Resenha: Diferença e Igualdade nas Relações de Gênero – Revisitando o Debate

chamada

Luciana Alfano Moreira

   O texto Diferença e Igualdade nas Relações de Gênero: Revisitando o Debate, de autoria da Doutora em Psicologia pela USP/SP Maria de Fátima Araújo, visa debater as mudanças nas relações de gênero e a crise na masculinidade sob o impacto do feminismo, a partir de um levantamento bibliográfico utilizando diversos estudos de gênero sobre as subjetividades femininas e masculinas.
A autora inicia o artigo trazendo o conceito de gênero e a discussão do seu uso como categoria de análise, fazendo, primeiramente, a diferenciação entre o significado gramatical que serve para designar os indivíduos de sexos diferentes, relacionado à Biologia, e o seu significado cultural, relacional e situado na esfera social, baseado no uso do conceito de gênero pelas feministas. E esse caráter relacional do gênero levou a uma revisão dos estudos centrados nas mulheres, abrindo a demanda para os estudos sobre as relações de gênero, em que os homens não podem ser estudados independentemente das mulheres e vice versa. E no que tange à utilização do gênero como categoria de análise, a autora busca os estudos de Scott(1995), da brasileira Saffiotti(1997), e da historiadora francesa Louise Tilly(1994) para defender o seu uso, visto que a autora Maria de Fátima Araújo entende o gênero como uma categoria empírica, história e, portanto, analítica.
De acordo com Scott, o gênero é uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado, um elemento construtivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos e, também, um modo primordial de dar significado às relações de poder. E estudar as mudanças na organização das relações sociais é estudar as mudanças nas representações de poder correspondentes. Ela busca compreender como o gênero constrói as relações sociais, como a política constrói o gênero e como o gênero constrói a política. Tilly corrobora com o pensamento de Scott e defende a necessidade de tornar o gênero uma categoria de análise, em detrimento dos métodos descritivos dos estudos sobre a história das mulheres. Já para Saffiotti, gênero (como etnia, raça e classe) são categorias de análise e operam na realidade empírica enquanto categorias históricas.
A autora também entende o gênero como sendo uma categoria política que pode ser usado para estudar a problemática da igualdade e da diferença. Historicamente, a discussão sobre as diferenças entre os sexos desenvolveu-se a partir de duas concepções: a) a essencialista: que acreditava na diferença sexual e na “essência feminina”, supõe um feminismo universal; e a b) culturalista, na qual as diferenças sexuais são resultados da socialização e da cultura. Uma terceira concepção proposta por Françoise Collin(1992) traz igualdade e diferença constituindo uma única categoria, em que há o respeito pelas diferenças, mas também a necessidade delas. Collin propôs pensar a diferença em 3 níveis: entre o sujeito-mulher e sua condição de mulher; entre as mulheres; e entre as mulheres e o mundo dos homens. Para Collin, uma mulher não é só uma mulher, ela não se reduz a sua feminilidade, é um sujeito heterogêneo.
Scott também compactua essa posição, com a afirmação de que a própria oposição binária igualdade-diferença oculta sua interdependência, já que igualdade não é a eliminação da diferença e a diferença não impede a igualdade. A enorme diversidade de identidades supera as classificações macho/fêmea, masculino/feminino, sendo tais diferenças a própria condição das identidades individuais, o verdadeiro  sentido da identidade.
O artigo de Maria de Fátima também traz um breve histórico do movimento feminista e da luta pela igualdade, logo substituída pelo debate igualdade-versus-diferença, na segunda metade da década de 70, quando se passou a falar de diferença cultural feminina, experiência feminina, e do reconhecimento da diversidade cultural de gênero. Revistas as estratégias de luta, ao final dos anos 80, as mulheres passaram a defender a igualdade não mais em nome da capacidade de se assemelharem aos homens, mas, sobretudo, por desejarem a igualdade nas diferenças.
A estratégia de luta da igualdade nas diferenças propiciou uma possível mudança nas relações de gênero, a valorização do feminino e até a libertação, por parte dos homens e das mulheres, de velhos estereótipos. Mas ao levantar a bandeira da igualdade nas diferenças, e propor tal valorização do feminino, o discurso feminista também esbarram no antigo dualismo masculino/feminino, atribuindo valores e características diferentes para cada sexo e excluindo outras possibilidades de que homens e mulheres se diferenciem dos modelos estereotipados e rígidos.
Para Maria de Fátima Araújo, as transformações propiciam que os homens se libertem do peso do machismo e que as mulheres se livrem do imperativo do feminino, adquirindo autonomia e liberdade, sem ter que seguir as características determinadas pelo gênero. Mais uma vez trazendo e consolidando a ideia do gênero como construção social; e nessa perspectiva reconstruir o feminino implica também numa reconstrução do masculino.
Na última parte de seu texto, a autora encerra de forma bastante otimista, afirmando que os homens estão tomando consciência dos conflitos impostos pelo machismo, fugindo do sexismo, e que homens e mulheres estão se distanciando dos modelos estereotipados de gênero e desenvolvendo novas formas de subjetividade. Não se pode discordar que um novo modelo de homem esteja surgindo como consequência de fatores como a independência financeira das mulheres e das políticas de proteção, além de anos e anos de luta feminista, dentre outras coisas, mas também é sabido que essas mudanças caminham a passos lentos. A posição otimista da autora não pode ser simplesmente estendida a todos os homens, nem mesmo a todas as mulheres, que também são propagadoras de pensamentos machistas, preconceituosos e estereotipados em relação a elas mesmas. Transformações como as que a autora já enxerga levam várias gerações para acontecer e dependem de vários outros motivos além dos expostos pela autora Maria de Fátima Araújo.

Referência: Araújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17,2,41-52

Resenha: diferenças e igualdades nas relações de gênero

Renata Bárbara da Silva

O artigo traz uma discussão acerca da questão da diferença e da igualdade nas relações de gênero e a influência do movimento feminista, discorre sobre a crise da masculinidade e de mudanças socioculturais sobre essa temática. Inicialmente, a autora se respalda nas concepções da historiadora estadunidense Joan Scott para analisar o conceito de gênero e sua aplicabilidade enquanto categoria analítica. O termo “gênero”, no sentido gramatical, designa indivíduos de sexos diferentes, masculino/feminino. Para a literatura feminista, no entanto, gênero é um construto sociocultural, diferentemente do conceito de sexo, que se refere a diferenças biológicas. Segundo Scott (1995, apud ARAÚJO), “gênero” é utilizado para designar as relações sociais entre os sexos e rejeitar de forma radical explicações biológicas que deixam implícitas diversas formas de subordinação feminina.
“Gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos e também um modo primordial de dar significado às relações de poder” (SCOTT, 1995, apud ARÁUJO). Nesse sentido, gênero seria a primeira forma de articular o poder.
A utilização desse conceito enquanto categoria analítica incide em visões antagônicas entre diversos autores, principalmente no que se refere ao estatuto cognitivo do conceito. A autora , no entanto, defende o uso do conceito de gênero como categoria de análise, apoiando-se em Scott (1995), Tilly (1994) e Saffiotti (1997), que fazem crítica ao caráter descritivo dos estudos sobre a história da mulher. Concebe gênero como uma categoria empírica e histórica, portanto, empreende valor de categoria analítica. Emergente de uma realidade empírica, o conceito de gênero, expressa as relações históricas e as formas de existência da realidade social.
De acordo ao artigo, o conceito de gênero pode ser ademais empregado em uma categoria política, que permite a análise da questão da igualdade e da diferença, apontando para uma nova perspectiva de interpretação e transformação da realidade social. A autora aponta três perspectivas principais sob as quais o debate acerca da diferença entre os sexos se desenvolveu: a essencialista, na qual há uma exaltação da “diferença sexual”, psicologizando e biologizando as constatações sociológicas e culturais historicamente produzidas; o discurso culturalista, onde as diferenças sexuais provêm da socialização e da cultura; e por último, a perspectiva da feminista Françoise Collin (1992), na qual propõe um dialogo contínuo, que incorpora a igualdade e as diferenças sem negá-las, num constante jogo dialético em que a pluralidade e o diálogo são os princípios fundamentais. Esses argumentos são reforçados pelas propostas desconstrutivistas de Scott (1995) da oposição igualdade/diferença. Para ela, com a desconstrução dessa antítese será possível não só dizer que os seres humanos nascem iguais mas diferentes, como também sustentar que a igualdade reside na diferença.
O debate sobre a igualdade versus diferença, entretanto, só foi introduzido no movimento feminista entre a década de 70 e 80, quando atribuindo uma valência positiva à diferença, direcionou-se a luta em favor da igualdade na diferença. Essa revisão no feminismo surge a partir do momento em que se percebeu uma ambiguidade nos discursos, em que as mulheres se esforçavam para assimilar os modelos considerados masculinos em detrimento dos femininos.
A autora considera que a grande conquista do projeto feminista igualdade na diferença foi a possibilidade de mudança nas relações de gênero, na medida em que as mulheres (e os homens) puderam se libertar dos velhos estereótipos e construir novas formas de se relacionar, agir e se comportar.
Outro reflexo provocado pelo movimento feminista foi a crise da masculinidade, uma vez que esse movimento foi responsável por mudanças radicais nos valores, nos costumes e nas relações de trabalho e família, e de transformações socioeconômicas e culturais num contexto amplo caracterizado pela ascensão do capitalismo. Por consequência, observa-se hoje, pelo menos nas sociedades ocidentais, um distanciando dos modelos estereotipados de gênero, permitindo que homens e mulheres possam desenvolver novas formas de subjetividade.

Referência: Araújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17, 2,41-52.

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais

Rosicley Almeida Lima

A pesquisa relatada por Ilari (2006) objetivou analisar a relação entre música e relacionamento interpessoal amoroso. Muitos estudiosos se debruçam há décadas sobre o papel da música na história da evolução da espécie humana e até hoje não chegaram a um consenso em relação ao assunto.
O texto ressalta que a funcionalidade da música no mundo ocidental, pelo menos, está relacionada direta ou indiretamente, aos relacionamentos interpessoais. Em qualquer fase da vida, em envolvimentos profissionais ou pessoais, em atividades de cunho festivo ou religioso, a música se faz presente na história das civilizações como um dos instrumentos de atração interpessoal. A atração interpessoal é apresentada como “uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros…” (p. 2), e que remete às nossas experiências ao longo da vida. De acordo com o texto atitudes, crenças e valores em comum são elementos importantes na atração interpessoal e é justamente isso que a relaciona com o desenvolvimento do gosto musical, já que ambos dependem de contingências sociais.
É sabido que a música possui diferentes objetivos nas mais variadas culturas, como excitar e acalmar, sendo que o grupo social irá definir a ‘adequação’ de cada ritmo ao momento em que a música é tocada. Desse modo, a música é capaz de despertar as mais diversas sensações, pois está intimamente relacionada com as situações do cotidiano.
O texto traz resultados de estudos da psicologia da música (nem sabia que existia) sobre o papel desta na atração heterossexual, ou melhor, sobre o modo como o gosto musical influencia na escolha de parceiros do sexo oposto. E a conclusão foi que os estereótipos comumente associados aos grupos sociais também se aplicam aos estilos musicais, uma mostra da interferência cultural na relação música-indivíduo. Para Ilari, “os estereótipos associados à música, que nada mais são do que esquemas cognitivos que passam pelo viés de categorias impostas social e culturalmente, aparentam ser determinantes nas atitudes interpessoais.” (p. 3). O gosto musical, nesses casos é considerado representante de um conjunto de crenças e valores que servem para categorizar as pessoas.
A pesquisa já realizada nos EUA e em alguns países europeus, dessa vez foi aplicada em uma amostra brasileira composta por 50 jovens (metade homens e metade mulheres) adultos entre 12 e 43 anos frequentadores de um restaurante universitário de Campinas/SP, todos com pouco ou nenhum envolvimento formal (cursos, etc.) com o meio musical. O instrumento desenvolvido para a coleta de dados consistiu em três partes: primeiro, os participantes foram expostos a cinco pares de classificados pessoais e a partir disso, deveriam escolher, em cada par, o parceiro de sua preferência, ressaltando que a variável música (por ex., toca violão) estava presente em apenas um classificado de cada par. Em seguida, o instrumento traz a seguinte proposição incompleta: “As pessoas que ouvem….(estilo musical) são geralmente….(adjetivo)”, e os participantes deveriam atribuir no mínimo dois adjetivos com base nos estilos propostos, a saber: MPB, jazz, música clássica, samba/pagode, rock/pop e sertanejo, considerados os mais populares em nosso país. Por último, todos responderam questões abertas sobre sexo, idade, experiência educacional, experiência musical prévia e tempo de escuta musical, e ainda questões abertas sobre a relevância da música nas vivências pessoais, inclusive nas relações interpessoais.
Os resultados parciais mostraram que a maioria dos participantes relacionou gosto musical a características da personalidade e às atitudes. A classe social e consequentemente o status também foram associações frequentes. Um exemplo disso são as relações envolvendo o gênero sertanejo, maior concordância de adjetivos entre os participantes, que foi considerado música para indivíduos humildes, moradores ou não da zona rural, além de muito sentimentais. Nota-se uma forte associação ainda com a música sertaneja de raiz e um contraponto com o ‘moderno’ sertanejo de duplas que com suas letras românticas e grande influência de instrumentos como a guitarra, em pouco ou quase nada se parecem com a música sertaneja de Tonico e Tinoco, por exemplo. E se a pesquisa tivesse acontecido nos tempos atuais do sertanejo universitário certamente os estereótipos de classe social e de personalidade relacionados a esse estilo estariam ainda mais confusos e/ou discrepantes.
Para 86% dos entrevistados, a música é importante no relacionamento amoroso na medida em que influencia os sentimentos de ambos os parceiros (80%), tornando-os mais ou menos sensíveis enquanto indivíduos e também par (71%), e ainda promove a conexão entre o casal (68%), ajudando a chegar ao romance (67%). Um dado surpreendente é o de que 14% da amostra afirmou não namorar alguém com gosto musical diferente do seu, reforçando o poder dos estereótipos envolvidos com a música; uma das justificativas seria a de que essa contradição entre os gostos musicais seria crucial nas saídas dos parceiros para se divertirem juntos. Porém, a maioria dos participantes se mostrou aberto para a experiência de se relacionar com alguém de gosto musical oposto ao seu, sinalizando a existência das diferenças e o necessário respeito a elas.
Como dado mais significativo sobre a díade música-relacionamento amoroso, a maioria esmagadora da amostra (92%) descreveu no mínimo dois episódios de suas vidas em que determinada música teve destaque especial, fazendo com que sua audição elicie necessariamente respostas de recordações desses episódios.
A autora resumiu em três os objetivos da música nos relacionamentos interpessoais: objetivos de excitação, elevando-a (música rápida) ou diminuindo-a (música lenta); objetivos de fundo acústico para criar um clima de acordo com o contexto e ainda suprir possíveis falhas na comunicação verbal, por exemplo; objetivos de interação social facilitando a aproximação e a troca de experiências; objetivo de fortalecer a memória afetiva, fazendo com que determinada música ajude o indivíduo a lembrar de fatos ou pessoas de seu convívio.
Ilari conclui que a música tem relação indireta nas relações interpessoais e consequentemente na escolha de parceiros amorosos, seja facilitando a aproximação, tornando mais ou menos agradável os encontros, trazendo à memória recordações do passado, e assim por diante. Dessas observações a autora infere que o papel da música na história da evolução humana precisa ser reconsiderado.
Subestimar a função da música no desenvolvimento das relações humanas é negar o seu caráter principal de linguagem entre os indivíduos nos mais diversos momentos de sua história pessoal e coletiva. Obviamente, particularidades culturais devem ser levadas em conta quando explicamos o papel da música na vida das pessoas, pois sem dúvida, ela consiste em um indicativo das representações sociais, haja vista os muitos estereótipos que alimenta.

Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198.

Resenha: Diferença e igualdade nas relações de gênero – revisitando o debate

Louise Correia Vital

O artigo “Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate” da autora Maria de Fátima Araújo situa o leitor, a partir de um enfoque histórico, no debate sobre a diferença e igualdade no âmbito das questões de gênero.
Primeiramente, o texto se inicia apresentando o argumento de que em diversas áreas do conhecimento procuram ou procuraram estudar a “diferença sexual”, como na antropologia e nas ciências sociais. Porém, apenas com o feminismo foi instaurado uma nova forma de análise das diferenças e igualdades entre os sexos. Este novo olhar permitiu que não só se pensasse nessas questões dicotomicamente, entre os sexos, mas também dentro deles: “não só entre homens e mulheres, mas entre mulheres e entre homens”.
A partir da utilização do conceito de “gênero” pelas feministas americanas como uma categoria de análise social, e não no seu sentido puro gramatical de “indivíduos de sexos diferentes”, houve um deslocamento dos estudos sobre a ‘mulher’ para se estudar as ‘relações de gênero’. Pois não é possível dissociar o mundo da mulher do homem e vice-versa. Sendo assim, o termo foi associado mais à relações sociais entre os sexos, e não à padrões de comportamento naturalizados. A definição apresentada pela autora abarca bem esta mudança: O termo “gênero” torna-se, antes, uma maneira de indicar “construções culturais” – a criação inteiramente social de ideias sobre papéis adequados aos homens e às mulheres. Trata-se de uma forma de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e de mulheres. “Gênero” é, segundo essa definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado. Com a proliferação dos estudos sobre sexo e sexualidade, “gênero” tornou-se uma palavra particularmente útil, pois oferece um meio de distinguir a prática sexual dos papéis sexuais atribuídos às mulheres e aos homens (Scott, 1995: 75).
O estudo sobre gênero percebe, então, as representações deste como estruturador da percepção e da organização concreta e simbólica da vida social, como disse a própria autora “Na medida em que essas referências estabelecem distribuições de poder (um controle ou um acesso diferencial às fontes materiais e simbólicas), o gênero torna-se envolvido na concepção e na construção do poder em si mesmo. ”
A utilização do gênero como metodologia de estudo analítico foi proposto por autoras como Scott(1995) e a historiadora francesa Louise Tilly(1994) como forma de criticar a forma puramente descritiva com que se dava os estudos sobre a mulher. Elas acreditam que o gênero deveria ser aceito como uma verdadeira categoria de análise, por meio de uma conceitualização que possa desafiar os conceitos dominantes atualmente na disciplina histórica. A autora corrobora com a ideia do gênero como uma categoria empírica e histórica, e portanto, como uma categoria analítica. Sendo assim, ela escreve: “Apreendido da realidade empírica, [o gênero] ele expressa as relações históricas e as formas de existência da realidade social. ”
Além desta categoria, Maria entende o gênero como sendo também uma categoria política que pode ser usado também para estudar a problemática da igualdade e diferença entre os sexos. A diferença entre os seres humanos já foi tratada em diversos âmbitos – filosófico, religioso, biológico, psicológico, antropológico e social. Atualmente esse debate continua muito forte, com a diferença no discurso: não mais “direito à diferença”, mas sim “respeito às diferenças” e a “preservação das particularidades culturais”
Historicamente, a discussão que cerceia o gênero desenvolveu-se a partir de dois vieses: um essencialista, que acreditava na naturalização de certas características, como a “essência feminina”, exaltando a diferença desta com a do sexo oposto; e a culturalista, em que acredita que as diferenças sexuais são resultados da socialização e da cultura. Uma terceira abordagem que se desenvolveu acerca desta temática foi exposta pela feminista francesa Françoise Collin (1992). Ela trouxe os conceitos dicotômicos de igualdade e diferença como constituindo uma única categoria, em que não só há um respeito pelas diferenças, como também uma necessidade. Collin propôs pensar a diferença em 3 níveis: entre o sujeito-mulher e sua condição de mulher; entre as mulheres; e entre as mulheres e o mundo dos homens. Com relaçao a sua primeira distinção, ela diz que uma mulher não é só uma mulher. “Um sujeito mulher não se reduz à sua feminilidade; ao contrário, é um sujeito heterogêneo ”. Sobre a diferença entre as mulheres, diz que é importante construir uma nova forma de socialização entre elas, para que seja possível incluir essas diferenças. E em relação a diferença entre as mulheres e o mundo dos homens, diz ser necessário uma nova forma de compreender essa relação. A proposta de Collin é de incorporar em um diálogo contínuo as diferenças e igualdades, sem haja negação de uma ou de outra, ou seja, desconstruir a análise binária que vem sendo feita desses elementos.
Sobre a questão da igualdade, no início do movimento feminista, a luta pela igualdade se sobrepôs à luta pela diferença. As mulheres tentaram ocupar o lugar do homem, transgredindo a norma que permitia classificar a mulher como o avesso do homem, porém “na luta pela igualdade tropeçaram na diferença”. A diferença, naquela época, era vista como sinônimo de desigualdade. Ao tentar ocupar o lugar do homem na sociedade, essas mulheres se viram em um confronto com sua real identidade. Somente no final dos anos 80 isso se inverteu e as mulheres resolveram defender o direito de serem diferentes dos homens.
Por fim, o último tópico do texto em questão fala sobre a crise da masculinidade e as novas relações de gênero. As mudanças no mundo da mulher decorrente do feminismo não foi isolado do mundo dos homens, esse também se modificou. Assim como feminino, repensar o masculino pressupõe rever modelos de comportamento, teorias e discursos que foram usados para explicar o “masculino” ou a “essência masculina”. A crisa da masculinidade tem início no século XVII na frança, onde existiam mulheres que possuíam mais escolaridade e conhecimento e por isso se questionavam sobre o lugar da mulher na sociedade da época. As chamadas “preciosas francesas” defendiam a igualdade entre os sexos, o direito ao amor e ao prazer sexual, o acesso à mAraújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17,2,41-52esma educação intelectual dada aos homens. Na Inglaterra, com o desenvolvimento do amor romântico e a ascensão do individualismo – pois um está diretamente ligado ao outro – houveram muitas discussões acerca dos papéis dos homens e das mulheres na família, no casamento e na expressão da sexualidade. Portanto, vê-se que assim como as mudanças no mundo dos homens estão diretamente ligados a questões históricas, o mundo das mulheres não escapa à isso. Com a ascensão do capitalismo e a destituição da estrutura paternalista, houve uma abertura para que a mulher pudesse se inserir no espaço público – trabalhando, por prazer ou necessidade. Devido a essas transformações socais, percebe-se que os homens, assim como as mulheres, buscam maneiras diferentes e distantes do sexismo para se inserir e se afirmar como ser masculino na sociedade, partindo do princípio de que não há uma masculinidade, assim como não há uma única feminilidade. Diante desse quadro, é possível, para a autora, afirmar que relações de gêneros mais democráticas podem vir a surgir, tendo o direito à igualdade e o respeito às diferenças como suporte.
A partir do que foi apresentado, Maria se utiliza do debate histórico sobre a igualdade-diferença e as transformações sociais ocorridas para discutir a questão da igualdade-diferença, a ideia de gênero como categoria de análise e a crise da masculinidade. O que foi apresentado ao final do texto pela autora tem um caráter bastante otimista. Segundo ela, os homens estão buscando novas formas de se inserir na sociedade, “tomando consciência das tensões e conflitos impostos pelo machismo” valorizando a subjetividade e relações íntimas, fugindo do sexismo que por anos vigorou e provocando relações de gênero mais democráticas. Esta idealização pode ainda estar longe de se tornar realidade. É verdade que muitos dos comportamentos-padrão que eram atribuídos a ambos os sexos está sendo hoje muito debatido e alguns deles até desclassificados, porém, presumir que essas modificações se estende para todos os homens ou a maioria não é verídico, e ainda que fosse, admitir que apenas isto desenvolverá relações mais harmoniosas entre os sexos é uma visão bastante ingênua por parte da autora. Uma vez que todos os dias presenciamos formas antigas e retrógradas de comportamento por parte dos homens (e das mulheres). Mesmo os direitos humanos ainda se encontra muito distante deste ideal. Certamente não se pode negar as conquistas e a importância do espaço que existe para que esses debates sobre gênero estejam mais presentes no dia a dia. Porém, uma mudança de valores desta magnitude, como infere a autora, ainda não existe, mas vê-se que a tendência é continuar caminhando em direção a tal ideal, talvez as futuras gerações possam desfrutar disto.

Referência Bibliográfica:Araújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17,2,41-52

Resenha: Dialética das relações raciais

Núbia dos Santos da Hora

Apesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.

O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história. Apesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.
O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história, se transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado.pesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.
O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história, se transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado. transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado.

Referência: Ianni, O. Dialética das relações raciais. Estudos Avançados, 2004, 18, 50,21-30.

Resenha: Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais.

Zélia Fernandez

O artigo traz uma importante articulação entre a produção dos textos de correspondentes internacionais e os seus efeitos na manutenção dos estereótipos relacionados a imagem do Brasil no exterior. O artigo está dividido nas suas 15 páginas, em quatro partes : na primeira parte o artigo traz o resumo e uma introdução com uma revisão histórica das atividades de correspondências de notícia no Brasil e uma pequena revisão teórica sobre os estereótipos, na segunda parte ele apresenta sua metodologia de pesquisa descrevendo também seu referencial teórico para análise metodológica e que serve de referência para confirmação da sua hipótese de pesquisa. Na terceira parte o autor discute os seus resultados fazendo uma articulação rica entre o quanto a manutenção dos estereótipos é reforçada nessas produções jornalísticas, o papel do profissional nas suas escolhas e as repercussões sócio econômicas da manutenção desses estereótipos. E ao final, as referências bibliográficas.
O autor é I.Paganotti, jornalista freelancer formado pela Universidade de São Paulo, professor de Jornalismo do Colégio Stockler.

Na primeira parte do artigo o autor apresenta o resumo e os primeiros exemplos do tratamento que a imagem do Brasil recebe pela mídia e os instrumentos que serão utilizados para aprofundar o tema, assim como uma revisão histórica das impressões estrangeiras como fonte da identidade nacional.

Ele descreve como historicamente a imagem do Brasil foi sendo construída e a formação de uma idéia de Brasil a partir da perspectiva do olhar estrangeiro, mais especificamente da visão dos correspondentes internacionais, que ele chama dos novos jesuítas, que com seus relatos de viagem são responsáveis por levar as noticias do Brasil para fora.

As reportagens feitas por esses profissionais chega a casa dos milhares anualmente e portanto a construção de uma imagem brasileira, onde se reproduz muitos estereótipos não consegue estar fora da pauta. Nesse sentido são dois brasis que são normalmente descritos nesses relatos: o do paraíso e o do inferno.

O autor faz uma pequena revisão teórica do conceito de estereótipo, citando autores como Lippman e Maisonneuve. Segundo o autor é a partir dos estereótipos presentes nos muitos relatos dos estrangeiros sobre o Brasil, que vão se sustentar a imagem do pais lá fora e ajudar a construir o imaginário coletivo estrangeiro sobre o Brasil.

Na segunda parte do texto ao autor apresenta o método da sua pesquisa. Ele usou como fontes o The New York Times dos EUA, El Mundo da Espanha, Diário de Notícias de Portugal, The Guardian e The Observer da Inglaterra, Página/12 e El Clarín da Argentina.

Analisando 1244 textos e usando como referencial teórico para análise dos textos a análise crítica do discurso, definida por Fairclough como “o exame das conexões implícitas entre as características textuais e os processos sociais (Fairclough, 1997: 97)”, ele procurou aprofundar o quanto havia de reprodução ou transformação dos estereótipos. De acordo com Fairclough se pode utilizar uma estratégia mais normativa, reproduzindo uma idéia por meio da repetição ou mais criativa transformando pela contestação, discussão ou até mesmo negação “os pressupostos e estereótipos apresentados”. Segundo o teórico as manifestações criativas mantidas em longo prazo “podem também alterar permanentemente as próprias imagens, pressupostos ou estereótipos que a opinião pública tem sobre certos temas (idem, 1992: 165)”. O autor se preocupou em procurar detectar sinais de desconstrução da imagem estereotípica que os estrangeiros têm sobre o Brasil, nas suas narrativas.

Na terceira parte do texto o autor discute os seus resultados fazendo uma classificação muita rica dos relatos levantados em quatro grupos temáticos estereotipados. São eles: O Brasil “verde”: concentra-se na exaltação da beleza natural do país, o Brasil “de lama”: que foca a corrupção política, o subdesenvolvimento e a pobreza endêmica e freqüentemente inter-relacionados a o terceiro grupo temático, o Brasil “de sangue”: que é o Brasil da violência, incluindo o tráfico de drogas, que leva a um cenário de insegurança. E finalmente no quarto grupo o Brasil “de plástico”: que é um Brasil muito publicitário, “é a nação das festividades carnavalescas, da liberdade sexual (seja qual for a orientação), dos negócios, da alta sociedade e seus caprichos”.

No artigo há uma tabela onde as quatro categorias temáticas são apresentadas e a freqüência em que cada sub tipo relacionados a elas aparece. Uma conclusão muito interessante do autor é sobre a freqüência de estruturas representativas simplificadoras que aparecem em cada três reportagens, deixando claro que a repetição de estereótipos é mais comum do que a transformação. Uma categoria no entanto, chama mais a atenção como aquela que possui o maior percentual de transformação, com 88, 9% , é o da miscigenação, superando o mito da democracia racial. No entanto a maioria ainda é o da reprodução de estereótipos, com uma predominância do Brasil “sangrento” nas ligações com o tráfico de drogas e em segundo lugar o Brasil “de lama” com grande repetições de estereótipos como a corrupção e a pobreza. Aqui o autor faz uma análise muito apropriada de como a escolha do vocabulário pode influenciar a representação e conseqüentemente pode colaborar com os processos de estereotipia onde se passa a idéia por exemplo de que: “é em meio à pobreza que cresce o banditismo”.

Os estereótipos oferecem uma possibilidade de ajuda aos correspondentes no sentido de dar a eles um caminho simplificador, onde eles possam apenas aprofundar, a sua narrativa.O problema apontado pelo é autor é a permanência ou insistência no uso de certas representações que não dizem respeito mais a realidade e que carece de questionamento e transformação, levando a um déjà vu de pré-conceitos e conceitos ideologicamente enviesados. O autor aponta ainda poucos esforços no sentido do que seria uma prática interessante, que a discussão sobre a utilização de estereótipos, tornando esse mecanismo mais consciente, tanto por parte do jornalista quanto do leitor.

A superação ao longo dos anos de uma narrativa transformadora da imagem de um Brasil exclusivamente sensual, festivo e exótico, portanto reducionista, para uma mais crítico, acabou criando novos estereótipos, onde se enfatiza demais certos aspectos negativos. Nesse ponto do artigo e para finalizar, o autor faz uma interessante articulação entre as repercussões ideológicas e sócio econômicas da utilização desses estereótipos. Ele coloca que a expressão desses estereótipos nas narrativas desses profissionais, os alterando ou os mantendo, tem o efeito de servir a interesses, seja intencionalmente ou não.

Referência: Paganotti, I. Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais. RUMORES – Revista Online de Comunicação, Linguagem e Mídias 1, 1, 2007

Resenha: Teorias Implícitas e Essencialismo Psicológico – Ferramentas Conceituais Para o Estudo das Relações Entre e Dentro dos Grupos

Zélia Fernandez

O artigo traz um aprofundamento nas teorias implícitas e no essencialismo psicológico e o seu efeito nas relações intergrupais. Em doze páginas, os autores fazem uma revisão histórica dos conceitos, percorrendo as contribuições dos vários estudiosos dos temas. Eles não só conceituam mas também descrevem os tipos, as causas e conseqüências dos fenômenos. O artigo esta dividido em duas partes, sendo que cada uma com três tópicos: na primeira parte o artigo mostra uma revisão histórica das teorias implícitas e seu conceito, depois as funções e os tipos, na segunda parte com mais três tópicos, eles abordam o conceito de essencialismo psicológico, também apresentando a contribuição dos diversos autores sobre o tema, as causas e resumidamente seus efeitos. E ao final, as referências bibliográficas.
Os autores são Claudia Estrada Goic da Faculdade de Humanidades, Ciências Sociais e Ciências da Saúde, Miriam Oyarzún Jara da Direção de Assuntos Estudantis, ambas da Universidade de Magallanes no Chile e Vincent Yzerbyt do Departamento de Psicologia Social e Organizacional da Universidade Católica de Louvain na Bélgica,
Na primeira parte do artigo, os autores procuram situar a importância das teorias implícitas e do essencialismo como área de investigação crescente nos últimos anos na psicologia social e a sua participação nos processos psicossociais, destacando a contribuição desses estudos na formação de impressão e nas estratégias cognitivas na apreensão da realidade social. Eles primeiro se utilizam dos usos dos termos para aprofundar o conceito que define as teorias implícitas como um conjunto de crenças sob as quais o sujeito se sustenta para definir como são as pessoas, a natureza humana e os processos sociais. Ele reforça essa conceituação a partir da análise dos próprios termos, teoria e implícita, teoria como um conjunto de crenças consistentes para explicar fenômenos e implícitas porque na verdade aquelas se baseiam em teorias pouco formais, indutivas e pouco consistentes, não tendo portanto, nenhuma relação com as teorias científicas. Ele termina essa primeira parte fazendo uma rápida correlação entre dois conceitos: o das representações sócias e das TI (teorias ingênuas) como ambas tendo cargas motivacionais e afetivas que incitam a ação (Rodrigo, 1994)
Na segunda e terceira partes do artigo os autores tratam das funções e dos tipos de teorias ingênuas. Segundo Levy e colaboradores as TI servem para organizar, compreender e simplificar a realidade social e compartilhar e estabelecer um marco justificativo para as nossas ações e do outro. De forma bem didática, os autores descrevem os tipos de teorias que servem as funções descritas acima. As teorias podem ser: sobre a personalidade, sobre a natureza humana e as que fazem referência a natureza humana mais a origem dos grupos.
A teoria que toma como base a personalidade, se referencia no conhecimento que temos sobre alguém e a forma como utilizamos esse conhecimento para fazer inferências sobre a sua personalidade. Uma das principais contribuições dos autores no entanto é marcar o caráter não particular desse tipo de teoria, isto é, ela pode ser compartilhada, pois possuem elementos comuns e gerais, como por exemplo, todas as pessoas extrovertidas são mais acolhedoras que as introvertidas.
Todas as teorias sobre a bondade, a maldade e a raça humana, por exemplo, fazem parte das teorias ingênuas sobre a natureza humana, esse é um segundo tipo, que seriam crenças gerais mas que podem ainda ser classificadas em dois subtipos: a do locus de controle e as teorias sobre a natureza humana propriamente dita. A teoria do locus de controle é uma das primeiras teorias explicativas da atribuição social, que postula que uma pessoa pode estimar que seu comportamento é provocado, ou por fatores internos (locus de controle interno) ou por fatores externos (locus de controle externo). Ela faz parte dos estudos de alguns fenômenos como por exemplo: a ansiedade como reação ao fracasso (Lefcourt, 1973) e os comportamentos de risco (Hunter, 2002; Miller & Mulligan, 2002),
Dweck e colaboradores propuseram um modelo que explica em quais aspectos da natureza humana as pessoas concentram as suas teorias ingênuas, são elas: a inteligência, o caráter moral, a personalidade e a concepção de mundo. Aí os autores falam das formas como essa aplicação das TI é feita: de uma forma entitativa ou incrementalista, a primeira mais parcial e estabelecendo diagnósticos a partir de inferências, tendem a ver o outro com características mais fixas e menos maleáveis e o segundo, menos parcial, leva em conta fatores situacionais. Duas das várias contribuições importantes do artigo é a correlação entre essas duas formas, das quais um mesmo individuo pode se valer, ora de uma, ora de outra teoria (Dweck e col, 1995) e a confirmação da idéia de que aqueles com maior tendência entitativa recorrem mais aos estereótipos.
Finalmente o último tipo de TI sobre a natureza dos grupos sociais são as que colocam nossas crenças e conhecimentos gerais sobre alguém a partir de sua pertença a um determinado grupo social
No primeiro tópico da segunda parte do artigo, os autores fazem um breve histórico do conceito de essencialismo nas diversas disciplinas como na filosofia, genética e biologia e aprofundam esse histórico mais especificamente na psicologia e mostram as contribuições dos diversos autores nessa área. O termo, primeiro utilizado por Alport(1954) relacionando-o com o preconceito, foi reentroduzido por Medin(1989), que conceitua o essencialismo como a tendência a pensar que há a existência de uma essência ou uma natureza subjacente que fazem com que as coisas ou pessoas sejam como são. Rothbart e Taylor (1992) estudaram e tipificaram o essencialismo e sua influência nas definições de categorizações sociais, ou melhor, a tendência dos observadores, a compreender as categorias sociais como algo natural que comporta uma essência e que tem características estáveis e de pouca maleabilidade, além do seu potencial indutivo, isto é, a possibilidade de prever novas características a partir das conhecidas.
Os autores descrevem as características do essencialismo diante de um grupo, propostas pelo próprio Yzerbyt e Schadron(1996) a partir das proposições teóricas de Rothbart e Taylor(1992), quais são: o grupo como uma unidade, com um destino comum, a inalterabilidade, o caráter indutivo, a existência de una relação causal entre uma essência e todas as características do grupo social e a exclusão de outras formas de conhecimento e apreensão do indivíduo. As características propostas por Estrada(2003) se assemelham as descritas acima e acrescentam que a essência preexiste ao grupo, ela é inferida, imutável, exclusiva e é coerente.

No segundo tópico os autores descrevem as causas do essencialismo, usando como base os trabalhos de Rothbart e Taylor (1992) e Hirschfeld (1995, 1998, 1999). Os primeiros pensavam que o essencialismo se origina em um “erro ontológico”, que é compreender as categorias sociais como categorias naturais, por exemplo a diferença entre ser judeu e cristão é a mesma entre um mineral e um vegetal.
Para Hirschfeld (1995, 1998 e 1999) as pessoas são capazes de organizar uma espécie de reino humano que ajuda a classificar os seres humanos tomando como base diferenças superficiais, por isso algumas categorias tendem a ser mais essencializadas, como raça por exemplo.
No terceiro e último tópico da segunda parte do artigo os autores aprofundam os efeitos do essencialismo nas relações endo e intergrupais . O essencialismo é uma teoría implícita que serve para explicar as diferenças entre os grupos . Estrada e cols. (2004) mostraram como o essencialismo modula o uso de fatores explicativos biológicos e culturais e Martín e Parker (1995) incluíram nesses, os fatores sociais. Leyens e cols (2000-2002) estudaram o fenômeno da infrahumanização, que significa que ao dar ao seu grupo de pertencimento uma característica própria, essencial, humana e superior então para o exogrupo essa essência seria menos humana ou infrahumana e inferior.
Outros aspectos apontados nessa parte do artigo são os efeitos do essencialismo sob os estereótipos e o preconceito como por exemplo no estudo de Bastían e Haslam (2006) que confirmam que as pessoas essencialistas usam mais os estereótipos. A avaliação e o enfrentamento do membro desviante no endogrupo, o fenômeno da projeção social e o efeito do falso consenso são outros aspectos tratados nessa parte do artigo.
Os autores reconhecem que ainda há muito estudo empírico a ser realizado na busca de respostas no que podem ser ferramentas conceituais poderosas, no sentido de aprofundar o estudo e o entendimento das relações intergrupais. As TI representariam um grande potencial explicativo dos fenômenos associados ao pensamento e a dinâmica da interação social, segundo os autores.
Eles apontam caminhos futuros de investigação como o papel que estas crenças desempenham em questões sociais, mais específicas, tais como: a resistência à mudança de jovens com comportamento marginal (em gangues, por exemplo) e a busca de formas de diálogo entre os grupos com idéias radicais (políticas ou religiosas, por exemplo).
O artigo é bastante objetivo e didático no sentido de traçar um panorama geral sobre as principais contribuições dos diversos autores aos conceitos propostos e é de fácil leitura.Ele aborda de forma organizada e detalhada os conceitos e é uma boa referência para aqueles interessados na abordagem de conceituações relacionadas a expressão dos estereótipos e nas relações intergrupais, sobre as quais ele incita a um aprofundamento maior por parte dos investigadores.

Referência: Estrada, C., Oyarzún, M e Yzerbyt, V. Teorías Implícitas y Esencialismo Psicológico: Herramientas Conceptuales Para el Estudio de las Relaciones Entre y Dentro de los Grupos. Psykhe, 16, 2, 2008, 139-149

Resenha: Dialética das relações raciais

André Oliveira de Assis Núñez

A questão racial parece um desafio do presente, mas trata-se de algo que existe desde há muito tempo. Modifica-se ao acaso das situações, das formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais, mas reitera-se continuamente, modificada, mas persistente. Esse é o enigma com o qual se defrontam uns e outros, intolerantes e tolerantes, discriminados e preconceituosos, em todo o mundo. Mais do que tudo isso, a questão racial revela, de forma particularmente evidente, nuançada e estridente, como funciona a fábrica da sociedade, compreendendo identidade e alteridade, diversidade e desigualdade. Na prática, essas atitudes proporcionam e exclusão e marginalização dos que são alvo do preconceito. Comprometem também as relações sociais e de trabalho, fazendo com que, ocorra uma perpetuação dos que dominam.
A história do mundo moderno é também a história da questão racial, um dos dilemas da modernidade. Ao lado de outros dilemas, também fundamentais, como as guerras religiosas, as desigualdades masculino-feminino, o contraponto natureza e sociedade e as contradições de classes sociais, a questão racial revela-se um desafio permanente, tanto para indivíduos e coletividades como para cientistas sociais e filósofos. É assim que o mundo ingressa no século XXI, debatendo-se com a questão racial, com problemas e debates relacionados ao vários tipos de estereótipos e preconceitos derivados dessas questões – implícitas ou explicitamente.
Em certa medida, o debate relativo ao “choque de civilizações” implica xenofobia,
etnicismo e racismo. Ao hierarquizar as “civilizações”, hierarquizando também povos, nações e etnias, é evidente que se promove a classificação, entre positiva, negativa, neutra ou indefinida, de uns e de outros.Como por exemplo, quando Samuel P. Huntington classifica as “civilizações contemporâneas” em chinesa, japonesa, hindu, islâmica, ocidental e latino-americana, está, simultaneamente, estabelecendo alguma relação entre etnia, ou raça, e cultura, ou civilização; uma relação cientificamente insustentável. Com essa classificação, e ao priorizar a civilização ocidental, por motivos econômicos, culturais e por sua dita “modernização”, ocorre assim uma exclusão dos que não fazem parte dessa parte do globo, fazendo com que a civilização ocidental seja o modelo a ser seguida, priorizando sempre as nações mais desenvolvidas, como os EUA e os países da Europa.
No século XXI continuam a desenvolver-se operações de “limpeza étnica”, praticadas em diferentes países e colônias, compreendendo inclusive países do “primeiro-mundo”; uma prática “oficializada” pelo nazismo nos anos da Segunda Guerra Mundial, atingindo judeus, ciganos, comunistas e outros; em nome da “civilização ocidental”, colonizando, combatendo ou mutilando outras “civilizações”, outros povos ou etnias. Outro aspecto importante nessa trajetória de uma suposta superioridade, algumas civilizações se achavam “melhores” somente apenas por diferenças fenotípicas, por conseguinte, tentavam propagar a sua etnia e exterminar ou marginalizar as outras.
A raça, a racialização e o racismo são produzidos na dinâmica das relações sociais, compreendendo as suas implicações políticas, econômicas, culturais. É a dialética das relações sociais que promove a metamorfose da etnia em raça. A “raça” não é uma condição biológica como a etnia, mas uma condição social, psicossocial e cultural, criada, reiterada e desenvolvida na trama das relações sociais, envolvendo jogos de forças sociais e progressos de dominação e apropriação. Racionalizar uns e outros, pela classificação e hierarquização, revela-se inclusive uma técnica política, garantindo a articulação sistêmica em que se fundam as estruturas de poder. Podemos exemplificar essas práticas no cotidiano – na escola, no trabalho, ou em qualquer outro lugar da sociedade -, que através da estigmatização do “outro”, ocorre um bloqueio nas relações sociais, proporcionando assim a aparição de estereótipos e preconceitos, por conseguinte, a exclusão e a hierarquização são práticas vigentes.
Aos poucos, o traço, a característica ou a marca fenotípica transfigura-se em estigma. Estigma esse que se insere e se impregna nos comportamentos e nas atitudes, formas
de sociabilidade e jogos de forças sociais, como se fosse “natural”, inquestionável, reiterando-se recorrentemente em diferentes níveis das relações sociais. Sendo que muitas vezes, fica difícil de perceber como e em quais momentos, os preconceituosos atuam frente ao discriminado, proporcionando assim a marginalização dos mesmos.
Trata-se de elaboração psicossocial e cultural com a qual a “marca” transfigura-se em “estigma”, expresso em algum signo, emblema, estereótipo, com o qual se assinala, demarca, descreve, qualifica, desqualifica ou subordina o “outro” e a “outra”, indivíduo ou coletivo. Este é um aspecto fundamental da ideologia racial: o estigmatizado, aberta ou veladamente, é levado a ver-se e a movimentar-se como estigmatizado, estranho, exótico, estrangeiro, alheio ao “nós”, ameaça. Sendo que tais pensamento em relação ao “outro” muitas vezes são mecanismo que proporcionam pensamentos de que o grupo ao qual o percebedor pertence é superior, ou até mesmo, fazer com que o estereotipado seja visto como “quase humano” ou um “animal”. O racista fundamenta em argumentos que parecem consistentes e convincentes à sua ótica, distinguindo, segregando ou estranhando o “outro”: negro, árabe, judeu, índio, oriental dentre outros. São estereótipos, signos, símbolos mobilizados ao acaso das situações elaboradas no curso de anos, décadas, séculos, com os quais o “branco”, “ariano”, “ocidental” explica, legitima ou naturaliza a sua posição e perspectiva privilegiadas, de controle de instrumentos de poder.
Sob vários aspectos, essa ideologia racial é transmitida por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistema de ensino, instituições religiosas e partidos políticos, e tem sido, continuando a ser, um componente nuclear da cultura da modernidade burguesa. Esse o contexto em que formula, cria ou engendra “o mito da democracia racial”, significando que a sociedade brasileira seria uma democracia racial, sem ser uma democracia política e, muito menos, uma democracia social.
Mais do que isso, pode ser uma cruel mistificação da desigualdade, da intolerância, do preconceito, do etnicismo ou do racismo, como “argamassas” da ordem social vigente, da lei e da ordem. “Cruel” porque implica neutralizar eventuais reações ou protestos, reivindicações ou lutas dos estigmatizados, definidos de antemão como participantes tolerados da comunidade nacional. E quando uma pessoa ou um grupo tem uma maior sensibilidade para com esse preconceito e marginalização que ocorre em um país “disfarçado” com a máscara da democracia racial, essa(s) pessoas(s) são vistas como “chatas”. Mas esse é o percurso em que se desenvolve a consciência crítica, a autoconsciência ou a consciência para si, reconhecendo que é desde essa autoconsciência crítica que nasce a transformação, a ruptura ou a transfiguração.

Referência
Ianni O. (2004). Dialética das relações raciais. ESTUDOS AVANÇADOS 18 (50). Departamento de Sociologia do instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp.