3.7. Conclusões sobre o estudo científico dos estereótipos

Iniciamos a nossa discussão sobre o estudo científico dos estereótipos acentuando o quanto os estudiosos foram, a princípio, animados por uma profissão de fé iluminista, algo consubstanciado na crença de que conhecimento científico acarretaria o domínio do ambiente físico e social. Preliminarmente, acolheu-se a tese de que a descrição de forma relativamente correta da incidência destes retratos mentais e a posterior divulgação para um público mais amplo terminaria por impor a verdade sobre os grupos-alvo de estereótipos e preconceitos, o que acarretaria o abandono das fotografias mentais errôneas a respeito das categorias-alvo das atitudes negativas. Estes avanços ocorreriam desde que os cientistas fossem capazes de descrever e, em seguida, tornar públicas a natureza das atitudes negativas e a injustiça dos estereótipos. A difusão deste conhecimento apartaria os ignorantes da escuridão, permitindo o surgimento de um mundo no qual o racismo, o sexismo e as diversas formas de discriminação seriam coisas do passado. A oferta de informação provocaria a redução da ignorância a respeito dos grupos-alvo dos preconceitos. Em que pesem as expectativas exageradas, esta pode ser definida como a primeira e possivelmente a mais decisiva estratégia para a redução dos estereótipos e preconceitos e para combate às diversas modalidades de discriminação. Este contexto que caracterizamos como iluminista presidiu as primeiras formulações teóricas, conceituais e empíricas sobre os estereótipos e, conforme assinalamos, pode ser analisado segundo a perspectiva que denominamos atitudinal.

Inicialmente, os estereótipos definidos como fotografias dentro da cabeça foram considerados entidades mentais ou, para ser mais exato, produtos mentais relacionados estritamente com a linguagem, sendo referidos a partir de adjetivos que se supunham apropriados para elaborar os retratos de determinadas categoriais sociais, usualmente estrangeiros e outras minorias sociais. Os exemplos mais marcantes desta tendência foram documentados na denominada trilogia de Princeton, três estudos conduzidos com participantes oriundos de três gerações sucessivas de estudantes. Conforme assinalamos, estes estudos introduziram a técnica do checklist e ofereceram os meios para identificar os adjetivos aplicados a determinadas categorias sociais para, em seguida, calcular, com base nas respostas associadas aos traços atribuídos, o quão positiva ou negativa era a avaliação do grupo, o grau de consenso entre os avaliadores e a intensidade de compartilhamento das crenças estereotipadas.

Os estereótipos, apesar dos avanços conceituais e metodológicos, continuaram sendo concebidos como exageros ou generalizações injustificadas. Apenas com a emergência da perspectiva teórica da cognição social foram encontrados os requisitos conceituais e metodológicas necessários para mudar o status dos estudos sobre os estereótipos, sem que isto, no entanto, tenha representado o abandono por completo do modelo atitudinal aos qual nos referimos na parte inicial do presente capítulo. A formulação mais consonante com esta nova perspectiva foi apresentada por Hamilton e Trollier e reflete o claro efeito da passagem de uma dimensão na análise dos conteúdos dos estereótipos para os processos de estereotipização, pois os estereótipos passaram a ser definidos como estruturas cognitivas que contém o conhecimento, as crenças e as expectativas do percebedor em relação a algum agrupamento humano (Hamilton & Trollier, 1986). Em consonância com a definição de que estereótipos são estruturas do conhecimento, assinalamos que os estudos procuraram identificar como eles interferem em processos psicológicos básicos tais como a alocação da atenção, a percepção, o registro das informações, a evocação do conteúdo na memória, tal qual em processos mais complexos como o julgamento social e a tomada de decisões. Assinalamos que esta perspectiva de estudos está ontologicamente subordinada a um modelo individualista de estudo dos fenômenos sociais, como se depreende da definição de Nesdale e Durkin (1998), segundo a qual os estereótipos devem ser considerados generalizações resultantes do processo adaptativo, ativadas pelos indivíduos com a finalidade de organizar as inumeráveis informações encontradas no ambiente social.

As formulações sobre os estereótipos desenvolvidas entre os anos 80 e 90 conviveram com os limites impostos pelo compromisso assumido com uma perspectiva ontológica individualista fomentada pela abordagem da cognição social, em que se enfatizava que os estereótipos cumpriam uma dupla função simplificadora e organizadora da realidade. Em contraposição ao modelo individualista característico da psicologia social estadunidense, um importante programa de investigação desenvolvido na Europa e conduzido sob a égide das teorias da identidade social e da autocategorização, acentuou outras funções desempenhadas pelos estereótipos sociais. Estes passam a ser interpretados como elementos decisivos na formação da identidade social e vistos como o padrão de resposta adotado pelos membros de um grupo social nas circunstâncias em que estão presentes pressões situacionais e conflitos manifestos e implícitos entre os grupos.

Numa perspectiva analítica ainda mais distante do modelo individualista destacamos uma outra função desempenhada pelos estereótipos no plano ideológico, pois eles exercem um papel decisivo na racionalização das diferenças hierárquicas relativas à distribuição do poder social e na criação de mitos de legitimação que justificam a posição privilegiada ocupada por determinados grupos ou categoriais sociais.

Finalizamos o presente capítulo destacando os novos desenvolvimentos de pesquisa que se impuseram nas duas décadas iniciais do século XXI, acentuando o quanto os estudos sobre os estereótipos, os preconceitos e a discriminação foram realizados em um ambiente marcado por conflitos de diversas ordens. Neste mundo em conflito, no qual os fundamentalismos políticos e religiosos ganharam destaque, os estereótipos se fazem cada vem mais presentes e as suas consequências se tornaram bem mais negativas. A suposição acolhida até os anos 1980 de que as formas explícitas estavam sendo superadas pelas modalidades mais implícitas e indiretas de expressão dos estereótipos se tornou obsoleta face ao surgimento e popularização de movimentos que defendem explícita e abertamente uma postura de intolerância. E não custa nada parafrasear o grande romancista russo Fiódor Dostoiévski: a intolerância chegou a tal ponto que, para não ofender aos néscios, as pessoas inteligentes estão definitivamente proibidas de fazer qualquer reflexão.