5. A sobrevivência dos estereótipos no século XXI

Aqui estamos

Diluir? Reduzir, combater?

Estratégias

O futuro que nos aguarda

5.1. Aqui estamos

O tratamento injusto dos diferentes nunca deixou de nos acompanhar ao longo da história, embora, há algum tempo, insistamos em acreditar que a expressão à moda antiga dos estereótipos e preconceitos tenha sido abandonada e substituída por formas mais sutis e implícitas. No que concerne aos processos psicológicos, acolhemos a tese de que procuramos esconder os nossos preconceitos e estereótipos, o que supostamente contribui para preservar o autoconceito e a bela imagem que fazemos de nós mesmos. Este entendimento se sustenta na crença de que os estereótipos e os preconceitos são evitáveis. Acreditamos, ademais, que a inibição dos estereótipos depende da ativação de um mecanismo mental cuja ação está subordinada ao controle do percebedor, uma tese compatível com a ideia de que, devido à pressão dos sistemas normativos, atualmente somos compelidos a exprimir formas de julgamento social menos preconceituosas, ao passo que, no passado, a expressão era aberta e natural.

As interpretações acima enumeradas, insistimos, faziam sentido na segunda metade do século XX, mas hoje em dia não devemos acolhê-las sem reservas. Acreditemos no que acreditamos, se os estereótipos e os preconceitos podem ser enfrentados e controlados, por certo este efeito reflete o resultado do esforço e da luta ininterrupta de muitos grupos de pressão. Em decorrência destes movimentos, a expressão contemporânea dos estereótipos e preconceitos passou a ocorrer tanto de maneira aberta e manifesta quanto de forma implícita e indireta, não se justificando mais falar sobre a pura e simples substituição de um modelo pelo outro. Alguns domínios, como as áreas do humor, da internet e do universo em torno das competições esportivas, parecem se manter imunes às normas do politicamente justificado e nos ajudam a refletir sobre a persistência dos estereótipos no século XXI. Na seção seguinte ilustraremos como a expressão dos estereótipos e preconceitos muitas vezes ocorre de forma aberta, sem que os agentes ostentem qualquer preocupação em tratar de forma justa os alvos de julgamentos tendenciosos. Em seguida, procuraremos identificar e discutir as principais propostas surgidas ao longo das últimas décadas a respeito da melhor maneira de enfrentar os estereótipos e os preconceitos para, finalmente, concluir o livro tecendo algumas considerações a respeito do futuro das pesquisas sobre os estereótipos.

5.1.1. Estereótipos, internet, humor e esportes

Uma anedota, entre outras coisas, pode ser considerada uma espécie de sátira ou retrato clandestino dos costumes (Câmara Cascudo, 1984). Não poucos ditadores, bem como os costumes e práticas cotidianas, foram ridicularizados pelos comentários corrosivos de gênios do humor, sendo suficiente lembrar Charlie Chaplin e o Grande Ditador, as comédias corrosivas dos Irmãos Marx ou o humor quase infantil de Mr. Bean. Em não poucas circunstâncias, o humor se constitui na única forma de sobrevivência do pensamento crítico, quando as demais possibilidades de conduta estão vedadas (Davies, 1985). O humor também reflete as transformações na sociedade, conforme registrado no estudo de Kuipers e der Ent (2016) no qual se evidenciou como entre os holandeses as anedotas nacionais e regionais vêm decrescendo em frequência, ao tempo em que se intensifica as anedotas étnicas.

Análises conduzidas na psicologia social desafortunadamente têm acentuado o quanto as piadas e anedotas podem desempenhar um papel normativo ao assinalarem as condutas cuja livre expressão se encontram sujeitas a restrições e sinalizar os tipos de sanções aos quais os piadistas podem estar sujeitos. Na nossa tese de doutorado (Pereira, 1996) acompanhamos em um fórum de humor as mensagens trocadas por brasileiros e portugueses e não tivemos dificuldades em identificar quão comum é se divertir com os infortúnios do outro e, ainda mais, o quanto esta satisfação com o infortúnio do outro sobrepassa a satisfação advinda de se esbaldar com o próprio sucesso.

Davies (1982), ao assinalar o esquema mental que preside a elaboração das anedotas étnicas, indica a presença frequente de duas representações estereotipadas bastante comuns a respeito dos grupos-alvo, ora retratados como estúpidos, ora como avarentos. A partir das evidências apresentadas no artigo de Davies elaboramos um grafo no qual estão representadas as relações entre o conteúdo das anedotas, a categoria nacional ou regional à qual a anedota se refere e o local onde a anedota foi registrada.

Figura 120. grafo com o conteúdo da anedota, o grupo alvo e o país em que se conta a anedota

Os mecanismos de elaboração das anedotas não são muito diversificados, pois elas são, frequentemente, requentadas e reproduzidas nos mais diversos contextos, modificando-se apenas cenários e personagens. As nossas piadas sobre os portugueses são as mesmas contadas no Chile sobre os galegos, na Holanda sobre os belgas e na Nova Zelândia sobre os maoris.

Obviamente nem todo humor depende da utilização de elementos estereotipados e, muito menos, precisa ser elaborado a partir da exploração de conteúdos preconceituosos. Por exemplo, se considerarmos os elementos encontrados na elaboração de roteiros de comédias televisivas não é difícil reconhecer a existência de recursos técnicos que facilitam a utilização de elementos estereotipados, ao lado de expedientes mais refratários ao humor estereotipado.

O quadro 20 diferencia alguns recursos técnicos e retóricos utilizados na elaboração de roteiros de comédias televisivas e nos ajuda a fazer um contraponto entre os argumentos mais ou menos propícios a serem utilizados por roteiristas na elaboração de peças de humor estereotipadas (López, 2008). 

Quadro 20 Conteúdos propícios e neutros para a utilização dos estereótipos no humor

Mesmo os roteiristas e escritores dispondo de inúmeras soluções que podem ser utilizadas na elaboração de peças de humor neutras em relação aos estereótipos, assistimos uma profusão mais do que exagerada de conteúdos estereotipados e preconceituosos nas comédias, séries e espetáculos humorísticos. Será o humor não preconceituoso menos engraçado do que o preconceituoso? Os humoristas estão corretos ao assinalarem que apenas oferecem o solicitado pelo público? A elaboração de argumentos humorísticos com base em técnicas como a repetição, a surpresa, o uso de situações facilmente reconhecíveis, assim como outras incluídas na segunda coluna do quadro, poderia proporcionar a produção de peças de maior qualidade e menos estereotipadas. Os roteiristas, no entanto, preferem adotar técnicas de elaboração de anedotas e situações de humor muito menos neutras em relação ao uso de conteúdos estereotipados ou preconceituosos.

Deixemos de lado o tema do humor e consideremos um outro contexto no qual a expressão pouco sutil dos preconceitos e estereótipos tem sido amplamente documentada. Se a internet, a rede mundial de computadores, diminuiu as distâncias, propiciou o surgimento de novas formas de comunicação e colocou por terra a distinção entre emissores e receptores da informação, ela também, favorecida pelo relativo anonimato dos usuários, facilitou decisivamente a expressão de juízos preconceituosos e a manifestação dos estereótipos sociais. Os fóruns de discussão, as salas de chat, as redes sociais e os blogs têm sido utilizados não apenas como meios para expressar preconceitos, mas também para fomentar o surgimento dos grupos de ódio ou de redes de usuários criadas com a finalidade precípua de desqualificar e agredir moral e verbalmente determinadas categorias sociais.

Uma área em que os estereótipos aparecem com muita frequência é a dos esportes. O esporte mais popular do planeta, o futebol, é um domínio onde a expressão dos estereótipos, do preconceito e da discriminação é flagrante, tanto por torcedores quanto por atletas, assim como por jornalistas e comentadores. Apesar da FIFA, a federação internacional de futebol, adotar medidas duras contra a discriminação, os resultados ainda parecem tímidos. Pouco adianta os atletas entrarem em campo portando faixas repudiando o racismo e, alguns minutos depois, no fragor da contenda, expressarem em todas as letras o preconceito que carregam no próprio peito ao lado do nome do patrocinador da equipe. Cânticos e insinuações racistas, gestos grotescos e cacofonias imitando animais são vistos amiúde em muitos estádios de futebol e as medidas inibidoras são insuficientes para limitar as ações disruptivas.

A organização Kick it out, destinada a combater a discriminação e a ajudar a implementar atitudes mais inclusivas no futebol, vem publicando sistematicamente relatórios sobre os episódios de discriminação ocorridos no universo futebolístico e as repercussões nas mídias e redes sociais dos episódios de intolerância. Em suas linhas mais gerais, os resultados apontam um crescimento significativo no número de eventos de discriminação ocorridos no contexto da liga inglesa de futebol, a Premier League, conforme observado no gráfico da figura 121.

Figura 121. frequência dos episódios de discriminação registradas pela organização Kick it out, entre 2013 e 2019

Se na temporada 2012/2013 foram registrados 77 incidentes, dos quais 12 referidos como crimes de ódio, na temporada 2013/2014 o número de incidentes saltou para 284, dos quais 113 foram denunciados como crimes de ódio. Os números relativos às últimas temporadas apontam um crescimento notável no número de episódios, alcançando-se a incrível maca de 540 na temporada 2018/2019.número de episódios que alcançou os 540 registrados na temporada 2018/2019.

Os números, se analisados a fundo, são estarrecedores; um levantamento apenas dos registros obtidos nas redes sociais entre agosto de 2014 e março de 2015 apontou cerca de 134 mil episódios de discriminação, onde 95 mil foram direcionados a clubes e 39 mil dirigidos a jogadores. Os principais alvos das mensagens foram os atletas, vítimas constantes de injúrias raciais e críticas em função da orientação sexual. Os registros refletem claramente a extensão da discriminação online no campo esportivo; considerando-se o total de 134 mil casos, pode-se chegar à conclusão de que foram registrados, a cada mês, quase 17 mil episódios de discriminação, o que correspondeu a 551 mensagens por dia, uma a cada 2,6 minutos.

Os dados, segmentados por categoria objeto de tratamento discriminatório, podem ser organizadas no arremedo de uma tábua de classificação do campeonato dos estereótipos e preconceitos, sagrando-se campeã a discriminação racial, seguida de perto pela sexual, depois a relativa à orientação sexual, as relacionadas com alguma necessidade especial, com o antissemitismo, com o anti-islamismo e, na lanterna, as relativas à idade (Kick It Out, 2015).

Como se constata nesta tabela de classificação dos horrores, ao racismo, a face preconceituosa mais evidente no futebol, se soma o sexismo e a homofobia. O veterano atleta Mario Balotteli, por exemplo, em um episódio muito comentado, chegou a propor um boicote dos atletas negros aos campeonatos mundiais caso não fossem adotadas providências efetivas no sentido de debelar o racismo nos estádios. Não poucos atletas se retiraram das quatro linhas em função de injúrias raciais. Neste particular, os atletas negros parecem ter sido bem mais efetivos do que os atletas homossexuais na luta contra o preconceito e a discriminação. Poucos atletas de orientação sexual não-normativa têm saído do armário, e os que o fazem, convivem com a certeza de que irão sofrer consequências muito graves, com risco inclusive de interrupção de uma carreira promissora. Uma outra área complicada, embora de menor visibilidade, se refere ao idadismo, ou seja, aos estereótipos e preconceitos relacionados aos atletas de idade mais avançada. No contexto do futebol, o passar dos anos não é associado com um ganho em experiência, mas como um entrave ao bom desempenho em campo. As contusões, o desgaste muscular, o cansaço físico e mental, tudo contribui para acirrar os estereótipos e intensificar os preconceitos contra os atletas mais maduros (Freire, & Pereira, 2009).

Os exemplos previamente citados deixam claro o quão a expressão flagrante dos estereótipos e preconceitos permanece viva, oferecendo, ademais, um forte indicador acerca da urgência em se refletir sobre as estratégias a serem adotadas para enfrentar os estereótipos e preconceitos.