5.5. O futuro que nos aguarda

A futurologia não é uma ciência fácil, pois o futuro que se descortina infelizmente tem se apartado cada vez mais daquilo que ousamos almejar. O futurismo, uma alternativa distinta de entendimento, sinaliza que o futuro dificilmente se presta a ser domado, daí a necessidade de reconstruí-lo, embora pouco saibamos o que fazer quanto a isso. Qualquer tentativa de entender o futuro deve considerá-lo nas suas distintas dimensões. Butler (2014), ao elaborar um verbete sobre a futurologia para uma obra de referência na área da ficção científica, acenou que os planos sobre o futuro podem se referir a curto prazo, por exemplo, a acompanharmos a previsão do tempo para o fim de semana, a médio prazo, quando somos informados sobre um programa para evitar que uma determinada região se encontre sujeita aos efeitos de um alagamento recorrente, ou ainda a longo prazo, se pensarmos na implementação de políticas destinados a evitar que o nível do mar suba uns tantos centímetros nas próximas décadas. Qual seja a dimensão considerada, estudar o futuro envolve a formulação de previsões baseadas em fundamentações científicas, especulativas, fantasiosas ou imaginárias. Toda previsão possui uma dada probabilidade de se materializar, ao passo que pode se referir a estados finais desejáveis, as utopias, ou indesejáveis, as distopias.

Os manuais de psicologia social dos estereótipos e preconceitos usualmente incluem um capítulo final onde os autores se perguntam e nos indagam, quais as expectativas futuras para a pesquisa na área e para as relações marcadas por estereótipos. Analisar estas expectativas, contrastando-as com a situação atual nos ajuda a entender a grandeza do desafio a ser enfrentado. Se o futuro não pudesse ser previsto, restaria inventá-lo ou, quem sabe, desenvolver a psicohistória tal como acenada na monumental obra Fundação, de Isaac Asimov. Como a psicohistória (Asimov, 2019), a disciplina ficcional dedicada a prever os comportamentos das civilizações galácticas com base no conhecimento da sociologia, da psicologia, da história e das análises estatísticas ainda pertence ao domínio da ficção científica, nos inspiramos na obra de Andersson (2018) para elaborar o diagrama da figura 127, que imaginamos contribuir para a reflexão sobre o futuro dos estudos sobre estereótipos. O diagrama postula a diferenciação entre duas perspectivas a respeito dos destinos da humanidade, uma denominada futurologia e a uma outra que pode ser qualificada como a área de estudos sobre o futuro.

Figura 127. perspectivas de estudos sobre o futuro

Formuladas na primeira metade do século XX, estas duas tradições intelectuais ganharam importância após o final da segunda guerra; em particular no período que se seguiu à criação das bombas atômicas e de hidrogênio, à posterior escalada da guerra fria e à enorme preocupação a respeito do destino da humanidade. Figurativamente, essa situação está representada pelo Relógio do Apocalipse, um dispositivo até hoje mantido pelo Bulletin of Atomic Scientists da Universidade de Chicago e atualizado anualmente para evidenciar o quão perto estamos da aniquilação total decorrente de uma conflagração nuclear; posteriormente, acrescentou-se a essa ameaça aquelas suscitadas pelo aquecimento global e, mais recentemente, a crítica situação de calamidade na saúde pública evidenciada pelas cada vez mais frequentes pandemias que assolam as mais diversas regiões do planeta. Se considerarmos que em 1947, quando o relógio do juízo final foi inaugurado, estávamos às 23:53 e que no presente ano de 2021 os ponteiros estão marcando 23:58:20 somos obrigados a admitir que a preocupação com o destino do planeta e da espécie humana se tornou ainda mais urgente.

As raízes intelectuais dos estudos futurológicos e futuristas podem ser identificadas nas ideias expressas na obra de cientistas, tecnólogos, engenheiros, empresários e políticos e materializada em instituições e organizações criadas com a finalidade de alertar os governos e as sociedades de que o caminho em direção ao futuro começara a nos aproximar de destinos por demais arriscados.  Adotando um background fortemente enraizado no conhecimento científico, os estudos futurológicos representam uma tentativa de identificar as bases a partir das quais poderiam ser enunciadas previsões sobre os possíveis riscos relacionados ao desenvolvimento futuro das sociedades. O papel das previsões econômicas teve um caráter decisivo nesse particular, se constituindo em um elemento característico tanto dos planejamentos quinquenais adotados nos países alinhados em torno do bloco soviético, como também do planejamento econômico dos países capitalistas avançados, sobretudo quando estes buscaram no conhecimento técnico oferecido por corporações como a Fundação Ford, a Rand Corporation e o Clube de Roma os meios para fortalecer a hegemonia econômica, política e militar das grandes potências.

A ideia de predição, ainda que fortemente secularizada e associada ao domínio da ciência, se origina da noção religiosa de telos, entendida como meta, sentido ou realização. As previsões científicas se ordenam muito mais em torno da noção de causalidade do que da dimensão teleológica e envolvem a identificação de uma série de possibilidades de ocorrência de eventos positivos e negativos e na estimativa das probabilidades e riscos associados a cada um dos prováveis cenários.

A futurologia pode ser caracterizada como uma disciplina resultante da articulação entre as ciências sociais aplicadas, voltadas para a identificação das leis que regem as diferentes dimensões do comportamento humano, e a pesquisa militar operacional, uma área do conhecimento dedicada à identificação dos problemas de pessoal, logísticos, de intendência e de organização do tempo relacionados com as atividades militares durante os períodos de guerra e de paz (Andresson, 2018). O desenvolvimento da bomba atômica só foi possível com a introdução de sistemas computacionais destinados ao processamento e interpretação massiva de dados, orientados claramente por teorias desenvolvidas por alguns dos mais talentosos cientistas da época. Se, afinal, os esforços das ciências permitiram a criação de um artefato poderoso o suficiente para modificar os destinos da humanidade, tornou-se imperativo considerar o papel do conhecimento científico nas discussões sobre o futuro.

Se os estudos sobre o futuro estavam associados fortemente à racionalidade científica e eram marcados pela preocupação militar com a previsão de cenários em um contexto fortemente marcado pela noção de guerra aberta ou conflitos não exatamente manifestos, os movimentos em direção à criação de um campo de estudos dedicado aos estudos futuros se sustentaram na rejeição à ideia de uma ciência regida pelas preocupações com a guerra fria. A ênfase se direcionou para o papel desempenhado pela imaginação e de como mediante o engenho humano poderia ser construída uma perspectiva de futuro baseado nas noções de amor, de paz e de congraçamento. Pensar no futuro da humanidade não demanda previsão, e sim imaginação. Imaginar um mundo de paz exigiria o controle não apenas dos artefatos tecnológicos cada vez mais poderosos, mas também deveria impor um freio em relação às políticas que afastam as ciências do caminho da paz. Imaginar o futuro representaria o decisivo abandono da tese de que o futuro poderia ser predito, pois a humanidade finalmente estava habilitada a modificar ou criar o futuro que melhor lhe aprouvesse.

A oposição dos futuristas à futurologia não se encerrava no exercício puro e simples da imaginação, pois os futuristas, insiste Andresson (2018), não comungavam com a tese futurológica de que uma análise minuciosa dos diversos cenários permitiria a condução de exercícios de extrapolação a partir da qual poderiam ser racionalmente identificadas tendências futuras com alta probabilidade de se impor. A prospecção do futuro demandaria a intervenção humana, marcada pela criatividade e fundamentada não somente nos nossos mais caros desejos, como também impelida pela noção de transcendência mais arrojada que a nossa imaginação seria capaz de antever. A humanidade deveria construir um novo futuro que deveria ser moldado por valores mais condizentes com a nossa condição humana.

Esta concepção, no entanto, suscita uma nova ordem de questões porque o futuro assim concebido não teria como ser idealizado como um futuro único a ser determinado em consonância com a previsão dos cientistas. O mais apropriado seria falarmos de possíveis futuros, já que os estudos futuros, em oposição à futurologia, deveriam ser regidos pelo plural (Andersson, 2018). Este ponto de vista suscita um problema fundamental a respeito de duas direções possíveis capazes de moldar o nosso futuro. Uma delas era representada por um caminho na direção de um futuro almejado e desejado, fundamentado geralmente no pensamento utópico em que se insinuava um destino dourado para a humanidade e, em contraposição a este mundo de felicidade plena representado pelas utopias, o pensamento distópico apontava em outra direção, para um mundo aterrador, marcado por todo tipo de temores e medos, pela incerteza a respeito da sobrevivência e, sobretudo, por uma avassaladora desesperança.

A decisão sobre a direção a seguir frente aos possíveis futuros e a direção a ser tomada pela humanidade depende, sobretudo, de se gestar um novo ser humano. Um novo humano vivendo em um novo mundo, no qual nenhuma decisão dependeria de uma elite de especialistas, cuja expertise sempre se mostrou insatisfatória nos acenos para um mundo melhor. Este novo ser humano deveria ser mais sensível aos preceitos da paz, o que demandaria uma profunda transformação das mentalidades, bem como exigiria o fortalecimento de uma atitude mais participativa onde, não apenas os especialistas, mas todos nós, ao libertarmos o potencial criativo soterrado por um esforço secular dedicado à obediência e à disciplina, exerceríamos um papel decisivo nas definições acerca do futuro que almejamos. Os devaneios dos futuristas os levaram a imaginar uma equipe de redentores construída à imagem deles mesmos; os salvadores do planeta e da espécie, uma elite que se considerava responsável por redimir a humanidade e salvá-la dos seus inúmeros pecados. Os futuristas, por essa via, se reaproximaram da visão religiosa de mundo há muito abandonada pelo iluminismo, recolocaram em cena telos, uma dimensão desconsiderada pelos futurologistas. Neste movimento, se aproximaram tanto dos movimentos contestatórios de esquerda como a contracultura e os movimentos ecologistas, como também adotaram uma visão algo messiânica de redenção da humanidade, ao acolherem sistemas de crenças como a New Age, e se dedicarem aos estudos extraterrestres e à ufologia de base holista (Pereira, Silva, & Silva, 2006).

A partir desta diferenciação entre os estudos futurológicos e os estudos sobre o futuro podemos refletir sobre os caminhos a serem trilhados pelo estudo e pesquisa dos estereótipos. O capítulo final do manual de Schneider (2004) se debruçou sobre as transformações no campo de estudo dos estereótipos nos 70 anos iniciais da pesquisa, iniciando com a admissão explícita de que se os primeiros investigadores pudessem ser trazidos ao nosso tempo não seriam capazes de reconhecer o campo de estudo para o qual tanto contribuíram. Em que sentido o que se aceitava no início do século XXI difere das noções ainda hoje acolhidas? Fundamentalmente, nas primeiras formulações os estereótipos foram definidos como generalizações injustificadas, usualmente elaboradas por pessoas preconceituosas para justificar uma atitude negativa relativa a uma determinada categoria social. Os estereótipos, embora acolhidos pelos indivíduos, eram concebidos como a visão prevalente em uma determinada cultura, ainda que retratassem de maneira pouco acurada as características dos alvos. Esperava-se, com um otimismo que definimos como um tanto ingênuo, que o conhecimento científico se imporia a estas injustiças.

A esta concepção inicial se contrapôs o entendimento de que os estereótipos deveriam ser interpretados como mecanismos mentais bem mais complexos do que aparentavam ser; se em algumas circunstâncias podiam ser deliberadamente requisitados para a elaboração de relatos depreciativos sobre os alvos, em outros momentos se manifestavam sem que os percebedores tivessem consciência de que tinham sido ativados e aplicados. Isto significa dizer que o controle sobre a expressão dos estereótipos não pode ser caracterizado como algo fácil de ser alcançado e, mais do que isso, ficou muito claro que o controle dos automatismos não se constitui numa tarefa tão simples como a princípio se imaginara.

Depreende-se, a partir do exposto, que a utilização de estereótipos, longe de ser uma marca exclusiva das pessoas preconceituosas, representa uma característica comum a todo e qualquer ser humano. Esta definição não nos obriga, no entanto, a defender a tese de que os estereótipos são acolhidos sempre de maneira automática ou que a sua utilização seja inevitável. Este entendimento ajuda a compreender a decisão de Schneider em finalizar o capítulo enfatizando a necessidade de evitar a condução de generalizações espúrias, o que o obrigou a acentuar a complexidade inerente a todo e qualquer agrupamento humano, a enfatizar a necessidade de alcançar uma maior profundidade nas teorias e explicações sobre as condutas sociais humanas e em reconhecer o quanto é difícil estimar o verdadeiro impacto das nossas atitudes e condutas na vida das outras pessoas. Eliminar os estereótipos foi definido como um trabalho de Sísifo, apesar de a quase impossibilidade de realizar esta tarefa não servir como pretexto para o não enfrentamento desta dura realidade.

Se o capítulo de Schneider acena com uma visão fortemente centrada na concepção que denominamos futurista, embora acene no final para uma perspectiva algo redentora, o capítulo de Fiske, Harris, Lee e Russel (2009), regido por um certo senso de urgência, postulou que os estudos contemporâneos sobre os estereótipos e preconceitos deveriam se direcionar para a abordagem de três grandes áreas temáticas: a discriminação, o papel da cultura e a influência do cérebro. O estudo da discriminação e, em certa medida, o das formas explícitas do preconceito, seria uma tarefa imperativa, pois a intolerância em relação ao diferente a cada dia se apresentava mais marcante e, em alguns casos, tornava a mera sobrevivência diária uma tarefa perigosa e arriscada para muitas pessoas. A estas admoestações se seguiram alguns indicadores importantes como foi o caso da necessidade de se identificar as diversas formas e mecanismos pelos quais a discriminação se manifesta, o que torna imperativo que entendamos como as cognições, os afetos e as motivações se relacionam com as condutas discriminatórias. Um segundo aspecto acentuado no capítulo foi a influência destacada da cultura, sendo decisivo reconhecer que as relações intergrupais e as condutas discriminatórias não se manifestam em um vazio social. As diferenças culturais são decisivas para entendermos a valorização de alguns poucos traços estereotípicos e a desqualificação de muitos outros. As diferenças culturais também se tornam importantes ao tentarmos entender como os estereótipos e as atitudes preconceituosas se transformam com o passar do tempo e na compreensão do efeito exercido por elementos como as normas, os valores e a visão de mundo acolhida em uma determinada sociedade, visto que estes fatores interferem decisivamente na manifestação dos estereótipos e dos preconceitos e determinam a medida com que os atos de discriminação são tolerados ou rejeitados. Finalmente, o capítulo se refere ao impacto desempenhado pelas estruturas neurais. Neste caso, acentuou-se o quão seria decisivo para os psicólogos sociais e estudiosos se manterem informados sobre os últimos desenvolvimentos nas pesquisas sobre o cérebro e os sistemas neurais, urgindo acompanhar o desenvolvimento dos métodos de investigação introduzidos na área das neurociências, assim como avaliar de que forma as evidências obtidas nestes estudos podem confirmar ou refutar interpretações até então bem acolhidas. O capítulo se alinha, como podemos depreender dos comentários anteriores, a uma perspectiva muito mais futurológica do que redentora.

Olhando para o futuro, o capítulo final do manual de Dovidio e colaboradores (2013), aponta para um cenário diferente do enfatizado por Schneider uma década antes. As preocupações elencadas se restringem estritamente aos aportes científicos introduzidos a partir de uma citação muito conhecida atribuída a W. Thomas na qual se assinala que se os humanos definem uma situação como real, então ela se torna real pelas consequências que gera. Mais que a defesa de uma posição epistemológica relativista, interpretamos a frase como uma crítica ao entendimento de que os estereótipos e preconceitos são imutáveis e irredutíveis e, quem sabe, não devam ser interpretados apenas como uma moda não tão passageira, é verdade, mas que no fim das contas acabará se desvanecendo.

Em torno de quais questões o futuro do estudo e da pesquisa dos estereótipos, preconceitos e da discriminação deveria se organizar? Em primeiro lugar, os estudiosos devem enfrentar o difícil problema da causação, uma questão particularmente marcante com a persistente utilização da metodologia experimental, que se oferece os melhores recursos para a construção de modelos causais, continua a se ressentir dos problemas relacionados com a validade ecológica. Os novos modelos, acenava Pettigrew (2013), deveriam considerar as explicações bidirecionais e não-recursivas. Uma segunda questão se refere à necessidade de levar em conta a dimensão temporal, o que significa valorizar e patrocinar cada vez mais a condução de estudos longitudinais, em que pese os custos financeiros e a ausência de respostas imediatas para os problemas de pesquisa. Os estudiosos devem se preparar para considerar o componente cumulativo das evidências empíricas obtidas, uma vez que este efeito possui um maior potencial heurístico do que os resultados estáticos obtidos em pesquisas pontuais que, pela própria natureza, se mostram incapazes de auscultar tanto as transformações abruptas quanto as sutilezas da expressão dos fenômenos sociais.

Uma terceira fonte de preocupação para os estudiosos deveria ser, assinalou Pettigrew, reduzir a frequente minimização da importância de conceitos sociológicos, a exemplo das noções de classe social, poder e ideologias. Torna-se necessário reparar este desequilíbrio analítico, pois os estudos psicossociais atuais, ao centrarem as análises nos níveis micro (a cognição social) e meso (as relações interpessoais e intergrupais), deixaram de lado dimensões decisivas na expressão dos estereótipos e preconceitos. Enfim, uma quarta preocupação se referia à discussão dos limites e das possibilidades relativas à tese de que os processos e mecanismos psicossociais seriam universalmente válidos, uma questão ainda não encarada pelos estudiosos com a seriedade exigida.

Além destas preocupações, Pettigrew assinalou explicitamente quais poderiam ser as nossas expectativas a respeito da direção das pesquisas na área, assinalando a urgência em articular estudos nos quais fossem considerados conjuntamente os processos e os mecanismos que se apresentavam em múltiplos níveis. Os fenômenos que se manifestam no plano individual continuam sendo decisivos, mas devem ser articulados com as questões suscitadas por um nível contextual de análise, exequível com o desenvolvimento de softwares cada vez mais acessíveis aos pesquisadores. Em uma palavra, a aposta dos pesquisadores deve se encaminhar para a adoção de uma perspectiva na qual fossem integrados fatores tão diversos quanto os que se apresentavam nos níveis cognitivo e afetivo, nas diferenciações que se estabelecem entre grupos privilegiados e subordinados e levando em consideração tanto as perspectivas de intervenção conciliadoras quanto as marcadas pela ação coletiva. Ainda que a perspectiva voluntarista continue a ser valorizada e programas de ação mais pontuais patrocinados e promovidos, as intervenções mais efetivas para mudança dos estereótipos e preconceitos devem se subordinar a diretrizes mais amplas, nas quais estes tópicos fossem abordados com a importância que merecem, ou seja, como assunto de políticas públicas explicitamente promovidas com a intenção de promover verdadeiras mudanças sociais.  

Os capítulos futurológicos aqui recenseados possuem em comum o fato de acenarem para as sérias dificuldades que se apresentam para os pesquisadores da área, ainda que carreguem em si um tom otimista sobre as relações entre os grupos humanos e a possibilidade de redução dos preconceitos. Cada um, à sua maneira, acena para um futuro melhor, para uma condição em que o conhecimento científico ao lado da mobilização social se encontra apto a produzir transformações significativas nas relações entre os humanos, em um mundo cada vez mais globalizado.

Olhando para atrás, e considerando as recomendações e admoestações destes estudiosos de renome, não podemos deixar de reconhecer que as coisas não se encaminharam numa direção exatamente esperada. O inócuo debate sobre qual a pior modalidade de expressão dos estereótipos e preconceito, se à moda antiga, ostensiva, aberta e suportada por dispositivos legais ou as modernas formas de expressão, encobertas, implícitas e até mesmo envergonhadas, deixou de fazer sentido há algum tempo porque o predomínio de uma modalidade não significou o recuo da outra.

As formas abertas e implícitas de expressão dos estereótipos e preconceitos continuam presentes. A enorme diferença é que o sistema normativo que inibia e pressionava algumas pessoas a não expressarem abertamente os preconceitos que acolhiam continua presente, mas as mudanças decorrentes dos avanços tecnológicos permitiram a criação de contextos nos quais os sistemas normativos tradicionais de controle dos estereótipos e preconceitos manifestos não conseguem mais ser efetivos. 

Urge atualizar este esquema de classificação das crenças estereotipadas. Além de estereótipos sobre os humanos, devemos levar em conta a possibilidade de lidar com novas categorias de entes a respeito dos quais não tivéssemos como duvidar que fossem capazes de se conduzir de maneira tão inteligente quanto nós. Aludimos a um destes supostos entes, os extraterrestres, ao discutirmos a teoria da autocategorização, uma categoria não humana que poderia fazer com que esquecêssemos nossas diferenças e nos irmanássemos subsumidos por este grande guarda-chuva simbólico, o senso de pertença à espécie humana. Uma outra categoria de entes inteligentes não precisa ser buscada fora do nosso planeta ou mesmo em outras dimensões, pois eles já se encontram entre nós. Nos referimos aos robôs. Potencialmente teríamos estas duas possibilidades de alvos para os futuros estereótipos e o diagrama encontrado na figura 128 aponta para esta nova classificação das formas de expressão dos estereótipos. Ao lado da tradicional diferenciação entre a expressão dos estereótipos à moda antiga, comumente retratadas nas pesquisas iniciais conduzidas entre os anos 1930 e 1940, e as modalidades denominadas modernas, que ganham impulso a partir das décadas de 1950, postulamos a necessidade de identificar os cenários de expressão dos estereótipos esperados para as próximas décadas. O nosso ponto de partida reside na previsão de Malachy Eaton, um reconhecido pesquisador da área de robótica e inteligência artificial, de que em torno do ano de 2030, daqui a uma década, metade da força de trabalho nas organizações laborais será constituída por entidades artificiais inteligentes, particularmente robôs com características antropomórficas e padrões de conduta não muito diferentes dos atualmente encontrados entre os humanos (Eaton, 2020).

Figura 128. uma nova classificação para os estereótipos

Este cenário nos obriga a pensar a respeito da maneira pela qual nós, humanos, nos obrigaremos a rever os nossos estereótipos, antigos e modernos, e como lidaremos com aqueles relativos a estas novas entidades artificiais inteligentes. Esperamos, à luz do constante e ininterrupto desenvolvimento da tecnologia da informação e da mecatrônica, o surgimento de entidades artificiais inteligentes cada vez mais aperfeiçoadas. Se hoje nas grandes cidades trafegam ao mesmo tempo os antigos veículos de motor a explosão e os modernos automóveis elétricos, embora a cada dia os primeiros venham sendo substituídos por veículos autônomos, chegaremos a um tempo em que as nossas interações irão ocorrer não apenas com humanos, mas também com estas entidades artificiais inteligentes. Podemos prever, adicionalmente, que aos poucos, e muito rapidamente, os primeiros robôs serão paulatinamente substituídos por agentes muito mais inteligentes e que, aos poucos, estas entidades artificiais irão superar, em muitos domínios, as habilidades até então exclusivamente características dos humanos. O quadro 23 apresenta um esboço de classificação destas novas entidades, diferenciando-as segundo as gerações com que elas virão à luz: as entidades artificialmente inteligentes de primeira ordem; uma segunda geração, composta pelas AIE2; e as AIE3, entidades mais avançadas, potencialmente capazes de nos superar e a colocar em risco o domínio humano sobre o planeta.

Quadro 23. novos estereótipos

A primeira geração destes entes não difere muito do que encontramos nos dias de hoje. Exemplos de implementação de AIE com características que se assemelham às humanas já se encontram presentes e tem sido objeto de frequentes discussões entre os estudiosos (Goswami, & Vadakkepat, 2019; Kajita, Hirukawa, Harada, & Yokoi, 2019). As implementações esperadas, e circunscritas aos limites da primeira geração, incluem os BFH, agentes capazes de operar em contextos não muito aprazíveis para os humanos, a exemplo de ambientes com substâncias nocivas ao nosso organismo, em locais empoeirados e em atividades tediosas.  Várias empresas têm oferecido soluções de robótica, cujos dispositivos, embora muito diferentes na forma dos agentes humanos, realizam sistematicamente atividades em contextos laborais não muito amigáveis para humanos, a exemplo de robôs dedicados a desarmar artefatos explosivos, a vasculhar locais de vazamentos químicos e radioativos, a exercer tarefas de vigilância em locais inóspitos e por aí afora. O potencial para que desenvolvamos estereótipos a respeito desses agentes é praticamente nulo, pois eles apenas aparentam ser máquinas, como de fato o são, como também se dedicam a tarefas que não consideramos particularmente inteligentes. A classe seguinte de entidades da primeira geração é representada pelas HI, termo que alude a agentes corporificados, com forma análoga à dos humanos.  O custo financeiro atual destes dispositivos ainda é muito alto, embora algumas implementações de pequeno porte venham sendo comercializados a preços razoáveis, em particular nos países asiáticos de tecnologia avançada. O ápice tecnológico desta primeira geração de entidades artificiais inteligentes é representado pelos IH, os humanoides inferiores, uma classe de agentes que se caracteriza por ostentar uma morfologia absolutamente análoga à humana, dispondo de pés e pernas, que favorece a locomoção, de braços e mãos, com os quais podem ser qualificados como agentes habilitados ao manuseio de objetos, e de sensores de visão e de audição, que permitem uma simulação quase perfeita da interação com outros entes situados na mesma dimensão espaço-temporal.

A segunda geração de entidades artificiais inteligentes se qualifica pela inclusão do adjetivo avançado, vez que já apresentam, em alguns domínios, capacidades similares e, em alguns casos, superiores, aos humanos. A diferenciação entre as três modalidades de entidades incluídas nessa classe se refere estritamente aos planos morfológicos e aos das capacidades intelectuais. Os humanoides apresentam níveis de destreza e aparência similares aos humanos, enquanto os androides se configuram como entidades ainda mais avançadas, e bem mais parecidas com os humanos. Os replicantes, além de caracterizados como entidades extremamente inteligentes, do ponto de vista da aparência física dificilmente podem ser diferenciados dos humanos.

A terceira geração se notabiliza por apresentar características e capacidades intelectuais, e porque não dizer, outras destrezas, a exemplo de força, velocidade, impulso e resistência, superiores às encontradas entre os humanos. A implementação mais básica deverá ser a de uma rede de computadores superinteligentes, esperando-se que com o avanço do conhecimento esta entidade superinteligente venha a se transformar em uma entidade supra-humana, a partir do momento em que encontre um substrato material apto a corporificá-la, o que garantirá uma maior autonomia de ação para estes entes. Enfim, também seremos obrigados a conviver, em um futuro não muito distante, com os artilects, artefatos inteligentes autônomos com poder de processamento e memorização indiscutivelmente superior aos humanos, articulados em uma rede de agentes superinteligentes e potencialmente capazes de se insurgir contra os seus criadores e dominar a nossa espécie e o planeta.

Imaginemos, pois, o cenário aqui descrito, e especulemos sobre o potencial para o desenvolvimento de novos estereótipos. Podemos supor, por exemplo, que em um escritório no futuro exerçam as suas atividades, em um mesmo setor e compartilhando ambientes físicos muito próximos, três agentes humanos, um androide, um replicante e um artilect. Quais os possíveis níveis de estereotipização que poderíamos encontra?

  • humanos, acolhendo estereótipos sobre um inútil androide, um defasado replicante e um inconfiável artilect;
  • um androide, acolhendo estereótipos sobre estranhos humanos, um replicante metido e um artilect prepotente;
  • um replicante, morrendo inveja de não ter sido criado uma geração depois e ter vindo ao mundo como um artilect, um ultrapassado androide e estranhíssimos humanos;
  • um artilect, imaginando como dar um jeito nos humanos, demasiados humanos, desdenhando do replicante que há muito perdera o bonde da história e cismando em encontrar um meio para internar o ferro velho androide em um museu de antiguidades.

Tanto a descrição do cenário quanto os estereótipos vindouros aqui imaginados nos aproximam mais de um futuro de distopia que de utopia. Voltando à atualidade, a identificação das formas de expressão dos estereótipos no final da segunda década do século XXI demanda considerações adicionais sobre alguns elementos distópicos. Uma delas se refere à expansão dos fundamentalismos religiosos. Precisamos, urgentemente, de um novo iluminismo. O raciocínio crítico, o cuidado na expressão dos juízos, a busca de referências empíricas, a valorização das diferentes dimensões do conhecimento e a busca de fontes de informações confiáveis se tornaram anseios relativizados ou até mesmo desvalorizados. Se o iluminismo, como vimos, representou o domínio da razão sobre o pensamento mágico, vivemos uma época em que o mito parece estar a se vingar de logos.  

A ressurreição do mito nos levou em direção ao mundo da pós-verdade. Não poucos partidos políticos e movimentos sociais passaram a considerar aceitável, e mais do que isso, a utilizar teorias insustentáveis e sabidamente enganosas para alcançar determinados fins, tanto eleitorais quanto de domínio político. A popularização e consequente vitória eleitoral de figuras nefastas na Europa, nas Américas, na Ásia e na África decretaram o fim da ilusão de que o apelo da UNESCO de 1956 no sentido de criar um mundo marcado pelo congraçamento e pela paz entre os povos representava um horizonte exequível e reconhecido como válido por todos os humanos.

 O retorno do mito também representou a escalada de um movimento de negação do conhecimento científico e a consequente popularização e rápida difusão de teorias conspiratórias, que se espalham sem que os seus defensores se sintam compelidos a colocar um freio neste turbilhão de inverdades. Uma vez que conspirar significa literalmente respirar baixinho ao pé do ouvido, tornou-se crível a tese de que um grupo restrito de pessoas de má índole se reúne às escondidas para causar mal a todos e perenizar as vantagens do clube de aproveitadores ao qual estão filiados. Ao acreditar que os males que afligem a humanidade se originam em conspirações maléficas urdidas por um grupo obscuro de poderosos funciona como uma cortina de fumaça por onde as desigualdades e os mecanismos reais de exploração econômica e social deixam de ser considerados. A identificação de um inimigo poderoso, porém oculto, funciona como um elemento de desmobilização e de inibição de análises mais acuradas dos determinantes reais de um mundo verdadeiramente injusto.

As teorias conspiratórias se tornam ainda mais deletérias ao se encontrarem com o pensamento pseudocientífico (Pilati, 2018), sendo o movimento antivacinas um exemplo que convém observar numa época como a nossa em que a humanidade se encontra assoberbada por uma pandemia que já custou a vida de milhões de seres humanos (Howard, & Reiss, 2018). Nesta situação de crise poderíamos até entender que as camadas menos informadas da população e com acesso limitado aos meios de comunicação se deixassem enganar e aceitassem soluções sem qualquer fundamento para um problema que aflige milhões. Não seria esperado, no entanto, que governantes ensandecidos prescrevessem produtos de limpeza ou vermífugos para combater os efeitos de um vírus que sabidamente não se deixa afetar por estas soluções mirabolantes. Os governos são assessorados por cientistas suficientemente qualificados nas suas áreas de expertise. Se uma autoridade política se insurge contra um diretriz científica e consegue impor uma solução que sabidamente se contrapõe às posições defendidas pela comunidade de cientistas, a decisão deve ser interpretada como estritamente política e se sustenta apenas no contexto em que as orientações científicas perdem valor e são substituídas por outros tipos de visões de mundo.

Obrigados a reconhecer que em situações de crise as teorias sem fundamentos científicos podem ganhar uma visibilidade que não alcançariam em um contexto mais normativo, devemos admitir que há algum tempo somos obrigados a tolerar uma infinidade de teorias pseudocientíficas que se tornam mais perigosas exatamente por insinuarem um estatuto de cientificidade que estão longe de possuir. Algumas delas, particularmente as que se inserem nas áreas dos cuidados médicos e de saúde, podem ser consideradas extremamente perigosas por inibirem e retardarem a busca por soluções mais ortodoxas (Kalichman, 2009). Além de tudo, estas teorias terminam por se respaldar em sistemas de crenças nos quais as superstições e as soluções mágico-religiosas tomam o espaço que deveria ser ocupado por uma concepção mais naturalista e científica (Rosas, 2013).  

Este universo, no qual se encontram amalgamadas teorias da conspiração, anticientíficas e pseudocientíficas, se torna um lugar propício para o surgimento de movimentos que comungam com a anti-verdade e utilizam explícita e desavergonhadamente a mentira como estratégia política e social. Se um agente político, por exemplo, a autoridade máxima de um país, tem mais de 40 mil mentiras reveladas durante o mandato presidencial, então a mentira se torna política de governo. A insistência na mentira indubitavelmente produz resultados, e por mais que uma simples verdade se revista de mais valor do que todas as mentiras do mundo, no contexto da pós-verdade a mentira misteriosamente é encenada como verdadeira e a verdade deixa de ser um valor imperativo. Qual a importância da verdade para empresas que reconhecidamente utilizam peças seletivas de informação para manipular a opinião pública? Como compreender o surgimento dos novos conservadorismos, senão entendendo o quanto estes movimentos utilizam informações reconhecidamente falsas para implementar os seus programas de ação política? Como compreender a ascensão do movimento da direita alternativa, senão como um espaço no qual os nacionalismos e a xenofobia se nutrem da cultura da mentira? Como analisar as campanhas eleitorais como as de Donald Trump em 2016 e 2020 e de Jair Bolsonaro em 2018, senão como períodos nos quais a mentira se materializa como instrumento de propagação da ideologia política?

Ao discutirmos os impactos da tecnologia da informação indicamos o quanto as preocupações com o anonimato, comuns na psicologia social do final dos anos 1990, deixaram de ser centrais, dadas as novas formas pelas quais os perfis de usuários estavam sendo implementados nas redes sociais. Nos tempos atuais, deparamo-nos com fenômenos inimagináveis à época. Quem imaginaria que sob a supervisão de movimentos políticos, agentes escondidos por redes privadas virtuais (VPNs) se encarregariam de criar um exército de robôs, cujos algoritmos, em contraposição até mesmo ao primeiro princípio da robótica de Isaac Asimov, foram criados explicitamente com a finalidade de moer credibilidades? Quem acreditaria que seriam constituídas empresas que formalizam contratos com profissionais especializados em manipulação, gerando a inacreditável figura da profissão de mentiroso?

A espetacularização da vida cotidiana proporcionou a emergência de um contexto em que atos corriqueiros como tomar café pela manhã ou ir ao supermercado se tornaram eventos glamourizados; em quase todos os espaços de convívio social são empunhados dezenas de câmeras fotográficas embarcadas em dispositivos móveis que incessantemente produzem uma saraivada de selfies, nos quais se registram ações na maior parte das vezes absolutamente banais. No nosso mundo convivem ao mesmo tempo a cultura do “lindo, maravilhoso”, marcada por imediatos elogios gratuitos, falsos e inócuos nas circunstâncias em que um usuário de uma rede social posta um destes famigerados selfies e o desenfreio da cultura do cancelamento na qual não se observa qualquer hesitação em sancionar e retirar a visibilidade das subcelebridades quando estas cometem inevitáveis deslizes.

Este cenário, onde a superexposição caminha lado a lado com a hiper vigilância (Zuboff, 2019), se torna muito mais perigoso quando assistimos estarrecidos à emergência de milícias e de milicianos (Cano, & Duarte, 2012; Silva, 2017). Algumas destas milícias surgem em espaços nos quais a vulnerabilidade gerada pela pobreza, pela miséria e pela desesperança encontra salvadores que oferecem possibilidades de redenção, ajuda material e um certo senso de segurança para uma parcela da população que sabe não contar com os equipamentos sociais oferecidos pelo aparelho de Estado. As milícias cooptam partidos políticos, ganham representatividade eleitoral e se instalam sem dificuldades nos poderes legislativo, judiciário e executivo. O crime se torna política de Estado, não poucas vezes com o beneplácito de parte da população. Políticas públicas de execução sumária para conter o crime de rua e contra a propriedade passam a ganhar forte apelo popular, assim como nos deparamos com um cenário no qual incrivelmente a população desassistida apoia e defende as estratégias de criminalização dos militantes, dos movimentos sociais e de todos os que se atrevem a defendê-los.

Além das milícias menos obscuras que se espalham pelas regiões mais pobres de muitos países, também somos obrigados a conviver com milícias de natureza política que ostensivamente ocupam as ruas em pelotões armados com fuzis de assalto com o intuito de defender posicionamentos autoritários e fascistas. Estes grupos fazem questão de participar de demonstrações públicas, nas quais executam piruetas e evoluções coreografadas, ao mesmo tempo que se apresentam em trajes de combate e luzem armas de precisão. Participar destas milícias se torna o ideal de vida de muitos rapazes orgulhosos que abandonam estudos, afazeres e famílias e secretamente se dirigem a campos de treinamentos onde se esforçam para aprender a reproduzir saudações nazistas e a desenvolver uma alma fascista (Stern, 2019). No mundo distópico em que vivemos discriminar se tornou legal, bacana. Menosprezar significa se reconhecer superior a quem se torna objeto de menosprezo. Este movimento representa um espaço de redenção quase religioso para pessoas fragilizadas. É nesse mundo de gente frágil, mas também de preconceituosos, milicianos e fascistas que os estereótipos e preconceitos continuam a se manifestar; mas também é nele que devemos encontrar espaços para cultivar a tolerância e o entendimento. O nosso mundo pode ser e se tornará bem melhor. É esta certeza que nos anima, a certeza de que a ciência, a mesma ciência que insiste em cultivar a dúvida como método, nos ajudará a transformar o mundo em que vivemos, tornando-o um lugar muito melhor para humanos, seres vivos, o próprio planeta e, provavelmente, para o multiverso.