Resenha: Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental

Carol Aguiar

Os estereótipos se constituem no conhecimento e nas crenças que um indivíduo tem acerca de um grupo social. A aplicação dos estereótipos é bastante convidativa aos percipientes sociais na medida em que oferece um tratamento simplificado das informações, evitando uma sobrecarga cognitiva, e auxilia a dar sentido ao complexo ambiente social. Por outro lado, os estereótipos podem ter implicações prejudiciais, já que substituem uma avaliação individualizada. Por esse último aspecto, as crenças estereotípicas são condenadas em diversas situações, o que leva os indivíduos a buscarem estratégias para suprimi-las.
Nesse artigo, a autora tem por objetivo discutir se é realmente possível a supressão dos julgamentos estereotipados ou se eles, por se tratarem de um processo tão natural e até inevitável, não podem ser colocados sob controle consciente. Para isso, inicialmente são apresentadas evidências de que a tentativa de controle mental para a supressão dos estereótipos não só falham no seu objetivo como pode resultar no seu oposto. Em seguida, são colocadas características moderadoras da supressão dos estereótipos e, por fim, são apresentadas estratégias alternativas que têm se revelado eficazes como mecanismos de controle da expressão dos estereótipos.
Os mecanismos de controle mental: A tentativa de banir os pensamentos estereotipados da mente pode conduzir a efeitos indesejados. Essa perspectiva parte do pressuposto de que para que o indivíduo seja capaz de detectar pensamentos que deseja banir, ele precisará, num primeiro momento, estar consciente desses pensamentos, o que trará como consequência a hiperacessibilidade dos mesmos. Em consonância com essa vertente de pensamento, pesquisas têm mostrado que a tentativa de controlar um determinado pensamento pode fazer com que este fique mais acessível do que se a tentativa de supressão não tivesse ocorrido. Assim, por exemplo, uma série de estudos conuzidos por Macrae et al (1994, apud Bernardes, 2003) sugere que os pensamentos estereotípicos, uma vez suprimidos, retornam à consciência e exercem impacto nas avaliações e comportamentos dos indivíduos em relação a outros grupos sociais. Esse efeito irônico da supressão dos estereótipos foi denominado de efeito de richochete (ERE). O conhecimento da existência do efeito de ricochete pode nos conduzir à seguinte indagação: até que ponto as campanhas que buscam diminuir a expressão do preconceito são eficazes no seu objetivo ou, ao contrário, são contraproducentes, tornando os pensamentos preconceituosos ainda mais acessíveis?
Influências moderadoras da supressão – limitações ao ERE: neste ponto do artigo, o ERE deixa de ser entendido como um efeito inevitável e alguns fatores moderadores são apresentados. Em primeiro lugar, a atitude individual acerca da estereotipização é colocada como o fator de moderação mais importante. Sugere-se, portanto, que pessoas que condenam a estereotipização tendem a apresentar as consequências indesejadas da supressão em menor grau do que aquelas que não condenam. Outro fator moderador é especificamente qual estereótipo está a ser suprimido. Sobre esse aspecto, nota-se que há uma diferença significativa entre as consequências da supressão de estereótipos acerca de grupos para os quais existem fortes normas pessoais e sociais contra a estereotipização e acerca de grupos para os quais não há normas claras e difundidas. Um terceiro fator moderador da supressão bastante significativo se refere à motivação dos indivíduos para inibir o estereótipo. Dessa forma, mesmo que indivíduos com baixo nível de preconceito tenham os estereótipos ativados, eles podem ser bem sucedidos em evitar o subsequente ERE já que estão instrinsecamente motivados para controlar as suas reações estereotípicas.
Estratégias alternativas à supressão dos estereótipos: A supressão dos estereótipos não é o único recurso a que os indivíduos que desejam evitar julgamentos estereotipados podem recorrer. Uma outra possibilidade é a substituição dos pensamentos estereotípicos por outros, ou seja, mais do que suprimir os pensamentos indesejados, esses pensamentos podem ser substituídos por crenças igualitárias que desconstruam a visão estereotipada. Outra estratégia possível se refere à individualização do alvo, que se constitui na procura por informações individualizadas sobre o alvo e a tentativa de formar as impressões a partir dessas informações.
Considerações Finais: A utilização dos estereótipos no cotidiano é inevitável. Caso contrário, em qualquer situação social, teríamos que avaliar uma quantidade muito superior de informações do que a nossa capacidade cognitiva está preparada para fazer. Como consequência, as tomadas de decisão rápidas não seriam possíveis. Entretanto, em aglumas situações, a estereotipização torna-se um recurso que distorce a realidade e, por essa razão, é socialmente condenada. Para evitar os julgamentos preconceituosos, a supressão ainda é a estratégia dominante. Por essa razão, torna-se de grande importância que os efeitos indesejados por ela acarretados, assim como seus fatores moderadores, sejam conhecidos para evitar que mecanismos desenvolvidos visando à diminuição dos preconceitos acabem tendo um efeito eliciador ou potencializador dos mesmos.

Referência: Bernardes, D. Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental. Análise Psicológica. 21,3, 307-321, 2003.

2 Replies to “Resenha: Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental”

  1. Rafael Oliveira disse:

    Bom artigo ou boa resenha? Boa resenha é aquela que nos leva a procurar a fonte. Só ai então saberemos se a fonte é boa ou foi propaganda enganosa. Como estou ainda na primeira etapa, fico com a resenha: Boa. O assunto é muito pertinente. E deve ser levado em consideração também quando se fala em ações afirmativas. Em que medida elas podem levar ao efeito de ricochete? Será que levam? E se levam, o que fazer? Seria um bom problema de pesquisa. O que acham?

  2. Douglas Ramos Dantas disse:

    Percebemos nesta resenha a nossa ignorância a respeito do processamento da informação. Como saberemos que nossas intervenções não produziram um efeito de ricochete? Como se estabelece as generalizações? Como intervim no processo que só descrevemos?

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