Resenha: Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana

Gisele D. Alberton

No resumo introdutório o autor discute a função de perceber e categorizar como processos fundamentais da vida social. O processo de categorização auxilia os indivíduos na organização da realidade social, no entanto este processo também influencia o julgamento dos grupos ou seus membros.
O ensaio intitulado como “Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana” com autoria de Marcos Emanoel Pereira tem objetivo de avaliar e esclarecer alguns mecanismos psicológicos envolvidos na manifestação do julgamento estereotipado pelos habitantes dos centros urbanos, enfatizando o papel exercido pela confirmação e desconfirmação das crenças.
Inicialmente o autor destaca a complexidade da vida urbana e argumenta que a sobrevivência humana nos centros urbanos é possível porque o ser humano tem dois sistemas de aprendizagem, um que permite lidar com as rotinas diárias e outro que o ajuda a lidar com as situações inesperadas. Esses sistemas são complementares.
As informações que são adquiridas no cotidiano através da capacidade de percepção dos indivíduos são organizadas e armazenadas na memória em termos de crenças. Isso é possível devido à categorização. O autor explica que os estudos atuais apontam que uma parte do pensamento é regida por dispositivos mentais que permite pensar os indivíduos com quem se interage em termos de categorias mais amplas e não a partir das particularidades de cada pessoa encontrada no mundo. Assim, esta modalidade também permite que rótulos verbais sejam aplicados a objetos presentes nos domínios: físico, mental e social da vida.
Esse repertório de conhecimentos adquiridos ao longo da vida geram expectativas e são utilizados como base para guiar os comportamentos no mundo social. Baseado nesse conjunto de argumentações o autor destaca a influência que a categorização exerce sobre a percepção social. A partir da ativação dessas estruturas é possível realizar julgamentos sobre os membros da categoria ativada. O autor ainda apresenta exemplos durante suas reflexões (e.g., faxineira no prédio – que vive na periferia ou que vive num bairro próximo) em que é possível visualizar como os estereótipos podem atuar no cotidiano dos indivíduos. Também mostra evidências na literatura que as ideias estereotipadas poderiam ser mais frequentes em centros urbanos porque as pessoas se deparam com uma variabilidade maior de grupos sociais. No entanto, outros autores citados neste ensaio defendem que o pensamento estereotipado se manifesta menos em pessoas que vivem em centros urbanos porque a literatura aponta que a vida nesses locais possibilita maior acesso a informações, o que vai contra as concepções estereotipadas, e também, proporciona maior vivência entre pessoas diferentes. O autor coloca que o fato de as pessoas terem maior acesso à informação não há indício de que elas irão rejeitar ou inibir a expressão das crenças estereotipadas. Em algumas circunstâncias as categorias podem ser ativadas de forma incondicional enquanto outras serão ativadas de forma condicional.
O autor apresenta evidências na literatura sobre a ativação incondicional dos estereótipos que são derivados do trabalho de Gordon Allport sobre a natureza dos preconceitos. Nesta linha a ativação da categoria é um processo inevitável. Em contraposição a esta ideia, o autor relaciona estudos que se posicionem sobre a ativação dessas categorias de forma condicional e que dependem de disparadores adequados. A aplicação do raciocínio categórico torna-se mais comum quando falta ao percebedor motivação, tempo ou capacidade cognitiva para lidar com as demandas sociais.
Assim, não é necessariamente a maior quantidade de informações a que se encontra exposto nos ambientes urbanos que acarretará em um menor grau de estereotipização. O que vai fazer a diferença nas interações sociais é a qualidade dos contatos onde indivíduos podem obter as informações necessárias para fazer julgamentos sociais adequados, o que não é privilégio dos grandes centros urbanos.
Este artigo demonstra que a questão crucial é evitar o predomínio dos estereótipos, pois eles influenciam a percepção, e consequentemente, os pensamentos e comportamentos prejudicando as relações sociais. O mais importante é estar atento ao contexto em que se vive e adotar práticas de reflexão das próprias ações.
Referência: Pereira, M. E. (2008). Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana. Ciências & Cognição, 13(3), 280-287.

Resenha: cognição, categorização, estereótipos e vida urbana

Leonardo Cardoso de Melo

Nesse artigo, o autor se propõe a explorar alguns aspectos envolvidos no processo de formação de representações categóricas e sua relação com julgamentos estereotipados por parte dos indivíduos que habitam grandes centros urbanos. Em sua opinião, o lócus de estudo se justifica em virtude da alta concentração populacional nas metrópoles elevar o grau de complexidade da compreensão do mundo que nos cerca.
Essa compreensão só é possível, segundo os teóricos da cognição, porque possuímos dois sistemas de aprendizagem: um que permite fazer representações de modelos de mundo relativamente constantes, bem como um segundo sistema que complementa o primeiro tornando-nos aptos a responder às mudanças frequentes e características dos espaços urbanos. Sem essa capacidade de categorização estenderíamos ao extremo os limites cognitivos a cada vez que necessitássemos identificar os esquemas de conhecimento sobre o mundo.
Dessa forma, seguimos enquadrando pessoas que acabamos de conhecer de acordo com “crenças gerais e antigas organizadas e armazenadas na memória”, o que só é possível devido a uma modalidade de pensamento dita categórica (p. 281). Nesse sentido, categoria seria a “totalidade de informações que os percebedores possuem na mente sobre uma classe particular de indivíduos” (Moskowitz, 2006, segundo Pereira, 2008, p. 281). O autor ilustra como esse processo de categorização se dá e é fundamental para a nossa orientação diária dando exemplos do cotidiano como quando vamos supermercado, onde encontramos tudo arrumado em seções que teriam um efeito análogo à categorização em nossa mente.
Logo em seguida, Pereira analisa como o pensamento categórico exerce influência sobre a representação social. Esse pensamento teria o papel de guiar a estrutura de conhecimentos acerca do processo de informação que compõem a representação social. Uma vez ativada, essa estrutura de conhecimentos permitem uma série de inferências que envolvem, principalmente, o julgamento e avaliações acerca dos membros de um grupo. Embora essas inferências sejam inerentes à cognição humana, e muitas vezes apropriadas, em boa parte dos casos, elas carregam julgamentos estereotipados como afirma o autor (p. 282). Entretanto o autor salienta que, a despeito da precisão envolvendo a correspondência entre as categorizações que fazemos e os eventos que realmente ocorrem no mundo físico, nossa espécie tem se adaptado relativamente bem ao ambiente, denotando o papel fundamental da categorização em sua sobrevivência por possibilitar que tratemos um “evento novo e inesperado em termos de crenças mais gerais e antigas” (p. 282).
O autor segue descrevendo como tudo que foi dito até agora pode ocorrer no cotidiano citadino. Situações em que podemos evidenciar tanto a confirmação dos estereótipos, bem como as suas controvérsias (p. 283), a exemplo da faxineira que possui o estereótipo de morar em bairro periférico, assim como uma possível contradição caso ela more no apartamento vizinho ao do patrão. Ele aponta que “podem ser encontradas na literatura indicações de que as representações estereotipadas se manifestam de forma menos intensa nos centros urbanos de maior tamanho” (p. 283). O que estaria por trás disso?
A literatura a respeito do tema indica que a vida urbana cria condições para aquisição de informações que muitas vezes põem em xeque concepções estereotipadas. Além disso, por propiciar a relação com as alteridades, algumas obviamente confirmam os estereótipos compartilhados sobre determinada categoria social, “enquanto outras se contrapõem a tudo que se ouviu falar sobre os membros daquele mesmo grupo social” (p. 284).
Entretanto o autor defende a tese de que não é a simples convivência em meio urbano e exposição a uma grande quantidade de informações que reduzirá os índices de estereotipização por parte dos indivíduos, é necessário que haja qualidade nas informações quem nascem do processo de interação social “nos quais são obtidas as informações necessárias para a realização dos julgamentos sociais” (p. 285). Essa qualidade não é privilégio dos grandes centros como ele bem lembra ao afirmar que “alguém pode habitar a maior metrópole do mundo e ser absolutamente desprovido de valores cosmopolitas, assim como pode viver na região mais inóspita e remota do planeta e acolher valores universais” (p. 285).
Por fim, um ponto crucial mencionado pelo autor acerca do processo de categorização merece destaque: nós construímos os fatos sociais e por isso não há realidade própria, já que toda nossa percepção é aprendida. Nesse sentido devemos tomar o cuidado de não extrapolar impondo princípios de uma “realidade social” para uma realidade física. Embora a formação de estereótipos seja algo inerente à condição humana é preciso atentar para esse fato se quisermos evitar preconceitos. Cabe sempre nos perguntarmos se o que penso sobre a realidade é como ela se apresenta, ou é o que desejo que ela seja.

Referências:

Pereira, M. E. Cognição, categorização, estereótipos e vida urbana. Ciências & Cognição: 13, 5, 280-287, 2008. Disponível em: http://www.cienciasecognicao.org/pdf/v13_3/m318280.pdf

Resenha: estereótipos e mulheres na cultura marroquina

Victoria Dourado

O tema a ser tratado se refere ao artigo: “Estereótipos de mulheres na cultura marroquina”, escrito por Fatima Sadiqi e publicado em 2008. O texto se inicia com o tópico “introdução” e apresenta como ponto de partida a explicação de que, inicialmente, o termo “estereótipo” dizia respeito a um molde de impressão usado para reproduzir cópias de um único modelo. Ainda na introdução, o texto traz que no Marrocos os estereótipos são expressões de crenças e valores, mais tarde demonstradas pela autora como inconscientes visto que resultam de uma programação cultural, no caso, a marroquina. O texto se organiza em torno de três tópicos didaticamente elaborados para esclarecer as emblemáticas relações de gênero no contexto islâmico: a primeira aborda os principais componentes da cultura marroquina, a segunda se ocupa dos estereótipos e relações de gênero e, por último, discute às reações das mulheres frente aos estereótipos negativos.

O texto faz uso da explicação de que a cultura é um sistema de práticas, rituais e crenças de uma determinada comunidade que, em níveis diferentes, exerce controle sobre o comportamento de seus membros para afirmar que a cultura marroquina é extremamente reguladora no que diz respeito às percepções de gênero e delimitação de papéis e, faz isso porque possui instituições sociais influentes, as quais são elencadas pela autora: história, geografia, Islã, oralidade, multilinguismo, organização social, status econômico, e sistema político.
Dentre elas, se destaca a história nacional do Marrocos, tradicionalmente oral, que tem sido oficializada exclusivamente por homens e às mulheres, em sua maioria, são analfabetas, resta-lhes à subordinação consequência do viés masculino emprestado à história – amplamente valorizada pelo Estado e pelo sistema educacional – que, ao retratá-las como inferiores aos homens as mantêm marginalizadas. O fator geográfico também se sobressai tendo em vista que, pela localização próxima ao continente europeu, o Marrocos permitiu uma relativização da tradição patriarcal, na medida em que foram assimilados elementos tipicamente europeus que possibilitaram uma atitude mais favorável aos papéis de gênero.
Tendo em vista o aspecto cultural do Islã, evidencia-se a aproximação do discurso feminista das expressões típicas dessa tradição, a fim de inserir o gênero feminino no contexto que lhe é próprio: a sociedade islâmica.
Tal cultura difere da sociedade ocidental, pois a oralidade é um importante instrumento de transmissão de valores positivos e negativos, nesse sentido, essa oralidade se constitui como o modo mais corriqueiro de transmitir os estereótipos sobre as mulheres. Ao mesmo tempo, a oralidade possui também um caráter marginal, uma vez que, é repassada através das línguas maternas de pouco prestígio: berbere e árabe marroquino. A oralidade, em seu aspecto vulgar, está intimamente relacionada com a característica das mulheres marroquinas que analfabetas são mantidas alheias ao contexto sócio político cultural. Atrelado a isso, o multilinguismo é tido como característica formadora da identidade marroquina e está associado à classe social e nível de educação. Nesse cenário linguístico, as mulheres monolíngues – ou seja, que falam apenas berbere ou árabe pertencem a classes menos favorecidas, ressaltando, mais uma vez, a faceta marginal da oralidade. Em contrapartida, essas mulheres se apresentam como bem-sucedidas em suas atividades rotineiras.
Por fim, a organização social impõe na percepção e na construção de gênero uma grande influência. Os papéis sociais de homens e mulheres são rigidamente assegurados pela significação que a família, estruturalmente patriarcal assume nesse contexto. Inclui-se ao sistema patriarcal a exclusão das mulheres. E, para que a estrutura se mantenha, é necessário que sejam impostos tabus, sanções e rituais (expressos principalmente pelo uso da linguagem) que restrinjam a liberdade feminina uma vez que é considerada uma ameaça ao status quo masculino.
Tendo como base que a família é onde começa a socialização, apesar da diversidade social entre as mulheres marroquinas, os estereótipos de fracas, emocionais, más, trabalhadoras, pacientes e obedientes. O desenvolvimento dessa estereotipagem ocorre de modo inconsciente. Os estereótipos se propagam devido ao caráter de presumibilidade. Isso ocorre através dos processos de difusão e insistência. A validade e o alcance do estereótipo, portanto, estão relacionados a possibilidade de atingir a sabedoria social numa sociedade. Os estereótipos de gênero marroquinos são propagados através da linguagem oral, manifestada em verbetes e provérbios, tais como: “a mulher é fraca” e “a mulher é uma víbora”. Tais expressões são tentativas de transmitir, principalmente aos homens, os valores de depreciação da mulher.
Esses estereótipos podem ser explícitos ou implícitos. Os explícitos evidenciam uma atitude positiva em relação à atividade doméstica da mulher, mas desqualificam a sua atuação como líder feminina. São exemplos, os provérbios populares: consulte sua mulher, mas não leve sua opinião em consideração e a mente de uma mulher é pequena. Essas expressões demonstram a intenção de neutralizar o poder transgressor da opinião e da voz femininas.
Os estereótipos implícitos são reconhecidos nos comportamentos e nas falas, de modo inconsciente e espontâneo caracterizando as mulheres como: fracas líderes, conselheiras irrelevantes ou interlocutoras desinteressantes, nas temáticas religiosas ou sociais.
Outra classificação subdivide-se em estereótipos negativos ou positivos. Os positivos não geram problemas preocupantes às mulheres. Os negativos, contudo, criam preconceitos e compõe a imagem da mulher frente à coletividade. A maioria dos estereótipos marroquinos é negativa. Em comparação às ideias e conceitos acerca do homem, as características atribuídas às mulheres são, majoritariamente, negativas. É comum observar expressões populares orais que utilizam elementos alusivos à mulher, a fim de transmitir conteúdos pejorativos. São exemplos: “mercado de mulher”, para significar algo sem valor e “trabalho de mulher”, para indicar que algo foi mal-feito.
É importante destacar o estereótipo relacionado à “linguagem da mulheres”, difundido graças ao dualismo homem/líder e mulher/subordinada. Esse estereótipo define que a comunicação oral feminina é vazia de conteúdo e emitida em tons muito agudos e altos. Assim, as mulheres falariam em demasia e sobre assuntos doméstico e irrelevantes para a sociedade.
A fala da mulher marroquina também está ligada ao estereótipo do “mau-olhado”. Isso representa que quando algum evento com efeitos prejudiciais ocorre após conversar com uma mulher ou ter-lhe como companhia, atribui-se o dano ao poder de sua influência. Esse estereótipo atinge as mulheres velhas, divorciadas ou viúvas. Destaca-se que os homens com essas características são vistos como maridos em potencial, excluindo-se o caráter pejorativo. Esse estereótipo se refere à tentativa de neutralizar o papel social e a manifestação da opinião dessas mulheres, as quais apresentam maior liberdade para transmitir ideias e optar por comportamentos alternativos.
Há ainda a visão pejorativa de que as mulheres devem trabalhar arduamente para adquirir respeito e relevância sociais. A meninas são ensinadas a trabalhar, a fim de estarem aptas a encontrar um bom marido. Exige-se que a mulher, além de submissa, seja, também, uma exemplar chefe doméstica. Relação paradoxal de características, exigindo maiores sacrifícios.
As marroquinas reagem à estereotipagem a partir da afirmação um contratipo, isto é, um estereótipo positivo que substitua aquele pejorativo. Contratipos, contudo, são estereótipos e, portanto, são representações frágeis e superficiais de um grupo social. Opta-se, também, por reivindicar oportunidades de representações políticas femininas, a fim de opor à opinião de que as mulheres não são boas líderes ou que não possuem condições construir opiniões e posições relevantes. Deve-se, também, combater a simplificação das características femininas, expressão da ideologia da superioridade masculina, criando a necessidade de compreensão das peculiaridades. Demonstra-se que os estereótipos podem ser bastante prejudiciais à coletividade de homens e de mulheres e ao sucesso no contexto das organizações. Sendo assim, se faz evidente que a construção dos estereótipos relativiza a heterogeneidade e complexidade inerente às mulheres do Marrocos.

Referência: Sadiqi, F. Estereótipos e mulheres na cultura marroquina. Cadernos Pagu (30), 11-32, 2008.

Resenha: mujeres musulmanas – estereotipos occidentales versus realidad social

Juliana Costa Santos

O artigo de uma temática bastante contemporânea e desconstrói conceitos que estão presentes no imaginário de boa parte da população. A autora, Djaouida Moualhi, já nos primeiros parágrafos, coloca-se como personagem da sua própria história: mulher, muçulmana, imigrante e magrebe. Este ultimo termo se refere à região no noroeste da África, onde existe uma concentração de países islâmicos, como é o caso do Marrocos, da Tunísia e da Argélia.
No começo da sua explanação ela traz à tona alguns tipos mais comuns de estereótipos que os ocidentais tem em relação aos muçulmanos e as suas condições de vida, com foco nas questões femininas. Aos poucos ela demonstra como algumas tradições muçulmanas são vistas pelos ocidentais e as consequências dessa visão, sempre fazendo um paralelo com o Cristianismo. Um exemplo é o pensamento de que os muçulmanos são fanáticos e muitas vezes violentos. Segundo a autora esse discurso teve seu começo na época das cruzadas (Robinson, 1990: 18 apud Moualhi, 2000). De acordo com Moualhi (2000), este pensamento remete ao século XIX, quando a maioria dos países árabes e muçulmanos estavam sendo colonizados por potencias ocidentais. Neste momento a sua religião era a maior forma de expressão e resistência, o que levou os colonizadores a demonizarem e condenarem a prática. Outros exemplos citados são o uso do véu, a poligamia e a clitoridectomia (retirada do clitóris).
Na seção seguinte, a autora se dedica a falar detalhadamente sobre os exemplos citados anteriormente, desmistificando cada um deles e apresentando alguns fatos. Em relação ao uso do véu, ela cita o pensamento ocidentalizado de um autor, que define como “símbolo por excelência da marginalização e da alienação” (Manyer, 1996: 67, apud Moualhi, 2000). No entanto ela diz que mulheres que usam véu não atrapalham a sua emancipação, já que o veem como símbolo de elegância e preservação, e não de repressão. Este é um tópico bastante interessante, visto que, aqui no Brasil, é comum observar o discurso criticado pela autora e tantos outros que mobilizam a população em prol de uma luta contra a repressão de mulheres pelo uso do véu, quando na realidade, boa parte das pessoas “compra a briga” sem saber se a “parte interessada” de fato se sente como pensamos. O mesmo funciona para a clitoridectomia, uma prática existente apenas em alguns países de cultura islâmica, mas que surgiu muito antes do islamismo, Lerner (1990), citado por Moualhi (2000) apresentou a existência deste tipo de prática entre egípcios, fenícios, gregos, etc. Segundo algumas culturas que praticam este ato, trata-se de uma circuncisão feminina, com motivos diversos como: higiene, sacrifício, etc.
Apesar de trazer a realidade sobre alguns estereótipos, a autora também aproveita para falar da existência de graves acontecimentos machistas e discriminatórios na cultura islâmica, como a dependência e subordinação da esposa em relação ao seu marido e como as leis o favorece em caso de separação, custódia dos filhos, etc. No entanto, criticando ou não a cultura, ela deixa bastante claro que essas práticas e suas “regras” não são universais. Ainda que exista apenas um Alcorão e um Charia (espécie de livro de “leis” islâmicas), as interpretações são diversas e as leis também. Cada país pode agir de uma forma diferente. Algumas práticas são comuns em alguns países de cultura islâmica, enquanto podem ser condenadas em outro. A visão unificada sobre o mundo islâmico, segundo Moualhi (2000), faz parte do etnocentrismo ocidental.

Referência: Moualhi, D. Mujeres musulmanas: estereotipos occidentales versus realidad social. Papers, 60, 291-304, 2000. Disponível em: http://ddd.uab.es/pub/papers/02102862n60/02102862n60p291.pdf

Resenha: “Estereótipos e destinos turísticos – o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo

Talita Moreira

Não é sem razão que o uso de estereótipos é uma estratégia bastante requisitada por propagandas turísticas. Muitas vezes somos atraídos a um local, nos sentimos vinculados a um povo, sem nunca termos tido contato direto, mas só de ouvir falar, ver fotografias. É comum encontrar em frases populares, romances, poemas, músicas e folhetos turísticos muitos estereótipos sobre o povo baiano. A Bahia aparece muitas vezes como a terra da felicidade, da alegria, de todos (santos, credos, ritmos, raças, entre outros) e seu povo, por sua vez, é alegre, festeiro, acolhedor, feliz, criativo, e a diversidade parece ser uma característica muito presente.

O artigo escolhido como base para este texto foi “Estereótipos e destinos turísticos: o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo”, de autoria de Marcos Emanoel Pereira e Tula Ornelas, publicado em 2005. O artigo se propõe a identificar e discutir o uso de estereótipos a partir da análise de folders institucionais e de divulgação, elaborados pela Bahiatursa, destinados à promover o destino turístico Bahia.

Pereira e Ornelas (2005) procuram identificar o potencial utilitário dos estereótipos para analisar como eles são utilizados como um meio de divulgar e promover destinos turísticos. Inicialmente os autores, apresentam uma breve revisão histórica dos estudos sobre estereótipos. Defendem que apesar de mudanças avaliativas que os estereótipos sofreram ao longo do tempo, a visão negativa que sempre acompanhou o construto não foi eliminada totalmente, considerando que os estereótipos ainda continuam sendo considerados fundamentalmente como o efeito da manifestação de mecanismos da economia cognitiva. Porém, é questionado pelos autores se os estereótipos seriam necessariamente negativos ou seria possível apontar que a utilização deles oferece alguma contribuição para determinados segmentos sociais ou mesmo para a sociedade como um todo?

Apesar dos autores reconhecerem que a literatura especializada sobre os estereótipos e o turismo não ser vasta, defendem que possivelmente, hoje, nenhuma área da vida cultural seja capaz de salientar a natureza utilitária dos estereótipos quanto à indústria do turismo. Analisam que os materiais promocionais elaborados pelas agências de fomento ao turismo procuram divulgar e promover os destinos, utilizando os estereótipos como um meio de ressaltar o que determinado local tem de mais belo, atraente, sedutor e encantador, desempenhando, assim, o papel de formador de motivações e desejos, contribuindo para a construção da identidade turística do destino que está sendo promovido.

Quanto aos resultados do estudo, é apontado que dos 35 folders identificados no arquivo da Bahiatursa, 26 exibiam a utilização de estereótipos, em forma de textos ou imagens, entretanto, apenas doze folders institucionais foram escolhidos para análise. Os estereótipos identificados podem ser agrupados em duas grandes categorias, uma referente ao lugar e outra referente ao povo. Sobre a primeira categoria os autores salientam que conceitualmente é inadequado se referir a estereótipos sobre lugares, pois se trata de um conceito cujo referente restringe-se a categorias sociais. Entretanto, é enfatizado, no texto, que para este caso um precedente será aberto, dada a impossibilidade de se refletir sobre estereótipos de um povo sem considerar o território habitado por tal população.

Em relação às representações estereotipadas relativas ao local, o artigo destaca três: A expressão ‘terra encantada’ – aparece em todos os folders, recebe 26 citações; A formulação ‘terra da felicidade’ – com 20 citações; A representação ‘paraíso tropical’ – utilizada em três folders, sendo citada quatro vezes.

O estudo identificou que o tema da festa é um dos temas mais utilizados nos folders. A ideia de um povo alegre e festeiro alcança as maiores frequências, embora não presente em todos os folders. Os estereótipos sobre um povo hospitaleiro aparecem em mais da metade dos folders, a visão estereotipada do baiano hospitaleiro sugere que este povo recebe com carinho o visitante.

É destacado pelos autores que o estereótipo do povo mestiço é apresentado em sete folders, e pretende oferecer certo caráter de democracia racial e de convívio harmonioso entre brancas, negros e índios. Além disso, o estereótipo do baiano criativo aparece em cinco folders, já o estereótipo sensual é apresentado em 8 folders. Sobre este último é válido apontar o destaque dado, no artigo, ao fato que este estereótipo é encontrado, sobretudo nos folders divulgados em língua estrangeira, e que atualmente quase que não se encontra folders com a apresentação de imagens de mulheres seminuas, pois se entende que pode fortalecer o turismo sexual amplamente combatido nas últimas décadas.

Entretanto, Pereira e Ornelas (2005) afirmam que embora não haja uma referência explícita a sensualidade mediante imagens de mulheres de biquínis, existe alusões mais sutis, em que se pode encontrar à sensualidade na maneira baiana de se vestir, visto que o clima permite o uso de vestes decotadas, no jeito de andar. Também aparece a ideia da Bahia enquanto que adepta a todos os credos, santos, há um convite para que “o turista se vista de branco, amarre uma fita do Senhor do Bonfim no pulso, mas não esqueça de colocar um patuá no bolso”.

Por fim, os autores assinalam que a apropriação turística dos estereótipos é uma via de mão dupla, uma vez que não apenas os turistas desenvolvem percepções estereotipadas do povo visitado, como também os nativos desenvolvem estereótipos sobre os turistas. De forma que, para os visitantes os estereótipos permitem uma simplificação do tipo de comportamento a ser adotado durante os contatos. Já para os visitados, os estereótipos favorecem o desenvolvimento de uma sequência de roteiros que proporcionam facilidades nas relações com os visitantes, permitindo a alguns garantir o sustento econômico. Assim, neste contexto, os estereótipos proporcionam uma função relevante a todos os envolvidos nas atividades turísticas.

Referência: Pereira, Marcos Emanoel; Ornelas, Tula. (2005). Estereótipos e destinos turísticos: o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo. Caderno Virtual de Turismo, vol. 5, núm. 3, 2005, pp. 9-17. Universidade Federal do Rio de Janeiro. Río de Janeiro, Brasil. Disponível em http://redalyc.uaemex.mx/pdf/1154/115416147002.pdf

Meu nome é Khan!

Contribuição: Wilma Ribeiro
Professora do Curso de Psicologia
Faculdade Adventista da Bahia

Meu nome é Khan! Um filme interessante para se analisar os estereótipos e o preconceito étnico. Trata-se da história de Khan (Shahrukh Khan- mesmo sobrenome na vida real), portador da síndrome de Asperger, que quando criança aprende de sua mãe muçulmana que a única diferença que existe entre seres humanos é entre bons e maus. Ao tornar-se adulto vai morar em São Francisco – EUA, casa-se com uma hindu e após o ataque às torres gêmeas – 11 de setembro de 2001 – a sua vida muda completamente. A xenofobia contra muçulmanos acaba tornando a dinâmica social e psicológica da família de Khan insuportável. A jornada de Khan que é apresentada no filme trata-se de sua tentativa de provar que não é um terrorista. Recomendo!

Resenha: Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais.

Zélia Fernandez

O artigo traz uma importante articulação entre a produção dos textos de correspondentes internacionais e os seus efeitos na manutenção dos estereótipos relacionados a imagem do Brasil no exterior. O artigo está dividido nas suas 15 páginas, em quatro partes : na primeira parte o artigo traz o resumo e uma introdução com uma revisão histórica das atividades de correspondências de notícia no Brasil e uma pequena revisão teórica sobre os estereótipos, na segunda parte ele apresenta sua metodologia de pesquisa descrevendo também seu referencial teórico para análise metodológica e que serve de referência para confirmação da sua hipótese de pesquisa. Na terceira parte o autor discute os seus resultados fazendo uma articulação rica entre o quanto a manutenção dos estereótipos é reforçada nessas produções jornalísticas, o papel do profissional nas suas escolhas e as repercussões sócio econômicas da manutenção desses estereótipos. E ao final, as referências bibliográficas.
O autor é I.Paganotti, jornalista freelancer formado pela Universidade de São Paulo, professor de Jornalismo do Colégio Stockler.

Na primeira parte do artigo o autor apresenta o resumo e os primeiros exemplos do tratamento que a imagem do Brasil recebe pela mídia e os instrumentos que serão utilizados para aprofundar o tema, assim como uma revisão histórica das impressões estrangeiras como fonte da identidade nacional.

Ele descreve como historicamente a imagem do Brasil foi sendo construída e a formação de uma idéia de Brasil a partir da perspectiva do olhar estrangeiro, mais especificamente da visão dos correspondentes internacionais, que ele chama dos novos jesuítas, que com seus relatos de viagem são responsáveis por levar as noticias do Brasil para fora.

As reportagens feitas por esses profissionais chega a casa dos milhares anualmente e portanto a construção de uma imagem brasileira, onde se reproduz muitos estereótipos não consegue estar fora da pauta. Nesse sentido são dois brasis que são normalmente descritos nesses relatos: o do paraíso e o do inferno.

O autor faz uma pequena revisão teórica do conceito de estereótipo, citando autores como Lippman e Maisonneuve. Segundo o autor é a partir dos estereótipos presentes nos muitos relatos dos estrangeiros sobre o Brasil, que vão se sustentar a imagem do pais lá fora e ajudar a construir o imaginário coletivo estrangeiro sobre o Brasil.

Na segunda parte do texto ao autor apresenta o método da sua pesquisa. Ele usou como fontes o The New York Times dos EUA, El Mundo da Espanha, Diário de Notícias de Portugal, The Guardian e The Observer da Inglaterra, Página/12 e El Clarín da Argentina.

Analisando 1244 textos e usando como referencial teórico para análise dos textos a análise crítica do discurso, definida por Fairclough como “o exame das conexões implícitas entre as características textuais e os processos sociais (Fairclough, 1997: 97)”, ele procurou aprofundar o quanto havia de reprodução ou transformação dos estereótipos. De acordo com Fairclough se pode utilizar uma estratégia mais normativa, reproduzindo uma idéia por meio da repetição ou mais criativa transformando pela contestação, discussão ou até mesmo negação “os pressupostos e estereótipos apresentados”. Segundo o teórico as manifestações criativas mantidas em longo prazo “podem também alterar permanentemente as próprias imagens, pressupostos ou estereótipos que a opinião pública tem sobre certos temas (idem, 1992: 165)”. O autor se preocupou em procurar detectar sinais de desconstrução da imagem estereotípica que os estrangeiros têm sobre o Brasil, nas suas narrativas.

Na terceira parte do texto o autor discute os seus resultados fazendo uma classificação muita rica dos relatos levantados em quatro grupos temáticos estereotipados. São eles: O Brasil “verde”: concentra-se na exaltação da beleza natural do país, o Brasil “de lama”: que foca a corrupção política, o subdesenvolvimento e a pobreza endêmica e freqüentemente inter-relacionados a o terceiro grupo temático, o Brasil “de sangue”: que é o Brasil da violência, incluindo o tráfico de drogas, que leva a um cenário de insegurança. E finalmente no quarto grupo o Brasil “de plástico”: que é um Brasil muito publicitário, “é a nação das festividades carnavalescas, da liberdade sexual (seja qual for a orientação), dos negócios, da alta sociedade e seus caprichos”.

No artigo há uma tabela onde as quatro categorias temáticas são apresentadas e a freqüência em que cada sub tipo relacionados a elas aparece. Uma conclusão muito interessante do autor é sobre a freqüência de estruturas representativas simplificadoras que aparecem em cada três reportagens, deixando claro que a repetição de estereótipos é mais comum do que a transformação. Uma categoria no entanto, chama mais a atenção como aquela que possui o maior percentual de transformação, com 88, 9% , é o da miscigenação, superando o mito da democracia racial. No entanto a maioria ainda é o da reprodução de estereótipos, com uma predominância do Brasil “sangrento” nas ligações com o tráfico de drogas e em segundo lugar o Brasil “de lama” com grande repetições de estereótipos como a corrupção e a pobreza. Aqui o autor faz uma análise muito apropriada de como a escolha do vocabulário pode influenciar a representação e conseqüentemente pode colaborar com os processos de estereotipia onde se passa a idéia por exemplo de que: “é em meio à pobreza que cresce o banditismo”.

Os estereótipos oferecem uma possibilidade de ajuda aos correspondentes no sentido de dar a eles um caminho simplificador, onde eles possam apenas aprofundar, a sua narrativa.O problema apontado pelo é autor é a permanência ou insistência no uso de certas representações que não dizem respeito mais a realidade e que carece de questionamento e transformação, levando a um déjà vu de pré-conceitos e conceitos ideologicamente enviesados. O autor aponta ainda poucos esforços no sentido do que seria uma prática interessante, que a discussão sobre a utilização de estereótipos, tornando esse mecanismo mais consciente, tanto por parte do jornalista quanto do leitor.

A superação ao longo dos anos de uma narrativa transformadora da imagem de um Brasil exclusivamente sensual, festivo e exótico, portanto reducionista, para uma mais crítico, acabou criando novos estereótipos, onde se enfatiza demais certos aspectos negativos. Nesse ponto do artigo e para finalizar, o autor faz uma interessante articulação entre as repercussões ideológicas e sócio econômicas da utilização desses estereótipos. Ele coloca que a expressão desses estereótipos nas narrativas desses profissionais, os alterando ou os mantendo, tem o efeito de servir a interesses, seja intencionalmente ou não.

Referência: Paganotti, I. Imagens e estereótipos do Brasil em reportagens de correspondentes internacionais. RUMORES – Revista Online de Comunicação, Linguagem e Mídias 1, 1, 2007