Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais

Douglas Ramos Dantas

A música se constitui um fenômeno social, dependente de contexto, que forma atitudes, crenças pessoais e valores. A qual exerce função nas relações interpessoais. Desta forma, este artigo propõe esclarecer o palpe da música na atração interpessoal, escolha de parceiros e relacionamentos afetivos. Através de três procedimentos. Permitindo analisar a influência da música nas relações.

Música
Se institui um elemento universal, que exerce influências na sociedade e cultura. Que possui respectivas funções de dança, rezar, entre outras. Possibilitando a criação de cenários para o relacionamento humano. Culminando em associações estereotipadas a apropriados gêneros musicais.

Atração interpessoal
Se designa como um dos componentes que desenvolve a relações entre os pares. Ou seja, vínculos necessários para a manutenção da espécie e outros mecanismos grupais. Alguns fatores como proximidade, interação e exposição continua contribui para a origem da atração interpessoal.

Efeitos da música na atração interpessoal, escolha de parceiro e relacionamentos afetivos
Ilari debruça-se em analisar o papel da música nas relações na atração interpessoal e escolha de parceiro. Chegado a concluir que o gosto musical contribuir para a atração interpessoal. Todavia não apresenta efeitos positivos ou negativos na escolha de parceiros.
Na constatação dos estereótipos associados a gêneros musicais nos brasileiros já presentes nos americanos e europeus. Demonstrando haver estereótipos de personalidade, além de relações estereotipadas a estratificação social e status. Contudo salienta que estes resultados podem ser atribuídos a relação direta entre conhecimento musical e o gosto do participante em sua percepção da música.
Além de dedicar seu estudo na investigação da existência ou não de funções específicas na música. Permitido vislumbra quatro funções caracterizadas: artefato mnemônico, facilitadora de atividades que promovem a aproximação de indivíduo, fundo acústico e objetivos de excitação

Conclusão
A música desempenha uma relação peculiar na atração interpessoal, todavia não há efeitos diretos sobre a atração e escolha de parceiros. Este estudo possibilitou encontra estereótipos de personalidade em alguns gêneros musicais. Além de trazer um contra ponto a afirmação de Pinker. Ressaltando que a música constitui-se um fenômeno que possui um lugar de relevância o processo evolutivo.

Referência: Ilari, B. Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, 11, 1, 191-198.

Estereótipos e publicidade: raparigas de salto alto

Resenha – Estereótipos e destinos turísticos: o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo

Camila Leão

O artigo “Estereótipos e destinos turísticos: o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo” aborda um tema bastante interessante e presente no cotidiano de todos nós. Afinal, quem nunca escolheu o destino das viagens de férias tomando como referência as belas imagens postadas nos folhetos de turismo?As imagens atraentes e os dizeres encantadores presentes nesses folders das agências de turismo foram o foco do trabalho do professor Marcos Emanoel Pereira (Doutor em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Professor do Departamento de Psicologia da Universidade Federal da Bahia. Coordenador do Programa de Pós- Graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia.) e da pesquisadora Tula Ornelas (Bacharel em Turismo. Aluna especial do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Da Universidade Federal da Bahia. Coordenadora do Curso de Bacharel em Turismo da Faculdade Olga Mettig, Salvador, Bahia).Eles realizaram uma pesquisa analisando de forma descritiva trinta e cinco folders da agência de turismo Bahiatursa, a agência de fomento ao turismo do Estado da Bahia. Após essa análise, os pesquisadores encontraram algumas categorias de estereótipos que se repetiam em vários folders, com o intuito de atrair turistas para a Bahia. Os pesquisadores conseguiram encontrar cinco classes de poderosos estereótipos utilizados pela Bahiatursa referentes à Bahia e ao seu povo. São eles: “Terra da felicidade”; “Povo festeiro”; “Povo Hospitaleiro”; “Povo Mestiço”; “Povo religioso”.Pode-se notar, a partir da leitura desse artigo, o grande poder dos estereótipos para a economia turística. Uma concepção positiva sobre um povo que se torne amplamente compartilhada atrai lucros e investimentos. Por isso, cria-se todo um fetiche mercadológico que seja capaz de despertar a vontade de “estar lá” e de “ser como eles”. Os turistas buscam por experiências diferentes daquelas presentes no seu cotidiano (como o contato com belezas naturais, fugindo de um cotidiano urbano turbulento), e buscam o contato com pessoas agradáveis, receptivas, alegres. Assim como tudo presente no nosso habitat Capitalista, a Cultura e as características de um povo, juntamente com as belezas naturais de um local, passaram a ser um “acessório” que valoriza a venda de viagens.A teoria que alicerça a Psicologia Behaviorista, a qual afirma que um estímulo neutro, quando associado com um estímulo agradável e reforçador, imediatamente tornar-se-á um estímulo também reforçador, é bastante utilizada na construção desses folders de turismo. Um lugar como a Bahia, que pode ser visto como um estímulo neutro para muitas pessoas, quando associado às frases e às imagens positivas, torna-se um estímulo altamente reforçador. O emparelhamento de um lugar como a Bahia com sensações agradáveis, com pessoas receptivas e alegres, enfim, com estímulos positivos, valoriza a imagem do lugar.Um dos processos básicos do comportamento é a motivação, segundo Maslow e McGregor, teóricos da Psicologia. A motivação á um fator que impulsiona uma pessoa a consumir algo presente no mercado. Os donos de negócios juntamente com as empresas de marketing criam necessidades internas e externas e as incutem no psicológico das pessoas, que procurarão suprir tais “necessidades”. Eles criam também necessidades secundárias, que são aquelas que interferem na escolha de um produto, diferente das nossas necessidades primárias (como a sede, o sono, a fome, a proteção do corpo contra frio, calor e outros). Essas necessidades secundárias são aquelas que determinam qual marca de alimento, bebida ou roupa uma pessoa irá consumir. É a partir da criação dessas necessidades secundárias que uma pessoa atualmente escolhe um destino turístico.A imaginação do consumidor o faz acreditar que ele realmente necessita daquele produto, e ele vai agir de tal forma que consiga obter tal produto. O que leva uma pessoa a escolher o destino de sua viagem a partir do conteúdo dos folders de turismo, são também fatores motivacionais de cunho secundário, ou seja, não são essenciais para a sua sobrevivência, mas fazem parte de uma necessidade criada. Uma atitude positiva para um lugar, juntamente com estereótipos positivos para as pessoas nativas daquele lugar é essencial para a escolha de um destino turístico.O presente estudo do artigo foi importante na medida em que revela a força e o poder mercadológico dos estereótipos na valorização dos destinos turísticos. Vê-se a importância também do cuidado com o uso desses estereótipos, já que os mesmos influenciam no modo de ver tanto dos turistas quanto do povo nativo. Tanto os turistas como os nativos passam a compartilhar de tal maneira esses estereótipos, que acabam por assimilar as características atribuídas ao seu grupo social. E essas características acabam se cristalizando. Desse modo, a Psicologia deve não somente contribuir para ajudar a fomentar o turismo na Bahia, mas também aplicar-se mais intensamente no plano social e tentar levantar os possíveis impactos de todos esses estereótipos construídos que fazem parte do imaginário popular em relação à Bahia e ao seu povo.

Referência: Pereira, M. E. ; Ornelas, T. Estereótipos e destinos turísticos: o uso dos estereótipos nos folders de uma agência de fomento ao turismo. Caderno Virtual de Turismo, 17, 2005

Estereótipos e quadrinhos: ovni

Contribuição: Aline Costa

Notícia do dia: uniformes colegiais na Malásia

Matéria publicada pelo jornal The Star, da Malásia, relata as reações à condenação ao uso de uniformes “provocantes” por colegiais da Malásia. De acordo com a Associação Nacional dos Estudantes Islâmicos da Malásia os uniformes encorajam o sexo antes do casamento e as agressões sexuais. Clique aqui para ler a matéria

Resenha – A face oculta do racismo no Brasil: uma análise psicossociológica

chamada

Sheila Lima

O texto versa sobre as novas formas de expressão do racismo, uma vez que os seus atos explícitos são proibidos por lei. Os autores sugerem que existe na sociedade moderna um discurso contraditório, onde se reconhece a existência do racismo, mas individualmente não se assume a responsabilidade pelo mesmo. Para os referidos autores, os atos explícitos de discriminação racial e étnica estariam acabando, o que não significaria, contudo, que o preconceito racial o esteja. O que ocorre é uma mudança nas formas de expressão e conteúdo do preconceito, alterando, por conseguinte, a expressão de um racismo aberto e agressivo para outro que não desafia as normas sociais.

Muitas abordagens teóricas vêm tentar explicar essa nova modalidade de preconceito que não desafia as normas anti-racistas. Para os autores que abordam essa problemática (Katz, Wackenhut e Hass, 1986; MMcConahay, 1986; Pettigrew e Meertens, 1995; Meertens e Pettigrew, 1999; Vala, 1999), nos últimos 30 ou 40 anos as sociedades vêm desenvolvendo restrições institucionais à pratica discriminatória baseada nas diferenças de raça. Tais abordagens consideram que a diminuição do racismo é um fenômeno aparente, uma vez que as atitudes preconceituosas permaneceriam presentes em cada individuo. O que ocorreria é que a discriminação manifesta estaria sendo substituída por outras formas mais sutis.

Autores como Sears e Kinder (1971, apud Camino et al ,2001) propõem a teoria do racismo simbólico, cujo núcleo seria a afirmação de valores igualitários (de acordo com o Pós Modernismo) e, simultaneamente, a oposição às políticas que estariam de acordo com esses referidos valores. Um exemplo disso seria a política de cotas para ingresso na universidade, cujo ataque teria por base o argumento de uma igualdade de direitos para todas as pessoas, independente de sua origem.

Essa nova abordagem apresenta problemas metodológicos, uma vez que essas novas formas de preconceito se manifestam a partir de crenças e práticas distintas do racismo clássico. Para os autores, o foco dessa abordagem engloba a compreensão das características próprias de cada ambiente social a fim de construir em cada um desses contextos medidas adequadas, ou seja, não englobaria a construção de escalas a priori.

No que se refere ao aspecto conceitual, essa nova abordagem significa que as pessoas experimentam, consciente ou inconscientemente, “um conflito psicológico devido ao confronto entre suas atitudes íntimas preconceituosas e as normas sociais contra o preconceito” (Camino et al, 2001), o que levaria à construção de formas adequadas e capciosas de preconceito. Entretanto, esse conflito pode ter tido sua origem a partir dos argumentos que circulam na própria sociedade e não nos processos psicológicos individuais. Todavia, as concepções atuais sobre o preconceito utilizam uma abordagem individualista e processual, não adaptada aos fenômenos sociais ligados aos processos de exclusão, o que se configura como um elemento dificultador para a elucidação da referida problemática.

Os autores ressaltam que o processo de globalização e a conseqüente intensificação das relações entre diferentes culturas e etnias produz um fenômeno ambíguo: por um lado um maior respeito à diversidade dos valores culturais, e, por outro lado, o crescimento dos movimentos nacionalistas, provocando fenômenos de fanatismo e discriminação contra etnias e grupos minoritários. Além disso, o desenvolvimento econômico e tecnológico do capitalismo acentua a diferença entre ricos e pobres no âmbito individual e político.

Estudos atuais sobre grupos demonstram que nos países ocidentais o preconceito se expressa pela negação de traços positivos ao grupo-alvo, ao invés de atribuição de traços negativos ao mesmo. Isso sugere que as práticas discriminatórias estão adquirindo expressões cada vez mais tênues, a fim de preservar o ideal de não-discriminação dos grupos sociais a partir dos critérios de raça.

Numa pesquisa que atingiu todo o território nacional, Venturi e Paulino (1995, apud Camino et al ,2001)) constataram que 89% dos brasileiros reconheciam a existência de preconceito racial no Brasil, contudo, apesar dessa consciência, só 10% admitia ser pessoalmente preconceituoso. O fato do individuo não se reconhecer preconceituoso, por outro lado, não exclui a demonstração desse mesmo preconceito. Martiniano Silva (1995, apud Camino et al ,2001) argumenta que esse racismo seria muito mais engenhoso e mascarado, e, por conseguinte, mais eficiente em sua função de discriminar e mais difícil de erradicar.

Essa disparidade produz uma dissonância cognitiva que permite aceitar a existência social dos estereótipos negativos sobre os negros e, ao mesmo tempo, negar que a própria pessoa endossa tais crenças. Dessa forma, uma visão racial estereotipada tenderá a se manifestar mais facilmente quando essa mesma visão for atribuída a outros.

Os resultados da pesquisa realizada pelos autores apontam que estudantes atribuíram aos negros adjetivos como alegres e simpáticos, entretanto, esses mesmos estudantes acreditam que o povo brasileiro considera os negros como desonestos, agressivos e pouco inteligentes. Os resultados do estudo refletem o conflito no qual o brasileiro vive: a consciência da discriminação que o negro sofre e os laços criados pela miscigenação e as pressões politicamente corretas que impedem que o papel de cada um nesse processo de discriminação seja elucidado.

Mesmo existindo a manutenção de uma postura politicamente correta, fica claro o consenso de que a discriminação existe e que a mesma passa a ter novas justificativas mais aceitáveis socialmente. Um ponto relevante destacado é a formação de uma nova categorização social que vai substituir o conceito de raça e que seria fruto desse processo dissociativo: a adaptação aos valores modernos e progressistas. A ideologia neoliberal, portanto, nega a existência de uma hierarquia de raças, mas pressupõe a existência de diferenças no sentido do progresso econômico e social.

A cor da pele estaria associada a esse progresso: a cor branca estaria ligada aos valores progressistas do primeiro mundo e a cor negra aos valores tradicionais e menos avançados do terceiro mundo. Da mesma forma os negros teriam aptidões naturais relacionadas ao esporte ou às artes, enquanto que os brancos teriam aptidões intelectuais e para atividades ligadas ao poder. Essa nova forma de categorizar estaria de acordo com as normas anti-racistas, culminando na facilitação dos processos de exclusão, na preservação da discriminação racial e na retirada do sentimento de responsabilidade individual.

Embora possamos concordar que as manifestações públicas de racismo são severamente criticadas no espaço social, o mesmo se faz muito presente e se mostra cada dia mais forte, sendo preciso apenas analisar as estatísticas brasileiras para fins de constatação: os negros são aqueles que moram em situações menos favoráveis, os que possuem empregos com menor remuneração, que dependem de um sistema de saúde que, embora bem elaborado, não consegue atender a toda a demanda da população, além disso, estudos recentes apontam que epidemias como o HIV/AIDS têm sofrido uma pauperização, o que significa que esses índices têm crescido entre em negros e pobres.

Em outubro de 2005, Carlos Lopes, representante do Programa das Nações Unidades para o Desenvolvimento (PNUD) afirmou em entrevista quando indagado sobre a forma como o racismo se expressa no Brasil: “Quando se analisa a distribuição de recursos em termos raciais, desde que as estatísticas permitam essa desagregação, chega-se facilmente à conclusão de que há uma diferença entre brancos e negros. Se há melhora social no país, a situação dos brancos melhora mais. Quanto menos negros você tem em determinada zona, melhores os indicadores”. No mesmo mês, o relator especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de racismo e discriminação racial, Doudou Diène, considera em seu relatório de visita ao Brasil: “toda a sociedade está organizada a partir de uma perspectiva racista: os negros são excluídos de todos os setores da sociedade e confinados aos trabalhos difíceis, com baixos salários, e seus direitos básicos, incluindo o direito à vida, sendo violados”.

Esse relatório apresenta alguns dados estatísticos que nos fazem questionar até que ponto o racismo se apresenta de forma oculta ou mesmo se não seríamos nós, brasileiros, que fechamos os olhos para dados tão gritantes. Somente a titulo de ilustração, no referido relatório consta, por exemplo, que a renda média mensal de mulheres negras no Brasil, em 2003, foi de R$ 279,70, contra R$ 428,30 para os homens negros, R$ 554,60 para as mulheres brancas e R$ 931,10 para os homens brancos. Na Bahia, as mulheres negras recebem 40% do salário de um homem branco que exerce a mesma função. Além disso, a expectativa de vida de negros é menor (67,87) que a dos brancos (73,99). Segundo Diène (2005), isso demonstra a persistência do racismo e discriminação social de forma estrutural e sistêmica.

Quando consideramos tais dados e outros, infelizmente, tão comuns à nossa sociedade, não podemos deixar de considerar que, efetivamente, o povo brasileiro vive um processo dissociativo: todos esses índices nos são velhos conhecidos e, simultaneamente, cada dia fechamos mais os olhos para essa realidade. No final, o que resta é um “faz de conta”: todos nós sabemos que o racismo existe, mas não admitimos nossa contribuição para sua persistência e isso ocorre no mesmo momento em que a questão da desigualdade e, por conseguinte, a problemática do racismo deveria ser o elemento de discussão, reflexão e combate mais importante para cada brasileiro.

Referências

1. Camino, L., Silva, P. Machado, A. e Pereira, C. A face oculta do racismo no Brasil: uma analise psicossociológica. Revista Psicologia Política, 1, 1, 13-36, 2001.

2. Relatório do relator especial sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada, Doudou Diène, em sua missão no Brasil (17-26 de outubro de 2005) disponível em http://www.irohin.org.br/imp/n15/07.htm.

Relatório de Doudou Diène terá impacto no sistema ONU no Brasil? Disponível em http://www.irohin.org.br/imp/n15/07.htm.

Noites do interior

Artigo publicado por Janio Ferreira Soares, no Terra Magazine, apresenta uma sensível reflexão sobre o início dos festejos em homenagem a Santo Antonio e a importância destas festas na atualização das lembranças e memórias, assim como na formação e preservação da identidade da gente do interior nordestino. Clique aqui para ler o artigo.

Estereótipos e música: Jesus Negão

Contribuição: Rafael Oliveira

Resenha: Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental

Carol Aguiar

Os estereótipos se constituem no conhecimento e nas crenças que um indivíduo tem acerca de um grupo social. A aplicação dos estereótipos é bastante convidativa aos percipientes sociais na medida em que oferece um tratamento simplificado das informações, evitando uma sobrecarga cognitiva, e auxilia a dar sentido ao complexo ambiente social. Por outro lado, os estereótipos podem ter implicações prejudiciais, já que substituem uma avaliação individualizada. Por esse último aspecto, as crenças estereotípicas são condenadas em diversas situações, o que leva os indivíduos a buscarem estratégias para suprimi-las.
Nesse artigo, a autora tem por objetivo discutir se é realmente possível a supressão dos julgamentos estereotipados ou se eles, por se tratarem de um processo tão natural e até inevitável, não podem ser colocados sob controle consciente. Para isso, inicialmente são apresentadas evidências de que a tentativa de controle mental para a supressão dos estereótipos não só falham no seu objetivo como pode resultar no seu oposto. Em seguida, são colocadas características moderadoras da supressão dos estereótipos e, por fim, são apresentadas estratégias alternativas que têm se revelado eficazes como mecanismos de controle da expressão dos estereótipos.
Os mecanismos de controle mental: A tentativa de banir os pensamentos estereotipados da mente pode conduzir a efeitos indesejados. Essa perspectiva parte do pressuposto de que para que o indivíduo seja capaz de detectar pensamentos que deseja banir, ele precisará, num primeiro momento, estar consciente desses pensamentos, o que trará como consequência a hiperacessibilidade dos mesmos. Em consonância com essa vertente de pensamento, pesquisas têm mostrado que a tentativa de controlar um determinado pensamento pode fazer com que este fique mais acessível do que se a tentativa de supressão não tivesse ocorrido. Assim, por exemplo, uma série de estudos conuzidos por Macrae et al (1994, apud Bernardes, 2003) sugere que os pensamentos estereotípicos, uma vez suprimidos, retornam à consciência e exercem impacto nas avaliações e comportamentos dos indivíduos em relação a outros grupos sociais. Esse efeito irônico da supressão dos estereótipos foi denominado de efeito de richochete (ERE). O conhecimento da existência do efeito de ricochete pode nos conduzir à seguinte indagação: até que ponto as campanhas que buscam diminuir a expressão do preconceito são eficazes no seu objetivo ou, ao contrário, são contraproducentes, tornando os pensamentos preconceituosos ainda mais acessíveis?
Influências moderadoras da supressão – limitações ao ERE: neste ponto do artigo, o ERE deixa de ser entendido como um efeito inevitável e alguns fatores moderadores são apresentados. Em primeiro lugar, a atitude individual acerca da estereotipização é colocada como o fator de moderação mais importante. Sugere-se, portanto, que pessoas que condenam a estereotipização tendem a apresentar as consequências indesejadas da supressão em menor grau do que aquelas que não condenam. Outro fator moderador é especificamente qual estereótipo está a ser suprimido. Sobre esse aspecto, nota-se que há uma diferença significativa entre as consequências da supressão de estereótipos acerca de grupos para os quais existem fortes normas pessoais e sociais contra a estereotipização e acerca de grupos para os quais não há normas claras e difundidas. Um terceiro fator moderador da supressão bastante significativo se refere à motivação dos indivíduos para inibir o estereótipo. Dessa forma, mesmo que indivíduos com baixo nível de preconceito tenham os estereótipos ativados, eles podem ser bem sucedidos em evitar o subsequente ERE já que estão instrinsecamente motivados para controlar as suas reações estereotípicas.
Estratégias alternativas à supressão dos estereótipos: A supressão dos estereótipos não é o único recurso a que os indivíduos que desejam evitar julgamentos estereotipados podem recorrer. Uma outra possibilidade é a substituição dos pensamentos estereotípicos por outros, ou seja, mais do que suprimir os pensamentos indesejados, esses pensamentos podem ser substituídos por crenças igualitárias que desconstruam a visão estereotipada. Outra estratégia possível se refere à individualização do alvo, que se constitui na procura por informações individualizadas sobre o alvo e a tentativa de formar as impressões a partir dessas informações.
Considerações Finais: A utilização dos estereótipos no cotidiano é inevitável. Caso contrário, em qualquer situação social, teríamos que avaliar uma quantidade muito superior de informações do que a nossa capacidade cognitiva está preparada para fazer. Como consequência, as tomadas de decisão rápidas não seriam possíveis. Entretanto, em aglumas situações, a estereotipização torna-se um recurso que distorce a realidade e, por essa razão, é socialmente condenada. Para evitar os julgamentos preconceituosos, a supressão ainda é a estratégia dominante. Por essa razão, torna-se de grande importância que os efeitos indesejados por ela acarretados, assim como seus fatores moderadores, sejam conhecidos para evitar que mecanismos desenvolvidos visando à diminuição dos preconceitos acabem tendo um efeito eliciador ou potencializador dos mesmos.

Referência: Bernardes, D. Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental. Análise Psicológica. 21,3, 307-321, 2003.

Estereótipos e humor: terremoto no Ceará

Depois dos terremotos ocorridos na Ásia, o Governo Brasileiro resolveu cobrir todo o país. O então recém-criado Centro Sísmico Nacional, poucos dias após entrar em funcionamento, já detectou que haveria um grande terremoto no Nordeste do país.

Assim, enviou um telegrama à delegacia de polícia de Icó, uma cidadezinha no interior do Estado do Ceará. Dizia a mensagem:

“Urgente. Possível movimento sísmico na zona.
Muito perigoso. Richter 7.
Epicentro a 3 km da cidade.
Tomem medidas e informem resultados com urgência.”

Somente uma semana depois, o Centro Sísmico recebeu um telegrama que dizia:

“Aqui é da Polícia de Icó:
Movimento sísmico totalmente desarticulado.
Richter tentou se evadir, mas foi abatido a tiros.
Desativamos as zonas. Todas as putas estão presas.
Epicentro, Epifânio, Epicleison e os outros cinco irmãos estão detidos.
Não respondemos antes porque, logo depois, houve um terremoto da porra por aqui e não fomos avisados….”