Em busca de teorias unificadoras

Uma das principais características dos estudos conduzidos nas duas últimas décadas do século passado se refere ao reconhecimento dos limites de algumas perspectivas de pesquisa aparentemente promissoras. A perspectiva individualista se mostrou se mostrou limitada, ao ficar claro que os estereótipos e preconceitos eram amplamente compartilhados nas sociedades modernas e que dificilmente eles poderiam ser considerados atributos idiossincráticos de pessoas com inclinações neuróticas ou patológicas. As vantagens acenadas pela adoção de uma perspectiva contextualista também também foram relativizadas, pois as mudanças normativas avassaladoras que caracterizam as mudanças culturais e sociais nas décadas de 1950 e, sobretudo, 1960, não foram suficientes para modificar o cenário no qual os estereótipos e preconceitos ganhavam expressão. Também a perspectiva conflitualista não se mostrou efetiva em termos de transformações na expressão dos estereótipos e preconceitos, pois as expectativas de que o empoderamento dos grupos minoritários e a implementação de políticas de reparação poderiam contribuir para reduzir as diferenças entre brancos e negros e, consequentemente, tornar mais civilizada as relações entre os grupos, não se confirmaram. O efeito destas diversas formas de conceber os estereótipos e preconceitos, e as sensibilidades inauguradas com a difusão dos resultados de pesquisa, ainda tenha contribuído para reduzir as formas mais flagrantes de expressão, não representou, em absoluto, o desaparecimento dos estereótipos e preconceitos, que continuaram a se manifestar, embora de maneira mais sutil e menos ostensiva.

Uma série de eventos históricos, a exemplo da intensificação dos conflitos raciais, bem como as transformações culturais ocorridas na sociedade nos anos 1970, proporcionaram um novo foco de interesse entre os estudiosos. Estas mudanças representaram uma retomada das questões relacionadas com as atitudes preconceituosas, desta vez numa perspectiva que procurou estabelecer uma diferenciação entre as formas flagrantes e manifestas. No campo de pesquisa dos estereótipos ganhou força a preocupação em identificar as diferenças entre as dimensões automática e controlada da expressão dos estereótipos e preconceitos. Por certo, a preocupação com as tensas relações entre os grupos continuou prevalente, pois o impacto dos estudos sobre a identidade social, fortemente desenvolvida entre os estudiosos europeus, nunca deixou de acentuar a importância dos infindáveis vieses que se manifestam durante as relações intergrupais.

Para tentar entender a persistência dos estereótipos e preconceitos ao longo do tempo nesse contexto de profundas mudanças sociais, os estudos se encaminharam no sentido de identificar os processos mentais atuantes durante a ativação e aplicação dos estereótipos e das atitudes preconceituosas. Assiste-se ao desenvolvimento de novas formulações teóricas e se fortalece a preocupação em identificar os universais envolvidos nessas manifestações. Numa acepção um tanto distinta do postulado de que se os produtos do pensamento dependem do contexto histórico e cultural, ganha força a tese de que os processos mentais ocorrem sem muitas diferenças nos diversos contextos nos quais eles se manifestam.

Perspectivas individualistas: a cognição social

As teorias de base cognitiva, unificadas em torno da perspectiva da cognição social (Higgins, & Bargh, 1987; Pereira, 2013), representaram uma retomada na psicologia social no nível de tratamento centrado no indivíduo, embora sob uma perspectiva distinta dos modelos centrados na análise das diferenças individuais (Oakes, & Turner, 1990). No plano metodológico, a imposição desta nova tendência representou o predomínio das pesquisas experimentais, em lugar dos estudos ex post facto até então hegemônicos.

Fica claro, mediante a observação do diagrama apresentado na figura 17, as diferenças entre os estudos conduzidos em dois contextos históricos e geográficos, em particular, nos Estados Unidos da América, onde os racismos se manifestavam de forma constante e vigorosa em que pese os movimentos de contestação da supremacia branca, e na Europa, que à época se defrontava com novas formas de expressão do fascismo, particularmente devido à eclosão de movimentos nacionalistas e xenófobos que começaram a ganhar força com a intensificação dos movimentos migratórios, especialmente oriundos da África, da América do Sul e dos países do Leste Europeu (Duckit (1982a; 2010; Fairchild, & Gurin, 1978).

Figura 17: influências e perspectivas de estudos dos estereótipos e preconceitos nos anos 1980 e 1990

O reconhecimento das dificuldades em fazer frente aos preconceitos e estereótipos levou a um entendimento de que se tratava de fenômenos engendrados por mecanismos inerentes aos mecanismos regulares de funcionamento da vida mental, uma conclusão compatível com a eclosão de novas linhas de pesquisa dedicadas a esquadrinhar os mistérios da mente humana. Impõe-se uma nova ordem de preocupações, não mais as de compreender as diferenças individuais, transformar os sistemas normativos ou empoderar os grupos para oferecer novas formas de enfrentar os embates do dia a dia. Novas questões exigiam novas respostas. Por que algumas pessoas insistiam em fazer coisas que terminavam por ativar os estereótipos e facilitar a expressão das atitudes preconceituosas? Em que medida estes dispositivos psicológicos eram ativados de maneira automática? Eles poderiam submetidos a alguma modalidade de controle?

Um dos primeiros estudos a iluminar esta nova tendência de estudos sobre os estereótipos foi publicado em meados da década de 1970, por Word, Zanna e Cooper (1974), no qual ficou evidenciado como a postura, os gestos e outros elementos não-verbais do entrevistador tornam muito mais complicada a vida de um candidato negro durante uma entrevista de recrutamento do que a de um postulante branco. A evidência mais nítida do estudo foi a de que as pistas não-verbais oferecidas pelo entrevistador durante uma entrevista de recrutamento simulada foram acentuadamente distintas para entrevistados brancos e negros, tais como identificadas na figura 18.

Figura 18: reações do entrevistador a um entrevistado negro, comparadas com as apresentadas frente a um entrevistado branco

Word, Zanna e Cooper salientaram que o entrevistador, ao se deparar com um candidato branco, olhava por mais tempo diretamente nos olhos, cometia menos erros de fala, inclinava mais os ombros e o torso em direção ao entrevistado, se posicionava numa distância menor e estendia mais a duração do encontro quando comparado com o padrão de atuação durante a entrevista com um candidato negro.  A presença destes indicadores não-verbais ajuda a entender as razões do desempenho dos entrevistados negros ser consideravelmente inferior ao dos candidatos brancos, embora esta diferença no desempenho devesse ser atribuída muito mais a um efeito perverso da discriminação do que à ausência de capacidade ou de habilidade dos candidatos negros. Estamos, no presente caso, frente ao denominado na literatura psicossocial ‘profecia que se cumpre por si mesma’ (Brophy, (1983 ; Madon, Jussim, Guyll, Nofziger, Salib, Willard, & Scherr, 2018) .

Outros estudos, a exemplo do publicado por Darley e Fazio (1980), também evidenciaram o efeito destas profecias no âmbito das relações entre grupos raciais diferentes, embora as profecias que se cumprem por si mesmas (Jussim, 1986, 1989) dificilmente possam ser consideradas profecias no sentido rigoroso do termo, pois se referem a situações nas quais algumas particularidades do gerenciamento e da condução do encontro social não permitem a uma classe de participantes do encontro, no caso, os entrevistados negros, comportarem-se de outra maneira a não ser agir em consonância com o roteiro prescrito por um outro participante, o entrevistador.

 A partir de meados da década de 1980 duas grandes orientações de estudo se tornaram bem visíveis, uma voltada para a análise de como as vicissitudes dos processos cognitivos produzem efeitos que facilitam a categorização e a posterior adoção de julgamentos estereotipados e atitudes preconceituosas, e uma segunda, de natureza cognitivo-motivacional, na qual se buscava identificar como as cognições eram arregimentadas para manter uma visão positiva do próprio grupo. Estas novas orientações permitiram um nível de tratamento das questões que diferiam nitidamente na maneira pela qual os estereotipados vinham sendo concebidos até então.

Que a vida mental não se restringe à consciência é algo sabido há muito tempo pois, já no final do século XIX e início do século XX, obras como as de Jean Pierre Charcot (1825-1893, Josef Breuer (1842-1925), Sigmund Freud (1856-1939), Carl G. Jung (1875-1961), Alfred Adler (1870-1937) e Pierre Janet (1859-1947) apontaram novos caminhos para a investigação da vida mental. Uma metáfora, há muito difundida, reflete este novo entendimento: se Copérnico retirou o lugar do nosso sistema solar como centro do universo e se Darwin destitui a espécie humano de uma posição única na natureza, Freud descentrou a consciência, caracterizando-a como uma pequena ilha engolfada pelo oceano do inconsciente.

Uma vez que os critérios que definem a racionalidade plena são muito restritivos, os estudos da área da cognição passam a se encaminhar na direção de acolher modelos centrados na noção de racionalidade mitigada ( Gigerenzer, & Goldstein, 1996 ; Wheeler, 2020 ), uma tese que suscitou um problema teórico importante relacionado com a caracterização de agente cognitivo. Qual concepção de ser humano poderia melhor oferecer os fundamentos ontológicos para enfrentar esta questão? Uma primeira formulação definiu o ser humano como um agente cognitivamente avaro (Fiske e Taylor, 1984), um processador de informações limitado e sujeito a falhas. Esta perspectiva permitiu definir a mente como uma espécie de computador de limitada capacidade de processamento e de armazenamento, cujos limites imporiam sérias restrições na maneira pela qual nos situaríamos no mundo, pois apenas conseguiríamos lidar com uma parcela restrita do amplo espectro de informações a que estamos sujeitos. Para fazer frente a estes limites, utilizamos estratégias heurísticas para simplificar os problemas complexos que emergem durante o julgamento e a tomada de decisão.

Fiske e Taylor (1991), não muito tempo depois da formulação inicial, introduziram modificações no sentido de substituir a metáfora do avaro cognitivo por uma concepção menos restritiva. O ponto de partida dessa mudança residiu no entendimento de que a interação com os outros está sujeita à influência das crenças e concepções disponíveis na memória a respeito da pessoa com quem se interage e do contexto no qual que se vive. O ser humano disporia de uma série de dispositivos mentais (crenças, valores, atitudes, estereótipos, preconceitos, metas etc.) que dirige o processamento da informação e o comportamento. A influência destes dispositivos impõe que aceitemos, ao menos parcialmente, a tese de que a cognição trabalha em conjunto com mecanismos afetivos e motivacionais. Se, em algumas circunstâncias, em função das necessidades de parcimônia, agimos como entes cognitivamente avaros, em outras, especialmente quando motivados ou envolvidos afetivamente, somos capazes de considerar a situação de uma forma cuidadosa e sistemática.

Esta segunda perspectiva introduziu uma nova forma de tratar o agente cognitivo, concebido como um ente taticamente motivado, um pensador fortemente engajado e apto a escolher, em função das metas, motivos e necessidades acolhidas, a estratégia de processamento de informações a ser adotada. O agente, assim concebido, poderia usualmente processar a informação de maneira cuidadosa, dependendo da meta estabelecida, enquanto em outras circunstâncias, em especial quando o objetivo do agente fosse a preservação dos recursos cognitivos, poderia continuar a utilizar o pensamento categórico.

Esta discussão sobre em que medida o ser humano age de forma irrefletida e as circunstâncias em que se permite avaliar cuidadosamente as peças de informações disponíveis para racionar e fazer julgamentos sociais cuidadosos pode ser considerada uma das preocupações centrais nas primeiras décadas de estudo da cognição social.

No final de década de 1970 Schifrin e Schneider formularam um modelo teórico geral destinado a identificar as vicissitudes do processamento de informação humana, no qual estabelecem a diferenciação entre as formas automáticas e controladas de processamento. O processamento automático dependeria da ativação de conteúdos previamente armazenados na memória, que uma vez ativados exerceriam seus efeitos sem o controle da pessoa, sem a necessidade de atenção e sem limitar a capacidade do sistema de informação. O processamento controlado, em contrapartida, demandaria a ativação temporária de uma sequência de decisões, de forma rápida e eficiente, o que exigiria atenção e comprometeria a capacidade do sistema de informação. O tratamento serial da informação seria uma característica fundamental do processamento controlado, o que o diferenciaria ainda mais do processamento automático, que pela própria natureza poderia ocorrer em paralelo (Schifrin, & Schneider, 1977a, 1977b).

Esta diferenciação entre os sistemas de processamento da informação ganha popularidade a partir da década de 1980, período no qual se torna popular entre os estudiosos a tese de que dispomos de dois processos mentais, um evolutivamente mais antigo e um segundo, mais recente. Esta tese foi acolhida na psicologia social, assim como em muitas áreas conexas de estudo. Uma série de modelos, com terminologias muito diversificadas, mas genericamente subordinados ao modelo dos processos duais, emergiu em vários domínios especializados da psicologia social, fazendo alusão a dois modos de processamento, um realizado com pouco esforço e de forma relativamente automática e um outro mais cuidadoso e refletido, conforme se idêntica no quadro 7, elaborado com base em Smith e DeCoster (2000).

Quadro 7: modelos de processos duais

As características diferenciadoras destes dois sistemas podem ser identificadas, por exemplo, no artigo de Sloman (1996), no qual se postula a diferenciação entre o raciocínio associativo e o raciocínio baseado em regras. O raciocínio associativo envolve a identificação de pistas encontradas nos estímulos mediante a extração de informações previamente aprendidas, enquanto o raciocínio baseado em regras depende do uso formal da lógica simbólica com a finalidade de identificar regras precisas destinadas a facilitar a formulação de inferências consistentes com as informações. Estas duas modalidades não são incompatíveis entre si, pois o uso do raciocínio baseado em regras depende de uma maior capacidade e esforço por parte do percebedor em extrair um maior número de informações do ambiente.

Nos domínios da aprendizagem e memória merece destaque a proposta de McClelland, McNaughton & O’Reilly (1995) sobre as diferenças entre os sistemas lento e rápido de aprendizagem e memória. Este modelo parte da diferenciação entre um sistema evolutivamente mais antigo, dedicado a regular e processar as regularidades encontradas no ambiente, e um sistema mais recente, capaz de processar as informações inesperadas e incomuns. Acolhe-se, pois, a suposição de que o ser humano conta com dois sistemas que oferecem respostas para duas demandas de aprendizagem, um deles encarregado de registrar de forma lenta, contínua e irreversível as informações no ambiente, de maneira que a representação dos conteúdos na memória reflita as experiências enfrentadas pelo percebedor ao longo da vida. Este sistema se encarregaria da elaboração do que poderia ser denominado nossa visão de mundo, sendo constituído por um repertório de conhecimento estável e permanente formado de maneira lenta e, como tal, impossível de ser modificado ou desestabilizado pelo acúmulo de novas informações. Complementarmente, se mostrou necessário postular um sistema mais rápido, capaz de identificar as mudanças mais sutis e episódicas (Jacoby,1991; Jacoby, & Kelley, 992 ) .

Dada a complexidade destes dois sistemas de aprendizagem, Smith & DeCoster (1996) sugeriram que animais e humanos desenvolveram paralelamente dois sistemas de memória, um associativo e um baseado em regras. O processamento no primeiro sistema depende fundamentalmente de associações entre as representações, especialmente pela via da similaridade e da contiguidade, ocorre de forma automática e fora da consciência, enquanto o segundo sistema se fundamenta em regras, depende do raciocínio lógico, não se circunscreve a uma repetição incessante de experiências, sendo intrinsecamente dependente das habilidades, da atenção e de um alto grau de motivação, o que permite associá-lo mais facilmente à atividade consciente do percebedor.

No campo de estudo das atitudes e persuasão Chaiken (1980) chamou a atenção para as diferenças entre os processamentos heurístico e sistemático das atitudes. No primeiro caso, a atitude é processada predominantemente em função da prevalência de pistas disponíveis e evidentes por si mesmas, levando em conta a avaliação positiva ou negativa da mensagem, assim como a atratividade da fonte, enquanto o processamento sistemático depende da busca exaustiva de informações relevantes, sendo regido pela preocupação com a consistência lógica da argumentação. A decisão quanto à predominância de um dos tipos de processamento depende, sobretudo, da disponibilidade dos recursos cognitivos para realizar um processamento mais sistemático, assim como do grau de importância atribuída pelo agente cognitivo ao objeto atitudinal.

No que concerne ao campo de estudos das atitudes, a perspectiva de Fazio (1986), ao admitir a impossibilidade do processamento concorrente e concomitante nos dois sistemas de informação, difere neste particular, das formulações anteriores, pois estas últimas acolhem o entendimento de que as duas formas de processamento podem ocorrer simultaneamente. Em que pese esta diferença, o modelo de Fazio também postula um processamento menos sistemático, decorrente da repetição sistemática de associações com o objeto atitudinal, assim como um processamento mais elaborado, decorrente da busca sistemática e consistente de informações relevantes ao objeto da atitude.

O modelo desenhado por Petty e Cacioppo (1986) estabeleceu a diferenciação entre as rotas determinantes para a persuasão e a mudança das atitudes, uma periférica, que se aproximaria do processamento heurístico, e uma rota central, mais sistemática. A decisão quanto a que rota da persuasão predominaria estaria na dependência tanto da habilidade cognitiva, quanto da motivação do percebedor em conduzir julgamentos mais cuidadosos.

O impacto dos modelos duais foi particularmente marcante no campo de estudos da formação de impressões, pois permitiu adotar uma perspectiva mais dinâmica e menos dependente da perspectiva até então predominante, centrada na noção de traços psicológicos. Dois modelos foram marcantes no início dos anos oitenta, o do processamento dual (Brewer, 1986) e o do processamento contínuo (Fiske, & Neuberg, 1986). Em ambos os casos, o papel desempenhado pela informação sobre as categorias e, em particular, pelos estereótipos, ocupa uma posição central no entendimento da formação de impressões. A distinção mais marcante, e comum aos dois modelos, é a que estabelece a diferenciação entre a formação de impressões mediante a categorização em contraposição a uma forma mais individualizada de formar e gerenciar as impressões. Ambos os modelos postulam que no nível default o processamento é automático e depende sobretudo do uso do pensamento categórico, em especial das representações estereotipadas a respeito da categoria social ao qual o alvo do julgamento pertence, um processo que acarretaria julgamentos imprecisos e rápidos, facilitando a formação da impressão a partir de informações consistentes com os estereótipos. No entanto, se as circunstâncias forem outras, se a pessoa estiver motivada, por exemplo, se estiver fazendo parte de uma equipe de trabalho com a pessoa objeto do julgamento, poderá levar em consideração as peças de informação incompatíveis com a representação estereotipada da categoria à qual o alvo pertence, o que a levará a conduzir um processamento mais individualizado e menos centrado em representações estereotípicas.

O modelo de Gilbert (1989) postula dois estágios na formação de impressões. Em um primeiro momento, a impressão é formada a partir de inferências a respeito dos traços atribuíveis à pessoa objeto do julgamento mediante o raciocínio inferencial, etapa na qual são identificadas as características da pessoa, sendo esperado a repetição sistemática de comportamentos condizentes com os traços psicológicos previamente postulados. Em uma etapa ulterior, o percebedor tende a abandonar as inferências a respeito dos traços psicológicos e passa a levar em considerar as pistas presentes na situação, formulando atribuições internas e externas para os comportamentos percebidos do alvo do julgamento.

Na perspectiva do julgamento social, o modelo formulado por Martin, Seta & Crelia (1990) adota uma perspectiva semelhante ao de Gilbert, pois acentua a passagem de um processamento mais sistemático, dominado pelas influências automáticas inerentes ao contexto, para uma etapa na qual o impacto dessas influências passa a ser corrigido pela intervenção de uma modalidade de pensamento mais controlado. Neste caso, a suposição é de que se o percebedor se encontrar motivado e dispor de bons recursos cognitivos, pode ser capaz de avaliar cuidadosamente as informações comumente associadas ao contexto e corrigir as informações potencialmente enganadores, conduzindo um julgamento mais consistente com a realidade e menos subordinada à visão predominante da sociedade.

Os princípios expostos nos estudos acima citados exerceram um impacto muito acentuado na pesquisa dos estereótipos, pois os estudiosos passaram a conviver com a diferenciação entre os denominados, na falta de termos mais criativos, sistemas 1 e 2. A caracterização destes sistemas depende de uma série de critérios, sendo particularmente marcantes os denominados quatro cavaleiros do apocalipse mental: a consciência, a intenção, o esforço e o controle (Bargh, 1994). Nem todos os nossos atos são controlados, dependem do esforço, são intencionais e conscientes. A falta de um destes elementos é a condição necessária para qualificar o processo como inerente ao sistema 1. Ainda que a alusão aos quatro cavaleiros do apocalipse seja a formulação com maior impacto retórico, rapidamente foram identificados inúmeros critérios que permitiram uma caracterização mais abrangente dos dois sistemas, tal como se observa no quadro 8.

Quadro 8: características dos sistemas de processamento 1 e 2

A diferenciação entre os sistemas 1 e 2 proporcionou o surgimento de modelos integrativos genericamente referidos como sistemas duais (Smith & DeCoster, 2000), que resumidamente acenavam para a existência de dois sistemas de processamento, um baseado em regras, que requeria esforço e a evocação intencional, explícita e simbolicamente representada a respeito de um dado objeto, e um segundo, baseado em associações resultantes de um longo período de aprendizado, o que proporcionaria a evocação rápida, sem esforço e sem que o indivíduo tivesse consciência das relações entre o objeto e os seus atributos.

Uma série de debates (Evans, 2008; Evans & Stanovich, 2013) se seguiram à formulação da concepção dos processos duais, que embora amplamente aceitos passaram a enfrentar uma série de restrições e testemunharam o surgimento de modelos alternativos. Apesar da forte influência dos modelos duais, passam a ser formuladas interpretações alternativas, por exemplo, supondo-se que o sistema automático (processo associativo) trabalharia inteiramente sozinho, enquanto o sistema controlado envolveria tanto o processamento automático, quanto o processamento baseado em regras). Para Evans (2008), os indivíduos possuem padrões automatizados de comportamento que requereram esforço e consciência, mas que se tornaram automatizados com a prática e a experiência, além de um processo heurístico que rapidamente identifica e traz à tona conhecimentos explícitos para o processamento consciente. Ou seja, o processo controlado exige um contínuo suporte do processo automático gerando um sistema cíclico na memória de trabalho (Evans, 2008), o que torna menos clara a natureza dual pela qual os sistemas cognitivos estavam sendo classificados.

Ainda que muitos estudos preservassem as ideias básicas do modelo dual (Gawronski, 2009; Payne e Gawronski, 2009), outros modelos foram formulados com a finalidade específica de responder a alguns problemas teóricos e metodológicos suscitados pela interpretação dominante (Amodio & Raertner, 2011; Damian & Sherman, 2013; Conrey, Sherman, Gawronski, Hugenber & Groom, 2005; Evans, 2012; Loersch & Payne, 2011. Alguns estudos, no entanto, colocaram em dúvida o princípio básico da dualidade dos processos cognitivos, ao sustentarem que em última instância se tratava apenas de um único e mesmo processo, e que permitiu a difusão da hipótese alternativa de que as diferenças postuladas pelos modelos duais eram muito mais na abordagem metodológica do que na natureza dos processos em si e que a visão mais parcimoniosa obrigaria a postular uma única e simples arquitetura cognitiva (Kruglanski, 2013; Kruglanski, & Gigerenzer, 2011; Pylyshyn, 1984).

Em que pese estas discussões, o impacto dos modelos duais logo se fez sentir no campo de estudos dos estereótipos e preconceitos. Uma formulação teórica compatível com esta concepção dual dos sistemas cognitivos é representada pelo modelo dissociacionista (Devine,1989), no qual um estereótipo pode ser considerado um hábito aprendido durante a socialização e constituído mediante o estabelecimento de associações entre um conjunto de informações (traços, imagens, representações, concepções etc.) e o rótulo de uma determinada categoria social. Estereotipizar seria aplicar automaticamente estas associações, o que acarretaria a formulação de um julgamento fundamentado nas representações categóricas, embora tal julgamento pudesse ser suprimido pelas pessoas com baixo nível de preconceito pessoal, que por suas próprias características pessoais conseguiriam sobrepor suas crenças pessoais igualitárias frente às crenças estereotipadas cultivadas durante o processo de socialização.

O sistema 1 manteria vinculações com as crenças culturalmente determinadas, enquanto o sistema 2 estaria associado com as crenças pessoais igualitárias, uma vez que a imposição destas últimas exigiria tanto um grau acentuado de esforço, quanto alguma forma de ação deliberada por parte do agente cognitivo. Uma consequência da adoção do modelo dissociacionista envolve a admissão de que muitas pessoas podem até reconhecer e lutar para não expressar estereótipos, embora isso não as isente de acolhê-los. O termo dissociativo captura esta ambiguidade, ao postular a presença, em todo e qualquer ser humano, de forma relativamente dissociada, mas concomitante, de crenças preconceituosas e de crenças igualitárias.

As crenças automáticas, ou seja, as crenças preconceituosas, seriam formadas ao longo do processo de socialização, embora teoricamente pudessem ser inibidas pela ação dos processos controlados. Neste sentido, o preconceito seria um hábito, um péssimo ato, e como, tal, deveria ser extinto e substituído por outros mais condizentes com os ideais de civilização que somos obrigados a acolher. Esta perspectiva representa uma visão relativamente otimista acerca do combate aos preconceitos, ainda que saibamos, por experiência própria, que abandonar péssimos hábitos não é exatamente uma empreitada simples. Esta visão otimista se fundamentava no entendimento de que as crenças poderiam ser inibidas desde que fossem atendidos quatro requisitos:

a) que a pessoa estivesse suficientemente motivada para evitar os vieses de percepção e de julgamento;

b) também precisaria ter consciência de que estaria a acolher estereótipos e de que estes teriam sido ativados; e

c) deveria dispor de recursos cognitivos que lhe permitisse inibir o efeito dos automatismos, substituindo-os por crenças intencionais igualitárias; e

d) deveria se esforçar para ser capaz de alcançar a meta de evitar o uso de estereótipos.

O controle, quando possível, seria consciente, deliberado e menos comum do que a ação dos vieses automáticos, que se manifestariam por meio de processos mentais espontâneos, inconscientes e não intencionais, algo que ocorreria mais facilmente entre as pessoas com alto grau de preconceito (Devine, 2009). Os automatismos resultam do acúmulo de conhecimentos, de um longo período de experiências e se manifestam de maneira rápida face a presença de um alvo apropriado, particularmente se este se encontrar em um contexto ajustado de forma ótima ao alvo (Smith & DeCoster, 2000). Uma vez ativados, os estereótipos dificilmente poderiam ser suprimidos, o que facilitaria a formação de avaliações, julgamentos e decisões tendenciosas e enviesadas (Devine, 2009).

Ainda que os modelos duais tenham se tornado relativamente hegemônicos, devemos destacar outras tradições que se impuseram no estudo dos processos cognitivos nas últimas décadas do século XX. Por se voltarem para a identificação dos mediadores cognitivos e de como as categorias mentais, as crenças, as expectativas, os valores e as atitudes influenciavam o julgamento e a tomada de decisão, estes modelos alternativos se organizaram em torno de uma premissa básica, a de que a busca de simplificação da realidade social dever ser orientada em termos de um conceito básico, o de economia cognitiva.

O pressuposto orientador desses estudos é o de que somos mentalmente incapazes de dar conta de toda a complexidade do mundo, pois não dispomos dos dados necessários e muito menos tempo suficiente para levar em consideração todos os elementos presentes numa situação antes de tomar alguma decisão. Aliás, se dispuséssemos dessas habilidades, ainda assim elas pouco nos ajudariam, pois não seríamos capazes de processar de maneira concomitante todo o fluxo de informação exigido para assegurar uma decisão perfeitamente racional (Sanford, 1987).

Alguns estudos conduzidos nesta perspectiva, ao acentuarem como as pessoas tendem a usar atalhos mentais com o intuito de simplificar e interpretar de forma mais direta o mundo em que vivem, ofereceram elementos para um melhor entendimento dos estereótipos e preconceitos, sendo particularmente marcante as contribuições subordinadas aos conceitos de heurísticas, base-rates, atribuição de causalidade, expectativas e acessibilidade da informação armazenada na memória.

O programa de pesquisa sobre heurísticas e viés acentuou os limites da racionalidade humana, ao evidenciar que os atalhos mentais são utilizados de forma consistente pelas pessoas nas suas atividades cotidianas, sem que isso tivesse comprometido a capacidade humana de sobreviver e tomar decisões relativamente acertadas em um mundo complexo (Kahneman, Slovic & Tversky, 1982). Os atalhos mentais ajudam a economizar os recursos cognitivos, pois evitam que pensemos de forma detalhada e aprofundada sobre todos os eventos do dia a dia. Não temos necessidade de ser cuidadosos com absolutamente tudo, pois ficaríamos exauridos transcorridas algumas horas do dia. Podemos muito bem prescindir de pensar de forma rigorosa acerca de boa parte das nossas atividades, uma vez que as heurísticas fornecem soluções perfeitamente funcionais, ainda que às custas de erros de julgamento. Estes vieses, contudo, são decisivos para a condução de julgamentos errôneos, sendo particularmente importante destacar duas heurísticas potencialmente capazes de facilitar a execução de julgamentos estereotipados, as da representatividade e da acessibilidade, as erem discutidas em detalhes na na seção 5.2.3

Uma importante linha de pesquisa sobre o impacto dos vieses de julgamento se refere ao entendimento de que os estereótipos, por envolverem a falta de conhecimento sobre as características dos indivíduos julgados de forma estereotipada, poderiam ser combatidos se fossem fornecidas informações apropriadas para permitir a condução de realizar julgamentos mais individualizados. O entendimento subjacente a esta orientação é a de que os vieses de julgamento sofrem os efeitos das estimativas que os julgadores fazem a respeito das características dos indivíduos. Em um estudo publicado por Locksley, Borgida, Brekke e Hepburn (1981) ficou claro que durante uma tarefa de julgamento acerca de estereótipos sexuais, os participantes, embora tivessem recebido informações sobre as características individuais de um alvo de julgamento, tenderam a negligenciar as informações estatísticas disponíveis. Em termos concretos, devido ao efeito desta heurística podemos dizer que informações oferecidas sobre as características dos indivíduos podem não contribuir para ampliar o conhecimento que temos sobre os outros e, muito menos, ajudar a reduzir os estereótipos.

Alguns vieses de avaliação foram identificados nas circunstâncias em que eram realizados julgamentos sobre as causas do comportamento das pessoas do próprio grupo e de indivíduos dos exogrupos. O estudo publicado por Taylor e Jaggi (1974) foi um dos primeiros a evidenciar as relações entre o processo de atribuição de causas e os estereótipos e preconceito, ao documentar como participantes hindus, solicitados a avaliar atos socialmente reprováveis e positivos de muçulmanos, tenderam a atribuir causas internas para as ações negativas e causas externas para os comportamentos socialmente desejáveis, enquanto tenderam a atribuir causas internas aos comportamentos desejáveis e externas aos atos considerados socialmente negativos dos próprios hindus.

Uma outra linha de pesquisa na qual o efeito dos vieses cognitivos interfere no julgamento e na tomada de decisões é a das expectativas, definidas como crenças sobre um estado futuro de coisas (Olson, Roese & Zanna, 1996). Uma vez que são elaboradas a partir de crenças sobre coisas que aconteceram no passado e como elas voltarão a se manifestar no futuro, as expectativas, ao estabelecerem uma ponte entre o passado e o futuro, desempenham um papel fundamental no presente (Moskowitz, 2005). Os estereótipos, neste sentido, podem ser definidos como expectativas, ou seja, como suposições baseadas em experiências passadas que ajudam a elaborar inferências sobre como determinadas pessoas irão se comportar no futuro. Podemos supor, claro, que qualquer comportamento ambíguo de um grupo alvo de estereótipos pode ser facilmente interpretado de acordo com o que é esperado para o perfil dos membros daquele grupo.

Uma outra dimensão estritamente cognitiva que concerne ao estudo dos estereótipos se refere aos efeitos da acessibilidade nas tarefas de julgamento e tomada de decisões. A influência da acessibilidade dos conteúdos disponíveis na memória pode ser compreendida se consideramos que ao realizarmos um julgamento raramente nos damos ao trabalho de buscar de forma exaustiva todas as peças de informação necessárias para finalizá-lo. De modo geral, nos damos por satisfeitos quando acreditamos ter dados suficientes para julgar e decidir. Uma vez que estas informações geralmente são aquelas facilitadas pela acessibilidade, ou seja, aquelas que buscamos mais recentemente e as que são acessadas com mais frequência, face a uma informação nova, por exemplo, quando acabamos de conhecer ou ouvir um relato sobre alguém, dificilmente elaboramos todas as interpretações possíveis a respeito daquilo que nos foi informado. Preferimos restringir o nosso raciocínio àquilo que é mais acessível e, em função da informação disponível, podemos considerar ou não a importância das novas informações. O impacto dos conteúdos a que temos acesso depende da maneira pela qual interpretamos a situação, algo fundamental ao julgarmos os comportamentos e decidirmos como agiremos em uma dada situação, especialmente quando a situação ou a conduta objeto de escrutínio for dotada de uma certa ambiguidade (Schwarz, Bless, Wänkle & Winkielman, 2003). O grau de ambiguidade desempenha um papel importante nas circunstâncias em que envolve a percepção de ter sido discriminado. Por exemplo, Kaiser, Vick e Major (2006) demonstraram que se uma mulher acredita que o seu parceiro ostenta uma visão tradicional acerca das mulheres ela se tornará mais atenta para quaisquer signos ou indícios de que o parceiro esteja evidenciando uma atitude sexista do que as mulheres que creem que o seu parceiro possui uma atitude menos tradicional em relação ao sexo oposto.

Estes exemplos de estudos orientados por uma perspectiva puramente cognitiva são suficientes para entender que a preocupação dos estudiosos deixou de estar centrada na dinâmica das relações intergrupais, algo que caracterizou a pesquisa sobre os estereótipos nas duas décadas anteriores e se voltou para a análise dos processos internos aos indivíduos, notadamente a maneira pela qual a codificação, o registro e a busca de informações na memória facilitava a expressão de erros de julgamento e avaliação. A partir dos anos 1990, no entanto, se sobressai o entendimento de que as interpretações inteiramente centradas nos processos cognitivos não pareciam suficientes para dar conta da complexidade de fenômenos como os estereótipos e os preconceitos, especialmente por desconsiderar que eles dependem em grande medida da ativação de mecanismos motivacionais e sofrem uma influência muita acentuada dos afetos e dos sentimentos, tanto de quem percebe, quanto de quem é alvo do julgamento. A metáfora do avaro cognitivo passa a dividir espaço com uma outra interpretação, associada a uma segunda metáfora, a do ser humano taticamente motivado. A interpretação dominante passa a ser a de que na maior parte das vezes não consideramos cuidadosamente as informações presentes na situação e tomamos decisões a partir de atalhos mentais, tais como os descritos nos parágrafos anteriores sobre as heurísticas, embora em determinadas circunstâncias, especialmente quando estamos afetivamente envolvidos ou extremamente motivados, agimos como estrategistas, sempre no sentido de estabelecer o equilíbrio entre as demandas da economia cognitiva e a necessidade de realizar julgamentos apropriados se as circunstâncias assim o exigirem.

Um julgamento apropriado não ocorre sem que o percebedor despenda algum esforço para executá-lo, sendo particularmente importante, nos estudos dos preconceitos e estereótipos, estabelecer em que sentido as manifestações enviesadas podem ser corrigidas mediante uma forte carga de esforço, o que imporia um certo controle sobre os pensamentos e os sentimentos. A perspectiva motivacional introduzida por esta formulação enfatiza o impacto decisivo suscitado pelo tratamento cuidadoso da informação pelo agente cognitivo, um elemento essencial em muitas abordagens da psicologia social que vieram a luz nesta época. Destacaremos aqui apenas algumas destas perspectivas, a exemplo da necessidade de closura e da dominância social.

Uma das principais motivações do ser humano é conhecer e ser capaz de se orientar no mundo em que vive. Para isso, ele enuncia e coloca à prova as hipóteses que elabora sobre o mundo em que vive. Como este é complexo, muitas hipóteses devem ser testadas e, se o camarada insistir em submeter à prova tudo o que supõe ser acertado sobre o mundo, por certo embarcará numa jornada sem fim, buscando novas e novas informações para testar e validar cada uma das hipóteses que formula. O conceito de necessidade de closura representa uma tentativa de entender como damos fim a este processo e como nos tornamos capazes de congelar este movimento, colocando um freio na avaliação. Podemos imaginar que as pessoas diferem uma das outras no que se refere a esta necessidade epistêmica de fechamento e que a adoção de semelhante estratégia depende muito da avaliação dos custos e benefícios de se continuar a formular e testar novas e novas hipóteses. Este conceito vem sendo utilizado para entender tanto os processos intragrupais, por exemplo, a pressão no sentido da uniformidade, quanto os intergrupais, a exemplo do favorecimento ao endogrupo, a desqualificação dos grupos externos e a assimilação e aculturação de imigrantes (Kruglanski, & Fishman, 2009).

O impacto da closura no processo de estereotipização foi documentado em um estudo experimental conduzido em Israel, no qual Kruglanski e Freund (1983) evidenciaram que os participantes, todos estudantes às vésperas de se tornarem professores, ao serem solicitados a avaliar a qualidade de uma composição, cuja autoria fora experimentalmente manipulada para ser atribuída a um estudante da oitava série, também judeu, mas de origem europeia (askenazes) ou africana (sefarditas), avaliaram as composições de forma significativamente distinta, atribuindo uma melhor qualidade ao trabalho do estudante askenaze unicamente quando estavam sujeitos à pressão para o fechamento e, mesmo assim, na condição em que sabiam que a avaliação poderia ser submetida a uma comparação com a conduzida por especialistas no assunto.

Este resultado evidencia como a pressão para o fechamento gera um contexto favorável para a expressão de julgamentos estereotipados, uma vez que os estereótipos, definidos como estruturas do conhecimento que vêm à mente de uma forma imediata, podem ser usados mais facilmente por indivíduos com necessidade de closura mais alta para conduzirem os seus julgamentos sobre as condutas das outras pessoas. Um outro estudo, também experimental, porém conduzido na Holanda, evidenciou o efeito da necessidade de closura no julgamento de hooligans (Dijsterhuis, van Knippenberg, Kruglanski, & Schapper, 1996). Os participantes leram uma série de descrições (por exemplo, Hank de vez em quando arruma uma briga de bar) e, na sequência, foram solicitados a formar uma impressão sobre os hooligans. Os resultados evidenciaram uma série de indicadores compatíveis com o postulado pela hipótese da necessidade de closura, pois os participantes com alta necessidade de fechamento não apenas foram mais rápidos para chegar a uma conclusão, como também atribuíram aos alvos, de uma forma bem mais intensa que os participantes com baixa necessidade de closura, traços e características estereotípicas associadas aos fanáticos torcedores de futebol.

A perspectiva cognitivo-motivacional também se encontra representada em uma série de trabalhos que permitiram, nos anos 1990, conduzir uma reavaliação mais sistemática da hipótese do autoritarismo de direita. Conforme discutimos anteriormente, esta teoria procurava identificar pessoas com características que as tornavam facilmente submissas à autoridade. Pratto, Sidanius, Stallworh e Malle (1994) desenvolveram um instrumento destinado a identificar a orientação à dominância social, a escala de dominância social, elaborada com a finalidade de mensurar as características de personalidade ou as atitudes favoráveis à igualdade ou a hierarquização no âmbito das relações intergrupais. Estudos empíricos evidenciaram o potencial da escala de dominância social em predizer fenômenos como o preconceito, a intolerância, o nacionalismo, o patriotismo, assim como o apoio a posições políticas extremadas, como medidas punitivas rigorosas, a exemplo da sentença de morte, ou mesma a defesa sem reservas de incursões militares punitivas (Pratto, Sidanius e Lewin, 2006). Por certo, podemos imaginar as características psicológicas de uma pessoa com um escore alto na escala de autoritarismo de direita, ou seja, altamente submissa às autoridades, com uma forte agressividade em relação a todos que não professam o ideal autoritário, extremamente apegada aos valores e a uma visão de mundo tradicional e, ao mesmo tempo, extremamente hierarquizadora e contrária a qualquer forma de igualdade, seja ela social, econômica ou política. A articulação destas duas dimensões, o autoritarismo submisso, relacionado com o modelo do autoritarismo de direita, e o autoritarismo dominante, característico do modelo da dominância social, não deve ser interpretada como um efeito da soma das características pessoais do indivíduo, mas como um resultado dos esforços despendidos pelo percebedor no sentido de deixar claro as suas atitudes e os seus valores em relação aos grupos e à sociedade em que vive. Uma conhecida formulação desta perspectiva foi elaborada por Duckitt (2001), no denominado modelo do processamento dual motivacional, cuja representação pode ser encontrada no diagrama apresentado na figura 18.

Figura 19: diagrama do modelo do processo dual motivacional

Em consonância com o modelo apresentado na figura 18, e acenando para uma maior compatibilidade com o modelo do ser humano taticamente motivado do que com o do avaro cognitivo, é importante salientar que a manifestação de um preconceito ou a ativação de um estereótipo estaria longe de ser entendido como um processo meramente cognitivo. O indivíduo certamente é levado a expressar as suas crenças e os seus valores, embora o faça dentro das restrições impostas pelas suas características individuais e pelo ambiente físico e social em que vive. Os indivíduos com altos níveis de submissão ao autoritarismo exprimem preconceitos porque são motivados a preservar o que supõem ser a segurança da sociedade em que vivem, pois acreditam que o mundo é um lugar perigoso e ameaçador. A motivação daqueles com características de dominância é diferente, voltando-se para evidenciar a importância de ser poderoso e dominador, privilegiando-se a crença de que o mundo é um local inóspito onde apenas os fortes saem vencedores.

A ênfase no método

Uma vez que os estudos conduzidos nas décadas de 1980 e 1990 se voltaram para a identificação os processos psicológicos e em esclarecer como eles influenciavam a expressão dos preconceitos e estereótipos, os métodos experimentais ganharam uma visibilidade ainda maior, em particular a utilização de diferentes formas de simulação dos automatismos, especialmente o priming semântico e o priming por instalação de dispositivos mentais (mindset priming).

O priming, uma técnica que se tornou bastante popular entre os pesquisadores após a introdução e popularização dos computadores na pesquisa científica, representa uma tentativa de simular os efeitos dos hábitos mentais, o que a torna bastante utilizada no estudo dos automatismos. Um hábito demora muito a ser estabelecido, o que representa uma enorme dificuldade para pesquisá-los no ambiente de laboratório. Se um preconceito for definido como um hábito, um péssimo hábito por sinal, eticamente seria inaceitável criar péssimos hábitos no laboratório a fim de estudá-los, donde a adoção da técnica do priming como um meio para simular os hábitos mentais e explicar como eles influenciam o processo de estereotipização e o acolhimento de atitudes preconceituosas (Bargh, & Chartrand, 2000).

O termo priming pode ser traduzido como preparação, no sentido em que um hábito antecipa a geração de uma resposta de forma rápida, muitas vezes sem que o agente se dê conta que está agindo de maneira automática e irrefletida. O priming semântico ocorre nas circunstâncias em que o pesquisador facilita a antecipação de uma resposta mediante a apresentação prévia de alguns estímulos verbais, tanto de forma consciente, quanto apresentando-o abaixo do limiar da consciência. Por exemplo, podemos supor um estudo no qual os participantes devem identificar se uma sequência de letras forma ou não uma palavra. Esta técnica é conhecida como decisão lexical, pois a tarefa experimental é decidir se a sequência de letras corresponde a uma palavra que existe no léxico, ou seja, se o estímulo apresentado é uma palavra. A principal medida numa tarefa de decisão lexical é a diferença nos tempos de respostas calculadas em função do tipo de estímulo que é apresentado para a avaliação e o relato de evidência basicamente procura identificar como estas diferenças no tempo de resposta estão associadas com o tipo de estímulo.

Conforme observado na figura 20, o pesquisador alocou aleatoriamente os participantes do experimento em três grupos e solicitou que identificassem se os estímulos apresentados eram ou não palavras, registrando o tempo de resposta em cada tentativa. Antes de realizar a tarefa experimental o pesquisador apresentou, de uma forma muito rápida, digamos, por um segundo, estímulos diferentes para cada grupo. Os participantes do grupo controle, por exemplo, antes da tarefa experimental, viram uma sequência de letras sem correspondência com qualquer palavra da nossa língua; os participantes do grupo experimental do priming masculino, leram, pelo mesmo período de tempo, pronomes masculinos, no caso, ele ou eles, enquanto os participantes do grupo do priming feminino, leram, antes da realização da tarefa de decisão lexical, os pronomes correspondentes, do gênero feminino, ela ou elas.

Figura 20: Influência do priming semântico numa tarefa de decisão lexical

Os pronomes funcionam como priming, ou seja, dispositivos capazes de facilitar a identificação mais imediata das palavras semanticamente associadas com o estímulo inicial (Blair & Banaji, 1996). Desta forma, no grupo controle, no qual o estímulo foi neutro, não uma palavra, mas uma mera sequência de letras, não se observa qualquer efeito facilitador no tempo de resposta relativo à palavra neutra árvore, assim como a sequência de letras não exerceu qualquer interferência no tempo de resposta relativo aos termos estereotípicos batom, associado às mulheres, e briga, associado aos homens. Uma sequência de letras destituída de significado não consegue influenciar a velocidade de identificação das palavras numa tarefa posterior. O tempo de resposta dos participantes alocados aos dois grupos experimentais apresentou uma configuração de resultados inteiramente diferente, pois o pronome masculino ele facilitou o reconhecimento mais rápido de palavras frequentemente associadas aos homens, por exemplo, briga, enquanto os pronomes femininos facilitaram a decisão lexical das palavras estereotipadamente associadas às mulheres. Se os pronomes previamente apresentados facilitaram a identificação das palavras podemos supor, por analogia, que o rótulo de uma categoria social favoreceu o acesso a palavras e termos frequentemente a ela associados. Se estes termos forem conteúdos estereotípicos, então podemos supor um claro efeito do priming na ativação dos estereótipos.

É importante considerar que neste suposto estudo a apresentação da palavra priming foi configurada para permanecer na tela por um período acima de meio segundo, um intervalo de tempo que o coloca acima do limiar da consciência, algo compatível com o objetivo do experimento de estimar o impacto da ativação consciente do priming na rapidez com que as palavras associadas à preparação puderam ser identificadas. Em muitas circunstâncias o percebedor ativa e passa a utilizar estereótipos sem ter consciência da ativação das representações, o que exige a utilização de um protocolo experimental diferente para explicar a ativação dos estereótipos. O pesquisador deve, a todo custo, evitar que os participantes se apercebam ou tenham consciência dos estímulos verbais que servem como preparação. Este procedimento, denominado priming semântico subliminar, impõe a apresentação do estímulo antecipador por um período muito curto, algo entre 100 e 300 milésimos de segundos, a depender da posição na tela do computador no qual o estímulo é apresentado. O exíguo tempo de apresentação impossibilita ao participante ter consciência e ser capaz de relatar o conteúdo semântico utilizado como estímulo preparador.  

Lepore e Brown (1997) conduziram um estudo no qual procuraram identificar como os rótulos verbais da categoria social, apresentados por um intervalo de tempo abaixo do limiar da consciência, interferem no julgamento social posterior, uma tarefa bem mais complexa do que a de decisão lexical. Um dos experimentos evidenciou diferenças acentuadas no julgamento de um alvo negro por participantes brancos submetidos ou não à preparação por um estímulo abaixo do limiar da consciência. O priming consistia na apresentação de forma muito rápida, algo em torno de 100 milésimos de segundos, e numa zona periférica do campo visual, de uma série de palavras associadas a algumas categorias sociais, a exemplo dos termos negro, afro, rastafari, reggae e rap. Os participantes do grupo controle realizaram a mesmíssima tarefa, mas os estímulos foram sequências de letras que não configuravam palavras. A tarefa do participante foi identificar se as palavras foram apresentadas na parte direita ou esquerda da tela de um computador. Terminado este suposto experimento, os participantes dos dois grupos, o experimental e o de controle, foram convidados a participar de um outro estudo, desta vez sobre a formação de impressões. Neste “segundo” estudo os participantes leram oito sentenças (duas nas quais um personagem era referido como um atleta, duas que era um amante de festas, outras duas que era agressivo e mais duas que se tratava de uma pessoa pouco confiável) sobre alguém cujo background racial ou étnico não foi informado e, em seguida, avaliaram, em uma escala, o quanto das quatro características referidas previamente nas sentenças, eram apropriadas para descrever o alvo e, finalmente responderem a um instrumento de mensuração do grau de preconceito. Os resultados demonstraram que participantes com alto nível de preconceito e submetidos ao priming subliminar da categoria social conduziram uma avaliação mais negativa do alvo do julgamento que os participantes alocados ao grupo controle.

Se considerarmos os dois estudos aos quais anteriormente fizemos alusão, devemos reconhecer que a ativação dos conteúdos estereotípicos, tanto acima quanto abaixo do limiar da consciência, infere no julgamento social, reforçando o entendimento de que os estereótipos contribuem decisivamente não apenas para a expressão de respostas mais automáticas semelhantes à tarefa de decisão lexical, quanto para a eliciação de respostas que demandam um maior grau de reflexão, a exemplo dos vieses de julgamento.

Além do priming semântico, nas suas modalidades supra e subliminar, também podemos nos referir a uma segunda tradição de pesquisa no estudo do priming, na qual a preocupação é muito mais em identificar os efeitos dos hábitos mentais do que avaliar o impacto da apresentação relativamente breve de um estímulo verbal. Os estudos sobre os dispositivos mentais (mindsets) evidenciam como as soluções que encontramos e que dão certos podem gerar um padrão de resposta crônica que nos impede de buscar alternativas e soluções mais criativas e, muitas vezes, bem mais simples, para um problema que nos afeta. O efeito deste tipo de cronificação, demonstrada por Luchins e Luchins (1959), evidenciou como os hábitos mentais podem nos cegar e nos impedir de observar coisas óbvias o que, imaginamos, pode afetar uma parcela significativa da nossa vida mental, incluindo os julgamentos estereotipados, as avaliações preconceituosas e as ações discriminatórias.

Imagine que temos uma tarefa, obter uma certa quantidade de água, e tenhamos à disposição apenas três jarros de tamanhos diferentes, um com 29 litros, outro com 3 litros e um terceiro com 1 litro. Utilizando apenas estes jarros devemos obter uma medida de 22 litros de água. Para resolver este problema precisamos encher a primeira jarra, a de 29 litros, depois despejamos 3 litros na segunda jarra, ficamos com 26, em seguida jogamos fora o conteúdo da segunda jarra e depositamos novamente mais três litros na mesma jarra, o que deixa a primeira jarra com 23 litros e, em seguida, despejamos um litro na terceira jarra o que nos habilita a obter os 22 litros de água que precisamos para solucionar a primeira parte do problema.

Figura 21. demonstração da rigidez mental (Luchins & Luchins, 1959)

Para completar ao problema devemos obter as demais medidas, tais como assinaladas na coluna A ser obtido. A observação da solução encontrada para resolver P1 nos permite entender o conjunto de operações requeridas para a obtenção das demais quantidades solicitadas. Para resolver o problema 2, obter 17 litros de água, aplicamos a mesma regra. Partimos dos 40 litros, menos duas vezes 10, obtemos 20, dos quais subtraímos os três litros da jarra C e, com isso, chegamos ao resultado almejado. A regra, claro, também se aplica ao problema 3, obter cinco litros de água, bastando pegar o conteúdo da jarra B, subtrair duas vezes o conteúdo da jarra A, ou seja, duas vezes quatro, menos o conteúdo da jarra C, 3, perfazendo as operações 16 – (2 x 4) – 3 = 5. Resolver o problema 4 não é nada difícil, pois já temos até uma regra, qual seja, basta aplicar a operação B – 2A – C, ou seja, 32 – (2 x 7) – 5. Como fazemos para obter os dez litros do problema 5? Basta aplicar a mesma regra, certo? Sim, mas se fizermos concluiremos que a resposta está correta, embora possamos nos dar conta de quão desnecessária foi a realização de toda a operação, pois dispor de duas vezes o conteúdo da jarra A seria suficiente para atingir os 10 litros desejados. Por que dificultamos a nossa vida? Simplesmente porque desenvolvemos um esquema mental, utilizamos com sucesso para conduzir as operações anteriores e nele perseveramos, utilizando-o para efetivar a última operação, mesmo a rotina se mostrando desnecessária. Da mesma forma, não nos parece necessário conduzir julgamentos estereotipados, embora o façamos.

O que este tipo de experimento coloca em evidência é o fato de que um hábito mental pode se tornar rígido ou impor uma certa maneira de resolver um problema, pensar sobre a vida ou interpretar a realidade. Neste sentido, os hábitos se transformam em dispositivos mentais. Bargh, Chen e Burrows (1996) demonstraram como os dispositivos mentais são capazes de influenciar não apenas os julgamentos, mas também as condutas, sejam elas intelectuais ou motoras. A pesquisa, também conduzida de forma experimental, alocou os participantes a dois grupos, criando um dispositivo mental (mindset) naqueles alocados ao grupo experimental com a finalidade de contrastar os resultados obtidos por este grupo com os encontrados entre os participantes alocados ao grupo controle, ou seja, aqueles que realizaram uma série de atividades sem qualquer relação com o tema da pesquisa, os estereótipos etários.

Figura 22: diagrama do experimento de Bargh, Chen e Burrows (1996)

A tarefa para os participantes do grupo experimental envolvia uma série de atividades. Aos idosos estão associados alguns estereótipos, particularmente os de que são lentos e não possuem boa memória. Aos participantes do grupo experimental foi solicitado que completassem uma tarefa de desembaralhamento de sentenças, que uma vez finalizada permitia a formação de frases alusivas aos idosos e às suas condutas. As frases foram cuidadosamente selecionadas para evitar fazer alusão a tudo relacionado com a lentidão dos idosos. Os participantes do grupo controle também realizaram a mesma tarefa de desembaralhar as sentenças, embora estas não fizessem qualquer referência aos idosos. Para identificar e estimar o efeito do priming os estudiosos simplesmente, após agradecerem aos participantes por terem tomado parte do estudo, registraram o tempo que estes demoraram para percorrer um corredor que comunicava a sala na qual o experimento foi conduzido até a porta de saída do prédio no qual o laboratório estava instalado. Os resultados, apresentados na figura 22, não deixaram dúvidas acerca do impacto da facilitação proporcionada pelo dispositivo mental, pois se os participantes do grupo controle demoraram em média 7,30 segundos para deixar o laboratório e atravessar todo o corredor até a porta de saída, aqueles alocados ao grupo experimental, ou seja, os que foram preparados, demoraram 8,28 segundos, um valor significativamente mais alto que o encontrado entre aqueles que faziam parte do grupo controle. Este resultado deixou claro quão a criação de um dispositivo mental análogo a um estereótipo frequentemente associados ao idoso, a lentidão, foi capaz de produzir mudanças no comportamento na direção da conduta estereotipada, mesmo que os participantes tenham sido tão jovens quanto os que fizeram parte do estudo.

Estudos como este evidenciam que algumas palavras ou hábitos mentais determinam as nossas condutas, bem como se demonstram capazes de lançar luzes sobre a possibilidade de estudar sob condições controladas o efeito dos processos psicológicos e psicossociais sobre os preconceitos e estereótipos. Assinale-se, no entanto, que o controle experimental foi conseguido às custas da artificialização do contexto de condução da pesquisa. Um priming, evidentemente, pode ser interpretado como uma simulação do automatismo e, em certo sentido, os resultados podem ser generalizados de uma forma limitada. Não acreditamos, no entanto, que um priming seja uma reprodução isomórfica dos automatismos que se manifestam nas pessoas que acolhem atitudes preconceituosas e se apegam a formas arraigadas de julgamento e avaliação dos outros. Da mesma forma, os estudos conduzidos na perspectiva do grupo mínimo, o paradigma privilegiado nos estudos sobre a identidade social, nos ajuda a entender os mecanismos que se manifestam durante as relações intergrupais, mas não são capazes de replicar com exatidão toda a complexidade dos processos grupais. Se considerarmos o avanço do conhecimento desde a década de 20 até o final dos anos 90 do século passado e as transformações metodológicas decorrentes da introdução dos microcomputadores nos ambientes de laboratório, tal como acompanhamos nas pesquisas que se valem dos procedimentos de priming, devemos reconhecer que estas mudanças têm afetado a maneira pela qual os estereótipos e os preconceitos vêm sendo estudados. Os efeitos destas mudanças continuaram a se manifestar de forma vigorosa na virada do milênio e nas duas primeiras décadas do século XXI, embora ainda não tenhamos um distanciamento temporal digno de nota para alcançar alguma clareza sobre as tendências ou as direções futuras dos estudos. Por certo, as análises das mudanças e transformações teóricas e conceituais resultantes destes novos estudos dependem de conjunto complexo de fatores, incluindo elementos inerentes à ciência, como outros relacionados com os vínculos entre a ciência e a tecnologia, a exemplo do uso cada vez mais comum dos recursos da tecnologia da informação na condução de pesquisas, além daqueles fatores relacionados com as mudanças sociais, particularmente aquelas que se referem ao acirramento dos conflitos identitários, étnicos e religiosos que se tornaram muito evidentes com a cobertura massiva e ininterrupta dos meios de comunicação de massa e das mídias sociais.

Perspectivas contextualistas: estereótipos, relações intergrupais e ameaças

As abordagens anteriormente aludidas, em que pesem as diferenças, se irmanam em atribuir às variáveis localizadas no indivíduo a principal fonte de explicação dos estereótipos e preconceitos. A abordagem contextualista, como o próprio nome indica, difere das perspectivas individualistas (Heath, 2020; Watkins, 1958 )por acentuar as consequências da ação das totalidades sobre os indivíduos, considerando-as mais importantes do que a ação dos indivíduos sobre as totalidades (Mandelbaum, 1955 ; Zahle, 2020). Um exemplo elucidativo dessas relações é o linchamento, uma vez que as relações entre as entidades supraindividuais e o comportamento coletivo de linchar têm sido objeto de discussão há algumas décadas, desde que Arthur Rapper evidenciou, em 1933, um conjunto de relações estatísticas entre o número de linchamentos e a variação no preço do algodão nos estados do sul dos EUA. Posteriormente, Hovland e Sears (1940) publicaram um artigo no qual confirmavam a interpretação de Rapper acerca das correlações entre as oscilações do valor do algodão no mercado e da taxa de linchamento de negros, com a finalidade de evidenciar que os padrões agressivos de conduta manifestos nos linchamentos estavam associados com as experiências de frustração.

         Os resultados relatados no estudo supracitado são importantes na presente discussão, pois eles oferecem um bom exemplo de como podem ser obtidos e tratados dados numa perspectiva na qual o compromisso com o individualismo metodológico não é decisivo. A obtenção dos dados da pesquisa não dependeu de qualquer estratégia na qual estava envolvida a coleta individualizada de dados, não tendo sido conduzida qualquer entrevista com quem participou, foi vítima ou assistiu aos episódios de linchamento, assim como não foram feitos registros dos comportamentos observáveis e muito menos desenhados experimentos com a finalidade de testar relações entre as variáveis. Todos os dados foram obtidos em sistemas de registros de dados:

– registros de 7.761 casos de linchamentos, extraídos do The Negro Yearkbook;

– indicadores econômicos, obtidos mediante consultas aos registros do Statistical Abstract of the United States;

 – índices publicados em 1937, por L. P. Ayres, indicadores do estado da economia nos anos compreendidos no estudo.

         Com base nesses indicadores Hovland e Sears elaboraram uma tabela onde ordenaram, ano a ano, entre 1882 e 1930, os valores do índice de Myers, do valor produzido por acre de terra plantado, a produção total de algodão no ano, o número total de linchamentos e o total de linchamento de negros. Para aumentar a confiabilidade dos resultados, definiram com clareza o conceito de linchamento, diferenciando-o dos homicídios cometidos por gangues de brancos e dos assassinatos decorrentes de distúrbios raciais.

Figura 23: relações entre preço de algodão e linchamento de negros

         Os resultados plotados na figura 23 foram elaborados a partir da tabela de dados encontrada no artigo de Hovland e Sears e aqui incluídos com a finalidade de evidenciar os seguintes argumentos:

a) É possível identificar, mediante a comparação dos gráficos i e iii, uma nítida relação entre o índice de linchamento de negros e os valores de produção do algodão. Esta relação foi forte e inversamente proporcional (coeficientes de correlação -,72 e -,70, no relato original). Conforme se observa, se o preço do algodão cai, a tendência de linchamento cresce. Pela interpretação de Hovland e Sears, consonante com o modelo do bode expiatório anteriormente referida, a frustração com a situação econômica, impossibilitada de ser direcionada para os agentes responsáveis pela situação econômica, desloca-se para a parcela da população com menor poder político e econômico, os negros. Ao lado disso, o gráfico também demostra o quanto um alívio na situação econômica reduz os sentimentos de frustração e, consequentemente, a agressividade expressa pelo linchamento dos negros conhece uma redução substancial; e

b) os gráficos apresentados em iii (correlação entre o valor total de produção de algodão e o número de linchamento de negros por ano) e em iv (correlação entre número total de linchamento por ano e o número de linchamento de negros no mesmo ano) indicam uma correlação positiva forte entre o aumento no número de linchamentos e a quantidade de linchamento de negros (r = ,85), o que é um indicador de que o linchamento não é indiscriminado, sendo direcionada quase sempre para a população negra.  

Posteriormente, Blalock (1967) e Reed (1972) atenuaram a força da interpretação de Hovland e Sears ao acentuarem que os resultados estavam relacionados principalmente com a disputa entre brancos e negros pelo mercado de trabalho, sugerindo que o aumento do linchamento deveria ser interpretado como uma consequência do acirramento das tensões raciais. Os estudos de Creech, Corzine, & Huff-Corzine (1989) e Creech, Corzine, & Huff-Corzine (1989) restringiram esta interpretação apenas aos estados sulistas dos EUA e apontaram que outros fatores alheios ao preço de algodão no mercado poderiam explicar o aumento na taxa de linchamento da população negra.

         O debate, no entanto, evidencia que as explicações holistas não negam a existência dos fenômenos sociais situados em um nível mais elementar, apenas sustentam que os fenômenos sociais, em si mesmos, devem ser definidos em termos de totalidades, bem como não negam a importância dos conceitos ou fenômenos microssociais na explicação de muitos fenômenos sociais, sendo plausível admitir que as formas mais recentes do holismo apenas relutam em atribuir importância à dimensão individual quando se trata de explicar fenômenos macrossociais mais amplos (Herfeld, 2018; List, & Spierkermann, 2013).

Uma série de teorias e hipóteses se ajustam a esta forma mais mitigada de holismo, no qual se observa um movimento no sentido de identificar fatores situados além do indivíduo como fonte de explicação dos estereótipos e preconceitos. Um dos problemas centrais de pesquisa das relações intergrupais é a tendência a valorizar a si mesmo, o que significa, obviamente, julgar de forma positiva o grupo ao qual se pertence e, em paralelo, desvalorizar e, não muito raramente, depreciar os grupos ao quais não se pertence. Isto, claro, envolve a utilização acentuada de estereótipos e contribui para a expressão de atitudes preconceituosas.

A teoria realista do conflito, associada aos trabalhos de M. Sherif e colaboradores (Sherif, Harvey, White, Wood, & Sherif, 1961; Turner, 1990), sugere que colocar os interesses do próprio grupo frente aos dos outros é uma condição decisiva no processo de formação e manutenção das atitudes e dos comportamentos dos membros do endogrupo em relação aos dos exogrupos. Esta situação se torna particularmente problemática quando está em jogo a distribuição de recursos escassos, a exemplo de alimentos, salários, bens materiais, empregos, vagas em universidades e por aí afora. O conflito intergrupal não apenas acarreta a desvalorização dos membros do exogrupo, mas também contribui para a manifestação das atitudes preconceituosas e, certamente, fomenta a expressão de comportamentos hostis e discriminatórios. Nos termos da teoria realista dos conflitos, a substituição do conflito por uma condição de colaboração entre os grupos acarreta uma redução acentuada na expressão das hostilidades e favorece o surgimento de atitudes menos negativas em relação aos membros do exogrupo.

Esta hipótese faz sentido e, embora encontre bom respaldo na literatura e tenha sido submetida à prova em inúmeros estudos empíricos, enfrenta um grave problema, pois ela não é requerida a existência de alguma história prévia de conflitos ou mesmo conflitos atuais entre os grupos para a desvalorização do exogrupo. Tudo parece indicar que a pura e simples inclusão de um indivíduo em categorias, ou seja, que independente da presença ou da ausência de conflitos reais, a mera aplicação de rótulos verbais é suficiente para facilitar a desqualificação dos outros e a concomitante valorização dos membros do próprio grupo e, como vimos no capítulo 2, rótulos negativos é o que não falta. No contexto específico das relações intergrupais, a posse de bens simbólicos, a exemplo do prestígio ou de um acréscimo perceptível na percepção da autoestima, parece ser tão importante quanto a distribuição de bens tangíveis e materiais. Este entendimento propiciou o surgimento de uma teoria alternativa à realista do conflito, denominada genericamente teoria da identidade social (Ellemers, & Haslam, 2012).

Na tentativa de entender os preconceitos, Henri Tajfel, um judeu polonês que viveu os horrores da Segunda Guerra, fundamentando-se nos trabalhos desenvolvidos na perspectiva da escola New Look in Perception acerca da acentuação perceptiva, chamou a atenção para dois vieses de julgamento comuns na categorização dos grupos sociais, a tendência a atenuar as diferenças entre os membros de um mesmo grupo e o exagero no reconhecimento das diferenças das características que separam grupos diferentes. É como se uma vez rotulados, concluíssemos não apenas que os outros são muito diferentes de nós, como também que eles são praticamente iguais entre si e se comportam da mesma maneira. Se, afinal, a categorização gera efeitos na percepção e no julgamento, é de se esperar que também afete os comportamentos, ou seja, que acarrete a discriminação (Abrams, & Hoog, 2013).

Para testar esta hipótese, Tajfel e colaboradores conceberam um engenhoso dispositivo experimental, tendo como pano de fundo a suposição que mesmo em um vazio social, ou seja, na ausência de uma história prévia de conflitos ou contatos, a simples inclusão dos participantes em dois grupos é suficiente para proporcionar dois tipos de distorções, o favorecimento dos membros do endogrupo e a desqualificação do exogrupo.

O paradigma do grupo mínimo surge com a finalidade de estudar de forma controlada os efeitos da identidade social. Conforme assinalam Cykara e Van Bavel (2014), a criação de grupos mediante a aplicação de recursos artificias pode ser considerado um recurso poderoso para a pesquisa dos grupos e das relações intergrupais por uma série de razões:

a) trata-se de um dispositivo experimental, passível de ser implementado em ambientes de laboratório e naturais, que facilita a criação de grupos artificiais;

b) os participantes muito rapidamente incorporam as identidades sociais designadas especificamente para serem adotadas durante a condução do experimento;

c) os participantes podem ser facilmente realocados a diversos grupos, o que permite examinar a flexibilidade do processo de autocategorização;

d) torna-se possível eliminar o efeito de contatos prévios entre os membros dos novos grupos;

e) as características que não são decisivas para a condução da pesquisa (poder, status, familiaridade, por exemplo) podem ser equiparadas entre os grupos artificialmente constituídos; e

f) podem ser estabelecidos mecanismos destinados a examinar de forma nítida tanto os efeitos do favorecimento grupal, bem como os impactos da desqualificação do exogrupo.

Este paradigma experimental facilitou a condução de uma série de estudos, em contexto diversos e com amostras diferenciadas, o que permitiu acumular um repertório de conhecimentos na área das relações intergrupais nos quais os impactos da categorização social foram claramente evidenciados.

Categorização social

A categorização social é um processo complexo que facilita a identificação e o reconhecimento dos membros e não-membros das diferentes categorias sociais. Ela depende do ajuste entre as características da pessoa alvo do julgamento e o modelo representacional da categoria armazenado na memória, ou seja, depende de identificar se a representação esquemática ou prototípica sobre os membros da categoria se ajusta ao contexto específico no qual a inclusão do alvo na categoria se realiza. Categorizar requer buscar no repertório de conhecimento os rótulos mais apropriados a serem aplicados a quem está sendo julgado, o que reflete, por sua vez, os hábitos, as atitudes e as metas de quem conduz a categorização (Brown, 1988; Vala, 1997).

Incluir alguém em uma categoria significa deixar um pouco de lado as características particulares e idiossincráticas de quem está sendo categorizado, algo que demanda um certo grau de processamento da informação, uma vez que o julgamento do alvo só é possível desde que o percebedor conduza alguma comparação entre o percepto e as informações disponíveis na memória. As teorias clássicas da categorização ( Mervis, & Rosch, 1981 ) indicavam as condições necessárias para inclusão de um elemento numa classe ou categoria: 1) a obtenção de uma listagem exaustiva de todos os atributos da classe; e 2) a identificação de todos os elementos representativos da classe no objeto a incluído na categoria. Por exemplo, a inclusão de uma galinha na classe das aves exigiria listar os atributos das aves (ter bico, ter penas, por ovos, etc.) e o reconhecimento de que a galinha Albertina possui bico, tem penas e põe ovos, não restando dúvidas de que merece tal distinção.

A concepção clássica da categorização, no entanto, se mostrou limitada, dada a dificuldade em obter uma listagem exaustiva das categorias ou por conta da possibilidade de incluir um objeto numa classe sem que ele ostente todos os atributos exigidos para a inclusão na categoria. Para lidar com estas dificuldades foi adotada uma posição um pouco menos rígida, que se tornou conhecida como a teoria probabilística da categorização. Neste caso, a inclusão não seria mais na base do tudo (tem penas, possui bico e põe ovos, então é uma galinha) ou nada (não tem penas, não tem ovos ou não tem bico, não pode ser uma galinha), podendo-se falar em uma certa gradação na possibilidade de inclusão de qualquer elemento como membro de uma dada categoria, desde que esse possua um grande número dos atributos relativos à categoria ao qual se pretende incluí-lo. Desse modo, se um canarinho amarelo possui bico, penas, asas, põe ovos e voa, ele tem mais probabilidade de ser alocado à classe das aves do que um bule, uma vez que este objeto apenas possui bico e uma asa, o que limita decisivamente a possibilidade de incluí-lo na categoria.

Ainda que a categorização segundo a perspectiva probabilista da categorização possa ser considerada uma operação nebulosa, a inclusão de um objeto em qualquer categoria requer que o percebedor estabeleça alguma relação de correspondência entre o que está percebendo e um quadro de comparação disponível na memória. O que armazenamos na memória para fazer esta comparação? A listagem de todos os exemplares de pássaros, em liberdade ou engaiolados, que já tivemos oportunidade de ver ou uma representação relativamente abstrata, uma imagem prototípica da categoria aves? Seja como for, sendo necessário estabelecer uma correspondência entre o que é percebido e o que está armazenado na memória, parece ser obrigatório identificar as similaridades entre o ente percebido e o repertório de conhecimento disponível pelo percebedor. A similaridade seria, portanto, a causa da categorização, pois quanto maior for a correspondência entre o que se percebe e o que é representado, mais alta passa a ser a probabilidade de incluir o percepto na classe de objetos ao qual ele pretensamente pode ser alocado.

Afirma-se, deste sentido, uma forte relação entre a homogeneidade e a similaridade, pois quanto mais acentuada for a percepção de homogeneidade, mais facilmente será possível considerar um grupo de pessoas como membros de uma mesma categoria. As relações entre a homogeneidade percebida, categorização e o processo de estereotipização também são muito fortes, sendo possível assinalar que os preconceitos e a discriminação dependem da despersonalização do alvo do julgamento. Ainda que a categorização desempenhe um papel preponderante neste processo, nem sempre as pessoas precisam pertencer a grupos homogêneos ou manter uma boa correspondência com a representação prototípica do grupo ao qual pertence para serem categorizadas e em seguida objetos de julgamentos estereotipados ou atitudes preconceituosas. Uma concepção alternativa de categorização social procura evidenciar que, em algumas circunstâncias, as pessoas podem ser facilmente incluídas numa categoria, mesmo que elas não sejam similares fisicamente ao protótipo ou a outros exemplares representativos da categoria.

A teoria essencialista inverte a ordem postulada pelos modelos probabilísticos, ao sugerir que algumas vezes não categorizamos a pessoa porque ela é semelhante aos membros da categoria, mas sim que inicialmente a consideramos parte de uma categoria, para posteriormente percebermo-la como semelhante aos demais membros da categoria na qual ela foi incluída. O que este modelo deixa explícito é que a categorização ocorre porque os percebedores possuem alguma teoria a respeito das categorias e, a partir destas teorias, podem identificar semelhanças entre o alvo e a categoria, ainda que as semelhanças entre os entes assim classificados não correspondam exatamente aos elementos identificáveis à primeira vista no plano da homogeneidade percebida.

Identidade social

A importância da categorização no estudo das relações intergrupais foi acentuada pela teoria da identidade social (Oakes, Turner, & Haslam, 1991), sendo especialmente marcante, nos trabalhos subordinados ao denominado paradigma do mínimo grupo, a apresentação de um conjunto de evidências empíricas de que a mera formação de dois grupos, mesmo quando realizada a partir de critérios arbitrários ou triviais, é suficiente para gerar as categorias do endo (o grupo ao qual estou filiado) e do exogrupo (o grupo ao qual não pertenço).

Ainda que seja comum encontrar na literatura indicações de que a teoria da identidade social surge como uma resposta aos limites da teoria realista do conflito, é importante salientar que a noção de conflito também deve ser considerada uma dimensão analítica essencial na teoria da identidade social, visto que esta acentua o quanto a busca por recursos simbólicos – e não apenas materiais, como na teoria dos conflitos reais – é um elemento decisivo para o surgimento de distorções na avaliação dos exogrupos.

A busca por recursos simbólicos, a exemplo da manutenção de um elevado padrão de autoestima ou uma percepção de maior status social, pode ser considerada fundamental para a constituição de uma identidade social positiva e contribui de forma decisiva para valorizar positivamente a si mesmo e ao grupo ao qual se pertence. A teoria da identidade social se fundamenta na hipótese de que qualquer pessoa procura manter uma imagem muito favorável de si mesma, o que a leva a avaliar o grupo ao qual pertence da maneira mais positiva possível. O papel da comparação social é especialmente marcante nesta tarefa, pois a imagem de um grupo se constrói mediante a comparação com os outros grupos, a valorização do próprio grupo e, consequentemente, com a elevação tanto da autoestima pessoal, quanto da coletiva. Isso implica, claro, numa visão hierarquizada acerca dos grupos humanos e supõe, evidentemente, uma concepção conflitualista sobre as relações intergrupais.

Assinale-se, no entanto, que embora tenham sido encontradas evidências de que as pessoas procuram manter sempre a autoestima em níveis muito elevados, o que as leva a avaliar o grupo ao qual pertencem da forma mais positiva possível, o teste empírico da teoria da identidade social nem sempre é fácil, sendo particularmente difícil identificar as causas dos vieses que se manifestam nas relações intergrupais, ainda que tenham sido encontradas evidências acerca dos efeitos inequívocas da acentuação perceptual e da manutenção da autoestima (Messick & Mackie, 1989).

Adicionalmente, importa assinalar que a teoria da identidade social deve ser interpretada como uma teoria das relações intergrupais, elaborada especialmente para dar conta dos fenômenos que manifestam neste domínio particular de conhecimento e não deve ser interpretada como uma teoria geral dos grupos sociais. O plano analítico na qual as análises são conduzidas acentua as relações que podem ser estabelecidas entre o nível interpessoal, no qual a preocupação é com a manutenção de uma identidade pessoal positiva, e o nível intergrupal, no qual se apresentam, de forma decisiva, as questões relacionadas com a manutenção e o aperfeiçoamento da identidade social.

A diferenciação das circunstâncias nas quais as pessoas deixam de agir ou ser percebidas como indivíduos, espaço no qual predominam as questões relacionadas com as relações interpessoais, e passam a ser percebidas ou a agir como membros de um grupo, desempenha um papel crucial na teoria da identidade social. Ainda que não seja fácil identificar o ponto de passagem do nível interpessoal para o nível intergrupal ou o caminho inverso, importa salientar que esta dinâmica requer a interação entre fatores relacionados com as características do indivíduo e aqueles inerentes ao contexto no qual as relações entre os indivíduos se estabelecem.

Figura 24: níveis analíticos das teorias da identidade social e da autocategorização

Como se nota na figura 24, a identidade pessoal está associada com o domínio das relações interpessoais, enquanto a identidade social se relaciona mais fortemente com o campo das relações intergrupais. Por estar associada a uma maior percepção das relações intergrupais, a identidade social está fortemente associada com as estratégias de estabelecer diferenciações capazes de proporcionar uma avaliação mais positiva do próprio grupo em relação aos outros grupos sociais. Esta saliência dos atributos positivos caracteriza e define o fortalecimento de uma visão etnocêntrica a respeito do próprio grupo, bem como oferece o substrato a partir do qual se acentua o favorecimento endogrupal. Estes dois mecanismos reforçam uma concepção hierarquizadora a respeito dos grupos, ao tempo em que enfatiza as relações antagônicas entre os mesmos.

O papel decisivo das crenças a respeito dos grupos e das suas características é um elemento importante na determinação da ênfase a ser dada pelo indivíduo às ações que se manifestam no nível interpessoal, regidas pela identidade pessoal, ou no nível intergrupal, influenciadas pela identidade social. Ambos os elementos se relacionam com o status do grupo, que por sua vez depende de três fatores: a) o quanto o grupo é percebido como legítimo ou não, b) se ele é visto como estável ou instável e c) se as suas fronteiras são percebidas como permeáveis ou impermeáveis. Esta visão hierarquizadora promove, protege e reforça a identidade social especialmente quando o grupo de pertença é visto como legítimo, estável e permeável.

A passagem de um nível a outro pode ser influenciada de forma decisiva pelo grau de rigidez ou pelo nível de estratificação do sistema. A depender do nível em que a identidade é gerenciada, se individual ou social, pode-se supor que as mudanças possam estar relacionadas com uma ideologia de mobilidade individual, caso a ênfase esteja no plano das relações interpessoais, ou de mudança social, caso a ênfase recaia sobre as relações intergrupais.

O predomínio do plano intergrupal está associado à crença na importância atribuída às ações coletivas, dado que estas se manifestam caso seja estabelecido algum acordo com outros agentes sociais, uma condição capaz de gerar mudanças mais significativas na sociedade do que aquelas que poderiam ser alcançadas simplesmente por meio das ações ou da mobilidade individual. Ao tempo em que proporciona uma maior ativação das relações intragrupais em função do compartilhamento das motivações e afetos com os outros membros do grupo, a intensificação das ações coletivas também favorece a polarização das atitudes em relação aos membros dos exogrupos, o que contribui para um acréscimo na distorção perceptual, pois os membros do exogrupo passam a ser percebidos como muito homogêneos ou pouco diferentes entre si, o que suscita uma maior probabilidade de manifestação de atos discriminatórios.

O predomínio do polo intergrupal gera várias consequências no âmbito das relações sociais, pois o indivíduo ao se perceber como membro de um grupo imediatamente reconhece que compartilha uma série de características com os membros do seu grupo. No plano perceptual, ele passa a julgar os membros dos outros grupos de forma semelhante ao julgamento conduzidos pelos membros do seu próprio grupo, assim como admite que as suas reações não diferem muito daquelas apresentadas pelos demais membros do seu grupo.

Em suma, podemos assinalar, em consonância com os resultados encontrados nos estudos realizados de acordo com o paradigma do grupo mínimo, que a mera formação de dois grupos, mesmo quando constituídos a partir de critérios arbitrários ou triviais, é suficiente para gerar as categorias do endogrupo e exogrupo e de dois grandes vieses:

a) uma avaliação mais positiva dos membros do endogrupo; e

b) uma forte desvalorização, aliada à desqualificação e a uma menor alocação de recursos para os membros do exogrupo.

Favoritismo endogrupal

A tendência a favorecer os membros do próprio grupo tem sido amplamente documentada na literatura (Ellemers, Spears & Doosje, 2002; Turner & Reynolds, 1983). Ainda que seja difícil estimar o quanto esta tendência está enraizada na natureza humana, se considerarmos os resultados apresentados por Jones, Pellan, Carvallo e Mirenberg (2004), a preferência pelo semelhante é notável e se manifesta de forma inequívoca, conforme se constata na tabela 8, na qual podemos comparar os casamentos ocorridos em três estados norte-americanos (Georgia, entre 1851 e 1900; Tennessee, também entre 1851 e 1900; e Alabama, entre 1809 e 1920) e constatar que as pessoas preferem se casar com alguém com o sobrenome igual ao que ostenta.

Tabela 8: Correspondência de casamentos entre pessoas com sobrenomes nos estados da Georgia, Tennessee e Alabama (os cinco sobrenomes mais comuns nos EUA).

Observamos, por exemplo, que dos mais de quatrocentos casamentos de homens com o sobrenome Smith, o mais comum nos EUA, quase duas centenas, praticamente a metade, foram celebrados com noivas que também compartilhavam o sobrenome. Esta tendência é estatisticamente acima da esperada por acaso, como é a tendência dos Jones a se casarem com as Jones, a das Williams a se casarem com os Williams e por aí afora.

Os estudos relatados por Jones – que provavelmente deve ter casado com uma Jones – e colaboradores indicam resultados no mínimo curiosos a respeito das relações entre nomes e algumas características muito particulares (Pious, 2003), em áreas como o casamento, a profissão, a residência ou a bebida preferida:

– as mulheres tendem a se casar com pessoas cujo sobrenome corresponda à letra do seu próprio sobrenome (Sílvia Antares tende a se casar com alguém chamado, por exemplo, Fulano Azevedo e não com Fulano Teixeira);

– as pessoas tendem a escolher uma profissão cujo nome contenha uma letra do próprio nome (Eduardo tende a ser engenheiro, enquanto Alberto tenderá a ser advogado);

– as pessoas tendem a residir em cidades que incluem algum numeral relacionado com o seu nome (alguém nascido em 7 de junho tende a morar na Avenida Sete de Setembro, enquanto nascidos no dia 15 de junho tendem a preferir residir na Praça XV de Novembro);

– as pessoas tendem mais a morar em cidades com nomes semelhantes aos seus (Paulo tenderia a viver em São Paulo, enquanto Luís tenderia a morar em São Luís);

 -as pessoas parecem preferir a marca de chá cujo nome começa com uma letra contida no seu próprio nome (Leonardo preferirá a marca Leão à marca Tigrão).

Exageros à parte, muitos estudos, realizados nos mais diversos contextos, parece confirmar que este viés é parte constitutiva da identidade social e se manifesta quando ocorre a diferenciação entre o endo e exogrupo. A explicação para se assenta na suposição de que as pessoas em geral estabelecem contatos bem mais intensos com os membros do seu próprio grupo, desenvolvendo uma visão mais complexa sobre o próprio grupo do que sobre os grupos externos. Devido à complexidade dessas representações, nas circunstâncias em que têm de fazer algum julgamento, elas tendem a ser bem mais moderadas, pois as informações novas porventura presentes só são consideradas após uma cuidadosa comparação com os aspectos positivos e negativos do comportamento dos membros do próprio grupo. No caso dos grupos externos, como os contatos são mais reduzidos e, consequentemente, a representação disponível sobre o grupo ou sobre os membros do exogrupo é menos complexa, a formulação de julgamentos mais extremados é facilitada. Nesse caso, as informações novas exercem um efeito bem mais poderoso que no caso da avaliação de membros do próprio grupo, pois se as informações anteriores a respeito do grupo externo são menos complexas, a avaliação tende a ser realizada por intermédio dos estereótipos disponíveis a respeito dos membros ou do grupo como um todo (Stephen, 1986).

Desvalorização do exogrupo

A tendência a favorecer nosso próprio grupo permanece uma das dimensões analíticas mais importantes das relações intergrupais, sendo um elemento decisivo no estudo psicológico dos estereótipos, do preconceito e da discriminação. Este, no entanto, é um dos lados da moeda, sendo importante assinalar não apenas que os indivíduos preferem os membros do seu próprio grupo, mas também que tendem, sempre que possível, a prejudicar ou, pelo menos, a dificultar a vida dos demais. Consideremos, por exemplo, a matriz encontrada na figura 25, na qual se reproduz as possibilidades de distribuição de valores aos membros do próprio grupo, o endogrupo, e aos membros do outro grupo, o exogrupo. Se tivéssemos que optar por distribuir um bem (dinheiro, por exemplo), aos membros do nosso próprio grupo e a dos outros grupos, qual modalidade de distribuição entre as alternativas de 1 a 5 escolheríamos?

Figura 25: Matriz de distribuição usada nos estudos que adotam o paradigma do grupo mínimo

Qual seria a escolha mais racional? Obviamos não seríamos tolos em acreditar no igualitarismo como elemento central das relações intergrupais e não nos atreveríamos a supor que a matriz escolhida fosse a encontrada na coluna 3, pois esta escolha representaria distribuir o mesmo valor aos membros do endogrupo e do exogrupo. Excluindo-se a opção pela coluna 3, poderíamos ser levados a acreditar que a escolha recairia na opção encontrada na coluna 1, pois ela representa o valor mais alto (69,30) que pode ser oferecido aos membros do próprio grupo, mesmo que isso signifique oferecer um pouco mais aos membros do outro grupo. Desafortunadamente não é isto que ocorre, pois é usual prefiramos não maximizar os ganhos dos membros do próprio grupo, se isso significar minimizar os ganhos do exogrupo. Afinal, não seria mais lógico distribuir mais para os membros do próprio grupo, mesmo que isso venha a significar oferecer um pouco mais aos membros do outro grupo? Pode até ser mais lógico, mas tendemos a escolher a matriz encontrada na coluna 5, o que nos permite adiantar a interpretação de que temos a infeliz tendência de preferir ganhar menos… desde que os outros ganhem menos ainda.

Esta tendência em se esbaldar mais com a miséria dos outros do que a de rir com a própria fortuna pode ser identificada em vários domínios, em especial no humor étnico e nacional, em que pouquíssimas anedotas são elaboradas com a finalidade de exaltar as qualidades do próprio grupo, parecendo ser muito mais divertido e risível se ocupar com o infortúnio alheio (Pereira, 2002). Em um domínio muito mais sério, o dos conflitos étnicos, esta tendência também se manifesta com vigor, expressando-se sob a forma de separatismos, de segregação ou muitas vezes, na sua forma mais extremada, de genocídio, no qual o prejuízo do exogrupo parece ser um bem mais desejável do que a própria satisfação ou felicidade.

De maneira semelhante ao que ocorre no caso da supervalorização dos membros do endogrupo, esta desqualificação dos membros do exogrupo também está subordinada aos fatores motivacionais que nutrem as relações intergrupais, a saber, manter a autoestima em patamares elevados e obter status, os dois bens simbólicos que a teoria da identidade social considera tão importantes quanto aqueles identificados nos conflitos reais entre os grupos. 

Autocategorização

A teoria da autocategorização, ainda que cronologicamente tenha surgido depois da teoria da identidade social, tem um escopo mais amplo do que esta última, podendo ser retratada muito mais como uma teoria geral dos grupos humanos do que como uma teoria a respeito das relações intergrupais. Como tal, a sua dimensão analítica central (Oakes, 1987; Turner, 1981; Turner, & Reynolds, 2012) se volta para a identificação dos fenômenos que se manifestam mais no plano identidade pessoal – identidade social do que no plano relações interpessoais – relações intergrupais, tal como diferenciamos na figura 24.

A teoria da autocategorização adere à posição teórica postulada na teoria da identidade social a respeito da acentuação perceptiva e sustenta que as pessoas se percebem como membros de alguns grupos que estão situados em uma estrutura hierarquizada de categorias. Assim, os humanos diferenciar-se-iam tanto dos não-humanos quanto dos outros agrupamentos (quais sejam!), a partir de critérios como as similaridades intragrupais e as diferenças intergrupais. Além disso, no interior de cada grupo as propriedades características de cada indivíduo também estão sujeitas a algum tipo de diferenciação. Com base nestas diferenciações, é possível postular que a categorização está associada a uma distinção perceptual na qual os objetos pertencentes a uma mesma categoria tendem a ser percebidos como mais similares entre si e relativamente diferentes dos objetos situados em outras categorias.

O que ocorre com um indivíduo quando ele se reconhece como parte de um grupo social? Em que medida ele deixa de agir a partir de suas crenças e das suas características individuais e passa a se assemelhar aos demais membros do grupo ao qual reconhece estar vinculado? Para a teoria da autocategorização, o compartilhamento da identidade social pode acarretar a despersonalização da autopercepção, uma situação na qual o indivíduo passa a perceber e a julgar os eventos sociais a partir da visão do grupo ao qual pertence e não em função da sua visão de mundo pessoal, ocorrendo um deslocamento do centro da identidade, que deixaria de ser regida pelo nível pessoal e passaria a ser balizada pelos interesses do próprio grupo. Ao se perceber como membro de um grupo social ocorre uma transformação da identidade, tal como se observa na representação encontrada na figura 25.

Figura 25: mudanças na identidade pessoal e social

Podemos supor, por exemplo, algumas coisinhas sobre o Professor Chico, um dedicado mestre de uma escola do interior da Paraíba. Para todos os fins, o Professor Chico tem um orgulho enorme do seu nome de família, fazendo questão de deixar claro a linhagem a que pertence e as vicissitudes do sobrenome que ostenta. Neste nível, nos referimos à identidade pessoal do Senhor Francisco, o terceiro filho do venerável senhor Albuquerque, homem de ilibada honra.

Ao se preparar para sair de casa e enfrentar mais um dia de trabalho, o Professor Chico, mesmo ainda sendo o Francisco da família dos Albuquerques, passa por uma transformação, pois ele agora é um professor, o responsável pela educação de mais de uma geração de homens e mulheres que frequentaram a escola a qual tanto tem se dedicado nas últimas décadas. Ao assumir esta identidade social, o Professor Chico define claramente os lugares ocupados por professores, dirigentes, pais e responsáveis pelos estudantes, colocando estes últimos, quando necessário, nos seus devidos lugares. Ao se assumir como professor, muitas vezes o Professor Chico deixa de ser o Senhor Francisco ou, pelo menos, em algumas circunstâncias, desiste de fazer ou dizer o que realmente gostaria, pois sabe que a ação do Senhor Francisco não seria compatível com a identidade social do honorável Professor Chico. Nos termos da teoria da autocategorização, ocorre, por força da mudança na identidade social, uma certa despersonalização da percepção e da ação individual.

Em alguns momentos, durante ou fora das aulas, o Professor Chico se sente muito mais paraibano do que professor, especialmente quando explana aos seus estudantes, com orgulho, as grandes venturas do seu estado natal, convidando-os a conhecer e amar os grandes vultos da literatura, das artes e da cultura paraibana. Nessa hora, ele sabe que pouco conta se é um professor e se os que os escutam são estudantes, pois o que importa é que todos devem se irmanar no sentimento comum de ser paraibano. Nessa hora, o paraibano Chico faz questão de deixar claro o quão importante tem sido a Paraíba para o cenário nacional e muitas vezes se pega fazendo comparações entre o torrão que o viu nascer e os vizinhos estados de Pernambuco e do Rio Grande do Norte. Ocorre, pois, uma vez mais, uma mudança na percepção do eu e, a esta mudança, vincula-se diretamente novas transformações na identidade social e uma nova forma de perceber e julgar a realidade física e social.

As rivalidades, diferenças e mesmo desavenças com os vizinhos desaparecem por completo quando alguém fala mal do Nordeste, o que para ele representa uma injustiça tão grande quando desvalorizar as coisas da sua Paraíba natal. Nesta hora o nordestino Chico faz questão de elencar as contribuições de paraibanos, pernambucanos, cearenses e, até mesmo, dos baianos e sergipanos para a construção do Brasil, fazendo questão de evidenciar o seu desconforto quando se depara com pontos de vistas que no seu entender representam uma visão distorcida e preconceituosa contra o seu amado nordeste. Para a teoria da autocategorização, a saliência da identidade social nordestina, neste particular, é marcante, pois não apenas a identidade pessoal, como também a identidade de paraibano do Professor Chico é deixada de lado, o que contribui para reforçar os interesses comuns e para favorecer uma percepção de similaridade entre os membros do grupo.

Se tem uma coisa que deixa o nordestino Chico tão irritado como quando um sulista vem de lá pra esculhambar com as coisas do nordeste, é quando um estrangeiro vem aqui destratar as coisas do Brasil. Nesta hora, o brasileiro Chico esquece as suas diferenças para com os sulistas, cariocas, paulistas ou nortistas e se concentra em demonstrar, da forma mais efusiva possível, que Deus é brasileiro, que essa é a melhor terra do mundo e que ele não trocaria o país em que vive por nenhum lugar do mundo, mesmo levando de sete da Alemanha. Esta identidade social de brasileiro seria uma espécie de eu coletivo, não apenas percebido como tal pelos membros do grupo, mas capaz de gerar um sentimento de nós, comum a todos os membros do grupo e que definiria toda e qualquer pessoa como brasileira para todos os membros do grupo.

Para a teoria da autocategorização, a cada mudança na identidade social é gerada uma representação cognitivamente compartilhada, uma espécie de entidade coletiva que se reflete na mente de cada indivíduo. A forma pela qual essa identidade social se estrutura depende das circunstâncias da vida grupal e de como os grupos se inserem em um sistema social concreto. Este sentimento coletivo de eu poderia, no entanto, ser modificado, nas circunstâncias em que, sob uma ameaça maior, as diferenças nacionais desaparecessem, com todos se irmanando para fazer frente a esta terrível ameaça. O nível mais coletivo de identidade social, a identidade social de humano, já não mais de brasileiro, nordestino, paraibano ou do Senhor Francisco, ocorreria em circunstâncias extremas, nas quais as particularidades locais desapareceriam para dar lugar ao sentimento de que todos pertencemos a uma única e mesma espécie. Entre os estudiosos da ufologia circula a tese de que em um discurso na Assembléia Geral da ONU, em 1987, o então presidente Ronald Reagan, em plena época de Guerra Fria, deixou claro, em todas as letras, que americanos e soviéticos poderiam esquecer as suas diferenças apenas se uma ameaça maior, a invasão de forças extraterrestres, se abatesse sobre o nosso planeta. Como esta ameaça ainda, e felizmente para nós, brasileiros, estrangeiros e humanos, não se transformou em realidade, temos que encontrar outras maneiras de compartilhar as semelhanças e esquecer as nossas diferenças.

Afinal, o que permite a passagem de um nível de identidade social a outro? Como o Senhor Francisco sabe que é hora de deixar de agir como um indivíduo e passar a agir como um membro da categoria dos professores? E como em outras horas ele deixa de ser o Professor Chico e acentua a identidade brasileira? E quando é chegado o momento de nos reconhecermos como humanos? Em resumo, qual a melhor identidade social a ser adotada em uma dada circunstância?

A teoria da autocategorização se refere a um princípio, o do metacontraste, como o critério fundamental para decidir as vestes da categoria a ser usada no momento oportuno. Uma boa categoria é aquela que permite minimizar as diferenças entre o eu e o membro mais prototípico do próprio grupo, ao mesmo tempo em que permite maximizar a diferença entre o membro mais prototípico do grupo ao qual se pertence em relação ao membro mais prototípico do grupo ao qual não se pertence ou não se quer pertencer. Se, por um lado, a redução da diferença entre o eu e o protótipo do endogrupo favorece a percepção de homogeneidade endogrupal, a intensificação das diferenças entre endo e exogrupo favorece a discriminação dos diferentes, o que nos obriga a concluir que a acentuação perceptiva, aliada a uma avaliação exageradamente positiva do próprio grupo, é um caminho por demais curto e direto para a discriminação do exogrupo e para a formação de atitudes e crenças etnocêntricas.

Ameaças reais e percebidas

Como discutimos nas seções anteriores, as ameaças reais e simbólicas estão fortemente associadas à discriminação, uma vez que as pessoas tendem a favorecer aos membros do próprio grupo e a dificultar a vida dos membros dos outros grupos. A teoria integrada das ameaças identifica nessa relação a chave para a explicação da discriminação e do preconceito.

O ponto de partida da teoria se sustenta na suposição de que desenvolvemos um dispositivo mental cuja origem poderia remontar ao alvorecer da humanidade, época na qual os grupos humanos se organizavam sob a forma de tribos, o que não apenas facilitava a obtenção dos meios necessários para subsistência, como também permitiu a criação das tradições, o desenvolvimento de uma linguagem comum e a geração dos produtos inerentes à cultura. Em que pese estes aspectos positivos, desafortunadamente esta forma de organização impôs a diferenciação entre as tribos e a separação entre a categoria dos nossos e a dos estranhos, os estrangeiros. Estas condições teriam gerados dispositivos mentais que proporcionaram, segundo Stephen, Ybarra e Morrison (2009), o desenvolvimento de duas grandes modalidades de ameaças, as reais, suscitadas pela existência de grupos que poderiam colocar em perigo a sobrevivência da tribo, e as simbólicas, determinadas pela existência de grupos com valores e práticas culturais diferentes.

Uma consequência adicional desta diferenciação se refere ao desenvolvimento de uma tendência a identificar ameaças onde elas efetivamente não existiam, pois, para fins de sobrevivência é bem melhor perceber ameaças onde elas não existem do que não perceber as ameaças realmente existentes. Conforme observado no diagrama encontrado na figura 26, comparado com a adoção de uma atitude mais cética, acreditar na existência de ameaças representa uma vantagem evolutiva. Consideremos, por exemplo, a situação de um caçador fortuito, há milhares de anos atrás ao andar por uma savana e escutar um ruído não muito distante e se obrigar a decidir se o som foi causado pelo vento a farfalhar das árvores ou era indício da presença de uma fera, um leopardo à procura de uma boa e relativamente fácil refeição. Se o caçador avalia corretamente a situação, bacana, ótimo; entretanto, se o julgamento se mostrou impróprio, qual o pior tipo de erro que o caçador poderia ter cometido? Os erros do tipo I, representados pela aceitação de conclusões positivas falsas pode até representar um exagero em termos de cuidados, mas é um exagero que garante a sobrevivência do caçador. A atitude mais arrojada de duvidar, associada com os erros do tipo II, rejeitar os falsos positivos, ao contrário, aumenta os riscos do caçador se transformar em banquete de leopardo.

Figura 26: erros do tipo I e do tipo II e as ameaças

Este tipo de erro de julgamento, se sentir ameaçado na ausência de ameaças reais, pode ser interpretado como a origem de muitas experiências de discriminação, cujos efeitos se tornariam manifestos quando os membros de um grupo percebessem – ou simplesmente supusessem – a existência de um outro grupo em condições de causar algum tipo de danos.

A primeira formulação da teoria integrada das ameaças assinalou quatro fatores decisivos na expressão dos preconceitos (Stephen & Stephen, 2000). Em primeiro lugar, as ameaças reais, as situações reais e concretas de competição entre os grupos, tais como as que se apresentam nas pugnas por bens materiais ou recursos de natureza diversa. Ainda que a ameaça fosse percebida como real, e se referisse a coisas reais, o mais importante, no entanto, seriam os temores percebidos pelos membros do grupo.

Além das ameaças reais, a primeira versão também acentuava o papel exercido pelas ameaças simbólicas impostas pelo exogrupo, que se manifestavam em particular pela presença de atitudes, crenças, normas e valores numa direção oposta à visão de mundo comum aos membros do endogrupo. Conforme assinalaremos na discussão das formas contemporâneas do preconceito e do racismo, muitas pessoas discriminam os membros do exogrupo porque esses expressam crenças ou valores que que se contrapõem àqueles do grupo ao qual se pertence.

O terceiro fator considerado na primeira versão da teoria integrada das ameaças alude à ansiedade que se apossa dos membros durante os relacionamentos com membros do exogrupo. O desconforto, a desconfiança e o medo representam os elementos inerentes a estes relacionamentos, o que acarreta uma tendência a, sempre que possível, se afastar ou evitar estes relacionamentos. Enfim, o quarto e último fator incluído na versão inicial da teoria integrada das ameaças se refere aos estereótipos negativos relacionados aos membros do exogrupo. Neste caso, os estereótipos configuram uma série de características ameaçadoras inerentes aos membros do exogrupo, com potencial para colocar em risco a integridade do endogrupo.

Por certo que o efeito das ameaças, em si, embora grave, não é suficiente para produzir relações marcadas pela discriminação, sendo necessário um contexto no qual estas relações possam facilmente evoluir até se tornarem negativas. Algumas situações, a exemplo, de uma história prévia de contatos não muito positivos com o grupo alvo, a qualidade, ou a falta de qualidade dos contatos, a ausência de conhecimento acerca do exogrupo e, por fim, o status social relativo do endo e do exogrupo, facilitam a transformação das ameaças em comportamentos abertamente discriminatórios.

Em benefício da parcimônia, a segunda versão da teoria reduziu o número de ameaças para dois, as reais e as simbólicas (Stephen & Renfro, 2002). Tanto os estereótipos negativos quanto a ansiedade inerente às relações intergrupais deixaram de ocupar o estatuto de ameaças autônomas. Os estereótipos passaram a ser tratados como preditores das ameaças reais e simbólicas, enquanto a ansiedade intergrupal passou a ser considerada uma modalidade de manifestação das ameaças simbólicas, relacionadas com a apreensão que se apodera face à expectativa de manter contatos com os membros do exogrupo (Stephen, Ybarra & Morrison, 2009).

Além de restringir o escopo, a segunda formulação da teoria estabeleceu a distinção entre as ameaças que supostamente incidem sobre o grupo como um todo em contraposição às ameaças que afetam ao indivíduo. Na figura 27 podemos identificar a posição ocupada pelos estereótipos negativos, que perdem o estatuto de ameaça e passam a ser tratados como elementos preditores das ameaças reais e simbólicas.

Figura 27: versão reformulada da teoria integrada das ameaças, incluindo as ameaças reais e simbólicas (baseado em Stephen, Ybarra, & Morrison, 2009)

As ameaças reais se referem a tudo aquilo que pode colocar em perigo o poder exercido pelo grupo, bem como os recursos materiais disponíveis. Elas também podem fazer desaparecer os ganhos do grupo em termos de políticas econômicas e sociais. A diferenciação entre o nível individual e o grupal permite identificar melhor os impactos das ameaças reais e simbólicas no preconceito e na discriminação. As ameaças reais que afetam o indivíduo podem se manifestar sob a forma de danos físicos, a exemplo de ataques, da dor infligida, das torturas ou mesmo da morte. Pode representar, adicionalmente, a imposição de perdas econômicas, a retirada de recursos financeiros ou a expropriação de bens materiais. Uma outra ameaça real contra o indivíduo se refere a fatores que colocam em risco a integridade pessoal, a exemplo das ameaças à segurança pessoal, à saúde ou ao bem estar.

As ameaças simbólicas também se referem àquelas que podem incidir sobre o indivíduo e as que afetam diretamente ao grupo. O indivíduo se sente ameaçado quando se defronta com situações que colocam em dúvida o próprio sentimento de honra, a identidade ou a avaliação positiva que faz sobre si mesmo. As ameaças voltadas para o grupo, por sua vez, envolvem as que se referem à religião, aos valores, aos sistemas de crenças, à ideologia, à filosofia de vida, ao sentimento de moralidade e à visão de mundo.

As diversas perspectivas de estudos aqui referidas, bem como as transformações nas teorias e nos conceitos, por si, apenas, não são suficientes para explicar a evolução dos estereótipos e preconceitos. Por mais que as perspectivas individualistas e contextualistas tenham procurado enfatizar a importância dos fatores privilegiados nas suas análises, é importante assinalar que as estratégias exclusivistas representam uma visão necessariamente unilateral e precisam ser complementadas por perspectivas mais abrangentes. Ao longo das duas últimas décadas do século XX os estudiosos paulatinamente começaram a se dar conta do enorme desafio representado pela integração de uma quantidade enorme de dados e reconheceram a necessidade de articular perspectivas de estudos subordinados a um número mais do que razoável de orientações teóricas e metodológicas. Este, imaginamos, representou um dos maiores desafios enfrentados pela pesquisa sobre os estereótipos nas décadas iniciais do século XXI.