4.4. Cenários, entes e eventos

Dado o estudo dos estereótipos demandar considerações acerca dos distintos tipos de entes e as duas modalidades de teorias implícitas, consideramos a necessidade de identificar o tipo de ente social ao qual o estereótipo se refere, assim como a teoria elaborada para explicar os padrões de conduta do alvo. A noção de cenário se impõe, no nosso entendimento, como uma boa alternativa para a elaboração de desenhos de pesquisa mais elaborados, pois um cenário é um recurso maleável o suficiente para permitir não somente a inclusão de um ou mais entes sociais e distintas teorias implícitas, como também pode facilitar a inserção de outros fatores que reputamos decisivos no estudo científico dos estereótipos, a exemplo dos eventos mentais.

4.4.1. Entes e eventos

Ao serem desindividualizados, os alvos dos estereótipos já não são mais julgados com base nas suas características idiossincráticas e pessoais, pois passam a ser percebidos como parte de uma entidade maior. Nesse sentido, a entitatividade pode ser interpretada como uma propriedade emergente e se refere a um mecanismo psicológico pelo qual o indivíduo é colocado entre parênteses e passa a ser percebido como parte de uma totalidade. O grau de entitatividade, conforme assinalamos, não é o mesmo para todos os tipos de entes sociais. A figura 112 reproduz as imagens que utilizamos em uma pesquisa conduzida em um ambiente on­line e nela os entes estão ordenados segundo o grau crescente de entitatividade, iniciando pelos agregados e finalizando com os grupos orientados para a tarefa.

Figura 112: reprodução das imagens dos tipos de entes: linha 1: agregados; linha 2: categorias sociais naturalistas; linha 3: categorias sociais entitativas; linha 4: grupos de intimidade; linha 5: grupos orientados para a tarefa.

A especificação do ente alvo do julgamento estereotípico é um elemento decisivo na condução de pesquisas sobre os estereótipos e, adicionalmente, consideramos importante salientar que os julgamentos estereotipados não são realizados em um vazio social. Os comportamentos humanos estereotipadamente julgados podem ser classificados em função dos tipos de eventos mentais nos quais os estereótipos se manifestam. Seguindo mais uma vez as sugestões de Malle acolhemos a suposição de que os eventos mentais podem ser diferenciados a partir de duas dimensões: 1) se podem ou não ser ostensivamente observados e 2) se podem ou não ser qualificados como intencionais. A partir destes dois critérios consideramos aceitável a diferenciação de quatro tipos de eventos mentais: as ações, os comportamentos observáveis, os pensamentos intencionais e as experiências.

Figura 113: um grupo feminista em ação

Observemos a cena representada na figura 113 considerando-a uma situação na qual estão representadas mulheres filiadas a um grupo feminista que se deslocaram até a porta de uma loja de departamentos para protestar contra as práticas discriminatórias supostamente ocorridas naquela empresa. A cena, ainda que fale por si mesma, pode ser interpretada de diversas maneiras, uma vez que ela tanto pode ser descrita como uma ação resultante de deliberações intencionalmente relevantes por parte de uma ou mais personagens, como pode ser interpretada como uma conduta rotineira e marcada por scripts previamente aprendidos pelas participantes. A ênfase na descrição da cena também pode ser oferecida para os pensamentos intencionais das agentes ou pode ser retratada apenas como experiências próprias de cada uma delas. Estas quatro possibilidades estão representadas no quadro 16, no qual indicamos as correspondências entre os quatro tipos de eventos mentais e os enunciados apropriados para refletir o que ocorre em cada um dos eventos.

Quadro 16: Mudanças relativas ao enunciado da questão, enfatizando o tipo de evento mental

A coluna Enunciado reproduz os itens de um questionário elaborado com a finalidade de contextualizar a natureza do evento mental atribuído a um tipo específico de ente social, um grupo orientado para a tarefa, exemplificado pelo grupo de militantes feministas. Ao assinalarmos a necessidade de adotar os eventos mentais como instrumentos analíticos no estudo dos estereótipos, os enunciados foram incluídos no presente contexto como um indicador da necessidade de evitar tratar os grupos sociais não somente como entes genéricos, mas também como uma admoestação no sentido de indicar que os eventos sociais ocorrem em inúmeros contextos.

4.4.2. Cenários

Uma vez incluídos outros entes que não apenas as categorias sociais, assim como os quatro tipos de eventos mentais acima referidos, devemos especificar as condições requeridas para a condução de estudos em diferentes cenários. Para tal, julgamos imprescindível diversificar as modalidades de apresentação das cenas para que as distintas dimensões dos estereótipos possam vir a ser submetidas a testes empíricos:

– Cenário I:  entes + componentes dos estereótipos

– Cenário II: entes, componentes dos estereótipos + eventos

– Cenário III: entes, componentes, eventos + priming

Apresentaremos nos próximos parágrafos a formalização do modelo e, em seguida, indicaremos os requisitos necessários para a construção dos cenários acima referidos, levando em consideração os elementos incluídos no diagrama da figura 114 no qual estão representados esquematicamente os fatores incluídos no modelo analítico previamente apresentado.

Figura 114: modelo geral de estudo incluindo os elementos definidores dos estereótipos, entes sociais, eventos mentais, cenários e a aplicação do priming

4.4.3. Formalização do modelo

Os modelos teóricos acima apresentados articulam elementos oriundos das principais tradições de pesquisa sobre as relações entre a entitatividade, as teorias implícitas e os estereótipos. Ao contrário das teorias clássicas que tendem a considerar a homogeneidade percebida como a principal causa da categorização e de forma compatível com a visão essencialista, consideramos absolutamente fundamental destacar o papel das teorias implícitas no processo de estereotipização. Este entendimento se subordina à premissa cuja origem se encontra nas teorias atribuicionais da causalidade, posteriormente adotada pelos teóricos da cognição social, de que os seres humanos agem como cientistas e procuram identificar as causas dos comportamentos e dos eventos que se manifestam no mundo físico e na realidade social.

Julgamos importante insistir que os estereótipos se fundamentam nas teorias implícitas disponíveis pelo percebedor a respeito do ente alvo do julgamento estereotipado. Todo objeto de uma crença estereotipada é alvo de um relato, de uma história contada pelo agente. Essas histórias correspondem às teorias implícitas e ainda que elas desempenhem um papel importante na expressão dos estereótipos, a presença dos elementos sensoriais e perceptuais não pode ser desprezada. Os membros do grupo-alvo não apenas são salientes, mas também são percebidos como semelhantes entre si. Além disso, existe uma forte pressão em direção a um julgamento relativamente consensual a respeito dos membros do grupo-alvo do julgamento estereotipado.

O impacto da identificação de metas e propósitos comuns aos membros dos grupos sociais é um componente adicional do modelo aqui postulado. Este é um dos fundamentos da percepção dos grupos como entidades. A base ontológica dessa identificação se fundamenta nas leis gestálticas da organização da percepção e a aplicação deste princípio ocorre especialmente nas circunstâncias em que os membros do grupo são percebidos numa relação de proximidade ou quando se concebe que eles agem de forma organizada.

O impacto conjunto da identificação de metas ou propósitos comuns e da percepção de homogeneidade propicia a expressão da dimensão entitativa, um mecanismo que facilita a percepção dos grupos como entidades. A partir do momento em que os membros de um grupo são percebidos como afiliados a um determinado ente social, manifesta-se um forte potencial indutivo, o que faz com que seja atribuída uma comunalidade de características e interesses entre os membros do grupo, categoria ou agregado.

O resultado da interação entre as teorias e a entitatividade gera um produto que se torna objeto de julgamento social, cuja condução depende particularmente da condicionalidade temporal. Se supomos que dispõe de tempo, interesse, motivação e algum tipo de envolvimento afetivo com o alvo, ou melhor, se acolhemos a suposição de que a ação de quem fez o julgamento estereotipizado foi taticamente motivada, seremos obrigados a admitir que ocorreu um julgamento controlado e, consequentemente, procuraremos identificar as razões e os motivos que determinaram o julgamento estereotipado (Fiske e Taylor, 1991). Em contrapartida, se admitimos que a pessoa que expressou o julgamento estereotipado se encontrava sujeita a uma série de pressões temporais e foi impelido a formular um julgamento apressado e sem levar em consideração as características individuais de quem estava sendo julgado, teremos de admitir que o julgamento foi conduzido mediante a aplicação de processos automáticos e, por conseguinte, acolher a suposição de que o resultado do julgamento foi determinado prioritariamente pelo uso de rotinas mentais, sendo marcado fundamentalmente pelo uso de heurísticas e vieses.

Cenários de tipo I

Trata-se do cenário mais simples e fácil de ser implementado, elaborado única e exclusivamente com a finalidade de testar as relações de natureza comparativas ou associativas entre os diversos tipos de entes sociais e os componentes do modelo de estereótipos. Podemos diferenciar esta implementação daquelas utilizadas nos modelos clássicos de condução de pesquisas sobre os estereótipos como, por exemplo, o checklist, ao acentuar que o indagado ao participante nunca é a categoria social à qual usualmente ele assinalava a concordância com traços ou características definidoras da categoria. No lugar de uma avaliação genérica, os alvos devem ser apresentados diferencialmente, ora como membros de um grupo, ou de um agregado ou de uma categoria social, esperando-se que os participantes difiram na avaliação de cada um dos tipos de entes sociais. Este cenário permite facilmente a inclusão de novas variáveis e, consequentemente, a implementação de desenhos de pesquisa mais elaborados sem que mude fundamentalmente a natureza da questão de pesquisa. Por exemplo, podemos supor um cenário implementado para uma pesquisa experimental com três fatores organizado de acordo com um desenho 2 x 2 x 5; nele teremos os dois primeiros fatores independentes, neste caso o país de origem dos participantes, digamos, Brasil e Espanha; um segundo fator de medidas repetidas no qual o estímulo é apresentado sob forma textual e imagética; e um terceiro fator, relativo aos cinco tipos de entes sociais nos quais se avaliam agregados sociais, categorias naturalizáveis, categorias entitativas, grupos de intimidade e grupos orientados para a tarefa.

Cenários de tipo II

O desenho da pesquisa conduzida no cenário I, ainda que permita testar algumas predições a respeito das relações entre os entes sociais, os componentes do modelo e algumas variáveis de controle ou manipuláveis, mostra-se limitado em relação a um aspecto particular: a apresentação dos entes sociais, embora seja compatível com a forma usual de conduzir pesquisas no campo de estudo dos estereótipos, é relativamente estática, impossibilitando a avaliação da influência dos diversos tipos de circunstâncias nas quais as condutas estereotipadas se manifestam.

O cenário experimental do tipo II permite desenhar estudos com a finalidade específica de avaliar as diferentes modalidades de eventos mentais em que os entes alvos do julgamento estereotipado se encontram presentes. A forma de implementação deste tipo de cenário experimental introduz a necessidade de se postular um número exagerado de relações de natureza comparativa e associativa entre as variáveis, o que tornaria um único estudo envolvendo todas estas variáveis uma tarefa extremamente complexa. Tal circunstância favorece a implementação de um tipo de abordagem metodológica na qual seja planejada a condução de uma série de estudos de pequeno porte, subordinados a uma estratégia de introduções sistemáticas de mudanças no contexto de avaliação, com a finalidade de identificar o impacto de cada uma das mudanças nos padrões de julgamento estereotipado.

Cenários de tipo III

O cenário III preserva todas os elementos inerentes aos estudos anteriores; porém, introduz uma dimensão mais interventiva por parte do pesquisador vez que envolve a criação de condições em que se procura facilitar a emergência de determinadas expressões de julgamento estereotipado via implementação de manipulações experimentais diretas como o priming, seja ele supraliminar, subliminar ou elaborado mediante a criação de dispositivos mentais. Supomos que a descrição destes modelos tornar-se-á mais clara com o detalhamento dos procedimentos para a criação computadorizada dos cenários de teste.

4.4.4. Criação computadorizada dos cenários de testes

O desenho de cenários computadorizados para o teste do modelo teórico depende das hipóteses a respeito das relações entre os constructos teóricos e os tipos de entes. Por exemplo, no cenário do tipo I é possível postular, com base nas evidências encontrada na literatura acerca das relações entre as teorias implícitas e a entitatividade, as seguintes previsões a respeito da intensidade das associações entre os entes sociais e os componentes dos estereótipos, tais como observadas no quadro 17.

Quadro 17: Relações de associação previstas entre componentes e entes sociais

A título de exemplo, reproduzimos na figura 115 a tela do ambiente de pesquisa implementado na plataforma de web survey EFSurvey no qual foi solicitado ao participante indicar o grau de adesão à tese de que os membros de um grupo orientado para a tarefa, neste caso os trabalhadores de uma agência não-governamental, podem ser avaliados em cada uma das dimensões da direção comum (o grau de organização) que, por sua vez, é um dos componentes do constructo entitatividade.

Figura 115: reprodução da tela, com a avaliação de uma das dimensões da entitatividade dos voluntários de uma ONG

Conforme observado, a elaboração do cenário exigiu a inclusão dos seguintes elementos:

  1. Uma imagem prototípica de um tipo específico de grupo orientado para a tarefa;
  2. Uma sentença objeto de avaliação, elaborada com o objetivo de aferir uma das dimensões da entitatividade, o grau de organização;
  3. Uma escala no formato Likert destinada a avaliar cada um dos itens; e
  4. Dois botões de interação entre o aplicativo e o usuário, um para confirmar a avaliação e um segundo que habilita o participante a abandonar o aplicativo computacional a qualquer momento, uma vez que a resposta a todos os itens incluídos no cenário demandaria a avaliação de 510 telas, correspondente à multiplicação dos 15 tipos de itens, cujas imagens estão reproduzidas na figura 112, pelos 34 itens de avaliação requeridos para cada um dos componentes dos estereótipos, tais como reproduzidas no quadro 18.
Quadro 18: Variáveis e itens mensurados

4.4.5 Evidências

Em nome da concisão evitaremos comentar todos os resultados dos testes do modelo teórico, sobretudo porque eles foram publicados sob a forma de artigos, restringindo-nos a comentar os resultados mais destacados. O estudo 2 da pesquisa publicada em Pereira, Modesto & Matos (2012) postula que seriam identificadas diferenças no grau de estereotipização relativas aos entes sociais, sendo os agregados menos sujeitos a julgamentos estereotipados e as categorias sociais o tipo de ente mais sujeito aos estereótipos. Os resultados do teste desta hipótese podem ser visualizados mediante a inspeção do gráfico da figura 116.

Figura 116: intervalo de confiança de 95% da média da variável estereótipos, por ente

A aplicação de uma ANOVA para medidas repetidas permitiu identificar uma diferença significativa entre as médias dos entes submetidos à avaliação (traço de Pillai = F(4,566) = 486,10 , p. <.001). Para avaliar as diferenças entre as categorias conduzimos uma série de testes de diferenças entre as médias para medidas repetidas e identificamos que as médias dos agregados diferiram significativamente em relação aos grupos orientados para as tarefas (t(596) = 18,63, p. <.001), aos grupos de intimidade (t(594) = 19,37, p. <.001), às categorias naturalistas (t(592) = 15,27, p. <.001) e às categorias entitativas (t(593)= 13,05, p. <.001).

Os agregados foram avaliados de uma forma bem menos estereotipada do que os outros entes, ao tempo em que o escore geral de avaliação dos três tipos (fila, passageiros e transeuntes) alcançou a média 1,83. Este valor sugere a possibilidade de aplicar os estereótipos aos agregados sociais, indicando a estereotipização como um constructo passível de ter como referente não apenas categorias ou os grupos sociais

No que concerne às diferenças entre as categorias e os grupos sociais, os resultados evidenciaram que os grupos foram avaliados de forma mais estereotipada do que as categorias sociais. Tínhamos a expectativa de que as categorias sociais naturalistas, por serem aplicadas de forma automática e incondicional, fossem avaliadas de forma mais estereotipada do que as categorias socais entitativas, um resultado não corroborado pelos dados, dada a ausência de diferença entre as médias das categorias naturalistas e entitativas (t(589) = 1,20, p. = .229).

Evidências adicionais sugerem uma maior complexidade no que concerne aos entes aos quais os estereótipos se aplicam. Por exemplo, a avaliação dos dois tipos de grupos, orientados para a tarefa e de intimidade, não permitiu diferenciá-los (t(588) = 0,96, p. = 335), embora tenhamos constatado diferenças entre categorias naturalistas e os grupos orientados para a tarefa (t(593) = 3,09, p. = <.05) e os grupos de intimidade (t(588) = 2,46, p. <.05), assim como entre as categorias entitativas e os grupos orientados para a tarefa (t(589) = 4,48, p. = <.001) e os grupos de intimidade (t(588) = 2,06, p. <.05).

O conjunto dos resultados aqui expostos reforça a interpretação de que os estereótipos se aplicam de forma diferenciada em relação aos tipos de entes, dado terem sido identificadas diferenças no grau de estereotipização de entes qualitativamente distintos (agregados, categorias sociais e grupos), ao tempo em que não foram identificadas diferenças significativas entre os entes incluídos  em uma mesma dimensão (por um lado, grupos orientados para a tarefa e grupos de intimidade e, por outro lado, categorias sociais naturalistas e entitativas). A análise mediante o uso de recursos analíticos associacionais também ofereceu respaldo a esta interpretação, uma vez que todos os coeficientes de correlação das respostas relativas aos cinco tipos de entes foram positivos e de média intensidade, conforme observado na tabela 10.

Tabela 10: Coeficientes de correlação produto-momento de Pearson dos graus de estereotipização relativos aos cinco entes

Deixando um pouco de lado os entes sociais e voltando-nos para as relações entre as componentes constitutivas do modelo, podemos avaliá-las comparando as duas dimensões da entitatividade, homogeneidade percebida (HP) e direção comum (DC); e, ainda, as duas modalidades de teorias implícitas, as fundamentadas na causalidade (EC) e as fundamentadas na intencionalidade (EI). Os intervalos de confiança de 95% das respostas para cada uma dessas dimensões por tipo de ente podem ser identificados no gráfico da figura 117, no qual os valores relativos a cada uma das dimensões da entitatividade (HP e DC) estão articulados com os valores relativos às teorias implícitas (EC e EI).

Figura 117: Intervalo de confiança das dimensões homogeneidade percebida (HP), direção comum (DC), explicações fundamentadas na causalidade (EC) e explicações fundamentadas na intencionalidade (EI), por tipo de ente social

O gráfico visualmente evidencia que cada uma das dimensões, a depender do tipo de ente, contribui de forma diferenciada para a expressão dos estereótipos. As explicações fundamentadas na intencionalidade (constituídas pela história causal das razões, pelos fatores habilitadores e pelas razões e motivos) desempenham um papel destacado nas explicações para todos os tipos de entes. O outro fator relacionado com as teorias implícitas, as explicações fundamentadas nas causas (essências e traços psicológicos), foi avaliado de forma menos intensa, e isto independe do tipo de ente social. No caso da dimensão entitatividade, observamos um predomínio do fator direção comum (organização, proximidade e comunicação) que se mostrou muito mais marcante do que a homogeneidade percebida (homogeneidade, saliência e consenso), embora esta tendência não tenha se manifestado de forma cristalina no caso das categorias sociais naturalistas.

Os resultados oferecem alguns indicadores sobre os estereótipos relativos a cada um dos entes sociais. O menor índice de estereotipização foi observado entre os agregados sociais, nos quais os valores relativos à explicação fundamentada na intencionalidade superaram os valores encontrados para as explicações causais. A influência da homogeneidade percebida foi praticamente nula e a da direção comum foi pouco significativa. Ficou claro que os membros de um agregado – se estiverem numa fila, por exemplo –, não são percebidos como semelhantes entre si, não são vistos como dotados de características psicológicas semelhantes e muito menos agem de forma coordenada; em contrapartida, a principal fonte de explicação para as ações dos membros de um agregado foi a intenção particular de cada indivíduo.

A característica mais acentuada da estereotipização das categorias sociais naturalizáveis reside no papel desempenhado pela homogeneidade percebida. Ela praticamente não diferiu em intensidade do efeito imposto pela direção comum que se mostrou uma característica bem mais marcante no padrão de resultados nos demais tipos de entes sociais. As explicações causais, mesmo tendo contribuído menos para a explicação dos estereótipos das categorias naturalizáveis, exerceram um impacto bem mais marcante que no caso das categorias sociais entitativas. Esta parece, a propósito, a principal característica da estereotipização desse último tipo de ente social no qual se observa um forte impacto das explicações fundamentadas na intencionalidade e da direção comum, bem como um impacto mediano da homogeneidade percebida. A comparação entre os dois tipos de categorias permitiu ressaltar um elemento chave na diferenciação das categorias, uma forte discrepância na importância relativa dos dois fatores da entitatividade. No caso das categorias sociais naturalistas, a influência exercida pela direção comum praticamente não excedeu à influência desempenhada pela homogeneidade percebida; para as categorias sociais entitativas identificamos uma importância bem mais acentuada da direção comum e um menor impacto da homogeneidade percebida. Os resultados sugerem que a homogeneidade percebida e as explicações causais exercem um papel bem mais acentuado na estereotipização das categorias sociais naturalistas (sexo, idade e raça) do que nas modalidades de categorias sociais não facilmente naturalizáveis e indicam, adicionalmente, que a percepção de homogeneidade e atribuição de causas internas podem ser considerados os fatores decisivos no processo de naturalização das categorias sociais. No que diz respeito aos grupos sociais, as relações entre os construtos homogeneidade percebida, direção comum, explicações causais e explicações intencionais são bastante semelhantes e relativamente simétricas, configurando uma representação em forma de H onde a direção comum e as explicações intencionais exercem uma influência bem mais acentuada do que a homogeneidade percebida e as explicações causais. Esta simetria, no entanto, não é tão perfeita no caso dos grupos orientados para a tarefa quanto a identificada nos grupos de intimidade. A assimetria sugere que nos grupos orientados para a tarefa a percepção de homogeneidade exerce um efeito bem mais acentuado do que aquele desempenhado pelas explicações causais. Dessa forma, pode-se pensar que os voluntários de uma ONG ou trabalhadores de uma linha de produção possam ser percebidos como semelhantes entre si no plano da superfície sem que sejam realizadas inferências sobre a estrutura causal da explicação.

Considerações gerais sobre o modelo

O modelo aqui exposto postulou duas dimensões essenciais dos estereótipos, a entitatividade e as teorias implícitas. Podemos afirmar que uma delas contribui mais do que outra para a expressão dos estereótipos? Para testar as diferenças, conduzimos um teste t de medidas repetidas entre as médias de todas as dimensões entitativas e de todas as dimensões das teorias implícitas, agregando todos os tipos de entes. O teste deixou claro a ausência de qualquer diferença entre estes índices (t (627) = .632, p = .528), assegurando que as duas dimensões foram igualmente significativas e globalmente não diferiram em grau de importância relativo à expressão dos estereótipos.

Isso não indica, efetivamente, que ambas as dimensões foram igualmente importantes para todos os tipos de entes. As evidências indicaram que, a depender do tipo de ente, uma dessas dimensões pode exercer efeitos mais acentuados do que a outra. O efeito das teorias implícitas foi mais acentuado nos agregados (entitavidade = 1,65 e teorias implícitas = 1,97; t (575) = 11,85 , p <.001), enquanto o efeito da entitatividade foi mais marcante nas categorias naturalistas (entitavidade = 2,20 e teorias implícitas = 2,11; t (562) = 3,16 , p <.05), nas categorias entitativas (entitavidade = 2,21 e teorias implícitas = 2,08; t (526) = 4,40 , p <.001) e nos grupos orientados para as tarefas (entitavidade = 2,29 e teorias implícitas = 2,20; t (563) = 3,05 , p <.05), não sendo identificadas diferenças entre esses domínios de análise no caso dos grupos de intimidade (entitatividade = 2,20 e  teorias implícitas = 2,22; t (558) = ,40 , p = .687).

No âmbito da entitatividade, o que mais contribui para a expressão dos estereótipos, a homogeneidade percebida ou a direção comum? Conforme salientamos, em todos os entes analisados a direção comum (grau de organização, proximidade e comunicação) apresentou médias muito mais altas do que a homogeneidade percebida (homogeneidade, saliência e consenso), ainda que esta diferença não tenha sido discrepante no caso das categorias sociais naturalistas quanto o foram nos demais tipos de entes.

Em relação às teorias implícitas, os resultados deixaram claro que as explicações fundamentadas na intencionalidade (história causal das razões, fatores habilitadores e motivos e razões) obtiveram consistentemente índices mais altos do que as explicações fundamentadas na causalidade (traços psicológicos e essências), sendo estes resultados comuns a todos os tipos de entes.

Esse conjunto de resultados oferece indícios de consistência entre os dados e o modelo geral dos estereótipos aqui desenhado, conforme se observa no gráfico da figura 118, na qual detalhamos os padrões de respostas para cada uma das variáveis incluídas no modelo.

Figura 118: resultados gerais do modelo de estereotipização, considerando cada uma das variáveis

Um julgamento estereotipado demanda que o alvo seja desindividualizado e incluído como parte de um ente social mais amplo, o que é possível em função da entitatividade, ao mesmo tempo em que é exigido que sejam ativadas determinadas teorias implícitas a respeito do ente ao qual o julgamento se refere. Os impactos conjuntos destas duas dimensões diferem a depender do ente social. Os agregados foram muito menos estereotipados do que os outros entes sociais, o que foi explicado pelo impacto bastante modesto da entitatividade e das teorias explicativas causais. Dentre as teorias implícitas intencionais, a intencionalidade foi a principal fonte e explicação das condutas dos membros dos agregados, apesar de também termos identificado um certo impacto da saliência e da organização.

No que concerne às teorias implícitas fundamentadas na causalidade, as categorias naturalistas representaram o único tipo de ente cujas explicações com base nas essências suplantaram as explicações elaboradas a partir de traços psicológicos, reforçando o impacto do raciocínio essencialista na estereotipização de categorias como as de sexo ou gênero, a etária e as raciais ou étnicas. As categorias naturalistas não diferiram das categorias entitativas em relação ao predomínio das explicações fundamentadas na intencionalidade, observando-se, nos dois casos, a ênfase na adoção de explicações mediante o apelo aos fatores habilitadores, isto é, às pressões suscitadas pela situação. A principal diferença entre essas duas categorias reside no papel secundário desempenhado pelo pensamento essencialista no caso das teorias entitativas, nas quais as explicações oferecidas mediante referências aos traços psicológicos foram mais valorizadas. Em relação à dimensão da homogeneidade percebida, o impacto exercido pela homogeneidade, pelo consenso e pela saliência foi relativamente baixo e praticamente o mesmo encontrado na avaliação das categorias entitativas; no caso das categorias naturalistas, o efeito da saliência e do consenso foi muito mais marcante que o da homogeneidade. No que concerne aos grupos sociais, identificamos que os orientados para a tarefa obtiveram valores mais altos com relação ao grau de estereotipização do que os grupos de intimidade, permitindo-nos considerar algumas diferenças relativas à expressão dos estereótipos quanto a estes dois tipos de grupos. O papel desempenhado pela variável entitativa organização recebeu grande destaque nos grupos de trabalho; em contrapartida, os participantes não atribuíram importância decisiva ao consenso e, particularmente, às explicações causais de natureza essencialista, ao contrário do destaque dado às explicações intencionais fundamentadas nas razões e nos motivos. Os grupos de intimidade representaram a configuração mais simétrica dentre todas as analisadas, destacando-se a influência de uma dimensão entitativa, a comunicação, e de uma teoria implícita de base intencional, a dos fatores habilitadores.