O período atitudinal: das descrições à metáfora da distorção (1920-1970)

A primeira fase do período atitudinal, que se estendeu entre os anos 1920 e 1940, foi marcada por uma diretriz preponderantemente otimista, fundamentada na suposição de que a oferta das informações acerca de quão injustificáveis eram as avaliações negativas seria uma boa alternativa para reduzir os preconceitos raciais e o racismo, embora esta visão fosse substituída, não muito tempo depois, por uma posição mais cautelosa em relação a este entendimento excessivamente otimista.

O otimismo inicial se fundamentava na crença, discutida no capítulo anterior, de que se fosse oferecida uma descrição relativamente acurada da distribuição da imagem negativa de determinados grupos e categorias sociais tornar-se-ia possível reconhecer quão errônea era esta visão hegemônica, e isto proporcionaria o reconhecimento da injustiça do julgamento e a posterior revisão deste estado de coisas. Esperava-se, pois, que a população, finalmente apartada das trevas da ignorância, rapidamente se daria conta do erro e abandonaria as atitudes negativas a respeito dos grupos alvo do preconceito.

Este otimismo se reflete em estudos como os publicados no início do século por dois renomados psicólogos, Louis Thurstone (1887-1955) e J. P. Guilford (1897-1987). Identifica-se nestas obras um importante esforço no sentido de utilizar procedimentos consagrados na pesquisa psicológica com o objetivo de submeter a um rigoroso escrutínio os objetos sociais, a exemplo dos alvos das avaliações preconceituosas. O estudo de Thurstone cumpriu um importante papel ao procurar estender os procedimentos da então festejada psicofísica, aplicando-os ao estudo dos grupos sociais. A tentativa se assentava na admissão de que o mesmo procedimento utilizado para comparar pares de objetos físicos, por exemplo, o peso de dois cilindros de tamanhos distintos, poderia ser adotado para a comparação de objetos sociais, no caso, as nacionalidades, raças ou religiões. A partir da comparação de pares de grupos nacionais, religiosos ou raciais foi elaborado um procedimento capaz não apenas de identificar as distâncias que os 239 participantes do estudo, todos estudantes universitários, estabeleciam entre 21 grupos nacionais e étnicos (alemães, armênios, chineses, escoceses, espanhóis, estadunidenses, franceses, gregos, hindus, ingleses, irlandeses, italianos, japoneses, judeus, mexicanos, negros, poloneses, russos, suecos, sul-americanos e turcos), como também configurar uma hierarquia das distâncias estimadas entre estes diversos grupos e um padrão de referência, os estadunidenses. Os resultados encontrados na figura 2 reproduzem os dados do estudo de Thurstone (1928).

Figura 2: medidas de discrepância relativas aos estadunidenses de 20 grupos linguísticos, nacionais ou religiosos, relatadas no estudo de Thurstone (1928)

É importante salientar que a medida de discrepância já revela uma certa preocupação com a identificação das antipatias ou, para usar uma linguagem mais moderna, das inclinações atitudinais negativas em relação aos grupos mantidos a uma maior distância social. Se o artigo de Thurstone pode ser interpretado como uma tentativa de ampliar o alcance dos procedimentos de pesquisa oriundos da psicofísica, agregando os grupos sociais aos objetos de estudo até então tradicionalmente investigados, o artigo de Guilford (1931) representou um aperfeiçoamento nos procedimentos previamente introduzidos. O principal ajuste foi a caracterização mais precisa dos objetos de avaliação, uma vez que entre os pares comparados no estudo de Thurstone foram incluídos de forma indiscriminada grupos nacionais, raciais e religiosos. Esta modificação permitiu reduzir o número de grupos avaliados para 15, ao invés dos 25 originais, ao tempo que introduziu uma certa padronização, ao evitar as comparações entre grupos nacionais, raciais e religiosos. Além disso, o número de participantes foi significativamente maior, 1096 estudantes, oriundos de sete unidades de ensino de universidades estadunidenses geograficamente dispersas e com características demográficas bem diversificadas. No que concerne aos resultados, a avaliação dos grupos não diferiu muito dos encontrados no estudo no qual se inspirou, mas Guilford incluiu uma série de aperfeiçoamentos analíticos e acenou com preocupações que ultrapassaram os limites metodológicos do estudo de Thurstone, pois não vacilou em admitir que as questões suscitadas pelas antipatias ou preconceitos em relação aos grupos sociais demandavam uma apreensão mais cuidadosa sobre as causas e razões destes julgamentos injustificados.

O estudo também introduziu uma dimensão analítica posteriormente incluída nos estudos dos estereótipos, o grau de consenso das opiniões a respeito dos membros do grupo alvo, pois, ao analisar o valor dos coeficientes de correlação encontrados entre os participantes das diversas universidades em relação aos vários grupos objeto de análise, Guilford identificou uma forte concordância nos julgamentos a respeito dos grupos alvos, o que permitiu festejar a confiabilidade da métrica e reforçar o valor dos procedimentos de pesquisa comumente utilizados na psicofísica. Guilford, exultante, não conseguir esconder o otimismo, assegurando que os resultados publicados eram relevantes não apenas numa dimensão estritamente científica, como também se revestiam de enorme relevância social, ao acenar com a expectativa de que a posse de dados de pesquisa mais precisos acenaria para um horizonte no qual seria possível planejar ações mais condizentes com os achados científicos, o que fez despontar no horizonte a crença de que a implementação de intervenções de natureza científica seria o caminho mais seguro para reduzir as antipatias injustificadas.

Se a psicofísica representou a principal fonte de influência da psicologia nos estudos iniciais sobre os estereótipos, tal como observado nos trabalhos de Thurstone e Guilford, encontramos na sociologia do início do século XX uma segunda fonte de contribuições para o desenvolvimento destes estudos, sendo particularmente marcante a obra de Emory Bogardus (1882-1973) no sentido de elaborar uma medida das atitudes relativas a indivíduos oriundos de países com perfis nacionais, raciais, culturais e religiosos diferenciados.

Esta contribuição estava subordinada à noção mais ampla de intimidade e se alicerçava no entendimento de que se os percebedores diferissem em relação ao grau de aproximação que aceitariam estabelecer com membros dos grupos externos esta medida de distância ajudaria a entender as diferenças no grau de antipatia ou preconceito em relação aos grupos submetidos a avaliação.

A medida de distância social foi formalizada em dois artigos publicados em 1925, ao qual se seguiram outros estudos consistentes com esta perspectiva. No primeiro deles, A distância social e as suas origens, a mensuração envolvia a leitura dos nomes de 36 grupos raciais ou linguísticos enumerados em uma lista apresentada em uma folha de papel mimeografada e, em seguida, a classificação destes grupos em três colunas. Na primeira deveriam ser registrados os grupos em relação aos quais os participantes professavam um grande sentimento de amizade, na segunda os grupos em relação aos quais se guardava alguma neutralidade e, por fim, numa terceira coluna, os grupos ou categorias sociais em relação aos quais os participantes experimentavam uma maior antipatia. Posteriormente, em uma tarefa adicional, a lista dos grupos alocados em cada coluna deveria ser hierarquizada, ordenando os da primeira coluna a partir do grupo considerado mais amigável até chegar ao último grupo da lista, adotando-se um procedimento semelhante em relação aos grupos incluídos da segunda coluna, ordenados a partir do critério neutralidade, assim como para os da terceira coluna, hierarquizados em termos de antipatia (Bogardus, 1925a).

Os grupos mais antipatizados foram, por ordem, os turcos, selecionados por 119 dos 248 participantes, os negros, selecionados por 79, os mulatos, selecionados por 75 e, em seguida, os japoneses (61), hindus (44), judeus alemães (42), mexicanos (41), judeus russos (41), alemães (38), chineses (30), gregos (19) e armênios (17). Uma vez que o principal interesse do estudo residiu em explicar a razão de alguns grupos serem posicionados mais à distância do que outros, a ênfase explicativa recaiu no reconhecimento da importância das tradições e das opiniões amplamente aceitas e compartilhadas na sociedade como um todo. Estas tradições tanto resultavam das experiências em primeira mão, mediante o acesso a fontes de informações como livros, noticiários, filmes e jornais, como também se originavam em relatos de terceiros, a exemplo dos pais, parentes, idosos e conhecidos. Muitas experiências às vezes se originavam em etapas muito iniciais da vida dos participantes, que não raramente confessavam o medo ou o nojo que sentiam em relação aos estrangeiros, presumindo-se que estas primeiras experiências tenham proporcionado resultados duradouros, cujos efeitos continuaram a se manifestar em eventos ulteriores da vida. Além das experiências infantis, muitos participantes relataram contatos pessoais insatisfatórios mais recentes com alguns indivíduos dos grupos alvos das atitudes negativas e, em seguida, generalizavam esta impressão para o grupo como um todo. Tais generalizações não apenas foram consideradas importantes na imposição da distância social, como também ajudam a entender um pouco mais uma dimensão muito marcante dos estereótipos, uma vez que o entendimento desta noção, desde os primórdios, também se vinculava intensamente à suposição da existência de algum mecanismo psicossocial responsável por favorecer e sustentar estas generalizações indevidas e injustificadas.

Em um outro estudo, publicado no mesmo ano, Bogardus (1925b) ajusta a medida de distância social, assemelhando-a aos procedimentos atuais de pesquisa na área. Estabelece-se uma distinção mais formalizada entre os graus de intimidade e de distância social mínimo, intermediário e máximo a serem registrados para cada um dos grupos objeto de avaliação, numa métrica de sete pontos, que se estendia numa escala que ia da admissão de um maior senso de intimidade (aceitaria que entrasse na minha família mediante o matrimônio) até o maior grau de distância social (impediria que entrasse no meu país).

Os primeiros estudos sobre a distância social não se preocuparam apenas em identificar os conteúdos das atitudes negativas, expressas ora como antipatias generalizadas, ora sob a forma de imposição de distância ou de rejeição de intimidades com membros de determinados grupos sociais, mas também acentuaram a necessidade de esquadrinhar os processos formadores destas antipatias.

A partir do exposto, urge reconhecer que desde os estudos iniciais se apresentam as três dimensões essenciais a partir das quais passam a gravitar as futuras teorias sobre os estereótipos. Uma delas, exemplificado nos trabalhos de Thurstone e Guilford, corresponde aos estudos numa tradição mais individualista, usualmente conduzidos por psicólogos sociais de formação na área da psicologia, cujo interesse fundamental residia na identificação dos mecanismos e processos psicológicos responsáveis pela ativação e aplicação dos estereótipos. A segunda tradição, representada pelos estudos de Bogardus, se encontra associada ao trabalho de psicólogos sociais de formação sociológica e se voltava para a identificação da influência exercida pelo contexto social na expressão dos estereótipos e dos preconceitos. Por fim, as teorias individualistas e contextualistas sobre os estereótipos não desconsideravam as relações entre os grupos sociais, suas tensões, acordos e desacordos, cisões e coalizões, o que permite identificar uma terceira dimensão, a do conflito, sendo possível classificar, neste particular, qualquer teoria, seja ela individualista ou contextualista, ou como uma teoria consensualista, na qual o conflito não ocupa uma posição preponderante, ou uma teoria conflitualista, aquela na qual a base conceitual se assenta no entendimento de que existem conflitos de diversas ordens na sociedade e que os estereótipos e preconceitos devem ser interpretados à luz dessas desarmonias.

É interessante notar, no entanto, que embora os psicólogos e sociólogos representassem à época as categorias profissionais mais dedicadas ao estudo destas questões, o conceito de estereótipos foi inicialmente definido por um jornalista, Walter Lippmann, no livro Opinião pública, publicado em 1922. Ainda que os tenha concebido como imagens mentais ou, mais precisamente, como fotografias que todos nós temos na cabeça, Lippmann não avançou até propor uma definição rigorosa do conceito, embora não hesitasse em caracterizar os estereótipos como aquilo que nos leva a imaginar as coisas antes de experimentá-las e como aquilo que nos impele na direção da credulidade ao nos fazer perceber a realidade social em consonância com os modelos de mundo hegemônicos na cultura em que vivemos (Lippmann, 2008).

A primazia de estudos empíricos acerca dos estereótipos, usualmente atribuída ao trabalho publicado em 1933 por Katz e Braly, deve ser reconhecida no estudo publicado por Stuart A. Rice, em 1926, no Journal of Personnel Research. O artigo Estereótipos: uma fonte de erro no julgamento do caráter humano parte da definição de Lippman de estereótipos como fotografias dentro da cabeça. Rice utilizou nove fotografias, publicadas na edição de 15 de dezembro de 1924 do diário Boston Herald, para desenhar um estudo no qual procurou evidenciar quão o julgamento era erroneamente influenciado pelas fotografias mentais disponíveis pelos participantes, 258 estudantes de graduação e 31 clientes de um estabelecimento de hotelaria. As análises conduzidas por Rice evidenciaram que as associações entre características das fotografias e as nove categorias profissionais representadas nas fotos (políticos, embaixadores, contrabandistas, sindicalistas, industriais, burocratas, congressistas etc.) não se distribuíam ao acaso, o que o levou admitir que os julgamentos acerca dos alvos do julgamento estereotipado se fundamentavam em um padrão de referência que dificilmente poderia ser considerado aleatório.

Como seria possível identificar estes padrões estereotipados a partir de uma série de fotografias? A definição de estereótipos, tal como encontrada no artigo de Rice, pode ser entendida a partir das informações registradas na figura 2.

Figura 2: identificação dos estereótipos de acordo com Rice (1926)

Nela incluímos quatro supostas fotografias, atribuídas a quatro categorias de pessoas, as alegres, as invocadas, as tristes e as brabas. Um estereótipo, nesta aproximação, pode ser definido como uma associação não casual entre um rótulo verbal e uma imagem. Se distribuirmos quatro destas fotografias para 40 pessoas e entregarmos a cada uma delas quatro cartões de papel com o rótulo de cada uma das categorias escritos em cada um deles, e pedirmos para elas associarem as quatro fotografias aos quatro rótulos verbais impressos em cada um dos cartões, teremos um total de 160 combinações entre as fotografias e os rótulos. Como dispomos de 16 opções de respostas (4 fotografias x 4 rótulos) seria esperado que se estas fotografias fossem distribuídas ao acaso entre as 16 células teríamos aproximadamente 10 respostas em cada uma das células, conforme se observa na coluna Acaso encontrada na figura 2. Isso significa dizer que se não existisse nenhuma imagem mental prévia disponível por cada um dos participantes a respeito das categorias retratadas na fotografia as respostas se distribuiriam aleatoriamente segundo essa disposição. Caso a distribuição se distanciasse deste padrão esperado ao acaso, então seria inevitável pensar na existência de um padrão psicológico, um sistema de referências, cujos efeitos seriam identificados por esta discrepância em relação à distribuição esperada por acaso.

Como definir a existência de um estereótipo a partir desta discrepância entre a sobrecarga das escolhas em determinadas células e o valor esperado ao acaso? O procedimento adotado por Rice foi obter uma medida de discrepância das células de cada linha, ou seja, dentro de cada categoria de fotos, em relação ao valor esperado por acaso no interior de cada célula. Conforme observada na linha correspondente da tabela 2, as 40 fotografias de uma pessoa alegre foram associadas com o rótulo alegre 34 vezes, ao rótulo invocado duas vezes, ao rótulo triste uma única vez e ao rótulo brabo 3 vezes. A discrepância em relação à primeira coluna foi 24, o que corresponde ao produto da subtração do valor registrado pelo valor esperado ao acaso. O mesmo raciocínio se aplica às outras três colunas, correspondendo aos valores 8, 9 e 7. O índice dos estereótipos, a primeira medida empírica deste conceito, foi obtido pelo produto da soma destas quatro medidas, 48, dividido pelo número total de fotografias, 40, correspondendo ao valor 1,20. O valor deste índice, superior ao ponto de corte 1, sugere a existência de uma associação acima da esperada entre a foto e o rótulo verbal e isto permite caracterizar a fotografia como uma representação estereotípica da categoria alegre.

No caso da fotografia de uma pessoa triste, as distribuições no interior das quatro células (9, 12, 9 e 10) estiveram sempre muito próximas do valor esperado ao acaso e a soma das diferenças, 4, muito longe do número total de fotografias avaliadas. O índice dos estereótipos se posicionou muito aquém do valor 1, sugerindo a inexistência de rótulos capazes de se associar de forma acentuada à fotografia. Por analogia, também é possível concluir a ausência de estereótipos a respeito da fotografia de uma pessoa triste, cujo índice alcançou apenas o valor de 0,50.

A fotografia de uma pessoa braba representa um caso mais curioso, pois se o índice acima de 1 indica uma representação estereotipada, o rótulo predominantemente não foi o correspondente à fotografia, pois 31 das 40 fotografias deste tipo de pessoa foram associadas com o rótulo alegre e apenas 8 ao rótulo correspondente à fotografia. No estudo original de Rice este tipo de situação ocorreu com a fotografia do embaixador russo, um bolchevique, predominantemente associado ao rótulo premier francês. Nem por isso Rice deixou de considerar a existência de um estereótipo, mesmo que o rótulo não estivesse corretamente associado à fotografia da categoria avaliada.

O método de Rice obteve um sucesso apenas relativo, quando nada por não ser imune a problemas, a exemplo da questão da representatividade das fotografias dos alvos de avaliação, da admissão de uma correspondência biunívoca entre uma imagem física e uma imagem mental e da utilização de medidas de contagem de respostas, numa época em que a pesquisa em psicologia social passara a mensurar de maneira mais sofisticada os constructos psicológicos. Em que pese estes problemas, importa acentuar que Rice antecipou um dos problemas mais controversos de pesquisa dos estereótipos, a questão do fundo de verdade das representações estereotipadas. A decisão acerca de se as crenças e representações estereotipadas correspondem a conteúdos válidos a respeito dos grupos alvos depende da aceitação da existência de um critério objetivo a ser contrastado com a imagem mental disponível pelo percebedor. Se consideramos a fotografia como um retrato verdadeiro de uma pessoa alegre e se a fotografia se associou de forma acentuada rótulos verbais que a definiram como representativa de uma pessoa alegre, então seria possível dizer que os estereótipos possuem um fundo de verdade. No caso da fotografia da pessoa enraivecida, no entanto, a situação não é a mesma, pois os rótulos preferencialmente utilizados não se referem à fotografia de uma pessoa raivosa, logo, não seria lícito aludir a um pretenso fundo de verdade dos estereótipos.

Em que pese a primazia de Rice, o estudo empírico festejado pelos estudiosos como o primeiro trabalho autenticamente empírico a respeito dos estereótipos foi o artigo publicado em 1933, por Katz e Braly, no periódico Journal of Abnormal and Social Psychology. Abandonando o uso das imagens fotográficas, Katz e Braly solicitaram que os 100 participantes, todos estudantes da Universidade de Princeton, indicassem os traços que julgavam mais típicos de pessoas de dez grupos: estadunidenses, ingleses, alemães, irlandeses, italianos, japoneses, judeus, chineses, turcos e negros. O número dos traços, listados em uma folha de papel e expressos sob a forma dos adjetivos reproduzidos no quadro 1, não era modesto, alcançando um total de 84 itens a serem avaliados.

Quadro 2: traços utilizados no estudo de Katz e Braly (1933)

Cada participante era convidado a colocar uma marca ao lado do adjetivo, indicando que aquele traço poderia ser interpretado como um atributo característico das pessoas daquele grupo, donde o nome da técnica, checklist. Considerando a dimensão da lista de adjetivos, imensa, e que os participantes diferiam nas crenças e no grau de conhecimento que dispunham a respeito das dez categorias objeto de avaliação, esperar-se-ia que a distribuição dos traços associados a cada uma das categorias fosse bastante heterogênea, o que suscitava uma série de questões a serem enfrentadas pelos pesquisadores. Qual seria a frequência de um traço para considerá-lo representativo de estereótipo? Quantos traços seriam necessários ou suficientes para definir um estereótipo? Como determinar a uniformidade inerente a cada categoria, dada a quantidade de traços a serem comparados? Considerando o grande número de traços, como estimar o grau de consenso dos participantes a respeito das crenças estereotipadas? Se fossem encontradas sobreposições nas frequências de alguns traços atribuídas a mais de uma categoria, como diferenciar os estereótipos relativas às categorias que conheciam algum grau de sobreposição? Esse conjunto de questões foi enfrentada por Katz e Braly e as soluções oferecidas inscreveram o trabalho como uma das principais referências no estudo da psicologia social dos estereótipos.

Uma vez que a lista de traços apresenta um número equilibrado de características positivas e negativas, além das neutras, a técnica permitia obter, adicionalmente, uma medida de desejabilidade das categorias, tendo sido, de imediato, identificada uma forte correlação negativa entre esta medida e a já consagrada medida de distância social. Em um segundo momento do procedimento, uma vez selecionados os adjetivos inerentes a cada grupo, os participantes foram convidados a colocar um asterisco ao lado dos cinco rótulos mais característicos dentre os selecionados em cada categoria. Uma vez que foram 100 participantes e cada deles um poderia escolher 5 entre os 84 traços, se o número de traços escolhidos fosse definido inteiramente pelo acaso, seria esperado que cada traço tivesse uma probabilidade de ser escolhido 6 por cento das vezes ((5 x 84) / 100 = 6). Uma vez que as escolhas mais frequentes para cada categoria estiveram sempre muito acima deste valor, foi possível identificar os conteúdos das representações estereotipadas para cada um dos grupos avaliados, conforme observado no quadro 3, no qual estão expostos os traços consensualmente atribuídos para cada uma das categorias avaliadas.

Quadro 3: Características consensuais atribuídas a cada um dos grupos

A partir dos dados relativos às frequências de cada traço também foi possível definir a homogeneidade ou a medida de diferenciação imposta pelo conjunto de participantes a cada um dos grupos alvos da avaliação. A obtenção do grau de homogeneidade da percepção estereotipada de cada grupo foi calculada mediante a aplicação de uma memória de cálculo em que se levou em consideração o número de traços escolhidos, 5, e o número de participantes, 100, correspondendo à formula 5 * (100/2), pela qual se obteve o valor critério de 250, sendo a homogeneidade calculada pela soma das frequências dos traços sucessivamente computados até atingir este valor critério. Conforme observado na tabela 1, a soma das frequências dos traços, cientificamente orientados, trabalhadores, impassíveis, inteligentes e metódicos alcança o valor 250, sendo estas as características estereotipadas consensualmente atribuídos aos alemães.

Tabela 1: Cálculo do grau de homogeneidade do julgamento estereotipado da categoria alemães

A aplicação do mesmo raciocínio para as demais categorias objeto de avaliação permitiu estimar o grau de homogeneidade de cada grupo e, claro, organizá-los de forma hierárquica. A figura 3 reproduz os dados do estudo de Katz e Braly e permite visualizar um contínuo que vai de um grupo com uma representação estereotípica muito homogênea, os negros, até as categorias em relação às quais o julgamento de homogeneidade não se mostra marcante, a exemplo dos chineses e, sobretudo, dos turcos.

Figura 3: Número de itens necessários para incluir metade dos traços atribuídos a cada categoria

Três dimensões fundamentais de análise dos estereótipos foram contempladas no estudo de Katz e Braly, a saber, a dimensão avaliativa, mensurada pela medida de desejabilidade dos traços, o consenso, representada pela distribuição da frequência dos traços, e a homogeneidade, representada pelo grau de diferenciação das respostas a respeito do grupo alvo. Além de introduzir estes critérios analíticos, a discussão dos resultados permitiu antecipar algumas questões decisivas nos estudos posteriores. Uma delas se referia às relações entre a homogeneidade e a desejabilidade dos traços estereotípicos. Esta situação foi particularmente marcante no caso dos dois grupos com escore mais baixos em termos de desejabilidade, os negros e os turcos. Estas duas categorias se posicionaram de forma oposta em termos da dimensão homogeneidade, tal como observado na figura 3, o que sugere não ser a homogeneidade um elemento decisivo para a estimativa na estimativa da avaliação da desejabilidade ou agratividade de uma categoria social.

Uma outra questão diz respeito às relações entre a dimensão da homogeneidade das representações estereotipadas e as atitudes preconceituosas. Se as atitudes negativas em relação aos negros estavam associadas a um alto grau de percepção de homogeneidade, o mesmo raciocínio não poderia ser aplicado aos alemães, pois ainda que tenham sido objeto de uma avaliação muito próxima a dos negros em termos de homogeneidade, sobre este último grupo recaíam muito mais avaliações negativas do que em relação aos alemães, caso fossem considerados os indicadores de desejabilidade dos traços.

A influência do estudo de Katz e Braly também se fez notar nas discussões conceituais e metodológicas posteriores. No primeiro caso, os estereótipos foram definidos como atitudes privadas, em contraposição às atitudes públicas, uma vez que estas resultavam dos padrões culturais dominantes em uma cultura e, em certo sentido, diferiam das primeiras, acolhidas como aceitáveis pelos indivíduos, mesmo que não correspondessem exatamente aos imperativos culturais.

Em relação à metodologia de pesquisa, pode ser destacado que o estudo representou uma ruptura significativa com o procedimento de investigação introduzido por Rice, pois se neste os participantes foram convidados a estabelecer associações entre rótulos verbais e fotografias, o método do checklist solicitava ao participante associar uma categoria nacional ou étnica aos adjetivos a ela atribuídos. Abandona-se um modelo de pesquisa no qual um estereótipo era interpretado como a imagem mental generalizada de um grupo, acolhendo-se uma concepção na qual ele estaria fortemente associado à linguagem, sendo representado por adjetivos que, por sua vez, podiam ser considerados os recursos linguísticos mais apropriados para representar os traços psicológicos. Mais do que uma imagem vívida e pregnante, o referente de um estereótipo passa a ser o predicativo de um conjunto de traços psicológicos relativamente abrangente a respeito de uma determinada categoria ou grupo social. Concebidos como estruturas proposicionais que o participante acreditava corresponder à descrição de um determinado grupo social, os estereótipos foram caracterizados não como uma imagem prototípica de um grupo social, mas como crenças compartilhadas em alto grau no interior de uma sociedade a respeito das características psicológicas de um dado grupo social. Neste sentido, compreende-se a afirmação de Katz e Braly de que os resultados da mensuração das atitudes em relação aos grupos raciais e nacionais deveriam ser interpretados sobretudo como atitudes em relação aos nomes destes grupos. Ficou claro, desde logo, a necessidade de estabelecer a diferenciação entre os conteúdos dos estereótipos, os traços psicológicos, expressos pelos adjetivos, e as categorias sociais, os entes sociais, os substantivos aos quais os traços se referem.

Continuidades e desdobramentos

Os desenvolvimentos posteriores imediatos nos estudos dos estereótipos continuaram subordinados a um duplo objetivo: aperfeiçoar conceitual e metodologicamente o campo de estudos e impedir a disseminação das avaliações indevidas dos grupos nacionais, étnicos e religiosos frequentemente objeto de julgamentos exagerados e injustos, embora um estudo publicado em 1931 acerca dos estereótipos de crianças com dificuldades no desenvolvimento psicológico fosse apresentado como uma contribuição para as área da psiquiatria e da psicologia clínica, ao ajudar a identificar como estas crianças elaboravam e se relacionavam com os tipos ideais, os estereótipos (Meltzer, 1931).

Afora alguns casos particulares, a maior parte das pesquisas da época se restringia a conduzir desdobramentos, sem muitas modificações, dos estudos previamente referidos. Dois trabalhos posteriormente desenvolvidos na Universidade de Princeton a partir dos instrumentos e procedimentos inicialmente adotados por Katz e Braly merecem destaque, uma vez que eles, juntos com a pesquisa original, se tornaram conhecidos como a trilogia de Princeton (Devine & Elliot, 1995; Talbot & Durrheim, 2012), em referência à universidade na qual os dados foram coletados. A comparação dos resultados obtidos em diferentes momentos permitiu avaliar não apenas a estabilidade de alguns estereótipos, que não sofreram mudanças substanciais nas três gerações de estudantes, como também os padrões de mudança que a passagem do tempo impôs a algumas representações estereotipadas.

Gilbert (1951), passados seis anos do fim da segunda grande guerra mundial e dezoito anos após a publicação original, organizou a apresentação dos resultados da primeira réplica ao estudo de Katz e Braly em torno de duas ideias fundamentais. Inicialmente chamou a atenção para uma redução substancial da frequência dos traços atribuídos aos grupos em geral, o que pareceu representar um uso muito mais parcimonioso dos estereótipos sociais, quando comparado com os resultados relatados no início da década de 30, embora não tenha deixado de acentuar que a melhor forma de entender as variações nos resultados deveria ser levando em consideração, para cada grupo alvo de julgamento, as relações entre a estabilidade e as mudanças evidenciadas tanto nas frequências dos traços psicológicos, quanto na percepção de homogeneidade dos grupos alvos. As evidências relativas à estabilidade dos estereótipos se referem ao fato de que os adjetivos mais frequentes no estudo de 1932 também o foram em 1950, enquanto as evidências concernentes às mudanças estiveram associadas a uma tendência geral de redução na frequência da maior parte dos adjetivos, algo particularmente marcante no caso dos grupos menos conhecidos ou geograficamente mais distantes.

Um dos aspectos mais marcantes da discussão dos resultados se referiu ao desconforto explícito anunciado por muitos participantes com o método do checklist e Gilbert se permitiu documentar a revolta dos participantes, reproduzindo nove comentários nos quais os estudantes protestaram em termos muito enérgicos face à tarefa que foram solicitados a realizar.

 Karlins, Coffman e Walters (1969), no terceiro estudo da trilogia, deixaram claro que os estereótipos, com a passagem do tempo e a depender do grupo, podem permanecer estáveis, aumentar ou diminuir a frequência, tal como se observa no painel A da figura 4.

Figura 4: Indicadores de frequência de traços (A) e de homogeneidade (B) na trilogia de Princeton

A frequência de atribuição de alguns traços estereotípicos dos alemães serve como exemplo desta tendência, pois se a atribuição do estereótipo nacionalista praticamente dobrou entre 1933 e 1951, esta frequência recrudesce nos dados publicados em 1969. A representação dos germânicos como cientificamente orientados, por sua vez, decresceu substancialmente entre 1933 e 1951, e continuou a cair, embora de forma menos intensa, entre esta última data e a coleta final. Os principais estereótipos relativos aos judeus conheceram uma redução entre a primeira e última coleta, embora este efeito tenha sido ainda mais notável no caso dos turcos. Este mesmo quadro de redução da frequência dos traços estereotipados, identificado no caso dos turcos e chineses, se observa acentuadamente em relação aos grupos com os quais os participantes mantinham pouco contato ou conheciam de forma superficial.

Deixando de lado a frequência dos traços e se voltando para a dimensão da homogeneidade, foi possível acentuar que se os estereótipos, tais como se apresentaram no estudo de Gilbert (1951), pareciam menos extremados, mais realistas e razoáveis que no estudo de Katz e Braly, em 1961 os resultados abandonaram este padrão, pois voltaram a se apresentar de forma semelhante aos reportados no estudo publicado em 1933. As diferenças em termos de homogeneidade dos traços atribuídos aos dez grupos alvos dos três estudos podem ser identificadas no painel B da figura 4, no qual se observa que entre a coleta realizada em 1932 e a conduzida em 1950, cinco anos depois da segunda grande guerra, observa-se uma redução substancial da percepção de homogeneidade, exceto em relação aos alemães e ingleses. Os dados publicados em 1969, entretanto, parecem retomar a configuração do início do século, apontando para uma maior homogeneização das representações estereotipadas, exceto no caso dos negros, irlandeses, japoneses e turcos.

Uma importante conclusão do último estudo da trilogia de Princeton se encaminhou no sentido de apontar que a redução dos estereótipos foi mais aparente do que real, pois estes em realidade foram substituídos por outros, menos tradicionais, é verdade, mas de qualquer modo, estereótipos. A discussão deste padrão de resultados obrigou Karlins, Coffman e Walters a estabelecerem duas distinções conceituais, uma entre os estereótipos pessoais e os sociais, e uma segunda entre os estereótipos tradicionais e os contemporâneos. No primeiro caso, os estereótipos sociais deveriam ser entendidos como normas sociais amplamente compartilhadas no interior de uma determinada sociedade, não se confundindo com as atitudes pessoalmente endossadas por cada um dos participantes do estudo. A interpretação destes resultados também os obrigou a assinalar que os estereótipos sociais negativos, duradouros e pouco sujeitos às transformações, ou seja, os estereótipos tradicionais, estavam sendo paulatinamente substituídos por expressões menos negativas, que estavam a se tornar a marca característica dos estereótipos contemporâneos. Em resumo, se os dados do estudo de Katz e Braly nos anos 1930 retratavam os estereótipos tradicionais, os dados do início dos anos 1960 refletiam as formas mais contemporâneas de expressão dos estereótipos e não deveriam ser simplesmente interpretados como indicadores de uma redução significativa das crenças estereotipadas nas sociedades modernas.  

Os resultados previamente expostos permitem retomar uma das principais observações do estudo de Gilbert (1951). É interessante salientar que ele adotou a expressão “o protesto dos Ss” para aludir à revolta de muitos participantes com o instrumento de pesquisa, pois ora relutavam, e algumas vezes se negavam, a realizar avaliações sobre os grupos nacionais e étnicos, na base do tudo ou nada, como exigido pela técnica do checklist. Esta nova sensibilidade dos participantes refletia uma crescente resistência, observada ao menos entre os estudantes universitários, a realizar julgamentos estereotipados. Gilbert tentou explicar esta transformação levando em consideração três grandes mudanças. Uma delas, mais imediata, se relacionava com a composição do corpo discente da universidade na qual os dados foram coletados, já não mais exclusivamente constituído por estudantes oriundos de camadas mais privilegiadas da sociedade. Uma segunda mudança se explicava pelo crescente interesse nas ciências sociais, tal como observado a partir da segunda grande guerra, o que proporcionou o surgimento de uma geração de estudantes não apenas bem mais informada sobre as particularidades das diferentes culturas, como também mais sofisticada em relação à discussão das diferenças étnicas e sociais. Um terceiro fator acentuado era mais amplo e se referia à crescente resistência da sociedade ao uso de estereótipos, cuja utilização era cada vez menos encorajada na indústria do entretenimento e nos meios de comunicação de massa. Além destes indicadores enfatizados por Gilbert (1951), podemos assinalar outros fatores que tornaram o estudo dos estereótipos ainda mais complexo, sendo particularmente importante acentuar tanto a intervenção presidida pela UNESCO no sentido de estudar de forma mais sistemática os estereótipos, os preconceitos e os racismos, quanto os impactos exercidos pelos movimentos civis em defesa das minorias, cujos resultados começaram a se fazer presente de forma mais acentuada a partir de meados da década de 1950.

As dúvidas sobre a viabilidade do método do checklist podem ser ilustradas no artigo publicado por Center (1951), quase vinte anos depois do estudo original de Katz e Braly, no qual ele sustenta ter demonstrado a existência de estereótipos ao identificar que estudantes da Universidade da Califórnia foram capazes de associar em uma proporção assustadoramente correta os adjetivos relacionados aos dez grupos alvos de julgamento encontrados no estudo de Katz e Braly, embora esta efetiva demonstração dos estereótipos em sala de aula não tenha sido confirmada por Hoult (1953), ao replicar o estudo em uma outra universidade, situada em uma região muito mais suscetível a aceitar representações estereotipadas do que aquela na qual residia os participantes do estudo de Centers.

Afinal, qual a importância da técnica do checklist no estudo e na pesquisa dos estereótipos? Esta é uma questão central em três artigos nos quais Ehrlich e Rinehart (1965) se dedicaram a avaliar os métodos de pesquisa dos preconceitos e estereótipos, um deles voltado especificamente a analisar os limites e as possibilidades da técnica do checklist, o recurso mais consagrado de pesquisa da área, a se considerar as reimpressões e as citações do trabalho original de Katz e Braly, bem como o grande número de estudos posteriores que ofereceram respaldo ao método e replicaram os resultados previamente obtidos.

Mesmo tendo admitido o sucesso da técnica, Ehrlich e Rinehart reconheceram que ela se defrontava com duas grandes dificuldades. A primeira aludia à necessidade de se estabelecer uma diferenciação entre ter um certo conhecimento sobre os estereótipos a respeito de um dado grupo e endossar esses estereótipos. Não seria possível imaginar, nesse caso, que alguns participantes ajustassem as suas respostas a partir do que eles supunham ser o repertório de conhecimento padrão sobre o grupo alvo na sociedade em que viviam, enquanto outros poderiam ter respondido levando em consideração o que pessoalmente admitiam ser característica do grupo alvo? A resposta para esta crítica não parecia ser particularmente difícil, exigindo apenas alguns ajustes no enunciado da pergunta, enfatizando que a resposta deveria ser o que ela ou ele, participante, pensava, e não o que era considerado, no meio em que vivia, a característica marcante do grupo alvo.

Uma segunda crítica, no entanto, era bem mais complexa, pois afetava o cerne da própria técnica do checklist ao levantar a suspeita de que as respostas dos participantes teriam sido exageradamente influenciadas pela própria estrutura do instrumento utilizado para a coleta de dados, pois este ostensivamente apresentava os 84 traços a serem avaliados e exigia dos participantes uma opção de resposta na base do tudo ou nada para cada um dos traços avaliados. Este modo de identificar os estereótipos não terminaria por exagerar os traços estereotipados atribuídos aos grupos alvo de julgamento, sendo as respostas muito mais artifícios criados pelo pesquisador do que propriamente descrições genuínas dos estereótipos acolhidos pelos participantes a respeito do grupo alvo?

Para responder a esta questão, Ehrlich e Rinehart conduziram, em 1961, uma pesquisa com uma amostra de 170 participantes, segmentados em dois grupos equivalentes em termos de características sociodemográficas. Um dos grupos respondeu a um questionário de avaliação de oito categorias sociais mediante a técnica do checklist, enquanto o segundo avaliou estas mesmas categorias mediante o uso de um questionário aberto. Os resultados, claro, evidenciaram que a técnica do checklist suscitou um número bem maior de traços associados aos grupos, respostas bem mais consensuais e muitas diferenças no conteúdo dos estereótipos quando comparadas com as respostas obtidas com o questionário aberto. Para os autores, no entanto, estas diferenças não invalidavam a utilização da técnica do checklist, mas impunham a necessidade de introduzir ajustes na metodologia. Van den Berghe (1966) se permitiu discordar do julgamento de Ehrlich e Rinehart acerca da fragilidade da técnica, ao acentuar que as duas modalidades de obtenção de dados em tela se referem a diferentes processos de evocação, o reconhecimento, no caso do checklist, e o recall, no caso do questionário aberto. As diferenças entre estas duas medidas de memória explicariam não apenas as diferenças nas quantidades de traços relatados, bem como na variabilidade das respostas. Estas diferenças, em si, dificilmente poderiam ser interpretadas como dificuldades inerentes a uma das duas técnicas, sendo aceitável reconhecer que as duas medidas encontram os seus limites no contexto específico da proposta de pesquisa na qual são utilizadas.

Ajustes e aperfeiçoamentos

Apresentaremos as formulações que podem ser interpretadas como ajustes e aperfeiçoamentos aos métodos a partir de dois critérios, as técnicas derivadas da mensuração dos estereótipos mediante a utilização de imagens, e por extensão de elementos extralinguísticos, a exemplo da técnica da fotografia anteriormente referida, e aquelas que se centram na dimensão da linguagem, como é o caso da técnica do checklist.

Dois exemplos marcantes da primeira modalidade foram os estudos publicados sequencialmente, um em 1931 e o segundo em 1933, no qual foram implementados ajustes consideráveis na técnica das fotografias, introduzida por Rice em 1926. O artigo publicado por McGill (1931), acerca dos estereótipos das professoras de ensino básico e de ensino médio, procurou dar continuidade ao método inaugurado por Rice, sem incluir mudanças dignas de nota nos procedimentos de coleta de dados, ainda que se esmerasse em oferecer algumas expressões faciais gerais ou específicos das professoras que contribuiriam para fomentar as representações estereotipadas. Os estereótipos das professoras elaborados a partir destas imagens foi bem mais negativo do que positivo, pois embora contemplassem expressões faciais como a dignidade, a reserva ou a determinação, incluíram predominantemente traços negativos como o cansaço, o asco, o tédio, o nervosismo e o azedume.

O artigo publicado por Litterer (1933), mais elaborado e metodologicamente orientado, preocupou-se em normatizar a forma e o tamanho das fotografias apresentadas aos participantes, os quais incluíram homens de negócios em acréscimo aos estudantes da pesquisa original, em ampliar o leque das categorias alvos dos julgamentos, dessa vez homens e mulheres de diversas categorias profissionais, e em padronizar as instruções lidas aos participantes. Os dois critérios de análises introduzidos por Rice, o quanto o valor obtido diferia do acaso e o índice dos estereótipos, continuaram a ser utilizados para comparar as respostas dos participantes. Os resultados asseguraram que as associações entre os rótulos e as fotografias foram claramente superiores aos valores esperados por acaso, embora o resultado não se mostrasse tão consistente entre os negociantes com o fora, desde o estudo inicial de Rice, entre os estudantes. Adicionalmente, é importante salientar que o estudo de Litterer, ao contrário do original, adotou o recurso estatístico do teste do qui-quadrado para estimar se os resultados encontrados em cada célula resultaram da mera distribuição aleatória ou se de fato refletiram um efeito genuíno dos estereótipos.

A apresentação de fotografias como um meio para identificar características das pessoas nelas retratadas permaneceu um recurso frequente na pesquisa dos estereótipos, quase sempre associado à identificação do conteúdo dos estereótipos, sendo particularmente interessante a contribuição de Gahagan (1933), publicada no mesmo ano do estudo de Litterer. O trabalho, também dedicado à identificação das ocupações a partir do julgamento de fotografias, importa não tanto pelos resultados enquanto tais, pois se estes sugeriram uma certa capacidade dos participantes em diferenciar as quatro categorias objeto de análise com uma certa acurácia, o artigo se notabiliza por assinalar os critérios utilizados pelos participantes para conduzir a identificação das fotografias das categorias ocupacionais incluídas no estudo, os cientistas, os escritores, os políticos e os negociantes. Ao olharem às fotografias, em que se inspiraram os participantes para diferenciar as quatro categorias sociais?

a) alguns julgamentos se fundamentaram em semelhanças com pessoas cujas fotografias apareciam nos jornais e publicações da época;

b) outros julgamentos foram elaborados com base em inferências fisiognômicas e frenológicas;

c) algumas foram identificadas a partir das expressões faciais dos participantes (por exemplo, cientistas foram caracterizados como introvertidos, escritores como sensíveis, políticos como beligerantes e negociantes como durões); e

d) uma última base adotada para o julgamento das fotografias foi denominada pelo autor impressão estereotípica geral de cada uma das categorias.

Assinale-se, no entanto, que outros recursos além dos conteúdos imagéticos foram utilizados para a identificação de traços e representações estereotipadas. Pay e Middletown (1939) investigaram em que medida os participantes foram capazes de identificar as ocupações a partir das vozes dos locutores e ofereceram evidências a respeito de como os elementos acústicos interferem na probabilidade de identificação das categorias profissionais. Se era mais fácil para os participantes, por exemplo, identificarem pela voz um pregador religioso ou um músico do que um motorista de táxi, foi possível concluir que os modos de fala de determinadas categorias profissionais são mais facilmente reconhecidos, donde supor que algumas categorias sociais trazem nas emissões vocais características que as tornam mais facilmente estereotipáveis e, numa primeira aproximação ao caráter utilitário das pesquisas sobre os estereótipos, foi possível acentuar o caráter prático desta descoberta para o trabalho profissional de radialistas e de diretores de dramas radiofônicos, pois o uso de vozes estereotipadas aumentaria o efeito da credibilidade do personagem nas audiências das emissoras de rádio.

O estudo de Gregory (1941) se destacou não por acentuar os aspectos práticos dos estereótipos, mas sim pela preocupação em investigar os processos de estereotipização, em particular, as reações emocionais dos participantes às fotografias e, adicionalmente, explicar como conteúdos emocionalmente carregados contribuem para identificar as nacionalidades das pessoas retratadas em cada uma das fotos. Conduzido em 1939, o estudo foi estruturado em três etapas, com um intervalo de um mês entre cada uma delas. No primeiro momento, apresentou-se aos 50 participantes, todos alunos do experimentador, uma lista com 15 nacionalidades, sendo solicitado a cada um deles avaliar, numa escala de nove pontos, o grau de favorabilidade – desfavorabilidade relativo a cada uma das nacionalidades. Na segunda etapa foram apresentadas 16 fotografias, de pessoas de 15 nacionalidades distintas, embora não tivesse sido feita qualquer menção às nacionalidades das pessoas retratadas nessas fotografias e muito menos à lista de nacionalidades avaliadas no mês anterior. Os participantes voltaram a responder uma escala de nove pontos, desta vez avaliando o grau de favorabilidade – desfavorabilidade de cada uma das fotografias. Como os participantes foram convidados, após a avaliação das fotografias, a justificar as respostas que apresentaram, um procedimento que permitiu obter três medidas: a avaliação média do grau de favorabilidade de cada fotografia, a avaliação de cada fotografia realizada por cada um dos participantes e, por fim, os traços e demais elementos utilizados pelos participantes para conduzir a avaliação de cada uma das fotografias. Na terceira etapa, os participantes se depararam com as mesmas 16 fotografias e com a mesma lista das 15 nacionalidades, sendo a tarefa experimental associar as fotografias aos rótulos das nacionalidades. Deste procedimento foram derivadas mais duas medidas, o registro das identificações corretas e incorretas obtida por cada um dos participantes e a distribuição das identificações corretas e incorretas relativas a cada uma das fotografias.

Ficou claro que os participantes estiveram longe de conseguir identificar de forma correta as nacionalidades de cada uma das fotografias na terceira etapa do experimento, uma vez que das 800 tentativas apenas 59 fotografias foram corretamente associadas às nacionalidades, o que foi justificado pelo autor do estudo pelo fato das fotografias não representarem exemplos prototípicos de representantes de cada uma das nacionalidades. A ausência de identificação das fotografias, mais do que ser lamentada, foi definida como uma virtude para a demonstração do impacto das reações afetivas na avaliação das fotos, pois se fossem encontradas associações inequívocas entre as imagens e os conteúdos estereotípicos, o impacto dos afetos na avaliação dos estereótipos não poderia ser demonstrado.

Os resultados, ademais, apresentaram evidências de que as nacionalidades se distribuíram ao longo do contínuo favorabilidade – desfavorabilidade, sendo os resultados não muito diferentes dos publicados previamente por Bogardus, Thurstone e Guilford. Da mesma forma, ficou claro que as fotografias também se distribuíam ao longo de um contínuo de afetividade, oscilando entre 3,02, a mais mal avaliada, até o escore de 7,04, a que alcançou melhor avaliação. Com base nestas evidências, foi possível assinalar que nem as fotografias foram corretamente associadas e nem os estereótipos contribuíram de maneira significativa para a correta identificação das nacionalidades, mas, em contrapartida, foram encontrados indicadores de que os participantes exprimiram reações afetivas para as fotografias, assim como demonstraram preconceitos ao serem convidados a julgar as nacionalidades. Em que medida, afinal, seria possível estimar se as reações afetivas eram unicamente suscitadas pelas fotografias ou se a tentativa de identificar as nacionalidades de cada uma delas julgava um papel preponderante no julgamento das fotografias?

O procedimento adotado para responder a esta questão, estimar o coeficiente de correlação entre a reação afetiva a cada foto e a reação a nacionalidade que o participante supôs ser representativa daquela foto, evidenciou que as correlações entre as medidas quase sempre alcançaram valores muito altos. As correlações, todas estatisticamente significativas, no entanto, não ajudavam a responder à questão, pois como bem assinalou Gregory, duas alternativas de respostas poderiam ser igualmente formuladas, uma vez que os afetos poderiam ser suscitados ou pela imagem da pessoa retratada na fotografia ou pelo rótulo da nacionalidade, conforme representado na figura 5.

Figura 5: alternativas de resposta sobre as relações entre os afetos, os rótulos das nacionalidades e as fotografias

Gregory, após entrevistar sistematicamente os participantes com a finalidade de analisar, mediante o método introspectivo, os processos envolvidos durante o julgamento, sustentou ter encontrado evidências favoráveis à tese de que a avaliação da nacionalidade foi muito mais influenciada pela reação afetiva à pessoa representada na foto do que a avaliação da foto foi determinada pelos preconceitos ostentados pelos participantes em relação à nacionalidade. Ao discutir as implicações dos resultados acentuou que se a habilidade de associar corretamente uma nacionalidade a uma fotografia não foi claramente demonstrada, foi possível afirmar que os participantes tenderam a associar as fotografias que obtiveram uma melhor avaliação às nacionalidades que mais admiravam. Este entendimento se sustentou na suposição de que os participantes realizaram em separado duas avaliações afetivas, uma a respeito das características da pessoa apresentada na fotografia, e uma segunda a respeito dos rótulos das nacionalidades.

As implicações deste resultado para o estudo dos estereótipos não podem ser desprezadas, pois se os estereótipos tradicionalmente eram vistos como conteúdos perceptuais ou ideativos comumente atribuídos a determinadas categorias de pessoas, tornava-se urgente considerar o impacto das respostas afetivas das pessoas a estes conteúdos mais abstratos e, consequentemente, reconhecer a necessidade de avaliar o impacto dos conteúdos emocionais na expressão dos estereótipos. Com base nessa conclusão é possível compreender a admoestação de Gregory (1941) sobre os programas de redução dos estereótipos. Parecia-lhe necessário repensá-los, pois se os programas de intervenção até então se fundamentavam simplesmente nas tentativas de mudar os conteúdos ideacionais, não seria mais plausível, à luz das novas evidências, implementar novas modalidades de intervenção destinadas a gerar mudanças nos componentes afetivos e emocionais dos estereótipos?

Conforme identificado nos estudos previamente arrolados, a natureza da associação entre as fotografias e os rótulos verbais ocupava um papel preponderante na discussão do método das fotografias, mas em que medida este julgamento envolvia reflexões a respeito das características estereotípicas das categorias sociais supostamente associadas às fotografias? Secord, Beavan Jr. e Dukes (1958) conduziram um estudo no qual avaliaram o impacto dos estereótipos ocupacionais e fisionômicos na percepção de fotografias de faces humanas. Ainda que os resultados não tenham mostrado inequivocamente que as características psicológicas podiam ser inferidas a partir da avaliação de fotografias, o estudo introduziu um importante acréscimo ao método de pesquisa baseado em fotografias ao estabelecer um desenho experimental no qual foram agregados distintos parâmetros comparativos. Foram constituídos seis grupos de comparação, dos quais os participantes dos três primeiros grupos experimentais avaliaram seis itens, compostos por uma combinação das fotografias com os rótulos verbais das categorias. Outros participantes foram alocados a três grupos de controle, o primeiro, no qual apenas as fotografias, sem qualquer informação sobre os rótulos, foram julgadas, um segundo, na qual apenas os rótulos verbais, sem as fotografias, foram avaliados e um terceiro, apresentado como um estudo de percepção extrassensorial, no qual os traços estereotípicos foram avaliados na ausência de fotografias ou de rótulos verbais.

Razran (1950), numa outra derivação do método pictórico, evidenciou, por exemplo, que as fotografias eram avaliadas de forma diferenciada caso tivessem sido acompanhadas ou não por rótulos verbais com os sobrenomes etnicamente relevantes das pessoas nelas retratadas. Vários estudos evidenciaram este mesmo princípio de distorção do julgamento proporcionado pelos filtros mentais, sendo apresentadas evidências de que os julgamentos sociais sofriam o efeito da língua materna (Lamber, Hodgson, Gardner & Fillenbaum, 1960) e do sotaque do falante (Anisfeld, Bogo & Lambert, 1962). Nesta mesma perspectiva, Harari e McDavid (1973) apresentaram indicadores de que o julgamento da qualidade de um ensaio por parte de professores pode ser distorcido pelo nome do autor, uma vez que os ensaios escritos por alunos com nomes comuns, populares e atrativos foram considerados mais positivos do que os escritos por alunos com nomes raros, pouco comuns ou não atrativos, sendo este resultado mais pronunciado em professores mais experientes do que naqueles com um menor tirocínio profissional.

As imagens, apresentadas sob a forma de fotografias, não foram os únicos elementos não verbais aproveitados na pesquisa dos estereótipos. Numa época na qual o rádio era o meio de comunicação de massa de maior alcance e difusão, Allport e Cantrill (1934) adotaram a diferenciação conceitual entre a voz e o discurso para investigar a representação algo anedótica relacionada com as frustrações de muitos ouvintes quando contrastavam as maravilhosas vozes que ouviam nas transmissões radiofônicas com a aparência física dos locutores, não tão avassaladora no plano estético quanto a voz os fazia acreditar. Numa tentativa de pesquisar em que medida os ouvintes eram capazes de identificar características do falante apenas por meio de elementos vinculados à voz – tom, timbre, sotaques, modulação – conduziram oito experimentos, seis deles no Laboratório de Psicologia da Universidade Harvard, nos quais procuraram avaliar em que medida os participantes, 587 no total, foram capazes de identificar algumas características físicas, psicológicas e sociais dos locutores a partir de informações unicamente provenientes das emissões vocais.

Dentre as conclusões gerais do estudo, interessam mais diretamente à pesquisa dos estereótipos a primeira, a quarta e a sétima. A primeira, mais geral, asseverava que os participantes foram capazes de identificar as características externas (aparência, idade, altura, complexão física etc.) e internas (valores, orientação política, características de personalidade) do locutor simplesmente mediante a análise das emissões vocais. A quarta conclusão sugeriu que os estereótipos desempenharam um importante papel durante o julgamento, sobretudo porque os participantes ganharam em acurácia quando foram capazes de criar uma impressão organizada dos traços psicológicos atribuídos ao locutor. A sétima conclusão, decorrente da demonstração anterior, sustentava que se as pistas vocais eram capazes de ativar os estereótipos e estes estavam associados a um conjunto organizado de traços psicológicos, então seria lícito admitir que a locução sonora permitiria identificar algumas características psicológicas do emissor, atribuindo-se aos estereótipos disponíveis pelo percebedor um papel decisivo na execução desta tarefa.

A validade ecológica nunca deixou de representar uma preocupação marcante dos estudiosos dos estereótipos. Após reconhecerem que a apresentação de estímulos apresentados sob a forma de listas de adjetivos, sentenças ou imagens fotográficas estáticas era uma estratégia que pouco se assemelhava às condições nas quais os percebedores conduziam os julgamentos estereotipados, Tajfel, Sheikh e Gardner (1964) desenharam um estudo no qual os alvos de um julgamento estereotipado, indianos e canadenses, aparecem em filmes no quais, durante cerca de oito minutos, expõem os seus interesses sobre temas como cinema ou livros. A hipótese básica era a de que durante o julgamento estereotipado os percebedores tenderiam a minimizar as diferenças entre os traços dos membros de uma mesma categoria, o que imporia uma menor diferenciação nos traços que se supunham característicos dos grupos estereotipados. Os resultados não apenas corroboraram a hipótese, como permitiram identificar diferenças na percepção de similaridade relativas aos membros do exogrupo, muito mais acentuada no caso do julgamento dos indianos, uma vez que a amostra era constituída por participantes canadenses, do que em relação ao endogrupo, uma vez que os participantes também realizaram julgamentos sobre os estereótipos dos próprios canadenses.

Não apenas o método das fotografias e os seus correlatos, como também o método do checklist e as suas derivações, foram objeto de aperfeiçoamentos. Uma vez que uma das manifestações mais evidentes no plano da metodologia da pesquisa dos estereótipos, foi a clara objeção expressa por muitos participantes em caracterizar os alvos de julgamento mediante a escolha da resposta a partir de uma lista de adjetivos, alguns pesquisadores procuraram amenizar as críticas por meio da inclusão de aperfeiçoamentos nos protocolos originais, sendo a mais importante a avaliação dos estereótipos a partir de um conjunto de sentenças, o que representou um distanciamento de uma tradição e estudos centrada na avaliação das listas de adjetivos.

Publicado em 1935, o artigo O estudo de alguns fatores sociais na percepção, Muzafer Sherif (1906-1988) antecipou esta tendência ao apresentar três experimentos, concebidos em conjunto com os psicólogos Gordon Allport (1897-1967) e Hadley Cantrill (1906-1969), no qual sugere que da mesma forma que fatores externos interferem na percepção das ilusões e das figuras ambíguas, os fatores internos, a exemplo dos desejos, impulsos e motivações, influenciam a percepção e o julgamento dos objetos sociais. Os estereótipos foram definidos como quadros de referências internos ao percebedor, os quais desempenhavam um papel preponderante na percepção e no julgamento social.

Para demonstrar este efeito foram desenvolvidos três experimentos, dois nos Estados Unidos e um na Turquia, com a finalidade de evidenciar que a atribuição de prestígio associada ao nome de alguns escritores era capaz de interferir no julgamento da qualidade de uma passagem literária. Na etapa inicial da pesquisa os participantes inicialmente ordenaram, em termos de preferência, dezesseis autores, selecionados a partir de uma lista composta por romancistas e poetas do quilate de Joseph Conrad, Charles Dickens, Mark Twain, Leon Tolstói, Robert Louis Stevenson e Walt Whitman. Um mês depois estes mesmos participantes receberam uma nova lista, desta vez com dezesseis passagens compostas por duas a três linhas de texto, todas originárias da pena de um mesmo autor e equalizadas em termos de qualidade literária por um comitê de três juízes. A cada uma destas passagens textuais foi associada ao nome de cada um dos dezesseis autores, consistindo a tarefa experimental em ordenar as dezesseis passagens em termos da qualidade literária do texto. Após o ordenamento, os participantes realizaram um julgamento introspectivo no qual foram convidados a refletir se a preferência em relação aos autores, tal como solicitada no mês anterior, exercera algum impacto no julgamento atual.

Os resultados evidenciaram uma forte correlação entre a escolha prévia do autor, ou seja, a representação estereotipada do prestígio de determinados autores, e o julgamento posterior da qualidade literária do texto. As correlações entre a ordem de preferência dos autores e a avaliação da qualidade do texto no caso dos participantes que não tentaram controlar o efeito da escolha prévia oscilaram entre .45 e .53, no caso dos 58 participantes de um primeiro estudo, entre .45 e .50, em um segundo estudo, e entre .31 e .45, em um terceiro estudo conduzido dois anos após o primeiro. Os participantes que procuraram evitar a influência da escolha prévia no julgamento posterior apresentaram, em contrapartida, um coeficiente de correlação entre preferência pelos autores e a avaliação da qualidade do texto próximo a zero nos três estudos, o que permitiu a Sherif (1935) acentuar, a partir dos comentários dos participantes que se sentiram desconfortáveis com os nomes dos autores ao lado do texto a ser avaliado, o quão os pontos de referências, ou seja, os estereótipos, poderiam ser responsabilizados pelo fortalecimento dos vieses de julgamento.

Se o estudo anterior retrata uma tendência que se tornara comum em muitos estudos sobre os estereótipos, a de replicar a pesquisa mediante o uso de um mesmo instrumento com painéis distintos de respondentes, a conferência brindada por Kerr perante a Sociedade Britânica de Psicologia, em plena segunda grande guerra e posteriormente publicada no The Sociological Review, retrata uma segunda tendência que começa a tomar corpo nas pesquisas sobre o tema, a de utilizar instrumentos diferentes, aplicáveis aos mesmos participantes, e a posterior análise das relações entre os dados obtidos com cada uma das técnicas de obtenção de dados. Kerr (1943) aponta inicialmente a importância prática de estudar os estereótipos, entendendo-os como decisivos para melhorar a compreensão mútua entre as nações, para, em seguida, acentuar a importância científica do conceito, concebendo-o como um recurso decisivo para reduzir as concepções errôneas a respeito dos grupos sociais com os quais os contatos são raros ou inexistentes. Um estereótipo, usualmente expresso pelo uso de frases padrão, foi definido como uma configuração mental rígida, ativada sobretudo nas circunstâncias em que o percebedor se defrontava com situações incomuns ou frente a grupos sociais em relações aos quais não detinha conhecimento para conduzir um julgamento acurado. É interessante notar a formulação do esboço de uma teoria sobre os estereótipos, pois, ao diferenciá-los das atitudes, Kerr concebe estas últimas como estruturas mais moldáveis e sujeitas às mudanças decorrentes da passagem do tempo, contrapondo-as aos estereótipos, representadas como como estruturas mais rígidas, uma espécie de esqueleto apto a oferecer sustentação às atitudes preconceituosas. Esta metáfora dos estereótipos como ossatura estava associada à sugestão de que da mesma forma que a ruptura de um osso requer a aplicação da força bruta, a mudança dos estereótipos deveria ocorrer de forma rápida e decisiva, em oposição à tese de que eles poderiam sofrer mudanças lentas com a passagem do tempo, algo mais característico das atitudes.

Por se tratar de um esqueleto, uma estrutura interna rígida, os estereótipos deveriam ser investigados mediante o uso de estratégias que facilitassem o acesso a esta estrutura interior, donde a utilização de procedimentos “experimentais”. A escolha recaiu nos métodos projetivos, envolvendo não apenas um teste projetivo simples, no qual se indagava diretamente aos participantes, como também o uso de um teste projetivo controlado, usado para confirmar as respostas às indagações conduzidas com o uso da primeira técnica, além da utilização de um outro procedimento no qual os participantes, 85 ingleses, escolhiam os adjetivos aplicáveis aos grupos alvos do julgamento estereotipado, no caso, os estadunidenses e soviéticos. O quadro 4 apresenta algumas das questões adotadas por Kerr para identificar a suposta estrutura oculta dos estereótipos.

Quadro 4: questões incluídas no estudo de Kerr (1943)

Após analisar as respostas para as questões, Kerr apresentou não apenas uma descrição dos conteúdos dos estereótipos acolhidos pelos ingleses sobre estadunidenses e soviéticos, como concluiu que as descrições apresentadas pelos participantes se fundamentaram em uma configuração mental estereotipada, resultante sobretudo da leitura de livros e jornais e da apreciação de obras cinematográficos. No que concerne à mudança e à estabilidade dos estereótipos, admitiu que provavelmente sofriam mudanças mais abruptas do que lentas. Em relação ao conteúdo das crenças estereotipadas, reconheceu a inexistência de diferenças significativas nos estereótipos acolhidos pelas distintas categorias de participantes. No que tange ao impacto da familiaridade com o grupo alvo do julgamento, admitiu que os estereótipos conheceram um discreto aumento à medida que foram estabelecidos contatos com as pessoas das outras nacionalidades. A conclusão final do estudo de Kerr se voltou para a identificação da dimensão funcional dos estereótipos, pois admitiu que estes se fundamentavam sobretudo em imagens mentais que contribuíam para reduzir a desconforto e a ansiedade diante das incertezas de um mundo em conflito. Esta conclusão acentua uma preocupação que começara a ganhar corpo no campo de estudo dos estereótipos, a da passagem das descrições para a teorização. No artigo, este esforço podia ser identificado na adoção de teorias importadas da psicologia geral e da psicologia social, enfatizando-se sobretudo o conceito de necessidade de closura, tal como apareceu na psicologia da gestalt alemã e foi posteriormente desenvolvida por Kurt Lewin e colaboradores, no que passou a ser denominado de efeito Zeigarnik, no qual se postula uma tendência psicológica a procurar finalizar tarefas inconclusas.

Das descrições à procura de uma teoria

Se o aperfeiçoamento dos métodos de coleta de dados oferecia a tentação de levar os estudiosos a acreditarem que muitos problemas de confiabilidade dos estudos iniciais estavam sendo atacados com vigor, este movimento suscitou dois outros tipos de preocupações cada vez mais evidentes com a frequente publicação de novos relatos de pesquisas. Uma delas se relacionava com a generalização dos resultados, que embora consistentes sob muitos aspectos, apresentavam diferenças impossíveis de serem escamoteadas. Esta preocupação se refletiu na publicação de estudos nos quais se enfatizava o efeito da passagem do tempo no conteúdo das crenças estereotipadas, assim como o estabelecimento de novas direções de pesquisa, passíveis de serem conduzidas a partir do desenvolvimento de técnicas inovadoras de análises estatísticas, nos quais os estereótipos eram analisados em função da origem geográfica, da filiação étnica e racial ou da idade dos participantes. Estes novos estudos impuseram um cenário interpretativo muito mais complexo do que o entrevisto até então, ainda que não evidenciassem padrões de resultados muito distintos dos obtidos até então. A segunda preocupação se relacionava com uma certa compreensão por parte dos pesquisadores de que a crença inicial de que a difusão das representações estereotipadas iria aos poucos fazer com que o público substituísse essa compreensão errônea por uma nova forma de apreensão da realidade dos diversos grupos sociais mais compatível com a realidade se mostrou pouco plausível. A pura e simples oferta de informações como meio de diluir os estereótipos e de reduzir as atitudes preconceituosas não mais parecia se justificar, sendo necessário buscar teorias psicológicas e sociológicas capazes de melhor explicar a persistência dos estereótipos e das atitudes preconceituosas.

Conforme assinalamos, uma das questões mais importantes da pesquisa dos estereótipos entre as décadas de 1930 e 1950 se relacionava com a avaliação do impacto dos eventos históricos. Buscava-se estimar em que medida os estereótipos estavam sujeitos a sofrer mudanças em decorrência da passagem do tempo. Meenes (1943), em plena Segunda Grande Guerra, reportou um estudo no qual comparou, usando a mesma lista de adjetivos e os mesmos grupos alvos da pesquisa de Katz e Braly, os estereótipos acolhidos por estudantes negros antes (1935) e depois (1942) do ataque japonês à base americana de Pearl Harbor. Os resultados evidenciaram alguma flutuação na frequência da atribuição a alguns traços, sugerindo que as diferenças nas respostas refletiam o impacto de acontecimentos históricos importantes. Os alemães, por exemplo, inicialmente vistos como cientificamente orientados, inteligentes e trabalhadores, com o andamento da segunda grande guerra, foram retratados como vingativos, cruéis e traiçoeiros. Os chineses, representados de uma forma bem mais negativas do que os japoneses em um primeiro momento, foram avaliados de maneira bem mais positiva na segunda medida, enquanto os japoneses receberam uma avaliação mais negativa em 1942 do que o foram no ano de 1935.

Nesta mesma perspectiva, Child e Doob (1943) conduziram um estudo de medidas repetidas com a finalidade de acentuar o quão o julgamento estereotipado refletia mais as ações de entidades políticas autônomas do que o conhecimento dos participantes a respeito das características dos habitantes dos países alvos de julgamento. Eles solicitaram, em 1938, e posteriormente em 1940, aos participantes que respondessem a um mesmo questionário, o qual continha 21 adjetivos, avaliados pelo grau de certeza com que atribuíam ou não atribuíam alguns características aos habitantes de oito países, o seu próprio, denominado América, dois considerados amigáveis (Inglaterra e França), quatro pelos quais, em função da guerra e do regime político, era esperado que não nutrissem simpatias (Alemanha, Itália, Japão e Rússia) e um sobre o qual não deveria ser esperada nenhuma expectativa em particular (Polônia). Com base na suposição que os estereótipos poderiam ser entendidos como uma função tanto das atitudes em relação ao país alvo do julgamento, quanto dos traços que se supõe inerente aos naturais do país objeto de avaliação, concluíram que os conteúdos estereotipados permaneceram estáveis com a passagem do tempo. Mais importante, forneceram evidências de que os traços mais positivos foram atribuídos aos habitantes dos países amigáveis e isto independeu dos participantes considerarem que esses mesmos traços também eram aplicáveis a eles mesmos. Adicionalmente, ofereceram indicadores de que os participantes tendiam a considerar que os traços negativos que não admitiam em si mesmos retratavam as características dos habitantes dos países menos amigáveis.              

Após o final da guerra a comparação dos conteúdos dos estereótipos registrados em distintos contextos geográficos e culturais se tornou objeto de interesse cada vez mais acentuado por parte de psicólogos e, sobretudo, dos sociólogos. Dois trabalhos, publicados por E. Terry Prothro e colaboradores, foram dedicados ao estudo dos estereótipos entre estudantes universitários sobre alemães, estadunidenses, chineses, franceses, ingleses, irlandeses, italianos, japoneses, libaneses, russos e turcos (Prothro & Melikian, 1954) e negociantes (Prothro, 1954b). Mediante o uso de uma técnica distinta ao checklist, os participantes escreverem em um espaço apropriado os adjetivos que julgavam melhor caracterizar os grupos alvos de julgamento. Os resultados destes dois estudos, com amostras provenientes de populações distintas, sugeriram padrões de estereotipização bastante semelhantes, o que reduzia, em certa medida, o alcance das restrições apontadas por pesquisadores que adotavam uma posição crítica em relação à condução de estudos sobre os estereótipos com amostras de estudantes universitários. Numa perspectiva metodológica diversa, Prothro (1954a) utilizou uma técnica supostamente projetiva, a de completar a sentença “ A América é uma país onde …” para estudar os estereótipos da América (o que nos parece impróprio, pois estereótipos se referem a categorias ou grupos sociais e não a países) e o dos americanos, tais como acolhidas por 104 garotas libaneses. Os resultados indicaram um predomínio de características positivas, ainda que as participantes de idade um pouco mais avançada acentuassem mais as características negativas do que aquelas mais jovens.

Em um outro contexto geográfico, o estudo publicado por Bastide e Van Den Berghe (1957), também subordinado à iniciativa da UNESCO previamente referida, foi dedicado ao estudo das relações entre os estereótipos, as normas sociais e os comportamentos interraciais entre brasileiros de classe média residentes na cidade de São Paulo. A partir da resposta de 580 participantes brancos, estudantes em vários colégios da capital paulista, foi possível identificar um amplo acolhimento dos estereótipos, uma vez que 75% dos participantes reportaram no mínimo 23 características como traços estereotípicos aplicáveis aos negros, ao tempo em que se identificou que os estereótipos atribuídos aos denominados mulatos foram um pouco mais positivos do que os relativos aos negros. Traços como a falta de higiene, com um índice de concordância de 91%, falta de atratividade física, com 87%, acolhimento de crenças supersticiosas, com 80% de aceitação, ausência de senso de moralidade, com 76% de aceitação e preguiça, com 72%, entre outros traços negativos, permitiram configurar um retrato bastante negativo dos estereótipos dos negros acolhidos pelos estudantes brancos da classe média paulistana. O julgamento dos estereótipos de negros e mulatos se mostrou pouco influenciado por variáveis sociodemográficas, a exemplo da idade, sexo, renda familiar ou origem nacional dos pais, favorecendo à formulação de hipóteses a respeito de “duas escolas de pensamento”, dois sistemas de crenças, acerca das relações interraciais no Brasil, uma primeira mais favorável ao mulato, com uma certa inclinação a aceitar a miscigenação, e uma outra mais favorável aos negros, fundamentada na tese da pureza racial. O estudo, adicionalmente, procurou identificar relações teóricas entre os estereótipos e as normas sociais e apontou que se em algumas dimensões os respondentes acataram uma posição de tolerância e aceitação das relações interraciais, em outros tópicos da investigação, a exemplo da segregação ou os relacionamentos emocionais, a intolerância foi a marca registrada das respostas.

Diab (1962), além de revisar uma série de pesquisas sobre os estereótipos conduzidas no Oriente Médio e em outras partes do mundo, apresentou um estudo relativo à persistência e à generalização dos estereótipos nacionais e como estes se encontravam relacionados com o conceito de grupo de referência. Participaram do estudo, cuja coleta de dados ocorreu em 1958, 106 estudantes árabes, matriculadas na Universidade Americana de Beirute, no Líbano, dos quais 60 eram muçulmanos e 46 cristãos, 61 eram não-libaneses e 45 libaneses. A técnica de coleta de dados foi uma versão levemente modificada da técnica do checklist, na qual os grupos alvos de julgamento foram alemães, italianos, negros, irlandeses, ingleses, judeus, americanos, chineses, gregos, turcos, russos, franceses e libaneses.

Os resultados, se comparados com os dados obtidos em um estudo publicado dez anos antes, evidenciaram a persistência dos estereótipos, exceto no que concerne a uma oscilação na direção da negatividade na avaliação de franceses e turcos. Os demais grupos foram objeto de um padrão de respostas muito semelhantes aos resultados anteriormente publicados. O principal interesse do artigo, no entanto, cingiu-se à ênfase atribuída à importância do grupo de referência dos participantes como critério para a avaliação das crenças estereotipadas. Análises conduzidas com base nos dois critérios adotados para diferenciar os grupos de referência, as afiliações religiosas e as políticas, permitiram identificar distintos padrões de resposta na avaliação dos grupos alvos entre os participantes muçulmanos e cristãos, assim como entre os estudantes que se posicionaram politicamente como favoráveis ou desfavoráveis às políticas adotadas pela então República Árabe Unida.

Uma outra dimensão de análise se relacionava com o grau de conhecimento dos participantes a respeito dos membros dos grupos estereotipados. Publicado no final da década de 1950, o artigo Estereótipos nacionais e contatos com os estrangeiros teve por objetivo identificar as relações entre os estereótipos mutuamente acolhidos por franceses e alemães e entender como estes foram influenciados por diferentes tipos de contato, a exemplo de terem visitado, serem fluentes na língua ou terem algum conhecido ou parente nascido no outro país (Reigrotski & Anderson, 1959/60). Para tal, foram utilizadas três estratégias de obtenção de dados: 1) identificar as características a partir de uma lista de adjetivos, previamente selecionados com base nos itens originais de Katz e Braly; 2) descrever com as próprias palavras o que supunha ser a melhor descrição de cada uma das nacionalidades submetidas a avaliação, uma vez que o estudo ainda considerava os estereótipos sobre belgas franceses e flamengos e italianos e 3) identificar, entre os grupos alvos do julgamento, aqueles em relação aos quais supostamente seriam capazes de estabelecer padrões mais fáceis e difíceis de relacionamento.

As evidências indicaram não apenas que franceses e alemães acolhiam auto e hetero estereótipos, como também ofereceram indicações de que o aumento na intensidade do contato impeliu o participante a inflacionar as avaliações positivas a respeito do exogrupo, ao mesmo tempo em que se tornavam mais críticos em relação ao próprio grupo. Um outro resultado destacado se referiu aos estereótipos acolhidos a respeito do próprio grupo,   que pareceram sofrer uma forte influência da visão estereotipada ostentada pelos membros do exogrupo. Uma terceira evidência contemplou o impacto dos fatores sociodemográficos na expressão dos estereótipos, pois se variáveis como o sexo ou a idade não pareceram interferir no julgamento, foi possível identificar quão a opinião favorável em relação ao exogrupo se correlacionou positivamente om o nível de escolaridade do participante.

Zaid e Ahmed (1958) introduziram alguns aperfeiçoamentos no método do checklist, particularmente mediante a obtenção de medidas comparativas entre as nacionalidades alvo do julgamento. Os dados, obtidos no Paquistão, permitiram refletir quão os estereótipos estavam sujeitos à influência das relações estabelecidas entre os países. Aos indianos, numa época em que a Índia mantinha uma intensa relação de animosidade com o Paquistão, foram atribuídos 76 traços negativos e 24 neutros e nenhuma característica positiva, enquanto aos turcos, numa época em que o estado paquistanês mantinha uma aliança político-militar com a Turquia, foram atribuídos 89 traços positivos, 11 neutros e nenhum negativo.

Rath e Das (1958), após acentuarem a crescente importância alcançada pelos estereótipos nas relações internacionais, dedicaram-se a avaliar, entre os indianos, o impacto exercido pelas crenças estereotipadas a respeito dos próprios indianos e de estadunidenses, britânicos, russos e chineses, em dois grupos de participantes, um composto por estudantes, com média de idade de 16,9 anos e um grupo de profissionais, bem estabelecidos, cuja média de idade superava os 29 anos. Uma importante conclusão do estudo se referiu ao conceito de familiaridade, pois os britânicos, o grupo com os quais os indianos efetivamente possuíam mais familiaridade, foram objeto de um número significativamente maior de atributos, ainda que estes fossem predominantemente negativos, resultado facilmente compreensível face aos resultados nefastos das práticas colonizadoras dos britânicos na Índia. Este resultado, no entanto, se mostrou inconsistente com as evidências posteriormente relatadas por Triandis e Vassiliou (1967), em particular com aquelas associadas à suposição de que os contatos acarretariam uma maior uniformidade nos estereótipos, sendo esta conclusão particularmente significativa em um contexto no qual a expressão dos conteúdos estereotipados já não se concebia como apropriada.

Uma história secular de contatos entre diferentes grupos, particularmente se estes grupos convivem em um contexto de diferenças hierárquicas marcantes, possivelmente se configura como um espaço propício para o desenvolvimento de estereótipos mútuos entre os grupos, tal como se evidencia no estudo relatado por Rath & Sircar (1960) sobre os estereótipos acerca de seis castas indianas, três hierarquicamente mais altas e as outras três que ocupavam posições inferiores. Uma vez que participaram do estudo 600 respondentes, 100 de cada casta, e o nível educacional dos respondentes não era uniforme, os participantes das castas superiores, letrados, responderam ao questionário por escrito, enquanto os de casta mais baixa foram abordados por entrevistadores que pertenciam à mesma casta. O instrumento incluiu uma lista com 65 traços, embora as análises se restringissem a 47 atributos, 22 positivos e 25 negativos.

Os resultados evidenciaram claramente como a atribuição dos estereótipos se mostrou positivamente associada com a posição hierárquica do grupo, tal como observado na tabela 2, na qual estão apresentados os resultados relativos a dois grupos, um situado no estrato superior, os brâmanes, e o outro no estrato inferior do sistema de castas, os hadis.

Tabela 2: distribuição de traços desejáveis e indesejáveis entre duas castas na sociedade indiana

A avaliação a respeito do próprio grupo foi muito diferente entre os brâmanes, que apresentaram uma percepção muito positiva sobre os próprios brâmanes (razão de prevalência de 4,5 entre traços positivos e negativos), quando comparada com a percepção dos hadis sobre a própria casta (razão de 0,92 entre traços positivos e negativos). A percepção de desejabilidade dos traços estereotipados, tal como avaliada em relação às outras castas, sugere que os participantes das castas mais baixas tenderam a utilizar mais traços desfavoráveis do que favoráveis no julgamento do grupo que ocupava a posição mais alta na hierarquia social (razão entre traços positivos e negativos de 0,78), enquanto os grupos posicionados na parte mais alta da hierarquia não apenas atribuíram um número bastante reduzido de traços aos hadis, o grupo mais baixo entre os seis na hierarquia, como também tenderam a aplicar mais traços desfavoráveis do que favoráveis durante o julgamento (razão de prevalência de 0,80). Os resultados como um todo ilustraram claramente o senso de inferioridade que se apodera das pessoas que nascem no estrato mais baixo do sistema de casta, como também indicaram o quanto este sentimento interfere na atribuição diferencial dos estereótipos aos diversos grupos sociais em função da hierarquia social.

Um outro conjunto de estudos procurou ir além mero aperfeiçoamento dos métodos tradicionais de pesquisa. Braun (1962), por exemplo, utilizou um inventário de personalidade para comparar os estereótipos acolhidos por 42 estudantes de uma universidade do Texas sobre os cientistas e executivos e, além de identificar diferenças no conteúdo dos estereótipos, acentuou que os resultados se mostraram consistentes com um estudo conduzido quatro anos antes, com um método distinto e numa outra universidade (Benmdig & Houtras, 1958).

Uma vez que os resultados conduzidos em diferentes períodos históricos e os realizados com participantes oriundos de diversas regiões geográficos, com perfis étnicos e culturais distintos e com níveis de contatos diferenciados, deixavam claro a persistência de alguns estereótipos e a mudança em outros, se tornou cada vez mais nítida a necessidade de reconhecer que os conteúdos estereotípicos eram aprendidos durante o processo de socialização. O passo seguinte, obviamente, foi identificar em o momento do desenvolvimento infantil no qual as crenças estereotipadas e as atitudes preconceituosas se instauravam. Blake e Dennis (1943) se dedicaram ao estudo dos estereótipos de brancos e negros entre crianças de diferentes faixas etárias. O método de pesquisa, ainda que centrado no conteúdo dos traços estereótipos e seguindo os moldes do estudo de Katz e Braly, diferiu por incluir uma série de perguntas nas quais se solicitava aos participantes, 324 crianças, que comparassem uma série de características, por exemplo, quem era mais supersticioso, o negro ou o branco? O padrão dos resultados encontrados no estudo pode ser entrevisto na tabela 3, na qual acentuamos a importância de uma medida, denominada índice de preponderância, estimada a partir do cálculo da razão entre as respostas para negros ou brancos, sendo desprezadas, para fins de análise, as alternativas de respostas sem diferenças e não sei.

Tabela 3: Índice de preponderância dos estereótipos para brancos e negros

O procedimento permitiu identificar diferenças no índice de preponderância dos traços relativos aos negros, conforme calculado na linha relativo ao atributo supersticioso (80/10=8), e aos brancos, exemplificado na linha em que se apresenta o atributo organizado (75/ 15=5). A partir das comparações dos índices calculados com base nas respostas das crianças das distintas faixas etárias foi possível destacar que as crianças brancas desde muito cedo desenvolviam uma atitude muito geral, inespecífica e pouco negativa em relação aos negros e, com a passagem do tempo, começavam a assimilar os estereótipos dos adultos e a adotar os modelos de respostas estereotipados impostos pela cultura.

Naturalmente a avaliação das crenças e atitudes de crianças muito novas impôs a utilização de técnicas de coleta de dados adaptadas a idade e às caraterísticas particulares desta classe de participantes. Seeman (1946), por exemplo, publicou um estudo com 84 crianças negras no qual investigou as relações entre a cor da pele e a aceitação social. Para tal, utilizou três instrumentos, sendo o primeiro uma escala no formato Likert, a partir da qual as crianças deveriam expor as suas preferências em relação ao tom de pele. Os resultados evidenciaram que desde muito novas as crianças se inclinavam favoravelmente em direção a um tom de pele mais claro. Posteriormente, foram conduzidas entrevistas com cada uma das crianças, com a finalidade de identificar as motivações subjacentes às escolhas relativas aos padrões de amizade e, em que medida, esta preferência era influenciada pela cor da pele. Os resultados, uma vez mais, favoreceram a hipótese de que os participantes prefeririam estabelecer relações de amizade ou aceitariam mais crianças com a cor da pele mais clara.

Um terceiro instrumento, o teste projetivo dos três desejos, apresentou resultados incompatíveis com os obtidos anteriormente, pois estas mesmas crianças, sendo obrigadas a escolher três desejos, entre os dez listados na tabela 4, não atribuíram importância à dimensão cor da pele, que ocupou a última posição entre as dez alternativas elencadas.

Tabela 4: Frequências de escolha das crianças relativas ao teste dos três desejos

O que inibiu as respostas das crianças ao item 10, que por outra parte foram inequívocas, se comparados com os dados obtidos com os outros instrumentos de coleta? Uma tentativa de explicação oferecida por Seeman foi a de que na etapa de desenvolvimento das crianças que participaram deste estudo, em torno dos nove a dez anos de idade, a cor da pele não era verbalizada como uma motivação central na vida destas crianças, o que passa a ocorrer a partir do momento em que as preocupações com os relacionamentos afetivos e amorosos se tornam uma força motivacional importante. Nesse ínterim, seguindo a teoria normativa exposta um pouco antes por Muzafer Sheriff no livro A psicologia das normas sociais, o artigo acentuou que muitas normas exercem efeitos sem que os que as acolhem tenham consciência do papel exercido pelo sistema normativo, sendo este resultado mais claro no caso de crianças, uma vez que a interiorização das normas ocorria em uma etapa posterior do desenvolvimento. Neste sentido, a diferenciação da cor da pele ainda não desfrutara uma posição central no sistema de referência das crianças participantes, pois na etapa da vida em que o estudo foi conduzido elas estavam muito mais voltadas para o universo dos jogos e brincadeiras, donde a enorme preferência por itens como ser mais forte ou ser mais esperto.

Reconhecendo o quanto as representações das crianças sobre os grupos sociais com os quais mantinham contato ou escutavam falar desempenhavam um papel importante na sobrevivência das representações estereotipadas, muitos pesquisadores se voltaram para a identificação do conteúdo dos estereótipos acolhidos por crianças em diferentes fases de desenvolvimento acerca dos diversos grupos nacionais e étnicos. Um conjunto de estudos, publicados por Zeligs entre o final dos anos 1940 e início da década seguinte, retratou este estado de coisas e evidenciou a importância do assunto à época. As considerações relativas à importância do tópico se desenvolviam a partir de um pressuposto implicitamente acolhido acerca da necessidade de se envidar esforços no sentido de combater a formação de estereótipos e atitudes preconceituosas em etapas muito iniciais do desenvolvimento infantil, uma tarefa que poderia oferecer melhores resultados se fosse oportunamente identificado o momento em que as crianças começavam a aprender os conteúdos estereotipados e a adotar atitudes negativas em relação a grupos sociais com os quais muitas vezes elas ainda nem tinham estabelecido qualquer tipo de contato.

O artigo Conceitos intergrupais e estereótipos em crianças (Zeligs, 1947) assumiu claramente a premissa previamente delineada, dedicando-se a identificar as atitudes e estereótipos acolhidos por crianças de classe média alta residentes na cidade de Cincinatti, Ohio, em amostras obtidos nos anos de 1931 e posteriormente no ano de 1944. A tendência a utilizar diversos tipos de instrumentos foi respeitada, sendo aplicado às crianças inicialmente um teste de atitudes em relação às raças e nacionalidade, no formato de uma escala de distância social. O teste de atitudes intergrupais de Zeligs solicitava às crianças indicarem para cada um das nacionalidades ou grupos raciais o tipo de relacionamento que estavam melhor dispostos a aceitar: primo, amigo, companheiro de quarto, companheiro de brincadeiras, vizinho, colega de classe ou colega de escola. Para avaliar os estereótipos e os conceitos que as crianças acolhiam a respeito das mesmas 39 nacionalidades incluídas no questionário de atitudes, os professores escreveram, uma a uma, o nome destas nacionalidades no quadro negro da sala de aula, e as crianças redigiram uma sentença com a ideia mais apropriada para retratar cada uma das nacionalidades. Posteriormente, foi aplicado um teste de associação livre, no qual se solicitou a cada criança escrever a primeira palavra ou frase eliciada ao se defrontar com o nome de cada uma das nacionalidades e raças. Com base na tabulação das respostas das crianças aos dois últimos instrumentos foi possível obter o conteúdo dos estereótipos de cada grupo racial, identificar a associação dos conteúdos estereotípicos com as atitudes em relação aos diversos grupos e concluir que os conceitos a respeito das nacionalidades ou grupos étnicos e raciais não diferiram muito entre as crianças entrevistadas em 1933 e as de 1944.

Zeligs (1950a) posteriormente publicou no The Journal of Educational Research um artigo cuja apresentação identifica bem a versão hegemônica, à época, de que os estereótipos eram representações sobre determinados grupos rígidas e distantes da realidade, que passavam de geração à geração sem que os seus fundamentos fossem colocados em cheque. Em um mundo cada vez mais marcado por contatos internacionais e interculturais os esforços educacionais deveriam combater estas falsas representações. O melhor combate seria identificar como eles eram aprendidos por crianças muito pequenas e entender como este esforço ajudaria a explicar por que alguns destes conteúdos eram persistentes e pouco sensíveis à passagem do tempo, enquanto outros desapareciam com o transcorrer dos anos. O entendimento dos processos que fazem com que alguns conteúdos estereotipados sejam abandonados e outros mantidos ocupou uma posição central no estudo, donde a confiança de que o conhecimento de como este processo se manifesta em crianças e adolescentes contribuiria de maneira decisiva para o aperfeiçoamento das relações entre os grupos humanos. Se no artigo supracitado Zeligs se preocupou em explicitar o conteúdo dos estereótipos sobre os holandeses, franceses, italianos, mexicanos, russos e negros, ela publicou, no mesmo ano, um novo artigo dedicado ao estudo dos estereótipos de poloneses, irlandeses, húngaros, búlgaros, dinamarqueses, checoslovacos, hindus e filipinos (Zeligs, 1950b), seguido por outros, publicados sequencialmente, sobre os estereótipos relativos aos noruegueses, judeus, escoceses, canadenses, suecos e indígenas (Zeligs, 1952), um outro sobre os turcos, portugueses, romenos, árabes, chineses, franco-canadenses mulatos, sul americanos, havaianos e australianos (Zeligs, 1953) e, ainda na sequência, um último artigo, desta vez dedicado ao estudo do conteúdo dos estereótipos sobre os estadunidenses, gregos, ingleses, alemães e japoneses (Zeligs, 1955). 

O reconhecimento da importância de identificar o momento do qual as crianças passam a desenvolver atitudes negativas em relação aos outros grupos sociais, aliada à preocupação em identificar em que etapa do desenvolvimento as crianças diferenciam a sua própria nacionalidade, se reflete na inclusão do capítulo escrito pelo psicólogo do desenvolvimento Jean Piaget (1896-1980) na coletânea da UNESCO dedicado ao estudo das tensões que se manifestavam nas relações internacionais. O artigo O desenvolvimento nas crianças da ideia de terra natal e suas relações com outros países (Piaget & Weil, 1951) é dedicado à identificação e análise dos estágios que marcam os desenvolvimentos cognitivos e afetivos que marcam a passagem da infância para a adolescência e parte da premissa que apenas mediante a compreensão das vicissitudes que se manifestam nos estágios iniciais de desenvolvimento será possível encontrar uma maneira de combater a inclinação à intolerância nacionalista. O ponto de partida do argumento residiu na suposição de que a vinculação afetiva sentida pela criança em relação à própria pátria nem de perto deveria ser considerada o primeiro passo no desenvolvimento infantil, uma vez que esta condição só pode ser alcançada a partir do momento em que a criança se encontra em condições de realizar um descentramento cognitivo e afetivo e se distanciar do seu centro de interesse mais imediato, a sua cidade ou o seu local de residência. O ápice desse desenvolvimento dependeria de abandonar as concepções iniciais egocêntricas e reconhecer que o local de residência está arrodeado por outras regiões e países para, finalmente, compreender que existem pessoas que vivem nos outros países. O principal problema do nacionalismo, conforme observado no diagrama encontrado na figura 6, seria esta dificuldade em sair da etapa de egocentrismo, passar ao descentramento até finalmente aceder uma visão de mundo marcada pela reciprocidade.

Figura 6: a passagem do descentramento à reciprocidade segundo Piaget e Weil (1951)

O abandono do egocentrismo, no caso das referências pessoais, e do sociocentrismo, no caso do espaço pessoal mais imediato, passando sucessivamente para o descentramento, até alcançar a ideia de reciprocidade em relação a entidades sociais cada vez maias amplas, corresponde a um padrão de desenvolvimento que caracteriza as pessoas marcadas por relações de tolerância frente aos grupos objeto de crenças estereotipadas. A transformação destas crenças em atitudes preconceituosas ou em hostilidades intergrupais se explicaria por uma ruptura nessa passagem, com a impossibilidade de alcançar o descentramento exigido para o desenvolvimento de uma concepção de mundo marcada pelas relações de reciprocidade, sem a qual a empatia e a possibilidade de se colocar no lugar do outro jamais poderia ser alcançada.

Estudos como os expostos deixavam mais ou menos claro a complexidade da expressão dos estereótipos, dado estes serem aprendidos em etapas iniciais do desenvolvimento psicossocial e alguns traços estarem mais sujeitos do que outros aos efeitos da passagem do tempo ou à influência dos contextos geográficos e culturais no quais eles encontravam expressão. Uma questão, no entanto, se tornava cada vez mais urgente, a de identificar em que medida as diferenças individuais poderiam explicar as flutuações nos padrões de resultados encontrados nas diversas pesquisas empíricas.

Face à flagrante ascensão de governos de matiz política nazifascista em alguns países europeus, a noção de personalidade fascista ganhou importância entre os pesquisadores. A preocupação central passou a ser a de avaliar em que medida pessoas que aparentemente não apoiavam abertamente às ideologias totalitárias terminavam por acolher sem reservas os princípios orientadores destas ideologias e, em que sentido, os estereótipos eram decisivos neste resultado. Menefee (1936) publicou no American Sociological Review um estudo no qual avaliou o efeito de rótulos verbais como liberal, conservador, fascista ou comunista nas atitudes de 742 participantes, nos quais estavam incluídos estudantes, professores e diversas categorias profissionais. Na pesquisa, conduzida em dois momentos, com uma diferença de 28 dias entre uma medida e outra, solicitou-se aos participantes que indicassem se concordavam ou não com oito princípios relativos diferentes ideologias políticas, diferindo as medidas exclusivamente porque no segundo momento o rótulo verbal associado à ideologia política era apresentado de forma concomitante ao princípio enunciado.

Quadro 5: efeito do rótulo verbal na avaliação de princípios de filosofia política

É possível notar no quadro 5 que o efeito de rótulos associados às categorias comunista, radical e fascista foram decisivos para intensificar a discordância com proposições que expressavam os princípios políticos a elas associadas. Passou-se a suspeitar que as pessoas, durante o julgamento social, confundiam os princípios políticos com os estereótipos sobre as pessoas que defendiam tais princípios e, consequentemente, que os estereótipos exerciam um impacto muito acentuado nos julgamentos sociais. Estas representações estereotipadas poderiam ser, foram e continuam sendo utilizadas como instrumentos políticos contra determinadas categorias de pessoas, sobretudo no sentido de assinalar aquelas que acolhem orientações políticas consideradas radicais pelos grupos hegemônicos.

A ascensão do nazismo e do fascismo impôs a necessidade de desenvolver estudos destinados a superar a dimensão estritamente descritiva e introduzir uma perspectiva mais explicativa, uma tendência intelectual que se fortaleceu a partir dos anos 1940, década em que fica claro quão a intolerância, a xenofobia e o racismo, mesmo sendo vistos como atitudes injustas e antiquadas, continuavam a ser acolhidas e difundidas. Nos Estados Unidos os alvos da intolerância e do racismo não se restringiam exclusivamente aos negros, pois o ambiente de guerra tornou mais acentuada esta tendência, que crescia à medida que a ideologia nazifascista dominava nações inteiras. Com a intensificação dos clamores pela guerra, os preconceitos contra os asiáticos se ampliaram, especialmente em relação aos japoneses, enviados de forma preventiva e indiscriminada a campos de prisioneiros. Na Europa, o preconceito atingiu particularmente os judeus, tratados como párias e enviados a câmaras de gases nas regiões sob jugo nazista.

Os estudos descritivos, embora importantes, pouco contribuíram para explicar a adesão quase incondicional a uma visão de mundo marcada pelos preconceitos e pelo racismo. Na tentativa de estimar quão extensiva era a experiência do preconceito muitos pensadores buscaram apoio nas teorias psicanalíticas, sendo importante salientar o quanto a ampliação da importância da teoria psicanalítica resultou da chegada, em solo americano, durante a segunda guerra mundial, de cientistas e psicólogos sociais europeus, sobretudo de origem judaica, a fugirem do nazismo. Uma vez que os estudos anteriores mostraram pouca capacidade de ir além das descrições e oferecer explicações para os preconceitos, as teorias psicanalíticas foram de imediato requisitadas e a partir delas desenvolvidos estudos experimentais voltados para explicação da difusão de algo tão irracional quanto os preconceitos.

O livro Frustração e Agressão, publicado por Dollard, Doob, Miller, Mowrer e Sears (1939), causou fortes controvérsias teóricas por sustentar, logo nas páginas iniciais, que 1) a ocorrência de uma agressão sempre é precedida por uma frustração e 2) que a existência de uma frustração sempre leva a alguma forma de agressão. Dois anos depois, os autores revisam parcialmente a denominada hipótese da frustração-agressão (Miller, Sears, Mowrer, Doob & Dollard, 1941), mantendo intacta a proposição 1, mas modificando substancialmente o teor da proposição 2, que passou a ostentar a seguinte formulação: a existência de uma frustração pode levar a uma série de respostas, uma das quais é a instigação de alguma forma de agressão.

A frustração, um termo do senso comum apropriado pelos psicólogos, foi definida como qualquer interferência que impede a ocorrência de uma resposta ou, para ser mais exato, que impede a consecução de um comportamento direcionado a uma meta. E quem teria o poder de impedir que as metas fossem alcançadas, senão os poderosos? E quem seriam aqueles que dispõem de poder? No âmbito da família, os pais, em particular, o pai. No âmbito do trabalho, o patrão, o chefe, o capitalista. No âmbito comunitário, os chefes, as lideranças. No âmbito social, os poderosos, os políticos, os mangangões. Obviamente, é diferente se sentir frustrado e não poder fazer nada, nas circunstâncias em que a pessoa que causou a frustração dispõe de controle e poder, ou se sentir frustrado e agredir a quem impediu que a meta fosse alcançada.

O conceito de mecanismos de defesa foi considerado, à época, decisivo na tentativa de explicar a ocorrência de respostas agressivas dirigidas para o responsável pela experiência de frustração, ou para as respostas que não puderam incidir diretamente sobre os poderosos. A noção se origina dos estudos freudianos sobre o recalque, o papel da cultura na repressão e inibição dos impulsos sexuais e agressivos e de como estes conteúdos recalcados, mediante o efeito do deslocamento e da condensação, retornavam de forma disfarçada e modificada à consciência.

A figura 7 retrata como alguns destes mecanismos de controle da agressividade manifestam os seus efeitos, sendo particularmente importante o mecanismo de deslocamento da agressividade para outros alvos que não aqueles diretamente responsáveis pela experiência de frustração.

Figura 7: relações entre a frustração e agressão

Os resultados da ação de cada um destes mecanismos são diferentes e podem suscitar impactos bastante diversos. Uma estratégia de defesa do eu é a repressão – ou recalque, para ser mais exato – dos impulsos agressivos e a inibição dos seus efeitos diretos. Um impulso recalcado, no entanto, não desaparece do mapa, simplesmente. De acordo com a teoria psicanalítica, estes conteúdos podem reaparecer, a exemplo dos sonhos, quando o acesso aos conteúdos inconscientes é facilitado. A depender da quantidade de conexões que a representação recalcada consegue estabelecer com outras igualmente fora da consciência, ela pode ganhar força e aflorar à consciência, de forma disruptiva, como em um sintoma, que se devidamente analisado pode vir oferecer informações sobre os conteúdos recalcados e, em linhas gerais, sobre a vida psíquica da pessoa.

Uma outra modalidade de manifestação dos impulsos recalcados seria mediante a sublimação. Sublimar vem de sublime, elevado, excelso, grandioso, que inspira pensamentos nobres, valorosos. A ideia central é que para se lidar com as tendências agressivas, contrárias à censura moral e, como tais, recalcáveis, o as defesas psíquicas transformam estes conteúdos em atos socialmente aceitáveis, a exemplo de uma obra artística ou de uma ação altruísta.

O eu também poderia se defender dos impulsos agressivos suscitados pela frustração mediante o mecanismo da projeção. Projetar, nos termos da teoria psicanalítica, é atribuir a uma outra pessoa os conteúdos mentais não reconhecidos em si mesmo. Neste caso, o percebedor passa a identificar no alvo as características que não admite em si mesmo, pois ao mesmo tempo em que não reconhece carregar em si impulsos agressivos, considera-os apropriados para descrever a uma outra pessoa. As descrições que proporcionamos até aqui não permitem identificar relações muito nítidas e diretas entre os mecanismos do recalque, da sublimação e da projeção e a manifestação dos estereótipos e preconceitos. Estas relações, no entanto, se tornam mais claras se considerarmos o mecanismo de deslocamento das hostilidades.

A teoria do bode expiatório (Berkowitz, 1989) se origina da tentativa de corrigir os problemas na formulação da hipótese da frustração-agressão, particularmente por indicar as condições que habilitam uma frustração a se transformar num ato agressivo. Caso fossem encontradas condições apropriadas – um lugar (por exemplo, um bar, mas não uma igreja), um objeto (uma arma, mas não um lençol de cambraia) e, sobretudo, um alvo apropriado, a frustração se transformaria num comportamento agressivo – dirigido para outra pessoa, não para o responsável pela frustração. A agressão (ou a discriminação) ocorreria quando indivíduos frustrados, mas incapazes de expressar as suas frustrações em relação aos mais poderosos (patrões, autoridades, pais autoritários etc.) fossem capazes de transformar esta frustração em impulsos agressivos, deslocando o alvo, dirigindo-a aos menos poderosos, no caso, membros de grupos marginalizados ou minoritários.

A crônica De cima para baixo, escrita pelo escritor maranhense Artur Azevedo (1855-1908), ilustra os pontos fundamentais da teoria do bode expiatório. Trata-se da história de um ministro que toma uma lapada do imperador e, não podendo exprimir sua frustração contra a excelsa majestade, desconta a raiva em cima do secretário-geral. Este, impossibilitado de atingir o ministro, despacha o peso em cima do chefe da terceira seção, que por sua vez dispara contra o amanuense, que descarrega a raiva no contínuo, que detona o servente, que não tendo ninguém abaixo para descarregar a raiva, desfere um potente pontapé no cão, coitado, que “pagou pelo servente, pelo contínuo, pelo amanuense, pelo chefe de seção, pelo diretor geral e pelo ministro!” (Azevedo, 2001, p. 295).

Considerados conjuntamente, estes esforços comungam a preocupação em formular uma teoria capaz de explicar por que os preconceitos, apesar de injustificados, sobreviveram e se espalharam nas várias esferas das sociedades. Como tal, trata-se de uma teoria voltada para identificar os universais do comportamento humano, ou seja, mecanismos cujas manifestações independem das características individuais, da época e do lugar (Simon, 1990). A teoria psicanalítica, ao fornecer as noções de inconsciente e recalque (Freud, 1915), bem como o conceito de mecanismos de defesa do eu (Freud, 2006), ofereceu os fundamentos para a elaboração de um modelo explicativo.

Este modelo individualista de construção da teoria, entretanto, estava condenado a enfrentar um enorme desafio, pois os resultados de algumas pesquisas passaram a sugerir que os níveis de preconceito não eram os mesmos em todas as sociedades, assim como se tornou claro que no interior de um mesmo país a visão preconceituosa era acolhida com mais intensidade em algumas regiões do que em outras (Pettigrew, 1958). A partir dos anos 1950 fortalece-se a percepção de que o nível de preconceito é diferente de pessoa a pessoa, manifestando-se um novo desafio teórico: identificar o papel exercido pelas diferenças individuais na expressão dos preconceitos e estereótipos.

A categoria analítica personalidade fascista, neste particular, ganhou popularidade entre os estudiosos, ao circunscrever pessoas que embora não expressassem abertamente o que sentiam, aderiam a princípios políticos que encontravam espaços em pessoas com características individuais nas quais traços como a obediência cega às autoridades constituídas, a agressividade direcionada aos menos poderosos e um senso desenfreado de defesa do próprio grupo encontrava lugar. O fato de muitos participantes evitarem exprimir algum apreço por essa ideologia quando a sua expressão se encontrava associada com o rótulo verbal fascista impunha dificuldades adicionais a serem enfrentadas pelos pesquisadores. Conforme assinalou Stagner (1936a; 1936b), qualquer instrumento de mensuração psicológica das atitudes se obriga a respeitar duas premissas previamente enunciadas pelo psicólogo Louis Thurstone (1857-1986), a primeira, a de que os respondentes deveriam ter clareza a respeito dos itens que estavam avaliando e, a segunda, a de que eles deveriam adotar um estado de espírito de quem deseja que as suas atitudes sejam conhecidas pelo pesquisador. Se a aceitação da primeira premissa era ponto pacífico entre os estudiosos, os resultados da pesquisa de Menefee colocavam sérias dúvidas sobre a segunda premissa, uma vez que as representações estereotipadas pareciam interferir claramente na confiabilidade das respostas. Para lidar com esta dificuldade, Stagner postulou a necessidade de elaborar instrumentos nos quais o objetivo do estudo não fosse claramente exposto para o participante, donde a proposição de uma escala encoberta de mensuração das atitudes fascistas, apresentada nos artigos acima referidos e aperfeiçoada, mediante técnicas de análise fatorial, em um terceiro estudo (Stagner & Katzoff, 1941). Nesta nova modalidade de medida das atitudes o título do questionário não aludia a um estudo sobre as atitudes políticas, sendo apresentado como um estudo sobre os efeitos da depressão econômica dos anos 1930, embora o simples fato de omitir o objeto do estudo no título do questionário não tenha parecido uma estratégia convincente para muitos críticos. A principal mudança se referiu aos itens da escala, tanto na primeira versão, quanto na segunda, mais concisa, pois estes não aludiam de forma direta ao tópico de estudo, o que permite caracterizar o instrumento como uma das primeiras medidas indiretas das atitudes. A importância de evitar oferecer ao participante indícios acerca do objetivo da medida se refletiu na posterior publicação de instrumentos destinados a aperfeiçoar esta medida encoberta das atitudes fascistas, conforme se observa em trabalhos como os de Edwards (1941) e Ingram e Geldreich (1943).

Se entre o final da década de 1930 e meados da década de 1940 surgiram diferentes medidas destinadas a identificar e mensurar as características psicológicas das pessoas que aderiam e defendiam alternativas políticas autoritárias e antidemocráticas, é importante salientar que a preocupação no sentido de identificar as características psicológicas das pessoas inclinadas à adoção de atitudes preconceituosas e ao endossamento de estereótipos não significou em absoluto a desvalorização do papel exercido pelas variáveis contextuais na expressão dos estereótipos e preconceitos. O mero subtítulo de um artigo sobre a tolerância étnica, publicado no American Jounal of Sociology, em 1949, por Bettelheim e Janowitz, ilustra bem esta tendência: uma função do controle social e pessoal. Dada as condições do fim da segunda grande guerra, o tema das hostilidades entre os grupos era um convidado frequente nas discussões intelectuais e uma série de teorias, sociológicas ou psicológicas, indistintamente, tentavam explicar os funestos acontecimentos dos anos anteriores. A noção de deprivação relativa, ou seja, um sentimento de que as pessoas que se sentiam alijados dos direitos que julgavam legitimamente seus acusavam os membros dos outros grupos como responsáveis pela condição de privação que estavam atravessando se tornou uma importante categoria analítica. Bettelheim e Janowitz (1949) acolheram este entendimento ao supor que as hostilidades que as pessoas manifestavam em relação aos grupos alvos de preconceitos deveriam ser interpretadas como uma função do sentimento de que o próprio grupo foi o responsável pela condição de privação ao qual se encontra sujeita. Elas se tornariam hostis, ademais, porque antecipariam a ansiedade que seriam obrigadas a lidar no futuro, quando estes grupos as alijassem mais uma vez dos seus direitos. Para lidar com esta tensão irracional e injustificada tenderiam a hostilizar e acusar o grupo alvo de ser detentor de características indesejáveis intoleráveis em si mesmas. Em última instância, portanto, a hostilidade poderia ser entendida a partir da posição peculiar ocupada pelo grupo que se sente em privação relativa em termos da estrutura social na qual as relações entre os grupos se manifestam.

Após a condução de 300 entrevistas em profundidade com soldados veteranos de guerra, que sentiam privados de seus direitos após o fim dos combates, concluíram que o grau de hostilidade dos ex-combatentes em relação a dois grupos frequentemente alvos de preconceitos, os judeus e os negros, deveria ser interpretado a partir da diferenciação entre quatro grandes tipos de pessoas, conforme observado na tabela 5, que representa a distribuição percentual dos tipos de veteranos em relação aos dois grupos objeto de estudo.

Tabela 5: distribuição percentual dos tipos de intolerantes, em relação a judeus e negros

Ainda que a categoria dos veteranos preteridos na decisão de ascensão ao oficialato pudesse ser concebida como especialmente representativa para evidenciar como o sentimento de privação tornava os soldados especialmente inclinados a sofrerem os impactos dos apelos em direção à intolerância, e dado que as variáveis sociodemográficas status socioeconômico, idade, religião e tipo de jornal que liam ou de emissão radiofônica que escutavam não se mostraram significativos como critério para explicar as diferenças na expressão dos preconceitos, Bettelheim e Janowitz consideraram analisar os dados a partir da tipologia dos entrevistados, estabelecendo-se, para tal, a seguinte diferenciação:

a) os intolerantes intensos foram definidos como aqueles veteranos que no curso das entrevistas expressaram de forma espontânea o apoio à implementação de políticas restritivas em relação aos grupos alvos, antes mesmo da introdução do tema pelos entrevistadores. Observa-se na tabela 5 que a intolerância desse grupo foi bem mais intensa em relação aos negros do que aos judeus;

b) os intolerantes expressivos, ao contrário da categoria anterior, não expressaram espontaneamente qualquer apoio a políticas restritivas em relação ao grupo alvo, fazendo-o, apenas, se o tema tivesse sido aventado previamente pelo entrevistador. Os participantes assim caracterizados utilizam um amplo espectro de representações estereotipadas, tanto em relação aos judeus, quanto em relação aos negros. Esta forma de expressão da intolerância também foi mais intensa em relação aos negros do que em relação aos judeus;

c) os estereotipizadores, ainda que não expressassem espontaneamente ou quando estimulados apoio à implementação de políticas restritivas para judeus e negros, acolhiam e expressavam claramente crenças estereotipadas sobre os grupos alvos. A proporção de entrevistados com estas características se mostrou semelhante em relação aos dois grupos alvo de julgamento; e

d) os veteranos tolerantes, além de não manifestarem abertamente qualquer apoio a políticas restritivas em relação aos grupos alvo, também não expressaram sistematicamente condutas verbais que permitissem inferir que acolhiam crenças estereotipadas a respeito dos grupos alvos do julgamento.

Conforme observado na tabela 5, a diferença no grau de tolerância dos entrevistados foi marcantemente desfavorável aos negros se comparados com os judeus. O mais importante do estudo, no entanto, não foi nem a diferença no nível de hostilidade em relação aos dois grupos, tópico em relação ao qual os autores pouco avançaram, muito menos o impacto de variáveis estruturais, tais como a classe social ou a renda, mas identificar como elementos da dinâmica social se encontravam associados com a distribuição dos distintos tipos de intolerância.

A análise das associações entre esta última variável e um dos elementos da dinâmica social, a mobilidade, evidenciou como os distintos tipos de intolerância estavam associados com as vicissitudes inerentes à transição entre a vida civil e a militar. Por exemplo, os participantes que ascenderam socialmente após a passagem da vida civil para a militar estavam fundamentalmente situados no grupo de participantes classificados como tolerantes, enquanto os participantes que conheceram uma redução significativa no status social no mesmo período se concentraram naqueles caracterizados como intolerantes, seja na sua forma menos intensa, seja na de maior grau. Além disso, os participantes caracterizados como estereotipizadores foram representados sobretudo por aqueles que mantiveram o padrão de status durante o período de transição considerado. Uma tendência semelhança se observou nas relações entre os tipos de intolerância e a experiência de satisfação com a vida no exército, pois os participantes mais satisfeitos com a vida militar se mostraram mais tolerantes, enquanto os mais intolerantes relataram um maior sentimento de frustração ou avaliaram negativamente a experiência nas forças armadas. A análise das associações entre o tipo de intolerância e o grau de confiança nas instituições evidenciou uma tendência semelhante, pois se os participantes caracterizados como tolerantes indicaram um alto grau de satisfação com as instituições, os mais intolerantes se mostraram desconfiados e rejeitaram as instituições sociais. Considerados em conjunto, os resultados deixam claro que embora a expressão dos estereótipos, dos preconceitos e da intolerância possa ser interpretada como uma consequência dos efeitos reais do contexto social no qual a pessoa se encontra situada, esta conclusão deve ser considerada com cuidado, pois a experiência subjetiva da pessoa, a maneira particular pela qual ela lida com as dificuldades do dia a dia, bem como a dinâmica profunda dos processos psíquicos, interfere na maneira pela qual a realidade é interpretada e experimentada.

Qual o lugar dos estereótipos neste contexto analítico de pessoas que se sentem privadas dos direitos que julgam seus? Para responder a esta questão Bettelheim e Janowitz conduziram uma comparação entre os estereótipos aplicados aos nazistas na Alemanha e os estereótipos aplicados aos judeus e aos negros nos Estados Unidos, sugerindo que neste último país os dois estereótipos aplicáveis aos judeus na Alemanha, o de que eles eram poderosos e capazes de controlar a sociedade e o de que possuíam características que os faziam perigosos por se permitirem aceder a formas primitivas de gratificação, foram respectivamente aplicados aos judeus e aos negros. Estereotipizar poderia ser caracterizado, portanto, como a maneira mais civilizada encontrada por pessoas com baixo grau de tolerância para exprimir as atitudes e as hostilidades que sentiam em relação aos grupos sociais aos quais atribuíam responsabilidade pelas dificuldades e frustrações que sentiam na pele.

Se até o final dos anos 40 do século passado a preocupação central era com a identificação das causas dos preconceitos e as teorias eram elaboradas numa linguagem destinada a colocar em relevo os princípios universais que regem as condutas humanas, os estudos conduzidos na década de 1950, já sob o impacto do fim da Segunda Guerra Mundial e, em particular, com a estupefação suscitada pela constatação de que a ideologia nazista, ainda que abraçada com maior ou menor intensidade, foi acolhida por populações inteiras, se voltaram para identificar a tipologia de pessoa mais suscetível a acolher atitudes preconceituosas.

O domínio do nazismo, o holocausto, os campos de concentração, a tentativa de extermínio seletivo de alguns grupos, tudo isso fazia pensar que algo de muito estranho, para não dizer anormal, estava acontecendo. Os pesquisadores se voltaram cada vez mais para a identificação, mediante o uso de testes e escalas, das características particulares dos indivíduos, tentando diferenciar os mais propensos a embarcarem nessa loucura coletiva, assim como das relações entre esta estranha tendência e outros conceitos psicológicos. Mais do que ser uma característica comum a toda e qualquer pessoa, como se pensava na década anterior, a expressão do preconceito passou a ser vista como a manifestação de uma necessidade patológica, ou para ser mais exato, passou a ser entendida como a maneira pela qual pessoas profundamente desestruturadas conseguiam encontrar um certo equilíbrio e continuavam levando a vida de forma relativamente tranquila. O estudo de Wilhelm Reich (1897-1957), por exemplo, procurou explicar a adesão ao fascismo fazendo apelo à estrutura irracional da personalidade do ser humano comum, aquele indivíduo relativamente normal cujos impulsos foram sistematicamente reprimidos pela sociedade durante o processo civilizatório, especialmente pelas famílias de caráter autoritário e pelas autoridades religiosas (Reich, 1988).

No prefácio elaborado em 1942 para a terceira edição inglesa do Psicologia de Massas do Fascismo, Reich, então desiludido com os caminhos da teoria freudiana e do marxismo, se questionou por que o fascismo recebeu um apoio tão intenso das massas populares e procurou demonstrar que isso não poderia ser explicado pelo modelo tradicional marxista da sociedade de classes, mas levando em consideração os impulsos mais profundos existentes na mente e no caráter humano. O fascismo deveria ser entendido como uma atitude emocional do ser humano, oprimido por uma máquina autoritária, que produzia uma tendência ao mesmo tempo mecânica e mística de encarar a vida (Reich, 1988).

Ao assegurar que o fascismo estava longe de ser um movimento exclusivamente alemão ou italiano, mas sim um fenômeno universal, Reich se fundamentou nas teorias freudianas para diferenciar as dimensões nas quais a vida mental se desenvolvia. O fascismo apenas refletiria o predomínio de uma destas esferas da vida mental sobre as outras duas. A figura 8 representa este modelo que podemos qualificar como epidérmico, por fazer alusão a camadas mais superficiais e profundas nas quais os processos mentais se desenvolviam.

Figura 8: níveis da vida mental na perspectiva de Wilhelm Reich

         A parte mais profunda do ser humano, o seu centro, corresponderia ao substrato biológico, embora as manifestações mais autênticas da biologia humana tenham sido reprimidas pelo esforço civilizador e controladas por milhares de anos. A ausência de contato do ser humano moderno com a sua própria natureza seria uma das características mais marcantes do nosso desenvolvimento. Na falta deste contato, o ser humano se torna dominado pelas forças mais superficiais da vida mental. O indivíduo médio seria um camarada comedido, atencioso, cuidadoso e responsável; seríamos, nesse plano, cavalheiros perfeitos, damas distintas. Neste nível, poder-se-ia qualificar o ser humano como racional, honesto, trabalhador e cooperativo, em suma, um ente capaz de amar em toda a sua plenitude.

Tudo isso seria maravilhoso se esta capa aparente de cordialidade estivesse permanentemente conectada com a camada mais profunda da natureza humana, se as características sociais mais positivas da natureza humana resultassem da fluidez dos impulsos biológicos mais profundos. Desafortunadamente, entre a esfera mais profunda e a zona mais superficial estaria posicionada uma outra camada da vida mental humana. Nesta dimensão intermediária habitariam os impulsos secundários, aqueles recalcados pelos anos de repressão desde o início da civilização humana. Neste plano, seríamos cruéis, sádicos, invejosos, lascivos e sanguinários, ou seja, aí teria lugar para todos aqueles impulsos hedonistas e destrutivos submetidos ao controle ao longo do processo civilizatório. A energia biológica oriunda das regiões mais profundas só poderia alcançar a superfície se esta camada fosse transposta. Esta estrutura tríplice explicaria o fascismo e, consequentemente, os preconceitos raciais, uma vez que os impulsos biológicos, ao ultrapassarem esta camada intermediária, estariam sujeitos a distorções, sendo a personalidade fascista o resultado de uma condição na qual a manifestação autêntica da vida se transformaria em impulsos agressivos e disruptivos.

O fascismo representaria o predomínio deste nível intermediário da irracionalidade, ou seja, seria a expressão da estrutura do caráter do ser humano. Ele agregaria, em última instância, as reações irracionais do indivíduo comum e dificilmente poderia ser considerado um movimento das elites. Hitler não era filho da aristocracia, mas sim de um funcionário médio. Ele foi defendido e apoiado pelas massas, embora tenha sido adotado pelas elites para alcançar os seus próprios fins. A ideologia racial seria a expressão deste ódio irracional das massas, do Zé Ninguém, subjugado, dominado pelas autoridades, capaz de encontrar nos grupos fragilizados os alvos perfeitos para exprimir o sentimento de revolta produzido nesse nível intermediário (Reich, 1974) . O racismo seria, nos termos do próprio Reich, um anseio orgástico restringido pela distorção mística e pela inibição da sexualidade natural.

As ideias de Reich não tiveram uma acolhida muito favorável no mundo acadêmico, muito menos entre os políticos, o que não impediu muitos estudiosos de reconhecerem a existência de indivíduos com tendências psicológicas que os tornariam mais inclinados a aderirem a uma visão autoritária de mundo. Este entendimento foi facilitado por evidências que assinalavam o quanto a tendência a aceitar e apoiar esta percepção autoritária não era um fenômeno isolado, pois aqueles que eram críticos em relação aos judeus, também o eram frente a outros grupos e categorias, a exemplo dos negros, ciganos ou dos gays. Da mesma forma, aqueles que apresentavam índices mais altos na dimensão autoritarismo tendiam a obter escores mais altos em medidas como a rigidez mental, ostentariam atitudes mais etnocêntricas e apresentariam uma tendência mais forte a oferecer respaldo à adoção de medidas extremadas contra os grupos minoritários ou desviantes.

Este conjunto de atitudes preconceituosas recebeu a denominação de personalidade autoritária. Os indivíduos autoritários seriam extremamente inseguros, mentalmente rígidos e marcados por uma certa propensão a adotar valores conservadores. Esta condição seria o reflexo de um desenvolvimento pessoal marcado por um forte conflito entre os impulsos sexuais e agressivos e as forças repressoras destes impulsos. Este conflito resultaria da imposição, por parte dos pais, de um estilo de socialização destinado a fazer com que os filhos fizessem o possível para ascender socialmente, o que acarretaria a formação de uma visão idealizada sobre as relações sociais, cuja consequência mais visível seria a transformação da criança em um adulto submisso, conformista e obediente.

Dada a natureza incontrolável dos impulsos sexuais e agressivos, os conteúdos objeto de repressão seriam deslocados, transformando-se em impulsos inconscientes direcionados aos grupos sociais desfavorecidos. O preconceito, pelo menos na sua face mais rígida, passou a ser visto como a expressão da necessidade de indivíduos acometidos por uma patologia mental, o que fez com que os estudiosos se dedicassem a encontrar a melhor forma de pesquisar as características individuais e especificar como elas se conectam para produzir esta síndrome da personalidade autoritária. O nível de análise, embora patrocinado sobretudo por cientistas sociais, se voltou para uma dimensão mais individual, sendo especialmente relevante o uso de métodos estatísticos para identificar o grau de correlação entre os diversos constructos psicológicos e as várias dimensões da personalidade autoritária (Martin, 2001).

A teoria da personalidade autoritária perseguia o objetivo fundamental de analisar uma tendência, comum em alguns indivíduos, a adotar a ideologia de extrema-direita e a expressar atitudes preconceituosas. Que tipo de indivíduo expressaria esta tendência autoritária? Para responder a esta questão, alguns pesquisadores procuram articular, como já fora feito por Reich, conceitos oriundos das teorias de Freud e de Marx.

Conforme assinalamos, durante a Segunda Grande Guerra, muitos cientistas, especialmente os de origem judaica, entre os quais psicólogos, sociólogos e cientistas políticos bastante conhecidos, abandonaram países de origem e se estabeleceram na Europa Ocidental e nos Estados Unidos. A preocupação central do grupo que gravitava em torno de Theodor Adorno (1903-1963) era o de identificar porque o antissemitismo encontrou acolhida tão extraordinária numa parcela mais do que razoável da população. Uma questão se impunha com vigor: o que impeliu algumas pessoas a seguirem de forma irrefletida os líderes políticos e se tornarem presas fáceis de discursos extremados, passando a adotar atitudes etnocêntricas, especialmente em relação aos grupos vistos como pouco convencionais?

O conceito de personalidade, conforme assinalado na introdução da obra A Personalidade Autoritária, representaria uma salvaguarda contra os modelos interpretativos que procuravam explicar as diferenças individuais em termos de tendências inatas ou pela raça, como era comum na “psicologia nazista” (Adorno, Frenkel-Brunswick, Levinson & Sanford, 1950). A obra se sustenta na suposição de que as convicções de um indivíduo, fossem elas sociais, políticas ou mesmo econômicas, não estavam dispersas, mas formavam um todo, organizado e sistemático, sendo esta sistematização o produto de uma mentalidade capaz de expressar as tendências mais profundas da personalidade individual.

Esta estrutura profunda seria responsável por moldar as características deste tipo de pessoa, que na aparência seria cuidadosa, respeitosa e amigável, ou seja, dominada por aquela capa de cordialidade referida por Wilhelm Reich. No entanto, além desta superfície encantadora, a vida mental destes indivíduos seria plena de contradições, pois estes seriam, a um só tempo, esclarecidos e supersticiosos, individualistas e preocupados em ser diferente dos outros, ciosos da sua independência e seguidores sem pestanejar das autoridades.

A origem deste tipo de configuração da personalidade poderia ser atribuída ao processo de socialização, em especial à presença de pais amorosos e cuidadosos, mas exageradamente punitivos, que aderiam de forma rígida aos valores convencionais e se orientavam de maneira inequívoca pelas normas socialmente estabelecidas. Estas relações conflituosas entre o amor e o ódio e entre a proteção e a punição seriam as grandes responsáveis pelo surgimento dos preconceitos. Esse seria, por assim dizer, o jeito encontrado pelas forças mentais para lidar com as demandas familiares, em particular com as pressões decorrentes dessa ambivalência afetiva. Como estaria organizada este tipo de personalidade? Quais fatores contribuiriam para o desenvolvimento desta tendência tão etnocêntrica, e como tal, tão inclinada a adoção de atitudes preconceituosas? A figura 9 representa os nove fatores organizadores da personalidade, nos moldes estabelecidos pela teoria da personalidade autoritária (Teixeira & Polo, 1975).

Figura 9: dimensões da personalidade autoritária

A primeira dimensão, a submissão à autoridade, se refere a uma tendência a se submeter de forma cega e sem questionamentos aos poderosos, e isto independe do grupo ao qual se pertence. O indivíduo é submisso ao pai, no grupo familiar; ao chefe, no ambiente de trabalho; ao líder, nos agrupamentos políticos. A segunda dimensão, a agressividade autoritária, se relaciona com uma forte tendência a ficar de olho no comportamento dos outros, mesmos que esses sejam membros do grupo de pertença, no sentido de identificar e sancionar, da forma mais dura possível, aqueles que se comportam de forma pouco convencional. A terceira dimensão, o convencionalismo, corresponde à adesão rígida e indiscriminada aos princípios da classe média pequeno burguesa, o que permite supor que quanto mais convencional o indivíduo, mais forte será a tendência a adotar uma visão de mundo preconceituosa.

O fator destrutividade e cinismo reflete a inclinação deste tipo de indivíduo a manifestar um profundo desprezo e uma hostilidade exagerada para tudo aquilo que se refere ao humano e às suas obras, o que sugere a adesão de forma intensa a uma visão pessimista da realidade. A dimensão projeção se refere à tendência a considerar que as ameaças e os perigos sempre se originam nas outras pessoas, quando se trata de um mecanismo destinado a evitar reconhecer os próprios conflitos interiores, temores, inseguranças e incertezas. O poder e a dureza, a sexta dimensão da personalidade autoritária, corresponde a uma disposição a acentuar uma visão hierarquizada do mundo, na qual é exagerada a distinção entre chefes e comandados, fortes e fracos, dominados e submissos, sendo claramente associada com a ideia de que o sentido do eu deve ser fortalecido. A tendência à superstição e a estereotipia se refere à aceitação de uma visão de mundo marcada pela crença no destino e pela admissão de que existem forças sobrenaturais que interferem no mundo dos vivos, a qual se associa uma preferência particular pela realização de interpretações marcadas por uma visão mística da realidade, que por sua vez se encontra associada a uma marcada inclinação a acolher esquemas explicativos convencionalmente aceitos, rígidos e de pouca maleabilidade. A oitava característica se refere a uma tendência a se opor de forma acentuada a qualquer coisa que seja da ordem subjetiva, a evitar a utilização da imaginação e se esquivar de formas de pensamento mais delicadas. Este temor à introspecção faz com que o indivíduo autoritário sempre prefira discutir coisas objetivas a falar sobre os seus anseios, sentimentos, paixões e temores. A nona e última característica dos indivíduos autoritários se refere a uma exagerada preocupação, quase obsessiva, em introduzir nas conversações alusões, anedotas e comentários jocosos relativos à sexualidade, o que pode ser interpretado como um efeito discernível dos mecanismos de repressão sexual.

A orientação política marxista dos formuladores da teoria da personalidade autoritária, em especial a de Adorno, suscitou a interpretação de que existia uma sobreposição entre os indivíduos com estas características autoritárias e os simpatizantes ou militantes dos partidos ou das organizações políticas de extrema-direita, sobretudo porque um dos indicadores da personalidade autoritária, a escala F, foi elaborado com a finalidade de identificar os indivíduos com traços de personalidade fascista.

Para diluir esta associação pensadores vinculados a um ideário político mais liberal, e frequentemente anticomunista, se preocuparam em deixar claro que a deriva autoritária não era uma propriedade exclusiva dos partidos fascistas e muito menos que era uma inclinação apenas de indivíduos com preferência pela extrema-direita no espectro político. A distinção estabelecida por Milton Rokeach (1918-1988), no início dos anos 1960, entre indivíduos de mente aberta e de mente fechada, representou um esforço nessa direção, podendo ser interpretado como um modelo de estudos do autoritarismo e da intolerância preocupado em se mostrar independente dos comprometimentos ideológicos e políticos (Rokeach, 1979). Nessa perspectiva, o indivíduo de mente fechada, fosse ele de direita ou de esquerda, não diferia daquele descrito como autoritário, uma vez que se caracterizaria por rejeitar claramente as ideologias, crenças e valores aos quais não adere, por uma certa falta de maleabilidade mental, sendo extremamente dogmático no plano das crenças e rígido no plano das condutas, mostrando uma forte tendência a se sentir abalado, para não dizer obcecado, quando o fundamento daquilo em que acreditava fosse colocado em dúvida. Este indivíduo se exprimiria e se comportaria em consonância com o entendimento de que as autoridades são sábias, devem ser obedecidas e respeitadas, embora vivessem constantemente numa condição de sobressalto, por acreditar que o mundo é um ambiente hostil, perigoso e cheio de armadilhas (Rokeach, 1960).

Algumas décadas depois, a preocupação em identificar de forma menos restritiva as características dos indivíduos autoritários foi retomada na obra de Robert Altemeyer, um estudioso estadunidense, radicado na Universidade de Manitoba, no Canadá. O modelo teórico de Altemeyer se mostrou bem mais parcimonioso do que o de Adorno e colaboradores, retendo apenas os três constructos destacados na figura 9, a submissão à autoridade, a agressividade autoritária e o convencionalismo.

As pesquisas de Altemeyer foram conduzidas mediante a aplicação de uma escala, cujos itens refletem os conceitos que no seu entendimento constituem o construto autoritarismo right-wing, tradicionalmente traduzido para o português como escala de autoritarismo de direita (Altemeyer, 2007). O enunciado de um dos itens, livremente traduzido, pode ser expresso nos seguintes termos:

Nosso país necessita um líder poderoso, que faça o que precisa ser feito para destruir o estilo de vida radical e pecaminoso que está nos arruinando”.

A primeira sentença (necessitamos um líder poderoso) se refere à dimensão submissão autoritária, a segunda (faça o que for necessário para destruir) à dimensão agressividade autoritária e a terceira sentença, (o estilo de vida radical e pecaminoso que vai nos levar ao buraco), ao constructo convencionalismo. De resto, as ideias centrais não diferiam muito das até aqui apresentadas, pois considerava que as pessoas autoritárias tendiam a ver o mundo como um lugar perigoso para se viver e procuravam cerrar fileira em seu próprio grupo com o intuito de enfrentar as ameaças originárias de várias frentes. O indivíduo com estas características seria alguém com uma forte tendência a aderir aos valores tradicionais, a confiar de forma cega nas figuras de autoridade e, por fim, a desenvolver um forte senso de agressão autoritária, direcionada particularmente para todo aquele que se desviasse ou se insurgisse contra os padrões tradicionais. O que tornou este modelo teórico particularmente relevante foi o poder preditivo, pois de acordo com o próprio Altemeyer (2007), no contexto estadunidense foram encontradas evidências de que os indivíduos autoritários apoiavam sem muita discussão práticas como 1) a invasão policial à redação de jornais para obter informações confidenciais; 2) batidas policiais sem autorização, nas circunstâncias em que fosse difícil obter um mandato judicial; 3) a negação dos direitos a reunião para protesto pacífico contra atos do governo; 4) a discriminação contra ativistas nas repartições de imigração; 5) o jogo sujo contra os partidos de oposição durante o período eleitoral; 6) o uso de provocadores para criar dissensão nos grupos opositores; 7) atear fogo em locais de encontro de organizações consideradas radicais; e 8) ganhar acesso de forma ilegal a correspondências e documentos dos opositores. Numa dimensão heurística, os resultados obtidos com o uso dos vários instrumentos de autorrelato permitiram identificar uma série de correlações entre o autoritarismo e outros constructos, a exemplo do preconceito (Hadock & Zanna, 1994; Duckitt (1993), atitudes (Haddock, Zanna & Esses, 1993), conservadorismo (Duckitt, 1993; Gray & Durrheim, 2006), defesa do apartheid (Meloen, Linden & Witte, 1996) e punição aos desviantes (Altemeyer, 2007).

Uma vez que as perspectivas discutidas na presente seção se fundamentam metodologicamente na obtenção de medidas individuais, não seria nada demais acentuar a importância das características particulares dos indivíduos, sugerindo o papel central por elas exercido na explicação dos estereótipos e preconceitos. Seria, portanto, plausível admitir que nas sociedades ou culturas nas quais a expressão dos preconceitos ou as políticas discriminatórias fossem mais intensas, o nível de preconceito dos indivíduos tenderia a alcançar valores muito altos e a manter fortes associações com as medidas de autoritarismo. Em que pese as evidências empíricas oferecidas pelas teorias centradas nas análises das diferenças individuais, não demorou muito para ficar claro que as coisas não eram tão simples assim. A adesão a uma concepção preconceituosa de mundo parecia ser bem mais intensa do que se imaginara, tornando-se claro que associar o preconceito a algum nível de patologia ou de distúrbio mental individual não parecia ser uma solução teórica satisfatória face a complexidade da expressão das novas formas de expressão dos estereótipos e preconceitos.

Em direção a modelos mais elaborados

Evitar reconhecer a utilização de estereótipos não significa não ostentá-los, um princípio acentuado por Gardner, Wonnacott e Taylor (1968), ao sugerirem que o fato de muitos participantes do estudo de Gilbert se recusarem a selecionar numa lista de adjetivos os traços que consideravam mais apropriados para retratar alguns grupos e categorias sociais, não indicava, necessariamente, que aqueles respondentes eram menos imunes aos estereótipos. Ademais, acentuaram que o método do checklist, embora efetivo para estimar o grau de consenso a respeito das crenças socialmente compartilhadas a respeito dos grupos alvos de julgamento, pouco contribuía para identificar como as representações estereotípicas se associavam com as atitudes e com as características idiossincráticas dos participantes. E mais do que isso, acenaram para um problema fundamental na pesquisa dos estereótipos, o de estudar um tema a respeito do qual os participantes não se sentiam à vontade para discorrer sobre o assunto e nem mesmo tinham consciência de que estavam sujeitos à influência deste processo mental.

Com base na técnica do diferencial semântico, introduzida na literatura poucos anos antes por Osgood, Suci e Tannebaum (1957), eles desenvolveram uma medida diferenciada a partir da qual os estereótipos eram avaliados mediante a análise das respostas apresentadas a um conjunto de itens, ordenados sob forma de oposições bipolares, ancoradas em cada extremo por traços positivos e negativos (confiável – inconfiável, por exemplo). Caberia ao participante assinalar, em termos do grau de intensidade, numa escala de 7 pontos, com o valor 4 ocupando a posição intermediária, o quanto o grupo alvo se situaria em relação a um dos polos desta oposição binária. Uma vez que os participantes responderam, além do instrumento assim organizado, uma escala de atitudes em relação aos canadenses de fala francesa, a categoria alvo dos estereótipos do estudo, e a duas dimensões da escala de personalidade autoritária, uma de etnocentrismo e uma outra de personalidade autoritária, Gardner, Wonnacott e Taylor utilizaram uma técnica estatística de redução de dados, a análise dos componentes principais, para ordenar os conteúdos estereotípicos. Este recurso permitiu agrupar os estereótipos que mais se associavam com as atitudes, diferenciando-os dos conteúdos puramente estereotípicos, ou seja, daqueles que não estavam intrinsecamente associados com a avaliação atitudinal dos canadenses franceses feita pelos participantes.

Os resultados obtidos sugeriram um cenário mais complexo para a avaliação dos estereótipos, não mais interpretados como uma lista de adjetivos em relação a qual os participantes selecionavam alguns itens. A análise fatorial permitiu identificar um cenário mais complexo, no qual os adjetivos foram ordenados segundo os critérios oferecidos pela diferenciação semântica dos conteúdos em aglomerados relativamente autônomos e sujeitos a uma hierarquia na qual as características dos participantes, particularmente no que concerne à personalidade autoritária, assim como em relação aos elementos atitudinais, deveriam ser considerados, o que diferia significativamente da dimensão estritamente consensual enfatizada nos estudos conduzidos segundo a técnica do checklist.

Em um estudo com numa amostra de 197 estudantes filipinos, Gardner, Kirby, Grospe e Villamin (1972) enfatizaram as vantagens da técnica do diferencial do estereótipo ao compará-la com os resultados obtidos com a técnica do checklist. A adoção do teste t para as diferenças entre as médias como recurso para mensurar o consenso possibilitou calcular a medida de dispersão de cada um dos participantes em relação a um valor padrão, algo impossível de ser obtido com a técnica do checklist, que se limitava a analisar apenas uma parcela dos dados dos participantes, ou seja, os relativos aos traços estereotípicos considerados característicos do grupo alvo da avaliação. As representações estereotípicas seriam, em termos da técnica do checklist, simplesmente definidas a partir dos traços escolhidos com maior frequência, enquanto a técnica do diferencial do estereótipo permitiria definir o estereótipo em termos da concordância relativa a um atributo de um ou outro polo percebido como mais característico do grupo alvo de julgamento. Uma vantagem adicional da técnica do diferencial envolvia a possibilidade de obter um índice das diferenças individuais em relação à tendência a atribuir traços particulares a um grupo como um todo. A partir deste indicador individual foi possível elaborar uma matriz de correlação, cuja análise permitiu concluir pela primeira vez, segundo os autores, que os participantes com tendência a aplicar os estereótipos a um dado exogrupo também tendiam a aplicar de forma mais acentuada estereótipos aos demais grupos, sem que isto afetasse a avaliação do próprio grupo.

A técnica do diferencial do estereótipo dependia, no plano analítico, da utilização do teste t para a identificação das diferenças entre as médias, numa época em que os programas estatísticos de análise de dados ainda não estavam disponíveis, o que levou os autores a escreverem um software especificamente desenhado para esta finalidade. Talvez esta dificuldade tenha sido decisiva para o pouco alcance da técnica do diferencial do estereótipo, donde o surgimento de outros recursos de coleta de dados, a exemplo das técnicas das porcentagens (Brigham, 1973) e da razão diagnóstica (McCauley & Stitt, 1978).

Após enumerar um conjunto de suposições teóricas que poderiam fundamentar um instrumento mais apropriado para a mensuração dos estereótipos e que poderiam superar os problemas suscitados pela técnica do checklist, Brigham (1973) sugeriu que os estereótipos, conceituados como generalizações injustificadas realizadas pelos percebedores a respeito de determinados grupos ou categorias, deveriam ser analisados a partir de considerações que levassem em conta as medidas individuais obtidas com cada um dos participantes do estudo. Ao apontar que a sentença “os estereótipos de x sobre o grupo y” era um enunciado impreciso, relata um estudo no qual solicitou aos participantes de três grupos, brancos universitários, brancos não universitários e negros universitários, que estimassem o quanto 30 traços estereotípicos podiam ser aplicados a três categorias sociais, pessoas brancas, pessoas negras e alemães, esperando-se, no último caso, em função da distribuição demográfica dos participantes, um maior número de concordância na avaliação dos traços conduzidos entre os três grupos.

Uma representação do estudo pode ser identificada no quadro 6, no qual os 30 traços estão registrados na primeira coluna, enquanto os três grupos alvos do julgamento estereotipado são avaliados segundo dois critérios, um pessoal e o que se imagina ser a estimativa de uma pessoa média. Os participantes, 114 estudantes de uma universidade predominantemente frequentada por negros e 86 estudantes de uma universidade predominantemente frequentada por brancos, ambas localizadas na Flórida, além de 86 não-estudantes residentes em duas pequenas cidades da Geórgia, foram instruídos a ler uma passagem especialmente elaborada pelos autores para exagerar as diferenças entre os grupos étnicos, raciais e nacionais, fomentar as generalizações e acentuar o impacto dos estereótipos nos comportamentos e julgamentos sociais. Posteriormente estimaram o quanto, em termos de percentagem, cada um dos 30 traços seria característico dos membros de cada um dos grupos alvos (por exemplo, 60% dos membros do grupo X são confiáveis).

Quadro 6: modelo do estudo de Brigham (1973), diferenciando as respostas em termos de percentagens entre o julgamento pessoal e o julgamento de uma pessoa média

Posteriormente os participantes foram solicitados a estimar, numa faixa da menor à maior percentagem incluída, o quanto cada traço era considerado pelas pessoas em geral como justificadamente aplicado a um dos grupos alvos (por exemplo, as pessoas acham que entre 45 e 65 por cento dos membros do grupo X são confiáveis). Durante a realização desta segunda tarefa estava terminantemente vedado aos participantes observarem as respostas assinaladas na primeira parte do estudo.

Na última etapa, elaborada com a finalidade de avaliar as associações entre os estereótipos e o grau de favorabilidade em relação ao grupo, os participantes responderam a uma escala de atitudes destinada a estimar as atitudes dos brancos em relação aos negros, o que demandou um conjunto especial de instruções no caso da amostra de participantes negros, que foram instruídos, no caso do julgamento do grupo alvo negro, a estimar a percentagem que eles, negros, pessoalmente acreditavam que os brancos considerariam a estimativa correta aplicável a cada um dos traços relativos aos negros.

A medida dos estereótipos, obtida pela mediana da concordância dos limites inferiores e superiores do grau de razoabilidade (o quanto as pessoas em geral acham justificado aplicar o traço ao grupo), permitiu identificar diferenças muito amplas no grau de concordância entre os três grupos de participantes ordenados por pares em relação a cada um os grupos alvos. Um raciocínio comparativo semelhante foi conduzido para avaliar as relações entre os estereótipos e as atitudes. Os resultados, uma vez mais, apontaram diferenças nas relações entre o número de estereótipos e as atitudes dos três grupos de participantes. Uma tendência geral acentuada nos resultados indicou que quanto menos acentuado foi o critério utilizado para identificar os estereótipos acerca do próprio grupo, menor foi o número de estereótipos requeridos para caracterizar o exogrupo.

A mais importante conclusão do estudo de Brigham (1973), conforme acentuamos previamente, referiu-se à admoestação de que não faria sentido, no plano analítico, concluir algo do tipo “os estereótipos do grupo x a respeito do grupo y”. Uma série de razões justificava semelhante precaução, pois não apenas a atribuição deveria levar em consideração as diferenças entre os subgrupos no interior de cada categoria de avaliadores, como também os resultados evidenciaram que as correlações entre a valência dos traços e as atitudes foram diferentes nos subgrupos. Os resultados deixaram claro, adicionalmente, que se os estereótipos poderiam estar associados a uma atitude negativa em relação a um determinado alvo em um dado grupo de participantes, esta tendência poderia se encaminhar numa direção oposta caso fosse levado em consideração outros participantes. Conforme observou Brighman (1973), a percepção das atitudes dos participantes negros se aproximou mais da maneira pela qual os participantes brancos não-universitários avaliaram os negros do que da avaliação feita pelos estudantes universitários brancos, o que o obrigou a adotar uma posição de extrema cautela na estimativa das relações entre os estereótipos e as atitudes.

O estudo de Brigham evidenciou com clareza a proximidade do estudo dos estereótipos com o campo de pesquisa das atitudes. Em certo sentido, foram postuladas associações entre o conteúdo das crenças estereotipadas e o componente cognitivo das atitudes, assim como relações entre a dimensão valência, expressa pela diferença entre os traços considerados desejáveis e os indesejáveis, e a pesquisa dos componentes afetivos das atitudes.

A formulação de modelos teóricos inovadores na psicologia social, a exemplo dos estudos sobre a atribuição da causalidade ou do programa de heurísticas e vieses, começa, nessa época, a produzir um efeito nada desprezível na maneira pela qual os estereótipos passaram a ser conceitualizados e pesquisados, uma tendência que se tornou particularmente visível no estudo de McCauley e Stitt (1978), que parte da premissa de que os modelos consagrados de estudo dos estereótipos, por se limitarem a obter medidas grupais definidas a partir do grau de concordância dos participantes, impediam novos desenvolvimentos teóricos e metodológicos.

A técnica da razão diagnóstica, caracterizada como uma nova medida individual e quantitativa dos estereótipos, foi apresentada como um recurso tanto para superar os limites da técnica do checklist, como para suprir as promessas acenadas pelas técnicas da percentagem e do diferencial dos estereótipos. Os estereótipos foram concebidos, nessa perspectiva, como conceitos fortemente associados ao campo da psicologia da predição, sendo definidos como expectativas, calculadas segundo a fórmula da razão diagnóstica, capazes de diferenciar uma categoria social de outros grupos ou categorias.

Em que consistiu o método introduzido por McCauley e Stitt? Eles solicitaram aos participantes, mais uma vez estudantes universitários, sem formação especializada em matemática, que estimassem uma série de probabilidades: a) a porcentagem de todos os humanos portadores de oito traços, previamente arrolados nos estudos de Katz e Braly e Brigham, o que funcionaria como uma estimativa de base (base rates); b) a percentagem de pessoas portadoras de cada um dos traços e que eram alemãs; c) a percentagem de alemães portadores dos traços; e d) a percentagem de pessoas no mundo que eram alemãs.

Figura 10: estereótipos como razão diagnóstica

Os resultados relativos aos três primeiros traços submetidos a avaliação estão apresentados no diagrama encontrado na figura 10, no qual podem ser identificadas as três probabilidades bayesianas estimadas e o valor da razão diagnóstica. A linha relativa ao traço “amante dos prazeres” se reveste de importância na presente discussão, pois o valor da terceira coluna, 72,8%, ainda que proporcione o valor mais alto entre todas as predições relativas aos traços dos alemães, não foi identificado no estudo como uma característica estereotípica deste grupo, como não o fora no estudo de Katz e Braly e muito menos na pesquisa de Brigham. Afinal, por que mesmo sendo consensualmente representado como um traço associado aos alemães esta característica não pode ser considerada estereotípica? Basta olhar a primeira coluna, onde se nota que 82,5% dos participantes consideraram que ser amante dos prazeres é uma característica atribuída aos humanos de modo geral. Este número é maior do que o valor atribuído aos alemães (72,8%) e uma vez que o cálculo dos estereótipos é estimado pela razão diagnóstica, conforme visto na coluna 4, o valor obtido, sendo menor do que 1, permite descartar este traço como característica estereotípica dos alemães. Um estereótipo, nestes termos, pode ser definido como uma qualidade que é atribuída com maior probabilidade a um grupo ou a uma categoria social do que aos humanos de modo geral. Neste sentido, afirmar que 63,4% dos alemães são eficientes e ao mesmo tempo estimar que apenas 49,8% das pessoas de modo geral são eficientes permite a obtenção de uma razão diagnóstica de 1,27. Considerando que um valor acima de 1 serve como indicador da presença de um estereótipo permite concluir que tanto o traço ser eficiente, quanto ser cientificamente orientado, que obteve uma probabilidade ainda menor de ser selecionado como traço característico dos alemães (43,1%), são representações estereotípicas, enquanto ser amante dos prazeres, apesar de ser um traço com uma maior escolha consensual, não se configura, nos termos da medida dos estereótipos introduzida por McCauley e Stitt, como uma característica estereotípica inerente aos alemães.

Das descrições às teorias: dificuldades e alternativas

Ao tempo em que estudos empíricos eram sucessivamente publicados, e consequentemente eram introduzidos inúmeros aperfeiçoamentos nos métodos de pesquisa sobre os conteúdos dos estereótipos, diversos pesquisadores apontaram algumas dificuldades e acenaram com soluções para os problemas suscitados por uma literatura heterogênea e em crescente expansão. A rápida difusão e o uso recorrente do termo estereótipo na linguagem cotidiana, aliada à apropriação do conceito pela indústria cultural, terminaram por insinuar aos estudiosos que se tratava de um dos conceitos de maior sucesso da psicologia social, embora isto não tenha significado que tivesse sido alcançado algum acordo quanto ao uso e a definição do termo (Fishman, 1956). A dificuldade de caracterizar os estereótipos suscitou o surgimento de muitos trabalhos de revisão da literatura destinados a escrutinar o conceito teórica e conceitualmente. O mais conhecido destes esforços de revisão foi o artigo publicado por Brigham (1971) no American Psychologist, que embora decisiva, obliterou outras obras igualmente notáveis divulgadas nas primeiras décadas de estudo dos estereótipos.

Publicado em 1941 como um trabalho empírico sobre a avaliação da forma de governo socialista por três grupos de participantes, o artigo Quatro dimensões dos estereótipos políticos definiu um estereótipo como uma estrutura conceitual que se concebe a partir da interação entre um estímulo e preconcepções padronizadas capazes de determinar a maneira pela qual o percebedor responde ao estímulo (Edwards, 1941). O artigo, embora empiricamente orientado, ganhou notoriedade por acentuar a necessidade de integrar algumas dimensões de análise a partir das quais os resultados quase sempre descritivos dos estudos prévios sobre os estereótipos poderiam ser organizados: a uniformidade, a direção, a intensidade e a qualidade. A uniformidade foi definida como a extensão pela qual a resposta de um indivíduo estava em acordo com a resposta dos demais participantes. A direção se referia ao tipo de atitude do participante em relação ao objeto de avaliação, se positiva ou negativa, enquanto a intensidade foi definida como uma medida do grau pelo qual o alvo de julgamento poderia ser avaliado em um contínuo desfavorabilidade – favorabilidade. A última dimensão, a qualidade, se referia ao conteúdo das representações estereotipadas.

Publicado uma década depois e resultado dos esforços do grupo executivo nomeado pela UNESCO com a finalidade de conduzir estudos com potencial para reduzir as tensões internacionais suscitadas pela guerra, a coletânea Estereótipos nacionais e entendimento internacional ofereceu um panorama bastante amplo do cenário imediato ao final da Segunda Grande Guerra Mundial, no qual se acenava para a urgente necessidade de reconstruir as relações entre as nações a partir dos signos da compreensão, da paz e do congraçamento entre os povos. A importância dos estereótipos nessa empreitada podia ser facilmente depreendida pela posição privilegiada ostentada na coletânea pelo capítulo escrito pelo psicólogo social Otto Klineberg. Os estereótipos foram definidos como generalizações, não fundamentadas em fatos objetivos, relativas aos traços de caráter dos membros de determinados grupos nacionais (Klineberg, 1951). Cinco proposições, tais como listadas por Klineberg, permitem identificar o panorama teórico e conceitual das pesquisas sobre os estereótipos, tais como se apresentavam no início da década de 1950. Em que consistiam estas proposições?

1. Os estereótipos são perigosos. Os estereótipos, embora não pudessem ser acusados diretamente como responsáveis pela guerra ou pelas relações hostis entre as nações, ofereciam um terreno mais do que fértil para o desenvolvimento das hostilidades. Os seus impactos, poderosos, se manifestam em vários níveis, incluindo em processos psicológicos como a percepção, o pensamento, o julgamento e as ações;

2. Ainda que os estereótipos pudessem ter algum grau de verdade, eles também poderiam ser absolutamente falsos. Isto significa dizer que não é o mero fato deles existirem que imporia algum nível de congruência com a realidade; eles poderiam simplesmente ser modos de justificação de fenômenos objetivos;

3. Os estereótipos são aprendidos. Ninguém nasce com crenças estereotipadas; as crianças não compartilham os estereótipos comuns entre os adultos. Eles são transmitidos pelos meios de comunicação de massa, incorporados e aceitos de forma indiscriminada. Felizmente, podiam ser identificados sinais de que o uso de conteúdos estereotipados nas mídias de massa estava sendo reduzido paulatinamente, devido ao esforço e ao trabalho de muitos grupos de pressão;

4. Os estereótipos sofrem transformações com a passagem do tempo e refletem as transformações econômicas e políticas de determinado período histórico. Esta formulação confirma a proposição número dois, assumindo-se que os estereótipos apenas refletem as mudanças decorrentes da passagem do tempo. O conteúdo das crenças estereotipadas não eram imutáveis e nem deviam ser interpretados como entes reificados; e

5. Os estereótipos podem e devem ser combatidos. Urge criar e fomentar programas educacionais destinados a evitar que os aprendizes pensem em termos de categorias estereotipadas. Esta seria uma tarefa imperativa, cujos efeitos só apenas se manifestariam nas gerações vindouras.

 A partir destas proposições, Klineberg, sob os auspícios da UNESCO, estabeleceu uma agenda de pesquisa com potencial para ser implementada nos anos posteriores, incluindo tópicos recorrentes de discussão na literatura, conforme observado no quadro 7.

Quadro 7: Principais questões de pesquisa sobre os estereótipos

A agenda, no entanto, não foi implementada por me mostrar assentada sob bases teóricas um tanto incompatíveis com os desenvolvimentos teóricos que começavam a despontar na área. A proposição de fundo, a de que os estereótipos eram necessariamente falsos, potencialmente perigosos e, como tais, deveriam ser combatidos e impedidos de serem ensinados às novas gerações, ainda que bem intencionada, e importante em um mundo que acabara de sair de uma guerra na qual milhões de vidas foram ceifadas, não se ajustava muito bem aos novos desenvolvimentos da psicologia social e das ciências afins.

Entre os novos desenvolvimentos teóricos, o estudo dos processos cognitivos passou a ocupar uma posição central, tal como identificamos no conceito de categorização social, definido como um elemento decisivo na expressão dos preconceitos, conforme salientado por Gordon Allport (1897-1967), em 1954, em um livro de grande impacto, A natureza do preconceito, obra que antecipou uma série de discussões retomadas posteriormente pelos teóricos do movimento da cognição social. Para um melhor entendimento do livro, cumpre-nos assinalar a posição privilegiada desfrutada por Allport na Universidade de Harvard, ao dispor de uma cátedra na qual podia encetar contatos com antropólogos e sociólogos, algo que por certo o sensibilizou para a discussão das relações entre a personalidade individual, a sociedade e a cultura. Da mesma forma, Allport conviveu em um ambiente acadêmico no qual circulava Jerome Bruner (1915-2016), que à época desenvolvia um influente trabalho na perspectiva do denominado movimento New Look in Perception, no qual se acentuava a influência dos valores e das atitudes na maneira pela qual o indivíduo percebia a realidade que o circundava (Bruner, & Goodman, 1947). No que concerne à presente discussão é importante assinalar os esforços empreendidos por Allport no sentido de caracterizar o que ele denominou personalidade preconceituosa, particularmente ao acentuar que o preconceito poderia ser entendido como uma atitude hostil em relação a uma pessoa simplesmente pelo fato dela pertence a um determinado grupo social e, como tal, que se encontraria sujeita a ser vista como alguém que compartilha atributos comuns a todos os membros da categoria social a qual é adscrita. A antipatia em relação à pessoa alvo do preconceito tanto poderia ser expressa de maneira explícita, como também a expressão da antipatia poderia se limitar ao plano do pensamento, dos sentimentos ou afetos. Por estar fundamentado em julgamentos previamente existentes, a expressão do preconceito não poderia ser concebida como uma característica exclusiva de indivíduos preconceituosos, devendo ser interpretada como uma vicissitude corriqueira, capaz de se fazer presente na vida social de toda e qualquer pessoa.

Os estereótipos foram discutidos em profundidade no capítulo 12 da obra, no qual foram definidos como crenças exageradas associadas com uma categoria social, cuja função primordial é justificar as condutas relativas aos membros da categoria (Allport, 2004). Os estereótipos, nesse sentido, representam muito mais do que concepções errôneas, pois parcialmente falsos ou verdadeiros, devem ser definidos como estruturas cognitivas relativamente complexas, elaboradas a partir de imagens idealizadas e rótulos verbais, dotadas do poder de ancorar as representações sobre as categorias sociais e servir como dispositivos para simplificar a percepção e o pensamento, assim como para justificar a aceitação ou a rejeição de determinados grupos sociais. Os estereótipos funcionam como elementos de seletividade, suscitando lembranças de determinados conteúdos mentais e esquecimento de outros, um processo intrinsecamente associado com as atitudes positivas e negativas mantidas em relação aos diferentes grupos sociais.

As principais divergências entre as diferentes concepções dos estereótipos, elencadas por Klineberg e intensificadas com a introdução da perspectiva da cognição, podem ser identificadas na revisão publicada poucos anos depois por Fishmann (1957). O ponto de partida da argumentação acentuava a ruptura com a dupla tese de que os estereótipos poderiam ser interpretados como um tipo de julgamento baseado em um raciocínio de qualidade inferior e, como tal, terminaria por favorecer à aceitação de interpretações contrárias à realidade dos fatos. Esta contestação refletia uma hipótese, cada vez mais popular entre os estudiosos, de que não apenas os estereótipos podem conduzir, em algumas circunstâncias, a uma avaliação apropriada dos grupos alvos de julgamento, como também que eles se fundamentam em modos de pensamento fenomenologicamente apropriados, sendo inaceitável admitir, portanto, que eles devem ser interpretados exclusivamente como estruturas mentais marcadas pela rigidez atitudinal.

Uma importante dimensão de análise introduzida na revisão de Fishman se refere à tentativa de ampliar o escopo de estudo dos estereótipos mediante a inclusão de conhecimentos oriundos da psicologia social e de outros campos especializados do conhecimento. No primeiro caso, merece destaque a ênfase atribuída aos estudos conduzidos sob a égide dos processos grupais. Por esta via, conceitos como os de pertença grupal, grupos de referência, pressão social e conformidade ganharam visibilidade. Os processos grupais passam a ser interpretados como a base motivacional para a ativação e a aplicação dos julgamentos estereotipados, sendo tratados como elementos decisivos para expressão da identificação simbólica dos membros com os grupos aos quais se encontram afiliados. Exprimir estereótipos facilita a aceitação do indivíduo com o grupo e cria uma estrutura representacional que faz com que os indivíduos se sintam mais confortáveis. Ao acentuar a importância dos processos grupais no estudo dos estereótipos, Fishman lançou um desafio aos estudiosos: quem seria capaz de identificar na literatura alguma pesquisa que tenha empregado o conceito de estereótipos sem aludir a algum grupo humano?

A revisão de Fishman, no entanto, não se restringiu a acentuar a importância da psicologia social, pois também levou em consideração as contribuições de outras áreas do conhecimento, a exemplo, das teorias da comunicação e da linguagem. Processos como os de categorizar, ou seja, aplicar rótulos verbais aos referentes dos estereótipos, ou utilizar os adjetivos como predicativos dos membros das categorias objeto de rotulação, já vinham, como assinalamos previamente, sendo objeto de interesse dos pesquisadores desde os estudos iniciais sobre os estereótipos. Além desta dimensão, Fishman acentuou a importância da linguagem como um elemento fundamental na criação de mitos de legitimação, em particular na utilização da linguagem estereotipada para insuflar o nacionalismo e difundir visões etnocêntricas de mundo. Além disso, deixou claro que conceitos como os de atmosfera verbal, recodificação e quantidade de informação, deveriam se constituir na base conceitual a partir da qual poderiam ser esperados novos desenvolvimentos, ao acenar como particularmente promissora a articulação entre a psicologia social dos estereótipos e os estudos conduzidos em áreas como as do folclore e a dos ditados e saberes populares (Zacharasiewicz, 2010).

É importante salientar que a frequente aproximação entre os estereótipos e o domínio de estudos da linguagem permitiu que o tema fosse objeto de interesse por pesquisadores com formações científicas alheias à psicologia ou a sociologia. Esta tendência já se pronunciara, por exemplo, em 1948, quando um importante linguista proferiu uma conferência numa associação de professores de inglês, cujo título, Reconhecendo os estereótipos como substitutos do pensamento, deixa claro que o interesse pelo assunto ultrapassara o domínio das disciplinas antes citada e admoesta que o perigo suscitado pelos estereótipos se tornava a cada dia uma questão a ser enfrentada não apenas pelos cientistas, mas pelas sociedades modernas como um todo. Para Hayakawa (1949), o perigo dos estereótipos não residia na sua utilização cada vez mais ampla, mas em um enorme perigo que o seu uso indiscriminado poderia suscitar: o de que as crenças estereotipadas pudessem se transformar em substitutos naturais da observação. Nesta perspectiva, os estereótipos se associam a modos de pensamento a partir dos quais as pessoas regidas pelo mundo das palavras podem ter as suas condutas determinadas muito mais pelas associações verbais literais do que pelo mundo real no qual vivem, perdendo contato com a realidade. Fugir do perigo dos estereótipos significaria, portanto, ampliar cada vez mais o contato com a realidade, mediante um mergulho não no mundo estritamente simbólico das palavras, mas no estabelecimento de contatos genuínos com objetos reais, as imagens e os sons presentes do mundo real, articulando-os com os sentimentos e os movimentos inscritos nas ações humanas. O perigo dos estereótipos estava cada vez mais presente no mundo moderno, sendo necessário, para combatê-los, abandonar as ações verbais recorrentes, corriqueiras e repetidas e se tornar mais e mais cidadãos aferrados ao mundo real.

Compreendidos como recursos inerentes às relações mediadas pela linguagem entre os vários grupos sociais, torna-se possível entender as razões pelas quais os estereótipos não se banalizaram e preservaram o estatuto de cientificidade que ostentam desde os anos 1930. Richter Jr. (1956) se preocupou em especificar o uso do termo estereótipo a partir do entendimento de que uma representação estereotipada dificilmente poderia ser aplicada a todos os membros de uma mesma categoria, sendo útil exclusivamente se fosse possível assimilar as exceções à regra e os mecanismos a serem utilizados nas circunstâncias em que eram encontrados exemplares que os contradiziam. Para tal, na tentativa de explicar como continuavam sendo utilizados mesmo nas circunstâncias em que fossem encontrados exemplos contraditórios, estabelece a distinção entre o processo de generalizar e o tipo de proposição caracteristicamente utilizada durante o processo de diferenciação. A base conceitual dos estereótipos implicava na diferenciação entre as generalizações empíricas e as definições estipuladas, ou seja, aquelas que se justificam por inferências dedutivas ou indutivas em contraposição às definições que mesmo não encontrando apoio no raciocínio lógico passam a ser difundidas e aceitas sem discussão. Durante o processo de estereotipização estas duas dimensões permanecem indiferenciadas e agregadas a um mesmo padrão de resposta e sustentadas por uma mesma forma verbal, o que favorece a expressão de uma estrutura de raciocínio contraditória, mas utilizada sem reservas por alguns tipos de  percebedores.

Vinacke (1957) reiterou a relação entre os estereótipos e a linguagem na revisão Estereótipo como conceito social, estabelecendo a necessidade de qualificar o termo como um tipo particular de conceito, diferenciando-o dos preconceitos, entendidos como uma classe particular de atitudes comuns às pessoas preconceituosas. Neste sentido, os estereótipos compartilhariam todos os atributos de qualquer conceito, sendo particularmente decisivos na organização da experiência. Estatisticamente, deveriam ser entendidos como uma coleção de traços concebidos como apropriados por uma larga porcentagem da população para descrever uma dada classe de indivíduos, definindo-se a estereotipização como a tendência a atribuir, mediante o uso de rótulos verbais, características simplificadas e generalizadas a um grupo de pessoas (Vinacke, 1957). Ao diferenciar o processo, a estereotipização, do produto gerado por este processo, Vinacke conduziu uma revisão sistemática dos fatores decisivos na estereotipização, embora não tivesse ido muito além daqueles elementos previamente sugeridos por Edwards: conteúdo, uniformidade, intensidade, familiaridade e autoatribuição. Os estereótipos seriam conceitos, e como tais, aprendidos especialmente, mas não apenas, nas etapas iniciais do processo de aprendizagem social, mediante o manuseio das características físicas e psicológicas das pessoas percebidas, o que permitia a eliciação de respostas significativas para estas pessoas e consistentes com as ações delas provenientes. A ênfase na dinâmica dos estereótipos permitiu a Vinacke instar aos estudiosos a se despreocuparem com os conteúdos dos estereótipos e se dedicarem mais ao entendimento da dinâmica dos processos de estereotipização.

O papel desempenhado pela aprendizagem também ocupou um importante papel nas teorizações sobre os estereótipos durante os anos 1960. Uma das tentativas mais significativas de discutir as bases teóricas dos estereótipos em consonância com esta noção foi o discurso presidencial lido por Donald Campbell na reunião de 1967 da Midwestern Psychological Society e publicado no periódico American Psychologist. O esforço de Campbell se insere numa perspectiva complementarista, ao articular as contribuições do behaviorismo de Clark Hull, do movimento New Look in Perception e da psicologia social fenomenológica associada ao nome de Salomon Asch. Esta articulação parecia resultar do desconforto com as noções subordinadas ao realismo ingênuo, em particular a de que os estereótipos deveriam ser entendidos exclusivamente como construções elaboradas pelo percebedor, a partir das suas visões de mundo, mantendo pouquíssimas conexões com a realidade social. Assim entendidos, podiam ser definidos como projeções mentais, mantendo poucas vinculações com elementos concretos da experiência real dos percebedores. Campbell, com base na sua formação em sociologia e nos estudos etnográficos conduzidos ao lado do antropólogo Robert LeVine em diferentes culturas, não se sentia a vontade em deixar de reconhecer as diferenças nos fenótipos e nas pautas de conduta de distintos grupos culturais e acenou para uma perspectiva teórica na qual seria imprescindível acentuar a importância dos estímulos perceptuais, sem que isso significasse destituir a importância dos fatores intrapsíquicos. Os elementos requeridos para a explicação da percepção estereotipada de um grupo ou categoria social estão representados no diagrama encontrado na figura 11.

Figura 11: fatores determinantes na percepção de um grupo estereotipado, diferenciando o estímulo percebido e as características intrapsíquicas do percebedor

Campbell acentuou que a probabilidade de percepção de um estímulo residia inicialmente em atributos inerentes ao próprio estímulo, no caso, a intensidade, à qual se acrescia a experiência fenomenológica do percebedor, que não poderia ser traduzida numa simples reprodução interna isomórfica ao estímulo, uma vez que a constituição do campo perceptual demanda a contribuição de fatores intrapsíquicos, como os motivos (drives), os incentivos, fortemente determinados pelos valores, e as experiências prévias de aprendizagem, associadas a variáveis como a familiaridade e a habituação. Em que sentido, então, frente a uma determinada pessoa, é possível estabelecer esta diferenciação e assinalar que algumas pessoas são capazes de percebê-la de forma estereotipada e outras não? Se considerarmos que a intensidade do estímulo é a mesma, o que explicaria esta diferença no julgamento senão o efeito dos motivos que impelem cada pessoa, dos valores que acolhem e da maior ou menor familiaridade com o grupo alvo? Esta afirmação seria suficiente para admitir que os estereótipos seriam apenas projeções dos nossos estados mentais internos? Para Campbell, aceitar esta perspectiva inteiramente relativista implicaria em admitir que os estereótipos são necessariamente representações imperfeitas da realidade e, em última instância, que não existem diferenças reais entre os grupos, donde a admissão de que se a percepção não pode acorrer na ausência de um estímulo, as representações estereotipadas devem conter, em certa medida, um fundo de verdade.

Com base no entendimento previamente exposto, é possível admitir que os estereótipos a respeito de um determinado grupo refletiriam tanto as características do grupo alvo do julgamento, bem como os sistemas de referências comuns ao grupo no qual estão incluídas as pessoas que sustentam a representação estereotipada. Conforme observado na figura 11, um acréscimo na intensidade da percepção do grupo alvo do julgamento pode ocorrer se as diferenças do grupo alvo em relação ao que se concebe como característica comum do grupo de quem faz o julgamento for muito acentuada. A este efeito de contraste se agrega o impacto do grau de contato com o objeto de estímulo, podendo-se supor que uma maior frequência de contato imponha estereótipos mais vívidos.

O ano de 1971 testemunhou o esforço dos estudiosos em encetarem cada vez mais discussões teóricas e conceituais sobre os estereótipos, pois nesse ano, além da publicação do altamente citado artigo de Brigham, também saiu à luz o notável esforço de síntese da literatura publicado por Cauthen, Robison e Krauss (1971). Após revisarem a literatura produzida entre 1926 e 1968, caracterizaram os estereótipos como condutas verbais que sofriam variações a depender da nacionalidade e da classe social de quem os ostentava e apresentaram uma classificação dos métodos de pesquisa tradicionalmente utilizados, diferenciando os que usavam fotografias daqueles que se valiam do uso de adjetivos e de sentenças para a avaliação dos conteúdos estereotípicos.

A maior parte da revisão, no entanto, foi dedicada à análise das diferentes dimensões da estereotipização e das interrelações entre cada um destes elementos definidores. Além dos quatro fatores previamente assinaladas por Edwards, o conteúdo, a uniformidade, a direção e a intensidade, acentuaram mais alguns, a exemplo da familiaridade, da aprendizagem, dos estereótipos a respeito do próprio e dos outros grupos, da forma pela qual eles são processados e a questão do fundo de verdade dos estereótipos.

Caracterizados como condutas verbais, os estereótipos foram conceituados como agrupamentos de palavras localizados em um espaço dimensional, ordenado em torno do nome do grupo alvo. O espaço organizador dos conteúdos estereótipos circunscreveria tanto uma dimensão denotativa, o que significa dizer que adjetivos semelhantes podem ser atribuídos a grupos diferentes, quanto numa dimensão conotativa, uma vez que estes mesmos conteúdos, embora semelhantes semanticamente, poderiam se revestir de significações distintas, a depender do grupo ao qual se refere ou da meta do percebedor.

A uniformidade, entendida como um conceito que se refere à maneira pela qual os membros do grupo alvo são percebidos como mais ou menos homogêneos, relacionar-se-ia fortemente com a familiaridade, sendo possível admitir que os membros do grupo com os quais o grau de familiaridade é mais reduzido são percebidos de maneira mais uniforme, enquanto aqueles grupos com os quais os percebedores mantém mais contato ou possuem algum conhecimento são vistos como mais heterogêneos.

A dimensão intensidade dos estereótipos foi tratada como uma medida mensurada indiretamente a partir do cálculo do grau de desejabilidade dos traços estereótipos ou de uma forma mais incisiva, mediante o questionamento ao participante do grau de favorecimento ou de simpatia que ele nutre em relação aos diferentes grupos estereotipados. A intensidade passa a ser concebida, neste caso, como um elemento que se refere muito mais às características do percebedor, principalmente o grau de preconceito, do que se refere a algum atributo particular do grupo alvo do julgamento.

A dimensão direção se relacionava precipuamente com a valência, ou seja, com o grau em que o grupo alvo dos estereótipos é percebido de uma forma mais ou menos positiva ou negativa. Aproximar-se-ia, em certo sentido, dos conceitos de preferência ou de distância social, acolhendo-se a tese de que as pessoas preferem se manter mais próximas ou agraciam com atributos mais positivos aquelas que pertencem aos grupos positivamente avaliados.

Deixamos para o final desta seção a discussão da revisão publicada por Brigham (1971) não porque ela tenha uma importância menor. Ao contrário, trata-se de uma das revisões mais festejadas na literatura sobre os estereótipos, não apenas por acentuar as dificuldades metodológicas e axiológicas envolvidas no estudo e na pesquisa do assunto, como também por procurar compreender como estas dificuldades se refletiram na ausência de teorias aceitáveis sobre os estereótipos. Brigham sugeriu quatro grandes fatores responsáveis pelo estado incipiente das pesquisas na área:

a) os limites metodológicos do principal paradigma de pesquisa, uma vez que a interpretação dos resultados permanecia insatisfatório, representando muito mais um artifício metodológico do que uma representação aceitável das características atribuídas aos grupos alvos de julgamento;

b) os resultados publicados refletiam sobretudo o compartilhamento de determinadas crenças socialmente compartilhadas, uma vez que as medidas de consenso usualmente obtidas pelo método do checklist a respeito dos traços atribuídos aos diferentes grupos étnicos possuíam apenas um significado sociológico ou estatístico, pouco contribuindo para compreender o processo de estereotipização;

c) a magnitude da generalização dos resultados aparentava ser muito generosa, em particular quando se comparava os resultados obtidos com a técnica do checklist com os alcançados com medidas menos impositivas; e

d) a preocupação com os processos psicológicos sempre permaneceu em segundo plano, pois os estudos se voltavam prioritariamente para a análise da frequência e da distribuição dos traços estereotípicos relativos aos grupos ou categorias alvos de julgamento.

Apesar da postura crítica, Brigham reiterou a importância da continuidade de estudos, considerando o conceito de estereótipos uma categoria científica decisiva para a compreensão da conduta social humana. Numa tentativa de melhor delimitar o termo, apresentou uma estrutura conceitual diversa, ao definir os estereótipos como generalizações, consideradas injustificadas por um observador, a respeito dos traços psicológicos atribuídos a determinados grupos sociais. Esta definição, ao introduzir o critério de justificabilidade como elemento central de análise, suscitou um novo conjunto de questões. Quem seriam os observadores que consideravam os estereótipos como injustificados senão os próprios pesquisadores, psicólogos, sociólogos e demais cientistas sociais? Uma vez que os cientistas que definiram os estereótipos como injustificados não apresentaram critérios válidos para esta caracterização, os estereótipos deveriam ser interpretados como suposições assumidas como válidas por estes cientistas, mesmo que não fossem levados em consideração critérios propriamente empíricos de definição. Para Brigham, o estudo dos estereótipos apenas alcançaria o estatuto de cientificamente justificado quando os pesquisadores tornassem explícitas as suposições que lhes serviam de fundamentos para a caracterização de uma conduta como estereotipada. Numa tentativa de contribuir com esta explicitação apresentou sugestões relativas à mensuração dos estereótipos, à maneira pela qual eles eram socialmente aprendidos, a respeito do grau de aceitação e de saliência, bem como sobre as relações entre os estereótipos, as atitudes e as condutas.   Ainda que muitos pesquisadores não tenham levado muito a sério estas contribuições positivas do artigo de Brigham, o impacto das críticas foi decisivo na direção posterior dos estudos, proporcionando transformações significativas na maneira pela qual os estereótipos passaram a ser definidos e caracterizados. Com a crescente popularização da perspectiva da cognição e, em particular, da cognição social, o horizonte apontava para um conjunto de transformações teóricas, conceituais e metodológicas, a partir do momento em que a ênfase dos pesquisadores passou a ser a de estudar os estereótipos com base no entendimento de que eles deveriam ser interpretados como processos psicológicos ativados em um agente dotado de capacidades cognitivas limitadas. Ao longo do período em que esta tendência se torna definitivamente hegemônica passa a vigorar, nas sociedades ocidentais, uma série de transformações sociais, políticas e culturais que modificaram profundamente não apenas a sociedade e os costumes, mas também o campo de estudo dos estereótipos e dos preconceitos.

Os estereótipos nos anos 1960: mudanças e transformações

Os anos 1960 foram emblemáticos, uma vez que neste período vários movimentos de contestação levantaram críticas muito acentuadas a uma ampla gama de práticas sociais. Estes movimentos apontavam para a necessidade de se conduzir mudanças radicais que não poderiam ser circunscritas a determinados contextos, devendo afetar o sistema como um todo e não se limitar a uns pouco países ou a determinados tipos de práticas sociais. Na sua radicalidade, estes movimentos contestatórios se empenharam numa profunda crítica aos caminhos tomados pela humanidade, retratada como um veículo desembestado descendo sem freios a ladeira da irracionalidade.

Para especificar a amplitude dessas transformações e, sem pretender ser exaustivo, listamos abaixo uma série de eventos, acontecimentos e descobertas que modificaram significativamente os costumes e as relações sociais mais marcantes desta década:

– maio de 1968 e o movimento estudantil;

– o movimento pacifista;

– o movimento pós-colonialista;

– os verdes e o movimento ecologista;

– o movimento feminista;

– o pós-marxismo

– A cultura New Age;

– o movimento em direção a uma vida mais comunitária;

– o movimento hippie, a cultura paz e amor e a volta à natureza;

– a crítica à sociedade de consumo;

– o surgimento da pílula anticoncepcional e a mudança dos hábitos sexuais;

– a revolução sexual e a crítica à moral sexual conservadora;

– mudanças na moda: minissaia, calça jeans, jaqueta de couro e topetes;

– Timothy Leary e as drogas, psicodélicas ou não;

– novos estilos musicais: Beatles, Rolling Stones, Frank Zappa, Jovem Guarda, Tropicalismo e Raul Seixas;

– novas formas de expressão artística: On the Road, Andy Wharhol, o Teatro de Arena e o CPC;

– uma nova cinematografia: Easy Rider, James Dean, Marlon Brando, Brigitte Bardot e o Cinema Novo;

– os movimentos antirracistas: Martin Luther King e Malcom X.

Em que medida estes movimentos, capazes de impor profundas transformações nos sistemas políticos, nos ritmos cotidianos, nas várias formas de manifestação artística, na moda e nos padrões de consumo produziram mudanças na maneira pela qual os estereótipos estavam sendo concebidos e estudados? E, mais importante, em que medida estas propostas em sua radicalidade imanente foram capazes de causar impactos significativos no sentido de reduzir a expressão dos estereótipos, dos preconceitos e da discriminação?

Desafortunadamente devemos assinalar que estes movimentos ajudaram a evidenciar o quanto os estereótipos e preconceitos estavam profundamente enraizados na cultura e nas mentalidades, o que suscita o o entendimento de que as mudanças ocorridas na década de 1960, assim como ocorrera com o impacto dos movimentos antissegregacionistas dos anos 1950, não foram suficientes para produzir mudanças substanciais no que concerne aos impactos deletérios do racismo e das diferentes formas de discriminação, pois o acolhimento e a expressão de estereótipos e atitudes preconceituosas permaneceu sendo uma prática corriqueira, mesmo entre militantes, simpatizantes dos movimentos contestatórios, apocalípticos e inconformistas.

A persistência dos estereótipos e preconceitos na década de 1960 proporcionou o surgimento de uma tendência analítica a deixar de analisá-los como algo inerente aos indivíduos, a preocupação predominante nos anos 1950. Eles passaram a interpretados como o resultado do acolhimento de determinadas normas sociais, uma vez que em muitos contextos a discriminação permanecia sendo o padrão mais comum de conduta, em que pese as críticas devastadoras impostas a partir dos diversos movimentos sociais, uma interpretação reforçada pelo entendimento de que em muitos locais, a exemplo da África do Sul do regime do apartheid, e o sul dos Estados Unidos, onde o preconceito continuava arraigado, não poderiam ser identificadas diferenças significativas nas medidas individuais dos preconceitos quando os resultados eram comparados com os dados obtidos com pessoas que viviam em regiões nas quais a discriminação não se manifestava de forma tão acentuada (Pettigrew, 1958). Se o problema não poderia ser subscrito ao nível de interpretação individual, a cultura se tornou o plano mais apropriado para a elaboração de teorias explicativos sobre os estereótipos e preconceitos.

As normas sociais ganharam o status de categoria preferencial para explicar por que em meio a tamanhas transformações sociais e dos costumes os estereótipos foram pouco afetados (Cialdini, 2012). Este movimento teórico reduziu a importância dos modelos explicativos fundamentados no nível individual de interpretação. O interesse principal, no plano teórico e empírico, passou a ser o de identificar como os estereótipos sociais eram criados e difundidos, adotando-se, no âmbito da pesquisa, estratégias metodológicas assentadas na utilização sistemática da observação dos comportamentos, sobretudo de crianças em idade escolar, ao tempo em que se assiste, concomitantemente, o surgimento de uma forte tendência a utilizar mais amiúde as técnicas de autorrelato.

Uma pergunta se destacava nessa época: como as normas sociais se disseminam e posteriormente se tornam capazes de afetar a criação, a manutenção e a difusão dos estereótipos e dos preconceitos? Dois conceitos, segundo o entendimento de Duckitt, ofereceram respaldo para estas aproximações teóricas, o de socialização para o preconceito (França, & Monteiro, 2002) e o de conformidade.

Toda criança chega ao mundo em um determinado contexto, usualmente, uma família, mais ou menos preparada para recebê-la e, muito rapidamente, aprende o lugar das coisas. Em pouco tempo a criança se encontra apta a usar a linguagem, controlar as funções biológicas e a usar, e bem, as emoções e os sentimentos para obter aquilo que deseja. A criança se insere na cultura de uma forma natural e sem esforço e, ao mesmo tempo em que aprende rotinas imprescindíveis para viver plenamente em sociedade, também aprende outras coisas não tão positivas, a exemplo de ser preconceituosa, discriminar e acolher estereótipos. Como uma criança, para o bem e o mal, aprende tudo isto em tão pouco tempo?

O modelo clássico de estudos, elaborado a partir da metáfora da agulha hipodérmica, procurava explicar como a criança assimila e incorpora um conjunto de crenças a respeito do mundo físico e social, sendo uma parte significativa destas crenças relativa aos grupos alvos dos estereótipos e dos preconceitos. A suposição central deste modelo é a de que a criança, ao aportar no nosso mundo encontra uma realidade social preparada para acolhê-la e que os cuidadores, relativamente bem habilitados, oferecem um bom suporte vital inicial, pois dispõem de roteiros que lhes permitem acolher (muito) bem estas crianças. A ideia central desta tese é a de uma comunhão entre quem é cuidado e os cuidadores, no qual os últimos ensinam e oferecem os roteiros apropriados a serem adotados nas mais diversas circunstâncias, enquanto as crianças assimilam, interiorizam e armazenam as rotinas, utilizando-as nas circunstâncias em que eles se fazem necessárias.

Decerto o modelo da agulha hipodérmica não postula uma pura e simples inoculação de conteúdos externos na cabeça do aprendiz, pois aponta para um entendimento mútuo no qual se encontram presentes fatores tão diversos quanto uma herança cultural, adultos que apresentam e ensinam desde muito cedo aos aprendizes as condutas apropriadas para cada situação particular e crianças que se engajam ativamente no exercício de dominar, com maior ou menor habilidade, os roteiros apropriados para cada contexto. Este modelo, no entanto, se mostrou insatisfatório ao não ser capaz de especificar como ocorre o processo de interiorização das normas sociais, pois claudica ao tentar responder como a criança adquire certos tipos de conhecimento e não outros e não ajudar a explicar como o conhecimento é utilizado para a consecução das tarefas mais ordinárias e corriqueiras.

Um dos aspectos mais marcantes nos estudos sobre a socialização para o preconceito, e que sobejamente demonstra os limites do modelo da agulha hipodérmica, reside na descoberta de que a criança muito cedo começa a usar termos e expressões que não conhece ou não compreende o significado, mesmo não tendo a mínima consciência de que estes termos e expressões servem para desqualificar uma pessoa ou um grupo. Ela pode tremer de medo quando escuta a palavra cigano, ainda que não faça a mínima ideia de quem são os ciganos ou se encontre em condições de diferenciar, a partir de pistas visuais, os membros dessa categoria social, diferenciando-os daqueles que pertencem a outros grupos étnicos.

Schneider (2004) sugere duas modalidades básicas de difusão das crenças estereotipadas, identificando como estas se articulam com os mecanismos psicossociais de socialização para o preconceito, tal como apresentado no diagrama encontrado na figura 12.

Figura 12: Influências diretas e indiretas na socialização para o preconceito

Julgamos desnecessário enfatizar que nenhuma criança chega ao mundo nutrida de habilidades cognitivas dignas de nota, muito menos com crenças estereotipadas ou atitudes preconceituosas perfeitamente formuladas. Para ser capaz de produzir um julgamento estereotipado, a exemplo de uma criança que diz para uma outra que menino não chora, é necessário um conjunto de operações, cognitivamente complexas e socialmente validadas, nas quais estão presentes elementos como perceber a pessoa, buscar na memória as categorias sociais e as características a estas associadas, reconhecer a pessoa percebida como membro da categoria social, identificar se os comportamentos ou as características daquela pessoa são compatíveis com o que se espera dos membros da categoria, ativar os sentimentos e afetos vinculados com a categoria alvo, selecionar os comportamentos apropriados e descartar os indevidos em relação aos membros da categoria alvo do julgamento.

Afirmar que uma criança chega ao mundo sem os recursos necessários para conduzir julgamentos estereotipados não significa, entretanto, defender o ponto de vista de que a cabeça de uma criança pode ser comparada com um coco mole e que a cultura funciona como uma seringa que injeta na mente do aprendiz as informações necessárias para o bem viver. O modelo da agulha hipodérmica está longe de representar a complexidade das relações que a criança estabelece com o mundo durante a socialização. Por certo a criança aprende com os pais, sofre influências e, aos poucos, ajusta as suas condutas, tornando-as consonante com o esperado pelo ambiente familiar. Esta, entretanto, não é uma via de mão única, pois a criança, à sua maneira, também é capaz de ensinar, influenciar e controlar o comportamento dos pais… e ela aprende muito rapidamente a fazer isso!

Obviamente, o controle estabelecido por uma criança conhece limites e, como seja, é inequívoco que as atitudes preconceituosas são facilmente ensinadas pelos pais e aprendidas pelas crianças, desde que estas disponham os recursos cognitivos requeridos para decodificar a mensagem transmitida e aplicar o conhecimento recém-adquirido para conduzir os seus julgamentos. As formas diretas de socialização para o preconceito se referem ao processo mediante o qual os pais, amigos e professores influenciam de forma imediata o aprendiz, acentuando o que e como se deve pensar sobre as outras pessoas e de que maneira estes pensamentos devem ser utilizados para definir as pautas de conduta em relação aos alvos do julgamento.

Deste modo, se em um ambiente escolar uma criança muito pequena escuta uma outra afirmar que Pedrinho é diferente (pela cor, pelo modo de falar ou pelo jeitinho singelo) e que por isso ele não deve ser bem tratado e se esta criança presencia os colegas maltratando o coleguinha, então é natural que a criança admita que existem pessoas diferentes, e isso inclui aquele coleguinha, bem como não se pode estranhar que ela chegue à conclusão de que não é nada demais tratar daquela maneira os diferentes, incluindo Pedrinho, e outros colegas mais fofinhos. A criança não apenas aprende a diferenciar as pessoas e incluí-las em classes, como também, após classificá-las, pode decidir o que pensar dos membros de cada classe e como deve se comportar em relação a cada um deles. Este processo pode ser mais ou menos deliberado, por exemplo, quando os pais dizem para não se aproximar de fulano ou beltrano, quando os professores mandam tomar cuidado com x ou y ou quando os colegas estabelecem uma divisão entre aqueles com quem se pode brincar e assinalam, à sua maneira, aqueles que podem, e devem, ser objeto de assédio físico e moral.

Obviamente a criança pode se insurgir contra as normas predominantes no ambiente em que se encontra, mas o custo da desobediência é muito alto para alguém que ainda não desenvolveu um sistema de valores muito sofisticado. Aliás, os custos da desobediência não são elevados apenas para as crianças, pois mesmo nós, adultos, tendemos a nos conformar com as normas que fundamentam as relações sociais, sobretudo quando as ações incompatíveis com as normas são sancionadas por pessoas muito próximas.

Além das formas imediatas de socialização para o preconceito é possível destacar que nem sempre é necessário falar de forma direta e objetiva para demonstrar ou ensinar alguma coisa. As formas indiretas de socialização ocorrem quando o percebedor observa e posteriormente imita exemplos concretos, assim como mediante o uso de estratégias mais sofisticadas nas quais o agente não expõe de maneira ostensiva as suas opiniões a respeito de um determinado grupo ou categoria social, embora deixe no ar uma série de pistas sobre o que pensa ou sente a respeito do assunto. Estas duas formas de socialização indireta contribuem decisivamente para a criação de um contexto cultural regido por normas sociais responsáveis pela manutenção e difusão dos estereótipos e dos preconceitos.

Um professor, por exemplo, pode não tratar de forma discriminatória ou exprimir seus preconceitos em relação aos membros de uma dada categoria social, mas se durante a interação com alguém deste grupo expressar má vontade, raiva, desgosto ou mal estar, os estudantes podem identificar neste padrão de conduta a forma apropriada de se relacionar com os membros da categoria alvo e em seguida, pela via da imitação, podem passar a se conduzir da mesma maneira. É importante assinalar que, neste caso, não é necessário o professor apontar de forma ostensiva e nem indicar os sentimentos e afetos associados ao alvo. O poder dos modelos, assim como a influência exercida pelas figuras de autoridade, tem sido recorrentemente identificado na literatura especializada para que aqui insistamos no papel desempenhado pela imitação na manifestação de condutas pouco normativas. (Bandura, 1962; Chartrand, & Bargh, 1999; Heyes, 2011; Schlag, 2012).

Além do poder do exemplo, uma outra forma indireta de socialização para o preconceito envolve a oferta de pistas e demais elementos que, embora não façam apelo direto aos padrões normativos, oferecem indícios para que o percebedor defina e caracterize os padrões de conduta a serem adotados durante a interação com os membros do grupo alvo. A família, as organizações ou instituições, como a igreja, a escola ou os clubes, assim como a mídia, são os principais responsáveis por produzir pistas que contribuem para o fortalecimento de um sistema de normas compatíveis a manutenção dos estereótipos e preconceitos. Apesar de despertarem mais confiança e serem avaliadas mais positivamente do que outras instituições, a família e as instituições escolares são decisivas na socialização para o preconceito.

Além da família e da escola, importa assinalar a influência dos meios de comunicação de massa na construção de uma visão de mundo marcada pelas diferenças entre os grupos e categorias sociais (Scheneider, 2004), embora isto não signifique dizer que todos os agentes de mídia se preocupem deliberadamente em imprimir as visões preconceituosas que acolhem nas mensagens. Um jornalista, um autor de telenovelas, um cronista esportivo, um colunista social, um publicitário, seja quem for, todos estamos imersos em um mundo desigual e compartilhamos boa parte da visão de mundo e dos estereótipos e preconceitos presentes na cultura e na sociedade.

Como, afinal, os meios de comunicação de massa oferecem suporte a este modelo de mundo no qual preconceitos e estereótipos são vistos como relativamente normais? Um primeiro indicador a ser considerado se refere à pouca representatividade de algumas categorias sociais. Tentemos lembrar, por exemplo, de um documentário cinematográfico no qual a locução seja feita por uma narradora? Foi fácil conseguir? Difícil, pois ao contrário das obras de ficção, nas quais o autor imprime a sua própria visão de mundo, recriando os conteúdos a partir das suas habilidades criativas, um documentário geralmente tem o caráter de não ficção e, como tal, deve ter credibilidade. Isso significa, então, que os homens são mais críveis do que as mulheres? Obviamente que não, mas para os produtores de documentários…

No universo da publicidade, a baixa representatividade de algumas categorias é uma característica marcante. Publicamos, ao lado dos psicólogos Altair Paim, Walter da Mata e Gilcimar Dantas, um estudo no qual analisamos as peças publicitárias difundidas no horário nobre pela principal emissora televisiva da cidade do Salvador, Bahia. O nosso objetivo central foi identificar as correspondências entre as características demográficas da população e a frequência com que os personagens foram retratados nas peças publicitárias (Pereira, Paim, Mata & Dantas, 2011).

Os resultados, que se referem a uma semana de registro de todas as peças difundidas entre as 18 e as 22 horas, no mês de junho de 2010, evidenciam a falta de correspondência entre a representação da população e a frequência com que ela foi retratada nas inserções publicitárias, conforme se observa na tabela 6, na qual estão registradas a distribuição percentual da população do Estado da Bahia e da Região Metropolitana do Salvador, a frequência de inserção e o tempo de inserção de peças publicitárias com personagens de cor de pele branca, parda e preta.

Tabela 6: percentagem da população do Estado da Bahia, da Região Metropolitana do Salvador, da quantidade e do tempo de inserções publicitárias por categoria racial no horário nobre da televisão

A população branca, que no Estado da Bahia corresponde a um pouco mais de um quinto do total, esteve representada em quase oitenta por cento dos anúncios, o que correspondeu a 63,6% do tempo de difusão, enquanto as demais categorias raciais, embora representassem a maioria da população, foram contempladas por uma percentagem ínfima da quantidade de inserções (20,8%) e do tempo de difusão (36,4%).

Este exemplo deixa claro que a mídia não se esmera em reproduzir, nos seus veículos, um retrato aproximado das características da população, o que reforça a interpretação da falta de representatividade de algumas categorias. A esta tendência se acrescenta um outro elemento decisivo na influência da mídia, a apresentação seletiva de algumas categorias. No caso específico do estudo acima relatado, não apenas os personagens brancos e negros foram representados numa proporção incompatível com a distribuição populacional, mas também, quando ganharam espaço nas peças publicitárias, os negros foram seletivamente associados com produtos qualitativamente distintos daqueles associados aos personagens brancos, conforme se observa na figura 13, na qual estão representados, em duas nuvens de palavras, os anunciantes aos quais as imagens dos personagens brancos e negros se mostraram fortemente associados.

Figura 13: Densidade das nuvens de palavras de anunciante associados a personagens masculinos brancos e negros

A nuvem de palavras na qual estão representados os anunciantes associados com os personagens brancos tem uma densidade muito mais alta do que aquela na qual estão representados os anunciantes associados aos personagens negros. Isso indica que um número bem mais significativo de anunciantes incluiu em suas peças personagens brancos, enquanto os anunciantes que utilizaram personagens negros foram bem menos diversificados.

A análise comparativa dos anunciantes nas duas nuvens deixa claro um padrão: os personagens negros estiveram presentes nas mensagens institucionais, sobretudo dos governos estaduais e municipais, de um banco e de um shopping center, frequentado amiúde por um público de menor poder aquisitivo. Em contrapartida, a análise das mensagens publicitárias nas quais estiveram inseridos personagens brancos deixa claro uma maior diversidade de anunciantes, incluindo entre outros, instituições financeiras, montadoras de automóveis e concessionárias, lojas e supermercados, produtos de beleza, provedores de serviços e fabricantes de bebidas e refrescos.

A mídia não apenas escolhe quem apresenta; ela seleciona como as categorias sociais são apresentadas. Inúmeras vezes os membros dos grupos e categorias sociais são retratados de forma predominantemente estereotipada. A visão estereotipada dos brasileiros pode ser identificada, por exemplo, na própria publicidade (Batista & Leite, 2011), entre os correspondentes estrangeiros (Paganotti, 2007) e nas telenovelas (Afrokut, 2011). O cinema é, neste particular, um exemplo marcante na utilização desenfreada dos estereótipos, conforme se constata mediante a identificação dos clichês e cenas estereotipadas na indústria cinematográfica de Holywood nos anos 1980 e 1990, tal como registrado por um falecido crítico cinematográfico (Ebert, 1999).  

– Asiáticos: lutadores de karatê; os idosos asiáticos sempre se comunicam através de aforismos;

– Latinos: exímios dançarinos de salsa, mas também traficantes que resolvem todos os seus problemas à bala;

– Italianos: mafiosos que recusam a se integrar na sociedade protestante. Contudo, se estiver sozinho, é retratado como uma boa pessoa; se forem mais de quatro, pode-se esperar que façam parte de uma gangue;

– Chineses: perversos, exceto os de Hong Kong, que além de perversos, são muito ricos;

– Japoneses: mestres em artes marciais, podem ser separados em dois grupos, os com cara de imbecis, mas que ganham sempre, e os malvados, que se vestem de negro e sempre saem derrotados, apesar das trapaças;

– Russos: se o filme for antigo, membro da KGB; se recente, da máfia russa;

– Mexicanos: cedo ou tarde, o herói americano será cercado por um grupo de mexicanos maus, que sorrirão em uníssono do herói, chamando-o de gringo.

– Nativos: os feiticeiros ou doutores de almas dos grupos das culturas primitivas terão sempre a solução para todas as doenças, mesmo as incuráveis, e a eficácia do tratamento será o resultado não apenas da sabedoria, como também das expressões poéticas que a acompanha. Carregadores nativos em filmes ambientados nas selvas ou nas montanhas ao se aproximarem de um determinado local se recusarão terminantemente a prosseguir, fugindo em uma carreira desabalada ou sorrateiramente durante a noite (Pereira, 2002).

Os exemplos aqui apresentados parecem ser suficientes para demonstrar o quanto as pessoas são socializadas para o preconceito e que, sob as influências diretas e indiretas da família, dos amigos, das instituições e da mídia, terminam por aceitar e naturalizar um sistema de mundo no qual as visões estereotipadas e as atitudes preconceituosas são acatadas sem muita contestação. Assinale-se, no entanto, que isto não significa que todos se comportam da mesma forma, uma vez que o grau de conformidade com as mensagens impostas pela cultura não é homogêneo.

O conceito de conformidade representa uma tentativa dos estudiosos em identificar de que forma as pessoas obedecem e como esta obediência contribui para o acolhimento dos sistemas normativos nos quais os preconceitos e a discriminação ganham preponderância. A formulação mais sistemática deste conceito no âmbito da psicologia foi elaborada por Kelman (1958), ao diferenciar as três formas pelas quais somos influenciados e nos conformamos às normas sociais. A primeira modalidade, a aquiescência, ocorre nas circunstâncias em que receosos de sofrer punições, ou almejando receber recompensas, concordamos em nos comportar de uma determinada maneira, sem que tenha ocorrido uma mudança significativa naquilo em que acreditamos. Basicamente, trata-se de uma estratégia destinada a obter recompensas e evitar castigos que, embora funcional em certas circunstâncias, depende inteiramente do controle exercido por quem dispõe do poder de premiar ou punir. A identificação, a segunda modalidade, se refere à conformidade que se sustenta nos vínculos afetivos estabelecidos com alguma pessoa de referência. Também neste caso não é exigida qualquer mudança nas crenças ou nas opiniões, pois nos conformamos e obedecemos simplesmente para manter um bom relacionamento com quem exerce a influência e, nesse caso, simplesmente obedecemos, sem discussões nem argumentos, pois consideramos mais importante estar bem e evitar intempéries. A terceira modalidade de influência, a internalização, é a única que se respalda numa mudança significativa nas opiniões e nas crenças, pois envolve a aceitação do ponto de vista exposto por quem está influenciando, o que proporciona uma transformação mais duradoura das crenças.

Consideradas em conjunto, parece plausível admitir que estas formas de influência social, em particular, a aquiescência e a identificação, ajudam a entender como as normas sociais influenciam o comportamento, embora não ofereçam um panorama muito promissor para os programas de redução dos preconceitos e de eliminação das formas de discriminação, uma vez que introduzem a possibilidade do agente deixar de se comportar de uma forma preconceituosa não porque tenha modificado os seus pontos de vista e internalizado crenças igualitários como valores fundamentais para o estabelecimento de relações interpessoais e intergrupais mais justas, mas simplesmente porque deseja evitar punições ou ficar bem com quem gosta.

O papel exercido tanto pela socialização, quanto pela conformidade com as normas sociais, favoreceu uma nova forma de entender a intolerância face às diferenças, pois acentuou o quanto a sociedade e cultura, e não os indivíduos, representam os principais elementos de estabilidade e difusão dos preconceitos e estereótipos. Retomando a listagem com a qual abrimos a seção, permanece em aberto a questão de explicar a razão destas transformações sociais proporcionarem impactos monumentais em muitas esferas da sociedade, mas não terem sido capazes de produzir mudanças dignas de nota nas atitudes preconceituosas e na discriminação. Devemos salientar que uma interpretação importante associada com esta perspectiva assinala que muitas mudanças poderiam ter sido efetivadas desde que tivessem sido implementadas ou expandidas leis contra a discriminação, pois estas modificariam de forma sistemática a base normativa que oferecia o respaldo social exigido para a manutenção das crenças estereotipadas e das atitudes preconceituosas. Trata-se, imaginamos, uma interpretação um tanto otimista e, como tal, pode se tornar objeto de críticas, pois se os movimentos dos anos 1960 representaram uma brisa de modernidade e acarretaram mudanças nos costumes e nas práticas sociais, proporcionando uma visão mais arejada em relação a muitos temas, o impacto exercido na redução dos estereótipos e preconceitos não foi tão decisivo quanto o esperado.

Esta visão otimista se respaldou no entendimento de que a implementação de normas destinadas a reduzir os preconceitos em regiões onde os conflitos raciais eram mais intensos poderia reduzi-los, tornando-os semelhante ao padrão registrado nos locais onde a expressão dos preconceitos não era tão intensa. Este entendimento de que a redução do preconceito poderia se dar mediante o consenso social perdeu espaço em função das turbulências que se manifestaram em meados dos anos 1960, em particular com as reações suscitadas pela atuação dos movimentos contestatórios negros. Observa-se, com clareza um movimento de ruptura com a perspectiva fundada na noção de consenso social, impondo-se uma nova interpretação da realidade, menos consensualista e mais próxima de um entendimento no qual o conflito, o poder e as relações de dominação passam a ocupar posições analíticas de destaque (Fairchild & Gurin, 1978).

Os estereótipos em um marcado por conflitos (1970-1980)

Conforme assinalamos desde o início da presente recensão histórica, o estudo dos estereótipos e preconceitos esteve marcado, desde a origem, pela preocupação em denunciar as injustiças e, em grande medida, as enormes diferenças nas condições de vida e de sobrevivência dos distintos grupos sociais. Os novos costumes e as transformações nos sistemas normativos ocorridos na década de 1960 se foram capazes de proporcionar mudanças dignas de nota em temas como a sexualidade, os costumes e a religião, bem como desferir críticas poderosas em relação às guerras, ao colonialismo e à representação política, contribuíram bem menos no sentido de modificar a natureza de diferentes manifestações dos preconceitos e estereótipos. Como estas mudanças não foram tão significativas quanto em outras esferas da sociedade, poder-se-ia depreender que os estereótipos e preconceitos estavam por demais enraizados na própria estrutura social e alicerçados firmemente nas relações sociais cotidianas profundamente marcadas pelas diferenças entre as classes sociais.

Mais do que a consequência da ação de um sistema normativo, a partir dos anos 1970 o preconceito passou a ser interpretado como o resultado das ações conduzidas e implementadas por grupos de interesse e de pressão perfeitamente identificáveis. O plano de análise deixou de privilegiar as normas sociais, buscando-se a explicação para os preconceitos e estereótipos em termos das dinâmicas que se manifestavam nas relações entre os grupos e as classes sociais. Nos anos 1970, em particular devido às críticas dos estudiosos negros às pesquisas até então realizadas, quase sempre conduzidos por pesquisadores brancos, ganha espaço um modelo de investigação voltado para a formulação de explicações mais históricas e sociológicas. O objetivo dos estudos se voltou prioritariamente para a identificação do impacto das diferenças de posições sociais de brancos e negros, dos interesses em jogo no âmbito das relações interraciais e em como as relações intergrupais que fundamentam o preconceito e a discriminação se constituíram ao longo da história das interações entre estes dois grupos raciais (Ashmore & DelBoca, 1981; Fairchild & Gurin, 1978).

Alguns trabalhos foram decisivos na implementação desta nova tendência de estudos. Ainda que implicitamente referido desde o estudo de Guilford (1931), ou mesmo antes do período atitudinal previamente assinalado, a importância de considerar os conflitos entre os grupos sociais já pode ser identificada no trabalho Racionalização das antipatias grupais, cujo título indica de que maneira os estereótipos são utilizados pelo grupo majoritário para elaborar uma narrativa no sentido de difundir versões fantasiosas, senão claramente falaciosas, dos atributos e das características dos membros do exogrupo. Ao analisar a representação dos armênios no condado de Fresno, na Califórnia, na década de 1930, LaPiere identificou três grandes mitos racionalizadores, todos fundamentados em representações estereotípicas utilizados pelos membros do endogrupo para se referir aos imigrantes armênios. Um destes estereótipos aludia aos armênios como desonestos no plano das transações financeiras, quando os dados estatísticos indicavam que não apenas eram bons pagadores, mas que honravam os seus compromissos financeiros em uma proporção bem maior do que faziam os respeitáveis membros da sociedade local. Uma segunda representação estereotipada sugeria que eram uns parasitas, pouco dedicados ao trabalho, e por estarem sempre às voltas com a busca de ajuda e suporte nas instituições de caridade ou nas agências de apoio social, constituíam um peso para a sociedade como um todo. Os dados estatísticos novamente evidenciaram o quanto a crença compartilhada na sociedade estava bem distante da verdade. Um terceiro estereótipo, também associado à desonestidade, apontava o grupo como altamente inclinado às condutas criminosas, embora os registros estatísticos apontassem que o número de ocorrências policiais ou de processos legais envolvendo imigrantes armênios era muito menor do que as crenças estereotipadas faziam acreditar.

Ainda que a discussão acentue a dimensão conflitualista e as análises de LaPiere não sejam imunes a interpretações divergentes, é importante assinalar que o conflitualismo enquanto categoria teórica está associada à noção de empoderamento, cujas primeiras manifestações já podem ser entrevistas a partir do final dos anos 1940, como se depreende na comunicação publicada no periódico Hollywood Quarterly, na qual Hardwick (1946) denunciou a representação dos negros como bufões, servis e domésticos como uma das características mais marcantes desde as origens da indústria cinematográfica holywoodiana. Ainda que a presença de artistas negros tenha sido documentada desde 1915, usualmente como figurantes ou personagens de apoio, apenas depois do lançamento do filme Birth of a Nation, do diretor D. W. Griffith, as audiências negras passaram a demonstrar uma clara insatisfação com a maneira pela qual os negros eram representados em Hollywood. Atribuindo ao fortalecimento moral suscitado pelas inúmeras campanhas propagandísticas nacionalistas que se fizeram conhecer durante a guerra, Hardwick assinalou que entre 1941 e 1944 a representação dos negros nas obras cinematográficas sofreu uma nítida reviravolta, o que proporcionou uma maior visibilidade para atores e atrizes negros, ainda que tenha assinalado que esta conscientização sobre a necessidade de modificar os estereótipos acerca dos negros no cinema estivesse apenas nos seus dias iniciais, exigindo-se um esforço permanente na desconstrução dos estereótipos raciais.

Ficou claro que conceber os estereótipos em termos atitudinais contribuía apenas parcialmente para uma melhor conceitualização do termo, sendo necessário contextualizá-lo no âmbito das relações intergrupais, em particular das relações interétnicas e interraciais. Assim concebidos, os estereótipos poderiam ser interpretados como estruturas conceituais destinadas sobretudo a racionalizar as relações e organizar a maneira pela qual as verbalizações eram gerenciadas no âmbito das relações intergrupais, tendo como desiderato fundamental exprimir da melhor maneira possível a identificação e a valorização do próprio endogrupo.

A desconstrução deveria passar, conforme salientado por Clark (1948), por desmascarar o papel exercido por escritores e pensadores que ao longo da história se encarregaram de elaborar relatos dúbios, sagas nas quais as realizações dos vencedores, raças, heróis, comandantes militares e políticos eram louvadas e festejadas, enquanto os derrotados, os dominados e os vencidos eram tratados como inferiores e incapazes. A versão da história contada pelos vencedores, os anglos saxões brancos protestantes, se tornou um elemento central no fortalecimento dos estereótipos e preconceitos raciais, sendo mais do que necessário combater estes mitos de legitimação, particularmente no espaço de maior visibilidade, a indústria cultural. Iniciando pelos menestréis, escravos talentosos obrigados pelos proprietários a executarem apresentações artísticas para convidados ilustres, passando pela indústria cinematográfica na nascente Holywood, pelos palcos dos grandes teatros, pela música, literatura, história em quadrinhos e mesmo nos cartões-postais e panfletos turísticos (Pereira, & Ornelas, 2005), os estereótipos utilizados para justificar discursos desqualificadores dos não brancos deveriam ser explicitados e denunciados.

Num espírito semelhante, no início da década de 1950, LaViolette e Silvert (1951) conduziram uma revisão dos estudos publicados nos 25 anos anteriores de pesquisa sobre os estereótipos e acentuaram quão erroneamente o termo vinha sendo utilizado pelo senso comum e pela comunidade acadêmica. Neste último caso, tanto podia ganhar uma conotação descritiva quanto exploratória, referindo-se sobretudo à tentativa de explicar não apenas as mudanças sociais, mas também em entender como elas acarretavam dificuldades e tensões nas relações entre os diversos grupos que conviviam em um mesmo país. Tratava-se, supunham, de um conceito surgido em um terreno sombrio, e que ainda não conseguira se desvencilhar deste destino. Agir estereotipadamente passou a ser interpretado como algo inerente a uma categoria de pessoas, aquelas caracterizadas pela rigidez e pela incapacidade de abandonar velhas opiniões e atitudes. Esta parcela da população viveria em um estado de tensão e confronto permanente com uma outra parte, as pessoas pensantes, críticas e orientadas muito mais pelo senso de realidade do que por ideias preconcebidas. Em consonância com esta interpretação, as inseguranças, bem como os conflitos intergrupais, seriam imprescindíveis para a emergência dos estereótipos, pois estes seriam mais rígidos e imutáveis quanto maiores fossem as dificuldades para a implementação das mudanças sociais.

Um livro, publicado por LeVine e Campbell no início dos anos 1970, teve um papel fundamental no desenvolvimento da perspectiva conflitualista, ao enfatizar que o conflito por recursos reais e tangíveis está na base dos preconceitos e do etnocentrismo (LeVine & Campbell, 1972). A crítica à visão consensualista se expandiu, especialmente a partir do entendimento de que se as relações assimétricas entre dominantes e dominados estavam enraizadas na história, seria exageradamente otimista ou até mesmo irrealista esperar que brancos e negros pudessem do nada alcançar um consenso e conviver de forma harmoniosa. A partir do surgimento dos movimentos de contestação à superioridade branca, os ganhos obtidos e o impacto por eles exercido na identidade negra, a exemplo da atitude black is beautiful, fica claro que o conflito não apenas teve o poder de colocar em evidência as injustiças e modificar as relações entre os grupos, como também terminou por se transformar numa categoria analítica importante para o estudo das relações entre grupos e categorias sociais que viviam em condições assimétricas.

Conforme assinalado por Fairchild e Gurin (1978), um dos principais objetivos destes novos estudos se referia à análise das relações entre a identidade negra e a autoestima, destacando-se a contestação ao altamente citado estudo de Clark e Clark sobre os padrões de preferências de crianças negras. O ponto de partida do estudo foi uma pesquisa inicial, acerca da consciência racial, publicado no final de década de 1930, no qual foram apresentadas evidências, obtidas em um estudo com 150 crianças negras estudantes de uma escola segregada em Washington, DC, de que as crianças alcançam algum nível de consciência racial entre os quatro e cinco anos de idade (Clark & Clark, 1939). Um estudo posterior, publicado em 1947, com crianças de três a sete anos de idade, uma parte de escolas segregadas, e a outra de escolas mistas, dedicou-se, uma vez mais, ao estudo da consciência racial, mas desta vez também incluiu a avaliação da identificação da preferência racial das crianças negras. Os resultados apontaram não apenas que as crianças tendiam a preferir brincar, como também consideravam as bonecas brancas mais bonitas e bacanas. Adicionalmente, os resultados corroboravam os dados obtidos no estudo de 1939 de que as crianças possuíam uma boa consciência acerca das diferenças raciais, ao mesmo tempo em que assinalam uma certa confusão na identificação com a própria raça, uma vez que algumas crianças negras, especialmente as de tonalidade de pele mais clara, se identificavam mais com a boneca branca, o que foi interpretado como uma tendência das crianças negras a preferirem a raça branca à negra.

Hraba e Grant, no início dos anos 1970, publicaram um estudo no qual replicaram, cerca de vinte anos depois, o estudo de Clark e Clark (1947). A comparação dos resultados, no que se refere às preferências e à identificação, tal como observada na tabela 7, indica padrões exatamente opostos aos encontrados no estudo original.

Tabela 7 Percentagem de escolhas de crianças negras na escolha de bonecos negros e brancos, nos estudos de Clark & Clark (1947) e Hraba & Grant (1970)

Se os resultados a respeito da identidade racial corroboraram os obtidos no estudo original, no artigo de Hraba e Grant as preferência mudaram radicalmente, pois as crianças negras escolheram brincar, acharam mais bonitas e consideravam a cor das bonecas negras mais bonita, ao tempo em que indicavam que a boneca branca não era tão bonita assim. O que teria ocorrido neste período para produzir mudanças tão significativas no julgamento e na identidade dessas crianças?

Entre as suposições levantadas por Hraba e Grant, uma nos interessa em particular, a de que o impacto das ideias defendidas pelo movimento negro, bem como o resultado das mobilizações, demonstrações e revoltas associadas com movimentos como os do Pantera Negra, no final dos anos 1960, e a formação da atitude Black is Beautiful, também referida no título do artigo, suscitaram um padrão de orgulho e de aumento da autoestima da população negra, cujos resultados se refletiram no padrão de resposta das crianças socializadas sob esta nova perspectiva. As mudanças no âmbito da sociedade estadunidense, sobretudo as ocorridas a partir da segunda metade dos anos 1970, criaram um contexto favorável a mudanças significativas na orientação das pesquisas sobre os estereótipos e preconceitos. A tradução da obra Os Condenados da Terra, do psiquiatra argelino Frantz Fanon (1968), publicada em inglês, em meados dos anos 1960, evidenciou os nefastos efeitos da discriminação e acentuou a necessidade de lutar contra o poder e a dominação branca. A publicação de textos como os de Blauner (1969), no qual se expandia a análise sobre o colonialismo interno, denunciou a natureza das relações entre brancos e negros e acentuou um tipo de colonialismo que incidia diretamente sobre as relações de domínio e colonização estabelecidas entre os residentes de um mesmo país. Este conjunto de ideias acentuou uma perspectiva de estudos na qual a noção de conflito desempenhava uma posição privilegiada no plano conceitual e, mais importante, contribuiu para estimular e intensificar a luta da população negra contra os privilégios dos brancos e em defesa dos próprios direitos (Carmichael & Hamilton, 1967). Se estas foram as marcas mais características dos estudos sobre os preconceitos conduzidos nos anos 1970, a década seguinte testemunhou uma mudança radical de orientação, pois com o crescimento da importância da perspectiva teórica da cognição social, os estudiosos se voltam prioritariamente para abordar o tema segundo uma perspectiva mais psicológica do que sociológica, cultural ou histórica. Questões como as normas sociais, as relações de conflito, de poder e de dominação entre os grupos perderam espaço. Uma conclusão, no entanto, pareceu se impor frente a este estado de coisas: nem a mudança no sistema de normas, característico dos estudos conduzidos nos anos 1960, nem as políticas de empoderamento dos grupos, a exemplo das ações afirmativas conduzidos na década seguinte, foram capazes de mudar de forma significativa os estereótipos, os preconceitos e a discriminação. As pessoas até se posicionavam explicitamente de maneira mais positiva em relação aos grupos minoritários, mas às manifestações abertas de simpatia nem sempre correspondia um sentimento íntimo de igualitarismo. Esta conclusão impôs uma visão mais negativa sobre a possibilidade de combater e reduzir os estereótipos e preconceitos, pois se eles estavam enraizados nos hábitos mentais e entranhados nas relações sociais cotidianas, combatê-los representaria uma tarefa bem mais difícil do que empoderar os grupos e acreditar que esse movimento seria suficiente para modificar a realidade.

Estudos sobre os estereótipos no final do período atitudinal

O que podemos concluir a respeito da literatura especializada sobre os estereótipos publicada entre os anos 1920 e o final dos anos 1970? Qual foi o resultado de mais de meio século de pesquisas, tanto no plano metodológico, quanto na dimensão conceitual?

Em relação aos métodos, importa salientar que as pesquisas sobre os estereótipos foram realizadas em sua imensa maioria mediante a utilização de métodos ex post facto de autorrelato e, em menor intensidade, sob a égide do método experimental. Usualmente, mas nem sempre, no primeiro caso, os conteúdos estereotípicos foram definidos como variáveis dependentes, enquanto no segundo caso diferenças nas representações dos grupos estereotipados foram predominantemente tratadas como variáveis independentes.

Tanto em um caso, quanto em outro, os estudiosos se obrigaram a criar técnicas especializadas para dar conta das complexidades inerentes a um objeto de estudo e pesquisa conceitualmente vago e heterogêneo. O objetivo fundamental da pesquisa se restringia a elaborar análises comparativas ou associacionais, visando diferenciar os estereótipos aplicados aos grupos alvos e entender como as representações estereotípicas se distribuíam entre amostras de participantes.

As técnicas de coleta de dados se diferenciavam, segundo uma dimensão relativa ao tipo de material escolhido pelo pesquisador, em duas classes: 1) os estudos que se sustentavam em técnicas nas quais se introduziam elementos imagéticos ou auditivos, sobretudo, fotografias, mas também emissões sonoras; e 2) as pesquisas que se centravam no uso de elementos estritamente linguísticos, em particular, a avaliação de adjetivos ou de sentenças.

Figura 14: técnicas de pesquisa empírica dos estereótipos

O primeiro tipo de técnica, ao interpretar literalmente a definição de Lippmann de estereótipos como fotografias na cabeça, utilizava recursos extralinguísticos, particularmente fotografias supostamente estereotípicas dos grupos, como meio para suscitar avaliações de determinados grupos. Inicialmente introduzida por Rice, em 1926, se fundamentava no princípio de que se existisse uma imagem fotográfica capaz de representar estereotipadamente um grupo ou categoria social, ela seria capaz de ser associada, pelos participantes, ao rótulo verbal inerentemente vinculado a aquela categoria ou grupo. O critério fundamental de identificação dos estereótipos era a distribuição das respostas, que deveria se distanciar dos valores esperados ao acaso. Posteriormente esta técnica sofreu aperfeiçoamentos e as fotografias passaram a ser utilizadas como variáveis independentes capazes de gerar mudanças nas respostas estereotípicas, sobretudo quando associadas aos rótulos verbais, a exemplo do nome da categoria social ou de sobrenomes com fortes conotações étnicas ou raciais. O mesmo tipo de procedimento da avaliação das imagens foi utilizado para identificar de que maneira características como o sotaque regional, étnico ou a prosódia profissional interferem na ativação das representações estereotípicas. Fossem imagens ou sons, os estudos se voltaram para identificar como os conteúdos eram capazes de gerar distorções no julgamento social e, em certa medida, influenciar os processos psicológicos básicos e complexos.

O modelo por excelência da segunda modalidade de técnicas foi introduzido na literatura sobre os estereótipos por Katz e Braly (1932), centrando-se, como discutimos anteriormente, na atribuição de traços psicológicos, selecionados pelos participantes em uma lista de adjetivos, a partir do qual era extraída a configuração particular das características estereotípicas de cada um dos grupos alvos de avaliação. O desconforto expresso abertamente por muitos participantes em relação à continuidade da utilização da forma original do checklist, aliado a um conjunto de críticas sobre a confiabilidade e a validade deste tipo de recurso, favoreceu o surgimento de outras técnicas de obtenção de dados. Dado que críticas mais vigorosas se referiam à lista de adjetivos previamente definida, que poderia se ajustar relativamente bem a alguns grupos alvos, mas não a outros, ou que se mantinha a mesma, ainda que as transformações históricas tivessem se encarregado de modificar algumas representações estereotipadas, foi acentuada a necessidade de utilizar instrumentos de resposta menos restritivos, a exemplo da livre associação, da técnica de completar sentenças ou mesmo a condução de entrevistas. O desenvolvimento de novas técnicas de escalonamento na psicologia social, a exemplo das escalas no formato Likert ou o diferencial semântico, permitiu tanto o aperfeiçoamento da medida do checklist, quanto ofereceu a possibilidade de introduzir novas modalidades de obtenção e tratamento dos dados, a exemplo da análise fatorial e das análises estatísticas bayesianas, impossíveis de serem alcançadas com uma medida dicotômica como a exigida pela técnica inaugurada por Katz e Braly. A necessidade de incluir, além das comparações com as variáveis sociodemográficas, análises a respeito das diferenças individuais dos participantes abriu o caminho para a inclusão de instrumentos de mensuração de características individuais, a exemplo da escala F ou de inventários de personalidade e, em alguma medida, técnicas projetivas de diagnóstico psicológico.

Este conjunto de procedimentos e técnicas permitiu estabelecer comparações entre os conteúdos dos estereótipos aplicados pelos percebedores aos diferentes grupos alvos, em dimensões analíticas como o consenso, a uniformidade, a desejabilidade, a intensidade ou a familiaridade com o grupo. Por outro lado, as técnicas estatísticas tradicionais de análise dos dados, em particular o qui-quadrado, os testes de diferenças entre as médias e, posteriormente, a análise de variância e a regressão linear, permitiram analisar os dados levando em consideração as diferenças entre indivíduos e grupos em termos de características psicológicas e variáveis sociodemográficas, a exemplo da região de origem, a raça/etnia, o sexo e a religião.              

Na falta de uma teoria mais abrangente sobre os estereótipos, os estudos se orientaram sobretudo no sentido de isolar as dimensões fundamentais de análise e posteriormente identificar as relações estabelecidas entre elas. Se o objetivo passou a ser identificar os traços usualmente associados pelos percebedores aos grupos alvos do julgamento estereotipado, as direções de análise se encaminharam no sentido de identificar as quatro principais dimensões a serem consideradas nas relações entre os traços, os grupos alvos e os percebedores. Duas destas dimensões, os conteúdos e a uniformidade, se referiam a vinculações diretas entre os traços e os alvos, enquanto as duas últimas, a intensidade e a familiaridade, se relacionavam mais com o julgamento dos percebedores a respeito dos traços.

Figura 15: principais dimensões de análise dos estereótipos

Estas diversas dimensões de análise relativas ao processo de estereotipização foram consideradas nas páginas anteriores, cabendo-nos no final da presente seção enumerar algumas questões objeto de discussão no final do período atitudinal. O quadro 8 reproduz algumas delas e especifica as conexões conceituais entre os constructos acima referidos.

Quadro 8: questões teóricas fundamentais sobre os estereótipos e a estereotipização no final do período atitudinal

Questões de método

Dedicamos esta última seção a apresentar, de forma panorâmica, os métodos e as técnicas de pesquisa utilizadas pelos estudiosos dos estereótipos e dos preconceitos, tais como se apresentavam no fim do período atitudinal. Antes disso, julgamos imprescindível assinalar o que entendemos por problema de pesquisa e em que sentido podemos diferenciá-la de uma questão social.

Não é incomum que candidatos à seleção nos programas de mestrado e doutorado procurem os orientadores com um projeto de pesquisa no qual se encontra enunciada uma importante questão social a ser enfrentada. Ter uma questão (Eco, 1977), por mais relevante que ela seja no plano social, não configura a presença de um problema de pesquisa, sendo requerida alguma fundamentação teórica para que o problema social se transforme efetivamente numa questão passível de ser abordada numa perspectiva científica. Se este é o nosso ponto de partida, o nosso ponto de chegada é a determinação de quão justificada é a crença do cientista, uma vez que o conhecimento científico também pode ser interpretado uma modalidade específica de crença, uma crença cientificamente justificada (Dancy, 1970).

Como estudar os estereótipos? Quais as decisões podem ser tomadas? Como concluir que uma determinada interpretação da realidade é mais justificada do que outra? O diagrama apresentado na figura 16 oferece um indicador das principais questões metodológicas enfrentadas pelos pesquisadores dos estereótipos e preconceitos no final do período atitudinal. Conforme assinalado muito tempo atrás por Kurt Lewin, um psicólogo social muito conhecido, não existe nada mais prático do que uma boa teoria. Este papel central da teoria pode ser identificado no diagrama, pois, conforme assinalamos, tudo começa e acaba com a teoria. Podemos observar, fazer conjecturas, levantar hipóteses, mas estas só fazem sentido quando são consistentes e podem ser inseridas no arcabouço de uma teoria. A teoria também define a lógica da pesquisa, o desenho ou delineamento a ser selecionado pelo pesquisador para que as conclusões possam ser consideradas válidas. Para isto, é necessário operacionalizar a hipótese a ser testada e definir as estratégias de coleta de dados mais consistentes para encontrar uma boa resposta para o problema de pesquisa.

Figura 16: fluxograma de decisão acerca dos métodos de estudos dos estereótipos

Na psicologia tradicionalmente as informações podem ser obtidas mediante três grandes recursos, a observação, o relato dos participantes e a condução de experimentos. Seja qual for o procedimento, o pesquisador deve renunciar às suas crenças pessoais e se voltar para as outras pessoas, observando o que fazem, ouvindo o que elas têm a dizer ou registrando como se comportam em determinadas situações.

O desenho de pesquisa permite formular com precisão os procedimentos para a operacionalização e o teste das hipóteses, assim como permite ao pesquisador identificar quais os procedimentos de coleta de dados devem ser adotados durante a condução do estudo. Os procedimentos de coleta de dados nas pesquisas sobre os estereótipos e os preconceitos estão fortemente associados com os modelos teóricos que lhes deram origem, sendo importante destacar algumas questões metateóricas e práticas que interferem nas decisões acerca da adoção ou não de determinados tipos de recursos metodológicos. Os primeiros estudos empiricamente orientados acerca dos estereótipos, conduzidos por Katz e Braly (1933), se restringiam a perguntar aos participantes, quais, numa lista de quase cem adjetivos, poderiam ser atribuídos a determinados grupos sociais. Este método, denominado checklist, supõe que o respondente tenha um certo grau de consciência do que está sendo solicitado a responder e seja capaz de relatar as suas próprias atitudes, crenças, modos de pensar ou de agir em relação a um determinado grupo ou categoria social.

Ser capaz de produzir um relato não significa, necessariamente, que este relato é preciso ou retrata de forma correta as crenças e atitudes do informante. Nos estudos iniciais nos quais a técnica do checklist foi utilizada muitos participantes relutavam, não se sentiam à vontade para responder ou mesmo se recusavam explicitamente a participar do estudo ao considerarem esta forma de conduzir pesquisas um insulto à inteligência humana. Educadamente, muitos participantes assinalavam que as opções de respostas a que tinham acesso eram genéricas demais e não faziam jus à complexidade dos julgamentos requiridos durante as tarefas de avaliação (Brigham, 1971; Devine & Elliot, 1995; Karlins, Coffman & Walters, 1969; McCauley & Stitt, 1978) . Ao pesquisar os estereótipos o pesquisador se defronta com uma questão metodológica fundamental. Ele informará de maneira explícita ou implícita ao participante o tema ao qual a pesquisa se refere? Não é impossível conduzir estudos em que o participante não saiba que está fazendo parte de uma investigação destinada a avaliar os estereótipos (Boynton, Portnoy, & Johnson,2013; Hertwig, & Ortmann, 2008; Sharpe, Adair, & Roese, 1992) . Se este é o caso, os dados da pesquisa devem ter sido obtidos por instrumentos de medidas indiretas. Se, no entanto, ficar explicitado ou se o participante for informado que as suas crenças estereotipadas estão sendo estudadas, então o pesquisador está fazendo o uso dos denominados métodos diretos de pesquisa.

Medidas indiretas

Nem sempre o participante sabe que os estereótipos, as atitudes ou as reações preconceituosas estão sendo registradas e catalogadas. Se for este o caso, ao participar de uma atividade, geralmente criada pelo pesquisador com a finalidade de disfarçar o verdadeiro objetivo do estudo, alguns correlatos físicos ou psicológicos são registrados e posteriormente analisados com a finalidade de identificar as relações entre estas medidas indiretas e os constructos psicológicos objeto de interesse (Gawronsky & Payne, 2010).

As medidas indiretas dos estereótipos e preconceitos contemplam técnicas muito distintas entre si, a exemplo do registro de indicadores cerebrais, como o MRI e o potencial evocado, diferentes medidas do tempo de resposta, a exemplo dos testes de associação implícita (Teige-Mocigemba, Klauer & Sherman, 2010), ou diferentes formas de ativação de conteúdos mentais, como ocorre quando da utilização das distintas modalidades de priming (Bargh & Chartrand, 2000).

Medidas diretas explícitas e implícitas

Se, no entanto, o participante sabe que as suas respostas estão sendo objeto de avaliação, é de se esperar que tente ajustar as respostas, e isto pode comprometer tanto a validade, quanto a confiabilidade da pesquisa. Nestas circunstâncias, o pesquisador se depara com duas principais fontes de preocupação, a desejabilidade social e as estratégias de autoapresentação (Caputo, 2017; Nederhof, 1985; Richman, Kiesler, Weisband, & Drasgow, 1999) ). A desejabilidade social se refere à tendência do participante a ajustar o que diz em direção aquilo que é politicamente correto ou tentar seguir o padrão de resposta que ele imagina ser esperado pelo pesquisador. Nos estudos sobre os estereótipos, especialmente nos estudos que envolvem algumas classes de participantes, a exemplo de estudantes universitários, não é incomum que o participante evite expressar respostas que possam conotar uma visão preconceituosa do mundo. Em outras situações é comum que o participante possa expressar a visão de mundo compartilhada pelos grupos sociais ao qual se encontra vinculado, mesmo que isto signifique oferecer uma resposta que não seja condizente com o que pensa intimamente.

A adoção de determinadas estratégias de autoapresentação é uma decorrência da preocupação do participante em criar e manter uma impressão positiva acerca de si mesmo. Nesse caso, ele pode ajustar suas respostas de forma que estas contribuam muito mais para a elevação da sua própria autoestima, o que pode gerar uma representação pouco apropriada das suas crenças e atitudes.

A maneira encontrada pelo pesquisador para enfrentar os desafios impostos pelos efeitos da desejabilidade social ou da auto-apresentação é estimar o impacto relativo destas duas fontes de comprometimento do estudo e decidir se usará medidas diretas explícitas ou implícitas dos estereótipos e preconceitos (Greenwald & Banaji, 1995).

Se o pesquisador se dedica a uma dimensão em relação a qual se supõe que o efeito da desejabilidade e da autoapresentação seja pouco significativo, ele pode usar as medidas diretas explícitas. Ao usar as medidas diretas explícitas, o pesquisador indaga diretamente ao participante sobre as crenças estereotipadas a respeito de um determinado grupo ou categoria social. A adoção deste tipo de medida depende fundamentalmente do pesquisador estimar que o tema não é suficientemente controverso para suscitar respostas distorcidas do participante ou que este faz parte de um grupo ou categoria social que não teria qualquer razão para evitar expor explicitamente suas atitudes e crenças. Técnicas como as do checklist, assim como recursos como as escalas de distância social ou de preconceitos explícitos, continuam sendo muito utilizados, usualmente em combinação com métodos ou técnicas menos explícitas (Reis & Judd, 2000). Quando utiliza as medidas diretas implícitas, o pesquisador também faz indagações ao participante, mas, neste caso, tem o cuidado de substituir as questões que se referem ao seu real interesse por outras que podem oferecer indicadores indiretos sobre o constructo que está interessado em estudar (Dovidio & Gaertner, 2000; Kinder & Sears, 1981; McConahay, Hardee & Batts, 1981; Mcconahay & Hough, 1976; Pearson, Dovidio & Gaertner, 2009; Pettigrew & Meertens, 1995; Sears & Henry, 2003). Caracteristicamente, os instrumentos de medida implícita dos preconceitos são construídos a partir de uma lista de itens, sobre temas como os valores e opiniões a respeito de políticas sociais, práticas ou costumes e, a partir destas respostas, são elaborados os indicadores do nível de preconceito (John, & Benet-Martinez, 2000). Uma série de escalas, a exemplo das de preconceito sutil, racismo simbólico, racismo ambivalente, dominância social e técnicas, como o teste de desembaralhamento de sentenças ou a de decisão lexical, podem ser considerados como formas diretas implícitas de mensuração dos estereótipos e preconceitos. Em resumo, pode ser que o participante nem saiba que os seus estereótipos estão sendo estudados ou pode ser informado de forma mais ou menos explícita pelo pesquisador que as suas crenças estão sendo registradas.