Antes da história: sobre explosões, galáxias, animais, humanos e sociedades

Em nosso esforço de contextualização dos estereótipos, obrigamo-nos a aceder a um plano mais amplo, a partir do qual possamos entendê-los no âmbito específico da história das relações entre os diversos grupos humanos. Esta decisão nos obrigou a repassar um repertório de conhecimento emprestado não apenas da história, bem como em áreas de conhecimento como a biologia, a paleontologia e a antropologia física. A elaboração de uma linha do tempo, no qual indicamos os principais eventos ocorridos na história do nosso planeta, desde as origens até a formação dos primeiros grupos humanos, tornou-se uma tarefa imperativa e, para tal, lançamos mão de inúmeras referências, a exemplo das obras Maps of time: an introduction to Big History (Christian, 2004), Philip’s Atlas of the World History (O’Brien, 2007), The History of the World (Roberts & Westad, 2013), How the universe works: Introduction to Modern Cosmology (Parnovsky & Parnovski, 2018) e The Oxford illustrated History of the World (Fernandez-Armesto, 2019).

Com base das obras citadas, além de outras aludidas ao longo do texto, elaboramos um gráfico, apresentado na figura 1, no qual estão representadas algumas destas linhas de tempo e os eventos mais significativos de cada período.

Figura 1: Linhas de tempo das diversas eras discutidas ne seção

Iniciamos com a denominada era cosmológica. A escala temporal na qual se encontram representados os principais acontecimentos cósmicos e da história inicial do nosso planeta é de bilhões de anos e, nesse caso, apenas selecionamos um punhado de eventos. Acentuamos como o universo foi formado, a posterior constituição do sistema solar, do sol e do nosso planeta, a eclosão das primeiras formas de vida, o surgimento do oxigênio e a aparição de formas de vida que estão na base de organismos ainda mais especializados, as formas mais complexas, multicelulares, o incremento acentuado de inúmeras formas de vida no período cambriano e, por fim, a extinção dos grandes répteis, abrindo espaço para o domínio dos mamíferos. A partir de então, enfatizamos o surgimento dos primatas, os hominídeos e a aparição do homo sapiens sapiens, e o seu posterior deslocamento geográfico a partir da África até alcançar todos os continentes conhecidos. Reconhecemos a importância do clima e discutimos como a ocupação da superfície terrestre foi marcada por transformações decisivas ocorridas nos últimos 50 mil anos, para finalmente, acentuar que após a última grande invernagem, ocorrida há cerca de 10 mil anos, os grupos humanos desenvolveram novas formas de organização social que resultaram não apenas em profundas transformações na superfície do planeta, como também na biosfera e nas camadas de gases que envolvem o nosso planeta.

Era cosmológica

A reflexão sobre o conceito de estereótipos deve ser conduzida numa perspectiva histórica, no sentido mais amplo que consigamos considerar. Isso significa tomar como ponto de partida as origens. Quais origens? A do ser humano? Não, recentíssimo. A origem da vida? Ainda muito recente. A do nosso planeta? Não ainda. O universo? A disciplina dedicada ao estudo da origem do universo é a cosmologia e os seus desenvolvimentos mais atuais nos levam a descartar a própria ideia de universo, substituindo-o pela estranha noção de multiverso (Carr, 2007). 

Ainda que afirmemos sem receio que os estereótipos não surgem do nada, por incrível que pareça, até onde possamos suspeitar, tudo começou do nada e isto numa época em que, paradoxalmente, não seríamos capazes de conceber o tempo, muito menos imaginar o espaço. Há cerca de 13,8 bilhões de anos teria ocorrido uma grande explosão, denominada big bang e, um nadinha de tempo depois, durante uma fração de segundo, o universo se expandiu para, em menos de um piscar de olhos, finalizar este processo inflacionário primevo.

Esta expansão inicial criou um espaço meio achatado, marcado por irregularidades, ao tempo que expulsou qualquer objeto exótico do denominado horizonte cosmológico, ou seja, aquilo que se encontra ao alcance dos recursos científicos que dispomos na atualidade, pois os instrumentos científicos atuais não nos permitem enxergar além dos 42 bilhões de anos luz, o nosso horizonte cósmico visual. Pouco depois, as temperaturas extremas começaram a arrefecer e as pequenas irregularidades se transformaram em sistemas estelares, espalhados em conglomerados de galáxias. Por mais incomensurável que possamos imaginar o universo, para além dos corpos celestes imagináveis existe um mundo à parte, composto por uma matéria escura, sobre a qual a ciência atual não consegue estabelecer um acordo, ainda que saibamos que o universo tem aumentado de tamanho e que esta expansão se torna cada vez mais acelerada, algo explicável pela existência de uma energia, também escura, sobre a qual sabemos menos ainda.

Estima-se, à luz do conhecimento atual, que se o universo aquém do horizonte cosmológico é de uma grandeza estupenda, e não deixamos de nos impressionar pelo tamanho, quantidade de galáxias, estrelas e planetas estimados existir, a parte visível representa apenas cerca de cinco por cento da energia do universo, pois este é constituído, na sua maior parte, por matéria e energia escuras. O universo continua em seu inexorável processo de expansão, cuja magnitude pode ser estimada pela aplicação da constante de Hubble. Não sabemos, em definitivo, qual será o destino do universo em que vivemos, se ele continuará a se expandir em um futuro distante ou se será extinto em decorrência dos efeitos da matéria escura (Parnovsky, & Parnovski, 2018).

Apesar das incertezas acima alinhavadas, temos bons motivos para acolher a crença cientificamente justificada de que há 4,8 bilhões de anos, surgiram, praticamente ao mesmo tempo, o sol, o sistema solar e o nosso planeta. O processo de consolidação dos grandes corpos celestes é denominado acreação, que no nosso planeta só veio a se completar um bilhão de anos depois de iniciado. Sob o efeito de forças gravitacionais a Terra se tornou um corpo celeste, uma esfera a girar a toda velocidade no espaço cósmico e ao se aquecer derreteu o núcleo composto por metais pesados, criando um campo magnético, impossível de ser detectado pelos nossos sentidos, mas decisivo para o posterior desenvolvimento e manutenção da vida, pois até hoje funciona como um escudo que limita o efeito das radiações cósmicas que continuam atingir ao nosso planeta.

Não muito depois da criação do nosso planeta surgiram as primeiras formas de vida, brotadas antes mesmo da finalização do processo de acreação. Explicar o surgimento da vida é uma questão difícil, sendo a hipótese mais aceita a de que este desenvolvimento dependeu de uma rara conjunção de condições ecológicas ótimas. Uma explicação alternativa, bem menos respaldada, sugere que a vida teria sido trazida para o nosso planeta no rastro de cometas ou outros viajantes cósmicos que incessantemente bombardeavam, e ainda bombardeiam, a superfície terrestre. Das três hipóteses sobre o locus em que surge a vida, se no espaço, na superfície ou no interior da crosta terrestre, a que atualmente recebe mais suporte é a de que a vida não se originou na superfície, mas no interior do planeta, em um ambiente no qual o magma vulcânico em altíssimas temperaturas se encontrou com a gélida água oceânica das profundezas.

Restos fósseis permitem estimar que há cerca de 3,5 bilhões de anos o nosso planeta acolheu as primeiras formas de vida, certamente primitivas, pois estamos a falar de um mundo sem atmosfera. Apenas com o aumento no nível de oxigênio e a criação da atmosfera terrestre, algo ocorrido há cerca de 2,8 bilhões de anos, foram criadas as condições requeridas para a eclosão de organismos mais evoluídos, capazes de retirar da luz solar a energia necessária à sobrevivência, mediante o processo conhecido como fotossíntese. Estes organismos aptos a sobreviverem mediante o consumo de oxigênio e da energia emanada pelo sol se tornaram, posteriormente, elos centrais na cadeia alimentar, permitindo a eclosão de organismos bem mais complexos, porém ainda compostos por células muito primitivas, sem núcleo, os procariotas. Estes organismos, com a passagem do tempo, tornaram-se cada vez mais aperfeiçoados, desenvolvendo estruturas capazes de cumprir as funções requeridas para as tarefas necessárias para a manutenção de formas de vida mais complexas, as células eucariotas. Este processo, bastante longo, requereu outro bilhão e meio de anos para ser finalizado.

Era cambriana

Deixemos de lado o olhar cosmológico e passemos para uma outra escala, a planetária. Devemos considerar, conforme assinalou Clive (2019), uma conjunção de fatores físicos cujos efeitos se articularam com as injunções biológicas cujas manifestações se fizeram presentes ao longo da evolução das distintas formas de vida que se desenvolveram no nosso planeta. As mudanças climáticas, caracterizadas por ciclos de frio extremo e temperaturas mais amenas, as associadas às mudanças na órbita do nosso planeta e às transformações na superfície suscitadas pelos movimentos tectônicos, criaram condições diferenciadas, cujos impactos se manifestaram em níveis tão diversos quanto o planetário, o oceânico e o continental.

Além dos fatores climáticos, elementos inerentes à geografia física, a exemplo da latitude, da longitude e da altitude, devem ser levadas em consideração para a compreensão das condições ecológicas que permitiram o surgimento e a sobrevivência de formas de vida mais complexas e, posteriormente, dos hominídeos e da espécie humana.

Um dos principais marcadores da trajetória evolutiva no nosso planeta foi a denominada explosão cambriana, que assinalou a passagem das formas de vida mais simples, surgidas há cerca de 3,5 bilhões de anos, para as formas mais complexas, cuja ocorrência se registra a partir dos últimos 800 milhões de anos. A vida surge no oceano primordial que ocupava a maior parte da superfície do planeta, como também foram aquáticas as primeiras formas de vida complexas. No início do período cambriano uma infinitude de formas aquáticas, vertebradas ou não, mas sobretudo peixes, representava o bioma predominante no nosso planeta.

A literatura especializada identificou, neste período, duas grandes extinções em massa, cujos efeitos se manifestaram entre 400 e 500 milhões de anos. Há cerca de 500 milhões de anos superfície do planeta conheceu um processo contínuo de mudanças, com a aproximação e o posterior afastamento de placas tectônicas até alcançar, há cerca de 60 milhões de anos, a forma atual, com o desenho dos continentes e dos oceanos que ainda hoje somos capazes de diferenciar. É interessante notar que após o início da movimentação das placas tectônicas a vida sai do mar e migra para a crosta terrestre, desenvolvendo-se em cada continente segundo as suas próprias particularidades, ainda que preservando uma estrutura comum a todos os organismos.

Conforme observamos em algumas das linhas do tempo apresentadas na figura 1, o planeta em que vivemos conheceu sucessivos ciclos de calor, período nos quais as temperaturas mais amenas facilitavam as condições de sobrevivência, e de frio extremo, representados pelas linhas de invernagem. A história da vida no nosso planeta foi marcada períodos de extinção em massa e estas, embora possam ter suscitado o fenecer de biomas predominantes em cada uma das épocas, não representaram o extermínio total dos organismos, sendo interpretadas como funis ou filtros evolutivos, pois se a maior parte dos entes viventes teve a condição de existência comprometida em cada uma destas crises, algumas formas de vida, em particular as dotadas de melhor capacidade adaptativa às novas condições ambientais, sobreviveram.

A parte terrestre do planeta foi inicialmente ocupada pelas plantas, ao tempo em que alguns animais, os anfíbios, desenvolveram estruturas biológicas favoráveis à adaptação tanto nos ambientes aquáticos, quanto na superfície terrestre. Este predomínio dos anfíbios foi comprometido, há cerca de 350 milhões de anos, por um novo período de extinção em massa, ao qual se seguiu a hegemonia dos répteis, cujo domínio também foi abalado, quase duas centenas de milhões de anos depois, por um novo e rigorosíssimo inverno. Novas condições favoreceram a sobrevivência de alguns répteis gigantes, os sauros, que dominaram o planeta antes de terem há cerca de 300 milhões de anos a sua história evolutiva definitivamente comprometida por um cataclismo cósmico, um meteoro de tamanho razoável que, à velocidade de cerca de 80.000 quilômetros por hora e em um ângulo de ataque fatidicamente mortal, explodiu contra a superfície do planeta, abrindo uma cratera de um pouco mais de 30 quilômetros quadrados de extensão.

Quase nada sabemos sobre a vida social dos grandes sauros, pois as evidências identificadas a partir de achados encontrados nas covas coletivas destes animais não são suficientes para assinalar se eles apenas formavam agregados socialmente rudimentares ou se já apresentavam modalidades mais complexas de organização social (Hone, Farke, Watabe, Shigeru & Tsogtbaatar, 2014). Quais as pistas que nos interessam mais de perto, por indicarem elementos importantes de organização social associados, mesmo que indiretamente, aos estereótipos e preconceitos? Segundo Lucas (2016), os sauros eram dotados de estruturas anatômicas visíveis (cristas e trompas, por exemplo) que permitiam identificar parceiros sexuais ou oponentes entre grupos de coespecíficos. Outros fatores inerentes à biologia também devem ser considerados, a exemplo do dimorfismo, ou seja, os elementos que permitem a diferenciação entre machos e fêmeas numa mesma espécie, e as mudanças de tamanho ao longo do crescimento. Estes indicadores sustentam a suposição de que os sauros foram capazes de estabelecer diferenciações individualizadas a partir de critérios como o sexo ou idade, respectivamente (Fairbairn, Blanckenhorn, & Székely, 2007). Do ponto de vista das condutas foram encontrados em algumas espécies indicadores de cuidados parentais com as ninhadas. Por fim, evidências encontradas nas pegadas identificadas nos nichos em que eles viveram sugerem que indivíduos de grupos semelhantes compartilhavam uma mesma trilha de terreno, a qual diferia das utilizadas por outros grupos de sauros, um indicador de uma organização social primitiva, porém relativamente complexa.

Ainda que possam persistir dúvidas sobre o quanto o impacto de uma rocha estelar tenha sido suficiente para acarretar o fim da era dos dinossauros, a literatura especializada sugere que após o cataclismo produzido pelo impacto do meteorito sobreviveram aproximadamente 25% das formas de vida existentes, em especial, crocodilos, tartarugas, pequenos répteis, tubarões, peixes, pássaros e, obviamente, alguns mamíferos, sobretudo os de pequeno porte protegidos em locas e cavernas, nas quais encontraram abrigo frente ao inclemente inverno que se seguiu aquele fatídico dia.

Primatas

Dentre os mamíferos, o nosso interesse reside na evolução de um tipo particular, os primatas, cuja primeira aparição se suspeita ter ocorrido há cerca de 60 milhões de anos na África. Uma grande mudança evolutiva ocorreu há cerca de 25 milhões de anos e foi marcada pelo surgimento de uma classe particular de primatas, os grandes símios, os quais que deram origem aos gorilas e chimpanzés, que habitavam onde hoje é a África, e aos orangotangos, que se dispersaram pela atual Ásia.

A adaptação dos primatas à vida na copa das árvores por certo gerou mudanças no plano perceptual e cognitivo. Se movimentar rapidamente entre os galhos das árvores, sem despencar no espaço vazio, depende do desenvolvimento da percepção da profundidade, bem como da habilidade de utilizar as extremidades dos membros superiores para a preensão, sustentação e imposições de oscilações pendulares, cujos impulsos favorecem o gerenciamento e a guia dos movimentos corporais.

Com a passagem do tempo, identificou-se uma transformação evolutiva ainda mais decisiva, pois há cerca de 7 milhões de anos alguns primatas desenvolveram uma habilidade fundamental, o bipedismo. Os estudiosos elencam uma série de vantagens inerentes a andar sob dois pés e liberar as mãos, pois os animais habilitados a se movimentarem apenas com os membros inferiores se tornaram capazes de levantar a cabeça e vasculhar o ambiente de uma forma muito mais efetiva do que os seus primos que viviam com a cara enfiada no chão. Esta postura representou um enorme ganho no que concerne às estratégias de defesa contra os predadores. Andar sobre duas pernas também permitia se afastar das florestas e adentrar velozmente em campos abertos, enveredando nas savanas em busca de alimento nas circunstâncias em que os recursos de sobrevivência obtidos nas florestas fechadas escasseavam. A posição bípede liberou as mãos para o manuseio cada vez mais especializado dos recursos encontrados na natureza e essa liberdade, aperfeiçoada a cada geração, terminou por produzir reflexos no desenvolvimento do sistema cortical, ampliando cada vez mais as habilidades cognitivas transmitidas aos descendentes, preparando a aparição de uma espécie cujo surgimento ocupa um papel decisivo no nosso relato, os hominídeos. Afora isto, a posição bípede limitava a superfície corporal exposta à inclemência dos raios solares, o que proporcionou mudanças significativas na aparência destes primatas, diferenciando-os cada vez mais dos seus antecessores.

Hominídeos

De pequena estatura e perfeitamente adaptadas ao bipedismo, as linhagens de hominídeos derivadas dos primeiros primatas se aproveitaram das vantagens evolutivas acima enumeradas e se expandiram ao longo dos quatro milhões de anos subsequentes, ocupando a parte central da África, numa região hoje compreendida entre o Quênia, a Etiópia e a Tanzânia e, quando as condições climáticas assim o permitiram, se espalharam pela África e atingiram a parcela da Ásia menos sujeita às inclemências do clima (O’Brien, 2007).  

Evidências obtidas na atualidade sugerem que os parentes relativamente mais próximos dos humanos modernos foram os australopitecos, cujos primeiros registros retroagem há algo como quatro milhões de anos. De maior envergadura que os antecessores, estes hominídeos mediam um pouco menos de um metro e meio de altura e possuíam uma estrutura cerebral estimada em cerca de 380 a 450 cm3, pouco volumosa se comparada aos 1478 cm3 do homo sapiens. Bípedes, os australopitecos também se encontravam perfeitamente adaptados à vida na copa das árvores. No que tange à vida social, as evidências permitem supor que viviam em pequenos grupos familiares, supostamente organizados numa estrutura social hierarquizada, sob o domínio de um macho e com as fêmeas dedicadas aos cuidados da prole. Ainda que a sobrevivência dependesse da coleta de frutos, raízes e de carcaças de animais encontradas na natureza, é possível supor que tenham sido capazes de coordenar algumas ações entre membros do grupo para atingir determinados fins, a exemplo da caça de animais de pequeno porte. Em relação à cultura, é admissível pensar que tenham desenvolvido algum sistema de comunicação, ainda que a análise da estrutura esquelética dos fósseis remanescentes descarte a presença de um aparelho fonador, o que obstou a capacidade de vocalização e inibiu o surgimento de sistemas simbólicos mais sofisticados.

Não é demais insistir que o desenvolvimento dos hominídeos e a expansão territorial exigida pelo esgotamento dos recursos do local em que viviam dependia decisivamente das condições climáticas, principalmente se considerarmos que a história evolutiva do nosso planeta, marcada por períodos de intensas mudanças climáticas, nas quais se alternavam ciclos de invernos glaciais, que tornavam a sobrevivência extremamente penosa para os organismos vivos, e períodos de aquecimento acentuado, ao qual se seguia o consequente degelo e as posteriores modificações da superfície habitável do planeta. Estas mudanças climáticas impuseram desafios evolutivos significativos aos organismos e acarretaram a extinção de muitas espécies de hominídeos.

Os estudiosos identificaram uma série de subespécies do gênero homo cujos recursos biológicos e evolutivos se mostraram insuficientes para superar uma corrida de obstáculos, cujo grande prêmio foi a sobrevivência. O homo habilis e o homo eretus talvez tenham sido os hominídeos mais conhecidos e estudados a não conseguirem superar esta travessia. O homo habilis, cujos primeiros registros retroagem há dois milhões de anos, dispunha de uma capacidade cerebral entre 600 a 800 cm3, nada notável para os parâmetros atuais, mas que em consonância com o nome pelo qual foram batizados, tornava-os definitivamente capazes de criar artefatos, no que diferiam dos antecessores, que apenas utilizavam os objetos disponíveis na natureza. Esta nova classe de artefatos culturais facilitou o acesso a uma dieta de base animal, embora provavelmente os instrumentos cortantes tenham sido utilizados sobretudo para facilitar o manuseio da proteína obtida em carcaças de animas mortos naturalmente ou abatidos por outros predadores. Ainda que, a exemplo dos australopitecos, descessem das árvores em busca de alimentos e para caçar, grupos de até 15 indivíduos ao cair da noite se refugiavam na copa das árvores em busca de proteção contra os predadores e os irremediáveis perigos suscitados pela escuridão.

O homo eretus, de origem um pouco mais recente, maior envergadura e com o cérebro um pouco maior, entre 850 e 1000 cm3, se mostrou bem mais adaptado que os seus antecessores, tendo os últimos exemplares sobrevivido até cerca de 15.000 anos (Roberts & Westad, 2013). Um cérebro mais volumoso representou uma mudança significativa em termos de estrutura física, pois deveria se aninhar em uma caixa craniana mais volumosa, o que representava um desafio formidável durante o trabalho de parto. A solução evolutiva, a prematuridade no nascimento, impôs uma mudança significativa em relação aos cuidados dispensados aos nascituros, cuja sobrevivência se tornara inteiramente dependente dos cuidados do grupo que os acolhiam. Possivelmente a diferenciação entre os papéis sexuais se origina neste momento da evolução, sendo a interpretação dominante a que postula a diferenciação entre cuidadores, as fêmeas, dedicadas aos cuidados de uma prole imatura e indefesa, e provedores, os machos responsáveis pela faina diária necessária à provisão dos recursos alimentares.

Um elemento decisivo no domínio do meio ambiente foi a utilização do fogo e, nesse particular, se o homo eretus ainda não dispunha de tecnologia suficiente para criá-lo, parecem ter sido capazes de utilizar os focos de incêndio encontrados no mundo natural, fossem os causados pelos raios, fossem os encontrados nas imediações dos inúmeros vulcões ativos à época. O domínio do fogo significou muito em termos de mudanças de hábitos alimentares, pois novas classes de alimentos passaram a ser consumidas, a exemplo de tubérculos e sementes, ao tempo em que permitiu o desenvolvimento de estratégias de defesa mais efetivas contra os predadores. A apropriação do fogo também proporcionou uma mudança significativa na utilização do espaço ao permitir a exploração e a ocupação de cavernas, o que favoreceu a criação de ambientes menos úmidos e mais confortáveis, especialmente no que concerne à proteção contra o frio, bem como representou uma ruptura com o ciclo repetitivo da natureza, ao trazer luz em um espaço antes dominado pelas trevas. Alguns indivíduos se especializaram na manutenção e manuseio deste elemento misterioso, capaz de aquecer os dias frios e iluminar as noites escuras. O surgimento dos demiurgos ou mágicos pode ser interpretada como uma das formas seminais de divisão social do trabalho.

Além do domínio do fogo, uma outra habilidade creditada ao homo eretus se refere à caça de animais de grande porte. Esta atividade exigia alguma ação coordenada entre os membros do grupo, denotando alguma capacidade comunicativa ou, o mais provável, o desenvolvimento de formas rudimentares de linguagem. Podemos especular, ademais, que em algumas circunstâncias deve ter ocorrido algum tipo de colaboração entre os grupos diferentes no sentido de tornar mais eficiente as expedições de caça. As inúmeras trocas entre estes pequenos grupos de caçadores representam as modalidades iniciais de aprendizagem social, sendo possível postular que algumas soluções encontradas pelos grupos de caçadores de maior sucesso tenham sido ensinadas e aplicadas durante estas campanhas. Uma expedição bem-sucedida determinava não apenas o trabalho de dividir de forma justa a presa entre os vários grupos participantes da empreitada, mas também demandava o esforço adicional de transportar cada quinhão para os locais nos quais se encontravam os cuidadores e os jovens. A posse deste excedente alimentar pode ter criado as condições que suscitaram a emergência das atividades culturais e de lazer.

Desafortunadamente as capacidades evolutivas do homo eretus não se mostraram suficientes para superar a corrida da sobrevivência, embora alguns grupos remanescentes tenham resistido até bem pouco tempo. A trajetória dos hominídeos no nosso planeta se estendeu durante quase um bilhão de anos, sendo aceitável imaginar que nesse período foram surgindo subespécies ainda mais aperfeiçoadas, a exemplo do homo heidelbergensis, de capacidade cerebral ainda maior (1204 cm3) e os neandertais, que com os seus 1426 cm3 de cérebro já se aproximavam bastante dos atributos característicos dos humanos modernos.

Era do sapiens

À luz do conhecimento atual não é possível assegurar nem quando, nem onde surgiram os humanos modernos. Conforme assinala Maryansky (2013), a datação dos fósseis dos primeiros registros de hominídeos com o jeitão de humanos indica que eles habitaram o planeta em torno de 150 a 200 mil anos atrás. A baixa variação do background genético humano, constatada mediante a comparação da variabilidade do genoma humano com a dos chipanzés, sugere a presença de um evento poderoso que criou um gargalo pelo qual boa parte das espécies de hominídeos não foi capaz de superar. O nosso planeta, conforme assinalado, sempre esteve sujeito a intensas variações climáticas, alternando-se ciclos de calor e eras glaciais. Os organismos sobreviventes por certo estavam preparados para lidar com as constantes alterações climáticas, podendo-se supor que se salvaram por terem desenvolvido estruturas especializadas capazes de permitir uma ampla maleabilidade de respostas às mais diversas demandas. Essas estruturas aos poucos foram se ajustando às mais diversas condições ambientais e sociais e devem ter fornecido as condições requeridas para a sobrevivência da espécie humana.

Parece-nos lícita a hipótese de que o desenvolvimento da nossa espécie se deu a partir de antepassados que se caracterizavam por uma baixa variabilidade no genoma e uma enorme plasticidade nas condutas. A baixa variabilidade do genoma humano sugere que um número muito reduzido de hominídeos tenha superado a uma dessas eras catastróficas, estimando-se que o número de sobreviventes de um desses períodos não deve ter ultrapassado a casa da dezena de milhares de indivíduos, obrigando-nos a admitir que se somos originários desses poucos indivíduos, as semelhanças entre os humanos são bem mais acentuadas do que as diferenças que nos afastam. É possível supor, ademais, que se estes indivíduos não tivessem vivido em grupos e, em algumas circunstâncias, não tivessem formado coalizões, as chances de sobrevivência teriam sido ainda mais reduzidas (Kurzban, Tooby, & Cosmides, 2001).

Esta enorme variação das condições ambientais, ao exigir a implementação de estratégias diferenciadas de sobrevivência a depender do meio ambiente, favorece a aceitação da hipótese de que os primeiros humanos devem ter encontrado soluções semelhantes para enfrentar os desafios aos quais se encontravam sujeitos. Apesar de diferenças culturais, das decorrentes do clima, dos demais fatores ambientais e das variabilidades históricas inerentes a trajetória de cada grupo social, somos membros de uma mesma espécie e compartilhamos com os nossos coespecíficos uma herança comum, pois utilizamos soluções semelhantes para fazer frente aos recorrentes problemas demandados pela sobrevivência.

A grande viagem

Descendentes de primatas mais antigos, os primeiros hominídeos foram responsáveis pela introdução de uma série de práticas, cujo impacto foi absolutamente extraordinário. Para fazer frente as condições de sobrevivência em ambientes pouco hospitaleiros elaboraram artefatos cortantes a partir da preparação e polimento de rochas encontradas na natureza, sendo especialmente marcante a criação de formas rudimentares do machado, um artefato tão útil para a defesa, quão importante para a sobrevivência. Nas andanças em busca de novos espaços de exploração deram conta da presença das ervas e plantas medicinais e, identificados os meios de explorá-las, encontraram alívio para muitas dores e um meio de fazer frente a algumas doenças. Ao se apropriarem dos benefícios e do poder de transformação do fogo acentuaram as propriedades positivas de pedras, rochas, plantas e raízes, utilizando-as para a elaboração de tinturas e poções. Afortunadamente encontrarem determinados tipos de objetos e foram capazes de moldá-los, transformando-os em projéteis, em especial flechas, as quais lançadas por propulsores recém-inventados podiam atingir enormes distâncias, aumentando ainda mais os recursos de caça e os artifícios de proteção contra os predadores, humanos e não humanos. Estes primeiros ensaios de domínio da natureza, embora considerados importantes, não invalidam a tese de que a expansão geográfica da espécie humana se tornou particularmente marcante apenas nos últimos 50 mil anos (Gamble, 2019), quando ocorre um grande salto na ocupação da superfície terrestre, pois o domínio dos hominídeos sobre a natureza, circunscrito até então a algumas regiões geográficas, amplia-se até alcançar uma escala planetária, tal como pode ser depreendido pelas setas plotadas na figura 2.

Figura 2: expansão da ocupação humana nos últimos 50 mil anos

Estas mudanças não ocorreram de uma hora para outra, estimando-se que a extensão dos domínios geográficos pelo ser humano não ultrapassava a casa de algumas centenas de metros por dia. Neste ritmo, a espécie humana, após atingir há cerca de 60 mil anos as ilhas do Pacífico Sul, voltou-se para territórios mais frios, alcançando o que hoje é a China há cerca de 40 mil anos, o norte da Europa e Ásia há 30 mil anos até, finalmente, há cerca de 15 mil anos, aproveitar um inverno mais ameno e, carregando consigo algumas espécies de animais já domesticadas, atravessar o Estreito de Bering e conquistar o continente americano. Estudos mais recentes, no entanto, têm colocado em dúvida a ocupação tardia das Américas ao apontarem evidências de que a ocupação das Américas teria ocorrido há cerca de 30 mil anos.

Nestes espaços recém-conquistados a espécie humana se defrontou com novas condições, o que por certo acarretou o desenvolvimento de hábitos alimentares diferentes dos até então adotados. Ao atingir as zonas litorâneas se permitiu desenvolver artefatos rudimentares de pesca, o que representou um acréscimo considerável no inventário de alimentos encontrado à disposição. Anzóis e outros recursos de pesca têm sido estudados como exemplos das grandes mudanças suscitadas pelos recursos encontrados nos novos espaços de exploração, indicando o quanto a ocupação humana correu em paralelo com o constante aperfeiçoamento destes novos recursos tecnológicos. Com o tempo, os artefatos cresceram em quantidade e qualidade, sendo plausível imaginar que os humanos pouco a pouco passaram a experimentar novos e distintos materiais antes de encontrarem soluções engenhosas, tornando os artefatos cada vez mais eficientes. É de se imaginar, portanto, que as soluções de modelagem de parco sucesso tenham sido prontamente abandonadas, enquanto as mais bem sucedidas tenham sido retidas, um movimento que não apenas proporcionou uma maior variedade de objetos, como também se tornou decisivo no longo percurso em direção a uma padronização cada vez mais acentuada dos artefatos culturais.

Além da padronização dos artefatos criados pela destreza humana, a expansão territorial acarretou uma nova ordenação do espaço físico, algo que transparece nas ruínas pré-históricas ou nos monumentos construídos a partir de blocos de pedras obtidos em locais distantes e transportadas intencionalmente com a finalidade de erigir estas instalações. Estes espaços testemunham as primeiras formas de expressão artística, especialmente a pintura rupestre, como também se tornaram locais privilegiados para a celebração de cerimônias e rituais religiosos, cujas marcas ainda encontram expressão em monumentos mortuários com alto grau de elaboração.

As inovações tecnológicas anteriormente referidas representaram não apenas o domínio de novos espaços, pois a elas estiveram associadas uma ampliação extraordinária das pautas de conduta. Se até então era possível supor um retrato relativamente comum dos padrões alimentares, das práticas sociais e do padrão de conduta dos grupos humanos, a ocupação de novos espaços e os desafios ecológicos representados por viver em locais muitas vezes inóspitos impuseram a ampliação das rotinas e a introdução de novas pautas comportamentais.

A adaptação humana a estes novos ambientes demandou especializações cada vez mais acentuadas nas condutas individuais e grupais, assim como uma série de transformações sociais e culturais que manifestaram mais vigorosamente nos últimos dez mil anos, logo após a última grande era glacial. Os efeitos destas pressões evolutivas dificilmente podem ser registrados de forma direta e dependem da identificação de sinais encontradas em diversos sítios, bem como de uma análise criteriosa das condições imperantes nas relações entre os primeiros agrupamentos humanos. Julgamos arriscado aventar qualquer interpretação que aponte para relações unívocas entre evolução, genética, estereótipos e preconceitos, sendo mais razoável supor que as pressões evolutivas se encontram na base de uma complexa maquinaria que facultou aos grupos humanos se organizarem como civilizações e a construírem a breve história de ocupação do nosso planeta.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s