessidade de se postular o entrelaçamento entre os diversos níveis de explicação. A descoberta do vetor, o bacilo Mycobacterium tuberculosis, ocorreu em 1882 e, mesmo passadas tantas décadas, a incidência da doença continua muito alta (Global Tuberculosis Report, 2020), principalmente entre as populações mais pobres, atingindo aproximadamente 10 milhões de pessoas por ano e levando à morte cerca de 1,2 milhões, sobretudo homens (56% das mortes), residentes no Sudoeste Asiático (44% das mortes) e na África (25% das mortes). Ainda que o tratamento tenha mostrado alguma efetividade e tanto a taxa de incidência global quanto o número de óbitos tenham conhecido uma forte queda, perdura uma enorme preocupação com a crescente resistência dos vetores aos tratamentos antibióticos.

Alguns indicadores ajudam a entender as relações entre os fatores inerentes ao agente, ao hospedeiro e outros determinantes mais amplos. Os dados estatísticos disponíveis indicam relações bastante confiáveis entre indicadores socioeconômicos e a incidência da doença, como, por exemplo, uma correlação negativa com o produto interno bruto per capita (PIB) e uma correlação positiva com a taxa de desnutrição. Estes indicadores apontam que a tuberculose é uma doença que afeta as camadas mais empobrecidas e miseráveis da população, sendo previsível um aumento significativo nas taxas de incidência entre os desempregados, subempregados e a população em privação de liberdade. A evolução e o controle da doença também dependem dos recursos disponíveis para enfrentá-la; a vacina BCG contra a tuberculose, por exemplo, não teve evoluções significativas na tecnologia de imunização, sendo utilizada desde 1906, ao tempo em que são investidas somas vultosas na investigação de vacinas contra outras doenças. A relação entre a incidência da doença, a disponibilidade de recursos financeiros, materiais e humanos exigidos para o tratamento da doença e as políticas públicas de saúde se reflete nos indicadores epidemiológicos relativos ao ano de 2020 que, devido a preocupação com a pandemia da COVID-19, registraram uma menor detecção no número de casos e um acréscimo no número de óbitos causados pela tuberculose.

Em que sentido os estudos sobre os estereótipos e preconceitos podem se beneficiar ao levar em consideração os ensinamentos relacionados com a evolução dos modelos explicativos encontrados na epidemiologia, particularmente no que se refere à formulação de modelos explicativos mais abrangentes e inclusivos?

O que podemos aprender com a evolução da epidemiologia

Ao sermos tentados a estabelecer analogias entre os desenvolvimentos da epidemiologia e os estudos sobre os estereótipos obrigamo-nos a reconhecer que podemos incidir em exageros injustificados, identificando semelhanças que não se justificam e escamoteando diferenças que se impõem. Ainda assim, consideramos válida esta aproximação, embora ela deva ser entendida como uma estratégia capaz de ajudar a refletir um pouco sobre o desenvolvimento das teorias referentes aos estereótipos, levando-se em consideração comparações com a trajetória de uma disciplina na qual as questões relacionadas com os constructos explicativos parecem mais bem estabelecidas.

As explicações sobrenaturais não são muito comuns na explicação das crenças estereotipadas, embora possamos acenar com especulações de que muitos estereótipos se encontrem presentes em mitos de criação a respeito de um povo ou no desenvolvimento de argumentos justificadores que se fundamentam na suposição quanto a um pretenso povo escolhido.  Ao contrário do modelo de explicação das doenças infectocontagiosas, não encontramos modelos de explicação dos estereótipos que se assemelhem ao modelo de causa única, ainda que a hipótese da epidemiologia das crenças desenvolvida por Sperber (1990) possa favorecer esta aproximação. Esta perspectiva parte de uma solução de compromisso entre as representações mentais privadas e as públicas e considera que em qualquer agrupamento humano se manifesta uma ampla população de representações que pode estar associada tanto a experiências idiossincrásicas, geralmente derivadas de algumas modalidades de experiência direta quanto a outras de maior alcance disseminadas pelos meios de comunicação. Tanto as experiências comuns quanto as propiciadas pela comunicação, favoreceram o desenvolvimento de algumas representações compartilhadas por muitos indivíduos e, algumas vezes, pelo grupo social. As representações compartilhadas guardam semelhanças entre si suficientes para que alguém reconheça como semelhante às suas as opiniões emitidas por uma outra pessoa. Sperber denominou as representações compartilhadas pelo grupo social de “representações culturais” e a epidemiologia das crenças se dedicou a explicar a distribuição dessas representações entre os diversos grupos humanos. A suposição básica funda-se numa analogia: os grupos humanos são tão suscetíveis às representações culturais quanto o organismo humano é suscetível às doenças, sendo cabível se perguntar por que algumas representações fazem tanto sucesso e parecem mais contagiosas que outras. Para responder a essa pergunta, levou-se adiante a analogia, comparando as representações centradas na tradição, que se assemelham às doenças endêmicas, com aquelas típicas das culturas modernas, marcadas pelo vigor com que se espalham pela população e pela rapidez com que refluem, assemelhando-se, portanto, às doenças epidêmicas. Apesar dessas analogias, reconhece-se algumas diferenças entre a transmissão das crenças e a das doenças, uma vez que a transmissão da doença se caracteriza pela replicação de vírus e bactérias, o que não se evidencia no caso da transmissão das representações, já que estas se modificam a cada vez que são transmitidas. Apesar das restrições relativas a uma analogia imperfeita, parece-nos importante considerar a relevância dessa abordagem no estudo das crenças compartilhadas; a partir dela se tornou possível definir uma crença coletiva nas circunstâncias em que dela existam ao mesmo tempo uma infinidade de cópias, embora cada uma delas seja ligeiramente diferente das demais (Farr, 1990).

A analogia entre a epidemiologia e os estudos sobre as crenças estereotipadas se torna mais imanente ao discutirmos os modelos multicausais e os modelos mais contemporâneos de investigação. Conforme analisamos no capítulo 3, as pesquisas iniciais dos estereótipos acentuaram tanto as características dos indivíduos como os imperativos sociais na expressão das crenças estereotipadas. As pesquisas de levantamento permitiram identificar os estereótipos diferencialmente atribuídos às categorias e grupos sociais e as análises estatísticas destas diferenças, usualmente conduzidas mediante a aplicação do teste t para as diferenças entre as médias e o do qui-quadrado, asseguraram que as diferenças não eram explicadas pelo acaso. Nesta mesma linha, foram conduzidos inúmeros estudos comparativos com diversos tipos de amostras, dentre as quais, as de diferentes grupos oriundos de uma mesma população, as obtidas em diferentes populações, numa mesma população em épocas distintas e em épocas distintas e com populações distintas. Também foram conduzidos estudos comparativos com amostras oriundas de uma mesma população, coletadas com instrumentos de pesquisa diversos, assim como estudos com métodos de coleta distintos e conduzidos em populações diversas. Este conjunto de estudos permitiu não só identificar a estabilidade e a mudança dos estereótipos aplicados aos diversos grupos sociais, como também propiciou a formulação das primeiras hipóteses sobre o processo de estereotipização, ainda na década de 1950.

Com o surgimento e a popularização dos métodos de análise de dados mais sofisticados começaram a despontar modelos explicativos nos quais os vários níveis foram identificados e organizados em estruturas mais elaboradas, tal como exemplificamos em modelos como o encontrado na figura 64 (Duckitt, 1981; 2009). A importância dos modelos hierárquicos e multiníveis tem sido enfatizada por muitos autores; técnicas como a modelagem de equações estruturais, as análises condicionais e a elaboração de modelos multiníveis igualmente vêm sendo uma constante nos artigos publicados na última década. Como discutimos previamente, assiste-se uma aproximação acentuada com áreas conexas, como a biologia e as neurociências, e se evidencia, cada vez mais, as articulações entre as pesquisas dos estereótipos conduzidas por psicólogos e as conduzidas por linguistas e cientistas da informação, tal como veremos adiante.

Reconhecer a complexidade de um problema não significa respondê-lo. Identificar a presença de fatores ou de níveis de explicação distintos é uma tarefa escorregadia, principalmente por envolver a inclusão de elementos tão dispares quanto as escolhas pessoais do pesquisador e a natureza do fenômeno estudado. Qualquer solução está condenada a ser considerada insuficiente e limitada, embora isso não nos exima da obrigação de procurá-la. Dentre as escolhas metateóricas, consideramos aderir à formulação encontrada na obra do filósofo Ray Bashkar (2014) que postula a necessidade de abordar o real a partir de uma dimensão que pode ser qualificada como estratificada. A ideia subjacente a esta noção reside no entendimento de que o pesquisador deve se esmerar em identificar os diferentes planos nos quais o seu objeto de estudo se materializa, sendo importante assinalar que não se trata de identificar níveis de explicação diferentes em uma mesma realidade, mas entender que a realidade é em si estratificada, constituída por níveis ontológicos distintos. Dentre as alternativas que consideramos relativamente compatíveis com o nosso plano de estudos acolhemos o modelo LS3, no qual se postula a presença de sete estratos, conforme observado na figura 83.

Figura 83: modelo LS3, de oito níveis, fundamentado em Bashkar