O plano da obra

Publicamos em 2002, como o resultado da tese de doutoramento Humor e estereótipos no ciberespaço, orientada pelo Professor Helmuth Krüger e concluída um pouco antes, o livro Psicologia Social dos Estereótipos, no qual discutimos os estereótipos, adotando como ponto de partida uma concepção centrada vagamente na ideia de níveis de análise, então fortemente sedimentada na psicologia social (Doise, 1986; Harré, & Secord, 1972). O presente volume, lançado quase vinte anos depois, procura aperfeiçoar a perspectiva exposta em 2002 e, como tal, deve ser interpretado como uma tentativa de aperfeiçoar o tratamento anterior. Parece-nos importante salientar o quanto o cenário em que vivemos não corresponde ao encontrado naquela época, pois se nas últimas décadas do século XX parecia claro que a expressão dos estereótipos, dos preconceitos e das diferentes formas de discriminação deixara de ser manifesta e aberta e se transformara em modalidades mais sutis e implícitas, atualmente assistimos ao surgimento e a consolidação da nova direita e, em não poucas sociedades, dos chamados novos fascismos e, mais enraizado ainda, uma forte onda de fundamentalismo religioso. Estas transformações de cunho social e político têm exercido um efeito muito acentuado sobre a maneira pela qual concebemos e estudamos os estereótipos e os preconceitos.

A pandemia de COVID-19, cuja explosão coincidiu com o período em que nos dedicávamos à elaboração da presente obra, deixou claro o quão discursos anticientíficos, que pareciam datados e fadados à extinção, ainda encontram prevalência em muitos grupos sociais e, mais grave, não duvidamos que os fundamentalismos têm encontrado uma boa acolhida e vêm sendo adotados de forma aberta e ostensiva por estruturas societais e governamentais cujas ações deveriam ser orientadas segundo padrões de racionalidade técnica, científica e administrativa (Weber, 1981). 

Em função destas e de muitas outras mudanças sociais ocorridas em quase um século de pesquisa científica, os modelos teóricos e os métodos de estudos dos estereótipos sofreram inúmeras transformações. Dedicamos os capítulos seguintes à discussão do impacto destas mudanças, ao tempo em que procuramos identificar como as transformações históricas e sociais interferiram na maneira pela qual os estereótipos têm sido pesquisados.

No capítulo 2 procuramos identificar como surgiram as primeiras crenças estereotipadas e como elas se desenvolveram ao longo da história. Trata-se de um capítulo altamente especulativo no qual apresentamos algumas suposições a respeito dos fatores que nos parecem imprescindíveis para o entendimento mais global das crenças estereotipadas e de como estas teriam surgido antes mesmo do documentado pela história. A partir dos primeiros registros históricos acentuamos como surgiram na antiguidade as primeiras formulações que poderiam nos ajudar a entender as crenças estereotípicas, enfatizando as três dimensões analíticas discutidas ao longo do livro: as crenças relativas ao ambiente, as crenças relativas às características dos indivíduos e as crenças a respeito das hierarquias sociais. Posteriormente acompanhamos o desdobramento destas crenças e procuramos identificar as vicissitudes do contexto histórico que favoreceram essa evolução, identificando como elas se transformaram e ganharam novas roupagens no período medieval, na idade moderna e no mundo contemporâneo.

No capítulo 3, dedicado ao estudo científico dos estereótipos, consideramos duas grandes dimensões de análise, uma na qual eles foram interpretados como imagens mentais e uma segunda na qual foram concebidos como estruturas de linguagem. A partir desta diferenciação inicial procuramos indicar as teorias e os métodos acolhidos pelos investigadores para dar conta da diversidade analítica e metodológica decorrente dessa diferenciação. Enfatizamos a importância do que denominamos modelo atitudinal de estudo dos estereótipos, acentuando que apesar dos desenvolvimentos teóricos e metodológicos assinalados ao longo do capítulo o nosso pensamento acerca dos estereótipos e da estereotipização ainda é caudatário dessa formulação inicial.

No capítulo 4 apresentamos a nossa visão particular a respeito dos estereótipos. Procuramos defini-los, acentuando o quanto o processo de estereotipização é dependente de dois mecanismos mentais, a entitatividade e a formulação de teorias implícitas. Com base nestes dois constructos desenvolvemos um modelo analítico no qual incluímos os entes aos quais os estereótipos se referem (agregados, categorias sociais e grupos sociais), as teorias implícitas adotadas para a elaboração dos relatos (intencionais e não-intencionais) e os eventos mentais (comportamentos automáticos, condutas intencionais, pensamentos intencionais e experiências) que se manifestam durante as relações reais, imaginárias ou antecipadas entre os entes sociais.

Dedicamos o capítulo final à apresentação de algumas reflexões sobre os estereótipos na atualidade, no qual assinalamos algumas áreas e questões de pesquisa que nos parecem particularmente importante de serem consideradas nos estudos vindouros. Além disso, recenseamos as principais estratégias utilizadas para combater os efeitos nefastos dos estereótipos e preconceitos. Por fim, traçamos algumas considerações de caráter futurológico, especulativo e fantasioso, nas quais indicamos como as principais preocupações concernentes aos rumos da sociedade contemporânea interferem no encaminhamento futuro dos estudos e das pesquisas sobre os estereótipos.

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