Resenha: crenças essencialistas sobre policiais e delinquentes

Saulo Santos Menezes de Menezes

O estudo de Pereira e cols. buscou avaliar o impacto do país de origem e da direção do transplante de cérebro no julgamento da conduta social de policiais e criminosos, e analisar, segundo o modelo das explicações folk das condutas sociais, as justificativas apresentadas pelos participantes para as suas respostas.
As hipóteses a serem testadas foram a da existência de alguma diferença no grau de essencialização entre os participantes espanhóis e brasileiros, diferenças de julgamento nas circunstâncias em que o cérebro é transplantado de um policial para um delinquente (condição hegemônica) ou na direção inversa (condição não-hegemônica), e a manifestação de diferenças em relação ao modelo explicativo adotado para a elaboração das justificativas para as respostas.
Para tanto, a pesquisa coletou dados em instituições de ensino superior localizadas no Brasil e Espanha. Foram feitos enunciados de histórias na quais se apresentava a versão onde o cérebro de um delinquente é transplantado para um policial. Cada participante avaliou a história relativa exclusivamente a uma das duas versões da categoria entitativa policial-criminoso, ou seja, do transplante do cérebro de policial para criminoso ou do criminoso para policial.
Os resultados mostraram que, para os participantes espanhóis, o cérebro de um policial pode modificar o padrão de conduta de um delinquente, mas o inverso não é verdadeiro. Por outro lado, o padrão de resposta dos participantes brasileiros não indicou qualquer diferença entre os valores esperados e obtidos nas respostas relacionadas com a direção do transplante do cérebro. Os participantes, desta forma, concordaram com o ponto de vista de que apenas uma alteração na natureza biológica do indivíduo pode gerar mudanças comportamentais.
Percebeu-se, no geral, que as fontes de explicação contemplam as causas internas, a história causal, as pressões situacionais e as razões, demonstrando a importância dos papéis, do status, do ambiente social e da dinâmica individual e coletiva no processo de essencialização da categoria entitativa policial/criminoso. Houve também uma indicação de que, enquanto alguns participantes concordaram com o ponto de vista de que apenas uma alteração na natureza biológica do indivíduo pode gerar mudanças comportamentais, outros foram absolutamente explícitos ao se referirem a teorias claramente essencializadoras. Neste ponto, os hábitos, costumes, rotinas, tradições culturais mostraram-se elementos importantes.
Portanto, a presença de uma teoria implícita tornou possível a expressão do raciocínio categórico essencialista nas circunstâncias em que o agente acolhe uma teoria que lhe permita justificar a estabilidade ou a mudança do comportamento. Os dados também sugeriram que estas teorias implícitas podem ser diferenciadas e que as explicações que se centram nas pressões situacionais explicam de forma predominante, mas não exclusivamente, a estabilidade da conduta. Assim, as pressões situacionais podem ser fundamentais para explicar a ausência de mudanças nas condutas que se seguem ao presumido transplante.

Referência: Pereira, M. E.; Estramiana, J. L. A.; Vasconcelos, C.; Alves, M. V. Crenças Essencialistas Sobre Policiais e Delinquentes. Psicologia: Teoria e Pesquisa Out-Dez 2010, Vol. 26, n. 4, pp. 707-715.

Resenha: Os estereótipos e o viés linguístico intergrupal

Saulo Santos Menezes de Almeida

Neste trabalho, Pereira e cols. procuram determinar como participantes adultos e crianças, de etnia branca e negra, utilizam as categorias linguísticas para codificar cenas apresentadas de forma visual em que aparecem personagens do ingroup e do outgroup. As cenas apresentadas são socialmente consideradas socialmente positivas e negativas.
De natureza experimental, quatro estudos verificaram as ações negativas dos membros do ingroup e as positivas dos membros do outgroup, e as positivas dos membros do ingroup e as negativas dos membros do outgroup. Vale ressaltar que as hipóteses foram testadas levando em consideração a perspectiva motivacional do modelo das categorias linguísticas intergrupais onde se tende a eliciar respostas abstratas e o modelo cognitivo onde as respostas que fogem às expectativas tendem a ser interpretadas de forma mais concreta.
Para todos estes estudos é então levado em consideração o modelo de categorias linguísticas intergrupais e o viés linguístico intergrupal. Semin e Fiedler (1988), através de seus estudos, diferenciam quatro categorias linguísticas predominantemente utilizadas na descrição de pessoas e eventos: 1) os verbos que descrevem ações, comportamentos específicos e observáveis com começo e fim delimitados; 2) os verbos que interpretam ação, onde se encontra subjacente uma interpretação; 3) os verbos que fazem referências a estados duradouros; e 4) os adjetivos, que se referem às características disposicionais do indivíduo.
O viés linguístico intergrupal sugere que há uma tendência na avaliação do comportamento dos outros de uma forma diferenciada, sendo que se a ação for uma ação positiva dos membros do próprio grupo, a causa do comportamento é atribuída a fatores de natureza pessoal ou interna, enquanto o mesmo tipo de ação, executada por membros do outgroup, tende a ser interpretada como produzida por fatores de natureza externa ou situacional. Sendo que, no caso dos comportamentos negativos observa-se o oposto. Portanto, o viés linguístico intergrupal pode ser interpretado como um indicador implícito de preconceito.
O primeiro experimento procurou responder em que medida indivíduos avaliam personagens que pertencem ao próprio grupo e a um grupo externo de uma forma diferenciada, e se as categorias linguísticas usadas são as mesmas. Para tanto, utilizou-se de uma amostra de 87 participantes adultos selecionados por critério de conveniência em locais públicos da cidade de Salvador. Os dados foram obtidos através de uma escala em que se apresentou uma série de alternativas e o participante indicou a que melhor retratava a natureza da cena visualmente apresentada.
O experimento utilizou um caderno de apresentação em que estavam desenhadas seis cenas, três socialmente positivas e três negativas. Foram elaborados dois conjuntos de cenas, em que todos os personagens centrais eram crianças, sendo que cada conjunto retratava os personagens centrais como de etnia branca ou negra. Os resultados deste experimento mostraram que não foi encontrada qualquer diferença no plano estatístico, nem na avaliação da etnia do personagem retratado nem na análise de cada uma das cenas em separado.
Tentando responder as mesmas questões do primeiro experimento, o segundo experimento utilizou uma amostra de 88 participantes, e ao invés de indicar a opção que melhor retrataria a natureza da cena, estes foram convidados a elaborar uma frase a respeito da cena e do seu protagonista. Os resultados indicaram que, ao contrário do esperado, participantes negros e brancos codificaram uma cena negativa em que um membro do outgroup é retratado negativamente de uma forma mais abstrata do que concreta que a avaliação dos membros do ingroup. No entanto, os participantes avaliaram mais positivamente às ações encetadas pelos membros do próprio grupo.
Quanto ao terceiro experimento, assim como o quarto, ao contrário dos anteriores, investigaram-se os padrões de codificação linguística em uma amostra de 40 crianças frequentadoras de uma escola particular da cidade do Salvador, e adotou um procedimento computadorizado para apresentação das cenas e coleta dos dados. Os resultados apontaram que os participantes brancos, de uma forma compatível com as hipóteses do viés linguístico intergrupal, codificaram as cenas positivas em que são representados membros do ingroup de uma forma mais abstrata que as cenas em que são representados membros do outgroup.
Os resultados apresentados pelos participantes negros, no entanto, apontam numa direção contrária, já que as ações positivas encetadas pelos membros do outgroup foram avaliadas de uma forma mais abstrata que as realizadas pelos membros do ingroup. No caso das cenas negativas, os resultados não estão de acordo com o esperado na literatura. No caso da influência conjunta da etnia do participante e do personagem, não foram encontradas diferenças significativas na codificação de nenhuma das seis cenas, assim como no caso da influência isolada da etnia do participante. No caso da influência da etnia do personagem, foram encontradas diferenças significativas marginais em três cenas.
No quarto experimento utilizaram-se relatos livres apresentados por cada um dos participantes. A amostra foi constituída por 21 participantes selecionados. Pode-se observar que participantes brancos e negros avaliaram de forma mais abstrata os comportamentos positivos apresentados pelos membros do seu próprio grupo étnico. E os resultados indicaram que a etnia do participante e a do personagem interagira apenas na cena em que o personagem ajuda uma senhora idosa a atravessar a rua.
Assim, os estudos apontaram que, de uma forma geral, não se encontrou qualquer evidência sistemática de que os participantes codificaram de forma mais abstrata as cenas positivas em que eram representados membros do ingroup e a as cenas negativas em que eram representados membros do outgroup.

Referência: Pereira, M. E.; Fagundes, A. L. M.; Silva, J. F.; Takei, R. Os estereótipos e o viés linguístico intergrupal. Interação em Psicologia, 2003, 7(1), p. 125-137.

Resenha: Música, Comportamento Social e Relações Interpessoais

Ana Carolina Rocha Oliveira

O artigo desenvolvido por Beatriz Ilari discorre pelas relações entre os comportamentos sociais e o papel que a musica pode adquirir nesse contexto. Ou seja, a autora do artigo pretende demonstrar quanto a musica pode ser um fator também importante no modo em que as pessoas interagem e são atraídas umas pelas outras nas suas relações afetivas.
O estudo parte de uma citação de Pinker (1997), em que o linguista sugere que o mundo provavelmente seria igual mesmo sem que existisse a música. Dessa suposição, vários outros autores e pesquisadores, que discordavam da afirmação inicial de Pinker, passaram a estudar e aplicar instrumentos que comprovassem que a música pode ser um fator de importância na evolução das sociedades, sendo produto de um fenômeno social em diferentes culturas.
Entretanto, ate o momento da presente pesquisa, já era possível reconhecer na música as diferentes funções dentro das atividades humanas, principalmente, quando em referência as relações interpessoais. Deste modo, Ilari comenta a teoria desenvolvida por Huron (1999), em que este estabelece um vinculo entre a música e os efeitos que ela causa sobre a atração e consequentemente sobre as relações interpessoais, inclusive as de natureza amorosa.
Ao falar sobre atração interpessoal, a autora do artigo descreve brevemente sobre o papel da mesma na formação das relações entre indivíduos demonstrando que, seja pela perspectiva evolucionista (em que será ponto de partida para a procriação e descendência), seja pela perspectiva cognitivista (em que estará correlacionada aos esquemas cognitivos dos ideais criados de parceiros e relacionamentos), a atração entre as pessoas se deve principalmente a partir do contexto social em que estas estão inseridas. De tal forma, é possível constatar o quanto as atitudes, as crenças e os valores comuns atuarão como forças poderosas e essenciais na atração interpessoal, estabelecendo assim, uma ligação entre essas forças de atração e a escolha por determinados gostos musicais.
Outra ligação que pode ser feita e que está presente no artigo, é a ideia de que tanto a música quanto a atração interpessoal consideram a indução ou surgimento de sentimentos, visto que podem exercer efeitos significativos no comportamento social dos indivíduos em interação. No entanto, as semelhanças vão até esse ponto. Diferentemente da atração entre pessoas, que tem uma conexão obvia com os afetos, o mesmo não se pode garantir da dualidade música-afeto, que geralmente terá seu grau de excitação dependente dos gêneros musicais escolhidos para cada situação, de acordo com o contexto social (North e Hargreaves, 1997).
Diante de todo o inicial teórico sobre a música e suas relações e efeitos no comportamento social, Ileari conclui que as escolhas musicais por determinados gêneros são condutas aprendidas devido às influências grupais, posto que servem como guia às nossas percepções e o modo como avaliamos os outros. Ou seja, nos relacionamentos interpessoais, como a atração, os fatores de interesse apresentam-se como respostas individuais aos estereótipos. Zillman e Bhatia (1989) associavam a percepção do grupo em relação aos gostos musicais de outros grupos aos estereótipos, trazendo estes como esquemas cognitivos impostos social e culturalmente, sendo determinantes para as atitudes interpessoais. E é a partir dessa contextualização que ela parte para o método.
Diante de sua amostra de 50 pessoas (já que 10 foram invalidadas por terem uma relação mais formal com a música: ex. de músicos profissionais e amadores), entre jovens e adultos, numa idade média de 27 anos, Ileari dividiu seu instrumento em três partes. No primeiro momento, exibiu alguns classificados pessoais para que o participante escolhesse o parceiro ideal, com o objetivo de que fosse determinado o papel que a música desempenha nas relações interpessoais, na atração e na escolha do parceiro. Na segunda parte, foi feita uma coleta de dados procurando verificar se os estereótipos brasileiros seguiam pelo mesmo caminho das amostras coletadas nos Estados Unidos e na Europa. Já no terceiro momento, o participante era encaminhado a responder algumas questões abertas sobre ele mesmo e a relação com a música para investigar se realmente existem funções especificas da música nas relações interpessoais.
Na primeira parte da pesquisa, concluiu-se que a música está entre um dos muitos fatores que interferem na atração entre as pessoas não sendo, no entanto, uma característica direta ou mesmo com forte efeito sobre a escolha dos parceiros. O que não significa que a música se torne menos importante, já que, durante a coleta, as respostas, que foram divididas em grupos de maior ou menor frequência do fator musical nos anúncios, resultaram na ausência de diferenças entre eles.
No segundo momento, foram agrupadas em categorias todas as 147 palavras utilizadas pelos participantes para adjetivar os gêneros musicais listados. Das categorias capacidades individuais, personalidade, julgamento de valor, condição socioeconômica, localização geográfica, educação, grupo social, atitudes e ideologia política, as que obtiveram os maiores números de palavras associadas foram personalidade e atitudes, demonstrando quanto às pessoas inferem das preferências musicais os modos de agir e de se portar dos outros indivíduos.
Dentre os gêneros propostos, a maioria das pessoas manteve o padrão de associação de palavras estereotipadas em relação a MPB, ao jazz, a música clássica, ao samba/pagode, ao rock/pop, a música do mundo e ao sertanejo, assim como já havia sido mostrado em pesquisas anteriores como a de Zillman e Bhatia (1989). De todos, os gêneros que tiveram maior destaque foram os gêneros sertanejo e música do mundo. O primeiro pela convergência de adjetivos similares da amostra e o segundo pela divergência e antagonismos de adjetivação.
Na terceira parte do estudo, os participantes foram questionados quanto às possibilidades da musica exercer algum papel na vida amorosa, se os gostos musicais diferentes eram relevantes na escolha do companheiro e se a musica fez parte de algum momento significante na vida dos entrevistados. O resultado para primeira questão foi unânime a favor do papel exercido pela música num contexto amoroso. Na segunda questão, a mesma porcentagem de pessoas (86%) acreditava ser possível estabelecer relacionamentos com pessoas de diferente gosto musical. Na ultima pergunta, também a maioria dos entrevistados conseguiu se lembrar de pelo menos um evento de suas vidas em que a música foi fundamental, sendo o maior número de eventos listados associados às relações interpessoais.
De acordo com a análise da pesquisa tirou-se que a musica e as relações interpessoais possuem uma ligação de fato, mas que se correspondem indiretamente ao contexto subjetivo e experiências de vida de cada pessoa, revelando, simplificadamente, quatro usos possíveis e distintos da música dentro dessas relações, tal como: objetivos de excitação, fundo acústico, facilitadora de atividades que promovem a aproximação de indivíduos e artefato mnemônico.
Ou seja, a pesquisa reforça o papel de importância da música nas relações interpessoais, corroborando a ideia de que música e atração são elementos que tendem a se associar a partir dos esquemas cognitivos tão só o uso de estereótipos, de experiências e até mesmo de funções específicas dadas à música nos possíveis relacionamentos, garantindo essa situação para alem das barreiras culturais.
A música é indefinida. Ela pode significar varias coisa em vários lugares diferentes. A música ultrapassa a barreira do sensível e atingi o que mais profundo possa existir em nós mesmos. A música serve para conhecer e fazer interagir com outras pessoas e grupos, aproximando-os, tanto quanto para ser elemento de excitação ou armazenamento de lembranças. A música não só tem importância como ela é por si só fator fundamental para criar cenários e ambientes sonoros propícios nas relações afetivas e amorosas, facilitando e influenciando o humor, os sentimentos, a sensibilidade e a integração interpessoal, seja lá de que forma for. Evidenciando aqui, o erro da afirmativa de Pinker (1997).
A música está além dos gêneros musicais. Os gêneros são partes de um todo musical e representam as diferentes formas de interação entre as pessoas assim como entre grupos. Talvez, como foi encontrado pela pesquisa Ileari, as pessoas de mais idade realmente tenham mais dificuldade de conseguir conciliar diferentes gostos musicais dentro de um relacionamento, pois fica mais difícil manter atividades de lazer compatíveis. Porém, não necessariamente isso ocorra se os outros dados apresentados da pesquisa estejam corretos, já que a maioria das pessoas confessou não ver problemas em manter um relacionamento com outra que aprecie um gênero musical divergente, acreditando, inclusive, ser uma chance de aprender e vivenciar novos contextos e estilos.
Ou seja, considerando o respeito às diferenças e os limites estabelecidos pela convivência diária, será visível e viável o beneficio que tais diferenças venham a acarretar no relacionamento. Ate porque, a música é também uma forma de libertação. No estudo Ileari, 11% dos entrevistados citou a musica como a arte mais acessível e capaz de libertar a mente das preocupações do cotidiano.
Portanto, tem-se que a autora conseguiu em parte comprovar suas ideias sobre a interferência da música nas interações interpessoais. Concluiu que, apesar de ser uma influência indireta e generalizada, o estudo deve manter investigações que consigam agregar novos dados e inserir novos fatores ainda não tratados para que sejam analisados e, progressivamente, construir novas estatísticas condizentes com a realidade social.
Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198

Resenha: análise psicossocial do preconceito contra homossexuais

Irza Maria Carvalho Santos

Neste artigo os autores fazem uma explanação sobre o preconceito contra homossexuais e suas raízes históricas. Gordon Allport foi um dos pioneiros no estudo do preconceito em Psicologia Social. Sua definição é a mais empregada para definir o mesmo “uma atitude evitativa ou hostil contra uma pessoa que pertence a um grupo simplesmente porque ela pertence àquele grupo, e está, portando, presumindo que objetivamente ela tem as qualidades atribuídas ao grupo” Allport (1954). Contudo estudos a respeito demonstram que esse fenômeno vem assumindo formas cada vez mais sutis e camufladas, por causa dos avanços humanitários e as leis que proíbem atos discriminatórios contra grupos minoritários.

Mesmo com as leis que proíbem atos discriminatórios as pessoas parecem não terem conseguido acabar com o fenômeno e sim transformado a sua forma de expressa-lo. O preconceito se divide entre: o flagrante e o sutil. O preconceito flagrante é a forma mais tradicional, direta e aberta. O preconceito sutil é a forma mais contemporânea de discriminação, discreta e indireta, atendendo assim a norma social da não discriminação, em que as pessoas consideram inaceitável ser preconceituoso e temem ser mal vistas por apresentarem tal comportamento. O artigo apresenta uma nova forma de apresentação do preconceito sutil: a infra-humanização. Essa é a visão que propaga o sentido de que alguns humanos são considerados “menos humanos” do que outros.

O preconceito contra homossexuais tem ainda muito poucos estudos da Psicologia Social no Brasil. Um levantamento feito na Sacie-lo (Scientific Eletronic Library On-Line), no dia 30 de abril de 2006, usando a palavra-chave “preconceito contra homossexuais”, resultou apenas no trabalho de Lacerda, Pereira e Camino (2002). Esse interesse é perceptível tanto nos movimentos que lutam pelos direitos dos homossexuais, tal como a parada gay, que cresce em número de participantes todos os anos, no Brasil e no mundo, como em programas sociais que têm como objetivo diminuir o preconceito. O programa “Brasil sem Homofobia”, lançado em 2004, é uma resposta aos altos índices de discriminação contra o grupo, o artigo aponta ainda para apenas uma pesquisa “Juventudes e Sexualidade” (Castro, Abramovay & Silva, 2004), realizada em 14 capitais brasileiras. Os resultados dessa pesquisa apontam para a expressão flagrante do preconceito contra homossexuais, pouco preocupada em atender às normas do igualitarismo.

O artigo traz que existem cinco categorias de explicações para o homossexualismo que estão diretamente relacionadas com a forma como os homossexuais são vistos pela sociedade, são elas: explicações biológicas, ou seja, distúrbios de natureza fisiológica, hormonal ou gestacional; psicológicas que é constituída pela crença de que a homossexualidade é resultado de traumas experienciados na primeira infância; religiosas, aponta o homossexual como uma pessoa que não segue a palavra de Deus, que não tem força espiritual e religiosidade para resistir às tentações; ético-morais, representaria a crença de que a homossexualidade está relacionada com a ausência de respeito, de caráter e de valores morais do indivíduo; e explicações psicossociais que organiza as crenças de que a homossexualidade não é doença e deve ser compreendida na sua totalidade, pois trata da forma distinta pela qual cada um vive sua sexualidade, que é parte da identidade do sujeito.

A pesquisa apresentada pelo artigo partiu da hipótese de que as expressões do preconceito e descriminação contra os homossexuais atualmente apresenta componentes da infra-humanização. Diferente de outras pesquisas, que mostrar o preconceito flagrante como forma principal de expressão contra os homossexuais, esta pesquisa também identificou o preconceito sutil, mas tais resultados podem ser característicos da amostra, majoritariamente feminina. Homens heterossexuais geralmente expressam maiores níveis de preconceito sexual do que mulheres heterossexuais.

De modo geral, a relevância do tema proposto aponta a necessidade de mais estudos na área, pois que são muito insignificantes as pesquisas psicológicas sobre o preconceito contra homossexuais. A meu ver, as manifestações de preconceito flagrante e sutil se mostram mais frequentemente em relação aos homossexuais do que outros grupos minoritários, e fica evidenciado todo o processo de marginalização e exclusão social dos homossexuais.

Referência: Fleury, A. e Torres, A. Análise psicossocial do preconceito contra homossexuais.Estudos de Psicologia (Campinas), 24,4,475-486, 2007.

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais

Rosicley Almeida Lima

A pesquisa relatada por Ilari (2006) objetivou analisar a relação entre música e relacionamento interpessoal amoroso. Muitos estudiosos se debruçam há décadas sobre o papel da música na história da evolução da espécie humana e até hoje não chegaram a um consenso em relação ao assunto.
O texto ressalta que a funcionalidade da música no mundo ocidental, pelo menos, está relacionada direta ou indiretamente, aos relacionamentos interpessoais. Em qualquer fase da vida, em envolvimentos profissionais ou pessoais, em atividades de cunho festivo ou religioso, a música se faz presente na história das civilizações como um dos instrumentos de atração interpessoal. A atração interpessoal é apresentada como “uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros…” (p. 2), e que remete às nossas experiências ao longo da vida. De acordo com o texto atitudes, crenças e valores em comum são elementos importantes na atração interpessoal e é justamente isso que a relaciona com o desenvolvimento do gosto musical, já que ambos dependem de contingências sociais.
É sabido que a música possui diferentes objetivos nas mais variadas culturas, como excitar e acalmar, sendo que o grupo social irá definir a ‘adequação’ de cada ritmo ao momento em que a música é tocada. Desse modo, a música é capaz de despertar as mais diversas sensações, pois está intimamente relacionada com as situações do cotidiano.
O texto traz resultados de estudos da psicologia da música (nem sabia que existia) sobre o papel desta na atração heterossexual, ou melhor, sobre o modo como o gosto musical influencia na escolha de parceiros do sexo oposto. E a conclusão foi que os estereótipos comumente associados aos grupos sociais também se aplicam aos estilos musicais, uma mostra da interferência cultural na relação música-indivíduo. Para Ilari, “os estereótipos associados à música, que nada mais são do que esquemas cognitivos que passam pelo viés de categorias impostas social e culturalmente, aparentam ser determinantes nas atitudes interpessoais.” (p. 3). O gosto musical, nesses casos é considerado representante de um conjunto de crenças e valores que servem para categorizar as pessoas.
A pesquisa já realizada nos EUA e em alguns países europeus, dessa vez foi aplicada em uma amostra brasileira composta por 50 jovens (metade homens e metade mulheres) adultos entre 12 e 43 anos frequentadores de um restaurante universitário de Campinas/SP, todos com pouco ou nenhum envolvimento formal (cursos, etc.) com o meio musical. O instrumento desenvolvido para a coleta de dados consistiu em três partes: primeiro, os participantes foram expostos a cinco pares de classificados pessoais e a partir disso, deveriam escolher, em cada par, o parceiro de sua preferência, ressaltando que a variável música (por ex., toca violão) estava presente em apenas um classificado de cada par. Em seguida, o instrumento traz a seguinte proposição incompleta: “As pessoas que ouvem….(estilo musical) são geralmente….(adjetivo)”, e os participantes deveriam atribuir no mínimo dois adjetivos com base nos estilos propostos, a saber: MPB, jazz, música clássica, samba/pagode, rock/pop e sertanejo, considerados os mais populares em nosso país. Por último, todos responderam questões abertas sobre sexo, idade, experiência educacional, experiência musical prévia e tempo de escuta musical, e ainda questões abertas sobre a relevância da música nas vivências pessoais, inclusive nas relações interpessoais.
Os resultados parciais mostraram que a maioria dos participantes relacionou gosto musical a características da personalidade e às atitudes. A classe social e consequentemente o status também foram associações frequentes. Um exemplo disso são as relações envolvendo o gênero sertanejo, maior concordância de adjetivos entre os participantes, que foi considerado música para indivíduos humildes, moradores ou não da zona rural, além de muito sentimentais. Nota-se uma forte associação ainda com a música sertaneja de raiz e um contraponto com o ‘moderno’ sertanejo de duplas que com suas letras românticas e grande influência de instrumentos como a guitarra, em pouco ou quase nada se parecem com a música sertaneja de Tonico e Tinoco, por exemplo. E se a pesquisa tivesse acontecido nos tempos atuais do sertanejo universitário certamente os estereótipos de classe social e de personalidade relacionados a esse estilo estariam ainda mais confusos e/ou discrepantes.
Para 86% dos entrevistados, a música é importante no relacionamento amoroso na medida em que influencia os sentimentos de ambos os parceiros (80%), tornando-os mais ou menos sensíveis enquanto indivíduos e também par (71%), e ainda promove a conexão entre o casal (68%), ajudando a chegar ao romance (67%). Um dado surpreendente é o de que 14% da amostra afirmou não namorar alguém com gosto musical diferente do seu, reforçando o poder dos estereótipos envolvidos com a música; uma das justificativas seria a de que essa contradição entre os gostos musicais seria crucial nas saídas dos parceiros para se divertirem juntos. Porém, a maioria dos participantes se mostrou aberto para a experiência de se relacionar com alguém de gosto musical oposto ao seu, sinalizando a existência das diferenças e o necessário respeito a elas.
Como dado mais significativo sobre a díade música-relacionamento amoroso, a maioria esmagadora da amostra (92%) descreveu no mínimo dois episódios de suas vidas em que determinada música teve destaque especial, fazendo com que sua audição elicie necessariamente respostas de recordações desses episódios.
A autora resumiu em três os objetivos da música nos relacionamentos interpessoais: objetivos de excitação, elevando-a (música rápida) ou diminuindo-a (música lenta); objetivos de fundo acústico para criar um clima de acordo com o contexto e ainda suprir possíveis falhas na comunicação verbal, por exemplo; objetivos de interação social facilitando a aproximação e a troca de experiências; objetivo de fortalecer a memória afetiva, fazendo com que determinada música ajude o indivíduo a lembrar de fatos ou pessoas de seu convívio.
Ilari conclui que a música tem relação indireta nas relações interpessoais e consequentemente na escolha de parceiros amorosos, seja facilitando a aproximação, tornando mais ou menos agradável os encontros, trazendo à memória recordações do passado, e assim por diante. Dessas observações a autora infere que o papel da música na história da evolução humana precisa ser reconsiderado.
Subestimar a função da música no desenvolvimento das relações humanas é negar o seu caráter principal de linguagem entre os indivíduos nos mais diversos momentos de sua história pessoal e coletiva. Obviamente, particularidades culturais devem ser levadas em conta quando explicamos o papel da música na vida das pessoas, pois sem dúvida, ela consiste em um indicativo das representações sociais, haja vista os muitos estereótipos que alimenta.

Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198.

Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

Thianne Passos Luz

O artigo “As novas formas de expressão do preconceito e do racismo” de autoria dos doutores em Psicologia Social Marcus Eugênio Oliveira Lima e Jorge Vala traz os conceitos de novas e sofisticadas formas de expressão de preconceito e racismo na contemporaneidade. Essas formas se diferenciam de maneiras antigas de discriminação na medida em que são mais sutis e encobertas.

Iniciando seu texto com uma citação de J.J. Rousseau, Lima e Vala explica que o preconceito e o racismo parecem ser tão antigos quanto são as relações de poder entre os homens e a necessidade de justificação destas. Desde a antiguidade greco-romana já existia um preconceito de base cultural contra os escravos. No entanto, desde então até a os dias de hoje as sociedades modificaram consideravelmente suas formas de expressão de preconceito e de racismo. Depois da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, mudanças sociais, econômicas e políticas ocorreram em todo o mundo, como as críticas ao regime nazifascista, a Declaração dos Direitos Humanos (1948), a condenação da UNESCO às classificações raciais (1950), as lutas pelos direitos civis no EUA entre outros movimentos que foram imprescindíveis para que surgissem novas formas de expressão de preconceito e racismo, apesar de tudo isso possivelmente ter criado uma aparente atmosfera de igualdade, liberdade e fraternidade entre todos.

Os autores apontam para um fato interessante. Preconceito e racismo sempre foram percebidos como problemas do outro. Pesquisas realizadas por Turra e Venturi (1995) mostram que 89% dos pesquisados afirmam que existe racismo no Brasil, mas apenas 10% admitem ser racistas. Ainda são mencionadas pesquisas feitas na Europa, Estados Unidos da América e Austrália. Na distinção entre preconceito e racismo, o primeiro conceito é explicado através da definição de Gordon Allport (1954), como uma atitude hostil contra um indivíduo, simplesmente porque ele pertence a um grupo desvalorizado socialmente. O segundo termo é classificado como mais do que uma atitude, constitui-se num processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo ou toda uma categoria social que é definida como diferente com base em alguma marca física externa (real ou imaginada), a qual é ressignificada em termos de uma marca cultural interna que define padrões de comportamento (Lima e Vala, 2004).

Fazendo uma breve contextualização histórica do racismo, e baseado em pesquisas, os autores identificaram as seguintes novas formas de expressão de preconceito e racismo: o racismo moderno na Austrália e nos EUA (McConahay & Hough, 1976; Pedersen & Walker, 1997), em que admite-se que a desigualdade não é decorrente de questões sociais e sim econômicas, a inferioridade social é explicada a partir de crenças de fundamentação biológica; o racismo simbólico nos EUA (Kinder & Sears, 1981), que se baseia em sentimentos e crenças de que os negros violam os valores tradicionais americanos do individualismo ou da ética protestante nos EUA; o racismo aversivo também nos EUA (Gaertner & Dovidio, 1986), seria o tipo de atitude racial que caracterizaria americanos brancos que têm fortes valores igualitários, mas que apresentam uma certa ambivalência, resultante do conflito entre sentimentos e crenças associados a valores igualitários e sentimentos negativos com relação aos negros; o racismo ambivalente nos EUA (Katz & Hass, 1988), que se caracteriza por atitudes contra (fundamentada na ética protestante de trabalho árduo, realização pessoal e disciplina) e favoráveis (fundamentadas no igualitarismo e no humanitarismo) que coexistem nos indivíduos.
Foi identificado também o preconceito sutil na Europa (Pettigrew & Meertens, 1995) que seria aquele mais frio e indireto, uma forma mais velada de preconceito e que possui três dimensões: defesa dos valores tradicionais, exagero das diferenças culturais e a negação de emoções positivas caracterizada pela rejeição à expressão de simpatia e admiração com relação aos membros do exogrupo; e o racismo cordial no Brasil (Turra & Venturi, 1995) que é definido como uma forma de discriminação contra os cidadãos não brancos (negros e mulatos), que se caracteriza por uma polidez superficial que reveste atitudes e comportamentos discriminatórios, que se expressam ao nível das relações interpessoais através de piadas, ditos populares e brincadeiras de cunho “racial”.
“As novas formas de expressão do preconceito e do racismo” é muito interessante para um esclarecimento de que o preconceito e o racismo estão presentes no dia-dia de todos, em vários lugares do mundo. Os autores deste artigo concluem pontuando que a conceituação e classificação das novas formas de preconceito e racismo existentes hoje demonstram que sua identificação é complicada e também difícil de ser combatida. Mas o combate é necessário, pois não é porque o preconceito e o racismo são expressos de forma menos explicita que antigamente que eles não tragam danos à sociedade e a quem sofre com eles.

Referência: Lima, M. E. e Vala, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos em Psicologia (Natal), 9, 3, 2004

Resenha: Diferença e igualdade nas relações de gênero – revisitando o debate

Louise Correia Vital

O artigo “Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate” da autora Maria de Fátima Araújo situa o leitor, a partir de um enfoque histórico, no debate sobre a diferença e igualdade no âmbito das questões de gênero.
Primeiramente, o texto se inicia apresentando o argumento de que em diversas áreas do conhecimento procuram ou procuraram estudar a “diferença sexual”, como na antropologia e nas ciências sociais. Porém, apenas com o feminismo foi instaurado uma nova forma de análise das diferenças e igualdades entre os sexos. Este novo olhar permitiu que não só se pensasse nessas questões dicotomicamente, entre os sexos, mas também dentro deles: “não só entre homens e mulheres, mas entre mulheres e entre homens”.
A partir da utilização do conceito de “gênero” pelas feministas americanas como uma categoria de análise social, e não no seu sentido puro gramatical de “indivíduos de sexos diferentes”, houve um deslocamento dos estudos sobre a ‘mulher’ para se estudar as ‘relações de gênero’. Pois não é possível dissociar o mundo da mulher do homem e vice-versa. Sendo assim, o termo foi associado mais à relações sociais entre os sexos, e não à padrões de comportamento naturalizados. A definição apresentada pela autora abarca bem esta mudança: O termo “gênero” torna-se, antes, uma maneira de indicar “construções culturais” – a criação inteiramente social de ideias sobre papéis adequados aos homens e às mulheres. Trata-se de uma forma de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e de mulheres. “Gênero” é, segundo essa definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado. Com a proliferação dos estudos sobre sexo e sexualidade, “gênero” tornou-se uma palavra particularmente útil, pois oferece um meio de distinguir a prática sexual dos papéis sexuais atribuídos às mulheres e aos homens (Scott, 1995: 75).
O estudo sobre gênero percebe, então, as representações deste como estruturador da percepção e da organização concreta e simbólica da vida social, como disse a própria autora “Na medida em que essas referências estabelecem distribuições de poder (um controle ou um acesso diferencial às fontes materiais e simbólicas), o gênero torna-se envolvido na concepção e na construção do poder em si mesmo. ”
A utilização do gênero como metodologia de estudo analítico foi proposto por autoras como Scott(1995) e a historiadora francesa Louise Tilly(1994) como forma de criticar a forma puramente descritiva com que se dava os estudos sobre a mulher. Elas acreditam que o gênero deveria ser aceito como uma verdadeira categoria de análise, por meio de uma conceitualização que possa desafiar os conceitos dominantes atualmente na disciplina histórica. A autora corrobora com a ideia do gênero como uma categoria empírica e histórica, e portanto, como uma categoria analítica. Sendo assim, ela escreve: “Apreendido da realidade empírica, [o gênero] ele expressa as relações históricas e as formas de existência da realidade social. ”
Além desta categoria, Maria entende o gênero como sendo também uma categoria política que pode ser usado também para estudar a problemática da igualdade e diferença entre os sexos. A diferença entre os seres humanos já foi tratada em diversos âmbitos – filosófico, religioso, biológico, psicológico, antropológico e social. Atualmente esse debate continua muito forte, com a diferença no discurso: não mais “direito à diferença”, mas sim “respeito às diferenças” e a “preservação das particularidades culturais”
Historicamente, a discussão que cerceia o gênero desenvolveu-se a partir de dois vieses: um essencialista, que acreditava na naturalização de certas características, como a “essência feminina”, exaltando a diferença desta com a do sexo oposto; e a culturalista, em que acredita que as diferenças sexuais são resultados da socialização e da cultura. Uma terceira abordagem que se desenvolveu acerca desta temática foi exposta pela feminista francesa Françoise Collin (1992). Ela trouxe os conceitos dicotômicos de igualdade e diferença como constituindo uma única categoria, em que não só há um respeito pelas diferenças, como também uma necessidade. Collin propôs pensar a diferença em 3 níveis: entre o sujeito-mulher e sua condição de mulher; entre as mulheres; e entre as mulheres e o mundo dos homens. Com relaçao a sua primeira distinção, ela diz que uma mulher não é só uma mulher. “Um sujeito mulher não se reduz à sua feminilidade; ao contrário, é um sujeito heterogêneo ”. Sobre a diferença entre as mulheres, diz que é importante construir uma nova forma de socialização entre elas, para que seja possível incluir essas diferenças. E em relação a diferença entre as mulheres e o mundo dos homens, diz ser necessário uma nova forma de compreender essa relação. A proposta de Collin é de incorporar em um diálogo contínuo as diferenças e igualdades, sem haja negação de uma ou de outra, ou seja, desconstruir a análise binária que vem sendo feita desses elementos.
Sobre a questão da igualdade, no início do movimento feminista, a luta pela igualdade se sobrepôs à luta pela diferença. As mulheres tentaram ocupar o lugar do homem, transgredindo a norma que permitia classificar a mulher como o avesso do homem, porém “na luta pela igualdade tropeçaram na diferença”. A diferença, naquela época, era vista como sinônimo de desigualdade. Ao tentar ocupar o lugar do homem na sociedade, essas mulheres se viram em um confronto com sua real identidade. Somente no final dos anos 80 isso se inverteu e as mulheres resolveram defender o direito de serem diferentes dos homens.
Por fim, o último tópico do texto em questão fala sobre a crise da masculinidade e as novas relações de gênero. As mudanças no mundo da mulher decorrente do feminismo não foi isolado do mundo dos homens, esse também se modificou. Assim como feminino, repensar o masculino pressupõe rever modelos de comportamento, teorias e discursos que foram usados para explicar o “masculino” ou a “essência masculina”. A crisa da masculinidade tem início no século XVII na frança, onde existiam mulheres que possuíam mais escolaridade e conhecimento e por isso se questionavam sobre o lugar da mulher na sociedade da época. As chamadas “preciosas francesas” defendiam a igualdade entre os sexos, o direito ao amor e ao prazer sexual, o acesso à mAraújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17,2,41-52esma educação intelectual dada aos homens. Na Inglaterra, com o desenvolvimento do amor romântico e a ascensão do individualismo – pois um está diretamente ligado ao outro – houveram muitas discussões acerca dos papéis dos homens e das mulheres na família, no casamento e na expressão da sexualidade. Portanto, vê-se que assim como as mudanças no mundo dos homens estão diretamente ligados a questões históricas, o mundo das mulheres não escapa à isso. Com a ascensão do capitalismo e a destituição da estrutura paternalista, houve uma abertura para que a mulher pudesse se inserir no espaço público – trabalhando, por prazer ou necessidade. Devido a essas transformações socais, percebe-se que os homens, assim como as mulheres, buscam maneiras diferentes e distantes do sexismo para se inserir e se afirmar como ser masculino na sociedade, partindo do princípio de que não há uma masculinidade, assim como não há uma única feminilidade. Diante desse quadro, é possível, para a autora, afirmar que relações de gêneros mais democráticas podem vir a surgir, tendo o direito à igualdade e o respeito às diferenças como suporte.
A partir do que foi apresentado, Maria se utiliza do debate histórico sobre a igualdade-diferença e as transformações sociais ocorridas para discutir a questão da igualdade-diferença, a ideia de gênero como categoria de análise e a crise da masculinidade. O que foi apresentado ao final do texto pela autora tem um caráter bastante otimista. Segundo ela, os homens estão buscando novas formas de se inserir na sociedade, “tomando consciência das tensões e conflitos impostos pelo machismo” valorizando a subjetividade e relações íntimas, fugindo do sexismo que por anos vigorou e provocando relações de gênero mais democráticas. Esta idealização pode ainda estar longe de se tornar realidade. É verdade que muitos dos comportamentos-padrão que eram atribuídos a ambos os sexos está sendo hoje muito debatido e alguns deles até desclassificados, porém, presumir que essas modificações se estende para todos os homens ou a maioria não é verídico, e ainda que fosse, admitir que apenas isto desenvolverá relações mais harmoniosas entre os sexos é uma visão bastante ingênua por parte da autora. Uma vez que todos os dias presenciamos formas antigas e retrógradas de comportamento por parte dos homens (e das mulheres). Mesmo os direitos humanos ainda se encontra muito distante deste ideal. Certamente não se pode negar as conquistas e a importância do espaço que existe para que esses debates sobre gênero estejam mais presentes no dia a dia. Porém, uma mudança de valores desta magnitude, como infere a autora, ainda não existe, mas vê-se que a tendência é continuar caminhando em direção a tal ideal, talvez as futuras gerações possam desfrutar disto.

Referência Bibliográfica:Araújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17,2,41-52

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais.

Agnaldo Júnior Santana Lima

A autora inicia seu artigo afirmando que não existem evidências que possam comprovar a existência de um gene musical propriamente dito, mesmo diante do esforço de pesquisadores de campos como a neurociências e a genética. Contudo, a música continua tendo um caráter universal e tendo um papel importante nas sociedades e culturas. A música vem mantendo funções tradicionais e sentidos próprios em diferentes sociedades ao longo da história. No Mundo Ocidental a música exerce funções relacionadas às relações interpessoais, tais como ninar crianças e entreter.
A atração interpessoal pode ser definida como uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros, e é um elemento crucial no desenvolvimento de vínculos. Para a psicologia cognitiva, a atração está relacionada aos esquemas cognitivos que são construídos a partir dos ideais de parceiros e relacionamentos amorosos construídos ao longo da vida.
Como fatores associados à atração interpessoal podem ser citados: a atração física, proximidade, interação e exposição continuada aos outros indivíduos, além de uma semelhança real ou percebida entre estes. A atração interpessoal depende também do contexto social, que forma crenças pessoais, valores e atitudes, o mesmo pode ser dito sobre a formação do gosto musical.
A atração e a música estão ligadas à indução e/ou surgimento de sentimentos. As formas de utilização e apreciação da música variam de acordo com uma combinação de crenças pessoais e objetivos de excitação, entrelaçados àqueles do grupo social ao qual pertencemos.
No estudo em questão, a autora buscou determinar o papel da música nas relações interpessoais, na atração e escolha de parceiros, além de verificar se os estereótipos associados aos gêneros musicais encontrados em amostras norte-americanas e européias, poderiam ser encontrados numa amostra brasileira. Por fim, o estudo investigou se existem ou não funções específicas da música nas relações interpessoais, baseando-se nos relatos dos participantes.
O estudo contou com a participação de 60 jovens e adultos, com idade entre 12 e 43 anos, recrutados em Campinas, SP. Músicos e estudantes de música foram excluídos da amostra final, que foi composta por 50 jovens adultos com idade média de 27 anos. Foi elaborado para o estudo um instrumento de coleta de dados em três partes. Na primeira, o participante deveria escolher o parceiro que lhe parecesse mais atraente numa lista de classificados. Na segunda parte, o participante deveria completar frases relacionando estilos musicais com adjetivos. A terceira parte consistia num questionário sócio-demográfico bem como questões relativas à importância da música nas relações sociais.
No estudo, a música pareceu não ter efeitos positivos ou negativos na escolha de parceiros. Os participantes do estudo tenderam a associar o gosto musical mais à personalidade e às atitudes do que a outras características. Estereótipos de personalidade foram encontrados apenas para alguns gêneros musicais. A autora aponta a possibilidade da existência de uma relação direta entre o conhecimento musical e o gosto do participante e sua percepção dos ouvintes de música. A maioria dos participantes demonstrou certa abertura para namorar pessoas com gostos musicais contrastantes. Foram revelados quatro usos distintos da música no contexto das relações interpessoais: objetivos de excitação, fundo acústico, facilitadoras de atividades que promovem a aproximação de indivíduos e artefato mnemônico.
Os resultados do estudo reforçam a ideia de que a música exerce um papel importante nas relações interpessoais, embora não tenha aparentado exercer um efeito direto sobre a atração interpessoal e a escolha de parceiros.

Referência: ILARI, Beatriz. Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em estudo, Maringá, v. 11, n. 1, Apr. 2006

Meu nome é Khan!

Contribuição: Wilma Ribeiro
Professora do Curso de Psicologia
Faculdade Adventista da Bahia

Meu nome é Khan! Um filme interessante para se analisar os estereótipos e o preconceito étnico. Trata-se da história de Khan (Shahrukh Khan- mesmo sobrenome na vida real), portador da síndrome de Asperger, que quando criança aprende de sua mãe muçulmana que a única diferença que existe entre seres humanos é entre bons e maus. Ao tornar-se adulto vai morar em São Francisco – EUA, casa-se com uma hindu e após o ataque às torres gêmeas – 11 de setembro de 2001 – a sua vida muda completamente. A xenofobia contra muçulmanos acaba tornando a dinâmica social e psicológica da família de Khan insuportável. A jornada de Khan que é apresentada no filme trata-se de sua tentativa de provar que não é um terrorista. Recomendo!