Resenha: Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana

Gisele D. Alberton

No resumo introdutório o autor discute a função de perceber e categorizar como processos fundamentais da vida social. O processo de categorização auxilia os indivíduos na organização da realidade social, no entanto este processo também influencia o julgamento dos grupos ou seus membros.
O ensaio intitulado como “Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana” com autoria de Marcos Emanoel Pereira tem objetivo de avaliar e esclarecer alguns mecanismos psicológicos envolvidos na manifestação do julgamento estereotipado pelos habitantes dos centros urbanos, enfatizando o papel exercido pela confirmação e desconfirmação das crenças.
Inicialmente o autor destaca a complexidade da vida urbana e argumenta que a sobrevivência humana nos centros urbanos é possível porque o ser humano tem dois sistemas de aprendizagem, um que permite lidar com as rotinas diárias e outro que o ajuda a lidar com as situações inesperadas. Esses sistemas são complementares.
As informações que são adquiridas no cotidiano através da capacidade de percepção dos indivíduos são organizadas e armazenadas na memória em termos de crenças. Isso é possível devido à categorização. O autor explica que os estudos atuais apontam que uma parte do pensamento é regida por dispositivos mentais que permite pensar os indivíduos com quem se interage em termos de categorias mais amplas e não a partir das particularidades de cada pessoa encontrada no mundo. Assim, esta modalidade também permite que rótulos verbais sejam aplicados a objetos presentes nos domínios: físico, mental e social da vida.
Esse repertório de conhecimentos adquiridos ao longo da vida geram expectativas e são utilizados como base para guiar os comportamentos no mundo social. Baseado nesse conjunto de argumentações o autor destaca a influência que a categorização exerce sobre a percepção social. A partir da ativação dessas estruturas é possível realizar julgamentos sobre os membros da categoria ativada. O autor ainda apresenta exemplos durante suas reflexões (e.g., faxineira no prédio – que vive na periferia ou que vive num bairro próximo) em que é possível visualizar como os estereótipos podem atuar no cotidiano dos indivíduos. Também mostra evidências na literatura que as ideias estereotipadas poderiam ser mais frequentes em centros urbanos porque as pessoas se deparam com uma variabilidade maior de grupos sociais. No entanto, outros autores citados neste ensaio defendem que o pensamento estereotipado se manifesta menos em pessoas que vivem em centros urbanos porque a literatura aponta que a vida nesses locais possibilita maior acesso a informações, o que vai contra as concepções estereotipadas, e também, proporciona maior vivência entre pessoas diferentes. O autor coloca que o fato de as pessoas terem maior acesso à informação não há indício de que elas irão rejeitar ou inibir a expressão das crenças estereotipadas. Em algumas circunstâncias as categorias podem ser ativadas de forma incondicional enquanto outras serão ativadas de forma condicional.
O autor apresenta evidências na literatura sobre a ativação incondicional dos estereótipos que são derivados do trabalho de Gordon Allport sobre a natureza dos preconceitos. Nesta linha a ativação da categoria é um processo inevitável. Em contraposição a esta ideia, o autor relaciona estudos que se posicionem sobre a ativação dessas categorias de forma condicional e que dependem de disparadores adequados. A aplicação do raciocínio categórico torna-se mais comum quando falta ao percebedor motivação, tempo ou capacidade cognitiva para lidar com as demandas sociais.
Assim, não é necessariamente a maior quantidade de informações a que se encontra exposto nos ambientes urbanos que acarretará em um menor grau de estereotipização. O que vai fazer a diferença nas interações sociais é a qualidade dos contatos onde indivíduos podem obter as informações necessárias para fazer julgamentos sociais adequados, o que não é privilégio dos grandes centros urbanos.
Este artigo demonstra que a questão crucial é evitar o predomínio dos estereótipos, pois eles influenciam a percepção, e consequentemente, os pensamentos e comportamentos prejudicando as relações sociais. O mais importante é estar atento ao contexto em que se vive e adotar práticas de reflexão das próprias ações.
Referência: Pereira, M. E. (2008). Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana. Ciências & Cognição, 13(3), 280-287.

Resenha: Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana

Marcus Vinicius C. Alves

De acordo com dados do IBGE que afirmam que grande parte da população brasileira é residente de centros urbanos, o autor do ensaio decide então por perscrutar a influência dessa vida urbana nas funções cognitivas, com destaque para o processo de categorização e estereotipização, desenvolvendo um raciocínio acerca da influência desses processos na vida cotidiana. O autor sugere que, já que argumentos cognitivistas afirmam que o mundo complexo em que vivemos exige o uso de sistemas de aprendizagem complementares, seria então fundamental para a vida como conhecemos nos centros urbanos um uso ainda mais acentuado destas do que no campo, devido à quantidade de informações que se recebe nas cidades. Há, então, a capacidade de entender a realidade por dois caminhos diferentes e complementares, um que torna os indivíduos capacitados a aprender e lidar com o previsível, e outro que seria caracterizado por uma grande plasticidade, sendo capaz de rapidamente analisar diferentes variáveis, se comportando de forma mais adequada a elas. Partindo desse raciocínio, o autor argumenta sobre a forma que as categorizações são engendradas, usando de exemplos cotidianos, permitindo um entendimento sobre como funcionaria os sistemas de aprendizagem e o porquê da utilidade deles na realidade urbana tão instável. Segundo Pereira, a possibilidade de podermos ter os pensamentos orientados pelas categorias que são construídas com a história de vida permite que lidemos tanto com situações corriqueiras como ir a um shopping a procura de algum item e sabermos que vamos encontrar auxílio com um vendedor, quanto com situações raras, mas previsíveis em decorrência da experiência de como lidar com semelhantes, como ir ao mesmo shopping e, o ao não encontrar o vendedor, pedir auxílio a alguém que aparente poder ajudar. Tais pensamentos permitem também lidar com situações totalmente divergentes do que se teria uma prévia ideia, como, por exemplo, ir novamente ao shopping e encontrar um vendedor que se comporte totalmente fora dos padrões habituais, sendo agressivo com clientes que pedissem sua assistência. Assim, pode-se perceber que é natural e, em alguns casos, extremamente valioso que automaticamente categorizemos grupos sociais e comportamentos de outrem, construindo um repertório de conduta e reação. Além disso, é possível entender o porquê de alguns autores argumentarem que nas cidades essas categorizações estão em funcionamento e reconstrução a todo o momento, pois, a vida urbana exige o contato com pessoas de diferentes grupos, com diferentes crenças e valores o tempo todo.
O autor então levanta uma informação intrigante que revela que o raciocínio anteriormente empregado não se encontra além de controvérsias. O argumento é suportado pela literatura que trata o tema: apesar de que os centros urbanos geram uma forte categorização, pesquisas revelam que representações estereotipadas se manifestam de forma menos intensa nos centros urbanos de maior tamanho. Pereira sugere então uma resposta para a questão, ele afirma que é lícito supor que as grandes cidades são fonte de uma enorme rede de possibilidades de contradição de estereótipos, assim, apesar de incitar os pensamentos estereotipados pela necessidade da cognição de criar esquemas de comportamento para diferentes pessoas, reduzindo a energia gasta para entendê-las, a vida urbana acaba por também propiciar oportunidades infinitas de contato com pessoas diferentes, algumas que confirmam os estereótipos, e outras tanto que destoam do pensamento categorizado. Entretanto, afirmar que o ser humano tende a inibir o raciocínio categórico seria um erro, o autor afirma exatamente o contrário. Pereira questiona então quais seriam as condições que disparariam o raciocínio categórico, e a resposta é que, provavelmente, o raciocínio direcionado à categorização surge quando falta ao indivíduo percebedor motivação, tempo ou capacidade cognitiva para lidar com as demandas requeridas durante as interações sociais.
O ensaio então é concluído com uma reflexão do autor sobre o que foi discutido anteriormente. Pereira propõe que, não necessariamente um indivíduo que viva em uma cidade vai estereotipizar menos que um que viva no ambiente rural, o que fará a diferença será muito mais a qualidade do que a quantidade das informações e dos contatos interpessoais nos quais ele vai obter informações sobre os grupos sociais. Assim, entende que apesar do efeito do ambiente em que se vive, o contexto em que as informações serão entendidas será de importância impar, e além disso, cabe também às pessoas a diluição de pensamentos tacanhos e preconceituosos.

Pereira, M. E. (2008). Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana. Ciências & Cognição. Vol. 13 (3), 280-287.

Estereótipos e piadas: a loira advogada

Contribuição: Leiza Torres

Após seu longo curso de advocacia, a loira abre seu escritório e no primeiro dia de serviço, alguém bate na porta.

Para marcar aquela presença, pega o telefone e pede para a pessoa entrar e esperar.
Fica uns 30 minutos fingindo uma conversa:

– Sim, claro! Eu não perco uma causa! Esta está muito fácil….
Com certeza, no próximo julgamento o juiz nos dará sentença favorável e venceremos!!! (e assim ficou enrolando)

Quando desligou, após aquela “longa conversa”, toda educada pergunta:

– Pois não, cavalheiro, em que posso ajudá-lo?

O homem respondeu :
– Sou da Telefônica, vim instalar sua linha.

Conceitos fundamentais: protótipos e exemplares

A teoria dos protótipos representa uma tentativa de superar as dificuldades apresentadas pela teoria clássica. Ela parte do entendimento que alguns exemplares se ajustam perfeitamente aos fatores definidores da categoria, sendo facilmente rotulados, enquanto outros só podem incorporados à categoria após um esforço considerável. Pode-se falar, portanto, em exemplares mais típicos de uma categoria. Um protótipo representa uma tendência central ou um conjunto de objetos relativamente variáveis representativos de uma categoria. Os membros são percebidos como mais prototípicos quando ostentam um grande número dos fatores característicos daquela categoria, de forma que um protótipo deve ser entendido como uma representação abstrata dos componentes típicos e não de todos os fatores de uma categoria.

A teoria dos exemplares, ao contrário, sugere que quando solicitadas a refletir sobre os membros de um grupo, as pessoas tendem a evocar membros específicos de uma categoria. A categoria instrumentista muito rapidamente faz com que, a depender do caso, sejam evocados nomes como os de Hermeto Paschoal, Frank Zappa ou o Mestre Vieira de Barcarena e não uma representação prototípica de um músico. Isto ocorre porque a representação dos exemplares é mais concreta e como tal, mais vívida e facilmente acessível. Como o número de exemplares está sujeito a uma maior variação, a teoria permite a inclusão com mais facilidade de objetos com os quais a pessoa possui menos familiaridade, pois os limites da categoria são bem mais fluídos que no caso da teoria dos protótipos.
A teoria dos exemplares, no entanto, enfrenta dificuldades distintas. A principal delas reside na incompatibilidade entre a crença de que os seres humanos sejam capazes de tratar com fluidez a enorme quantidade de exemplares armazenados na memória e que estão presentes no mundo social e ainda que sejam capazes de realizar todos os cálculos mentais necessários para a inclusão ou exclusão dos membros em uma ou várias categorias, sem que estas operações sejam exaustivas segundo a perspectiva da economia cognitiva. A teoria dos exemplares guarda, portanto, uma forte incompatibilidade com a metáfora do avaro cognitivo, assim como não se beneficia das exceções proporcionadas pelo modelo do ser humano taticamente motivado.

Fonte: Marcos Emanoel Pereira. Psicologia Social dos Estereótipos. São Paulo: EPU, 2002
Conceitos fundamentais: teorias implícitas
Teoria realista do conflito
Heurísticas e vieses
Heurística da acessibilidade
Heurística da representatividade
Heurística da ancoragem e ajustamento
Esquemas de grupo
Gerenciamento de impressões
Correlação ilusória
Avaro cognitivo