2. Os estereótipos na história

Uma dificuldade decisiva

Antes da história: sobre explosões, galáxias, animais, humanos e sociedades

Uma breve digressão histórica

Os estereótipos na história

2.1. Uma dificuldade decisiva

Das revoluções dizem que se sabemos como começam, ninguém tem certeza até onde elas podem nos levar. A definição científica dos estereótipos é algo parecida, pois se sabemos onde tudo começou, temos pouca clareza até onde as definições nos levaram e muito menos para onde nos encaminharão. O termo estereotipia circulava nos tratados psiquiátricos do século XIX para fazer alusão a uma série de movimentos sistemáticos e rítmicos, comumente atribuídos a pacientes aos quais se aplicava o rótulo de demência precoce (Berridge, Aldridge, Houchard, & Zhuang, 2005; Lashley, 1951; Hinde, 1970). Nesta linha, o termo também mantinha relações com a biologia ao fazer alusão aos movimentos repetidos e fixos impostos a alguns organismos pela evolução filogenética, correspondendo ao que na moderna etologia se denomina padrões fixos de ação (Lorenz, 1965; Tinbergen, 1951).

Em que pesem estas influências estritamente científicas, a passagem do adjetivo para o substantivo, da estereotipia para os estereótipos, deve-se a um contexto mais tecnológico do que propriamente científico, a indústria tipográfica (Wilson & Scott, 1853), dado o termo ter sido inicialmente adotado para fazer referência aos tipos móveis de impressão, os estereótipos. Devemos ao jornalista Walter Lippmann a ampliação do significado do termo e a posterior inclusão nas ciências humanas e na psicologia social por extensão. No livro Opinião Pública, os estereótipos foram concebidos como imagens mentais, supostas fotografias pouco sujeitas à contestação que carregamos na cabeça, rígidas o suficiente para nos fazer preservar as visões de mundo que acolhemos, mesmo face a informações capazes de colocar em dúvida os modelos mentais que insistimos em sustentar (Lippman, 1981).

Partiremos de duas ideias centrais nessa concepção, as de rigidez e as de repetição, adotando-as com a finalidade de indicar os dois polos a serem considerados em qualquer definição abrangente dos estereótipos: a diferenciação entre as perspectivas do percebedor, aquele que aplica os estereótipos durante o julgamento social e, a do alvo, o objeto do julgamento estereotipado.

No caso específico dos estereótipos, a noção de rigidez se associa usualmente ao percebedor, aproximando-o a uma série de conceitos importantes na psicologia como as noções de rigidez mental, pensamento grupal, mente fechada, necessidade de cognição ou de closura, heurísticas e vieses de julgamento, profecias que se cumprem por si mesmas etc. Por trás dessa noção reside o entendimento de que tanto a aprendizagem automática, decorrente da habituação e dos condicionamentos sociais quanto a mais controlada, resultante do impacto dos processos mentais superiores (raciocínio, julgamento, tomada de decisões, pensamento reflexivo), impõem a acolhida de uma concepção teórica na qual o percebedor é concebido como alguém incapaz de evitar o uso de generalizações indevidas e, como tal, impelido a conduzir julgamentos sociais injustificados.

A noção de repetição está associada à conduta dos alvos, interpretadas a partir do entendimento de que estes ostentam semelhanças entre si, o que envolve o exagero na percepção de homogeneidade, ou a suposição de que eles, mesmo sendo diferentes na superfície das aparências, se comportam de uma mesma maneira, o que corresponde ao conceito de direção comum. A diferenciação entre as perspectivas do percebedor e do alvo é bem mais abrangente do que o previamente exposto; quem avalia é o percebedor, aquele que acolhe e exprime uma atitude negativa; o alvo, é aquele que é avaliado, é julgado ou sofre a consequência de uma ação discriminatória. Os estudos sobre os preconceitos e estereótipos tendem a privilegiar, no plano heurístico, a perspectiva do percebedor. Os alvos, neste sentido, se tornam duplamente objetos de injustiças; pois, não apenas estão sujeitos aos julgamentos que se lhes aplicam, como também têm sido objeto de interesse muito menos acentuado por parte dos estudiosos. Apenas a partir dos anos 90 do século passado a preocupação em conduzir estudos sob a perspectiva do alvo se tornou mais sistemática e ganhou visibilidade (Swin & Stangor, 1998), embora esta tendência já pudesse ser entrevista em estudos mais antigos (Horowitz, 1939; Clark e Clark, 1939, 1947; Lewin, 1947; Goffman, 1963). As principais diferenças entre as perspectivas do alvo e do percebedor nas áreas de estudo dos estereótipos, dos preconceitos e da discriminação podem ser observadas no quadro 2.

Quadro 2. perspectivas do alvo e do percebedor

2.1.1. Diferenciações fundamentais

Numa caracterização amplamente comentada, Hamilton, Stroessner, & Driscoll (1994) exprimiram um justo incômodo com as inúmeras definições de estereótipos. Não sem um certo desconcerto, também nos achamos no direito de contribuir com esta profusão conceitual ao apresentarmos uma definição que nos parece apta a superar as formulações anteriores. Entendemos os estereótipos como crenças compartilhadas a respeito de um ente social, usualmente, mas não necessariamente, uma categoria social, que se fundamentam em teorias implícitas causais e intencionais, cumprem a dupla função de organizar as experiências perceptuais e cognitivas e oferecem suporte para a construção de mitos de legitimação das hierarquias e desigualdades sociais. A partir dessa definição podemos delimitar:

  1. Os dois mecanismos psicossociais decisivos na formação das crenças estereotipadas, a entitatividade e as teorias implícitas;
  2. As duas funções cumpridas pelos estereótipos, a de organizar e simplificar a percepção da realidade social e a de contribuir para a manutenção do status quo, ao facilitarem a legitimação, a justificação e a racionalização das hierarquias sociais; e
  3. As perspectivas do percebedor, aquele que acolhe um sistema de crenças e realiza o julgamento estereotipado, bem como a do alvo, aquele que é desindividualizado e objeto de teorias implícitas que, uma vez identificadas e isoladas, podem servir como meio para a construção de estratégias de enfrentamento e diluição das representações estereotipadas.

Para melhor circunscrever esta definição, ao longo da obra iremos contrastá-la com outras encontradas na literatura especializada, não sem antes acentuar a importância de compreender o quanto os conceitos e as suas definições devem ser interpretados à luz dos contextos social, geográfico e histórico nos quais a matriz teórica que lhe subjaz se insere, assim como devem ser elucidados a partir do enquadre cultural e científico que permite situar o surgimento, a difusão, a popularização e o abandono de cada uma dessas definições.

A trajetória do conceito de estereótipos não ocorre de forma isolada e deve ser discutida de maneira concomitante ao estudo da formação e desenvolvimento de ideias mais gerais, como os conceitos de atitudes, crenças e valores, sendo particularmente importante articulá-los com constructos mais específicos, a exemplo das noções de xenofobia, discriminação, racismo e, principalmente, dos preconceitos.

A admissão de que o percebedor dispõe de representações rígidas, imutáveis e injustas a respeito de determinadas categorias e grupos sociais se justifica à luz de uma preocupação maior, a de evitar cometer aleivosias. Impôs-se ao longo do tempo o entendimento de que já passara da hora de abandonar conceitos que se mostravam injustificados. Os estudos sobre o desenvolvimento histórico dos preconceitos raciais e da discriminação racial indicam que este movimento ocorre a partir da segunda década do século XX, quando se documenta uma forte tendência entre os estudiosos no sentido de abandonar teses que defendiam a existência imanente de diferenças entre indivíduos de raças diferentes, sempre em um sentido hierárquico e com o claro favorecimento dos brancos europeus em relação às outras categorias nacionais e raciais. Se a tendência até então era a de documentar essas diferenças em termos de estruturas anatômicas, funções fisiológicas, caráter, moralidade e resistência às doenças, a partir desse momento a tese da superioridade branca em relação às outras raças passa a ser vista como uma asserção duvidosa e, mais do que isso, ganha corpo o entendimento de que este julgamento hierarquizado jamais encontrara respaldo em evidências reais, atendendo muito mais a demandas não exatamente circunscritas ao campo das ciências.

As ciências sociais, em particular a sociologia e a psicologia social, rapidamente se incluem neste movimento e abandonam a ênfase no papel legitimador dos preconceitos e estereótipos, perfilando-se entre as disciplinas voltadas para a construção de um discurso de ruptura com a legitimação das hierarquias. Ainda prevalente, a perspectiva hierarquizadora começara a se mostrar incompatível não apenas com as expectativas da sociedade, mas também com evidências obtidas pela ciência da época. Ao saber científico corresponderia demonstrar que alguns grupos estavam sendo claramente relegados a uma condição de inferioridade sem que fossem oferecidos quaisquer fundamentos científicos que respaldassem essa formulação, donde o surgimento de um forte otimismo expresso na crença de que uma vez esclarecida a injustiça deste julgamento, o combate aos estereótipos e os preconceitos poderia ser encaminhado com mais vigor. Julgamos importante acentuar uma dificuldade decisiva a ser enfrentada pelos estudiosos dos estereótipos: como modificar o estatuto legitimador dos estereótipos se, muitas vezes e em muitas circunstâncias, nem nos damos conta de que eles existem e de que, depositários da nossa própria história, temos imensa dificuldade em abandonar as certezas nas quais insistimos em nos aferrar?

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