4.1. Pressupostos

A definição aqui postulada acolhe explicitamente a tese de que os estereótipos são crenças. Assim definidos, podem ser considerados produtos mentais ou, para ser mais exato, produtos resultantes de um processo psicológico, a estereotipização (Lawrence, & Leather, 1999; Leyens, Yzerbyt e Schadron, 1994; Stangor, & Schaller, 1996) que, por sua vez, pode ser definida como um processo em que se conduz um julgamento que possibilita ao alvo ser tratado com um ente que possui características intercambiáveis com os demais membros da categoria ou grupo aos quais se concebe que seja filiado.

Para avançar, no entanto, precisamos definir cuidadosamente o que entendemos por crenças, daí a inclusão do diagrama da figura 88, elaborado a partir das sugestões encontradas em Nilsson (2014). As crenças geralmente se organizam sob a forma de sistemas, mantendo relações de maior ou menor proximidade com outras crenças. Como estas crenças se afetam mutuamente, qualquer mudança nos sistemas de crenças é bastante difícil, pois envolve não apenas a mudança em somente uma crença, mas, também, em muitas outras incluídas no mesmo sistema.

Figura 88:  modelo de crenças, segundo Nillsson (2014)

O diagrama nos mostra que as crenças são construções mentais cuja origem pode ser remontada não unicamente às outras crenças que acolhemos, assim como às explicações que elaboramos sobre as nossas crenças. As explicações se fundamentam basicamente em crenças ainda mais primitivas e se sustentam nos conceitos que dispomos para refletir sobre o mundo e sobre as nossas próprias crenças. Assinalar que utilizamos as abstrações conceituais para entender o mundo não significa, contudo, afirmar que a assimilação de uma crença somente é efetivada após um longo processo de crítica e reflexão.

Pelo contrário, o diagrama evidencia que, embora devêssemos tratar as crenças como entidades provisórias e sujeitas a mudanças, elas são acolhidas após alguma análise e introdução de modificações para ajustá-las, tornando-as compatíveis com o que previamente acreditamos. Após aceitá-las não temos dificuldades em confirmá-las, pois contamos com o apoio das nossas experiências pessoais e introduzimos uma série de paralogismos com a finalidade de torná-las ainda mais ajustadas às nossas crenças prévias. Fortalecida a aceitação pessoal, buscamos as opiniões das outras pessoas, particularmente aquelas que professam crenças compatíveis com o que desejamos acreditar e, para reforçá-las ainda mais e evidenciar que não somos cabeça dura, nos damos o trabalho de encontrar opiniões levemente contrárias, porém, não tão intensas para modificar o que acreditamos.

E por que todo este esforço mental? Quais as funções desempenhadas pelas crenças? Como podemos observar no diagrama, as crenças são decisivas na nossa vida. Em primeiro lugar, elas permitem elaborar predições sobre nós mesmos, sobre as outras pessoas e a respeito do mundo em que vivemos. Também nos ajudam a encontrar explicações para os inúmeros eventos com os quais nos defrontamos. As crenças nos inspiram e estimulam a nossa criatividade, ajudando-nos a quebrar as inúmeras rotinas às quais estamos sujeitos. Elas também são decisivas no nosso senso de fruição estética e justificam a nossa busca por espaços culturais ou de consumo em que possamos nos deixar enlevar pelas expressões artísticas ou pelos artefatos que adquirimos. Em suma, as crenças são constructos que nos fazem sentir bem com nós mesmos e com os outros; e ainda permite que consideremos que a vida vale a pena ser vivida. Por isto tudo, o nosso sistema de crenças desempenha um papel decisivo na nossa autoconfiança, habilitando-nos a materializar o que, até então, permanecera como uma mera potencialidade.

As crenças afetam decisivamente a nossa vida; nem todas elas, no entanto, podem ser qualificadas como desejáveis e positivas. Os estereótipos são crenças bastante negativas por sinal, o que nos obriga a avaliar em que medida estamos aptos a rejeitar aquelas com potencial de interferir negativamente na nossa e na vida dos outros. Isso nos obriga a adotar uma posição crítica em relação a boa parte das nossas crenças, o que exige um esforço extraordinário pois tendemos a nos manter apegados ao que acreditamos (ver seção 5.2.3). Manter uma crença significa não a submeter à prova, ainda que elas frequentemente sejam desafiadas em função das nossas experiências cotidianas, das informações às quais estamos sujeitos e das discussões com os nossos amigos, conhecidos e até mesmo pessoas desconhecidas que ostentam pontos de vista contrários ao que acreditamos.

Afora o exposto até aqui, importa assinalar que se os estereótipos são crenças, então devem ser tratados como produtos. Uma vez aceita a tese de que as crenças podem ser definidas como proposições a respeito das relações entre um objeto e um atributo ou entre dois objetos, e considerando que os estereótipos são crenças, torna-se imperativo aderir ao pressuposto de que eles são inseparáveis da dimensão da linguagem (Fiedler & Schmidt, 2003; Kruger, 1986; Rothbart & Taylor, 1992; Semin & Fiedler, 1988; Thompson, Judd & Park, 2000; Maass, Salvi, Arcuri & Semin, 1989). Dada esta relação indissolúvel com o domínio linguístico, os estereótipos possuem um estatuto ontológico próprio, cujo fundamento se encontra na dimensão material da linguagem.

Os estereótipos enquanto crenças compartilhadas

Uma vez caracterizadas as crenças, a nossa definição introduziu o qualificativo compartilhado, pois os conteúdos das crenças estereotipadas se referem a um repertório de conhecimentos de ampla circulação, incapaz de ser reduzido a uma dimensão puramente idiossincrática e tampouco aplicado a situações específicas (Gaskell e Fraser, 1990). Uma crença estereotipada não é uma crença de um indivíduo em particular, ela é compartilhada quando nada por milhares e, algumas vezes, por milhões de indivíduos. O alvo de uma crença estereotipada é alguém que foi desindividualizado, alguém cuja identidade pessoal foi colocada entre parênteses e passou a ser julgado não porque pessoalmente agiu ou se comportou de determinada maneira, mas porque se comportou em consonância com o esperado pelos membros do grupo ou da categoria social a que pertence (Hoog, & Gaffney, 2021; Postmes, & Spears, 1998).

A estereotipização não se confunde com a categorização

Uma segunda questão considerada na definição que adotamos se relaciona com os entes aos quais as crenças se referem. Quase toda a tradição de trabalho na psicologia social sobre os estereótipos se limita a um tipo específico de referente, as categorias sociais, desconsiderando quase que completamente as outras modalidades de entes sociais identificadas na literatura (Lickel, Hamilton, Wieczorcowska, Lewis, Sherman & Uhles, 2000). A relação entre os estereótipos e as categorias sociais, no entanto, não é de simples simetria. Ainda que os estereótipos quase sempre se refiram às categorias sociais é perfeitamente concebível imaginar que um indivíduo possa ser categorizado sem que um estereótipo venha a ser ativado ou aplicado (Macrae, Bodenhausen, Milne, & Calvini, 1999). Afinal, nem toda categoria social é alvo de estereótipos. Rotular um indivíduo como botafoguense ou como brasileiro é uma operação cognitiva que envolve, fundamentalmente, o processo de categorização e, embora seja possível postular a existência de crenças compartilhadas sobre os membros destas duas categorias, tais crenças não são necessariamente estereótipos. Ademais, ainda que os conteúdos estereotipados sejam usualmente considerados predicativos imputados aos membros das categorias sociais, provavelmente os estereótipos se referem mais amiúde às subcategorias, ou seja, a entidades sociais com um menor grau de abstração do que aquele imputado às entidades referidas pela noção de categoria social. Mesmo que possamos fazer alusões aos estereótipos como, por exemplo, os relacionados aos religiosos, é mais comum eles se referirem a entes subsumidos por esta categoria mais ampla como os padres, freiras, pastores, mulás ou mães de santo, subcategorias marcadas por representações mentais mais vívidas do que as aplicadas à categoria religioso ou pessoa de fé. Os estereótipos, nestes termos, são mais facilmente aplicáveis aos subtipos subordinados a uma categoria mais ampla. O que torna mais fácil a representação dos estereótipos mediante os protótipos e exemplares organizados neste nível menos abstrato de codificação? Uma provável resposta para esta questão reside no entendimento de que quanto menos abstrata for a representação mental, mais facilmente os elementos relacionados com as dimensões perceptuais e, sobretudo, entitativas, podem ser incluídos na elaboração do relato.

Os estereótipos entre a entitatividade e as teorias implícitas

Para superar as dificuldades previamente aludidas a respeito da definição e da caracterização dos estereótipos, julgamos necessário diferenciar dois níveis complementares de análise. Dado que a estereotipização envolve a desindividualização, identificaremos inicialmente os entes sociais aos quais o conceito se aplica. Neste particular, é importante identificar se os estereótipos também podem ser aplicados a outros tipos de entes, a exemplo dos agregados e dos grupos sociais. Defendemos que qualquer teoria mais abrangente deve considerar não apenas como os estereótipos são ativados e aplicados no caso das categorias sociais, mas também se interferem no julgamento e avaliação social dos agregados, dos grupos orientados para a tarefa e dos grupos de intimidade. A desindividualização, no entanto, não é uma condição suficiente para definir um estereótipo, sendo necessário que o percebedor tenha uma história a contar. Um segundo passo, portanto, exigirá que acentuemos o papel exercido por este segundo componente dos estereótipos, o que nos obrigará a discutir o papel das teorias implícitas na elaboração de relatos relativamente plausíveis e amplamente aceitos a respeito da pessoa que deixou de ser percebida como um indivíduo e passou a ser tratada como parte de uma categoria, um grupo humano ou um agregado social.

Para fazer frente às dificuldades aqui expostas, torna-se necessário apresentar os fundamentos ontológicos e metodológicos dos estudos sobre os estereótipos. Esses fundamentos serão expostos a partir de três níveis complementares de análise. O primeiro, fundamentalmente ontológico, tem por objetivo identificar a partir da discussão dos modelos teóricos individualistas e holistas quais os tipos de constructos que devem ser considerados nos estudos empíricos sobre os estereótipos. Postulamos, desde as primeiras páginas desta obra, a necessidade de substituir os modelos dicotômicos centrados na distinção entre indivíduo e contexto por um modelo mais inclusivo em que, além dos domínios anteriormente referidos, seja introduzido um terceiro domínio analítico, o plano posicional.

O segundo nível de análise se assenta na suposição de que, embora a literatura a respeito das categorias sociais seja hegemônica, parece imperativo ampliar o número de entes aos quais os estereótipos se referem, sendo importante esclarecer se eles também podem ser aplicados aos outros tipos de entes sociais, os agregados e os grupos sociais. Destacaremos, nessa perspectiva, os resultados de alguns estudos empíricos que indicam a necessidade de diferenciar os tipos de entes que emergem quando ocorre o processo de desindividualização (Llickel, Hamilton, Wieczorkowska, Lewis, Sherman, & Uhles, 2000) e enfatizaremos a necessidade de estabelecer diferenciações entre os alvos das crenças estereotipadas: os agregados, as categorias sociais naturalistas, as categoriais sociais entitativas, os grupos orientados para a tarefa e os grupos de intimidade.

O terceiro plano de análise se relaciona diretamente com as teorias implícitas adotadas para fazer os julgamentos estereotipados e se sustenta na distinção entre as teorias implícitas fundamentadas na causalidade e as teorias intencionalistas. A principal preocupação, no presente caso, reside em identificar em que medida os agentes adotam preferencialmente determinados tipos de teorias implícitas para gerar relatos a respeito dos comportamentos dos diferentes entes sociais.  

Finalmente, um quarto nível de considerações se refere à dinâmica das relações grupais manifestas durante os contatos entre agentes e alvos do julgamento, sendo imperativo considerar que as condutas dos membros dos entes sociais não são homogêneas ou indiferenciadas, sendo necessário esclarecer o tipo de evento mental que fundamenta a percepção e o julgamento social.