4.6. Em direção ao modelo dos acoplamentos alternados

A definição acima apresentada nos habilita a introduzir a noção de acoplamentos alternados. Alternância supõe, antes de qualquer coisa, a ideia de dinamismo. Julgamos razoável supor que uma representação estereotipada pode ser ativada sob certas circunstâncias, podendo ou não permanecer ativa em função do contexto no qual ela se insere, das motivações e intenções do agente e das particularidades do alvo.

Determinados contextos, como ambientes competitivos ou aqueles nos quais hierarquia é acentuada favorecem a ativação dos conteúdos estereotipados; mesmo nesses ambientes, a depender da direção da narrativa e das necessidades inerentes ao gerenciamento do encontro social em que os participantes da relação estão integrados, podemos supor que o agente conduz frequentes alternâncias entre estereotipizar um determinado alvo e conduzir um julgamento mais individualizado. Em função das estratégias de autorregulação ou de supressão, o agente pode exprimir conteúdos estereotipados sem imediatamente se dar conta da ação e, em função das pistas identificadas no alvo, pode tentar dar um passo atrás e evitar a ativação do conteúdo, substituindo-o por uma representação mental menos negativa. Também em função da autovigilância ou de admoestações verbais ou não verbais de terceiros, ele pode dar conta de que exprimiu algo absolutamente indevido naquele contexto e tentar se corrigir. Poderíamos acrescentar muitos outros exemplos, sempre no sentido de acentuar que ativar e aplicar estereótipos são processos marcados por um forte dinamismo e que o agente tanto pode persistir e sustentá-los durante o seu turno de fala, como também pode desejar acentuá-los, intensificá-los ou, até mesmo, reduzir o impacto dos conteúdos estereotípicos.

A alternância, entretanto, não se refere única e exclusivamente à dinâmica de controlar ou evitar a expressão dos estereótipos, já que é possível postular que a ativação dos conteúdos estereotípicos mantém uma dependência muito acentuada com os entes aos quais se refere. Uma vez que os alvos são percebidos como semelhantes entre si ou impelidos a cumprirem um destino comum, eles se tornam percebidos como parte de uma totalidade que transcende a cada uma das individualidades. O alvo da percepção, ao deixar de ser percebido como um agente individual, pode ser incluído em um dos três possíveis entes sociais, os agregados, as categorias sociais e os grupos sociais, embora a percepção destes entes sociais seja bastante dinâmica e dependa de uma série de pistas, algumas obtidas com base na análise do contexto e outras ativadas a partir dos insumos encontrados na memória. Apoiado nestas pistas, o agente elabora uma narração relativamente fluida, constante e intermitente, frequentemente fazendo alusões aos alvos, ora tratando-os como indivíduos, ora concebendo-os como membros de agregados, categorias ou grupos sociais.

Além da alternância quanto à ativação e controle e aos entes aos quais se aplicam os estereótipos, também podemos aludir a uma terceira dimensão de alternância, a relacionada com as teorias implícitas. Podemos supor que os agentes, em função das circunstâncias nas quais os eventos se manifestam ou em função dos entes sociais alvos da estereotipização, alternam teorias aplicáveis aos alvos, ora utilizando uma teoria causal, ora uma teoria intencional, agregando sempre que necessário e justapondo velhos e novos elementos ao relato.

A figura 119 representa as dimensões do modelo dos acoplamentos alternados, indicando os elementos sujeitos à ativação durante a elaboração de relatos estereotipados. Na parte superior podem ser identificados os elementos conceituais relacionados com as duas dimensões básicas, a entitatividade (homogeneidade percebida e direção comum) e as teorias implícitas (teorias causais e teorias intencionais). Na região inferior da figura encontramos os acoplamentos relativos a cada um dos eventos mentais nos quais os entes sociais encontram lugar. Por exemplo, o início do relato pode fazer referência a uma ação conduzida por um agregado, sendo possível identificar um acoplamento entre dois elementos entitativos, a organização e a saliência e um determinante causal, a alusão a traços psicológicos. Na sequência, o relato pode deixar de aludir ao agregado e passar a considerar os pensamentos intencionais de um indivíduo referido como membro de uma categoria social entitativa, fazendo com que o acoplamento conheça uma alternância e passe a vigorar uma formação em que estejam incluídos os fatores entitativos comunicação e saliência e a explicação intencional fundamentada nos fatores habilitadores.

Figura 119: exemplos de alternâncias, por entes sociais, teorias explicativas e eventos mentais

No quadro 19 retomamos a história apresentada na abertura da obra e a segmentamos para especificar, cena a cena, os indicadores relativos à entitatividade, às teorias implícitas e aos eventos mentais. A narrativa especifica as alternâncias na narrativa, acentuando a importância em considerar os dinamismos inerentes às interações humanas..

Quadro 19: a história inicial reapresentada sob o modelo das alternâncias