Especializações e múltiplos níveis

Um acordo parece ter sido estabelecido entre os pesquisadores a respeito do que esperar dos estudos dos preconceitos e estereótipos na entrada do século XXI: urge abandonar qualquer perspectiva de tratar o assunto de forma unidimensional. Estudar os estereótipos e os preconceitos, saber o que eles são, como funcionam e, em seguida, encontrar a melhor estratégia para enfrentá-los, continua sendo uma tarefa de envergadura e de difícil consecução. Nunca é demais assinalar que os estereótipos são fenômenos complexos e apreensíveis apenas mediante o esforço conjunto das diversas abordagens e perspectivas. 

Ao redigir o capítulo introdutório de um dos manuais recentemente publicados sobre os estereótipos, preconceitos e discriminação, Stangor (2009) pintou um retrato pouco lisonjeiro dos estudiosos, ao assinalar que eles preferem se debruçar sobre temas fáceis, pois usualmente negligenciam os tópicos mais difíceis de serem abordados. Isso, em parte, deriva da preocupação em conduzir pesquisas a partir de paradigmas consagrados, o que pode representar uma garantia de acesso às fontes de financiamento, aliado a uma maior probabilidade de ter o manuscrito aceito e publicado nas revistas de maior prestígio. Preferir o lado mais fácil também pode significar conduzir estudos exclusivamente em laboratórios, assim como abordar o assunto a partir de pesquisas conduzidas exclusivamente com amostras de estudantes universitários.

Stangor também admoesta que não podemos nos esquecer que as teorias e hipóteses científicas permanecem vinculadas aos eventos e acontecimentos políticos e sociais e, em certa medida, refletem as mudanças que ocorrem na sociedade. Por se tratar de fenômenos dotados de alto grau de complexidade é necessário abordá-los de forma pluridimensional. As teorias e hipóteses devem ser elaboradas com o propósito específico de fazer frente a esta complexidade, ajudando a trilhar os caminhos mais difíceis ou, pelo menos, contribuindo para deixar de lado os roteiros mais fáceis e batidos.

As teorias atuais se fundamentam no entendimento de que é imprescindível levar em consideração algumas dimensões analíticas (Duckit, 2010), dentre as quais podem ser destacadas:

– as pressões evolutivas que incidem sobre o indivíduo;

– os substratos genéticos, neurais e hormonais;

– os traços e as características individuais;

– os afetos e as motivações;

– a intrincada rede de relações intergrupais nas quais os indivíduos se inserem; e

– os valores, as ideologias e as concepções de mundo.

Além dessas preocupações mais próximas ao nível analítico contemplado pela psicologia é importante reconhecer que o ser humano não vive numa condição de isolamento, pois as sociedades se tornam cada vez mais complexas e multifacetadas. As relações entre os grupos, sejam eles nacionais, étnicos, regionais ou de classe, têm sido cada vez mais corriqueiras e tensas. As diferenças de ponto de vista entre os grupos não raro se transformam em dissensões francamente ostensivas ou, na melhor das hipóteses, em conflitos não abertamente declarados, embora latentes, à espera de uma tênue faísca capaz de atear fogo ao rastilho de pólvora ávida por transformar em animosidade o que se configurava apenas com uma morna convivência.

A figura 29 apresenta uma tentativa de desenvolver um modelo capaz de representar as diversas teorias e hipóteses especificadas nos argumentos sistematizados nas últimas revisões da literatura, em especial nos manuais a respeito do assunto publicados nas primeiras décadas do nosso século. Devemos, no entanto, considerá-lo como uma aproximação preliminar, representando o primeiro passo na organização de uma série de sugestões de síntese da literatura. Consideramos que as teorias e hipóteses devem ser expostas em torno de dois eixos analíticos. O primeiro, conforme observado na seta vertical encontrada no lado esquerdo da figura, se refere às dimensões individualista e contextualistas. Esse plano analítico nos permite diferenciar as teorias a partir do locus privilegiado de explicação dos fenômenos sociais, o indivíduo ou o contexto. A segunda dimensão, expressa nos quadrantes com tonalidades de cinza diferentes, privilegia o papel desempenhado pelo dissensões, pelas lutas ideológicas e, sobretudo, pelo entendimento de que as teorias psicossociais sobre os preconceitos não têm como se furtar à imperativa tarefa de se posicionar politicamente, ou seja, de denunciar as desigualdades, desafiar as hierarquizações e fazer frente às diversas formas de injustiça.

Figura 29: Modelo de representação das teorias atuais dos estereótipos

Em torno destes dois eixos (se mais individualistas ou contextualistas e se adotam uma perspectiva consensualista ou conflitualista), as teorias e hipóteses podem ser distribuídas em acordo com o nível privilegiado de investigação. Assinale-se, no entanto, que a inclusão de uma teoria ou hipótese numa determinada rubrica não deve ser interpretada como o favorecimento exclusivo daquela perspectiva.

Antes de identificarmos os níveis que julgamos importante diferenciar convém assinalar a natureza multidimensional das pesquisas atuais sobre os estereótipos, o que ajuda a enfatizar o quanto o nosso argumento se refere sobretudo à ênfase ou ao empenho analítico da teoria, não devendo ser interpretado como a denúncia de que o posicionamento duma teoria ou hipótese em um determinado nível analítico representa a adoção de uma visão limitadora e restritiva.

Evolução e genética

Não deixa de ser curioso que no mundo atual, no qual a tecnologia da informação tem se expandido e modificado por completo a forma pela qual os seres humanos se percebem e se relacionam, tenha tomado corpo na psicologia social uma perspectiva de estudo que, antes de qualquer coisa, nos lembra que somos animais. Um animal humano, diferente, habilitadíssimo para os afazeres que nos aguardam, mas, de qualquer forma, animal e, como tal, sujeito às mesmas pressões evolutivas que se abatem sobre os nossos iguais, animais.

Nos termos da psicologia social evolutiva, os processos que determinam a nossa condição social podem ser considerados a partir de duas dimensões fundamentais, uma que se refere aos genes, e este é um termo que praticamente todo mundo medianamente escolarizado já escutou falar, enquanto uma outra alude aos memes, um termo mais moderno e menos difundido. As diferenças entre estas duas modalidades de influências evolutivas se referem à escala de tempo no qual os efeitos se manifestam, muito mais longo no caso da influência genética, e ao tipo de relação entre a fonte de influência e a expressão dos comportamentos, muito mais direta no caso dos memes que no dos genes.

Conforme analisamos nos sistemas de crenças apresentados no capítulo 2, um problema de longa data na história intelectual humana tem sido o de estabelecer o quão a conduta humana é marcada pela genética e quanto pode ser explicada pelas influências ambientais. Numa linguagem mais atual, podemos acenar com a imensa dificuldade em estimar o quanto as diferentes condutas humanas podem ser explicadas pela interação entre os fatores genéticos e ambientais e, mais do que isso, o quanto da explicação é devido a cada um desses fatores (Duncan, Pollastri, & Smoller, 2014; Halldorsdottir, & Binder, 2017; Freese, 2008; Manuck, & McCaffery, 2014).

 Uma característica particularmente interessante dos estudos atuais sobre a influência da genética nas condutas humanas se refere à identificação de uma correlação bastante acentuada entre as estimativas identificadas com base em pesquisas científica e as suposições feitas por leigos, que se aproximam bastante em termos numéricos e qualitativos dos resultados encontrados nas análises científicas, conforme observamos no quadro 11, elaborado com base nas informações encontradas no artigo de Willoughby, Love, McGue, Iacono, Quigley e Lee (2019). Nele estão apresentadas o quanto a literatura especializada tem estimado a proporção da explicação em termos genéticos, mediante aplicação do conceito de fator hereditário (hereditability), mensurada numa escala que vai do valor 0, indicador de nenhuma influência da genética, até o valor 1, um indicador de que a explicação da conduta deve ser baseada inteiramente em padrões genéticos, em algumas características físicas, de estilo de vida, psiquiátricas e psicológicas humanas.

Quadro 11: relação entre estimativas cientificas e leigos acerca do efeito dos genes em algumas características humanas

Algumas características físicas, a exemplo da altura, o peso ou a cor dos olhos, apresentam um fator de hereditariedade muito alto, bem acima do ponto de corte de 0,7, sendo mais bem explicadas pela genética. Além disso, a correlação entre a atribuição dos fatores genéticos por pesquisadores e por pessoas leigas a este tipo de característica é muito alta, o que favorece a interpretação de que o conhecimento genético tem sido bem acolhido pelo senso comum. Outras características, a exemplo do câncer de seio ou da orientação sexual, possuem um fator de hereditariedade bem mais alto entre os leigos do que o apontado pela pesquisa científica, o que pode ser interpretado como um indicador de que embora em algumas circunstâncias as explicações leigas para a influência da genética possam ter alguma acurácia, muitas vezes o poder atribuído aos genes é exagerado.

Ambos os achados podem ser interpretados como um forte indicador do interesse do senso comum no resultado das pesquisas sobre o efeito da genética no comportamento, cujo reflexo mais acentuado é uma tendência a aderir ao essencialismo genético (Dar-Nimrod, & Heine, 2011), uma crença arraigada na cultura popular, na qual se defende a tese de que as condutas humanas são estabelecidas desde o nascimento e, como tais, estáveis e pouco sujeitas às mudanças.

Se o essencialismo genético encontra acolhida no senso comum, muitas vezes argumentos dessa natureza servem muitas vezes para invalidar o impacto das explicações científicas que consideram os impactos da genética nos padrões de conduta humana, sobretudo quando se trata de temas em relação aos quais questões com os privilégios e as desigualdades são discutidas e muitos vezes os argumentos genéticos são introduzidos para justificar a hierarquização social (Dar-Nimrod, & Heine, 2006; Tomasetto, & Appoloni, 2013)

Ao contrário dos valores relativos às características físicas expostas no quadro 9, o fator de hereditariedade das características psicológicas e as condutas associadas com determinados estilos de vida dificilmente alcançaram valores tão altos, o que favorece uma interpretação na qual se assegura um forte interação entre os fatores genéticos e os ambientais. Ainda que tenhamos à disposição muitos indicadores a respeito das relações entre a genética e modalidades mais complexas das condutas humanas (The Polygenic Score Catalog, 2021), estimar algum efeito direto dos genes nos preconceitos e estereótipos é uma tarefa para lá de difícil. Não nos imaginamos capazes de associar um determinado marcador genético a um dado padrão de conduta discriminatória. Também quase nunca encontramos estudos que apontem para possíveis associações entre alguma modalidade específica de característica individual, seja ela autoritária, preconceituosa ou estigmatizadora, e um determinado gene ou punhado de genes.

Uma notável exceção nesse particular foi o estudo publicado por Santos, Meyer-Lindenberg & Deruelle (2010), que se tornou objeto de intensa visibilidade midiática ao sugerir que alguns marcadores neurogenéticos poderiam estar associados aos estereótipos e preconceitos. Esta suposição se fundamentou em um estudo experimental que comparou as respostas de 40 crianças, 20 das quais sem e outras 20 portadoras da síndrome de Williams, uma condição genética que as tornavam bastante afiliativas e particularmente insensíveis a experimentar a emoção de medo na presença de estranhos, no que diferem de outras crianças, que desde muito cedo manifestam uma conduta de evitação e sinais de temor na presença de estranhos.

Os resultados do estudo evidenciaram que as crianças com a síndrome de Williams não apresentavam estereótipos raciais, ainda que preservassem os estereótipos de gênero comuns às crianças da mesma idade, donde a necessidade de postular a existência de mecanismos geneticamente distintos para cada uma destas modalidades de estereotipização, se considerarmos que a expressão do medo em relação a pessoas de outras raças é processado de maneira distinta dos temores em relação a pessoas do outro sexo.

Dada as escassas repercussões científicas do estudo e a inesperada falta de impacto de uma descoberta desse calibre, talvez seja mais interessante assinalar que a preocupação dos estudiosos acabou sendo bem mais modesta do que o estudo referido faria crer. Numa revisão recente da literatura sobre a genética comportamental (Harden, 2021) acena para um entendimento muito cuidadoso a respeito das relações entre a genética e fatores mais complexos da conduta humana. Por um lado, a revisão assinala que devemos nos precaver em relação aos que fecham os olhos e de antemão já dão por assegurado de que não é possível imaginar que algo tão complexo quanto as nossas decisões e as ações delas advindas possam explicadas por um punhado de genes. Trata-se, podemos imaginar, de uma postura injustificável e, como tal, deve ser abandonada. Os estudos atuais na área da genética têm sido orientados por desenhos de pesquisa com alto grau de complexidade (Burt, Plaisance, & Hambrick, 2019; Schmitz, & Conley, 2017) e se orientam pelos princípios mais contemporâneos de condução da pesquisa científica, a exemplo da adoção dos parâmetros associados à noção de ciência aberta (open science), a comparação massiva dos resultados de pesquisas pontuais com a finalidade de identificar o tamanho do efeito e intensa colaboração internacional. Estes cuidados facilitam a adoção de um tratamentos mais equilibrado a respeito das relações entre os genes e os comportamentos, tais como se expressam nas supostas quatro leis da genética comportamental (Chabris, Lee, Cesarini, Benjamin, & Laibson , 2015; Turkheimer, 2000):

  1. Todo e qualquer traço comportamental humano é passível de ser herdado;
  2. O efeito de ter crescido numa família é bem menos acentuado que o efeito dos genes;
  3. Uma parcela significativa da variação dos traços complexos humanos não é explicada nem pelos genes, nem pela família; e
  4. Cada traço comportamental humano típico está associado com um número significativo de variantes genéticas, cada uma responsável por uma pequeníssima porcentagem da variabilidade comportamental.

 Essas leis não deixam dúvidas de que as relações entre fatores genéticos, o ambiente familiar mais próximo e o ambiente social mais amplo devem ser cuidadosamente consideradas pelos pesquisadores. Os fatores genéticos não devem ser reificados nas explicações acerca das diferenças individuais, pois são as famílias, como acentuado por Harden (2021), que reproduzem os privilégios sociais, mantendo-os intactos por gerações.

Com base no acima exposto, fica claro que o interesse nas pesquisas sobre genética comportamental atualmente deixou de ser o de identificar o tipo de marcador genético capaz de influenciar diretamente um tipo específico de conduta e se voltou para reconhecer as vicissitudes que ao longo da extensa história evolutiva se inscreveram no pool genético da nossa espécie e como isso pode ter facilitado a expressão de algumas condutas que à luz dos modelos interpretativos atuais possuam alguma semelhança com uma tendência passível de ser interpretada como um padrão etnocêntrico de conduta. O modelo teórico subjacente à influência genética sobre o comportamento social humano se assenta, portanto, em algumas proposições básicas (Schaller, Conway, & Peavy, 2011):

a) algumas (ou todas, se considerarmos a primeira lei da genética comportamental) tendências psicológicas possuem uma base genética;

b) são essas tendências psicológicas, e não outras, que poderiam funcionar como pautas alternativas de conduta, que são adotadas, o que favorece a perpetuação dos genes a ela associados nas gerações posteriores;

c) essas tendências psicológicas e as suas bases genéticas se difundem de forma ampla na população; e

d) os afetos, as cognições e os comportamentos que apresentamos atualmente refletem estas tendências, pois foram elas que aumentaram a aptidão reprodutiva da população.

Estas tendências, ainda que não possam ser estimadas de maneira precisa no que concerne às condutas individuais, certamente se insinuaram na nossa história evolutiva, ainda que não tenhamos clareza acerca das relações entre os determinantes genéticos e os processos evolutivos. O princípio geral que ordena esta discussão e inscreve na denominada teoria da herança dual (Boyd, & Richerson, 1985; Feldman, M., & Cavalli-Sforza, 1976), cujos principais básicos procuram especificar de que maneira ocorre a evolução do patrimônio genético e o quanto esta evolução se assemelha e difere da evolução cultural. Os princípios orientadores desse modelo interpretativo no domínio específico da cooperação humana estão apresentados na figura 30, na qual podemos identificar que o impacto da genética é bem mais lento do que o da evolução cultural.

Figura 30: pressupostos do modelo da herança dual no que concerne à cooperação humana

O pressuposto central do modelo reside no entendimento de que tanto na dimensão genética, quanto na evolutiva, torna-se decisivo identificar como a informação disponível nos indivíduos sofre transformações e é transmitida de geração em geração (Henrich, & Muthukrishna, 2021). No caso da evolução genética, a seleção natural depende da recombinação dos genes em função da informação herdada dos dois progenitores, o que faz com que a taxa de mutação seja baixa, refletindo um impacto pouco acentuado da seleção natural. Todo este processo é bastante lento e faz com que a evolução genética seja bem mais arrastada do que a evolução cultural. Esta, ao contrário da evolução genética, depende da transmissão de um repertório de informações oriundas de um número maior de fontes, o que faz com que os indivíduos readquiram e recombinem elementos informacionais de um número substancialmente grande de modelos, o que faz com que a informação não seja transmitida com muita fidelidade, sobretudo por estar sujeita a uma série de processos seletivos dependentes da percepção, da atenção e da memória. Esta natureza menos lenta da transmissão da herança cultural faz com que as configurações visíveis sejam mais diversificadas, o que dificulta ainda mais a identificação das relações entre genética e cultura.

Quais seriam, pois, as tendências evolutivas capazes de influenciar o tipo específico de comportamento social que estamos interessados, ou seja, os estereótipos, preconceitos e a discriminação? Na falta de uma resposta precisa para esta questão, cumpre-nos assinalar as direções básicas na pesquisa da psicologia evolutiva e assinalar, em que medida as questões podem afetar aos nossos interesses de pesquisa e para tal, parafrasearemos as ideias contidas em um quadro, inspirado nas teorias do etólogo Nikolaas Tinbergen e apresentadas Henrich e Muthukrishna (2021) numa revisão sobre as origens biológicas da cooperação, adaptando-as para atender ao nosso objetivo de indicar a natureza das questões que seriam suscitadas por uma aproximação evolutiva ao estudo dos estereótipos e preconceitos.

– A questão da filogenia: quais os fatores e os determinantes dos estereótipos que herdamos dos nossos antepassados primatas?

– A questão dos processos seletivos: quais os processos evolutivos, consideradas a herança genética e a cultural, responsáveis pelas diversas matrizes de expressão dos estereótipos observadas ao longo da nossa trajetória no planeta?

– A questão dos processos psicológicos: em que medida somos capazes de descrever os mecanismos psicológicos que se manifestam nas distintas populações humanas durante o processo de estereotipização?

– A questão da ontogênese: quando, onde e como estes processos psicológicos se desenvolveram?

As respostas que podemos oferecer para estas questões ainda são pouco precisas, lacunares e limitadas, reconheçamos. Numa tentativa de nos aproximar dessas respostas, poderíamos assinalar que se tivéssemos de escolher uma palavra para enfatizar a condição pela qual o ser humano chega ao mundo, a escolha recairia no termo despreparo. O ser humano aporta no mundo absolutamente dependente dos outros e pouco habilitado para fazer frente às necessidades mínimas de sobrevivência. Chegamos ao mundo incapazes de nos alimentar com nossas próprias forças, de andar com nossos pés e de cuidar dos nossos corpos. Sem o amparo de um grupo humano ninguém estaria aqui para contar história. Fazer parte de um grupo é um registro forte da história evolutiva, não sendo difícil imaginar algumas vicissitudes que poderiam ter marcado a existência dos primeiros grupos humanos, especialmente no que concerne à defesa contra os predadores – humanos e não humanos.

Scheller e Neuberg (2012) assinalam que evolutivamente os preconceitos refletem dois tipos de ameaças ao grupo. Aquelas relacionadas com a violência, especialmente a física, estariam associadas aos preconceitos contra os membros do exogrupo. As ameaças vinculadas às doenças contagiosas, por sua vez, fundamentariam a formação dos preconceitos em relação a todos aqueles – do próprio grupo ou não – que apresentassem condutas incompatíveis com os padrões dominantes do grupo. Diferentes grupos estariam associados com determinadas síndromes preconceituosas, a exemplo dos gays, relacionados com as ameaças relacionadas ao contágio, enquanto os imigrantes estariam associados com as ameaças vinculadas à violência interpessoal.

A segunda fonte de influência das pressões evolutivas não incide diretamente sobre os preconceitos, mas sim sobre os estereótipos, que são interpretados como memes, ou seja, como padrões culturais que se impuseram ao longo da evolução e cujos resultados ainda hoje se fazem presente. A suposição inerente a este modelo é a de que as características mais populares e funcionais são retidas e transmitidas às gerações posteriores, sobretudo mediante a comunicação interpessoal. Uma vez que nem todos os conteúdos são igualmente assimilados e comunicados, pode-se imaginar uma tendência evolutiva que favoreça a permanência de determinados conteúdos e o gradual desaparecimento de outros, podendo-se supor que os grupos selecionam a quem a comunicação deve ser dirigida e os que ficam excluídos do fluxo comunicacional. É importante assinalar que as relações teóricas e conceituais entre os conceitos de genes e memes estão longe de estarem esclarecidas, sendo impossível estabelecer uma relação direta entre as pressões evolutivas e as manifestações específicas de preconceito ou de discriminação contra determinados grupos sociais. Os efeitos destas pressões evolutivas dificilmente são registrados de forma direta e dependem das pistas presentes na situação, bem como das condições reais nas quais as relações entre os grupos se manifestam. É injustificado, de qualquer modo, postular qualquer interpretação que indique relações diretas ou unívocas entre evolução, genética, estereótipos e preconceitos.

Sistemas neurais e endócrinos

Phineas Gage era um camarada bem maneiro. Bom trabalhador, educado, inteligente, bem adaptado, uma vida pela frente, se não estivesse no lugar errado, na hora errada. Atingido na região pré-frontal do cérebro por uma barra de ferro durante uma explosão acidental, recupera-se do acidente, continua enxergando bem, apesar da perda de um dos olhos, preserva os movimentos, continua falando numa boa, mantém intacta a memória, assim como a capacidade de aprender. Só que vira outro homem. Irrequieto, irresponsável, irreverente, manda as convenções sociais às favas e continua vivendo a sua vida, até falecer em 1861, treze anos depois do fatídico acidente que marcou o seu destino (Damasio, Grabowski, Galaburda, & Damasio, 1994). 

O caso de Phineas Gage é particularmente interessante por mostrar que boa parte das funções psicológicas, em que pese a extensão dos danos sofridos em função do acidente, permaneceu intacta. Se algumas partes da conduta não foram afetadas pela lesão, então é possível supor que as funções psicológicas comprometidas tenham alguma relação com a parte lesionada. Aceitando-se que as funções psicológicas estão associadas a determinadas implementações neurais, pode-se supor, por extensão, que é possível encontrar alguns marcadores neurais conectadas com a expressão das manifestações de certas facetas do comportamento. 

Achados obtidos com pacientes que sofreram danos cerebrais devem ser generalizados de maneira cuidadosa, sendo necessário completar esta perspectiva de estudo com uma outra que envolva o registro de dados de pessoas cujo sistema neural não tenha sofrido vicissitudes tão marcantes como as referidas no caso de Gage. Uma direção de pesquisa se fia em procedimentos que envolvem obtenção de imagens, nas quais são registrados alguns parâmetros dos sistemas neurais enquanto se desenrola uma determinada tarefa, usualmente de natureza cognitiva. Neste particular, duas técnicas se sobressaem (Phelps e Thomas, 2003; Nelson, 2013). Uma delas, denominada fMRI, tem sido particularmente utilizada para identificar, mediante a análise do nível de oxigênio no fluxo sanguíneo, o volume de sangue e o uso do oxigênio nas partes do cérebro ativadas durante a realização de uma determinada atividade. Este conjunto de medidas, genericamente denominada BOLD, do inglês bloody oxigenated level dependent, embora não se refira diretamente ao funcionamento dos neurônios ou do sistema nervoso, oferece um bom indicador das estruturas neurais associadas a um determinado evento. A segunda técnica, denominada ERP, de event-related potentials, mostra a atividade elétrica quando um grupo de neurônios é ativado durante a realização de uma dada atividade. A medida permite identificar a amplitude da onda eletromagnética, que serve como indicador da intensidade da atividade, e a latência da resposta, o que corresponde ao registro do momento exato em que a atividade se inicia em determinados componentes neurais.

Reconhece-se cada vez mais a necessidade de aproximar os achados e as teorias da psicologia social aos últimos desenvolvimentos do campo das neurociências (Amodio, 2008; Cacciopo & Cacciopo, 2013). As primeiras aproximações ao tópico dos estereótipos e preconceitos pela via das neurociências foram realizadas em torno das evidências encontradas em uma área clássica da psicologia social, a percepção da pessoa. Presume-se que é necessário que alguém, para ser alvo de um estereótipo ou de um preconceito, seja inicialmente percebido. A percepção de uma pessoa está longe de ser uma mera reprodução dentro da cabeça do que acontece lá fora. Ela é fundamentalmente construída, o que significa dizer que o percebedor é um ente biologicamente preparado para extrair ativamente elementos oriundos dos órgãos sensoriais, acrescentar conteúdos retirados do banco de dados da memória e, em seguida, elaborar um relato relativamente preciso daquilo que está acontecendo (Gregory, 1979). Esta é uma operação complexa, pois requer que o mundo tridimensional no qual estamos localizados seja internamente representado.

É necessário, pois, diferenciar as evidências relacionadas com o tópico da percepção da pessoa daquelas que se referem ao estudo dos estereótipos e preconceitos (Quadflieg, Mason, & Macrae, 2010). A percepção da face e do corpo humano ocorre em etapas bastante iniciais do processamento perceptual, algo em torno de 170 milésimos de segundo para as faces e de 190 milésimos para o corpo, números bem distintos dos encontrados no processamento dos objetos não sociais. Isso, por si apenas, seria suficiente para oferecer um bom indicador de que o processamento dos objetos sociais não é exatamente igual ao dos objetos naturais. Ademais, é importante salientar que nessa operação tentamos, e em certa medida conseguimos, manter algum controle sobre as nossas percepções, ainda que os indicadores atualmente disponíveis nos levem a crer que as nossas percepções são influenciadas e, por que não dizer, moldadas, pelas nossas motivações e pelos nossos estados afetivos.

No início do século XXI, após a chamada década de estudo do cérebro, os pesquisadores acumularam evidências de que o processamento da informação envolvida na interação social requer a presença e a intervenção de uma série de estruturas neurais. A figura xxxxx representa um diagrama no qual se encontra registrado alguns dos achados mais significativos encontrados na época, enfatizando as funções desempenhadas por algumas estruturas neurais responsáveis pelas funções requeridas pela percepção e posterior identificação de uma pessoa.

Figura 31: bases neurais da percepção da pessoa

Uma vez que a luz incide sobre células foto estimuladoras localizadas no fundo do olho humano, a informação é enviada por meio das fibras nervosas para o núcleo geniculado lateral, donde partem fibras nervosas para duas regiões corticais, o sistema visual dorsal, ativado durante a identificação da posição do estímulo no espaço, e o sistema visual ventral, associado à identificação do objeto (o que é aquele objeto).

Sendo o estímulo um ser humano, alguns marcadores neurais associados ao sistema visual ventral são ativados. As evidências se encaminharam no sentido de postular que o processamento do rosto e da face envolve tanto a participação de subsistemas destinados a avaliar o estímulo com um todo, no caso, as áreas fusiformes da face e do corpo, quanto os subsistemas habilitados a processar em separado cada elemento da face e do corpo, no qual está envolvida a ativação da área occipital da face e da área estriada do corpo. A análise cuidadosa das partes é um processo fundamental para a análise individualizada de uma determinada pessoa e como se trata de um processo mais demorado, espera-se que o processamento pelas áreas fusiformes da face e do corpo seja muito intenso em tarefas que envolvem a individualização e menos marcante durante o processo de inclusão da pessoa em categorias.

A atuação conjunta destes dois sistemas contribui para a representação interna das faces e dos corpos. A representação dos correlatos neurais da percepção da pessoa demanda uma estrutura adicional, pois os sistemas até aqui referidos retratam a representação da face e do corpo como elementos estáticos. O processamento dos movimentos faciais e corporais está associado com um outro substrato neural, o sulco temporal posterior.

As estruturas acima referidas ajudam a entender a percepção dos seres humanos, mas não nos informam muito sobre os correlatos neurais dos estereótipos e preconceitos, sobretudo porque o alvo desse tipo de julgamento não é simplesmente uma cara bonitinha ou um corpo estonteante. A pessoa que conduz um julgamento estereotipado se encontra em um contexto, pertence a um grupo, categoriza e é categorizado, bem como mantém relações amistosas e tensas com outras pessoas com as quais interage ou convive.

Uma das principais direções de estudo no campo da percepção da pessoa se refere ao processo de categorização. O que ocorre no sistema neural durante a percepção de pessoas associadas às diferentes categorias sociais? Será que os processos neurais diferem quando um homem percebe um outro cabra ou uma mulher? E muda alguma coisa quando ele percebe uma criança? E alguém com um tom de pele diferente? Respostas para estas questões aproximaram os neurocientistas dos estudiosos do campo dos preconceitos e dos estereótipos e, nos últimos anos, com a sofisticação metodológica que vem caracterizando o desenvolvimento dos estudos sobre as estruturas e funções cerebrais, novas evidências vieram se somar e, em muitos casos, fazer repensar várias coisas que até então vinham sendo aceitas sem discussão.

Os estudos na área da categorização se voltaram para a identificação das diferenças no processamento de faces de indivíduos do endogrupo e do exogrupo. Indicadores que permitem a categorização social a partir de critérios como o sexo, à idade e a cor da pele são facilmente discerníveis a partir das pistas visuais da face e do corpo. Estes marcadores são processados muito rapidamente; não precisamos de muito tempo para identificar se uma pessoa é homem ou mulher, adulta ou criança, branca ou negra. Talvez por estarmos acostumados a conviver com as pessoas dos nossos grupos, abundam evidências de que o nível de ativação da região fusiforme da face no córtex é menos acentuado ao processarmos a face de um membro do exogrupo, quando comparado com o processamento da face de membros do endogrupo. Também ficou claro que a ativação da amígdala desempenha um papel central nas atividades relacionadas com as emoções suscitadas por indivíduos de distintas categorias sociais. Um outro conjunto de evidências assinalou que as regiões corticais pré-frontal dorsolateral e a área cingulada anterior se associam a marcadores que permitem a diferenciação das faces da própria raça se comparada com as de indivíduos adscritos aos outros grupos raciais (Quadflieg, Mason & Macrae, 2010).

Um repertório mais do que abrangente de evidências foi obtido ao longo da primeira década do século XX, tal como se observa na figura 32, na qual representamos graficamente a evolução temporal de alguns dos principais achados associados aos temas da percepção do outro e categorização social, representadas no lado esquerdo, e dos estereótipos e das atitudes preconceituosas, apresentadas no lado oposto.

Figura 32: Exemplos de achados da primeira década sobre as relações entre os processos neurais e a categorização social, estereótipos e preconceitos

Uma análise cuidadosa do quadro nos obriga a reconhecer a importância da noção de interconexão, dado não ser mais tão importante nestes novos estudos estabelecer a localização do correlato neural responsável pelas funções psicológicas, substituída pela preocupação em identificar as mudanças que se manifestavam durante a ativação e a inibição de algumas partes do sistema neural e de que forma estas mudanças se encontravam associadas com algumas atividades específicas. O papel exercido pelo controle e pela autorregulação dos preconceitos e estereótipos passa a ser objeto de discussão, assim como se procura reconhecer o quanto as motivações e os estados afetivos exercem uma influência bem mais acentuada do que se imaginara. 

O reconhecimento da importância das interconexões exigiu não apenas considerar o papel preponderante exercido por variáveis sociais mais amplas, a exemplo do contexto, da cultura e do sistema normativo, como também nos obrigou a considerar o papel nada desprezível exercido pelos marcadores genéticos, tornando-se imperativo identificar, em um futuro não muito distante, a maneira pela qual os genes são capazes de influenciar o sistema neural e como este, modelado pela genética, por sua vez, influencia a conduta. 

O rápido desenvolvimento dos estudos relativos à neuropsicologia dos estereótipos e preconceitos possibilitou a formulação de alguns modelos teóricos gerais, embora estes estudos continuem a ser orientado por uma preocupação claramente individualista, a exemplo dos desenvolvimentos oriundos dos campos de estudos da neuropsicologia da memória e da aprendizagem. Consistente com o conceito de interconexão, podemos identificar no modelo não apenas os cinco marcadores neurais exemplificados na tabela, com também as conexões por eles estabelecidas e os vínculos mantidos com os distintos sistemas de aprendizagem.

O quadro 12 evidencia que tanto a estereotipização, quanto a expressão de atitudes preconceituosas, envolvem processos corporais que independem de qualquer estrutura neural em particular. Mais do que isso, face as vinculações entre os estereótipos e os preconceitos, devemos considerar as distintas maneiras de expressão de cada uma das estruturas, diferenciando aquilo que é comum entre elas e as relações associativas e interativas por elas estabelecidas.

Quadro 12: relações entre estruturas neurais, sistemas de memória e domínios teóricos

Se, como veremos a seguir, os estudos sobre os estereótipos privilegiam os fenômenos relacionados com a dimensão semântica, um dos elementos mais básicos da expressão dos preconceitos se vincula com as modalidades de aprendizagem associadas com o condicionamento pavloviano, a qual se caracteriza por um tipo de aprendizagem na qual um dado estímulo simbólico se associa com elementos não-simbólicos. Trata-se de uma das primeiras demonstrações da ciência psicológica, cujos efeitos se tornaram conhecido no famoso experimento mediante o qual um cão associou um estímulo simbólico, o som de uma sineta, à apresentação de um estímulo não-simbólico, o alimento, que desencadeava a reação de salivação. Uma vez estabelecida a associação entre o elemento simbólico e o não-simbólico, o animal passava a salivar simplesmente ao ouvir o som da sineta, um tipo de aprendizagem que independia de qualquer avaliação deliberada ou consciente, e que se caracteriza por ser comum não apenas aos cães, mas às diversas espécies de animais. Este tipo de aprendizagem também se manifesta entre os humanos, podendo-se supor, consequentemente, que algumas formas de expressão do preconceito possam estar associadas a modalidades bastante primitivas de aprendizagem, em particular aquelas que envolvem o condicionamento aversivo.

Diversos estudos da neuropsicologia social vêm evidenciando o papel desempenhado pela amígdala nessas formas de aprendizagem, sendo plausível assinalar, à luz do que sabemos hoje, que em algumas formas de expressão dos preconceitos na qual a dimensão verbal não desempenha um papel preponderante, a explicação a partir da aprendizagem pavloviana não pode ser desprezada (LeDoux, & Hofmann, 2018). As respostas de distanciamento social e as diversas formas de expressão na qual a ansiedade ou o medo exercem um papel inibidor ou limitador da conduta representam algumas situações identificadas na literatura especializada nos quais estas formas de aprendizagem para o preconceito podem ser consideradas. Respostas como a paralisia temporária, a vigilância extremada e a evitação de contatos com membros do exogrupo indicam condições nas quais o sistema clássico pavloviano de aprendizagem explica algumas modalidades de expressão dos preconceitos.

A expressão dos estereótipos, por sua vez, se encontra associada a processos que ocorrem em estruturas neurais como os lóbulos temporais mesial e anterior, que há muito são reconhecidos como relacionados o conhecimento semântico e com a associação semântica, assim como com o estriado, que se associa com um tipo de memória instrumental ou procedural.

O que representa cada um desses sistemas de memória e aprendizagem e qual a importância que eles desempenham na expressão dos estereótipos? O papel da linguagem, em particular, o da organização dos conteúdos na memória sob a forma de redes semânticas, tem sido acentuado há algum tempo pelos pesquisadores da área da memória, bem como tem sido destacado pelos estudiosos dos estereótipos. Uma evidência importante dos estudos conduzidos na última década se relaciona com o reconhecimento de que estruturas corticais semelhantes estão envolvidas tanto na busca e evocação na memória das características do alvo da estereotipização, quanto no julgamento dos alvos (Gilbert, Swencionis, & Amodio, 2012), o que indica quão intrinsecamente avaliativo é o processo de estereotipização. Os processos envolvidos com a ativação dos estereótipos, por envolverem a avaliação, bem como a busca do conhecimento relativo ao alvo na memória, são ativados em um momento posterior, cerca de 400 milésimos de segundo, no que diferem do que ocorre no caso do condicionamento clássico, cuja ação é estimada ocorrer entre 170 e 200 milésimos de segundos (White, Crites, Taylor, & Corral, 2009).

Além das modalidades clássicas pavloviana e associativa, não podemos deixar de reconhecer que os estereótipos e preconceitos representam processos nos quais as distintas modalidades de aprendizagem não podem ser desconsideradas (Kurdi, Gershman, & Banaji, 2019). Uma fator importante dos modelos de aprendizagem atuais se refere a definição de quanto esta é livre ou é determinada por modelos, a primeira condição correspondendo aos sistemas automáticos de aprendizagem e a segunda às formas mais controladas. Esta discussão, claro, se relaciona fortemente com muitos vieses de julgamento e com a dimensão avaliativa dos estereótipos, tanto na dimensão implícita quanto na explícita, estando ambas associadas a indicadores relacionados a uma estrutura neural particular, o estriado. A articulação entre os processos que se manifestam no nível neural e o psicossocial está associada às ações repetidas e às formas pela qual elas se realimentam para impor as relações de aproximação e o afastamento para com os membros do exogrupo e a maneira pela qual esta sucessão de respostas se torna codificada, registrada na memória e apta a ser utilizada em situações futuras.

Por fim, não custa destacar que os preconceitos são hábitos e que os hábitos não surgem de uma hora para outra. Aqui o essencial, ao contrário da aprendizagem instrumentalizada pelo reforçamento das resposta, depende do estabelecimento da repetição sistemática e rotineira de determinadas ações conduzidas em um determinado contexto e que se tornam armazenadas na memória (Wood, & Rünger, 2016). O acesso à memória procedural permite a ativação de rotinas que criam as condições para que determinados padrões de resposta sejam eliciados por um ato deliberado do agente, embora possam ser mantidas em funcionamento sem a necessidade de monitoração, uma vez disparada a ação.

Os achados encontrados nos estudos sobre as neurociências dos estereótipos e preconceitos têm se acumulado numa velocidade muito rápida, mas ainda permanecem objeto de desconfiança, comum até mesmo entre os próprios pesquisadores da área, que não vacilam em assinalar a necessidade de adotar uma postura de comedimento na avaliação destas novas evidências. Não custa muito se precaver contra uma visão irrealmente otimista e, consequentemente, acentuar os cuidados para que que não sejam cometidos os erros do passado, ao se evitar que as novas descobertas possam ser interpretadas como uma versão pós-moderna, tecnologicamente avançada e em alta velocidade da frenologia (Forbes & Graffman, 2013).

Processos psicológicos

É absolutamente injustificado conceber a possibilidade de estudar os estereótipos, os preconceitos e a discriminação sem buscar auxílio em teorias que se referem aos processos psicológicos. As críticas aos exageros do individualismo não devem levar a um excesso oposto, o de rejeitar inteiramente a importância dos fatores associados aos indivíduos. Não temos como desconsiderar, por exemplo, a importância das diferenças individuais na expressão dos preconceitos ou a influência do pensamento categórico no processo de estereotipização. Ao discutirmos teorias como as do autoritarismo right-wing ou da personalidade autoritária encontramos indicadores que sustentam o entendimento de que alguns indivíduos são mais propensos do que outros a expressar atitudes preconceituosas ou a realizar julgamentos estereotipados. Algumas destas teorias psicossociais adotam claramente uma perspectiva conflitualista, a exemplo do modelo da dominância social (Sidanius, & Pratto, 2012), pois acentuam que o conflito desempenha um papel central na dinâmica das relações pessoais e interpessoais, enquanto outras se perfilam ao lado de uma posição mais consensualista, a exemplo da teoria do gerenciamento do terror. Consideraremos, de forma breve, algumas das principais teorias psicossociais contemporâneas dedicadas ao estudo dos estereótipos e preconceitos.

Do mundo justo à legitimação do sistema

Uma teoria psicossocial de base motivacional, a da justificação do sistema (Jost & Banaji, 1994; Jost, Banaji & Nosek, 2004; Jost, & Toorn, 2012), possui um caráter mais conflitualista do que outras teorias motivacionais, a exemplo da concepção evolucionista sobre os preconceitos. Ao assumir a perspectiva conflitualista, a teoria da justificação e legitimação do sistema postula uma diferenciação entre os interesses dos grupos dominantes ou privilegiados, ou seja, manter as vantagens e preservar as hierarquias sociais, e aqueles dos grupos não privilegiados, que se voltam para a defesa dos próprios interesses, ou seja, que deveriam ser mais propensos a se insurgirem contra o status quo e as hierarquias sociais.

Por que não desenvolvemos um senso de empatia com os desafortunados e terminamos conseguindo viver tranquilamente em um mundo de infortúnios, desigualdades e misérias? Essa questão vem despertando interesse entre os psicólogos sociais desde a segunda metade do século passado, sendo especialmente conhecida a explicação oferecida por Martin Lerner, naquilo que se convencionou denominar teoria do mundo justo.

A hipótese do mundo justo se sustenta na premissa de que as pessoas creem que o mundo é um lugar fundamentalmente justo e que cada um recebe aquilo que merece ou, pelo menos, aquilo que se esforça para conseguir (Lerner, 1980). Por essa via, muitos acreditam que uma mulher vítima de um ataque sexual pode ser responsabilizada pelo ataque, seja por vestir trajes provocantes, seja por adotar uma postura um tanto sedutora (Carli, 1999). Da mesma forma, não poucos pensam que os pobres assim o são por não labutarem o suficiente ou por serem preguiçosos. A hipótese de base desse modelo é a de que as pessoas creem que recebem exatamente aquilo que merecem. Não é difícil imaginar, portanto, que ao responsabilizar os desafortunados pelas suas próprias misérias, sejam colocados em ação mecanismos motivacionais destinados a fazer com que as pessoas não se sintam diretamente responsáveis pelos males que se abatem sobre os mais desafortunados (La Boétie, 1979). 

Uma preocupação correlata é tentar entender por que nem sempre os grupos que ocupam posições não privilegiadas se insurgem contra o próprio destino e lutam contra a hierarquização da sociedade. A teoria da justificação do sistema procura explicar por que os grupos não privilegiados, que deveriam se insurgir contra as desigualdades e as injustiças a que estão sujeitos, acabam por oferecer respaldo aos arranjos dominantes na sociedade, muitas vezes defendendo as concepções dominantes de uma maneira muito mais vigorosa do que os grupos privilegiados. A manutenção da autoestima ocupa uma posição central nesse caso, especialmente quando essa tentativa se associa a uma tendência a justificar o sistema, ou seja, a considerar que o mundo não apenas é estável, como também é um lugar justo onde as pessoas recebem aquilo que merecem. Esse sistema de crenças, que articula a crença em um mundo justo e a responsabilidade dos outros pelos seus próprios infortúnios, vai muito além do que simplesmente tentar reduzir os efeitos psicológicos dos conflitos entre grupos antagônicos. Trata-se da maneira pela qual grupos desiguais conseguem conviver de forma relativamente pacífica em um mundo injusto, o que impede que as hierarquias sejam desafiadas. Isso, claro, pode levar a uma condição na qual os grupos não privilegiados são levados a um estado de quase imobilismo, o que, por sua vez, reforça e perpetua a manutenção das hierarquias sociais.

Conforme salientam Jost, Pelham, Sheldon e Sullivan (2003), esse processo possui um forte componente motivacional, podendo-se supor que a redução da dissonância cognitiva desempenhe um papel preponderante nesse contexto, especialmente se considerarmos que os membros dos grupos não privilegiados acabam por encontrar boas explicações para as condições em que se encontram, continuam a usar estratégias de racionalização mais flagrantes e a justificar de forma muito intensa o baixo status e o sistema desigual no qual se encontram instalados.

As crenças estereotipadas são particularmente úteis para a criação e manutenção dessas estratégias de racionalização, justificação e legitimação das desigualdades. Uma das modalidades mais comuns de estereótipos que contribuem para justificação dos sistemas se refere à criação de mitos fundamentados em estereótipos compensatórios, a exemplo de um grupo que desenvolve a crença de que se eles, os poderosos, possuem poder, dinheiro e estão muito bem de vida, nós, lenhados, somos muito mais felizes, autênticos e, no final das contas, aproveitamos a vida bem mais do que eles.

Gerenciamento do terror

Se a teoria do mundo justo se fundamenta na crença de que as pessoas desenvolvem estratégias motivacionais para lidar com as ameaças suscitadas pela existência de situações ou pessoas que coloquem em cheque a visão que possuem do mundo como um lugar estável e justo, a teoria do gerenciamento do terror se preocupa em identificar os mecanismos pelos quais nos defrontamos com os terrores suscitados pelo reconhecimento de que somos mortais e que podemos nos deparar a qualquer momento com a morte e os temores a ela associados (Greenberg, Solomon & Arndt, 2008). Esta teoria se fundamenta em algumas premissas básicas: 

i) internalizamos a visão de mundo imposta pela nossa cultura, o que nos oferece a possibilidade de reconhecer que o mundo é um lugar estável e organizado;

ii) essa visão de mundo contribui para o desenvolvimento da crença de que os valores e as normas do grupo ajudam a transcender os temores suscitados pelo reconhecimento de que somos mortais; e

iii) a nossa autoestima desempenha um papel decisivo na aceitação dessa visão de mundo e na possibilidade de gerenciar os temores suscitados pela possibilidade de vir a morrer.

Mediante a ativação da saliência à própria mortalidade, usando técnicas como a apresentação de imagens de acidentes, a apresentação subliminar de palavras como morte e morrer ou a coleta de dados em locais como cemitérios e necrotérios, os pesquisadores identificaram que o reconhecimento da própria mortalidade está associada a fenômenos como o desejo de maior intimidade com parceiros românticos e a busca de uma maior proximidade com pessoas e eventos que contribuam para reforçar a crença que a vida é bela e faz sentido.

No que concerne ao tema dos estereótipos e preconceitos, podem ser destacadas evidências de que, submetidos a um priming relacionado ao tema da morte, os participantes mostraram uma tendência a reagir de forma extremamente negativa frente aos que apresentam visões de mundo ou sistemas normativos diferentes, ao tempo em que tendem a se inclinar favoravelmente em relação a todos aqueles com os quais compartilham uma mesma visão de mundo (Greenberg, Pyszczynski, Solomon, Rosenblatt, Veeder, Kirkland & colaboradores, 1990). Muitos políticos sabem disso e usam o temor à morte, em particular as ameaças vitais suscitadas pelos inimigos externos, para angariar ou recuperar apoio popular (Landau, Johns, Greenberg, Pyszczynski, Solomon & Martens, 2004), não sendo incomum a difusão de mensagens nas quais as ameaças à sobrevivência são enfatizadas, ao tempo que são encorajadas ações violentas contra os inimigos externos. O desenvolvimento de ideologias destrutivas (Staub & Bar-Tal, 2003) pode ser um meio de atender a algumas motivações pessoais, em particular a de lidar com as angústias, ansiedades e temores existenciais.

Teorias fundamentadas nos afetos

Reconhecer que as pessoas são tratadas de forma injusta ou temer a própria morte não é algo que ocorre sem despertar emoções. Dificilmente nos posicionaríamos diante de tópicos dessa natureza de uma forma exclusivamente intelectualizada. Uma hipótese psicossocial, a teoria da emoção intergrupal, enfatiza o papel desempenhado pelos sentimentos e emoções e acentua que as relações entre os grupos são determinadas por uma dimensão analítica na qual o papel das variáveis afetivas é preponderante (Canto, Pereira, & Álvaro, 2015).

Assinale-se, entretanto, que a ênfase que colocamos nos temas dos conflitos e das irracionalidades não deve nos fazer a acreditar que apenas as emoções negativas se manifestam nas relações entre os grupos. Por certo, nos grupos estão presentes sentimentos e afetos bastante positivos, a exemplo da alegria e do orgulho. E, claro, as emoções positivas são mais desfrutáveis quando compartilhadas com os membros do grupo ao qual se pertence. Ganhar um elogio por uma tarefa realizada, obter reconhecimento e fazer sucesso no ambiente de trabalho não é nada mal, mas se esta tarefa for realizada em grupo e o sucesso recair sobre os membros do grupo que contribuíram para o bom êxito da empreitada, a emoção positiva compartilhada por todos será muito mais satisfatória do que se ela for obtida e desfrutada de forma exclusivamente individual.

A teoria das emoções intergrupais reflete uma forte tendência encontrada na psicologia social contemporânea em não se contentar com as explicações inteiramente individualistas. Um dos argumentos centrais é o de que as emoções se relacionam de uma forma muito mais intensa com a identidade social do que com a dimensão biológica. As emoções e os sentimentos que se manifestam nas relações entre os grupos são determinados pela categoria social a qual se pertence, pelo grau de identificação com a categoria e pela maneira pela qual os demais membros da categoria avaliam o alvo. É decisivo, portanto, estabelecer uma diferenciação entre as emoções individuais e as intergrupais. Por exemplo, se alguém pertence a uma determinada categoria social e a categoria como um todo decide pela deflagração de uma greve, então a avaliação que cada um faz dos fura-greve será determinada pelo grau de identificação mantido com a categoria. Quanto mais forte for o vínculo, quanto mais intenso for a identificação com os companheiros, mais intensas serão as emoções compartilhadas com os colegas. Essas emoções, por sua vez, não são simplesmente descargas emocionais que depois passam e vão embora; ao contrário, as emoções intergrupais influenciam a maneira pela qual são efetivados certos posicionamentos e, a depender das circunstâncias, a maneira pela qual se reage frente aos que se insurgiram contra o que foi coletivamente decidido.

Conforme salientam Mackie, Maitner e Smithie (2010), este modelo, ao enfatizar o papel da identidade social, se distancia da concepção biológica das emoções e procura identificar de maneira mais precisa a natureza das emoções tais como elas se manifestam no âmbito das relações entre os grupos. A suposição central, nesse caso, é de que não se trata de imaginar que as avaliações dos membros do exogrupo sejam simplesmente na base do gostar ou não gostar, avaliar positivamente ou negativamente e de que uma mesma avaliação é conduzida por todos os membros da categoria. Voltando ao exemplo do fura-greve, o julgamento não será simplesmente todos assinalarem que o relutante é um traidor da classe trabalhadora e, consequentemente, deve ser avaliado negativamente. Também não é simplesmente achar que os que não furaram a greve estão do lado da categoria e devem ser julgados de maneira positiva. A avaliação das emoções intergrupais é muito mais complexa e é feita caso a caso, pois envolve o julgamento de fatores como os eventos nos quais os atos de rebeldia se manifestam, as pessoas que se comportaram de maneira um tanto controversa e as situações particulares concretas nas quais as atividades se desenrolaram. Isso significa dizer que o alvo da avaliação emotiva intergrupal não se subordina a um único episódio de julgamento, pois as avaliações são múltiplas e sofrem mudanças com a passagem do tempo, a depender das pessoas, eventos ou situações envolvidas.

Salientar que as avaliações das emoções suscitadas por um determinado alvo sejam eventos complexos não significa dizer, entretanto, que as emoções despertadas pelos membros do grupo são imprevisíveis. Por certo, indicar as emoções suscitados por cada um dos fura-greve em todos os membros de um grupo é uma tarefa impossível de ser realizada com êxito, mas é possível estimar de forma relativamente acurada qual será a tendência das emoções a serem adotadas em relação aos membros da categoria que pertencem ao endogrupo, os que honraram os compromissos assumidos com a categoria, e em relação aos recalcitrantes.

A complexidade nas tarefas de avaliação também é acentuada por uma outra teoria fundamentada nos afetos. O modelo dos conteúdos dos estereótipos permitiu a retomada de uma preocupação de longa data dos estudiosos que tinha sido arrefecida numa época em que o fundamental passou a ser estudar os processos psicológicos e não os conteúdos dos estereótipos. Esse modelo se assenta na suposição de que dificilmente os julgamentos sobre os membros de uma categoria social são unidimensionais. Dificilmente um grupo é visto de uma forma simplesmente positiva ou negativa. A percepção e o julgamento dos grupos e categorias sociais, ao contrário, se fundamentam em pelo menos duas dimensões complementares e interdependentes: ser competente (que inclui fatores como a independência, habilidade e capacidade) e ser legal (na qual se incluem elementos como ser amigável e confiável).

A partir dessa diferenciação podem ser identificados quatro possíveis critérios de julgamento dos alvos, que se fundamentam em quatro visões estereotípicas sobre os grupos e categorias sociais: 1) os competentes e legais; 2) os competentes, mas não legais; 3) os legais, mas não competentes; e 4) os nem competentes, nem legais.

As reações emocionais para com os grupos ou categorias sociais dependem, como se pode imaginar, da articulação dessas duas classes de conteúdo dos estereótipos. Ainda que possamos imaginar quanto os estereótipos de competente e legal sejam aplicados usualmente aos membros do próprio grupo, algumas categorias e grupos são vistos como competentes e legais, a exemplo dos atletas olímpicos, celebridades ou artistas consagrados. A essas categorias estão associadas emoções e sentimentos como o orgulho e a deferência. Aos grupos caracterizados como legais, mas não competentes, a exemplo dos idosos, estão associados a sentimentos como a pena. Às categorias vistas como competentes, mas não legais, como, por exemplo, a dos ricaços, estão associados a sentimentos como a inveja. Por fim, sentimentos como o desdém, o desprezo e mesmo o asco estão associados com categorias como a dos pobres ou a dos sem teto, uma vez que eles não são percebidos como competentes nem como legais.

Por certo, as teorias, hipóteses e temas aqui escolhidos representam uma visão apenas parcial do campo de estudos ao qual nos dedicamos, pois muitas outras teorias poderiam ser adicionadas a essa breve revisão dos estudos psicossociais sobre os estereótipos, os preconceitos e a discriminação publicados nas duas décadas finais do século XX. Iniciamos a revisão histórica deixando claro que até algumas décadas atrás o preconceito era normativo, ou seja, ninguém poderia ser acusado por ser preconceituosos ou por estar fazendo julgamentos estereotipados, pois além de ser uma concepção impensável, não existia no dicionário lugar para termos como preconceitos e estereótipos; estas palavras simplesmente não existiam. Os estereótipos e preconceitos estavam naturalizados nas relações sociais e apenas a partir do início do século XX, com o início da desnaturalização das diferenças, emerge o entendimento de que as diferenças reais entre os grupos, sejam elas raciais, étnicos ou de gênero, eram injustificadas e como tais, deveriam ser assinaladas e, mais do que isso, combatidas. O tratamento diferenciado em função da filiação nacional, étnica ou religiosa passou a ser concebido como injusto, desenvolvendo-se a crença algo ingênua de que um maior aprofundamento no conhecimento destas relações desiguais acabaria por fazer desaparecer este tratamento injustificado. Não demorou muito para os estudiosos reconhecerem que as coisas eram bem mais complexas, pois o acréscimo no nível de conhecimento dos estereótipos e dos preconceitos não propiciou a esperada redução da expressão dos estereótipos e preconceitos. Ao longo do tempo, novas explicações para os estereótipos e os preconceitos foram surgindo na literatura, abrangendo diversos níveis de tratamento, ora centrando as explicações nos indivíduos, ora nas normas sociais e culturais que regem a relação entre os indivíduos, ora na sociedade como um todo. Atualmente, embora vigore o entendimento de que nenhuma perspectiva isolada conseguirá explicar os mecanismos ativados durante o processo de estereotipização, permanece em aberto a busca por perspectivas de estudo que permitam organizar de forma sintética e sistemática a dispersão de dados e evidências obtidas ao longo de décadas de estudo.