Resenha: Normas sociais e preconceito: o impacto da igualdade e da competição no preconceito automático contra os negros

Gilcimar Santos Dantas

O trabalho tem como objetivo investigar o quanto os valores relacionados à competição e à igualdade contribuem na expressão do preconceito automático contra negros. O estudo parte de uma perspectiva conhecida como processos duais ou automatismo e controle, que afirma que existem dois tipos de cognição. Uma que se manifesta de modo controlado, através de uma estrutura evolutivamente mais recente, que ocorre de modo mais lento, que requer esforço e que se caracteriza por ser mais analítica. Já a segunda ocorre de modo automático, decorrente de uma estrutura evolutivamente mais primitiva, que ocorre sem esforço, de maneira rápida e inconsciente, disparada a partir de características superficiais do alvo e que possui maiores relações com o preconceito. Este último tipo de cognição, quando ocorre, se torna difícil de controlar podendo influenciar as atitudes e os comportamentos subsequentes. Boa parte dos estudos sobre este tema costuma estudar os fenômenos intrapsíquicos subjacentes à expressão do preconceito automático. Entretanto, o presente estudo busca investigar o papel das normas sociais na expressão do preconceito automático contra negros. Para isso, foi utilizado o Teste de Atitudes Implícitas (IAT), que apresenta, em milésimos de segundo, faces de pessoas negras e palavras tanto de conteúdo negativo quanto positivo, assim como faces de pessoas brancas e palavras tanto de conteúdo negativo quanto positivo. O participante precisa fazer o mais rápido possível a associação destas faces com essas palavras e quanto mais alta for a associação entre faces negras e conteúdos negativos e faces brancas e conteúdos positivos, maior a expressão do preconceito automático. Para verificar o impacto dos valores relacionados á competição e à igualdade, os autores realizaram três estudos.

No primeiro estudo, 35 participantes foram alocados em três condições experimentais, sendo que na primeira os participantes eram requeridos a pensarem em argumentos sobre a igualdade formal e escreverem sobre eles. No segundo, os participantes eram solicitados a pensarem e escreverem argumentos sobre meritocracia competitiva e no terceiro (o grupo controle) era requerido que os participantes pensassem e escrevessem sobre vida extraterrestre. Após este momento os participantes respondiam ao IAT e o objetivo dos pesquisadores era saber se a expressão do preconceito implícito sofria influência dos contextos aos quais os grupos foram alocados. Os resultados demonstraram uma maior expressão do preconceito contra negros entre os participantes alocados no contexto de meritocracia competitiva, uma menor expressão (mas inda existente) do preconceito contra negros entre os participantes alocados no contexto igualitário e uma expressão ainda menor (mas ainda presente) do preconceito contra negros entre os participantes alocados no grupo controle.

No segundo estudo, o objetivo foi saber os sentidos da igualdade por parte dos participantes. Para isto um novo grupo de 35 participantes foi convidado a responder à pergunta: “Para você, o que é igualdade”? O primeiro sentido foi formado por respostas em termos de “igualdade de direitos e deveres” enquanto que os demais tipos de expressão de igualdade foram “solidariedade”, “não preconceito”, “igualdade como cidadania” e “igualdade como respeito às diferenças”. Estes resultados levaram à conclusão de que existem diferentes formas de perceber a igualdade, o que levou ao terceiro estudo que tinha como objetivo saber se argumentos da percepção de igualdade, decorrentes das respostas do segundo estudo, anulariam a expressão do preconceito contra negros no IAT.

No terceiro estudo, foram criados mais três grupos, que totalizaram um número de 35 participantes. O primeiro grupo foi solicitado a pensar e escrever argumentos referentes à competição individualista (como no primeiro estudo), o segundo foi solicitado, também, a pensar e a escrever argumentos referentes à igualdade solidária (decorrente dos argumentos dos participantes do segundo estudo), enquanto que foi requerido ao terceiro grupo a pensar e a escrever argumentos a respeito da igualdade formal (a mesma do primeiro estudo). Assim como no primeiro estudo, os participantes foram submetidos ao IAT e o objetivo dos pesquisadores foi o mesmo do primeiro estudo. Os resultados deste terceiro estudo mostraram que o contexto da meritocracia competitiva produziu grande ativação de preconceito automático contra negros, enquanto que no contexto de igualdade formal (apesar de ainda existir), o preconceito automático contra negros foi menor e no contexto de igualdade solidária este preconceito não se manifestou.

Os resultados destes estudos sugerem que apesar de muitos indivíduos se mostrarem favoráveis a atitudes não preconceituosas, tais atitudes podem não ser tão significativas assim, a ponto de impedirem a manifestação do preconceito implícito. A realização de estudos nesta abordagem parece ser muito importante no contexto brasileiro que, ao contrário de alguns países, possui um longo histórico de expressão de preconceito implícito contra indivíduos negros. Um outro ponto importante, apresentado nestes estudos é que a expressão do preconceito contra negros foi intensificada no contexto da meritocracia competitiva, assim como foi amenizada no contexto de igualdade formal e anulada no contexto da igualdade solidária sem que os participantes tivessem consciência. Estes dados trazem à discussão o paradigma do agente racional que afirma que a tomada de consciência é suficiente para uma revisão e, por sua vez, uma mudança das atitudes preconceituosas. Isto sugere o quanto pode ser difícil controlar preconceitos automatizados e que para muda-los não se depende apenas de uma tomada de consciência, mas também de determinadas estratégias de redução do preconceito.

Referência: Lima, M., E., O., Machado, C., Ávila, J., Lima, C. & Vala, J. (2005). Normas sociais e preconceito: o impacto da igualdade e da competição no preconceito automático contra os negros. Psicologia: Reflexão e Crítica, 19, 2, 309-319.

Resenha – Normas, justiça, atribuição e poder: uma revisão e agenda de pesquisa sobre filas de espera

Rafael Oliveira

Adotando a premissa de que a fila de espera é um sistema social e que do ponto de vista psicológico expõe os usuários a uma série de fenômenos do comportamento, o artigo faz uma síntese dos estudos e pesquisas em psicologia social sobre o tema e aponta suas principais lacunas. Para tanto, utiliza o nível de análise individual, o que se convencionou chamar de psicologia social psicológica. Deste modo, a situação da fila de espera é analisada do ponto de vista de temáticas como normas, justiça, atribuição e poder.

Natureza das filas de espera e seus tipos
As filas podem ser divididas em presenciais e não-presenciais, únicas e múltiplas. Essa divisão, no entanto, se refere à organização espacial da fila. Por detrás desses tipos jaz uma natureza comum regida pelo princípio igualitário, qual seja, o de que quem chega antes deve ser atendido antes. As relações e irrupções deste princípio vão dar substrato empírico para as análises teóricas.

Normas e influência social
São definidas genericamente como conjunto de regras compartilhadas que guiam o comportamento dos indivíduos de forma implícita. Podem ser descritivas (exemplo a ser seguido) ou injuntivas (sansões informais, implícitas). As intrusões nas filas são vistas como quebra do principio igualitário (norma) gerando perda individual (tempo) e/ou ultraje moral. Outros componentes são analisados neste tópico, como o efeito da normalização (justificativa para explicar o comportamento do infrator) e os processos internos que envolvem a apatia diante da situação inesperada.

Justiça
A percepção de justiça se dá em três níveis: o modo como as pessoas avaliam a eqüidade da distribuição dos bens (distributiva); avaliação do processo adotado para distribuir os recursos (processual); como a decisão sobre a alocação de recursos é implementada (interacional). Na relação com os dois primeiros níveis os estudos mostram relatos de que as filas preferenciais (idosos, gestantes) podem ser vistas como injustas. O terceiro nível aponta para dois tipos de espera: a funcional e a cerimonial, esta última causando mais desconforto. Para a psicologia não importa se a justiça ocorreu ou não de fato, mas sim a percepção de justiça pelos envolvidos.

Atribuição de causalidade
Conceito bastante difundido em psicologia social fundamenta que as pessoas usam teorias para explicar os acontecimentos em causas internas ou externas. No caso específico das filas, a atribuição de demora aparece como fator fundamental de insatisfação de usuários nas filas e influenciam emoções, atitudes e comportamentos em três dimensões: se o provedor pode prevenir os problemas nas filas e controlar os efeitos (controlabilidade); quem ou o quê é responsável pelo problema (lócus); probabilidade de que os problemas se repitam (estabilidade). Quando o usuário considera o problema como controlável, estável e com lócus externo as reações são geralmente mais negativas.

Poder e status
As questões de poder estão relacionadas às avaliações de justiça e determinam quem pode esperar mais ou menos e o quanto é possível reclamar da espera. O tópico ainda discute a crença compartilhada (principalmente no Brasil) de que se atribui mais poder a quem se faz esperar, e como situações de espera podem definir relações de poder decidindo quem deve esperar e quem deve ser esperado. Deste modo o cidadão em fila é tratado na maioria das vezes pelo sistema de atendimento como mero passageiro de uma linha humana, sentindo-se humilhado, enganado e desamparado. Apesar disso, a fila é entendida como uma forma democrática de organização social.

Questões e Lacunas
Existe algum tempo máximo ou uma posição limite na fila em que se permite guardar lugar? Os estudos sobre intrusão devem levar em consideração o tipo de ambiente, vestimenta do intruso, idade e justificativa adotada para intrusão. Como os usuários reagem a situações percebidas como injustas? Devem ser feitos estudos que avaliem a distância social entre os atores (atendentes e usuários). Qual o efeito de caixas inoperantes na atribuição às causas de demora? Esses são apenas alguns dos direcionamentos apontados no artigo.

Considerações finais
O artigo se destaca por conseguir conjugar de forma sintética elementos teóricos com um problema prático da vida urbana. Constitui-se de fato numa agenda que pode ser usada por professores de graduação tanto para ensinar os conceitos de psicologia social como para incentivar os alunos a observação prática dos mesmos, seja testando os resultados já encontrados ou investigando as lacunas existentes. De todo modo, depois da leitura do artigo esperar numa fila nunca mais será a mesma experiência.

Referência: Iglesias, F. e Günther, H. Normas, justiça, atribuição e poder: uma revisão e agenda de pesquisa sobre filas de espera. Estudos de psicologia (Natal), 12, 1, 3-11, 2007