Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais

Douglas Ramos Dantas

A música se constitui um fenômeno social, dependente de contexto, que forma atitudes, crenças pessoais e valores. A qual exerce função nas relações interpessoais. Desta forma, este artigo propõe esclarecer o palpe da música na atração interpessoal, escolha de parceiros e relacionamentos afetivos. Através de três procedimentos. Permitindo analisar a influência da música nas relações.

Música
Se institui um elemento universal, que exerce influências na sociedade e cultura. Que possui respectivas funções de dança, rezar, entre outras. Possibilitando a criação de cenários para o relacionamento humano. Culminando em associações estereotipadas a apropriados gêneros musicais.

Atração interpessoal
Se designa como um dos componentes que desenvolve a relações entre os pares. Ou seja, vínculos necessários para a manutenção da espécie e outros mecanismos grupais. Alguns fatores como proximidade, interação e exposição continua contribui para a origem da atração interpessoal.

Efeitos da música na atração interpessoal, escolha de parceiro e relacionamentos afetivos
Ilari debruça-se em analisar o papel da música nas relações na atração interpessoal e escolha de parceiro. Chegado a concluir que o gosto musical contribuir para a atração interpessoal. Todavia não apresenta efeitos positivos ou negativos na escolha de parceiros.
Na constatação dos estereótipos associados a gêneros musicais nos brasileiros já presentes nos americanos e europeus. Demonstrando haver estereótipos de personalidade, além de relações estereotipadas a estratificação social e status. Contudo salienta que estes resultados podem ser atribuídos a relação direta entre conhecimento musical e o gosto do participante em sua percepção da música.
Além de dedicar seu estudo na investigação da existência ou não de funções específicas na música. Permitido vislumbra quatro funções caracterizadas: artefato mnemônico, facilitadora de atividades que promovem a aproximação de indivíduo, fundo acústico e objetivos de excitação

Conclusão
A música desempenha uma relação peculiar na atração interpessoal, todavia não há efeitos diretos sobre a atração e escolha de parceiros. Este estudo possibilitou encontra estereótipos de personalidade em alguns gêneros musicais. Além de trazer um contra ponto a afirmação de Pinker. Ressaltando que a música constitui-se um fenômeno que possui um lugar de relevância o processo evolutivo.

Referência: Ilari, B. Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, 11, 1, 191-198.

Resenha – Estereótipos e destinos turísticos: o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo

Camila Leão

O artigo “Estereótipos e destinos turísticos: o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo” aborda um tema bastante interessante e presente no cotidiano de todos nós. Afinal, quem nunca escolheu o destino das viagens de férias tomando como referência as belas imagens postadas nos folhetos de turismo?As imagens atraentes e os dizeres encantadores presentes nesses folders das agências de turismo foram o foco do trabalho do professor Marcos Emanoel Pereira (Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal da Bahia. Coordenador do Programa de Pós- Graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia.) e da pesquisadora Tula Ornelas (Bacharel em Turismo. Aluna especial do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Da Universidade Federal da Bahia. Coordenadora do Curso de Bacharel em Turismo da Faculdade Olga Mettig, Salvador, Bahia).Eles realizaram uma pesquisa analisando de forma descritiva trinta e cinco folders da agência de turismo Bahiatursa, a agência de fomento ao turismo do Estado da Bahia. Após essa análise, os pesquisadores encontraram algumas categorias de estereótipos que se repetiam em vários folders, com o intuito de atrair turistas para a Bahia. Os pesquisadores conseguiram encontrar cinco classes de poderosos estereótipos utilizados pela Bahiatursa referentes à Bahia e ao seu povo. São eles: “Terra da felicidade”; “Povo festeiro”; “Povo Hospitaleiro”; “Povo Mestiço”; “Povo religioso”.Pode-se notar, a partir da leitura desse artigo, o grande poder dos estereótipos para a economia turística. Uma concepção positiva sobre um povo que se torne amplamente compartilhada atrai lucros e investimentos. Por isso, cria-se todo um fetiche mercadológico que seja capaz de despertar a vontade de “estar lá” e de “ser como eles”. Os turistas buscam por experiências diferentes daquelas presentes no seu cotidiano (como o contato com belezas naturais, fugindo de um cotidiano urbano turbulento), e buscam o contato com pessoas agradáveis, receptivas, alegres. Assim como tudo presente no nosso habitat Capitalista, a Cultura e as características de um povo, juntamente com as belezas naturais de um local, passaram a ser um “acessório” que valoriza a venda de viagens.A teoria que alicerça a Psicologia Behaviorista, a qual afirma que um estímulo neutro, quando associado com um estímulo agradável e reforçador, imediatamente tornar-se-á um estímulo também reforçador, é bastante utilizada na construção desses folders de turismo. Um lugar como a Bahia, que pode ser visto como um estímulo neutro para muitas pessoas, quando associado às frases e às imagens positivas, torna-se um estímulo altamente reforçador. O emparelhamento de um lugar como a Bahia com sensações agradáveis, com pessoas receptivas e alegres, enfim, com estímulos positivos, valoriza a imagem do lugar.Um dos processos básicos do comportamento é a motivação, segundo Maslow e McGregor, teóricos da Psicologia. A motivação á um fator que impulsiona uma pessoa a consumir algo presente no mercado. Os donos de negócios juntamente com as empresas de marketing criam necessidades internas e externas e as incutem no psicológico das pessoas, que procurarão suprir tais “necessidades”. Eles criam também necessidades secundárias, que são aquelas que interferem na escolha de um produto, diferente das nossas necessidades primárias (como a sede, o sono, a fome, a proteção do corpo contra frio, calor e outros). Essas necessidades secundárias são aquelas que determinam qual marca de alimento, bebida ou roupa uma pessoa irá consumir. É a partir da criação dessas necessidades secundárias que uma pessoa atualmente escolhe um destino turístico.A imaginação do consumidor o faz acreditar que ele realmente necessita daquele produto, e ele vai agir de tal forma que consiga obter tal produto. O que leva uma pessoa a escolher o destino de sua viagem a partir do conteúdo dos folders de turismo, são também fatores motivacionais de cunho secundário, ou seja, não são essenciais para a sua sobrevivência, mas fazem parte de uma necessidade criada. Uma atitude positiva para um lugar, juntamente com estereótipos positivos para as pessoas nativas daquele lugar é essencial para a escolha de um destino turístico.O presente estudo do artigo foi importante na medida em que revela a força e o poder mercadológico dos estereótipos na valorização dos destinos turísticos. Vê-se a importância também do cuidado com o uso desses estereótipos, já que os mesmos influenciam no modo de ver tanto dos turistas quanto do povo nativo. Tanto os turistas como os nativos passam a compartilhar de tal maneira esses estereótipos, que acabam por assimilar as características atribuídas ao seu grupo social. E essas características acabam se cristalizando. Desse modo, a Psicologia deve não somente contribuir para ajudar a fomentar o turismo na Bahia, mas também aplicar-se mais intensamente no plano social e tentar levantar os possíveis impactos de todos esses estereótipos construídos que fazem parte do imaginário popular em relação à Bahia e ao seu povo.

Referência: Pereira, M. E. ; Ornelas, T. Estereótipos e destinos turísticos: o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo. Caderno Virtual de Turismo, 17, 2005

Resenha – A face oculta do racismo no Brasil: uma análise psicossociológica

chamada

Sheila Lima

O texto versa sobre as novas formas de expressão do racismo, uma vez que os seus atos explícitos são proibidos por lei. Os autores sugerem que existe na sociedade moderna um discurso contraditório, onde se reconhece a existência do racismo, mas individualmente não se assume a responsabilidade pelo mesmo. Para os referidos autores, os atos explícitos de discriminação racial e étnica estariam acabando, o que não significaria, contudo, que o preconceito racial o esteja. O que ocorre é uma mudança nas formas de expressão e conteúdo do preconceito, alterando, por conseguinte, a expressão de um racismo aberto e agressivo para outro que não desafia as normas sociais.

Muitas abordagens teóricas vêm tentar explicar essa nova modalidade de preconceito que não desafia as normas anti-racistas. Para os autores que abordam essa problemática (Katz, Wackenhut e Hass, 1986; MMcConahay, 1986; Pettigrew e Meertens, 1995; Meertens e Pettigrew, 1999; Vala, 1999), nos últimos 30 ou 40 anos as sociedades vêm desenvolvendo restrições institucionais à pratica discriminatória baseada nas diferenças de raça. Tais abordagens consideram que a diminuição do racismo é um fenômeno aparente, uma vez que as atitudes preconceituosas permaneceriam presentes em cada individuo. O que ocorreria é que a discriminação manifesta estaria sendo substituída por outras formas mais sutis.

Autores como Sears e Kinder (1971, apud Camino et al ,2001) propõem a teoria do racismo simbólico, cujo núcleo seria a afirmação de valores igualitários (de acordo com o Pós Modernismo) e, simultaneamente, a oposição às políticas que estariam de acordo com esses referidos valores. Um exemplo disso seria a política de cotas para ingresso na universidade, cujo ataque teria por base o argumento de uma igualdade de direitos para todas as pessoas, independente de sua origem.

Essa nova abordagem apresenta problemas metodológicos, uma vez que essas novas formas de preconceito se manifestam a partir de crenças e práticas distintas do racismo clássico. Para os autores, o foco dessa abordagem engloba a compreensão das características próprias de cada ambiente social a fim de construir em cada um desses contextos medidas adequadas, ou seja, não englobaria a construção de escalas a priori.

No que se refere ao aspecto conceitual, essa nova abordagem significa que as pessoas experimentam, consciente ou inconscientemente, “um conflito psicológico devido ao confronto entre suas atitudes íntimas preconceituosas e as normas sociais contra o preconceito” (Camino et al, 2001), o que levaria à construção de formas adequadas e capciosas de preconceito. Entretanto, esse conflito pode ter tido sua origem a partir dos argumentos que circulam na própria sociedade e não nos processos psicológicos individuais. Todavia, as concepções atuais sobre o preconceito utilizam uma abordagem individualista e processual, não adaptada aos fenômenos sociais ligados aos processos de exclusão, o que se configura como um elemento dificultador para a elucidação da referida problemática.

Os autores ressaltam que o processo de globalização e a conseqüente intensificação das relações entre diferentes culturas e etnias produz um fenômeno ambíguo: por um lado um maior respeito à diversidade dos valores culturais, e, por outro lado, o crescimento dos movimentos nacionalistas, provocando fenômenos de fanatismo e discriminação contra etnias e grupos minoritários. Além disso, o desenvolvimento econômico e tecnológico do capitalismo acentua a diferença entre ricos e pobres no âmbito individual e político.

Estudos atuais sobre grupos demonstram que nos países ocidentais o preconceito se expressa pela negação de traços positivos ao grupo-alvo, ao invés de atribuição de traços negativos ao mesmo. Isso sugere que as práticas discriminatórias estão adquirindo expressões cada vez mais tênues, a fim de preservar o ideal de não-discriminação dos grupos sociais a partir dos critérios de raça.

Numa pesquisa que atingiu todo o território nacional, Venturi e Paulino (1995, apud Camino et al ,2001)) constataram que 89% dos brasileiros reconheciam a existência de preconceito racial no Brasil, contudo, apesar dessa consciência, só 10% admitia ser pessoalmente preconceituoso. O fato do individuo não se reconhecer preconceituoso, por outro lado, não exclui a demonstração desse mesmo preconceito. Martiniano Silva (1995, apud Camino et al ,2001) argumenta que esse racismo seria muito mais engenhoso e mascarado, e, por conseguinte, mais eficiente em sua função de discriminar e mais difícil de erradicar.

Essa disparidade produz uma dissonância cognitiva que permite aceitar a existência social dos estereótipos negativos sobre os negros e, ao mesmo tempo, negar que a própria pessoa endossa tais crenças. Dessa forma, uma visão racial estereotipada tenderá a se manifestar mais facilmente quando essa mesma visão for atribuída a outros.

Os resultados da pesquisa realizada pelos autores apontam que estudantes atribuíram aos negros adjetivos como alegres e simpáticos, entretanto, esses mesmos estudantes acreditam que o povo brasileiro considera os negros como desonestos, agressivos e pouco inteligentes. Os resultados do estudo refletem o conflito no qual o brasileiro vive: a consciência da discriminação que o negro sofre e os laços criados pela miscigenação e as pressões politicamente corretas que impedem que o papel de cada um nesse processo de discriminação seja elucidado.

Mesmo existindo a manutenção de uma postura politicamente correta, fica claro o consenso de que a discriminação existe e que a mesma passa a ter novas justificativas mais aceitáveis socialmente. Um ponto relevante destacado é a formação de uma nova categorização social que vai substituir o conceito de raça e que seria fruto desse processo dissociativo: a adaptação aos valores modernos e progressistas. A ideologia neoliberal, portanto, nega a existência de uma hierarquia de raças, mas pressupõe a existência de diferenças no sentido do progresso econômico e social.

A cor da pele estaria associada a esse progresso: a cor branca estaria ligada aos valores progressistas do primeiro mundo e a cor negra aos valores tradicionais e menos avançados do terceiro mundo. Da mesma forma os negros teriam aptidões naturais relacionadas ao esporte ou às artes, enquanto que os brancos teriam aptidões intelectuais e para atividades ligadas ao poder. Essa nova forma de categorizar estaria de acordo com as normas anti-racistas, culminando na facilitação dos processos de exclusão, na preservação da discriminação racial e na retirada do sentimento de responsabilidade individual.

Embora possamos concordar que as manifestações públicas de racismo são severamente criticadas no espaço social, o mesmo se faz muito presente e se mostra cada dia mais forte, sendo preciso apenas analisar as estatísticas brasileiras para fins de constatação: os negros são aqueles que moram em situações menos favoráveis, os que possuem empregos com menor remuneração, que dependem de um sistema de saúde que, embora bem elaborado, não consegue atender a toda a demanda da população, além disso, estudos recentes apontam que epidemias como o HIV/AIDS têm sofrido uma pauperização, o que significa que esses índices têm crescido entre em negros e pobres.

Em outubro de 2005, Carlos Lopes, representante do Programa das Nações Unidades para o Desenvolvimento (PNUD) afirmou em entrevista quando indagado sobre a forma como o racismo se expressa no Brasil: “Quando se analisa a distribuição de recursos em termos raciais, desde que as estatísticas permitam essa desagregação, chega-se facilmente à conclusão de que há uma diferença entre brancos e negros. Se há melhora social no país, a situação dos brancos melhora mais. Quanto menos negros você tem em determinada zona, melhores os indicadores”. No mesmo mês, o relator especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de racismo e discriminação racial, Doudou Diène, considera em seu relatório de visita ao Brasil: “toda a sociedade está organizada a partir de uma perspectiva racista: os negros são excluídos de todos os setores da sociedade e confinados aos trabalhos difíceis, com baixos salários, e seus direitos básicos, incluindo o direito à vida, sendo violados”.

Esse relatório apresenta alguns dados estatísticos que nos fazem questionar até que ponto o racismo se apresenta de forma oculta ou mesmo se não seríamos nós, brasileiros, que fechamos os olhos para dados tão gritantes. Somente a titulo de ilustração, no referido relatório consta, por exemplo, que a renda média mensal de mulheres negras no Brasil, em 2003, foi de R$ 279,70, contra R$ 428,30 para os homens negros, R$ 554,60 para as mulheres brancas e R$ 931,10 para os homens brancos. Na Bahia, as mulheres negras recebem 40% do salário de um homem branco que exerce a mesma função. Além disso, a expectativa de vida de negros é menor (67,87) que a dos brancos (73,99). Segundo Diène (2005), isso demonstra a persistência do racismo e discriminação social de forma estrutural e sistêmica.

Quando consideramos tais dados e outros, infelizmente, tão comuns à nossa sociedade, não podemos deixar de considerar que, efetivamente, o povo brasileiro vive um processo dissociativo: todos esses índices nos são velhos conhecidos e, simultaneamente, cada dia fechamos mais os olhos para essa realidade. No final, o que resta é um “faz de conta”: todos nós sabemos que o racismo existe, mas não admitimos nossa contribuição para sua persistência e isso ocorre no mesmo momento em que a questão da desigualdade e, por conseguinte, a problemática do racismo deveria ser o elemento de discussão, reflexão e combate mais importante para cada brasileiro.

Referências

1. Camino, L., Silva, P. Machado, A. e Pereira, C. A face oculta do racismo no Brasil: uma analise psicossociológica. Revista Psicologia Política, 1, 1, 13-36, 2001.

2. Relatório do relator especial sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada, Doudou Diène, em sua missão no Brasil (17-26 de outubro de 2005) disponível em http://www.irohin.org.br/imp/n15/07.htm.

Relatório de Doudou Diène terá impacto no sistema ONU no Brasil? Disponível em http://www.irohin.org.br/imp/n15/07.htm.

Resenha: metodologia para análise de estereótipos em filmes históricos

chamada

Vanessa Kelly dos Santos Carvalho

Langer inicia o artigo, com o tópico “História e Imagem”, no qual exalta a importância da imagem no contexto atual e a partir dessa constatação, justifica a necessidade que acadêmicos e profissionais têm de saber interpretar signos visuais. Como um veículo de transmissão de imagens, o autor dá destaque ao cinema, foco de seu estudo que ele propõe como uma ferramenta de pesquisas, em especial para historiadores.
De acordo com o autor, a imagem visual se constitui por narrativas que tanto receptor quanto emissor, interpretam como representações fiéis da realidade, mas que são estruturadas pela cultura. Partindo dessa noção, Langer introduz o conceito de schemata, tendo como referência o historiador da arte Grombrich, que com este termo estaria se referindo a padrões culturais de fundo de inconsciente, que influenciariam o trabalho dos artistas. O autor apresenta como possível ilustração, aquilo que ocorre com a fotografia, através da qual não é possível captar a realidade neutra, embora se trate de uma representação muito semelhante. Apesar dessa argumentação se mostrar válida, não fica evidenciado de que modo se poderia comprovar a existência da schemata, enquanto estrutura de conteúdos culturais padronizados. Em seu lugar, talvez se pudesse falar no conceito de esquema que de acordo com Fiske e Taylor (apud Krüger, 2004) seriam estruturas mentais constituídas por conhecimentos e expectativas em relação ao mundo.
Langer apresenta a definição de estereótipos, a partir do também historiador Elias Thomé Saliba, como tipos específicos de schemata que se constituem em representações da realidade social ou histórica tomadas como verdadeiras, mas que seriam quase sempre fantasias ou produtos da imaginação. Essa definição parece desconsiderar a questão das relações intergrupais na formação dos estereótipos ao tratá-los como “produtos da imaginação”, remetendo-os a condição de formação individual. Um aspecto básico a se destacar, é que os estereótipos vêm de crenças compartilhadas coletivamente embora sua aplicação seja individual. Além disso, também não foi lembrado que se trata de um mecanismo de identificação dos grupos com seus membros e que os distingue de outros. Talvez uma definição mais completa de estereótipo possa ser dada por Krüeger (2004): “crença coletivamente compartilhada acerca de algum atributo, característica ou traço psicológico, moral ou físico atribuído extensivamente a um agrupamento humano, formado mediante a aplicação de um ou mais critérios”. (p. 36). Krüeger também aponta que estes podem ser positivos ou negativos, voltados para o grupo de pertencimento ou grupo distinto.

É relevante o destaque que Langer atribui ao cinema enquanto meio de divulgação e desenvolvimento dos estereótipos, considerando a força das imagens na veiculação de informações. Entretanto, é questionável apresentar o cinema como uma espécie de etapa final de um processo evolutivo dos veículos de comunicação. O autor traça um esquema no qual os estereótipos teriam se apresentado inicialmente nas artes plásticas, passando para a literatura e histórias em quadrinhos, tomando uma forma definitiva com o cinema. Com relação a essa assertiva, é válido lembrar que a construção dos estereótipos é um processo contínuo que pode ser alterado por diversas variáveis de modo a não ser concebível a idéia de que este chegue a um estado estático e definitivo. Além disso, a influência das fontes de veiculação dos estereótipos pode variar em intensidade também devido a características individuais, e esta intensidade não implica na anulação de outras fontes.
Seguindo a proposta do artigo, Langer enfatiza os estereótipos aplicados a diferentes momentos históricos, ressaltando contribuição do cinema para a divulgação destes.
O segundo tópico é intitulado por “A Imagem Fílmica”. Neste, o autor aponta a partir do historiador Marc Ferro, que o filme deve ser percebido como fonte de imaginação que precisa ser integrado ao contexto social de sua produção. Ele faz essa afirmação numa contraposição às obras escritas, no entanto, também não se pode dizer que estas façam retratos fiéis da realidade, destituídos de estereótipos.
No tópico “Modelo de análise de estereótipos em filmes históricos”, o autor define como filmes históricos e, portanto como objeto de pesquisa, aqueles filmes que contém em sua estrutura narrativa, alguns conteúdos relacionados diretamente à fatos históricos, classificando-os em: obras de reconstrução histórica, biografias, ficção histórica e adaptações literárias com fundo histórico. É importante considerar que toda produção humana tem relação com o contexto histórico no qual se insere. O que parece, a partir dos títulos que lhe serviram de exemplo, é que o autor adotou como característica de relação a fatos históricos, o distanciamento temporal e cultural em relação ao contexto presente.
Langer propõe cinco etapas para análise de estereótipos em filmes históricos: definição do objeto e tema de pesquisa, seleção do filme, crítica externa do filme, crítica interna do filme e comparação e análise de conteúdos. Na primeira etapa é sugerido ao pesquisador que inicialmente escolha o tema, período e contexto histórico que vai ser trabalhado e que detenha de conhecimento bibliográfico sobre o assunto pretendido. É necessário que se busque ao máximo essas condições, no entanto é valido lembrar que o pesquisador nunca vai estar totalmente imune a atribuição de estereótipos. A segunda etapa seria de seleção de obras, na qual se deveriam privilegiar conteúdos temáticos, valor estético, artístico e comercial.
As duas etapas que se seguem são denominadas pelo autor como “critica interna e externa” do filme. Essas denominações são questionáveis, pois ambas referem-se a análise de aspectos sobre o filme. A diferença é que na “crítica externa” o foco se voltaria mais para a produção em si, custos, estilo do filme, fotografia, biografia dos produtores, diretores e roteiristas e publicidade, questões que não se pode supor estar à parte do filme. Já quanto a “crítica interna” a análise teria foco no conteúdo do enredo.
Langer classifica tipos de conteúdo em: objetivo, implícito e inconsciente. O primeiro seria aquele percebido de forma direta por diálogos, figurino, gestos, enredo, arquitetura e cenários. A análise desse conteúdo poderia ser feita, segundo sugestão do autor, por meio de observação do roteiro original e críticas de especialistas do campo cinematográfico. Por sua vez, “conteúdo implícito” diria respeito aquilo que os cineastas gostariam de transmitir como mensagem, mas não o fazem de forma direta. O autor procura exemplificar esse aspecto por meio do filme Invasores de Corpos, não qual seria feita uma alusão ao medo do comunismo, utilizando a imagem de extraterrestres que transformam humanos em zumbis. É fato que as produções cinematográficas muitas vezes carregam conteúdos que por alguma razão não são apresentados explicitamente e que representam opiniões dos cineastas ou informações que se quer divulgar. No entanto, com relação ao exemplo utilizado não fica claro de que modo e através de que fontes o autor chegou a esta constatação. Langer complementa que mesmo produções de alto custo também não fogem as influências de ideologias implícitas e nem há justificativa pela qual fugiriam à regra. O autor acaba incorrendo em atribuição de estereotipização ao analisar que personagens do filme El Cid demonstravam atitudes nazistas, as quais definiu como “gestos e expressões inferindo conquista do mundo”. Se mostra válida sua argumentação de que embora o filme possa se situar em momentos passados, trás informações ligadas ao contexto de sua realização.
Ainda com relação aos “conteúdos implícitos” o autor ressalta outros aspectos a serem observados nos filmes: modelos de representações ideológicas, modelos históricos e patrióticos, público-alvo e receptividade e estereótipos. Sobre “modelos de representações ideológicas” e “modelos históricos e patrióticos”, o autor se refere a tentativa de utilizar o enredo para apresentar certas ideologias como padrões a serem seguidos e para glorificar personagens históricos e seus países de origem.
A respeito do “público-alvo e receptividade” o autor lembra as situações nas quais os filmes fazem mais sucesso em outros países que no próprio local de origem. Langer tenta encontrar uma explicação para tal, podendo-se destacar a aversão das sociedades em verem retratadas suas próprias fragilidades. Essa é uma das possibilidades, mas muitas outras explicações podem existir além das apresentadas pelo autor, a depender de cada contexto.
Sobre a ocorrência de estereótipos, Langer aponta que pode se dar devido a questões ideológicas ou por motivos técnicos. Como exemplos, ele cita os filmes Gladiador e A Lenda de um Guerreiro, cujos figurinos poderiam ter sido elaborados da forma apresentada por uma questão de re-utilização de outros mais antigos, o que é pouco provável. Ele complementa afirmando que nestas produções soldados romanos são apresentados bem reconstruídos enquanto os germanos são estereotipados. Primeiramente, é válido lembrar que o uso de estereótipos é inevitável em produções cinematográficas, e mesmo que fosse possível fazê-lo inviabilizaria o entendimento do público. No caso dos filmes citados, poderia ter ocorrido maior uso de rótulos para um grupo, não significando que o outro fosse apresentado conforme a realidade pura. Neste ponto, o autor pareceu se ater mais aos estereótipos do tipo negativo, o que é confirmado pelos seus exemplos de alvos de estereótipos conforme observados em filmes norte-americanos e europeus sobre África, Ásia e América Latina.
Por fim, Langer define como “conteúdos inconscientes”, aqueles que ultrapassariam as intenções dos cineastas, podendo ser de ordem individual ou coletiva. Sobre esses conteúdos, o autor trás como ilustração os comportamentos tipicamente ocidentais que aparecem em muitos filmes, mas não apresenta como garantir a não-intencionalidade ou mesmo que se trata de algo não percebido de forma “consciente” pelos idealizadores das obras.
A última etapa sugerida por Langer para análise de estereótipos nos filmes históricos é de “comparação e análise de conteúdos”. Nesta fase, o pesquisador deveria comparar os conteúdos com o conhecimento histórico e sociológico que se tem na sociedade na qual foi feita a produção, com o tema retratado e outras produções seguindo a mesma temática.
O autor finaliza o artigo ressaltando o reconhecimento do filme como um documento histórico que precisa ser observado a luz do contexto de sua produção e analisado de forma crítica, tentando desconstruir estereótipos.

Referência: Langer, J. Metodologia para análises de estereótipos em filmes históricos. Revista História Hoje, 2, 5, Nov-2004.

Resenha: Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental

Carol Aguiar

Os estereótipos se constituem no conhecimento e nas crenças que um indivíduo tem acerca de um grupo social. A aplicação dos estereótipos é bastante convidativa aos percipientes sociais na medida em que oferece um tratamento simplificado das informações, evitando uma sobrecarga cognitiva, e auxilia a dar sentido ao complexo ambiente social. Por outro lado, os estereótipos podem ter implicações prejudiciais, já que substituem uma avaliação individualizada. Por esse último aspecto, as crenças estereotípicas são condenadas em diversas situações, o que leva os indivíduos a buscarem estratégias para suprimi-las.
Nesse artigo, a autora tem por objetivo discutir se é realmente possível a supressão dos julgamentos estereotipados ou se eles, por se tratarem de um processo tão natural e até inevitável, não podem ser colocados sob controle consciente. Para isso, inicialmente são apresentadas evidências de que a tentativa de controle mental para a supressão dos estereótipos não só falham no seu objetivo como pode resultar no seu oposto. Em seguida, são colocadas características moderadoras da supressão dos estereótipos e, por fim, são apresentadas estratégias alternativas que têm se revelado eficazes como mecanismos de controle da expressão dos estereótipos.
Os mecanismos de controle mental: A tentativa de banir os pensamentos estereotipados da mente pode conduzir a efeitos indesejados. Essa perspectiva parte do pressuposto de que para que o indivíduo seja capaz de detectar pensamentos que deseja banir, ele precisará, num primeiro momento, estar consciente desses pensamentos, o que trará como consequência a hiperacessibilidade dos mesmos. Em consonância com essa vertente de pensamento, pesquisas têm mostrado que a tentativa de controlar um determinado pensamento pode fazer com que este fique mais acessível do que se a tentativa de supressão não tivesse ocorrido. Assim, por exemplo, uma série de estudos conuzidos por Macrae et al (1994, apud Bernardes, 2003) sugere que os pensamentos estereotípicos, uma vez suprimidos, retornam à consciência e exercem impacto nas avaliações e comportamentos dos indivíduos em relação a outros grupos sociais. Esse efeito irônico da supressão dos estereótipos foi denominado de efeito de richochete (ERE). O conhecimento da existência do efeito de ricochete pode nos conduzir à seguinte indagação: até que ponto as campanhas que buscam diminuir a expressão do preconceito são eficazes no seu objetivo ou, ao contrário, são contraproducentes, tornando os pensamentos preconceituosos ainda mais acessíveis?
Influências moderadoras da supressão – limitações ao ERE: neste ponto do artigo, o ERE deixa de ser entendido como um efeito inevitável e alguns fatores moderadores são apresentados. Em primeiro lugar, a atitude individual acerca da estereotipização é colocada como o fator de moderação mais importante. Sugere-se, portanto, que pessoas que condenam a estereotipização tendem a apresentar as consequências indesejadas da supressão em menor grau do que aquelas que não condenam. Outro fator moderador é especificamente qual estereótipo está a ser suprimido. Sobre esse aspecto, nota-se que há uma diferença significativa entre as consequências da supressão de estereótipos acerca de grupos para os quais existem fortes normas pessoais e sociais contra a estereotipização e acerca de grupos para os quais não há normas claras e difundidas. Um terceiro fator moderador da supressão bastante significativo se refere à motivação dos indivíduos para inibir o estereótipo. Dessa forma, mesmo que indivíduos com baixo nível de preconceito tenham os estereótipos ativados, eles podem ser bem sucedidos em evitar o subsequente ERE já que estão instrinsecamente motivados para controlar as suas reações estereotípicas.
Estratégias alternativas à supressão dos estereótipos: A supressão dos estereótipos não é o único recurso a que os indivíduos que desejam evitar julgamentos estereotipados podem recorrer. Uma outra possibilidade é a substituição dos pensamentos estereotípicos por outros, ou seja, mais do que suprimir os pensamentos indesejados, esses pensamentos podem ser substituídos por crenças igualitárias que desconstruam a visão estereotipada. Outra estratégia possível se refere à individualização do alvo, que se constitui na procura por informações individualizadas sobre o alvo e a tentativa de formar as impressões a partir dessas informações.
Considerações Finais: A utilização dos estereótipos no cotidiano é inevitável. Caso contrário, em qualquer situação social, teríamos que avaliar uma quantidade muito superior de informações do que a nossa capacidade cognitiva está preparada para fazer. Como consequência, as tomadas de decisão rápidas não seriam possíveis. Entretanto, em aglumas situações, a estereotipização torna-se um recurso que distorce a realidade e, por essa razão, é socialmente condenada. Para evitar os julgamentos preconceituosos, a supressão ainda é a estratégia dominante. Por essa razão, torna-se de grande importância que os efeitos indesejados por ela acarretados, assim como seus fatores moderadores, sejam conhecidos para evitar que mecanismos desenvolvidos visando à diminuição dos preconceitos acabem tendo um efeito eliciador ou potencializador dos mesmos.

Referência: Bernardes, D. Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental. Análise Psicológica. 21,3, 307-321, 2003.

Resenha – Masculino e Feminino: Alguns aspectos da perspectiva psicanalítica

Luciana Matos

O texto vem trazer uma nova visão a respeito do desenvolvimento psicossexual masculino e feminino, contrapondo-se à teoria clássica freudiana. Freud trouxe diversos significados aos conceitos masculino e feminino, detendo-se no nível psicossexual do desenvolvimento, que envolve os níveis biológico e sociológico. Ele propõe a concepção da bissexualidade constitucional, onde todo ser humano, no início da vida, seria uma síntese de traços masculinos e femininos. Na teoria clássica, o masculino/feminino são percebidos através das posições ativo/passivo e fálico/castrado, que serviriam de base para a identificação sexual.
Ainda na perspectiva freudiana, o desenvolvimento sexual masculino e heterossexual se daria através da passagem pela ansiedade da castração e da identificação do menino com o pai, abrindo mão do amor incestuoso pela mãe. Já a feminilidade seria desenvolvida por um percurso mais difícil, onde a menina sentiria inveja do pênis, o que pode faze-la sentir inferiorizada, ficando passiva e masoquista, tendo o clitóris como um pênis defeituoso, não conseguindo deslocar o erotismo para a vagina. A feminilidade se desenvolveria de forma saudável quando a menina, voltando-se para o pai, desenvolvesse o desejo de ter um bebê.

Questões recentes na discussão psicanalítica do masculino e do feminino

As novas perspectivas psicanalíticas contrapõem-se á idéia freudiana de que o desenvolvimento psicossexual, tanto da masculinidade quanto da feminilidade, se dê a partir da aprendizagem resultante de frustração, conflito e trauma, sua ultrapassagem e elaboração. Novas abordagens não descartam essa possibilidade, mas propõem que esta não seja tida como uma abordagem universal.
Segundo Freud, a mulher se constituiria como passiva, narcisista, masoquista e com um superego mais frágil que o homem. Esta concepção suscitou críticas, pois caracteriza a estrutura feminina como inferior. A questão do masoquismo, por exemplo, foi tida por Blum (1977 apud Afonso) como um resíduo de um conflito infantil não resolvido, mas não como algo essencialmente feminino. Muito do que foi visto na teoria freudiana sobre a sexualidade feminina precoce foi baseado na observação direta e crianças, porém, ultimamente, os estudos psicanalíticos se baseiam em observação na prática clínica ou descobertas de disciplinas como a embriologia.
Outras questões da feminilidade trazidas por Freud como a transferência do gozo clitoriano para o gozo vaginal, o complexo de castração feminino e a inveja do pênis, são questionadas. Não existem evidências anatômicas nem fisiológicas da transferência clitóris-vagina, e, além disso, não há distinção entre os dois orgasmos. Alguns autores também consideram a metáfora da castração feminina como algo que varia de menina para menina, podendo a mesma sentir-se confortável com sua feminilidade se valorizada pelo pai e bem relacionada com a mãe. Além disso, consideram que nem todas as meninas entram no Édipo por esta via. Autores contemporâneos também relativizam a questão da inveja do pênis e propõem que haja uma inveja sexual em ambos os sexos. Além disso, se discute também a maternidade como central na fundação da feminilidade.
Os homens parecem ter sido um pouco deixados de lado no discurso psicanalítico com o falocentrismo e a ênfase nas questões femininas, pois já eram vistos como possuidores do pênis, e por isso, masculinos, ativos, agressivos, dominadores. Porém, diversos autores questionam alguns aspectos do desenvolvimento psicossocial masculino trazidos por Freud. Person (1986) relaciona o interesse masculino em ter parceiras múltiplas, que faz parte de um ideal de ego masculino, como um espelhamento dos medos sexuais dos homens, como tamanho, perícia, potência e rejeição. Ela traz ainda que a indisponibilidade das parceiras sexuais na adolescência desperta a ferida narcísica original do menino, podendo leva-lo a ereções inoportunas, como se perdesse o controle do falo, o que leva-nos a compreender o medo da impotência e da ejaculação precoce masculinos.
Os últimos estudos feitos a respeito dos aspectos desenvolvimentais pré-edipianos vêm reavaliando os papéis dos pais devido às mudanças na constituição familiar, como o aumento do número de divórcios, aumento do número de pais com a custódia dos filhos, divisão dos cuidados com as crianças devido às atividades profissionais das mulheres. Assim, acredita-se que o pai vem acessando o seu mundo pré-edipiano, permitindo-o reconhecer defesas e repressões, antes ativadas apenas na fase edipiana dos filhos. Esse novo papel do pai permite uma reformulação do processo de separação-individuação, além de levantar questões a respeito da necessidade de um objeto transicional, já que passam a existir muitos objetos disponíveis.

Conclusão

Ao trazer novas perspectivas a respeito da masculinidade e feminilidade, contrapondo alguns conceitos freudianos, o autor permite pensa-los de maneira mais atual e relativizada, enxergando-os de forma contextualizada e menos determinista. Concordando com alguns conceitos, revendo outros e ainda adequando outros às situações atuais, o autor propõe discussões bastante interessantes para a prática psicanalítica na atualidade.

Referência: Afonso, J. Masculino e Feminino: Alguns aspectos da perspectiva psicanalítica. Análise Psicológica, 25, 3, 331-342, 2007.

Resenha: Os Flintstones e o preconceito na escola

Aline Costa

Intolerância ao diferente. Em suma, essa frase traduz todas as páginas do artigo de Tânia Maria Baibich sobre o preconceito na escola. Tomando como exemplo o nefasto 11 de setembro, dia em que ocorreu uma tragédia representativa – que tinha como pano de fundo o horror ao diferente – Baibich utiliza a atitude de um personagem de desenho animado, o Fred Flintstone, que “varre a sujeira para debaixo do tapete” para fazer analogias às práticas adotadas contra o preconceito no ambiente escolar. Nesse sentido, ela aponta uma característica peculiar do nosso país que é a manutenção de práticas preconceituosas por meio do agravamento do silêncio que pesa em favor do preconceito.
Diante dessa perspectiva o presente artigo nos leva a considerar que o contexto de discriminação e preconceito no cenário nacional revela questões extremamente delicadas e de difícil solução. Se se procura determinar as causas que levam a manifestação do preconceito e as estratégias que podem ser utilizadas para sua posterior diluição no intuito de construir uma sociedade cujas relações sejam mais saudáveis, é lamentável afirmar que tais atitudes não devem ser consideradas pertinentes, quiçá eficazes quando se busca minimizar as imagens negativas vinculada aos grupos-alvo.
Essa impossibilidade se deve ao fato de que, no Brasil, intolerância ao diferente é pautada na crença de que não há intolerância e o que ocorre comumente é um aparente tratamento cordial para com os membros discriminados. Ora, como estabelecer as bases para a dissolução de comportamentos discriminatórios e crenças preconceituosas se essa postura é, invariavelmente, atribuída ao outro. Deve-se concluir então que a falsa ideologia de que vivemos num país em que as diferenças são aceitas e valorizadas só problematiza a questão, pois nenhuma regra, nenhuma lei, nenhuma intervenção fará sentido enquanto for direcionada para o inexistente.
Apesar das evidências cotidianas, das pesquisas acadêmicas e dos notórios dados estatísticos, o país considera-se livre de preconceitos e trata a situação como se ela não se constituísse um problema. Ao acreditar no mito da mestiçagem, a escola – condição privilegiada de transmissão de cultura – funciona como um laboratório para o crescimento e manutenção do processo de exclusão do diferente.
Nesse sentido, Tânia Maria esclarece que as diferenças culturais constituem a maior parte dos motivos da alteridade. A relação claramente hierarquizada entre os grupos se pauta nos pressupostos de identidade, cujo termo expressa tudo aquilo que se é, e de diferença que encerra tudo aquilo que o outro é. A disputa pela identidade reflete uma disputa por recursos simbólicos e materiais da sociedade. Deste modo, há de se constatar que identidade e diferença mantêm estreita conexão com as relações de poder, pois o grupo que detém o poder exibe marcas de sua presença, tais como, incluir/excluir, demarcar fronteiras, classificar, normalizar.
Nessa perspectiva, a busca pela aquisição dos recursos simbólicos tão fundamentais, faz com que o outro, o diferente, o anormal, aja no sentido de negar a si mesmo e governar suas vidas a partir das imposições dos grupos detentores do poder. Essa dinâmica perpetua-se a partir do momento em que o grupo dominante impõe as crenças e valores que deverão ser considerados como normais, saudáveis, aceitos, incluindo no raio do diferente todas as posturas, comportamentos e valores distintivos do seu próprio grupo.
Depois de uma breve explicação sobre as conseqüências do processo de estereotipização, que traz em seu bojo comportamentos preconceituosos e discriminatórios, o artigo expõe seu propósito prioritário: o preconceito na escola. Não sei se proposital, mas o fato é que, antes de falar do ambiente escolar Baibich traz algumas considerações psicanalíticas que atribui a origem do preconceito aos processos estritamente individuais da psique humana.
Nesses termos, a escola não seria protagonista da barbárie, na pior das hipóteses ela seria talvez responsável por manter ou até maximizar práticas preconceituosas, nunca as produzir. Visto assim pela ordem das influências, o ambiente escolar aparece como peça fundamental, pois ajudaria a minimizar ou diluir as atitudes negativas inerentes aos processos intergrupais.
O que corroborou esse meu ponto de vista de que a ordem dos argumentos tenha sido proposital foi o fato de Baibich colocar, logo após as considerações psicanalíticas, o processo educacional com um “salvador da pátria”. Em seu estudo, ela procurou investigar práticas acadêmicas que impediam a construção de uma escola ideal. As análises desse estudo enfatizam uma urgente reflexão pelo corpo docente sobre seus métodos de ensino e arcabouço teórico até então construído além de uma reavaliação sobre a interação professor-aluno, onde o aprendizado ideal se daria reciprocamente. Num tempo no qual a família já não cumpre mais papéis até então de sua responsabilidade, a escola toma para si o dever de cuidar de questões relevantes como alteridade e autonomia.
O estudo feito em uma escola publica do Paraná, reconhecida pela comunidade como claramente politizada que estimulava o pensamento crítico e a construção de uma identidade autônoma, revelou que grande parte dos membros do corpo docente da escola, apesar de detectar a existência de atitudes preconceituosas em sua comunidade, não conseguia enxergar esse comportamento no ambiente escolar em que trabalhavam, responsabilizando a existência do preconceito ao outro.
Para aqueles que acreditavam existir comportamentos preconceituosos no ambiente escolar foi pedido que eles revelassem algumas medidas que eram tomadas no intuito de diluir essas práticas. As respostas indicaram que eles preferiam agir de maneira indireta, pois ao falar diretamente “o problema aparecia”. Vê-se então que não só o preconceito é velado, mas também as formas de intervenção. Mesmo existindo uma clara noção de que a escola tem a intenção de trabalhar a questão do preconceito, há também a concepção de que o que ocorre é mais no sentido de apaziguamento do conflito do que de modificação.
Enfim, o que o artigo de Tânia Maria Baibich propõe é uma transformação a partir de outra transformação: a do ambiente escolar. Em síntese, o que ela declara em alto e bom som é que, ao contrário de manter o histórico de perversidade que reproduz práticas pedagógicas inválidas, a escola deveria subverter a ordem consolidada secularmente em prol de relações intergrupais cada vez mais saudáveis.

Referência: Baibich, T. Os Flintstones e o preconceito na escola. Educar, 19, 2, 111-129, 2002

Resenha: as novas formas de expressão do preconceito e do racismo

Leiza Nazareth Torres

Lima & Vala (2004) iniciam o artigo destacando os diversos tipos de racismo que tem surgido na modernidade, formas menos diretas, entretanto que não deixam de ser prejudiciais. Nesta perspectiva, a psicologia social produziu diversas teorizações a respeito das novas expressões de racismo e preconceito, tais como racismo moderno, racismo simbólico, racismo aversivo, racismo ambivalente, preconceito sutil e o racismo cordial.
Dessa forma, o artigo recapitula historicamente o preconceito e o racismo desde a antiguidade greco-romana, em que este processo era baseado na cultura e não na condição racial, até os dias atuais em que este processo não é tão direto, principalmente após a Segunda Guerra Mundial e as mudanças provocadas pela mesma como os movimentos pelos direitos civis nos EUA, as conseqüências do nazismo e a declaração dos Direitos Humanos. Neste sentido, as formas de expressão do racismo modificaram drasticamente, o que levou o mundo a pensar que na verdade o racismo não existia mais.
Entretanto estes processos não se extinguiram, apenas mudaram a sua expressão, principalmente devido às pressões da legislação anti-racista. Assim, os autores distinguem as novas formas sutis e veladas de preconceito e racismo.
Racismo simbólico: presente nos EUA, representando uma forma resistência às mudanças no status quo das relações racializadas após a Declaração dos Direitos Humanos.
Racismo moderno: idéia de que os negros recebem mais do que merecem, violando os valores importantes para os brancos, como igualdade e liberdade. Este tipo de racismo também é mais atuante nos EUA.

Racismo aversivo: atitude racial, mais comum entre os americanos brancos que possuem fortes valores igualitários, mas que vivenciam uma ambivalência que resulta do conflito entre sentimentos e crenças associados a valores igualitários e sentimentos negativos em relação aos negros, geralmente desconforto, ansiedade, nervosismo e medo.
Preconceito sutil: Presente na Europa e caracterizado por preconceito contra grupos exógenos, tendo como alvo minorias culturais. Esta é uma forma mais velada e disfarçada de preconceito.

Racismo cordial: discriminação em relação às pessoas não brancas caracterizada por uma cortesia superficial que esconde atitudes discriminatórias que vão se expressar em piadas, ditos populares, brincadeiras, entre outros, sempre de cunho racial, presente no Brasil.
A partir desta premissa há uma constatação, através de uma pesquisa, de que 89% dos brasileiros consideram que exista racismo no Brasil, porém apenas 10% afirmam serem racistas. Mas então quem são os outros 79%? Allport (1954) ressalta que o racismo, apesar de ser uma problemática social, sempre é visto como um problema do outro, distante de cada um de nós, o que pode ser uma justificativa para este tipo de resultado nas pesquisas.
No presente artigo, Lima & Vala (2004) retratam uma realidade que todos nós brasileiros conhecemos muito bem, mas preferimos fingir que o racismo e o preconceito não existem e que vivemos num paraíso democrático. Mas então porque houve tanto protesto contra as cotas nas universidades? E porque ainda, segundo o jornal Correio da Bahia do dia 15 de maio de 2008, os brasileiros têm preferência em adotar crianças brancas, apesar de 80% falarem que não tem preferência de cor em relação à cor da criança a ser adotada? E porque assassinatos de crianças negras, nas periferias, em condições de extrema violência não causam tanto clamor público, como o assassinato de Isabella Nardoni? Sem contar a declaração do coordenador do curso de medicina da Ufba, Natalino Dantas, que culpou o “baixo QI” dos baianos pelo péssimo desempenho da faculdade de Medicina da Bahia na prova do ENAD.
Percebemos, portanto, que no Brasil, as pessoas têm consciência de que vivem em uma sociedade em que há discriminação racial, entretanto elas não se sentem responsáveis por esta situação, o que pode acarretar numa problemática, já que para combater o racismo é necessário que o mesmo seja reconhecido como um problema a ser solucionado.
Os autores finalizam o artigo enfatizando a necessidade de novas pesquisas investigativas das novas formas de expressões de preconceito e racismo no âmbito da psicologia social brasileira, com intuito de encontrar elementos comuns e particulares que diferenciam e assemelham o racismo e o preconceito no Brasil e em outros países.
Referência: Lima, M.E e Vala, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo.Estudos em Psicologia, Natal, 9,3,2004.

Resenha – Normas, justiça, atribuição e poder: uma revisão e agenda de pesquisa sobre filas de espera

Rafael Oliveira

Adotando a premissa de que a fila de espera é um sistema social e que do ponto de vista psicológico expõe os usuários a uma série de fenômenos do comportamento, o artigo faz uma síntese dos estudos e pesquisas em psicologia social sobre o tema e aponta suas principais lacunas. Para tanto, utiliza o nível de análise individual, o que se convencionou chamar de psicologia social psicológica. Deste modo, a situação da fila de espera é analisada do ponto de vista de temáticas como normas, justiça, atribuição e poder.

Natureza das filas de espera e seus tipos
As filas podem ser divididas em presenciais e não-presenciais, únicas e múltiplas. Essa divisão, no entanto, se refere à organização espacial da fila. Por detrás desses tipos jaz uma natureza comum regida pelo princípio igualitário, qual seja, o de que quem chega antes deve ser atendido antes. As relações e irrupções deste princípio vão dar substrato empírico para as análises teóricas.

Normas e influência social
São definidas genericamente como conjunto de regras compartilhadas que guiam o comportamento dos indivíduos de forma implícita. Podem ser descritivas (exemplo a ser seguido) ou injuntivas (sansões informais, implícitas). As intrusões nas filas são vistas como quebra do principio igualitário (norma) gerando perda individual (tempo) e/ou ultraje moral. Outros componentes são analisados neste tópico, como o efeito da normalização (justificativa para explicar o comportamento do infrator) e os processos internos que envolvem a apatia diante da situação inesperada.

Justiça
A percepção de justiça se dá em três níveis: o modo como as pessoas avaliam a eqüidade da distribuição dos bens (distributiva); avaliação do processo adotado para distribuir os recursos (processual); como a decisão sobre a alocação de recursos é implementada (interacional). Na relação com os dois primeiros níveis os estudos mostram relatos de que as filas preferenciais (idosos, gestantes) podem ser vistas como injustas. O terceiro nível aponta para dois tipos de espera: a funcional e a cerimonial, esta última causando mais desconforto. Para a psicologia não importa se a justiça ocorreu ou não de fato, mas sim a percepção de justiça pelos envolvidos.

Atribuição de causalidade
Conceito bastante difundido em psicologia social fundamenta que as pessoas usam teorias para explicar os acontecimentos em causas internas ou externas. No caso específico das filas, a atribuição de demora aparece como fator fundamental de insatisfação de usuários nas filas e influenciam emoções, atitudes e comportamentos em três dimensões: se o provedor pode prevenir os problemas nas filas e controlar os efeitos (controlabilidade); quem ou o quê é responsável pelo problema (lócus); probabilidade de que os problemas se repitam (estabilidade). Quando o usuário considera o problema como controlável, estável e com lócus externo as reações são geralmente mais negativas.

Poder e status
As questões de poder estão relacionadas às avaliações de justiça e determinam quem pode esperar mais ou menos e o quanto é possível reclamar da espera. O tópico ainda discute a crença compartilhada (principalmente no Brasil) de que se atribui mais poder a quem se faz esperar, e como situações de espera podem definir relações de poder decidindo quem deve esperar e quem deve ser esperado. Deste modo o cidadão em fila é tratado na maioria das vezes pelo sistema de atendimento como mero passageiro de uma linha humana, sentindo-se humilhado, enganado e desamparado. Apesar disso, a fila é entendida como uma forma democrática de organização social.

Questões e Lacunas
Existe algum tempo máximo ou uma posição limite na fila em que se permite guardar lugar? Os estudos sobre intrusão devem levar em consideração o tipo de ambiente, vestimenta do intruso, idade e justificativa adotada para intrusão. Como os usuários reagem a situações percebidas como injustas? Devem ser feitos estudos que avaliem a distância social entre os atores (atendentes e usuários). Qual o efeito de caixas inoperantes na atribuição às causas de demora? Esses são apenas alguns dos direcionamentos apontados no artigo.

Considerações finais
O artigo se destaca por conseguir conjugar de forma sintética elementos teóricos com um problema prático da vida urbana. Constitui-se de fato numa agenda que pode ser usada por professores de graduação tanto para ensinar os conceitos de psicologia social como para incentivar os alunos a observação prática dos mesmos, seja testando os resultados já encontrados ou investigando as lacunas existentes. De todo modo, depois da leitura do artigo esperar numa fila nunca mais será a mesma experiência.

Referência: Iglesias, F. e Günther, H. Normas, justiça, atribuição e poder: uma revisão e agenda de pesquisa sobre filas de espera. Estudos de psicologia (Natal), 12, 1, 3-11, 2007

Resenha – trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural?

chamada

Andréia da Cruz Oliveira

1. A Escola

“Importante na escola não é só estudar, não é só trabalhar,
é também criar laços de amizade,
é criar ambiente de camaradagem,
é conviver, é se ‘amarrar nela’!
Ora, é lógico…
Numa escola assim vai ser fácil
estudar, trabalhar, crescer,
fazer amigos, educar-se,
ser feliz.”.
Paulo Freire

Para Gomes (2002), a escola é uma instituição formadora de saberes sociais, escolares e culturais. O processo de construção da identidade social é profundamente marcado pela cultura escolar, por este motivo, muitos estudiosos vêm se debruçando sobre este assunto no intuito de compreender como a escola se constitui num espaço importante na construção do complexo processo de humanização. O interesse de alguns educadores nas relações raciais articulados à cultura e educação é crescente. Muitos temas como: a representação do negro nos livros didáticos, o silêncio das questões raciais, etc. antes ignorados, começam a fazer parte da produção teórica educacional. Uma das formas de compreender as relações raciais e sua ligação com o universo simbólico, seria através de um olhar mais amplo sobre a educação no processo de humanização, sem esquecer dos processos educativos não escolares.
A autora propõe um caminho para poder captar as impressões e representações do negro sobre o próprio corpo articulados com as experiências escolares: através do desenvolvimento de uma escuta atenta pelos educadores à fala dos negros sobre suas vivências corpóreas dentro e fora da escola. Este enfoque corrobora com os achados da sua tese de Doutorado: Corpo e cabelo com ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte. (Gomes, 2002), por meio de 28 entrevistas com mulheres e homens negros, verificou-se no discurso de todos os participantes a importância da trajetória escolar na construção da identidade negra, reforços dos estereótipos e representação negativa sobre este grupo étnico/racial e do seu padrão estético.

2. O Corpo
O corpo é um dos meios de comunicação do homem na sociedade. É constituído biologicamente e simbolicamente na história e na cultura. Ao corpo são aplicados os fundamentos da vida social, diferentes crenças e sentimentos. Ele seria uma junção da natureza (a fome, o sono, a fadiga, o sexo, etc.) e do mundo das representações (a cultura) coexistindo de maneira simultânea e separada. As motivações orgânicas que se fazem presente em todos os seres humanos são ressignificados, inibidos ou exaltados pela cultura.
Para a autora, o processo de escravização dos africanos no Brasil, remete a coisificação e materialização do corpo negro nas relações sociais. O negro era visto pelos brancos como mero objeto, inclusive existiam leis que regulamentavam os senhores como proprietários dos escravos que poderiam aplicar “medidas disciplinares”: abusos sexuais e castigos corporais naqueles que não aceitavam tal imposição. Trata-los como mercadorias: comprar, vender ou trocar. E a sua liberdade oficial estava atrelada à carta de alforria.
A relação histórica do escravo com o corpo expressava as formas de rebelião, resistência e luta pela liberdade. Através da dança, dos cultos, dos penteados, no uso de ervas medicinais na cura e na cicatrização das feridas provocada pelos castigos e açoites foram maneiras específicas e libertadoras de trabalhar o corpo, ao contrário da idéia difundida da nossa sociedade do escravo submisso. O regime escravista cristalizou a forma do corpo negro ser visto e tratado, as diferenças fenotipicas entre negros escravizados e os brancos colonizadores serviram de argumento para a formação de um padrão de beleza e fealdade que perdura até hoje.
Através dessas reflexões Gomes (2000) se questiona: “Será que as escolas têm dado uma outra leitura a essa relação? Ou as crianças negras e brancas, quando estudam a questão racial, ainda participam da representação do corpo negro apenas como um corpo açoitado e acorrentado?”. O olhar do corpo negro nas escolas é fundamental para entender como os professores e alunos lidam com a cor da pele e o cabelo, dois elementos construídos na sociedade brasileira como definidores do pertencimento étnico/racial. A trajetória escolar tem um importante papel na formação da identidade negra, muitas vezes o discurso pedagógico, ao privilegiar a questão racial, pode reproduzi-lo de forma estereotipada e preconceituosa.

3. O Cabelo Crespo


“Respeitem meus cabelos, branco
Se eu quero pixaim, deixa;
Se eu quero enrolar, deixa;
Se eu quero colorir, deixa;
Se eu quero assanhar, deixa;
Deixa, deixa a madeixa balançar”
Chico César

O negro vivência sua experiência com o cabelo a partir da infância. As meninas, por exemplo, desde muito cedo são submetidas a rituais de manipulação do cabelo e geralmente a primeira técnica utilizada é a trança, mas nem sempre estas meninas elegem as tranças como penteado preferido. Este pode ser um dos motivos de algumas mulheres negras adultas adotarem alisamentos com produtos químicos ou com pente e ferro quente, pois a sensação de ter os cabelos desembaraçados sem sofrer com as pressões do pente e puxões é visto com alívio.
Na África as tranças também são utilizadas, contudo seu significado foi alterado ao chegar ao Brasil. Algumas famílias utilizam as tranças com o intuito de quebrar o estereótipo do negro sujo e despenteado, porém outras famílias o fazem como uma prática cultural. É notável a variedade de tranças e adereços coloridos nas crianças negras, diferentemente das técnicas utilizadas nos cabelos de crianças brancas. Quando adultas muitas mulheres negras reconciliam-se com as tranças, mas dessa vez estilizadas. Isto expressa a existência do estilo negro de pentear-se e adorna-se, configurando-se em uma estreita relação entre o cabelo e a identidade negra.
O processo de manipulação dos cabelos para os negros brasileiros é bastante conflituoso, neste momento crítico não é rara a expressão de sentimentos de rejeição, aceitação, ressignificação ou negação do pertencimento étnico/racial. É possível imaginar como o negro ou a negra podem representar simbolicamente o seu cabelo crespo em uma sociedade predominantemente racista, influenciada pela ditadura da beleza euro-americana que atua diretamente no comportamento individual. Na escola, por ser um espaço público, estas representações podem reforçar estereótipos e intensificar as experiências do negro com seu cabelo e o corpo.

4. O Negro na Escola
A escola estabelece padrões curriculares, de conhecimento, comportamento e de estética. É preciso pertencer a um padrão uniforme. Mais uma vez é exigido do aluno o cuidado com a aparência, sendo que por trás de um teor higienista podemos encontrar discursos com conteúdos racistas implícitos. Uma dessas exigências é “arrumar o cabelo”, sendo que esta é passada de forma distorcida para as famílias negras. Mesmo penteando os cabelos de seus filhos, estas crianças são alvos de apelidos pejorativos e piadas no ambiente escolar. Esses apelidos marcam a trajetória escolar e geralmente são as primeiras experiências de rejeição pública do corpo, pois o cabelo crespo é símbolo de inferioridade. “Uma coisa é nascer negra, ter cabelo crespo e viver dentro da comunidade negra; outra coisa é ser criança negra, ter cabelo crespo e estar entre brancos” (Gomes, 2000 p. 45).
As estratégias de enfrentamento do negro contra o racismo é bastante particular e está intimamente ligada à construção da identidade, possibilidade de socialização e informação. Para compreender melhor o processo de construção da identidade negra no Brasil deve-se levar em consideração a história, a sociedade, a cultura e a subjetividade. A adolescência é um dos momentos chaves na construção dessa subjetividade, pois além da insatisfação com a imagem, comum entre muitos adolescentes, é acrescentado o aspecto racial. Durante a vida escolar, muitas experiências de rejeição ao cabelo ou a cor da pele podem levar a baixa auto-estima ou sensação de inferioridade, por isso a escola pode atuar como favorecedora na superação dos estereótipos negativos em relação aos negros ou na sua reprodução.
Embora homens e mulheres negras de diversas partes do mundo sejam culturalmente diferentes, existe algo que os une: a cor da pele, a mesma ancestralidade africana e a forma de manipular o cabelo é uma expressão cultural. Em muitas sociedades em que a questão racial é um dos aspectos estruturantes de poder, as significações negativas em relação ao corpo negro trazem grande impacto na vida social e subjetiva do negro. Neste ponto os movimentos negros de resistência lutam pela valorização da beleza negra, sem adotar aos padrões Europeus de estética, superando o preconceito e desocupando o lugar de inferioridade.

5. Conclusão
Através da leitura desse artigo, podemos identificar a importância da Escola na construção da identidade do negro. Para o negro a ida a escola pode significar um choque inter-étnico, pois muitas vezes é na escola que se têm o primeiro contato com pessoas de outras etnias e classes sociais. É neste momento que educadores precisam ter uma escuta mais atenta em relação à fala do negro (antes ignorada!), além disso, promover uma discussão mais ampla e adequada sobre a participação do negro na história. Os livros didáticos evidenciam a coisificação do corpo negro, apenas como mera mercadoria. A participação efetiva do negro na luta pelo fim da escravidão e o cuidado com o corpo, expressada através das danças, dos penteados, etc. não são citados, a escola precisa rever e alterar esse tipo de leitura o quanto antes.
A cor da pele e o cabelo são, no Brasil, as principais fontes de classificação étnica/racial. Mesmo vivendo em uma sociedade marcada pelas relações sociais de poder baseadas na cor da pele, a identidade negra através da utilização de técnicas de manipulação dos cabelos, por meio de tranças e adereços, podem levar a construção de uma identidade negra positiva. Fica evidente a estreita relação do corpo e do cabelo ao pertencimento racial. A escola possui a função de desconstruir a inferioridade simbólica do negro na sociedade, a criança e o adolescente passam o maior tempo da vida no ambiente escolar, saindo do núcleo familiar e passando a ocupar um papel social. Por isso não se deve mais silenciar as questões raciais na escola, é exatamente lá que precisa ser discutido, que precisa ser falado. Assim o estudo sobre a representação do corpo negro possibilitará a construção de estratégias pedagógicas que possam compreender o valor do corpo negro na construção da identidade negra e na formação dos futuros cidadãos da sociedade brasileira.

6. Referência
Gomes, N.L. Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural?.Revista Brasileira de Educação. Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação, São Paulo, 2000.

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