4.2. Classificação dos estudos sobre os estereótipos

Desde as origens, a psicologia social tem se defrontado com a questão das diferentes ênfases impostas por psicólogos sociais de formação psicológica e sociológica, algo que se consubstancia no recorrente debate entre as perspectivas metateóricas individualistas e holistas (Álvaro, & Garrido, 2003). Acolhemos um modelo algo distinto de classificação dos estudos psicossociais, no qual essa dicotomia é substituída por uma concepção tripartite. Nessa perspectiva, além do indivíduo e do contexto, introduz-se uma terceira dimensão, a posicional. A introdução desse nível de análise decorre de uma necessidade dupla. Em primeiro lugar, tal como abordamos durante as análises acerca do desenvolvimento histórico dos estudos sobre os estereótipos, a categoria analítica conflito se mostrou presente desde os estudos iniciais conduzidos ainda no final do século XIX, o que sugere a necessidade de considerar as relações hierarquizadas entre os vários grupos e categorias sociais. Em segundo lugar, consideramos o requisito, identificado em muitos campos de estudos do comportamento social, de posicionar a disciplina como um agente ativo no combate à desigualdade e às injustiças sociais. No campo de estudo dos estereótipos, por exemplo, é possível diferenciar as abordagens que os concebem como dispositivos destinados à simplificação da realidade, portanto comuns, disponíveis e utilizados de forma automática por todos os seres humanos para incluir os indivíduos em categorias sociais, daquelas que os caracterizam como dispositivos de legitimação e de racionalização, utilizado pelos percebedores com a finalidade de evitar se conscientizar da condição de desigualdade que impera nas relações entre os grupos humanos. Essa última perspectiva supõe a necessidade de considerar, no plano analítico, as hierarquias sociais e, tal movimento, leva a uma posição teórica na qual dimensão do conflito ocupa uma posição preponderante. A inclusão da dimensão posicional, ao destacar o conflito como uma dimensão analítica tão importante quanto o indivíduo e o contexto, representa um diferencial em relação ao aludido modelo dicotômico. Em resumo, acreditamos ser impossível estudar os estereótipos sem que nos posicionemos a respeito das injustiças e desequilíbrios ainda presentes nas relações entre os grupos humanos.

Alinhamo-nos a uma perspectiva metateórica denominada sistematismo, uma alternativa que julgamos capaz de superar o acirrado debate entre as perspectivas individualistas e holistas. A perspectiva individualista postula que a sociedade deve ser entendida como uma coleção de indivíduos e que, do ponto de vista metodológico, a pesquisa psicossocial deve se conduzir no sentido de tentar identificar, explicar e compreender as ações e as intenções dos agentes individuais. A perspectiva holista, ao contrário, postula a impossibilidade de a sociedade ser reduzida aos indivíduos, admitindo que devemos concebê-la como uma totalidade, um ente indivisível e marcado por um caráter coletivo e global. Ao contrário dessas duas perspectivas, exclusivistas e limitadas, é possível conceber uma alternativa distinta na qual se postula tanto a noção de que a sociedade é uma função dos indivíduos que nela se situam quanto o entendimento de que indivíduo é uma função da sociedade na qual ele se encontra inserido. O sistematismo oferece a possibilidade de substituir uma visão binária da psicologia social por uma perspectiva que não apenas valorize as interações e tensões entre as explicações individualistas e as contextuais, mas também coloque em cena as configurações posicionais (Bunge, 2000).

O modelo aqui alinhavado, inicialmente elaborado para explicar as relações entre a cognição e os estudos culturais (Pereira, & Araújo, 2013) e expandido para permitir o estudo dos estereótipos, adota como critério decisivo para estabelecer a taxionomia a diferenciação entre elementos encontrados em três níveis analíticos: as características inerentes aos indivíduos, o contexto em que os indivíduos se inserem e, por fim, as posições hierárquicas de indivíduos que se relacionam nos contextos por eles ocupados. Os elementos constitutivos do modelo e as relações entre os elementos podem ser identificados no diagrama da figura 89; nele podemos diferenciar os estudos segundo o critério da centralidade, sendo possível caracterizar alguns estudos como periféricos (p), outros como intermediários (i) e um tipo específico de estudo caracterizado como central (c).

Figura 89: relações entre as dimensões incluídos no modelo

Consideremos o exemplo de uma pesquisa hipotética sobre a ameaça dos estereótipos, uma categoria de estudos na qual se objetiva identificar como a difusão de estereótipos em um determinado contexto pode levar as pessoas que pertencem ao grupo ou à categoria social alvo das crenças estereotipadas a modificarem os seus padrões de conduta, ajustando-as ao prescrito pela crença estereotipada (Spencer, Logel, & Davies, 2016; Steele, & Aronson, 1995). Discutimos, no primeiro capítulo, como os efeitos das formas indiretas de discriminação impactam áreas como a renda, a moradia, a saúde, a justiça e, por certo, a educação.  No plano individual, ser alvo de forma sistemática e repetida de julgamentos estereotipados e de atitudes preconceituosas gera consequências na saúde e no bem-estar geral, a exemplo da pressão arterial e das doenças cardiovasculares. As funções perceptuais, atencionais e motivacionais também se encontram sujeitas aos mesmos efeitos, sendo objeto de atenção particular dos estudiosos a maneira pela qual os estereótipos e os preconceitos interferem negativamente no desempenho acadêmico. Alguns fenômenos, a exemplo das profecias que se cumprem por si mesmas, deixam claro como as avaliações dos alunos podem ser afetadas pelas expectativas negativas dos professores a respeito das capacidades dos estudantes. Até a popularização da teoria da ameaça dos estereótipos o principal mecanismo explicativo para a redução do desempenho acadêmico era o cronificação da ansiedade, postulando-se que a ansiedade, internalizada em função de um conjunto de experiências negativas sistemáticas, termina  por impor um contexto pouco confortável para os estudantes, cujos reflexos se manifestam sob a forma de nervosismo  e a desmotivação, o que interfere no desempenho e acaba por confirmar as piores expectativas dos professores. 

O programa de pesquisas sobre a ameaça dos estereótipos, ao enfatizar o papel  das ameaças situacionais, minimizou os impactos negativos da cronificação da ansiedade, pois não apenas retirou da cronificação da ansiedade a posição de centralidade então ostentada, como também valorizou  a influência dos fatores situacionais capazes de inibir o desempenho, a exemplo das características da tarefa, como também acentuou a necessidade de se criar ambientes de aprendizagem confortáveis e amigáveis nos quais os efeitos negativos das ameaças pudessem ser  controlados ou minimizados. O conceito se refere ao impacto negativo no desempenho das ameaças situacionais associadas com as características estereotipadas dos membros do grupo ou da categoria alvo de um estereótipo, nas circunstâncias em que estes são submetidos, usualmente em um contexto experimental, a uma tarefa com algum grau de dificuldade e que sabem que o desempenho está sendo avaliado e comparado com o dos membros de uma outra categoria em relação ao qual as crenças estereotipadas não se aplicam (Steele, & Aronson, 1995). Ao contrário da tese da cronificação da ansiedade, na qual se sugere que os estereótipos afetam indiscriminadamente a todas as dimensões da vida, o efeito da ameaça dos estereótipos se refere única e exclusivamente a uma redução de desempenho no domínio ao qual a crença estereotipada se refere. Entendido como um conceito fortemente associado com a dimensão situacional é possível supor que os membros de qualquer grupo sobre os quais pesa a ameaça estereotipada podem sofrer os efeitos dos estereótipos independentes de terem uma biografia marcada pela cronificação da ansiedade. Inúmeros estudos, conduzidos em diversos contextos geográficos e com populações distintas, oferecem suporte heurístico à teoria, ainda que ela frequentemente seja desafiada por críticas concernentes à validade das evidências empíricas, muitas vezes referidas como artefatos experimentais pouco relacionados com as atividades corriqueiras nos ambientes acadêmicos. Vários estudos publicados nos últimos anos e fundamentados em técnicas de meta análise, apontam para um cenário algo controverso, pois embora não tenham descartado o efeito dos ambientes ameaçadores na redução do desempenho, também evidenciaram que o tamanho do efeito usualmente se situou entre o desprezível e o pequeno(Flore, & Wicherts, 2015; Lamont, Swift, & Abrams, 2015; Lewis, & Michalak, 2019; Nguyen, & Ryan, 2008; Shewach, Sackett, & Quint, 2019).

Neste cenário, pensemos numa pesquisa hipotética na qual o objetivo de um pesquisador seja o de avaliar o impacto da crença estereotipada de que as mulheres não são boas em matemática e, para tanto, consideremos o desempenho de estudantes do sexo feminino nas disciplinas de cálculo matemático de um curso de pós-graduação da área de engenharia e ciências naturais. A configuração de um experimento para submeter à prova a hipótese deste estereótipo com relação às mulheres pode demandar a elaboração de um desenho no qual sejam incluídas variáveis individuais, como a comparação do desempenho entre mulheres e homens, variáveis contextuais que confrontem, por exemplo, o desempenho de pós-graduandas da área de exatas em relação ao daquelas da área de humanas e variáveis posicionais que comparem o desempenho daquelas que foram alvo da ameaça em relação a um grupo controle composto por pós-graduandas não-ameaçadas.

A interação das variáveis individuais, contextuais e posicionais gera um leque de possibilidades de pesquisas a serem exploradas pelo pesquisador, tal como observado no diagrama do quadro 15. Para explorar a nossa classificação enumeramos, a seguir, uma série de estudos relacionados direta ou indiretamente com o tema dos estereótipos ou dos preconceitos subordinados a cada um destes modelos. Procuraremos não apenas evidenciar a natureza heterogênea dos estudos acerca dos estereótipos, mas também demonstrar as circunstâncias nas quais determinadas estratégias analíticas são privilegiadas em detrimento de outras. A diferenciação entre os estudos deve ser interpretada numa perspectiva não exclusivista, pois, em geral, os estudos atendem a uma série de requisitos e são regidos por preocupações de diversas ordens. O fato de incluirmos o estudo em uma determinada perspectiva não significa que as demais alternativas de classificação se tornam automaticamente excluídas. O mais importante é acentuar que a diferenciação aqui proposta leva em consideração, sobretudo, o plano analítico privilegiado na análise e interpretação dos dados e na discussão dos resultados.

Quadro 15: modelos de investigação do comportamento social, incluindo a presença/ausência das variáveis em cada um dos níveis

Julgamos importante enfatizar que a diferenciação não deve ser interpretada numa perspectiva hierarquizadora, seja no sentido de assinalar que um determinado tipo de estudo é preferível ou que ele deve ser considerado mais sofisticado do que outro. O fato do estudo se debruçar em mais de um nível analítico indica apenas que o pesquisador está dedicando seus esforços a esclarecer um conjunto de relações cujo nível de análise pode ser abordado segundo aquela ordem específica de tratamento. De um modo geral, os pesquisadores estão envolvidos em vários projetos de pesquisa e estes projetos contemplam estudos que se desenrolam nos mais diversos planos analíticos.

Os estudos do tipo I configuram uma situação na qual os três elementos definidores não podem ser diferenciados. A utilização da letra “a” minúscula nos dois blocos indica a ausência de diferenças entre os indivíduos, enquanto a distribuição linear das letras reflete a ausência de diferenças nas posições ocupadas pelos participantes dos dois grupos. A igualdade dos segmentos de reta, acima e abaixo das letras, indica a ausência de qualquer diferença entre os contextos.  

Este modelo não representa, de fato, qualquer modelo real de investigação do comportamento social, refletindo uma postura epistemológica em que as preocupações com as diferenças ou com a alteridade estão destituídas de importância. Grosso modo, poderia se referir às tentativas de obtenção do conhecimento pela via do senso comum ou mediante o uso dos métodos anedóticos. A inclusão deste modelo, no entanto, é importante porque representa uma condição a partir da qual podem ser demarcadas diferenças em relação aos demais tipos de estudos.    

4.2.1. Estudos em um único contexto

Os modelos II a IV se referem a estudos conduzidos em um único contexto, embora possam sofrer variações quanto às características individuais (tipo II) quanto às posições (tipo III) ou no que se refere às diferenças de indivíduos e de posições (tipo IV). Como assinalamos, estes estudos, realizados em um único contexto, não devem ser interpretados como pesquisas sem importância ou de sofisticação metodológica rudimentar.

Estudos do tipo II

O estudo de tipo II representa um modelo clássico de pesquisa na psicologia das diferenças individuais e contempla estudos dedicados a analisar indivíduos oriundos de um mesmo contexto e indiferenciados quanto às posições, porém dotados de características individuais distintas. As estratégias de análise de dados são predominantemente comparativas, voltando-se para a identificação das diferenças nas respostas a partir de variáveis físicas, biológicas, psicológicas ou psicossociais; estas diferenças exclusivas no nível individual são representadas pela diferenciação entre o ‘a’ minúsculo e o ‘A’ maiúsculo.

Escolhemos um estudo conduzido no início do século XX para exemplificar este modelo de estudos. Segundo um folheto de divulgação para turistas (Ellis Island – Free Port of New York Passenger Records Search, sd), metade da população atual dos Estados Unidos da América descende direta ou indiretamente dos estimados 22,5 milhões de imigrantes que entraram naquele país pelo porto de Ellis Island entre os anos de 1892 e de 1924. Movidas por preocupações eugenistas, consideravelmente influentes entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século XX, as autoridades sanitárias americanas promulgaram em 1882 uma lei destinada a impedir a entrada no país de pessoas que, à época, eram definidas como deficientes mentais. A implementação desta lei representou um enorme desafio para os administradores do porto que deveriam avaliar, diariamente, cerca de cinco mil imigrantes que aportavam no novo mundo em busca do sonho americano.

Em 1910, Henry H. Goddard foi convidado a fazer parte da equipe encarregada de realizar esta avaliação e, em 1912, introduziu um novo método que julgava ser mais efetivo que o conduzido pelos médicos e demais especialistas (Welcome, s.d.). Ele preparou duas “especialistas”, uma das quais, estrategicamente posicionada, assistia ao desfile multitudinário de recém-chegados e simplesmente batia o olho para tirar a psicologia dos ‘retardados mentais’. Uma vez identificado, o “perigo” era levado a uma sala separada e submetido a uma bateria de testes psicológicos, sendo particularmente importante a aplicação da bateria de testes Binet-Simon, traduzida para o inglês pelo próprio Goddard.

Os resultados dos testes não deixaram dúvidas de quão alto era o número de imigrantes com baixíssimo grau de inteligência. Foram testados 35 judeus, 22 húngaros, 50 italianos e 45 russos e os resultados indicaram que, em todos os grupos, algo em torno dos 80% dos testados possuíam uma idade mental inferior aos doze anos (Gould, 2014). A esta conclusão se seguiu uma outra correlata, a de que o nível de inteligência de alguns grupos nacionais ou étnicos deveria ser considerado inferior ao de muitos outros. Estes resultados contribuíram para a aprovação de leis relativas à imigração, tornando mais rigorosos os critérios de admissão dos imigrantes, o que impôs um acréscimo considerável no número dos imediatamente deportados nos anos subsequentes; um incremento de 350% em 1913 e de 540% em 1914.

Incluímos este exemplo para evidenciar um estudo no qual foram formuladas inferências conclusivas a respeito da inteligência dos participantes sem levar em consideração a posição peculiar ocupada por estes imigrantes e sem que fosse conduzida uma reflexão mais cuidadosa com relação à forma como os testes sofriam influência da linguagem, como foram traduzidos ou, ainda, como a bagagem cultural dos respondentes poderia influenciar no resultado. Além de deixar de considerar a posição peculiar ocupada pelos imigrantes na formulação das conclusões, também a dimensão contextual não foi devidamente considerada; todos eles, embora de países, culturas e etnias diferentes, eram oriundos de um contexto semelhante já que não eram alfabetizados, nunca tinham utilizado papel e lápis e fizeram uma longa viagem de navio, encontrando-se exaustos pela longa travessia, confusos e temerosos frente à nova vida que os aguardava em uma terra inteiramente estranha.

Estudos do tipo III

O terceiro tipo de estudo, característico da psicologia social clássica, tem por objetivo identificar como pessoas com características semelhantes e oriundas de um mesmo contexto se comportam de maneira diferente em função das posições particulares que ocupam. É importante notar que a diferença na representação gráfica reside única e exclusivamente entre as posições da letra “a” minúscula, linear no primeiro caso e triangular no segundo caso.

Podemos exemplificar o efeito do nível posicional a partir de um conhecido experimento conduzido nos anos 60, no qual estudantes foram alocados aleatoriamente à condição de guardas e prisioneiros. É importante notar que, embora todos os participantes tenham sido oriundos de um mesmo contexto, assim que passaram a ocupar os papéis para os quais foram adscritos começaram a adotar, com maior ou menor intensidade, os padrões de conduta associados aos papéis. Os ‘prisioneiros’ se tornaram submissos e dependentes, enquanto os ‘guardas’ se tornaram cruéis, agressivos e injustos. Como as características individuais foram distribuídas igualmente entre os dois grupos em função da aleatorização, e todos os participantes foram oriundos de um mesmo contexto, é possível sustentar que as diferenças nas condutas observadas de guardas e prisioneiros devem ser atribuídas ao efeito das posições ocupadas pelos participantes do estudo (Haney, Banks & Zimbardo, 1973a; 1973b).

Estudos do tipo IV

Os estudos de tipo IV contemplam os desenhos de investigação nos quais indivíduos com características distintas (idade, por exemplo) se deparam com diferentes situações, mesmo permanecendo constante o contexto em que a pesquisa é conduzida. Este tipo de estudo demanda uma análise das relações entre as variáveis situadas em níveis diferentes, usualmente a identificação dos efeitos aditivos ou interativos entre as variáveis, sendo especialmente importante a identificação dos efeitos dos moderadores.

Um exemplo clássico de estudo consonante com esta perspectiva foi conduzido por Ambady, Kim, Shih e Pittinsky (2001) na área de estudos das ameaças dos estereótipos. Conforme assinalamos, o conceito se refere à redução perceptível no desempenho de participantes de grupos sobre os quais incide a crença estereotipada de que não são competentes em determinadas áreas de estudo ou trabalho. No estudo, foram acentuadas duas modalidades de identidade social; a de gênero na qual se enfatizava o estereótipo de que as mulheres não são boas em matemática e a dos asiáticos, em que prevalece o estereótipo de que eles são intelectualmente capazes. Os resultados apontaram que crianças de diferentes faixas de idade apresentaram padrões diferenciados de respostas a um teste de matemática após a ativação das identidades de etnia ou de gênero mediante procedimentos experimentais. O contexto do experimento foi o mesmo; no estudo 1, as participantes se restringiram apenas às crianças americanas, de background asiático, residentes nos Estados Unidos e, no estudo 2, todas as participantes foram crianças canadenses. Os dois estudos, no entanto, foram realizados de forma independente, o que indica que o contexto em que eles ocorreram permaneceu constante.

Conforme observamos no gráfico apresentado na figura 90, o efeito da ameaça foi perceptível nas crianças de cinco a sete anos, assim como nas de onze a treze anos. O que torna o resultado interessante para a nossa discussão é que tanto os efeitos da ameaça dos estereótipos quanto a valorização da identidade asiática produziram resultados contrários ao esperado no grupo de crianças de oito a dez anos, o que evidenciou uma interação complexa entre as características individuais dos participantes do estudo e a situação experimental criada pelo pesquisador.

Figura 90: resultados do estudo de Ambady, Kim, Shih e Pitinsky (2001) (experimento 1), no qual é demonstrado o efeito da condição de ameaça dos estereótipos, em crianças de diferentes faixas etárias

4.2.2. Estudos em mais de um contexto

A influência do contexto é uma característica central nos estudos interculturais. A forma pela qual a cultura molda a percepção da realidade vem sendo estudada sistematicamente pelos antropólogos e especialistas em psicologia cultural. As categorias mentais que utilizamos dependem da realidade física dos objetos encontrados no mundo real, sendo plausível sustentar que diferentes condições geográficas, climáticas e topográficas podem gerar representações diferenciadas. Os estudos sobre as relações entre a linguagem e o pensamento, em acordo com a hipótese Sapir-Whorf ou os estudos sobre as ilusões de ótica entre ocidentais e bosquímanos (Segall, Campbell & Hersokovitz, 1963) refletem bem o impacto dos fatores contextuais na percepção dos objetos físicos. Os tipos de estudos enumerados a seguir retratam uma condição na qual as diferenças contextuais, sejam elas sociais, econômicas ou culturais, representam elementos decisivos nos desenhos da pesquisa.

Estudos do tipo V

No estudo de tipo V a comparação entre os elementos contextuais ocupa uma posição privilegiada, pois nele os participantes possuem características semelhantes (mesmo sexo ou mesma idade, por exemplo) e não diferem quanto à configuração do plano relacional, mas são oriundos de contextos distintos.

Um estudo clássico na psicologia social demonstra de forma acentuada o efeito do contexto normativo. Trata-se do trabalho de Muzafer Sherif sobre padrões de relacionamento entre adolescentes norte-americanos em colônias de férias nos anos 40 e 50 do século passado. Conforme se observa no diagrama da figura 91, as características individuais foram igualmente distribuídas mediante a alocação aleatória das crianças participantes aos dois grupos experimentais. Cada grupo foi constituído por cerca de vinte crianças, brancas, de classe média e na faixa dos doze anos de idade, todas oriundas de famílias bem ajustadas, estáveis e que viviam em condições de relativo conforto. Para avaliar o efeito da posição, os experimentadores tiveram o cuidado de separar os melhores amigos, alocando-os em grupos diferentes. O efeito do contexto também foi equalizado, vez que os dois grupos participavam de uma mesma colônia de férias, na mesma época e no mesmo local.

Figura 91: Diagrama das etapas dos estudos de Sherif e colaboradores sobre as relações intergrupais

Assegurada a equivalência entre os indivíduos e o nível posicional, foram introduzidas mudanças no contexto normativo, inicialmente mediante a introdução de uma modalidade de relacionamento competitivo e, posteriormente, substituindo-se a competição pela cooperação. Os resultados das mudanças no nível contextual foram flagrantes. Na etapa em que foram desenvolvidas atividades competitivas foi observado claramente o surgimento de uma forte animosidade entre os membros dos dois grupos durante os jogos e concursos nos quais eram distribuídos prêmios para os vencedores. Gracejos, apelidos e outras formas com maior ou menor potencial de desqualificar o grupo externo se fizeram notar, não raro ocorrendo altercações verbais ou mesmo ataques físicos. Os indivíduos com características menos cooperativas passaram a receber destaque e os papéis de liderança foram ocupados pelas crianças mais agressivas.

Na etapa seguinte do experimento os experimentadores substituíram a condição de competição pela de cooperação, na qual as tarefas só poderiam ser executadas com êxito caso ocorresse o estabelecimento de metas supra ordenadas, alcançáveis apenas mediante o esforço cooperativo entre os membros dos dois grupos. Esta nova condição gerou mudanças significativas na dinâmica interna de cada grupo e nas relações entre os membros do grupo, merecendo destaque a redução progressiva da agressividade e das hostilidades mútuas entre os membros dos dois grupos, bem como um aperfeiçoamento substancial na qualidade dos contatos intergrupais. Os indivíduos com características menos agressivas perderam a influência que detinham até então e aqueles com traços que facilitam o entendimento passaram a exercer posições de liderança.

Este estudo, ao oferecer fundamento para a formulação da teoria realista do conflito, posteriormente criticada pela teoria da identidade social, permite-nos acentuar como a configuração das relações (no caso a cooperação ou a competição) pode influenciar a conduta, ainda que as características dos indivíduos e a dimensão posicional tenham permanecido constantes (Deutsch, 2012).

O contexto também pode se referir aos fatores geográficos, climáticos ou históricos. Conduzimos um estudo com a finalidade de avaliar a influência do tamanho da cidade de residência do participante na imposição de distância social em relação a algumas categorias sociais (Pereira, Ferreira, Martins & Cupertino, 2002); nele, comparamos as respostas de participantes residentes em três cidades de dois estados brasileiros, sendo duas delas de porte médio e uma de pequeno porte. A hipótese subjacente ao estudo era a de que os participantes da cidade de pequeno porte deveriam impor um maior grau de distância social do que os residentes nas cidades de maior porte.

Figura 92: Nível de distância social em relação a oito categorias sociais, em duas cidades de porte médio e uma de pequeno porte

Se comparadas com as respostas apresentadas pelos residentes nas duas cidades de médio porte, os moradores da cidade de pequeno porte sistematicamente impuseram um maior distanciamento social a todas as categorias sociais objeto de avaliação. Na direção esperada pela hipótese, as diferenças de avaliação foram significativas para todas as categorias; ou seja quanto menor a cidade, maior a imposição da distância social. Estes resultados, no entanto, não levaram em consideração as diferenças individuais entre os participantes, assim como não consideraram as posições sociais por eles ocupadas durante a condução do experimento.   

Importa salientar que os estudos destinados a comparar as respostas de participantes oriundos de contextos diversificados enfrentam uma série de desafios que não são particularmente relevantes nos estudos dos tipos 1 a 4. É importante, por exemplo, discutir e avaliar se os instrumentos de pesquisas utilizados na tarefa de coleta dos dados são equivalentes. No caso de estudos desenvolvidos em culturas diferentes é justificada a preocupação com os problemas relativos à adaptação e tradução, devendo-se redobrar os cuidados em relação às características psicométricas das medidas. Uma outra preocupação suscitada por este tipo de estudo se refere aos problemas relativos aos procedimentos analíticos necessários para avaliar o impacto exercido por variáveis situadas em níveis distintos de análise (Baron, & Kenny, 1986). Por fim, é importante a utilização de recursos analíticos mais robustos como, por exemplo, o tamanho do efeito e da estimativa do erro-padrão, com a finalidade de estimar com uma maior precisão as relações entre as variáveis (Schäfer, & Schwarz, 2019).

Estudos do tipo VI

Ao contrário do tipo de estudo anterior, no qual o contexto é variável e os outros dois níveis permanecem constantes, os estudos do tipo VI envolvem investigações em que são avaliadas as respostas de participantes com características individuais diferentes (homens e mulheres, por exemplo), subordinados a uma mesma configuração no plano relacional, embora oriundos de diferentes contextos. Exemplificaremos este modelo de estudo a partir de uma pesquisa que julgamos significativa na discussão de uma das mais controversas questões no estudo dos estereótipos, a do fundo de verdade das crenças estereotipadas (Gordon, 1989; Judd, & Park, 1993; Jussim, Crawford, Anglin, Chambers, Stevens, & Cohen, 2016). A crença de que os idosos não possuem boa memória possui algum fundo de verdade? Alguns sugerem que talvez os estereótipos tragam alguma verdade em si, pois eles dificilmente surgiriam e muito menos sobreviveriam por muito tempo se não contassem com algum respaldo na realidade. Outros, ao contrário, sugerem que os estereótipos possuem uma função meramente legitimadora e justificadora das desigualdades sociais, estando longe de retratar o que de fato acontece no mundo real.

Um estudo, na área de memória, talvez contribua de alguma forma para a investigação dos estereótipos etários. Crook, Youngjohn, Larrabeee e Salama (1992) evidenciaram que, ao serem submetidos a uma mesma tarefa experimental, indivíduos norte-americanos e belgas de diferentes idades (entre 14 e 88 anos) apresentavam padrões bastante semelhantes de respostas. Trata-se de um experimento onde foram simuladas, mediante o uso de computadores, diversas situações que representavam eventos cotidianos na vida de qualquer pessoa. Um dos testes se referiu à associação entre faces e nomes; nele, o participante assistiu a um vídeo no qual uma série de pessoas se apresentavam, enunciando os próprios nomes. Posteriormente e numa ordem aleatória, foram apresentados novos vídeos onde estas mesmas pessoas relatavam o nome da cidade em que residiam. A tarefa experimental consistia em relembrar o nome de 14 dos personagens apresentados nos vídeos, sendo as tentativas registradas imediatamente (resposta imediata) ou após 40 minutos (resposta com atraso). O gráfico da figura 93 reproduz os resultados da condição em que o participante recordou os nomes após transcorridos quarenta minutos.  

Figura 93: reprodução dos itens entre participantes estadunidenses e belgas, por faixa etária

A redução do desempenho na evocação dos nomes decresce com a idade do participante, um efeito considerável e constante. Estes resultados, ademais, independem do país, pois a mesma tendência foi encontrada entre participantes estadunidenses e belgas. Os resultados sugerem que os idosos lembram menos das coisas que os mais jovens, algo que fundamenta um dos principais estereótipos sobre os idosos. Em relação ao nosso objetivo de diferenciar os tipos de estudos, fica claro que as variáveis de interesse se referem ao contexto, o norte-americano e o belga, e a uma característica individual do participante, a idade, mantendo-se constante apenas a dimensão posicional.

Estudos do tipo VII

Os estudos do tipo VII envolvem pesquisas nas quais são avaliadas respostas de indivíduos com características semelhantes entre si, mas provenientes de diferentes contextos e subordinados a distintas configurações relacionais. É importante assinalar que o nível posicional é passível de ser ativamente construído pelo pesquisador com a finalidade explícita de testar uma hipótese de trabalho.

Os estudos conduzidos na área da psicologia intercultural vêm enfatizando, ao longo dos anos, as diferentes maneiras pelas quais podemos considerar a noção de eu e como estas diferenças dependem, de forma acentuada, das particularidades inerentes a cada contexto cultural (Chen, & West, 2008). Nas sociedades sem escrita, assim como em muitas sociedades coletivistas, a noção de eu é retratada numa dimensão de maior concretude do que nas sociedades industrializadas nas quais o eu é concebido a partir de características bem mais abstratas. A partir desta diferenciação inicial, os estudiosos têm apontado um conjunto de indicadores que reflete estas diferenças, especialmente no que concerne ao domínio das relações sociais. Se nas sociedades regidas por uma visão de eu mais coletivista se identifica uma vinculação entre a pessoa e o grupo social ao qual ela pertence, é possível supor, nas sociedades ocidentais, uma maior autonomia da pessoa em relação ao grupo. Cousins (1989) conduziu um estudo destinado a comparar as diferenças entre participantes de duas culturas, a norte-americana e a japonesa, supondo que a primeira se posiciona mais próxima a uma visão de eu mais individualizada, enquanto a sociedade japonesa se aproxima de uma perspectiva mais coletivista. A pesquisa demandou a utilização de duas versões do Twenty Statement Test. Um grupo de participantes de cada país respondeu a versão original do teste escrevendo em vinte espaços em branco, na ordem em ocorreram, vinte respostas diferentes para a pergunta ‘quem sou eu’, na exata ordem em que as respostas ocorriam e sem se preocupar com algum ordenamento lógico, nem com a importância relativa de cada proposição. Os participantes remanescentes responderam a este mesmo teste, mas desta vez numa versão contextualizada, ao responderam a uma mesma questão em três situações diferentes: em casa, na escola e com amigos.

A suposição básica do estudo seria a de que os participantes norte-americanos, originários de uma cultura mais afeita à abstração, deveriam enfatizar as respostas para a versão descontextualizada do teste, enquanto os japoneses, mais coletivistas e regidos pelo raciocínio concreto, deveriam acentuar as respostas da versão contextualizada do Twenty Statement Test. O modelo interpretativo do teste considerou quatro categoria de respostas relativas ao eu, 1) a física, ou seja, as respostas que se referem às características físicas (por exemplo, tenho 1,70 de altura); 2) as sociais, cujas referências ao eu se relacionam com papéis sociais e com demandas institucionais (sou um estudante); 3) as atributivas, que se referem ao eu como um agente livre frente à situação (sou uma pessoa compreensiva); e 4) as referências globais que transcendem a situações sociais concretas ou a características individuais específicas (sou um ser humano).

Para os objetivos específicos do nosso argumento consideramos apenas um dos domínios ao qual o teste se refere, o das referências relacionadas aos atributos mais abstratos. A proporção das respostas por categoria de participante e tipo de instrumento está representada no gráfico apresentado na figura 94, onde podemos perceber, com clareza, que o padrão de respostas se diferencia em função do contexto de origem do participante e da versão do instrumento utilizada.

Figura 94: reprodução dos itens entre participantes estadunidenses e belgas, por faixa etária

O exame dos resultados evidenciou o quanto o predomínio das descrições abstratas esperadas para o americanos, procedentes de uma cultura mais individualistas e com uma visão de eu majoritariamente abstrata, ocorreu apenas na condição em que o estudo foi conduzido com a utilização da versão original do Twenty Statement Test. Nas circunstâncias em que esta versão foi substituída pela implementação contextualizada do instrumento, isto é, quando o participante se referiu ao eu em um contexto específico, casa, escola ou numa relação com alguém mais próximo, os participantes japoneses apresentaram índices de respostas mais abstratas do que os participantes norte-americanos. Ainda que a conclusão de Cousins de que as respostas se referem muito mais à influência da cultura do que propriamente ao estilo cognitivo de quem vive no interior de cada uma destas culturas possa ser objeto de controvérsias teóricas, o estudo representa um belo exemplo de um tipo de pesquisa em que foram produzidas mudanças no plano contextual (os países de origem dos participantes) e na dimensão posicional (o tipo de condição criada pelo pesquisador para submeter uma hipótese empírica à prova).  

Estudos do tipo VIII O tipo VIII de estudo envolve as pesquisas nas quais os resultados de indivíduos provindos de contextos distintos, com características individuais distintas e configurações relacionais diferentes são comparados e têm as suas diferenças e semelhanças avaliadas. Esta última modalidade de estudo nos parece bastante indicada para retratar as relações entre indivíduo e contexto. Este tipo de pesquisa além de sugerir que não existe um processo cognitivo que independe do contexto e nem que o contexto exerce uma influência unívoca em todos os indivíduos, oferece os elementos que permitem estimar as conexões entre as dimensões contextuais e individuais. Assinalemos, no entanto, que a condução deste tipo de pesquisa raras vezes ocorre num mesmo estudo ou experimento, sendo mais comum o relato de um conjunto de estudos para dar conta das mudanças nas variáveis incluídas nos níveis individual, contextual e posicional. Um conjunto de estudos compatíveis com este modelo foi apresentado por Oyserman, Sorensen, Reber e Cehen (2009) em um artigo no qual foram relatados oito experimentos destinados a avaliar o impacto de dois estilos de priming (individualismo e coletivismo) nas respostas de indivíduos com características individuais distintas (negros, asiáticos e brancos), oriundos de países localizados em dois contextos culturais, o asiático (Hong Kong e Coreia) e o ocidental (Noruega e EUA). Os resultados dos estudos evidenciaram que o priming produziu um claro efeito no estilo cognitivo, tanto em tarefas de laboratório quanto em tarefas diretamente relacionadas ao cotidiano, e que envolviam julgamentos visuais ou auditivos. Por exemplo, a ativação do priming do coletivismo mediante a identificação e posterior registro de pronomes no plural (nós, vós, eles) favoreceu a identificação do local em que os estímulos foram apresentados em uma tela de computador, mesmo não tendo influenciado a quantidade de estímulos identificados. É importante acentuar que este efeito de relacionar o estímulo ao contexto espacial em que ele se encontrava situado não foi intensificado no grupo de participantes onde foi ativado o priming do individualismo por meio da identificação de pronomes no singular (eu, tu, ele). Por ter sido utilizado um priming em que foram modificadas diferenças de posições, além de considerar os efeitos das características individuais dos participantes e o contexto cultural do qual o participante era originário, podemos incluir este estudo como um exemplo de pesquisa que atende os requisitos necessários para inclusão no modelo VIII da classificação aqui proposta.