Resenha: Neurociência da Raça

Gustavo Siquara

Os autores do estudo trazem fazem uma revisão sobre os artigos que utilizaram Neuroimagem e as estruturas cerebrais a partir da exposição a faces de pessoas negras e brancas. O objetivo dessa resenha foi analisar os achados encontrados do artigo que apresenta e discute os estudos de neuroimagem em respostas a categoriais de raça negras e brancas em participantes Americanos. Com o advento da neurociência está sendo possível demonstrar as bases neurais de diferentes processos psicológicos e sociais. A algumas décadas os cientistas já estudam sobre a representação mental de raça e etnia. Mais atualmente tem surgindo estudos que apresentam evidências eletrofisiológicas, ressonância magnética funcional e outros métodos fisiológicos para entender como os indivíduos processam, avaliam e utilizam a variação humana ao longo da dimensão da raça. As áreas cerebrais que apresentam maiores ligações com a temática de etnias e raças são: amigdala, Córtex cingulado anterior, córtex pré-frontal dorsolateral e giro fusiforme.
A amigdala é uma estrutura subcortical muito relacionada a estudos de atitudes, crenças e tomada de decisão no estudo de brancos e negros. Em humanos a amigdala tem um papel essencial relacionado a aprendizagem emocional e medo. Essa estrutura apresenta muitas ligações com o córtex que detecta estímulos emocionalmente relevantes no ambiente, modulando o funcionamento cognitivo a atenção e a memória. A história das relações raciais nos EUA é especialmente marcada por emoções complexas incluindo medo e hostilidade. Embora ainda não seja encontrada em alguns estudos, existe uma predominância maior da ativação da amigdala quando tem que julgar faces de seu outgroup. Essa diversidade de achados está ligado principalmente a complexidade do funcionamento cerebral, principalmente por um fenômeno tão complexo como o preconceito. Outras áreas cerebrais serão apresentadas mais a frente a respeito da ativação da amigdala.
Há algumas décadas já existem estudos que apresentam medidas de associação implícitas em relação brancos e negros e o preconceito. As medidas implícitas tem apresentado um bom poder preditivo em relação ao preconceito. Os estudos também apontam que existe associação entre as medidas implícitas e a ativação da amigdala, com isso atitudes preconceituosas relacionadas à raça podem ser mediadas pela amigdala em respostas a faces de ingroup e do outgroup. No entanto a ativação da amigdala e consequentemente das medidas implícitas parecem ser moduladas por outras áreas cerebrais que apresentam efeito em atitudes sobre o preconceito.
Estudos com crianças que apresentam síndrome de Willians, que é uma condição genética marcada por comportamento excessivamente amigável, tem uma redução de ativação da amigdala em situações de ameaça e do giro fusiforme na interação com faces brancas e negras. A baixa ativação da amigdala foi detectada para faces relacionadas à raça mais não relacionadas ao gênero. Esse resultado sugere que a variabilidade da ativação da amigdala entre os indivíduos e as diferenças individuais dos grupos parece emergir de muitas influencias, incluindo temperamento, diferenças individuais e exposição a atitudes culturais. Em outras palavras a ativação da amigdala pode refletir a percepção da mente que diferencia a característica perceptual do estimulo da raça. Os resultados sugerem que a representação neural de atitudes implícitas e explicitas em relação a raça provavelmente está dentro de um larga sobreposição e interação de sistemas cerebrais.
Outra região cerebral que tem apresentado relações nos estudos sobre raça é a região do Córtex cingulado anterior. Geralmente as pesquisas apontam essa região sendo ativada quando o individuo experiência algum conflito entre uma resposta preponderante e intencional. São resposta que exigem um controle cognitivo como a tarefa de Stroop. Alguns estudos têm apontado que o córtex cingulado anterior reflete o conflito entre a resposta preponderante, automática de atitudes raciais e as respostas explicitas intencionais sobre a crença do igualitarismo sobre a raça. Nesse sentido os estudos indicam que a resposta de ativação da amigdala está correlacionada com o aumento da ativação do córtex cingulado anterior. Ou seja, quando o individuo inibe a resposta preponderante e regula a expressão do preconceito vai haver simultaneamente o aumento da ativação do córtex cingulado anterior. Outras pesquisas já apontam previamente que indivíduos podem ser intrinsecamente motivados ao controle de atitudes raciais, mas outros necessitam de uma motivação externa como as normas de igualitarismo para implementar o controle do preconceito. Os resultados dessas pesquisas mostram que a motivação intrínseca de inibição do preconceito é mais eficaz em comparação a indivíduos que são externamente motivados. Os indivíduos que são motivados mais internamente conseguem controlar mais expressão do preconceito.
A região dorsolateral pré-frontal está relacionada ao controle dos estímulos. Os estudos apontam essa área como ligada a regulação cognitiva das emoções modulando as respostas da amigdala. Também está envolvida no monitoramento e implementação do controle do comportamento. Conjuntamente com o córtex cingulado anterior a região dorsolateral pré-frontal no controle de respostas conflitantes e em atitudes implícitas no controle e regulação dos comportamentos ligados a raça. Lesões nessa região estão associados a redução do autocontrole e auto monitoramento. As regiões do córtex cingulado anterior e o dorso lateral pré-frontal são ativadas quando os indivíduos veem faces negras ou brancas e são correlacionadas com medidas implícitas. Essa região parece ser uma base para o controle da expressão do preconceito.
Os sistemas de controle de atitudes raciais são explicados de duas formas. A psicologia social tem proposto que processamentos complexos sociais e pessoais motivam e influenciam outros aspectos menos complexos a construir categorias bases, como as raças. Nesse processamento primeiro requer a detecção e categorização da avaliação da raça. A outra proposta envolve o alto processamento cognitivo pessoal e motivacional que exerce algum controle sobre processos cognitivos mais baixos. Nesse caso quando existe um conflito as áreas do córtex cingulado e do dorsolateral pré-frontal que regulam as emoções envolvidas na ativação da amigdala. Há evidencias de que outras regiões do córtex pré-frontal também está envolvida nesse processo de regulação racial.
A circuitaria cerebral envolvidas nos processos raciais são maleáveis. Os estudos apontam que a ativação dessas áreas cerebrais automatizadas é resultado de aspectos maleáveis que dependem de situações e fatores diferentes. Em um estudo que foi apresentado fotos de familiares, pessoas negras admiradas e indivíduos brancos, houve uma mudança na ativação da amigdala na apresentação de estímulos de raças de outros grupos. Ou seja, houve uma diminuição da ativação da amigdala quando apresentados em membros do outgroup. Esses achados implicam na exposição a contra estereótipos/faces familiares podem diminuir a presença do preconceito.
Um dos objetivos do artigo foi entender quais os processos cerebrais e como os circuitos neurais estão implicados na emoção e no processamento cognitivo que podem estar envolvidos na identificação, avaliação dos grupos e a expressão do comportamento. Outros estudos devem estar presentes no sentido de entender como a raça pode influenciar a tomada de decisão.
Os avanços na área de neurociências permitem entender melhor o comportamento. Ao analisarmos algo complexo e multideterminado como é o nosso comportamento não podemos deixar de levar em conta aspectos biológicos e também sociais. A integração de ambos os estímulos iram provavelmente oferecer as melhores respostas sobre o nosso comportamento. A negação ou preponderância de qualquer uma dessas questões, acredito que irá diminuir e limitar o nosso entendimento sobre o comportamento. A medida que entendermos cada vez mais comportamentos sociais mais que também tem influencias biológicas (vice-versa) iram surgir novas questões que deverão ser respondidas e se tornaram naturalmente cada vez mais complexas.

Referência: Kubota, J. T., Banaji, M. R., Phelps, E. A. (2012) The Neuroscience of race. Nature Neurosciense, 15(7), 940-948.

Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

Gilcimar Santos Dantas

O objetivo do texto é analisar as novas formas de expressão do preconceito e do racismo que se manifestam nas sociedades formalmente democráticas e que começaram a surgir após as mudanças sociais decorrentes dos direitos civis e da declaração dos Direitos Humanos. Para isto, os autores analisam os racismos simbólico e moderno, da Austrália e dos Estados Unidos, o racismo ambivalente, dos Estados Unidos, o preconceito sutil, da Europa, e o racismo cordial, do Brasil.

Para os autores, dentre as várias formas possíveis de preconceito, existe uma que é peculiar e que se dirige a grupos com características físicas supostamente herdadas. Neste sentido, o racismo possuiria processos de hierarquização, exclusão e discriminação a partir de características físicas externas, mas se diferenciaria do preconceito porque além de possuir as características acima, este não existe apenas em um nível individual, mas também institucional e cultural. Ou seja, o racismo não seria apenas uma atitude, mas também englobaria processos de discriminação e de exclusão social. Neste caso, os autores trabalham as novas formas de racismo a seguir.

O racismo simbólico seria uma forma de resistência a mudanças no status quo das relações raciais, na qual as atitudes contra os negros seriam, muito mais, decorrentes de uma percepção de ameaça aos valores e à cultura do grupo dominante do que de uma noção de ameaça econômica. O racismo moderno se baseia nas crenças de que o racismo é uma coisa do passado, de que os negros estão subindo rapidamente em espaços aonde não são bem vindos e que os meios e as demandas dos negros são injustos e que as instituições estão lhe dando muito crédito. Segundo o racismo aversivo, pessoas brancas, ao entrarem em contato com pessoas negras, elas não as discriminariam, pelo contrário, elas as tratariam de modo igualitário, mas quando há um contexto no qual se justifica a discriminação, essas mesmas pessoas discriminariam indivíduos negros. O racismo ambivalente possui duas orientações que podem gerar conflito ou ambivalência por parte de quem faz o julgamento. Sendo assim, pessoas brancas podem sentir simpatia pelos negros ao aderirem a valores humanitários e de igualdade. Por outro lado, a adesão a valores individualistas levaria os brancos a verem os negros como desviantes destes mesmos valores. O racismo sutil seria uma forma mais velada de racismo que se caracteriza pelas crenças de defesa dos valores tradicionais, pelo exagero das diferenças culturais e pela negação de emoções positivas aos membros do exogrupo. O racismo cordial, típico do Brasil, decorre do mito da democracia racial e da ideologia do branqueamento. Seria um racismo sem intenção e, às vezes, de brincadeira, mas que exerce influência negativa na vida das pessoas negras.

Sobre a discussão a respeito das formas abertas de racismo, o Brasil parece estar em uma condição diferente. Os estudos sobre formas mais sutis e ambíguas de racismo nos Estados Unidos e na Europa mostram que esta forma de preconceito começa a surgir no início da segunda metade do século XX. Entretanto, no Brasil, as formas sutis de racismo já começam a entrar em prática no fim do século XIX quando se tenta trabalhar em uma forma de lidar com um país recém-saído da escravização (Azevedo, 1988). Ideias de que o Brasil é um país igualitário aonde pessoas de todas as raças convivem de modo harmônico, que os maiores problemas do país são de ordem econômica e que aqueles que tentam discutir as diferenças com base na questão racial são causadores de problema é algo antigo e não só defendido pelos mais conservadores. O que parece (principalmente após o surgimento das políticas de Ações Afirmativas) é que muitos brasileiros tem caminhado na direção contrária em relação à questão racial, contradizendo uma perspectiva que foi mantida com muito orgulho durante muito tempo. Pode-se ter como exemplo as reações contrárias à política de cotas com protestos nas ruas, artigos nos jornais, produções de livros e falas públicas de pessoas famosas. O racismo velado já existia há muito tempo no Brasil, disfarçado pela cordialidade. A suposição é que, de certa maneira, ele tem mostrado seu lado mais explícito à medida que grupos não dominantes têm trabalhado para mudar essa realidade.

Referências: Lima, M. E. O. e Vala, J. (2004). As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos de psicologia, 3, 401-411.
Azevedo, C., M., M. (1989). Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX. Anamblume. São Paulo.

Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

Jerry Kambale Musema

Neste artigo o autor propõe uma reflexão quanto às novas formas de expressão do preconceito e do racismo, constatando suas diferenciações, denominando-as como ‘novas expressões’ de preconceito e racismo, pontuando conceitualmente o racismo moderno e simbólico da Austrália e dos EUA, os racismos aversivos e ambivalentes no EUA, juntamente com o preconceito sutil da Europa e o racismo cordial do Brasil, esclarecendo o diferencial entre preconceito e racismo.
O preconceito contemporâneo é visto como uma atitude invasiva étnica que pode ser dirigida a um grupo como um todo ou a um indivíduo, por fazer parte de um determinado grupo com suas peculiaridades tanto físicas quantas fenotípicas. O racismo por outro lado é fruto de uma discriminação étnica representada pela cor da pele ou uma marca física rotulado como diferente, sendo ampliado para a exclusão hierárquica social, ficando explicito que o racismo é uma distinção biológica entre grupos e o preconceito é a atitude excludente que pode sofrer o individuo tanto institucionalmente quanto culturalmente. O preconceito é a forma verbal do racismo, isto é, o preconceito se resume como uma atitude sendo uma consequência restringindo-se em ato/ação, enquanto o racismo constitui em discriminação étnica racial juntamente a exclusão social.
As novas formas de expressão do preconceito e do racismo são mostradas através de dados quanto às mudanças históricas relacionados aos estereótipos, após a 2ª guerra mundial é perceptível um preconceito, mas leve e um racismo acobertado devido aos movimentos pelos direitos civis nos EUA, Declaração dos Direitos Humanos entre outras atitudes raciais, evidenciando transformações quanto a uma nova demonstração de racismo e preconceito referente ao comportamento discriminatório habitual das pessoas e nas suas relações interpessoais. Revelando que estamos muito longe da igualdade racial e social.
O conceito de racismo simbólico se baseia em um sentimento de intimidação, contra os negros, quanto os mesmos representarem uma ameaça aos valores éticos, sociais, culturais e econômicos, contestando os valores do grupo dominante, atingindo desta forma o status quo. O conceito de racismo moderno é apresentado como uma forma oculta de racismo, não transparecendo socialmente, sendo encoberto por expressões antirracistas. Sendo assim, é perceptível que os dois conceitos de racismo têm a mesma base, quanto à ameaça do negro aos valores ditos como importantes pelos brancos, visto que a sua afirmação é crescente, mediante preconceitos e discriminação.
O conceito de racismo aversivo constitui em mostrar a ambiguidade dos valores éticos, democráticos e antirracistas dos brancos americanos, quando os mesmos que defendem a igualdade democrática são defrontados com situações inter-racial em que os brancos tem que justiçar a discriminação, esses discriminam os negros. Os racistas não incluem os negros como seres cidadãos, portanto não estão no rol daqueles que tem direito a democracia. Em uma análise psicanalista e etiológica é notório que o racista dominante se esconde por trás de um discurso vazio não racista que contribui para o desenvolvimento de estereótipos e preconceitos.
O conceito de racismo ambivalente ressalta os pressupostos do racismo aversivo, pois ambos procuram mostrar a sociedade uma imagem democrática não preconceituosa, entretanto na visão psicanalítica existe dois tipos de atitudes o pró e anti negros. As atitudes anti negros tem uma percepção e sentimentos negativos aos negros, quanto a sua cultura, demonstrando aversão a qualquer tipo de afeto ou sentimento. Enquanto as atitudes pró-negros produzem um afeto exacerbado como demonstração de não discriminação aos negros, na tentativa de encobertar seus verdadeiros sentimentos.
O preconceito sutil é estudado na Europa, proveniente do preconceito direcionado a uma pequena cultura de antigas ex-colônias, surgindo assim uma nova expressão de preconceito, esse não somente atingi aos negros como também grupos exógenos ou externos, esse preconceito se fundamenta em três dimensões, a primeira está relacionado a valores tradicionais e crenças, a segunda enfatiza o exagero das diferenças e dos seus estereótipos e por último a negação e a rejeição do exogrupo. Diferentemente do preconceito flagrante, que se subdivide em duas dimensões que se baseiam em rejeições, a primeira diz respeito a um conceito de que o exogrupo apresenta uma ameaça a economia e o ultimo diz respeito a rejeição intima, em que eles não se relacionam emocionalmente, nem sexualmente com os integrantes do exogrupo.Sendo assim pode-se verificar que o preconceito flagrantes é mais direto e quente, ao passo que o preconceito sutil não se manifesta abertamente, sendo mais frio e indireto.
O racismo cordial tipicamente brasileiro, onde a maioria da população é birracial e se julgam não racistas, porém traz um preconceito “não intencional”, revestido de brincadeiras e zombarias, fortalecendo o mito racial e a teoria do embranquecimento, popularizando desta maneira o racismo de forma interpessoal contribuindo para a propagação e ridicularizando os estereótipos dos negros.
O autor traz contribuições teóricas, empíricas e conceituais, quanto a reflexões de novas formas de expressões de preconceito e racismo, afirmando que essas novas expressões devem ser estudadas e analisadas, pois elas aos serem expressas ou mesmo ocultas são formas de conscientizar-se para combatê-las.

Refêrencia: Estudos de Psicologia 2004, 9(3), 401 http://www.scielo.br/pdf/epsic/v9n3/a02v09n3.pdf

Resenha: Os estereótipos e o viés linguístico intergrupal

Saulo Santos Menezes de Almeida

Neste trabalho, Pereira e cols. procuram determinar como participantes adultos e crianças, de etnia branca e negra, utilizam as categorias linguísticas para codificar cenas apresentadas de forma visual em que aparecem personagens do ingroup e do outgroup. As cenas apresentadas são socialmente consideradas socialmente positivas e negativas.
De natureza experimental, quatro estudos verificaram as ações negativas dos membros do ingroup e as positivas dos membros do outgroup, e as positivas dos membros do ingroup e as negativas dos membros do outgroup. Vale ressaltar que as hipóteses foram testadas levando em consideração a perspectiva motivacional do modelo das categorias linguísticas intergrupais onde se tende a eliciar respostas abstratas e o modelo cognitivo onde as respostas que fogem às expectativas tendem a ser interpretadas de forma mais concreta.
Para todos estes estudos é então levado em consideração o modelo de categorias linguísticas intergrupais e o viés linguístico intergrupal. Semin e Fiedler (1988), através de seus estudos, diferenciam quatro categorias linguísticas predominantemente utilizadas na descrição de pessoas e eventos: 1) os verbos que descrevem ações, comportamentos específicos e observáveis com começo e fim delimitados; 2) os verbos que interpretam ação, onde se encontra subjacente uma interpretação; 3) os verbos que fazem referências a estados duradouros; e 4) os adjetivos, que se referem às características disposicionais do indivíduo.
O viés linguístico intergrupal sugere que há uma tendência na avaliação do comportamento dos outros de uma forma diferenciada, sendo que se a ação for uma ação positiva dos membros do próprio grupo, a causa do comportamento é atribuída a fatores de natureza pessoal ou interna, enquanto o mesmo tipo de ação, executada por membros do outgroup, tende a ser interpretada como produzida por fatores de natureza externa ou situacional. Sendo que, no caso dos comportamentos negativos observa-se o oposto. Portanto, o viés linguístico intergrupal pode ser interpretado como um indicador implícito de preconceito.
O primeiro experimento procurou responder em que medida indivíduos avaliam personagens que pertencem ao próprio grupo e a um grupo externo de uma forma diferenciada, e se as categorias linguísticas usadas são as mesmas. Para tanto, utilizou-se de uma amostra de 87 participantes adultos selecionados por critério de conveniência em locais públicos da cidade de Salvador. Os dados foram obtidos através de uma escala em que se apresentou uma série de alternativas e o participante indicou a que melhor retratava a natureza da cena visualmente apresentada.
O experimento utilizou um caderno de apresentação em que estavam desenhadas seis cenas, três socialmente positivas e três negativas. Foram elaborados dois conjuntos de cenas, em que todos os personagens centrais eram crianças, sendo que cada conjunto retratava os personagens centrais como de etnia branca ou negra. Os resultados deste experimento mostraram que não foi encontrada qualquer diferença no plano estatístico, nem na avaliação da etnia do personagem retratado nem na análise de cada uma das cenas em separado.
Tentando responder as mesmas questões do primeiro experimento, o segundo experimento utilizou uma amostra de 88 participantes, e ao invés de indicar a opção que melhor retrataria a natureza da cena, estes foram convidados a elaborar uma frase a respeito da cena e do seu protagonista. Os resultados indicaram que, ao contrário do esperado, participantes negros e brancos codificaram uma cena negativa em que um membro do outgroup é retratado negativamente de uma forma mais abstrata do que concreta que a avaliação dos membros do ingroup. No entanto, os participantes avaliaram mais positivamente às ações encetadas pelos membros do próprio grupo.
Quanto ao terceiro experimento, assim como o quarto, ao contrário dos anteriores, investigaram-se os padrões de codificação linguística em uma amostra de 40 crianças frequentadoras de uma escola particular da cidade do Salvador, e adotou um procedimento computadorizado para apresentação das cenas e coleta dos dados. Os resultados apontaram que os participantes brancos, de uma forma compatível com as hipóteses do viés linguístico intergrupal, codificaram as cenas positivas em que são representados membros do ingroup de uma forma mais abstrata que as cenas em que são representados membros do outgroup.
Os resultados apresentados pelos participantes negros, no entanto, apontam numa direção contrária, já que as ações positivas encetadas pelos membros do outgroup foram avaliadas de uma forma mais abstrata que as realizadas pelos membros do ingroup. No caso das cenas negativas, os resultados não estão de acordo com o esperado na literatura. No caso da influência conjunta da etnia do participante e do personagem, não foram encontradas diferenças significativas na codificação de nenhuma das seis cenas, assim como no caso da influência isolada da etnia do participante. No caso da influência da etnia do personagem, foram encontradas diferenças significativas marginais em três cenas.
No quarto experimento utilizaram-se relatos livres apresentados por cada um dos participantes. A amostra foi constituída por 21 participantes selecionados. Pode-se observar que participantes brancos e negros avaliaram de forma mais abstrata os comportamentos positivos apresentados pelos membros do seu próprio grupo étnico. E os resultados indicaram que a etnia do participante e a do personagem interagira apenas na cena em que o personagem ajuda uma senhora idosa a atravessar a rua.
Assim, os estudos apontaram que, de uma forma geral, não se encontrou qualquer evidência sistemática de que os participantes codificaram de forma mais abstrata as cenas positivas em que eram representados membros do ingroup e a as cenas negativas em que eram representados membros do outgroup.

Referência: Pereira, M. E.; Fagundes, A. L. M.; Silva, J. F.; Takei, R. Os estereótipos e o viés linguístico intergrupal. Interação em Psicologia, 2003, 7(1), p. 125-137.

Resenha: Normas sociais e preconceito: o impacto da igualdade e da competição no preconceito automático contra os negros

Gilcimar Santos Dantas

O trabalho tem como objetivo investigar o quanto os valores relacionados à competição e à igualdade contribuem na expressão do preconceito automático contra negros. O estudo parte de uma perspectiva conhecida como processos duais ou automatismo e controle, que afirma que existem dois tipos de cognição. Uma que se manifesta de modo controlado, através de uma estrutura evolutivamente mais recente, que ocorre de modo mais lento, que requer esforço e que se caracteriza por ser mais analítica. Já a segunda ocorre de modo automático, decorrente de uma estrutura evolutivamente mais primitiva, que ocorre sem esforço, de maneira rápida e inconsciente, disparada a partir de características superficiais do alvo e que possui maiores relações com o preconceito. Este último tipo de cognição, quando ocorre, se torna difícil de controlar podendo influenciar as atitudes e os comportamentos subsequentes. Boa parte dos estudos sobre este tema costuma estudar os fenômenos intrapsíquicos subjacentes à expressão do preconceito automático. Entretanto, o presente estudo busca investigar o papel das normas sociais na expressão do preconceito automático contra negros. Para isso, foi utilizado o Teste de Atitudes Implícitas (IAT), que apresenta, em milésimos de segundo, faces de pessoas negras e palavras tanto de conteúdo negativo quanto positivo, assim como faces de pessoas brancas e palavras tanto de conteúdo negativo quanto positivo. O participante precisa fazer o mais rápido possível a associação destas faces com essas palavras e quanto mais alta for a associação entre faces negras e conteúdos negativos e faces brancas e conteúdos positivos, maior a expressão do preconceito automático. Para verificar o impacto dos valores relacionados á competição e à igualdade, os autores realizaram três estudos.

No primeiro estudo, 35 participantes foram alocados em três condições experimentais, sendo que na primeira os participantes eram requeridos a pensarem em argumentos sobre a igualdade formal e escreverem sobre eles. No segundo, os participantes eram solicitados a pensarem e escreverem argumentos sobre meritocracia competitiva e no terceiro (o grupo controle) era requerido que os participantes pensassem e escrevessem sobre vida extraterrestre. Após este momento os participantes respondiam ao IAT e o objetivo dos pesquisadores era saber se a expressão do preconceito implícito sofria influência dos contextos aos quais os grupos foram alocados. Os resultados demonstraram uma maior expressão do preconceito contra negros entre os participantes alocados no contexto de meritocracia competitiva, uma menor expressão (mas inda existente) do preconceito contra negros entre os participantes alocados no contexto igualitário e uma expressão ainda menor (mas ainda presente) do preconceito contra negros entre os participantes alocados no grupo controle.

No segundo estudo, o objetivo foi saber os sentidos da igualdade por parte dos participantes. Para isto um novo grupo de 35 participantes foi convidado a responder à pergunta: “Para você, o que é igualdade”? O primeiro sentido foi formado por respostas em termos de “igualdade de direitos e deveres” enquanto que os demais tipos de expressão de igualdade foram “solidariedade”, “não preconceito”, “igualdade como cidadania” e “igualdade como respeito às diferenças”. Estes resultados levaram à conclusão de que existem diferentes formas de perceber a igualdade, o que levou ao terceiro estudo que tinha como objetivo saber se argumentos da percepção de igualdade, decorrentes das respostas do segundo estudo, anulariam a expressão do preconceito contra negros no IAT.

No terceiro estudo, foram criados mais três grupos, que totalizaram um número de 35 participantes. O primeiro grupo foi solicitado a pensar e escrever argumentos referentes à competição individualista (como no primeiro estudo), o segundo foi solicitado, também, a pensar e a escrever argumentos referentes à igualdade solidária (decorrente dos argumentos dos participantes do segundo estudo), enquanto que foi requerido ao terceiro grupo a pensar e a escrever argumentos a respeito da igualdade formal (a mesma do primeiro estudo). Assim como no primeiro estudo, os participantes foram submetidos ao IAT e o objetivo dos pesquisadores foi o mesmo do primeiro estudo. Os resultados deste terceiro estudo mostraram que o contexto da meritocracia competitiva produziu grande ativação de preconceito automático contra negros, enquanto que no contexto de igualdade formal (apesar de ainda existir), o preconceito automático contra negros foi menor e no contexto de igualdade solidária este preconceito não se manifestou.

Os resultados destes estudos sugerem que apesar de muitos indivíduos se mostrarem favoráveis a atitudes não preconceituosas, tais atitudes podem não ser tão significativas assim, a ponto de impedirem a manifestação do preconceito implícito. A realização de estudos nesta abordagem parece ser muito importante no contexto brasileiro que, ao contrário de alguns países, possui um longo histórico de expressão de preconceito implícito contra indivíduos negros. Um outro ponto importante, apresentado nestes estudos é que a expressão do preconceito contra negros foi intensificada no contexto da meritocracia competitiva, assim como foi amenizada no contexto de igualdade formal e anulada no contexto da igualdade solidária sem que os participantes tivessem consciência. Estes dados trazem à discussão o paradigma do agente racional que afirma que a tomada de consciência é suficiente para uma revisão e, por sua vez, uma mudança das atitudes preconceituosas. Isto sugere o quanto pode ser difícil controlar preconceitos automatizados e que para muda-los não se depende apenas de uma tomada de consciência, mas também de determinadas estratégias de redução do preconceito.

Referência: Lima, M., E., O., Machado, C., Ávila, J., Lima, C. & Vala, J. (2005). Normas sociais e preconceito: o impacto da igualdade e da competição no preconceito automático contra os negros. Psicologia: Reflexão e Crítica, 19, 2, 309-319.

Valores psicossociais e orientação à dominância social: um estudo acerca do preconceito

Márcia Deocleciano

Valores psicossociais e orientação à dominância social: um estudo acerca do preconceito” Psicologia: Reflexão e Crítica, 20 (3), 490-498, Porto Alegre 2007, dos pesquisadores Sheyla Fernandes, Joseli Da Costa, Leoncio Camino e Roberto Mendoza traz um estudo cujo objetivo foi analisar as relações existentes entre o preconceito, através da orientação à dominância social, e os valores psicossociais, a partir de quatro sistemas: o religioso, o materialista, o pós-materialista e o hedonista, onde as considerações apresentadas tem o preconceito como resultado das construções ideológicas amplamente compartilhadas pelos grupos sociais. Os pesquisadores começam o presente trabalho visando abordar o preconceito e os valores de estudantes universitários de uma capital nordestina, traçando uma análise teórico-empírica em função das relações estabelecidas entre os níveis individuais de preconceito e a adesão aos sistemas de valores. Trouxe como considerações teóricas estudos desde 1954 «A natureza do preconceito», Allport a estudos recentes (Fernandes & Almeida, 2006; Lima & Vala, 2004a) onde apontam que as mudanças sociais ocorridas que visam à dissolução ou, pelo menos, a moderação das desigualdades sociais, não se mostram bem sucedidas.

Quanto ao método utilizado foi uma amostra composta por 205 estudantes universitários do curso de psicologia de duas universidades da cidade de João Pessoa, Paraíba, sendo 77,6 % de mulheres e 22,4 % de homens, com idade variando entre 16 e 30 anos (Média 21,5; Moda 20; DP 2,54). Destes 89,3% eram solteiros e 48,3% se dedicavam exclusivamente aos estudos. Os sujeitos foram escolhidos em função de sua presença nas salas de aula no momento da coleta de dados. Os questionários foram aplicados coletivamente mas respondendo individualmente.

Os resultados indicaram inicialmente que todos os sistemas de valores se apresentaram importantes para a construção de uma sociedade ideal, enquanto que a dominância social foi fortemente rejeitada pelos participantes deste estudo. Ainda acrescentam que a respeito deste resultado, duas pontuações se fazem pertinentes: a primeira se faz atuante desde o período que sucede a Segunda Grande Guerra, podendo ser explicada a partir dos princípios normativos de alguns países que coíbem qualquer tipo de discriminação (Lima, 2002), atenuando superficialmente os sentimentos negativos dirigidos aos grupos marginalizados. A segunda indica que os valores considerados importantes para uma sociedade adequadamente justa seguem o mesmo padrão imposto pelas ideologias políticas elaboradas socialmente (Da Costa, 2000; Lima, 1997; Lima & Camino, 1995; Pereira et al., 2001a) fazendo-se necessária uma nova pesquisa para enriquecer os estudos na esfera psicossociológica.

Resenha: O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente

Márcia Deocleciano

O presente texto do pesquisador Ricardo Franklin Ferreira, da Universidade de São Marcos, publicado na revista psicologia e Sociedade; 69-86; Jan./Jun. 2002, tece comentários acerca de algumas condições históricas para o desenvolvimento do preconceito contra a população negra, que muitas vezes é difícil de ser compreendido e combatido em função de um mito que o nega. O mesmo afirma que existe mecanismos subliminares de encobertamento permeados por um aparente tratamento cordial, desenvolvendo a crença de que a discriminação étnico- racial não existe. Considerando assim que , ‘não temos de compreender o que não existe’.

Pesquisas apontam que o preconceito é sistematicamente considerado como atributo do “outro”. Os resultados da pesquisa Datafolha apontam que 89% dos brasileiros afirmam saber da existência do preconceito contra os brasileiros negros, mas somente 10% o admitem como seu.

No Brasil, o preconceito não é abertamente afirmado, dificultando a elaboração de leis que favoreçam sua reversão. A ideologia de que vivemos num país em que as diferenças são aceitas e valorizadas, ‘um verdadeiro exemplo para as outras nações’, encobre o problema. Em função disso, a população negra encontra-se submetida a um processo em que as condições de existência e o exercício de cidadania tornam-se muito mais precários com relação à população considerada branca. Em decorrência, a construção de uma identidade positivamente afirmada, requisito necessário para as pessoas se engajarem em políticas efetivas voltadas para a melhoria de suas condições sociais, torna-se um processo dificultado.

O autor aborda sobre a temática do preconceito silenciado e pra isso narra a experiência vividas de uma configuração familiar muito comum cuja mãe é branca o pai sendo negro, onde tiveram três filhos sendo estes consideradas com relação a cor da pele; as duas filhas morenas e o filho da cor da pele do pai considerado como sendo negro. Só depois que a família começou a participar de grupos de militância começaram a enxergar e aceitar que todos eram na verdade negros e não ´moreno claro ou moreno escuro`.

É muito comum tratar o afro-descendente como ‘moreno’, palavra fortemente enraizada na cultura brasileira. É um exemplo de uma situação que revela uma estratégia simbólica de fuga de uma realidade em que a discriminação impera constituída, conservando a incapacidade de desenvolver atitudes afirmativas quanto às especificidades raciais. Em função do processo de desvalorização da pessoa negra, os afrodescendentes tendem a introjetar a visão dominante de mundo branco, visto como superior. Em decorrência, tendem a desvalorizar o mundo negro ou assumirem como insignificante para suas vidas o fato de serem afrodescendentes.

O texto aponta três condições favoráveis ao desenvolvimento do preconceito e sua forma de expressão no Brasil sendo um terreno fértil a constituição do racismo silencioso: (a) uma concepção constitutiva das subjetividades ocidentais, desenvolvida na modernidade, que busca ordem, desvalorizando ou eliminando o ‘diferente’; (b) um processo histórico, legitimado por tal concepção, que levou à escravidão do africano e redução de sua condição a mero objeto de uso; (c) posteriormente, já após a Abolição, o desenvolvimento de concepções, apoiadas pela ciência, acerca da inferioridade racial do negro, a ponto de se ‘prever’ sua extinção na constituição do povo brasileiro.

É importante uma análise mais aprofundada dos grupos de militância negra, no sentido de criar mecanismos que evitem o problema apontado por Figueiredo (1995), num ensaio onde são analisados aspectos da identidade das pessoas que participam da militância como um modo de vida. Ele ressalta que o militante tende a desenvolver uma identidade apoiada em procedimentos de exclusão e vedamento que resultam na “repetição estéril do próprio terreno que pretendia transformar” (p.114), independentemente do contexto – político, religioso, científico, – e da direção – ‘revolucionária’, ‘conservadora’ ou ‘alternativa’ – em que a militância esteja sendo exercida. Tratando-se do desenvolvimento de uma identidade articulada em torno de características etno-raciais, o fechamento em torno importante a participação do afro-descendente em grupos de movimento negro, pois o militante tem a chance de recuperar os valores da cultura e da história africana. Através de um processo de reconstrução, pode revisar os valores introjetados e os estereótipos negativos assimilados durante o processo de socialização, com objetivo de favorecer, uma auto-estima mais positiva e relacionamentos harmoniosos no âmbito sócio-cultural mais amplo.

Cabe aqui a proposta de um amplo debate, em termos educacionais, sobre o preconceito, as práticas discriminatórias e maneiras de superá-los, pois a escola é um núcleo estruturante formador de futuros adultos. Além disso, creio ser uma importante contribuição a educação formal enfatizar as nossas raízes nos currículos e reconstruir a história do processo de formação do povo brasileiro, não mais sob a ótica branca oficial, mas com uma visão mais abrangente. Também a participação em grupos de militância, sejam eles voltados para valores religiosos, como o Candomblé, com objetivos políticos ou culturais, pode favorecer um processo de reconstrução pessoal junto a interlocutores que vivem a mesma problemática, através do exercício de revisão dos padrões negativos introjetados e da possibilidade de contato com dados da história omitida. A militância é um espaço onde a vergonha de ser negro pode transformar-se em orgulho de ser negro, onde o indivíduo passa a ter nova história, além de intensificar a luta, que já vinha desenvolvendo desde o início da escravidão, por sua afirmação.

Também na academia, o debate sobre tais questões deve ser ampliado. A psicologia brasileira pode e deve ter um papel fundamental para ajudar na compreensão de como os processos psicológicos para a compreensão mais ampliada da problemática do afro-descendente, principalmente frente às armadilhas que um discurso social e político, Concluindo, creio ser importante que a pessoa branca deixe de negar suas raízes culturais africanas e indígenas, assim como o negro brasileiro, sua raízes culturais européias e também indígenas. Portanto, esta é uma luta do brasileiro, seja ele negro ou branco, é uma luta do brasileiro que é, culturalmente, ‘negro e branco e índio’.

Referência: Ferreira, R. F. (2002). O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente. Vol. 14 (1): 69-86.

Resenha: Mulheres ciganas – medo, relações intergrupais e confrontos identitários

Jaime Naupuile Dala


O artigo com o título em epígrafe procurou compreender através da teoria da identidade social, os estereótipos presentes no imaginário rural associados ao grupo cigano, bem como os sentimentos associados a este grupo humano. Inicialmente são apresentados os conceitos de identidade social e processos grupais. Os autores entendem como identidade social tal como proposta por Henri Tajfel, apresenta-se como um valioso recurso teórico. A teoria procura elucidar a constituição da identidade no âmbito das relações intergrupais, enfatizando os processos que limitam um determinado campo da identificação. Neste caso a categorização social se revela como um conceito fundamental na descrição dos processos identitários. Para Tajfel, a categorização é o processo social no qual “se reúnem os objetos ou acontecimentos sociais em grupos, que são equivalentes no que diz respeito as ações, intenções e sistemas de crenças do individuo” (p.290). Este processo se fundamenta na necessidade da criação de condições que permitam apreender nos diversos contextos sociais, elementos ordenadores da realidade que facilitam definir as fronteiras entre endogrupo e o exogrupo a fim de se construir a identidade social, derivado do conhecimento do seu grupo de pertença, o que facilita a elaboração de estereótipos que são um conjunto de crenças sobre os atributos inerentes a pessoas de um determinado grupo. Quando pensamos nos outros através de lentes estereotipadas, desenvolvemos expectativas e certas interpretações do seu comportamento, com base nos recursos simbólicos cria-se mecanismos de proteção. Os autores aludem que o grupo cigano tem sido alvo de ameaça de estereótipos associados a preconceito racial devido o sentimento de medo que grupo maioritário vive como impulsionador dos maus tratos relacionados aos ciganos, confirmando características presentes no imaginário social amplamente difundido acerca deste grupo social que tem sido considerado como ladrões, malfeitores e amaldiçoados. Adicionando-se a realidade da própria historia humana ser de conflitos, contada pelos rastros do confronto entre grupos de diferentes épocas, que visam criar e manter espaços do grupo de pertença. Para o esclarecimento sobre a raiz de atitude de medo entre o grupo maioritário, as mulheres rurais, os autores recorrem a Delumeau que a descreve de seguinte maneira: O medo se encontra na apreensão provocada entre pessoas que não se conhecem, ou que se conhecem mal, que vêm de fora, que não se parecem conosco e que, sobretudo, não vivem da mesma maneira que vivemos. Falam uma outra língua e têm códigos que não compreendemos. Tem costumes, comportamentos, práticas culturais que diferem das nossas, não se vestem como nós, não comem como nós, têm religião, cerimónias e ritos cujo significado nos escapa. Por todas essas razões, eles nos assustam e somos tentados a toma-los como bodes expiatórios em caso de perigo. Se uma desgraça acontece a uma coletividade, é por causa do estrangeiro.
O mundo polarizado pela ideologia política, raça, etnia, classes sociais moldam as identidades e a medida que se desenvolvem, os sentimentos vão sendo fortemente marcados por regras, normas sociais, valores, crenças bem como sistema de papéis, difundidos pelos grupos sociais de pertença que guiam comportamentos aumentando assim a autoestima e o senso de distinção do outro. Carvalho, Machado e Suyama (2002) assinalam que o desenvolvimento do ser humano ocorre através do confronto de ações, emoções motivações e significados, como elementos importantes na formação do carácter do individuo. Nesse sentido, o carácter é forjado a partir das práticas sociais vivenciadas decorrentes das interações, construídas em contextos históricos determinados pelos elementos culturais e das informações veiculadas pelos meios de comunicação social que provocam sentimentos de medo e insegurança. Fiorin (224) enfatiza que entre a difusão de uma cultura do medo, um sentimento individual e socialmente partilhado, referenciado por objetos sociais que são oferecidos às nossas relações cotidianas já interpretados e revestidos de uma ideologia que contribui para a discriminação.
O artigo enfatiza que o grupo cigano integra uma cultura que durante muitos séculos sofre de injustiças, preconceitos e perseguições, até os dias atuais, o reflexo de uma história de sofrimento e marginalização. Fatos recentes na Europa registram a perseguição à população cigana. Em países como Itália, Roménia e França, acampamentos de ciganos foram incendiados e os seus habitantes expulsos. O que ocorre são fatos de desumanização que continuam marcando negativamente a historia deste grupo humano. O desrespeito à cultura deste povo é identificado não só nos fatos acima citados, mas também nas tentativas de aculturação. Vaz (2005) alude que apesar da Constituição Federal brasileira garantir os mesmos direitos a todos que nascem no país, na prática eles são violados quando se trata de populações pertencentes a minorias étnicas, e com os ciganos, não é diferente. A realidade de exclusão que vive o grupo cigano, está relacionada com sentimentos de estereótipos e preconceito racial praticados pelo grupo maioritário enraizado nas crenças amplamente difundidas a partir dos grupos de pertencimentos.
Os objetivos do estudo foram: (1) conhecer alguns elementos que compõem os estereótipos presentes no imaginário rural acerca do grupo étnico cigano, bem como os sentimentos associados ao grupo. Tendo em conta que as relações entre grupos ciganos e não ciganos poderiam favorecer a apreensão mais nítida dos processos identitários; (2) verificar como o medo medeia a elaboração de identidades e práticas sociais de solidariedade e exclusão.
O estudo foi realizado numa população de 10 mulheres rurais não ciganas, com idades entre 34 e 67 anos; 09 casadas e 01 divorciada; 04 eram escolarizadas, 04 tinham o ensino primário e 02 o ensino fundamental; todas moradoras de uma mesma comunidade rural localizada no interior de um estado brasileiro. Os dados foram coletados através de entrevistas orientadas por um roteiro semiestruturado organizado em três módulos de informação: a) dados pessoais dos participantes; b) questões sobre o cotidiano da comunidade rural e c) questões contemplando o grupo cigano, tanto na dimensão representacional. O tratamento dos dados foi realizado através do sotwere ALCESTE.
Os resultados do estudo confirmaram que, os estereótipos compartilhados pelas mulheres rurais em relação ao ser cigano contêm uma série de características negativamente valorizadas: os ciganos são percebidos como sujos, amaldiçoados, pessoas que pedem, roubam, que buscam uma maneira fácil de ganhar dinheiro sem trabalhar, que enganam os outros e que viajam constantemente, não tendo uma moradia fixa; são tidos, portanto, como um povo de cultura estranha. Além demais os estereótipos entre mulheres rurais do grupo maioritário aumentam devido o poder místico atribuídas as mulheres ciganas que usam para amedrontar membros do exogrupo e, assim, conseguir o que desejam, constituem elementos que acabam por determinar o sentimento de medo neste caso particular de algumas mulheres rurais que preferem atender rapidamente aos pedidos das ciganas, visto que se não o fizerem podem ser amaldiçoadas. O estudo assinala que com base na teoria da identidade social, permitiu compreender como os indivíduos se posicionam em relação as suas redes de pertenças grupais, sempre motivados pela busca de uma autoimagem positiva, através de atribuição de valores positivos ao próprio grupo e consequentemente, valores negativos aos outros grupos identificados como opositores na inevitável comparação social estabelecida. Com base nos instrumentos constantes na constituição brasileira sobre esse grupo, e por outro lado a possibilidade de conhecer os membros do exogrupo sua organização, práticas e costumes, usando os recursos académicos disponíveis assim como as leis igualitárias de bom tratamento entre seres humanos que orientam as sociedades modernas, poderiam contribuir para reflexão positiva que diminuiria paulatinamente as práticas de exclusão do grupo cigano da convivência social. O artigo finaliza com uma importante questão a ser levada em conta é como agem os grupos os grupos definidos através de atributos negativos. A questão dos negros em um mundo racista, das mulheres em mundo machista, dos homossexuais em um mundo heterossexista ou mesmo dos ciganos como um dos grupos depositários do medo no mundo ocidental. Os interesses ideológicos em jogo nas sociedades e difundidos amplamente aparecem serem os panos do fundo que propiciam a prática de preconceitos, discriminação e exclusão social.
A pesquisa é interessante, leva os leitores uma reflexão crítica da realidade atual que necessita da busca permanente dos valores baseados nas leis igualitárias e justiça social para um bem-estar da humanidade na presente época. O artigo foi bem trabalhado e merece uma leitura completa.
Referência: Bonomo, M., et al. Mulheres ciganas: medo, relações intergrupais e confrontos identitários. 03, 10, 747-758, 2010.

Resenha: A Legitimação da Discriminação em Diferentes Contextos Normativos

Nilton Pedrett

Neste artigo os autores intentaram contribuir para literatura sobre os processos psicossociais da discriminação objetiva contra grupos minoritários. O questionamento que norteia o artigo é: como, em sociedades altamente normatizadas, democráticas e jucicializadas, onde a expressão preconceito é alvo dos rigores da lei, as minorias continuam sendo discriminadas? quais mecanismos estão atuando nos agentes, mesmo que a emissão de comportamentos preconceituosos sejam antinormativos?

Os autores analisam o problema sob o prisma dos autores que versam sobre as chamadas “novas expressões do preconceito”, assim como a hipótese da “legitimação da desigualdade”. Procedem desenvolvendo um modelo teórico sobre os mecanismos de legitimação em diferentes contextos normativos.

Chegam a conclusão que o preconceito “não estaria a diminuir” mas a emissão de comportamentos discriminatórios estaria sendo influenciada pela normatização antipreconceito. Logo, haveria uma espécie de migração de comportamentos explícitos por formas mais sutis de discriminação.

Ao analisarem as pesquisas com medidas explícitas e implícitas de preconceito, perceberam que as pessoas avaliam negativamente grupos minoritários, mesmo não emitindo comportamentos discriminatórios. Concluem que a persistência da discriminação não pode ser reduzida às medidas de atitude preconceituosa.

Ao citar o estudo de Tyler (2006), afirmam que os processos de legitimação do preconceito são “especialmente relevantes nas sociedades democráticas, na medida em que os comportamentos antinormativos […] necessitam ser legitimados.”. Os atores sociais precisam encontrar justificativas para seus atos, segundo Berger & Luckmann (1967). Em tais culturas, as pessoas integraram conceitos de liberdade e igualitarismo, que funcionam como supressores de pensamentos e comportamentos preconceituosos. Para diminuir o desconforto de se perceber como alguém francamente preconceituoso, buscam justificativas para seus preconceitos que não as faça senti-ser como tal e para não serem publicamente censuradas por agir como tal. Tal hipótese carece ainda de amplos testes empiricos, porém, apontam, são importantes para a compreensão dos mecanismos de funcionamento da pessoa.

Citam também a “teoria da dominancia social” de Sidanius e Pratto (1999), sobre os consensos sociais que legitimam as desigualdades e a hegemonia de um grupo sobre o outro.

À seguir exploram duas hipóteses: “O papel mediador de Fatores Justificadores” (H1) e “o papel moderador das normas sociais” (H2).

Na H1, há a idéia de que a relação entre preconceito e a discriminação é mediada por fatores justificadores da discriminação. QUanto mais forte for o preconceito, maior será a motivação para as pessoas encontraram justificadores para ele.

na H2: Propõe que nos contextos onde as normas antipreconceitos são salientes, a discriminação seria resultado de um “processo psicossocial” no qual o preconceito ativa ou facilita o uso de justificações que fazem com que a discriminação seja percebida como legitima e justa.

O artigo termina com um teste empírico realizado pelos autores, numa situação hipotética de contratação de um candidato negro a uma vaga numa loja e apresenta dados testando as duas hipóteses, em um estudo sobre a discriminação contra pessoas de cor negra. A conclusão foi de que a relação entre o preconceito e a discriminação do candidato negro foi mediada pela percepção de que sua contratação seria uma ameaça para os negócios da loja. Quanto maior o preconceito, maior a percepção da ameaça e, consequentemente, maior a discriminação contra o candidato negro.

Pereira, C. R.; Vala, J. (2011). A Legitimação da Discriminação em Diferentes Contextos Normativos. In Cultura e Produção das Diferenças: Estereotipos e Preconceito (pp. 363–404). Brasília: TechnoPolitik.

Resenha: O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente

Jerry Kambale Musema

A partir das experiencias vividas por Ferreira (2002), o autor no seu trabalhou buscou-se ampliar melhor o intendimento a respeito da construção da identidade afro-brasileira. Iniciando seu trabalho com as afirmações do especialista em denunciar os disfarces na aparências, Nelson Rodrigues de que o Brasil a muitos anos se fez acreditar que não existia a discriminação etnoracial, como já avia sido afirmado pelo próprio Ferreira no seus trabalhos ( 1999- 2000).
Percebe-se que a discriminação existe no Brasil, e esta enraizada em muitas pessoas; mas ainda sabendo da sua existência, a maioria não querem falar a seu respeito; segundo a Revista Veja (10.01.1996) e a Datafolha (Rodrigues, 1995), considerando suas pesquisas, afirmaram que a população Brasileira considera a discriminação como algo que o “outro” tem, e nunca com a própria pessoa.
Nesse mesmo contexto que o autor aponta o fato da palavra “moreno” que acaba parecendo “politicamente correto” mas no fundo, seria considerada como uma situação que demostra “uma estratégia simbólica de fuga de uma realidade em que a discriminação impera”. As classes dominadas procuram um espelho nas classes dominantes; e isso acaba dificultando a forma de se lidar com o preconceito racial que esta encoberta por “frases educadas”. Essa ideologia leva a uma preservação do problema, e consequentemente levando uma grande parte a acreditar que ela não existe e não há necessidade de ser enfrentada. É importante levar em consideração a analisa de Bauman (1999), “libertando das restrições morais a ação com um propósito, a modernidade tornou o genocídio possível” (p.58). Em nome da modernidade ouvi o grande massacre dos judeus; e isso acontece ainda nos dias de hoje, o exemplo dos índios no Brasil; podemos sitar também algumas das tribos na Africa que sofreram e ainda continuam sofrendo em nome da modernidade. Assim essas concepções da modernidade, tornou o africano no brasil como escravo, “o escravo em negro, e o negro numa pessoa destinada a ‘desaparecer’, em nome da constituição de um povo cordial e moreno”.
Na época do século XX o branqueamento era defendido por muitos pesquisadores brasileiros. Destacando no artigo uma das tristes colocação, pelo antropólogo Roquete Pinto em 1927, que fazia uma previsão em que “em 2012 a população brasileira seria constituída por 80% de brancos e 20% de mestiços, nenhum negro e nenhum índio”.  Nesse contexto o autor tenta mostrar três “condições” para o crescimento do preconceito e a forma que ela esta sendo expresso no Brasil: a primeira é de eliminação ou diminuição do chamado “diferente”; a segunda, pela concepção legitimado pelo processo histórico, e assim levando o Africano a ser escravizado e considerado apenas como objeto e não como ser humano; ultimo é inferiorização do negro a ponto de “prever sua extinção na constituição do povo brasileiro.”
Por ter essa referencia da identidade proveniente de um mundo branco, o negro começa a se desvalorizar, assim se vendo como sem valor. Salienta, Pereira (1987), “a escola é um lugar onde a criança alimenta subliminarmente a figura do negro caricatural”. A escola deveria ser o lugar onde as crianças poderiam aprender a sua verdadeira história que ajudaria a levantar seus auto-estimas, mas infelizmente, a escola tem ensinado a mesma história deturpada ‘eurocêntrica’ como tem feito a sociedade, assim ao em vez de resolver problemas existentes, acaba incentivando o negro aos valores do dominador, “valores brancos”.
Outro ponto importante a citar na “referencia de identidade no mundo branco” é o do padrão de beleza que é sempre proveniente do branco como referencial; dessa forma desvalorizando a beleza negra, a considerando como inferior e para se superar deve tentar chegar perto do padrão branco para poder ser visto como bela. Essa visão levou a maioria de nossos povos negros a uma baixa auto-estima; e com isso, o individuo começa a ter a impressão de não fazer parte de nem um grupo, de tal forma que não se dá seu valor como ser humano.
Em decorrência, desse tempo que o negro passa em conflito, muitas perguntas que quer ter as respostas, sem esquecer a discriminação sofrida. O autor chama essas fases de “experiências que destroem a funcionalidade da visão de mundo presente e, ao mesmo tempo, sugerem nova direção no sentido de uma transformação ou ressocialização”. Apos essas fases conflituosas, o afro-descendente passa por uma fase de “ intensa metamorfose pessoal” aonde ele vai deixando os velhos pensamento e vai construindo os novos com bases africanas. Para Cross (1991), essa nova identidade deve levar ao afro-descendente manter uma boa relação com as pessoas da sua cor, e também criar boas relações com pessoas de outras cores, mas mantendo o respeito a sua identidade.
Ao final do artigo, o autor apresenta mais uma vez os dois discursos que esta sendo propondo: um que aceita a existência do racismo, e outro o nega. Apesar dos dois, o mais importante é que o negro possa mostrar que a sua cultura é algo positiva e também combatendo a discriminação, tendo em mente que ela é uma luta continua. Além disso “enfatizar as nossas raízes nos currículos e reconstruir a história do processo de formação do povo brasileiro, não mais sob a ótica branca oficial, mas com uma visão mais abrangente.”
Referência: Ricardo Franklin Ferreira. O Brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do Afro-descendente; Psicologia & Sociedade; 14 (1): 69-86; jan./jun.2002
Disponivel em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v14n1/v14n1a05.pdf&gt;