Resenha: Música, Comportamento Social e Relações Interpessoais

Ana Carolina Rocha Oliveira

O artigo desenvolvido por Beatriz Ilari discorre pelas relações entre os comportamentos sociais e o papel que a musica pode adquirir nesse contexto. Ou seja, a autora do artigo pretende demonstrar quanto a musica pode ser um fator também importante no modo em que as pessoas interagem e são atraídas umas pelas outras nas suas relações afetivas.
O estudo parte de uma citação de Pinker (1997), em que o linguista sugere que o mundo provavelmente seria igual mesmo sem que existisse a música. Dessa suposição, vários outros autores e pesquisadores, que discordavam da afirmação inicial de Pinker, passaram a estudar e aplicar instrumentos que comprovassem que a música pode ser um fator de importância na evolução das sociedades, sendo produto de um fenômeno social em diferentes culturas.
Entretanto, ate o momento da presente pesquisa, já era possível reconhecer na música as diferentes funções dentro das atividades humanas, principalmente, quando em referência as relações interpessoais. Deste modo, Ilari comenta a teoria desenvolvida por Huron (1999), em que este estabelece um vinculo entre a música e os efeitos que ela causa sobre a atração e consequentemente sobre as relações interpessoais, inclusive as de natureza amorosa.
Ao falar sobre atração interpessoal, a autora do artigo descreve brevemente sobre o papel da mesma na formação das relações entre indivíduos demonstrando que, seja pela perspectiva evolucionista (em que será ponto de partida para a procriação e descendência), seja pela perspectiva cognitivista (em que estará correlacionada aos esquemas cognitivos dos ideais criados de parceiros e relacionamentos), a atração entre as pessoas se deve principalmente a partir do contexto social em que estas estão inseridas. De tal forma, é possível constatar o quanto as atitudes, as crenças e os valores comuns atuarão como forças poderosas e essenciais na atração interpessoal, estabelecendo assim, uma ligação entre essas forças de atração e a escolha por determinados gostos musicais.
Outra ligação que pode ser feita e que está presente no artigo, é a ideia de que tanto a música quanto a atração interpessoal consideram a indução ou surgimento de sentimentos, visto que podem exercer efeitos significativos no comportamento social dos indivíduos em interação. No entanto, as semelhanças vão até esse ponto. Diferentemente da atração entre pessoas, que tem uma conexão obvia com os afetos, o mesmo não se pode garantir da dualidade música-afeto, que geralmente terá seu grau de excitação dependente dos gêneros musicais escolhidos para cada situação, de acordo com o contexto social (North e Hargreaves, 1997).
Diante de todo o inicial teórico sobre a música e suas relações e efeitos no comportamento social, Ileari conclui que as escolhas musicais por determinados gêneros são condutas aprendidas devido às influências grupais, posto que servem como guia às nossas percepções e o modo como avaliamos os outros. Ou seja, nos relacionamentos interpessoais, como a atração, os fatores de interesse apresentam-se como respostas individuais aos estereótipos. Zillman e Bhatia (1989) associavam a percepção do grupo em relação aos gostos musicais de outros grupos aos estereótipos, trazendo estes como esquemas cognitivos impostos social e culturalmente, sendo determinantes para as atitudes interpessoais. E é a partir dessa contextualização que ela parte para o método.
Diante de sua amostra de 50 pessoas (já que 10 foram invalidadas por terem uma relação mais formal com a música: ex. de músicos profissionais e amadores), entre jovens e adultos, numa idade média de 27 anos, Ileari dividiu seu instrumento em três partes. No primeiro momento, exibiu alguns classificados pessoais para que o participante escolhesse o parceiro ideal, com o objetivo de que fosse determinado o papel que a música desempenha nas relações interpessoais, na atração e na escolha do parceiro. Na segunda parte, foi feita uma coleta de dados procurando verificar se os estereótipos brasileiros seguiam pelo mesmo caminho das amostras coletadas nos Estados Unidos e na Europa. Já no terceiro momento, o participante era encaminhado a responder algumas questões abertas sobre ele mesmo e a relação com a música para investigar se realmente existem funções especificas da música nas relações interpessoais.
Na primeira parte da pesquisa, concluiu-se que a música está entre um dos muitos fatores que interferem na atração entre as pessoas não sendo, no entanto, uma característica direta ou mesmo com forte efeito sobre a escolha dos parceiros. O que não significa que a música se torne menos importante, já que, durante a coleta, as respostas, que foram divididas em grupos de maior ou menor frequência do fator musical nos anúncios, resultaram na ausência de diferenças entre eles.
No segundo momento, foram agrupadas em categorias todas as 147 palavras utilizadas pelos participantes para adjetivar os gêneros musicais listados. Das categorias capacidades individuais, personalidade, julgamento de valor, condição socioeconômica, localização geográfica, educação, grupo social, atitudes e ideologia política, as que obtiveram os maiores números de palavras associadas foram personalidade e atitudes, demonstrando quanto às pessoas inferem das preferências musicais os modos de agir e de se portar dos outros indivíduos.
Dentre os gêneros propostos, a maioria das pessoas manteve o padrão de associação de palavras estereotipadas em relação a MPB, ao jazz, a música clássica, ao samba/pagode, ao rock/pop, a música do mundo e ao sertanejo, assim como já havia sido mostrado em pesquisas anteriores como a de Zillman e Bhatia (1989). De todos, os gêneros que tiveram maior destaque foram os gêneros sertanejo e música do mundo. O primeiro pela convergência de adjetivos similares da amostra e o segundo pela divergência e antagonismos de adjetivação.
Na terceira parte do estudo, os participantes foram questionados quanto às possibilidades da musica exercer algum papel na vida amorosa, se os gostos musicais diferentes eram relevantes na escolha do companheiro e se a musica fez parte de algum momento significante na vida dos entrevistados. O resultado para primeira questão foi unânime a favor do papel exercido pela música num contexto amoroso. Na segunda questão, a mesma porcentagem de pessoas (86%) acreditava ser possível estabelecer relacionamentos com pessoas de diferente gosto musical. Na ultima pergunta, também a maioria dos entrevistados conseguiu se lembrar de pelo menos um evento de suas vidas em que a música foi fundamental, sendo o maior número de eventos listados associados às relações interpessoais.
De acordo com a análise da pesquisa tirou-se que a musica e as relações interpessoais possuem uma ligação de fato, mas que se correspondem indiretamente ao contexto subjetivo e experiências de vida de cada pessoa, revelando, simplificadamente, quatro usos possíveis e distintos da música dentro dessas relações, tal como: objetivos de excitação, fundo acústico, facilitadora de atividades que promovem a aproximação de indivíduos e artefato mnemônico.
Ou seja, a pesquisa reforça o papel de importância da música nas relações interpessoais, corroborando a ideia de que música e atração são elementos que tendem a se associar a partir dos esquemas cognitivos tão só o uso de estereótipos, de experiências e até mesmo de funções específicas dadas à música nos possíveis relacionamentos, garantindo essa situação para alem das barreiras culturais.
A música é indefinida. Ela pode significar varias coisa em vários lugares diferentes. A música ultrapassa a barreira do sensível e atingi o que mais profundo possa existir em nós mesmos. A música serve para conhecer e fazer interagir com outras pessoas e grupos, aproximando-os, tanto quanto para ser elemento de excitação ou armazenamento de lembranças. A música não só tem importância como ela é por si só fator fundamental para criar cenários e ambientes sonoros propícios nas relações afetivas e amorosas, facilitando e influenciando o humor, os sentimentos, a sensibilidade e a integração interpessoal, seja lá de que forma for. Evidenciando aqui, o erro da afirmativa de Pinker (1997).
A música está além dos gêneros musicais. Os gêneros são partes de um todo musical e representam as diferentes formas de interação entre as pessoas assim como entre grupos. Talvez, como foi encontrado pela pesquisa Ileari, as pessoas de mais idade realmente tenham mais dificuldade de conseguir conciliar diferentes gostos musicais dentro de um relacionamento, pois fica mais difícil manter atividades de lazer compatíveis. Porém, não necessariamente isso ocorra se os outros dados apresentados da pesquisa estejam corretos, já que a maioria das pessoas confessou não ver problemas em manter um relacionamento com outra que aprecie um gênero musical divergente, acreditando, inclusive, ser uma chance de aprender e vivenciar novos contextos e estilos.
Ou seja, considerando o respeito às diferenças e os limites estabelecidos pela convivência diária, será visível e viável o beneficio que tais diferenças venham a acarretar no relacionamento. Ate porque, a música é também uma forma de libertação. No estudo Ileari, 11% dos entrevistados citou a musica como a arte mais acessível e capaz de libertar a mente das preocupações do cotidiano.
Portanto, tem-se que a autora conseguiu em parte comprovar suas ideias sobre a interferência da música nas interações interpessoais. Concluiu que, apesar de ser uma influência indireta e generalizada, o estudo deve manter investigações que consigam agregar novos dados e inserir novos fatores ainda não tratados para que sejam analisados e, progressivamente, construir novas estatísticas condizentes com a realidade social.
Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais

Rosicley Almeida Lima

A pesquisa relatada por Ilari (2006) objetivou analisar a relação entre música e relacionamento interpessoal amoroso. Muitos estudiosos se debruçam há décadas sobre o papel da música na história da evolução da espécie humana e até hoje não chegaram a um consenso em relação ao assunto.
O texto ressalta que a funcionalidade da música no mundo ocidental, pelo menos, está relacionada direta ou indiretamente, aos relacionamentos interpessoais. Em qualquer fase da vida, em envolvimentos profissionais ou pessoais, em atividades de cunho festivo ou religioso, a música se faz presente na história das civilizações como um dos instrumentos de atração interpessoal. A atração interpessoal é apresentada como “uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros…” (p. 2), e que remete às nossas experiências ao longo da vida. De acordo com o texto atitudes, crenças e valores em comum são elementos importantes na atração interpessoal e é justamente isso que a relaciona com o desenvolvimento do gosto musical, já que ambos dependem de contingências sociais.
É sabido que a música possui diferentes objetivos nas mais variadas culturas, como excitar e acalmar, sendo que o grupo social irá definir a ‘adequação’ de cada ritmo ao momento em que a música é tocada. Desse modo, a música é capaz de despertar as mais diversas sensações, pois está intimamente relacionada com as situações do cotidiano.
O texto traz resultados de estudos da psicologia da música (nem sabia que existia) sobre o papel desta na atração heterossexual, ou melhor, sobre o modo como o gosto musical influencia na escolha de parceiros do sexo oposto. E a conclusão foi que os estereótipos comumente associados aos grupos sociais também se aplicam aos estilos musicais, uma mostra da interferência cultural na relação música-indivíduo. Para Ilari, “os estereótipos associados à música, que nada mais são do que esquemas cognitivos que passam pelo viés de categorias impostas social e culturalmente, aparentam ser determinantes nas atitudes interpessoais.” (p. 3). O gosto musical, nesses casos é considerado representante de um conjunto de crenças e valores que servem para categorizar as pessoas.
A pesquisa já realizada nos EUA e em alguns países europeus, dessa vez foi aplicada em uma amostra brasileira composta por 50 jovens (metade homens e metade mulheres) adultos entre 12 e 43 anos frequentadores de um restaurante universitário de Campinas/SP, todos com pouco ou nenhum envolvimento formal (cursos, etc.) com o meio musical. O instrumento desenvolvido para a coleta de dados consistiu em três partes: primeiro, os participantes foram expostos a cinco pares de classificados pessoais e a partir disso, deveriam escolher, em cada par, o parceiro de sua preferência, ressaltando que a variável música (por ex., toca violão) estava presente em apenas um classificado de cada par. Em seguida, o instrumento traz a seguinte proposição incompleta: “As pessoas que ouvem….(estilo musical) são geralmente….(adjetivo)”, e os participantes deveriam atribuir no mínimo dois adjetivos com base nos estilos propostos, a saber: MPB, jazz, música clássica, samba/pagode, rock/pop e sertanejo, considerados os mais populares em nosso país. Por último, todos responderam questões abertas sobre sexo, idade, experiência educacional, experiência musical prévia e tempo de escuta musical, e ainda questões abertas sobre a relevância da música nas vivências pessoais, inclusive nas relações interpessoais.
Os resultados parciais mostraram que a maioria dos participantes relacionou gosto musical a características da personalidade e às atitudes. A classe social e consequentemente o status também foram associações frequentes. Um exemplo disso são as relações envolvendo o gênero sertanejo, maior concordância de adjetivos entre os participantes, que foi considerado música para indivíduos humildes, moradores ou não da zona rural, além de muito sentimentais. Nota-se uma forte associação ainda com a música sertaneja de raiz e um contraponto com o ‘moderno’ sertanejo de duplas que com suas letras românticas e grande influência de instrumentos como a guitarra, em pouco ou quase nada se parecem com a música sertaneja de Tonico e Tinoco, por exemplo. E se a pesquisa tivesse acontecido nos tempos atuais do sertanejo universitário certamente os estereótipos de classe social e de personalidade relacionados a esse estilo estariam ainda mais confusos e/ou discrepantes.
Para 86% dos entrevistados, a música é importante no relacionamento amoroso na medida em que influencia os sentimentos de ambos os parceiros (80%), tornando-os mais ou menos sensíveis enquanto indivíduos e também par (71%), e ainda promove a conexão entre o casal (68%), ajudando a chegar ao romance (67%). Um dado surpreendente é o de que 14% da amostra afirmou não namorar alguém com gosto musical diferente do seu, reforçando o poder dos estereótipos envolvidos com a música; uma das justificativas seria a de que essa contradição entre os gostos musicais seria crucial nas saídas dos parceiros para se divertirem juntos. Porém, a maioria dos participantes se mostrou aberto para a experiência de se relacionar com alguém de gosto musical oposto ao seu, sinalizando a existência das diferenças e o necessário respeito a elas.
Como dado mais significativo sobre a díade música-relacionamento amoroso, a maioria esmagadora da amostra (92%) descreveu no mínimo dois episódios de suas vidas em que determinada música teve destaque especial, fazendo com que sua audição elicie necessariamente respostas de recordações desses episódios.
A autora resumiu em três os objetivos da música nos relacionamentos interpessoais: objetivos de excitação, elevando-a (música rápida) ou diminuindo-a (música lenta); objetivos de fundo acústico para criar um clima de acordo com o contexto e ainda suprir possíveis falhas na comunicação verbal, por exemplo; objetivos de interação social facilitando a aproximação e a troca de experiências; objetivo de fortalecer a memória afetiva, fazendo com que determinada música ajude o indivíduo a lembrar de fatos ou pessoas de seu convívio.
Ilari conclui que a música tem relação indireta nas relações interpessoais e consequentemente na escolha de parceiros amorosos, seja facilitando a aproximação, tornando mais ou menos agradável os encontros, trazendo à memória recordações do passado, e assim por diante. Dessas observações a autora infere que o papel da música na história da evolução humana precisa ser reconsiderado.
Subestimar a função da música no desenvolvimento das relações humanas é negar o seu caráter principal de linguagem entre os indivíduos nos mais diversos momentos de sua história pessoal e coletiva. Obviamente, particularidades culturais devem ser levadas em conta quando explicamos o papel da música na vida das pessoas, pois sem dúvida, ela consiste em um indicativo das representações sociais, haja vista os muitos estereótipos que alimenta.

Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198.

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais.

Agnaldo Júnior Santana Lima

A autora inicia seu artigo afirmando que não existem evidências que possam comprovar a existência de um gene musical propriamente dito, mesmo diante do esforço de pesquisadores de campos como a neurociências e a genética. Contudo, a música continua tendo um caráter universal e tendo um papel importante nas sociedades e culturas. A música vem mantendo funções tradicionais e sentidos próprios em diferentes sociedades ao longo da história. No Mundo Ocidental a música exerce funções relacionadas às relações interpessoais, tais como ninar crianças e entreter.
A atração interpessoal pode ser definida como uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros, e é um elemento crucial no desenvolvimento de vínculos. Para a psicologia cognitiva, a atração está relacionada aos esquemas cognitivos que são construídos a partir dos ideais de parceiros e relacionamentos amorosos construídos ao longo da vida.
Como fatores associados à atração interpessoal podem ser citados: a atração física, proximidade, interação e exposição continuada aos outros indivíduos, além de uma semelhança real ou percebida entre estes. A atração interpessoal depende também do contexto social, que forma crenças pessoais, valores e atitudes, o mesmo pode ser dito sobre a formação do gosto musical.
A atração e a música estão ligadas à indução e/ou surgimento de sentimentos. As formas de utilização e apreciação da música variam de acordo com uma combinação de crenças pessoais e objetivos de excitação, entrelaçados àqueles do grupo social ao qual pertencemos.
No estudo em questão, a autora buscou determinar o papel da música nas relações interpessoais, na atração e escolha de parceiros, além de verificar se os estereótipos associados aos gêneros musicais encontrados em amostras norte-americanas e européias, poderiam ser encontrados numa amostra brasileira. Por fim, o estudo investigou se existem ou não funções específicas da música nas relações interpessoais, baseando-se nos relatos dos participantes.
O estudo contou com a participação de 60 jovens e adultos, com idade entre 12 e 43 anos, recrutados em Campinas, SP. Músicos e estudantes de música foram excluídos da amostra final, que foi composta por 50 jovens adultos com idade média de 27 anos. Foi elaborado para o estudo um instrumento de coleta de dados em três partes. Na primeira, o participante deveria escolher o parceiro que lhe parecesse mais atraente numa lista de classificados. Na segunda parte, o participante deveria completar frases relacionando estilos musicais com adjetivos. A terceira parte consistia num questionário sócio-demográfico bem como questões relativas à importância da música nas relações sociais.
No estudo, a música pareceu não ter efeitos positivos ou negativos na escolha de parceiros. Os participantes do estudo tenderam a associar o gosto musical mais à personalidade e às atitudes do que a outras características. Estereótipos de personalidade foram encontrados apenas para alguns gêneros musicais. A autora aponta a possibilidade da existência de uma relação direta entre o conhecimento musical e o gosto do participante e sua percepção dos ouvintes de música. A maioria dos participantes demonstrou certa abertura para namorar pessoas com gostos musicais contrastantes. Foram revelados quatro usos distintos da música no contexto das relações interpessoais: objetivos de excitação, fundo acústico, facilitadoras de atividades que promovem a aproximação de indivíduos e artefato mnemônico.
Os resultados do estudo reforçam a ideia de que a música exerce um papel importante nas relações interpessoais, embora não tenha aparentado exercer um efeito direto sobre a atração interpessoal e a escolha de parceiros.

Referência: ILARI, Beatriz. Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em estudo, Maringá, v. 11, n. 1, Apr. 2006

Um dia na Broadway

Autores: Leilane Gama, Manuela Sá, Marília Carneiro, Ueslei Solaterrar

Por que as pessoas filiam-se às outras? Que fatores são levados em consideração na escolha de um grupo já que cada um possui a sua dinâmica própria numa diversidade tão marcante? E mais ainda, o que mantém esse mesmo grupo coeso e bem estruturado? É com base nessas indagações que fomos levados a selecionar um grupo no qual pudéssemos esclarecer melhor algumas dessas questões e explorar de forma mais direta o universo das significações grupais. Como bem sabemos não há como vivermos em sociedade sem estarmos inseridos em alguns grupos, sem estarmos em contato constante com outras pessoas, o que se traduz numa infinidade de grupos existentes inviabilizando assim um consenso acerca de uma definição para o mesmo. Entretanto, diariamente as pessoas elaboram teorias implícitas sobre o significado das ações dos diferentes tipos de grupos no meio social, estes que são entes autônomos e não se confundem com os indivíduos que os constitui. Dentre as acepções mais comumente estudadas merece destaque: equipe, turma, galera, patota, gangue, bando, corja, etc. A nossa análise será direcionado para uma equipe, já que o grupo que escolhemos faz parte dessa categoria.

A Equipe

Acima está a foto da equipe que escolhemos: um grupo de dança e canto profissional entitulado On Broadway que apresentam musicais na cidade de Salvador-Ba. Trata-se de uma equipe com objetivos bem definidos e tarefas bem delimitadas pelo fato de exercerem uma atividade profissional e com fins lucrativos, o que o reveste de uma maior responsabilidade e organização na execução das tarefas. Por esse motivo o grau de entitatividade do mesmo é um pouco menor, se comparado com um grupo de intimidade, no qual a família representa o valor mais alto, ainda que apresente um alto nível de interação entre os seus membros. O grupo completo é de pequeno porte inclusive se comparado com outros grupos de dança, e na realidade a equipe se divide frequentemente para se adequar ao porte das coreografias e apresentações requisitadas pelos clientes. Ou seja, é natural que nem todos os componentes se apresentem em todos os shows, e isso varia com a disponibilidade dos artistas e com o pedido dos contratantes. Diferentemente de outros grupos em que afinidade com os integrantes já estabelecidos são suficientes para se inserir como um novo membro, para pertencer a Cia On Broadway, é preciso “arrasar” na audição. A equipe inicial de oito anos atrás não é a mesma que se tem atualmente, notando-se aqui um certo grau de permeabilidade, já que o acesso ao mesmo é permitido em épocas estabelecidas pela direção do grupo, quando há necessidade de acréscimo de componentes para, por exemplo, a preparação de determinado evento ou festival de porte maior que o usual. Na prática, este ingresso se dá pela realização de uma audição coordenada pela mentora da equipe, Juliana De-Vecchi. Nessa seleção a também diretora avaliará as habilidades de dança e canto do candidato, verificando se o seu rendimento é suficiente e satisfatório para o nível e proposta do grupo e ainda se há encaixe de perfil do candidato com o perfil procurado para determinado papel, se for o caso. Nessa foto em específico, Juliana marca sua presença rodeada pelo grupo. Segundo os membros da equipe, o papel dela é fundamental não só na orientação e no ensino, mas também no apoio dado a equipe. Por ser a idealizadora desse projeto, ela desempenha um papel fundamental na construção da identidade real e simbólica do próprio grupo, já que montou uma equipe pioneira em reprodução de coreografias musicais famosas da companhia americana Broadway como Cats, Hairspray, O Rei Leão e Chicago. Esse trabalho é feito com originalidade, ainda que seja eventualmente alvo de algumas críticas por parte daqueles que não aceitam essa “cultura americana dos musicais”. Mas, na verdade, a responsabilidade de Juliana parece ter passado a mensagem clara a sua equipe de que toda arte é passível de ser criticada, de forma que esse tipo de comentário não os desestrutura, mas lhes dá mais um estímulo para a busca da perfeição, tão sonhada numa apresentação.

Não basta sonhar

Não basta sonhar com a inatingível perfeição, é preciso muita dedicação e esforço para se obter um resultado satisfatório. A equipe comparece a aulas de duas a três vezes por semana – depender da proximidade de um show ou da quantidade de ajustes a serem feitos -, em sede fixa no bairro da Pituba, as quais se dividem em basicamente duas partes: na primeira são aprendidas e exercitadas técnicas de dança de jazz americanizado ou ainda contam com aulas de canto; na segunda parte, os repasses e ensaios de coreografias são realizados com afinco. Foi justamente por esse motivo, que a equipe não hesitou em escolher uma foto de ensaio enquanto representativa do grupo, devido a importância que os sucessivos têm para a construção de um trabalho integrado que será ilustrado pela coreografia final. A foto em questão é na verdade de um ensaio geral da apresentação mais recente do grupo até a presente data em um eco resort no Litoral Norte. O ensaio geral é um ritual comum nas companhias de dança e representa a última oportunidade de se rever e consertar aquilo que porventura ainda não esteja muito bem amarrado. É nesse momento que se repassa a sequência de passos, se ouve os últimos comentários da diretora do espetáculo e fazer os últimos ajustes é de fundamental importância para um desempenho satisfatório. Nota-se nesse momento a uniformização proposital da cor da vestimenta dos bailarinos de forma que fique possível destacá-los, dando importância a impressão visual do grupo, para que se mostrem uma equipe organizada, comprometida e coesa. Aqui ficou evidente a autopercepção que o grupo tem de si mesmo e a inevitável comparação com grupos externos, numa relação em que se busca sempre a valorização máxima do endogrupo em detrimento do exogrupo.

Entrando na personagem

Medo de errar, de esquecer, de cair uma peça do figurino, de esbarrar no colega, de tropeçar. Nada disso é empecilho suficiente para paralisar artistas de verdade. Na realidade, toda essa tensão é necessária para o bom desempenho da equipe e pode ser direcionada para dar confiança ao grupo. Essa foto registra momentos antes da apresentação, no qual se tenta criar situações de descontração, seja durante o alongamento, seja nas brincadeiras e nas fotos tiradas para registro pessoal. Para cada apresentação existe um tema pré-estabelecido e que precisa ser posto em movimento através da incorporação de diferentes personagens e papéis, o que exige muita sincronia da equipe para que o objetivo final seja alcançado. Nesse momento espera-se que os artistas se apropriem de gestos e formas de se comportar completamente novos e, muitas vezes, diferentes do repertório comportamental a que estão acostumados. Essa capacidade mutacional é essencial no artista, já que a expressão momentânea da identidade de uma personagem pode não ser compatível com a personalidade do intérprete. Esse processo se dá de forma gradual, ao longo dos ensaios e mais intensamente no dia da apresentação, representando um momento de muito simbolismo para cada integrante.

Aplausos

O artista não se sustenta meramente de remuneração econômica, a ele se faz necessário o tradicional aplauso como legitimação de seu esforço e ainda como parabenização pela realização de um trabalho bem feito. Nessa foto em questão, os aplausos vieram imprimidos no jornal da empresa que contratou o grupo e por isso representou o reconhecimento do trabalho realizado por eles, na medida em que veiculou uma imagem positiva do grupo, exaltando a satisfação do contratante. Na fala dos próprios integrantes do grupo podemos perceber que a foto teve um significado especial para eles por representar a possibilidade de uma maior visibilidade dentro da cidade, buscando um espaço para este tipo de arte que não faz parte da cultura soteropolitana, mas que tem a sua beleza e valor. O relato dos membros do grupo demonstra não só a satisfação deles enquanto pertencentes a uma entidade, mas também enquanto indivíduos que agiram sozinhos na teia grupal e puderam ter esse esforço individual legitimado. A nota exibida nesse jornal mostra-se como fonte de estímulo para o prosseguimento do trabalho, tendo em vista que não se trata de um grupo muito reconhecido na cidade de Salvador, fortalecendo assim a sua identidade social, com o acolhimento ideal e merecido das suas paixões e sustento: a arte, o canto, a dança.

O Palco ?

O palco representa um ambiente fundamental para qualquer bailarino e não seria diferente para essa equipe, contudo o palco retratado na seguinte foto tem um simbolismo especial, pois não era convencional, trata-se de um circuito de hipismo com todas as suas singularidades e contratempos. É nesse local onde todo o trabalho do artista vai culminar, é onde os ensaios farão sentido, onde os desentendimentos usualmente se dissolverão, por funcionar como elemento agregador e, através do qual, o conhecimento e o reconhecimento do público têm possibilidade de emergir. É nele onde, enfim, “tudo acontece”. Assim como os personagens e os diferentes papéis que são assumidos a cada novo espetáculo pelo grupo, o palco também passa por esse processo de modificação constante, em que a cada nova realidade impressa é necessária uma nova adaptação, tanto dos membros da equipe ao novo espaço físico, quanto da estrutura e formato das coreografias que precisam ser adequadas ao ambiente novo. Fato este que é tido como positivo para a equipe por possibilitar uma heterogeneidade muito grande de experiências e situações, as quais servem para enriquecê-los e amadurecê-los.

A União

O bom relacionamento do grupo é latente, como fica claro pela foto, que demonstra que mesmo com todas as adversidades inerentes a cada local de apresentação, como as que ocorreram nessa apresentação em específico: sol forte, um longo tempo de espera para o começo do espetáculo, as dificuldades de marcação de passos num “palco” tão aberto tendo que ser utilizados objetos não usuais como pilastras, refletores, etc., os integrantes da equipe ainda assim se mantém unidos e com um sentimento de grupo que transpassa, muitas vezes, os incômodos individuais momentâneos. Essa união serve como sustentação para os dilemas inerentes a todo grupo voltado para uma tarefa, como os de dificuldade com o espaço físico, com a adaptação a novos ambientes e, principalmente, a conciliação entre a necessidade de que os seus membros compartilhem um conjunto de atributos comuns e, por outro lado, o respeito à liberdade individual de cada membro, numa díade que precisa ser muito bem balanceada para que os eventuais conflitos não venham a prejudicar o andamento das tarefas. No caso do grupo de musicais On Broadway esse balanceamento parece se dar de forma muito bem acertada, o que tem contribuído para o crescimento e o reconhecimento do grupo.

Palavras Finais

Em se tratando de um grupo profissional foi possível visualizar papeis bem definidos, com a figura da diretora enquanto líder criativa, organizadora e que encabeça ideias para realização e reestruturação de coreografias. A mesma ainda impõe regras de comprometimento para os integrantes desde o início, já que tiveram que se submeter a audição enquanto processo seletivo para aceitação grupal através da aprovação primeira do líder. Percebe-se o desejo de inserção e reconhecimento dessa equipe para ser pertencente a um grupo macro que engloba as questões artísticas culturais de uma cidade que já tem certas tradições arraigadas. Ao mesmo tempo nota-se também o esforço individual que se faz para ser bem conceituado e bem quisto no grupo micro, a fim de garantir a sua permanência no mesmo, fazendo-se ver na sociedade artística visando a manutenção da quantidade de trabalho, necessária para a renda da maioria dos integrantes. O caráter maleável e mutacional dos integrantes é percebido como característica fundamental nos integrantes desse grupo já que se tem que conviver com críticas constantes, ainda que construtivas, e ainda deve-se vestir-se de tantas máscaras, quantas personagens diferentes surgirem como tema. Sorrir diante de tudo isso não é sempre fácil, inclusive com lugares adversos para se apresentarem como acontece diversas vezes, mas o grupo vale-se da afetividade e do apoio ao próximo para se sustentar e seguir buscando o lugar de valorização que querem conquistar em cada espetáculo. Apesar dessa diversidade de espaços sociais ocupados pela equipe, percebe-se que o significado que dão a esses espaços é bem homogêneo, traduzindo-se em espaços sociais nos quais poderão exercer a sua arte e poderão alcançar os tão esperados aplausos. É nesse sentido que ficou um pouco mais claro para nós o motivo dos membros terem se filiado a essa equipe em específico e não a outra qualquer, devido justamente a atratividade e originalidade que a mesma apresenta motivo este que serve de base para manter companhia coesa e muito bem estruturada.