Resenha: o brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afrodescendente

Ominlandê Onawale Lima

O artigo mostra de forma explícita a concepção do racismo no Brasil. Na visão do especialista Nelson Rodrigues, o preconceito racial existente no nosso país é velado, e isso acaba “cegando a população”, a qual acredita veementemente que o país vive uma democracia racial.
O preconceito no Brasil, justamente por ser tão mascarado, revela-se capaz de alienar as pessoas a pensarem de modo conformista, de modo em que se não é percebido, não há o que ser combatido. Dessa forma, na visão do autor Ricardo Ferreira, cria-se uma dificuldade inclusive no estabelecimento de leis para coibir tais ações racialmente preconceituosas.
A grande questão é que o racismo presente na sociedade brasileira esconde-se atrás de termos como “moreno”, “denegrir”, entre outros. A forma com que ele é acobertado é algo repugnante, e ainda mais desastroso é perceber que a população parece inerte em meio a tanta ilusão.
É importante enfatizar que o passado de escravidão torna-se causa direta do que acontece atualmente, no sentido de estabelecer uma visão eurocêntrica como dominante nos mais sutis aspectos do nosso dia-a-dia. Aspectos estes, que parecem se tonar invisível aos olhos da maioria da população, exceção feita a determinadas organizações raciais que lutam para reverter tal situação.
Portanto, o artigo gira em torno de nos conscientizar quanto à existência do racismo no Brasil. Muitas vezes manipulado, ele acaba por se esconder em diversas faces, as quais são veladas pelos setores mais influentes da nossa sociedade. Cabem a nós, cidadãos, compreendermos a real existência de tal problema e percebermos maneiras de enfrentá-lo, sem nos deixar influenciar pelas camadas mais altas, que persistem em ocultá-lo.

Referência: Ferreira, R. F. O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente. Psicologia & Sociedade, 14, 1,69-86, 2002.

Resenha: a expressão das formas indiretas de racismo na infância

João Raphael Gomes da Silva Oliveira

O ponto inicial do artigo é uma observação crítica sobre o quanto a expressão do racismo nos adultos se apresentou na sociedade a partir da primeira metade do século XX e de que maneira ele continua se manifestando na contemporaneidade a partir das crianças. As autoras procuram levantar as formas indiretas de racismo na infância, levando em consideração que esse estudo apresenta carência de análises sobre esse tema.
Levando em consideração as novas formas de preconceito e racismo dos adultos, encontra-se no artigo teorias do racismo: ambivalente (resultado do conflito dos americanos brancos em relação aos americanos negros), a teoria do racismo simbólico (que afirma que atitudes contra os negros decorrem de ameaça aos valores do individualismo) e a teoria do preconceito sutil (que distingue duas formas de preconceito: o sutil e o flagrante). Todas as teorias citadas nesse parágrafo analisam aspectos do racismo velado. Porém, a teoria que busca ser enfatizada é a teoria do racismo aversivo. Segundo essa teoria, os contextos de resposta do indivíduo diante de uma possível situação de preconceito são o que determinam as expressões mais abertas ou veladas do racismo.
Através de alguns experimentos, tomando como base os estudos de Dovidio e Gaertner, foi possível chegar a conclusão de que quando a norma anti-racista está amostra a discriminação não se manifesta. De acordo com pesquisas de outro estudioso sobre expressões do Racismo Moderno (McConahay, 1986), a manifestação do racismo depende de quem pergunta e de quem é perguntado como em uma entrevista, por exemplo. Alguns desses estudos foram replicados e os resultados sustentaram que a norma social anti-racista se manifesta hoje de forma indireta ou encoberta.
Observamos que em determinado momento da infância a criança evolui de uma fase egocêntrica, para uma fase de sociocentrismo, em que os julgamentos sociais se baseiam na categorização e percepção de semelhanças e dessemelhanças entre grupos sociais, tudo isso por volta dos 7-8 anos que é quando as crianças, segundos os pesquisadores, reconhecem termos de tolerância e comportamento. No primeiro estudo os resultados indicaram não existir efeito do gênero sobre a discriminação. Foi observado que tanto as crianças mais novas quanto as mais velhas recompensavam mais o branco do que o negro num objetivo que buscava investigar o efeito do contexto de igualdade ou diferenciação sobre a expressão das formas indiretas de racismo levando em consideração a função da idade.
Em um segundo estudo, com a finalidade de verificar a influencia de uma norma anti-racista entre crianças brancas e negras, verificou-se que em um cenário de entrevistas a ausência da entrevistadora negra desativava os conteúdos da norma anti-racista e as crianças brancas acabaram expressando o preconceito apesar de ter relação com as crianças negras. Em outras palavras, o que tem buscado saber é se nas idades em que as crianças apresentam racismo de forma direta elas estão buscando uma análise sob o efeito de se mostrarem igualitárias. Em um terceiro experimento, foi verificado que na faixa etária de 5-7 anos, as crianças ainda não adquiriram ou interiorizaram a norma anti-racista, ao contrario das crianças que tem mais de 7 anos de idade que apresentaram ter o mesmo padrão de preconceito das suas mães.
Portanto, podemos concluir, através desses três estudos e levando em consideração as vertentes teóricas citadas acima que as novas formas de racismo tem-se confirmado como expressões sutis e indiretas por meio de reflexo das pressões das normas sociais anti-racistas sobre o indivíduo. Ficou claro que a partir dos 8 anos, nas crianças brancas, de acordo com o estudo, ocorre uma interiorização da norma anti-racista. O que também foi verificado é que em crianças mais velhas o comportamento discriminatório passa cada vez mais a se expressar de modo indireto e distante da punição social e que o processo de mudança para essa situação merece ter como ponto de início o estudo sobre como isso infere no processo de interiorização desse tipo de normas sociais e como tudo isso se configura a partir dos 8 anos de idade.

Referência Bibliográfica: França, D. e Monteiro, B. A expressão das formas indirectas de racismo na infância. Análise Psicológica, 22, 4, 705-720, 2004.

Resenha: estereótipos e mulheres na cultura marroquina

Victoria Dourado

O tema a ser tratado se refere ao artigo: “Estereótipos de mulheres na cultura marroquina”, escrito por Fatima Sadiqi e publicado em 2008. O texto se inicia com o tópico “introdução” e apresenta como ponto de partida a explicação de que, inicialmente, o termo “estereótipo” dizia respeito a um molde de impressão usado para reproduzir cópias de um único modelo. Ainda na introdução, o texto traz que no Marrocos os estereótipos são expressões de crenças e valores, mais tarde demonstradas pela autora como inconscientes visto que resultam de uma programação cultural, no caso, a marroquina. O texto se organiza em torno de três tópicos didaticamente elaborados para esclarecer as emblemáticas relações de gênero no contexto islâmico: a primeira aborda os principais componentes da cultura marroquina, a segunda se ocupa dos estereótipos e relações de gênero e, por último, discute às reações das mulheres frente aos estereótipos negativos.

O texto faz uso da explicação de que a cultura é um sistema de práticas, rituais e crenças de uma determinada comunidade que, em níveis diferentes, exerce controle sobre o comportamento de seus membros para afirmar que a cultura marroquina é extremamente reguladora no que diz respeito às percepções de gênero e delimitação de papéis e, faz isso porque possui instituições sociais influentes, as quais são elencadas pela autora: história, geografia, Islã, oralidade, multilinguismo, organização social, status econômico, e sistema político.
Dentre elas, se destaca a história nacional do Marrocos, tradicionalmente oral, que tem sido oficializada exclusivamente por homens e às mulheres, em sua maioria, são analfabetas, resta-lhes à subordinação consequência do viés masculino emprestado à história – amplamente valorizada pelo Estado e pelo sistema educacional – que, ao retratá-las como inferiores aos homens as mantêm marginalizadas. O fator geográfico também se sobressai tendo em vista que, pela localização próxima ao continente europeu, o Marrocos permitiu uma relativização da tradição patriarcal, na medida em que foram assimilados elementos tipicamente europeus que possibilitaram uma atitude mais favorável aos papéis de gênero.
Tendo em vista o aspecto cultural do Islã, evidencia-se a aproximação do discurso feminista das expressões típicas dessa tradição, a fim de inserir o gênero feminino no contexto que lhe é próprio: a sociedade islâmica.
Tal cultura difere da sociedade ocidental, pois a oralidade é um importante instrumento de transmissão de valores positivos e negativos, nesse sentido, essa oralidade se constitui como o modo mais corriqueiro de transmitir os estereótipos sobre as mulheres. Ao mesmo tempo, a oralidade possui também um caráter marginal, uma vez que, é repassada através das línguas maternas de pouco prestígio: berbere e árabe marroquino. A oralidade, em seu aspecto vulgar, está intimamente relacionada com a característica das mulheres marroquinas que analfabetas são mantidas alheias ao contexto sócio político cultural. Atrelado a isso, o multilinguismo é tido como característica formadora da identidade marroquina e está associado à classe social e nível de educação. Nesse cenário linguístico, as mulheres monolíngues – ou seja, que falam apenas berbere ou árabe pertencem a classes menos favorecidas, ressaltando, mais uma vez, a faceta marginal da oralidade. Em contrapartida, essas mulheres se apresentam como bem-sucedidas em suas atividades rotineiras.
Por fim, a organização social impõe na percepção e na construção de gênero uma grande influência. Os papéis sociais de homens e mulheres são rigidamente assegurados pela significação que a família, estruturalmente patriarcal assume nesse contexto. Inclui-se ao sistema patriarcal a exclusão das mulheres. E, para que a estrutura se mantenha, é necessário que sejam impostos tabus, sanções e rituais (expressos principalmente pelo uso da linguagem) que restrinjam a liberdade feminina uma vez que é considerada uma ameaça ao status quo masculino.
Tendo como base que a família é onde começa a socialização, apesar da diversidade social entre as mulheres marroquinas, os estereótipos de fracas, emocionais, más, trabalhadoras, pacientes e obedientes. O desenvolvimento dessa estereotipagem ocorre de modo inconsciente. Os estereótipos se propagam devido ao caráter de presumibilidade. Isso ocorre através dos processos de difusão e insistência. A validade e o alcance do estereótipo, portanto, estão relacionados a possibilidade de atingir a sabedoria social numa sociedade. Os estereótipos de gênero marroquinos são propagados através da linguagem oral, manifestada em verbetes e provérbios, tais como: “a mulher é fraca” e “a mulher é uma víbora”. Tais expressões são tentativas de transmitir, principalmente aos homens, os valores de depreciação da mulher.
Esses estereótipos podem ser explícitos ou implícitos. Os explícitos evidenciam uma atitude positiva em relação à atividade doméstica da mulher, mas desqualificam a sua atuação como líder feminina. São exemplos, os provérbios populares: consulte sua mulher, mas não leve sua opinião em consideração e a mente de uma mulher é pequena. Essas expressões demonstram a intenção de neutralizar o poder transgressor da opinião e da voz femininas.
Os estereótipos implícitos são reconhecidos nos comportamentos e nas falas, de modo inconsciente e espontâneo caracterizando as mulheres como: fracas líderes, conselheiras irrelevantes ou interlocutoras desinteressantes, nas temáticas religiosas ou sociais.
Outra classificação subdivide-se em estereótipos negativos ou positivos. Os positivos não geram problemas preocupantes às mulheres. Os negativos, contudo, criam preconceitos e compõe a imagem da mulher frente à coletividade. A maioria dos estereótipos marroquinos é negativa. Em comparação às ideias e conceitos acerca do homem, as características atribuídas às mulheres são, majoritariamente, negativas. É comum observar expressões populares orais que utilizam elementos alusivos à mulher, a fim de transmitir conteúdos pejorativos. São exemplos: “mercado de mulher”, para significar algo sem valor e “trabalho de mulher”, para indicar que algo foi mal-feito.
É importante destacar o estereótipo relacionado à “linguagem da mulheres”, difundido graças ao dualismo homem/líder e mulher/subordinada. Esse estereótipo define que a comunicação oral feminina é vazia de conteúdo e emitida em tons muito agudos e altos. Assim, as mulheres falariam em demasia e sobre assuntos doméstico e irrelevantes para a sociedade.
A fala da mulher marroquina também está ligada ao estereótipo do “mau-olhado”. Isso representa que quando algum evento com efeitos prejudiciais ocorre após conversar com uma mulher ou ter-lhe como companhia, atribui-se o dano ao poder de sua influência. Esse estereótipo atinge as mulheres velhas, divorciadas ou viúvas. Destaca-se que os homens com essas características são vistos como maridos em potencial, excluindo-se o caráter pejorativo. Esse estereótipo se refere à tentativa de neutralizar o papel social e a manifestação da opinião dessas mulheres, as quais apresentam maior liberdade para transmitir ideias e optar por comportamentos alternativos.
Há ainda a visão pejorativa de que as mulheres devem trabalhar arduamente para adquirir respeito e relevância sociais. A meninas são ensinadas a trabalhar, a fim de estarem aptas a encontrar um bom marido. Exige-se que a mulher, além de submissa, seja, também, uma exemplar chefe doméstica. Relação paradoxal de características, exigindo maiores sacrifícios.
As marroquinas reagem à estereotipagem a partir da afirmação um contratipo, isto é, um estereótipo positivo que substitua aquele pejorativo. Contratipos, contudo, são estereótipos e, portanto, são representações frágeis e superficiais de um grupo social. Opta-se, também, por reivindicar oportunidades de representações políticas femininas, a fim de opor à opinião de que as mulheres não são boas líderes ou que não possuem condições construir opiniões e posições relevantes. Deve-se, também, combater a simplificação das características femininas, expressão da ideologia da superioridade masculina, criando a necessidade de compreensão das peculiaridades. Demonstra-se que os estereótipos podem ser bastante prejudiciais à coletividade de homens e de mulheres e ao sucesso no contexto das organizações. Sendo assim, se faz evidente que a construção dos estereótipos relativiza a heterogeneidade e complexidade inerente às mulheres do Marrocos.

Referência: Sadiqi, F. Estereótipos e mulheres na cultura marroquina. Cadernos Pagu (30), 11-32, 2008.

Resenha: mujeres musulmanas – estereotipos occidentales versus realidad social

Juliana Costa Santos

O artigo de uma temática bastante contemporânea e desconstrói conceitos que estão presentes no imaginário de boa parte da população. A autora, Djaouida Moualhi, já nos primeiros parágrafos, coloca-se como personagem da sua própria história: mulher, muçulmana, imigrante e magrebe. Este ultimo termo se refere à região no noroeste da África, onde existe uma concentração de países islâmicos, como é o caso do Marrocos, da Tunísia e da Argélia.
No começo da sua explanação ela traz à tona alguns tipos mais comuns de estereótipos que os ocidentais tem em relação aos muçulmanos e as suas condições de vida, com foco nas questões femininas. Aos poucos ela demonstra como algumas tradições muçulmanas são vistas pelos ocidentais e as consequências dessa visão, sempre fazendo um paralelo com o Cristianismo. Um exemplo é o pensamento de que os muçulmanos são fanáticos e muitas vezes violentos. Segundo a autora esse discurso teve seu começo na época das cruzadas (Robinson, 1990: 18 apud Moualhi, 2000). De acordo com Moualhi (2000), este pensamento remete ao século XIX, quando a maioria dos países árabes e muçulmanos estavam sendo colonizados por potencias ocidentais. Neste momento a sua religião era a maior forma de expressão e resistência, o que levou os colonizadores a demonizarem e condenarem a prática. Outros exemplos citados são o uso do véu, a poligamia e a clitoridectomia (retirada do clitóris).
Na seção seguinte, a autora se dedica a falar detalhadamente sobre os exemplos citados anteriormente, desmistificando cada um deles e apresentando alguns fatos. Em relação ao uso do véu, ela cita o pensamento ocidentalizado de um autor, que define como “símbolo por excelência da marginalização e da alienação” (Manyer, 1996: 67, apud Moualhi, 2000). No entanto ela diz que mulheres que usam véu não atrapalham a sua emancipação, já que o veem como símbolo de elegância e preservação, e não de repressão. Este é um tópico bastante interessante, visto que, aqui no Brasil, é comum observar o discurso criticado pela autora e tantos outros que mobilizam a população em prol de uma luta contra a repressão de mulheres pelo uso do véu, quando na realidade, boa parte das pessoas “compra a briga” sem saber se a “parte interessada” de fato se sente como pensamos. O mesmo funciona para a clitoridectomia, uma prática existente apenas em alguns países de cultura islâmica, mas que surgiu muito antes do islamismo, Lerner (1990), citado por Moualhi (2000) apresentou a existência deste tipo de prática entre egípcios, fenícios, gregos, etc. Segundo algumas culturas que praticam este ato, trata-se de uma circuncisão feminina, com motivos diversos como: higiene, sacrifício, etc.
Apesar de trazer a realidade sobre alguns estereótipos, a autora também aproveita para falar da existência de graves acontecimentos machistas e discriminatórios na cultura islâmica, como a dependência e subordinação da esposa em relação ao seu marido e como as leis o favorece em caso de separação, custódia dos filhos, etc. No entanto, criticando ou não a cultura, ela deixa bastante claro que essas práticas e suas “regras” não são universais. Ainda que exista apenas um Alcorão e um Charia (espécie de livro de “leis” islâmicas), as interpretações são diversas e as leis também. Cada país pode agir de uma forma diferente. Algumas práticas são comuns em alguns países de cultura islâmica, enquanto podem ser condenadas em outro. A visão unificada sobre o mundo islâmico, segundo Moualhi (2000), faz parte do etnocentrismo ocidental.

Referência: Moualhi, D. Mujeres musulmanas: estereotipos occidentales versus realidad social. Papers, 60, 291-304, 2000. Disponível em: http://ddd.uab.es/pub/papers/02102862n60/02102862n60p291.pdf

Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

Thianne Passos Luz

O artigo “As novas formas de expressão do preconceito e do racismo” de autoria dos doutores em Psicologia Social Marcus Eugênio Oliveira Lima e Jorge Vala traz os conceitos de novas e sofisticadas formas de expressão de preconceito e racismo na contemporaneidade. Essas formas se diferenciam de maneiras antigas de discriminação na medida em que são mais sutis e encobertas.

Iniciando seu texto com uma citação de J.J. Rousseau, Lima e Vala explica que o preconceito e o racismo parecem ser tão antigos quanto são as relações de poder entre os homens e a necessidade de justificação destas. Desde a antiguidade greco-romana já existia um preconceito de base cultural contra os escravos. No entanto, desde então até a os dias de hoje as sociedades modificaram consideravelmente suas formas de expressão de preconceito e de racismo. Depois da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, mudanças sociais, econômicas e políticas ocorreram em todo o mundo, como as críticas ao regime nazifascista, a Declaração dos Direitos Humanos (1948), a condenação da UNESCO às classificações raciais (1950), as lutas pelos direitos civis no EUA entre outros movimentos que foram imprescindíveis para que surgissem novas formas de expressão de preconceito e racismo, apesar de tudo isso possivelmente ter criado uma aparente atmosfera de igualdade, liberdade e fraternidade entre todos.

Os autores apontam para um fato interessante. Preconceito e racismo sempre foram percebidos como problemas do outro. Pesquisas realizadas por Turra e Venturi (1995) mostram que 89% dos pesquisados afirmam que existe racismo no Brasil, mas apenas 10% admitem ser racistas. Ainda são mencionadas pesquisas feitas na Europa, Estados Unidos da América e Austrália. Na distinção entre preconceito e racismo, o primeiro conceito é explicado através da definição de Gordon Allport (1954), como uma atitude hostil contra um indivíduo, simplesmente porque ele pertence a um grupo desvalorizado socialmente. O segundo termo é classificado como mais do que uma atitude, constitui-se num processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo ou toda uma categoria social que é definida como diferente com base em alguma marca física externa (real ou imaginada), a qual é ressignificada em termos de uma marca cultural interna que define padrões de comportamento (Lima e Vala, 2004).

Fazendo uma breve contextualização histórica do racismo, e baseado em pesquisas, os autores identificaram as seguintes novas formas de expressão de preconceito e racismo: o racismo moderno na Austrália e nos EUA (McConahay & Hough, 1976; Pedersen & Walker, 1997), em que admite-se que a desigualdade não é decorrente de questões sociais e sim econômicas, a inferioridade social é explicada a partir de crenças de fundamentação biológica; o racismo simbólico nos EUA (Kinder & Sears, 1981), que se baseia em sentimentos e crenças de que os negros violam os valores tradicionais americanos do individualismo ou da ética protestante nos EUA; o racismo aversivo também nos EUA (Gaertner & Dovidio, 1986), seria o tipo de atitude racial que caracterizaria americanos brancos que têm fortes valores igualitários, mas que apresentam uma certa ambivalência, resultante do conflito entre sentimentos e crenças associados a valores igualitários e sentimentos negativos com relação aos negros; o racismo ambivalente nos EUA (Katz & Hass, 1988), que se caracteriza por atitudes contra (fundamentada na ética protestante de trabalho árduo, realização pessoal e disciplina) e favoráveis (fundamentadas no igualitarismo e no humanitarismo) que coexistem nos indivíduos.
Foi identificado também o preconceito sutil na Europa (Pettigrew & Meertens, 1995) que seria aquele mais frio e indireto, uma forma mais velada de preconceito e que possui três dimensões: defesa dos valores tradicionais, exagero das diferenças culturais e a negação de emoções positivas caracterizada pela rejeição à expressão de simpatia e admiração com relação aos membros do exogrupo; e o racismo cordial no Brasil (Turra & Venturi, 1995) que é definido como uma forma de discriminação contra os cidadãos não brancos (negros e mulatos), que se caracteriza por uma polidez superficial que reveste atitudes e comportamentos discriminatórios, que se expressam ao nível das relações interpessoais através de piadas, ditos populares e brincadeiras de cunho “racial”.
“As novas formas de expressão do preconceito e do racismo” é muito interessante para um esclarecimento de que o preconceito e o racismo estão presentes no dia-dia de todos, em vários lugares do mundo. Os autores deste artigo concluem pontuando que a conceituação e classificação das novas formas de preconceito e racismo existentes hoje demonstram que sua identificação é complicada e também difícil de ser combatida. Mas o combate é necessário, pois não é porque o preconceito e o racismo são expressos de forma menos explicita que antigamente que eles não tragam danos à sociedade e a quem sofre com eles.

Referência: Lima, M. E. e Vala, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos em Psicologia (Natal), 9, 3, 2004

Resenha: Dialética das relações raciais

Núbia dos Santos da Hora

Apesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.

O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história. Apesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.
O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história, se transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado.pesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.
O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história, se transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado. transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado.

Referência: Ianni, O. Dialética das relações raciais. Estudos Avançados, 2004, 18, 50,21-30.

Resenha: A expressão das formas indiretas de racismo na infância

Tainah Santos

Há uma carência de estudos que analisem as formas sutis e indiretas de racismo na infância, inclusive as autoras do texto conseguem demonstrar claramente isso através de seus estudos. De acordo com o artigo, a teoria que faz a abordagem cognitiva do desenvolvimento do racismo na infância está equivocada ao afirmar que o preconceito infantil reduz a partir de uma determinada idade.

Existem diversas teorias sobre as formas de expressão e racismo contemporâneo, porém com pesquisas realizadas em adultos. E o estudo encontrado sobre preconceito racial infantil está baseado na abordagem cognitiva do desenvolvimento do preconceito na infância, este afirma que o preconceito na infância reduz a partir de uma determinada idade e a análise desse estudo conclui ainda, que o preconceito na infância reduz precisamente após os sete anos. Contudo, a pesquisa realizada pelas autoras do artigo mostra que o preconceito na infância não reduz a partir de uma de uma determinada idade, ele apenas se expressa de forma diferente: sutil e indireta. Então, três estudos foram realizados pelas autoras no sentido de verificar o preconceito e sua expressão de acordo com a idade. Os estudos foram feitos em crianças brancas sergipanas que foram separadas em dois grupos de faixa etária diferentes: 5 a 7 e 8 a 10 anos. A pesquisa mostrou que as crianças com idade de 5 a 7 anos não adquiriram ainda a norma anti-racista e por isso demonstram racismo explícito. A norma anti-racista traz valores que engrandecem a igualdade de direito entre pessoas e as crianças são ensinadas a respeitar o outro independente de sua etnia. Já as crianças a partir dos 7 anos de idade por terem absorvido mais essa norma anti-racista do seu endogrupo de referência, racalcam e reprimem a manifestação racista. Na realidade as crianças continuam expressando comportamentos discriminatórios após os 7 anos de idade, porém de forma indireta e sutil por causa da interiorização da norma anti-racista e dos limites sociais. Essas crianças após os 7 anos de idade manifestam racismo explícito quando este é justificável socialmente, que não seja pela categorização racial e a pesquisa deixa essa questão bem clara. O artigo coloca esse tipo de comportamento como nova forma de expressão de racismo e responsabiliza as normas sociais por isso, em vez de eliminá-lo.

As autoras se basearam na cultura de Sergipe, para conceituar essa forma de procedimento que elas designam como “nova forma de racismo”. Porém é necessário levar em conta as diferenças etno-culturais de cada estado brasileiro, na hipótese de refazer essa pesquisa neles os resultados não serão os mesmos, por isso deve-se ter cuidado com as generalizações. Outro fator relevante é que as normas sociais foram criadas para dar limites e não para eliminar o racismo, como as autoras colocam. Já pensou como viveríamos sem as normas socias? Se essas mesmas normas não cumprisse a função de coibir atos racistas como estariam as crianças de Sergipe? 

Referência: França, Dalila X. ; Monteiro, Maria B. A expressão das formas indiretas de racismo na infância. Sergipe, Análise psicológica 4 (XXII): 705-720, 2004

Resenha: O brasileiro, o racismo silencioso e emancipação do afrodescendente

Viviane Martins

O Ensaio “O brasileiro, o racismo silencioso e emancipação do afrodescendente”, escrito em 2002 pelo psicólogo, doutor em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento, Ricardo Ferreira trata sobre como o racismo sutil foi estabelecido no Brasil e como se constitui a identidade do negro em nosso país. O autor utiliza a história de uma família constituída por pessoas negras a fim de ilustrar o texto. Ferreira inicia seu Ensaio trazendo a questão da democracia racial brasileira como sendo uma farsa e um entrave para o combate ao racismo
e ao preconceito racial no Brasil. Algumas pesquisas apontam que 90% dos brasileiros acreditam que o racismo existe e conhecem pessoas racistas, porém apenas 10% das pessoas pesquisadas afirmaram ter preconceito racial, ou seja, ele é atribuído, na maioria dos casos, ao outro. Dessa forma, dificulta-se o enfrentamento, já que as pessoas não admitem possuir esse tipo de atitude.

O autor cita o “gradiente de cor” existente na população negra, usando o exemplo da família citada; as três mulheres da família não se autoafirmavam negras – uma se dizia branca, a outra morena e a última, mulata. Apenas a partir das experiências de discriminação racial e do contato com a militância, todas passaram a se reconhecerem como negras. O preconceito racial, de um modo geral, não é tratado abertamente nas famílias. Pelo contrário, denominar o negro de moreno parece ser politicamente correto. O autor relembra que a identidade é construída a partir das interações sociais, então o silenciar sobre o preconceito racial vivenciado pelo afrodescendente contribui para a introjeção de valores negativos em relação a si mesmo e ao seu próprio grupo.

Posteriormente, o autor apresenta aspectos históricos, os quais ele acredita ter contribuído com a instalação do preconceito no Brasil. O primeiro deles é a própria Modernidade, tendo como marco inicial o período das Grandes Navegações e a descoberta do Novo Mundo. A Modernidade trouxe a necessidade de ordem e progresso e para isso, foi adotada, de forma exacerbada, a estratégia de classificar que, para o
autor, significa “incluir o semelhante no padrão desejável e excluir o diferente”. Consequentemente, a intolerância torna-se característica básica das práticas modernas, tornando possível o genocídio. O holocausto judaico é apresentado como exemplo. Ele traz também a escravidão no Brasil como exemplo de um genocídio que ele chama de silencioso: “a experiência da escravidão no Brasil transformou o africano em escravo, o escravo em negro, e o negro numa pessoa destinada a ‘desaparecer’, em nome da constituição de um povo cordial e moreno.”

O segundo aspecto histórico foram as ideias de branqueamento defendidas no início do século XX por intelectuais e cientistas, legitimando a ideia de inferioridade do negro. Estas ideias previam a extinção do negro no Brasil e a imigração do branco europeu a fim de favorecer essa extinção.

O autor delimita três condições que tornaram possível o desenvolvimento do preconceito e sua forma de expressão no referido país: a primeira é a desvalorização e eliminação do diferente em nome da busca pela ordem; a segunda, o processo histórico de escravização do negro africano, reduzindo-o a um mero objeto de uso; a terceira e última consistiu na disseminação de ideias, legitimadas pela ciência, que afirmavam a inferioridade do negro e previam a sua extinção. Na década de 1930, Gilberto Freyre formula o mito da democracia racial, contribuindo com a forma de expressão do preconceito racial à brasileira.

Ferreira coloca ainda em seu Ensaio que o mundo utiliza como referência o padrão branco, o negro acaba por utilizar a referência desse padrão branco na constituição de sua identidade, desvalorizando o “mundo negro” e, consequentemente, desvalorizando a si próprio. A escola acaba sendo conivente e até servindo como espaço para que essa suposta inferioridade do negro seja ratificada. Além disso, o negro é responsabilizado pelos problemas etnorraciais, ou seja, os problemas socioeconômicos enfrentados pelos negros é de responsabilidade apenas deles, esquecendo-se o processo histórico e as questões sociais que ocasionaram esses problemas, de fato. O autor considera também que o padrão de beleza que impera na sociedade é o padrão branco. Dessa forma, o indivíduo negro tem a sensação de não pertencer a nenhum grupo, portanto se sente desvalorizado socialmente. O texto afirma que pesquisas apontam que pessoas submetidas à discriminação tendem a apresentar baixa autoestima, autoconceito pobre, ansiedade e depressão. Porém, se o negro toma consciência dessa desvalorização, ele pode iniciar um processo de enfrentamento, valorizando-se por suas
características raciais. A partir das experiências discriminatórias, o negro é obrigado a pensar sobre as questões raciais, o que acaba proporcionando a desarticulação com o mundo simbólico e uma série de sentimentos “negativos”, que o movem para a ação. Nesse momento, o negro pode vir a praticar o preconceito contra o branco. Ele ainda enxerga a identidade negra como algo externo e acaba por se comportar de forma estereotipada, ou seja, como acha que o negro deve agir. O indivíduo se apega exageradamente a símbolos da cultura negra e acaba por excluir o diferente. Segundo o autor, nesse momento, o negro ainda não está constituindo a nova identidade a partir dos valores negros, mas a partir da desvalorização e exclusão dos padrões brancos. Com o passar do tempo, o indivíduo torna-se menos radical e abandona a visão idealizada e romântica em relação à negritude. Ferreira afirma que “a ‘nova identidade’ construída possui três funções dinâmicas: defender e proteger a pessoa de agressões psicológicas; prover um sentido de pertença e ancoradouro social; e prover uma fundação, ou ponto de partida, para transações com pessoas de culturas diferentes daquelas referenciadas em matrizes africanas.”
Na última sessão do texto, o autor coloca algumas propostas em pauta: a realização de um debate no contexto escolar sobre o preconceito e as páticas discriminatórias, já que a escola é responsável pela formação e educação; a participação do negro em grupos de militância, com o fim de que a vergonha de ser negro, se transforma em orgulho de ser negro; a ampliação do debate na academia e a contribuição da Psicologia no
combate à discriminação; por fim o autor propõe “que a pessoa branca deixe de negar suas raízes culturais africanas e indígenas, assim como o negro brasileiro, sua raízes culturais europeias e também indígenas.”

Ferreira conclui o texto afirmando que aceitação da alteridade é condição fundamental para que haja a reversão do preconceito. Quando o autor coloca os aspectos históricos, a interpretação possível é que o ato de classificar e a necessidade de ordem surgiram junto com a Modernidade, sendo esta responsável até mesmo por genocídios. Sabe-se que o ato de classificar é inevitável ao ser humano e é necessário, pois simplifica nossa vida no mundo. A estratégia de classificar é tão antiga quanto a própria vida em sociedade ou em grupo, assim como a necessidade de ordem. Desde o princípio da humanidade existe a necessidade de se ordenar, como por exemplo, é o caso da divisão de papeis desde a Pré-história que, provavelmente, tinha a função de manter certa ordem. Na Idade Média, os romanos classificavam como “bárbaros” todos os estrangeiros. Certamente, essa nomenclatura era carregada de preconceitos em relação aos estrangeiros, o que significa que a intolerância não é característica restrita à Idade Moderna. Outro aspecto a ser considerado é questão da possibilidade do genocídio que, segundo Ferreira, foi proporcionada pela Modernidade. Sabe-se que as Cruzadas promovidas pela Igreja em nome de Deus foram verdadeiros genocídios. Centenas de pessoas foram mortas nas Cruzadas em nome também de uma ordem, da evitação e combate ao “caos”. Uma verdadeira eliminação do diferente, daquele que não estava de acordo com os padrões delimitados pela Igreja. Ferreira trata da escravidão no Brasil como um genocídio silencioso; provavelmente ele não considerou, neste Ensaio, as inúmeras e frequentes mortes de negros africanos, sobretudo, nos navios negreiros que transportavam os africanos de forma bastante precária e até desumana. Foi um genocídio nada silencioso. O autor descreve um processo de construção identitária do negro brasileiro (que ele chama de afrodescendente) sem deixar claro uma
fundamentação teórica e empírica consistente. Além disso, a forma de construção dessa identidade descrita no texto parece uma ideia generalizada e, o que é mais grave, padronizada. Os movimentos negros mais incisivos e radicais são tratados no texto como românticos e idealizadores da negritude, possuidores de atitudes preconceituosas em relação aos brancos. Para o autor, os militantes desse tipo de movimento estão em fase de transição no processo constituinte de sua identidade. Essas afirmações podem ser facilmente negadas: a supervalorização da cultura negra afrobrasileira não constitui uma forma de desvalorizar a cultura branca, pois esta já está supervalorizada. Não pode se utilizar as mesmas estratégias para grupos socialmente e historicamente diferentes. Faz-se necessária uma forma de reparação do grupo oprimido social, economica e historicamente. As possíveis soluções para o combate ao preconceito e discriminação racial apresentadas pelo autor possuem eficácia duvidosa. Atualmente, sabe-se que a melhor forma de diluição do preconceito é tratá-lo de forma indireta, utilizando-se a estratégia grupal da aprendizagem colaborativa.
Apesar de apresentar algumas lacunas, este Ensaio traz ideias bem estruturadas, e os argumentos usados para explicar o motivo da forma de expressão do preconceito racial no Brasil estão bem colocados, de forma a convencer o leitor; ele parece atingir o objetivo ao qual se propõe.

Ferreira, R. F., O Brasileiro, O Racismo Silencioso e Emancipação do Afrodescendente. Psicologia & Sociedade; 14 (1): 69-86; jan/jun. 2002.

Resenha – Trajetórias escolares, corpo negro e cabelo crespo: reprodução de estereótipos ou ressignificação cultural?

Marta Silva Dantas de Matos

O artigo fonte dessa resenha é produto da tese de doutorado em antropologia “Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte” (Gomes, 2002). A autora embasa sua discussão nos depoimentos de mulheres negras frequentadoras de salões de beleza étnicos. Destaca o papel da escola como um ambiente de reprodução dos estereótipos sociais dirigidos ao corpo e ao cabelo e como o racismo, presente também na trajetória escolar, pode deixar marcas que ficam visíveis até a vida adulta. Os depoimentos coletados apontam a escola como um ambiente onde acriança negra entra em contato com o racismo e com a discriminação. O segundo ambiente de socialização é também o lugar no qual a criança conhece o outro, a diferença e a desigualdade. Essa é uma discussão relevante, pois, desvincula a imagem da escola de um lugar livre de desigualdades, colocando-a como um ambiente social de produção e reprodução de preconceitos e discriminação. Altera também a imagem das crianças, apresentando-as como reprodutoras de estereótipos já
cristalizados na sociedade. Se o negro está fisicamente na sala de aula ele também precisa está representado nos livros didáticos, nas disciplinas, na cultura escolar, nos murais e em tudo que envolva as atividades pedagógicas, curriculares e extracurriculares da escola. É preciso repensar o local destinado aos negros no processo de ensino com o intuito de construir imagens positivas de identificação durante o processo de
escolarização. Na escola, além de português, matemática, geografia e história, as crianças aprendem e diferenciam o “bom” e o “belo”. A autora propõe que para que as experiências dos negros sejam articuladas com as experiências escolares é preciso que os primeiro sejam ouvidos atentamente. Assim, a relação da negra com o cabelo é aqui apresentada como um dos temas norteadores da resignificação das práticas pedagógicas e dos conteúdos tratados no universo escolar. É uma tentativa de aprofundamento e valorização. A escola enquanto um
ambiente de formação de pessoas e de Identidades precisa contemplar todas as formas de existir que formam a cultura brasileira.
O corpo é um objeto de expressão. É o meio que usamos para mostrar ao outro os nossos gostos e a nossa trajetória. É sabido que o corpo e o cabelo do negro são elementos de denuncia, luta, resistência e marcas.
Porém, a escola precisa está atenta ao apresentar isso. Não se pode anunciar apenas um lado da história e subtrair da fala e das práticas a história de um povo que usou o corpo como mecanismo de resistência e o cabelo como denúncia da sua inconformidade (ou conformidade) com o ideal de beleza pré-estabelecido.
A história e a biologia sempre apresentaram as especificidades do corpo negro que serviram como justificadoras da escravidão. Agora, o que precisa ser apresentada são as modificações, as artes, os enfeites
e as alegorias usadas e feitas no corpo como forma de identidade e pertencimento grupal. Nos depoimentos utilizados, a trança surge como técnica de opressão capilar e o alisamento como uma forma de sanar a dor causada pela produção da trança. Não se pode esquecer, porém, que optar pelo cabelo liso não é somente escapar da dor, mas também corresponder ao padrão desejado de beleza.
A escola impõe um modelo higienista e a trança surge como um modo de cuidar e arrumar do cabelo na tentativa de romper com os estereótipos do negro descabelado e sujo. Além disso, a trança é resignificada e passa a ser um estilo negro de penteado e adorno diferente dos usados pelas crianças brancas. Na escola além de ocorrer o primeiro contato com a alteridade, com a discriminação e com o que é normativo, estabelecem-se tensões entre a
vida privada e a vida pública e as crianças aprendem que o cabelo bom é o liso e que o crespo é ruim e indesejável. Na escola a criança vive as primeiras experiências públicas de rejeição do corpo. Se no
ambiente escolar há a possibilidade da discriminação gerar uma baixa autoestima e sentimentos de inferioridade, com os iguais, existe a possibilidade de construção de uma autoimagem positiva de si e do seu
grupo e a criação de estratégias para lidar, por exemplo, com o cabelo. A autora sugere que por estar ligada ao contexto cultural, histórico e político, a subjetividade e a construção da identidade negra passam
por processos coletivos e individuais e que por isso cada sujeito encontra uma forma de lidar com as questões que envolvem sua raça. Nesse contexto, a informação é umO artigo fonte dessa resenha é produto da tese de doutorado em antropologia “Corpo e cabelo como ícones de construção da beleza e da identidade negra nos salões étnicos de Belo Horizonte” (Gomes, 2002). A autora embasa sua discussão nos depoimentos de mulheres negras frequentadoras de salões de beleza étnicos. Destaca o papel da escola como um ambiente de reprodução dos estereótipos sociais dirigidos ao corpo e ao cabelo e como o racismo, presente também na trajetória
escolar, pode deixar marcas que ficam visíveis até a vida adulta. Os depoimentos coletados apontam a escola como um ambiente onde a criança negra entra em contato com o racismo e com a discriminação. O
segundo ambiente de socialização é também o lugar no qual a criança conhece o outro, a diferença e a desigualdade. Essa é uma discussão relevante, pois, desvincula a imagem da escola de um lugar livre de
desigualdades, colocando-a como um ambiente social de produção e reprodução de preconceitos e discriminação. Altera também a imagem das crianças, apresentando-as como reprodutoras de estereótipos já
cristalizados na sociedade. Se o negro está fisicamente na sala de aula ele também precisa está representado nos livros didáticos, nas disciplinas, na cultura escolar, nos murais e em tudo que envolva as atividades pedagógicas, curriculares e extracurriculares da escola. É preciso repensar o local destinado aos negros no processo de ensino com o intuito de construir imagens positivas de identificação durante o processo de escolarização. Na escola, além de português, matemática, geografia e história, as crianças aprendem e diferenciam o “bom” e o “belo”. A autora propõe que para que as experiências dos negros sejam
articuladas com as experiências escolares é preciso que os primeiro sejam ouvidos atentamente. Assim, a relação da negra com o cabelo é aqui apresentada como um dos temas norteadores da resignificação das
práticas pedagógicas e dos conteúdos tratados no universo escolar. É uma tentativa de aprofundamento e valorização. A escola enquanto um ambiente de formação de pessoas e de Identidades precisa contemplar todas as formas de existir que formam a cultura brasileira. O corpo é um objeto de expressão. É o meio que usamos para mostrar ao outro os nossos gostos e a nossa trajetória. É sabido que o corpo e o cabelo do negro são elementos de denuncia, luta, resistência e marcas. Porém, a escola precisa está atenta ao apresentar isso. Não se pode anunciar apenas um lado da história e subtrair da fala e das práticas a história de um povo que usou o corpo como mecanismo de resistência e o cabelo como denúncia da sua inconformidade (ou conformidade) com o ideal de beleza pré-estabelecido. A história e a biologia sempre apresentaram as especificidades do
corpo negro que serviram como justificadoras da escravidão. Agora, o que precisa ser apresentada são as modificações, as artes, os enfeites e as alegorias usadas e feitas no corpo como forma de identidade e
pertencimento grupal. Nos depoimentos utilizados, a trança surge como técnica de opressão
capilar e o alisamento como uma forma de sanar a dor causada pela produção da trança. Não se pode esquecer, porém, que optar pelo cabelo liso não é somente escapar da dor, mas também corresponder ao padrão
desejado de beleza. A escola impõe um modelo higienista e a trança surge como um modo de cuidar e arrumar do cabelo na tentativa de romper com os estereótipos do negro descabelado e sujo. Além disso, a trança é resignificada e passa a ser um estilo negro de penteado e adorno diferente dos usados pelas crianças brancas. Na escola além de ocorrer o primeiro contato com a alteridade, com a discriminação e com o que é normativo, estabelecem-se tensões entre a vida privada e a vida pública e as crianças aprendem que o cabelo bom
é o liso e que o crespo é ruim e indesejável. Na escola a criança vive as primeiras experiências públicas de rejeição do corpo. Se no ambiente escolar há a possibilidade da discriminação gerar uma baixa autoestima e sentimentos de inferioridade, com os iguais, existe a possibilidade de construção de uma autoimagem positiva de si e do seu grupo e a criação de estratégias para lidar, por exemplo, com o
cabelo.
A autora sugere que por estar ligada ao contexto cultural, histórico e político, a subjetividade e a construção da identidade negra passam por processos coletivos e individuais e que por isso cada sujeito
encontra uma forma de lidar com as questões que envolvem sua raça. Nesse contexto, a informação é um elemento importante para a autoaceitação. A conclusão do artigo é esperançosa ao afirmar que a escola pode atuar tanto na reprodução de estereótipos sobre o negro, o corpo e o cabelo, quanto na superação dos mesmos. Para isso, elas terão que ser consideradas temáticas merecedoras de um lugar nos currículos e em nas discussões pedagógicas. É necessário também entender a construção da questão racial na subjetividade e no cotidiano dos indivíduos e o peso da educação escolar nesse processo. O cabelo e a cor da pele podem – e devem – sair do lugar da inferioridade e ocupar o lugar da beleza negra, assumindo uma significação política. O cabelo compõe um estilo político, de moda e de vida.

Gomes, N. L. (2000). Trajetórias Escolares, Corpo Negro e Cabelo Crespo: Reprodução de Estereótipos ou Ressignificação Cultural? Revista Brasileira de Educação, Set-Dez, nº 21, São Paulo, Brasil, pp.40-51.

Meu nome é Khan!

Contribuição: Wilma Ribeiro
Professora do Curso de Psicologia
Faculdade Adventista da Bahia

Meu nome é Khan! Um filme interessante para se analisar os estereótipos e o preconceito étnico. Trata-se da história de Khan (Shahrukh Khan- mesmo sobrenome na vida real), portador da síndrome de Asperger, que quando criança aprende de sua mãe muçulmana que a única diferença que existe entre seres humanos é entre bons e maus. Ao tornar-se adulto vai morar em São Francisco – EUA, casa-se com uma hindu e após o ataque às torres gêmeas – 11 de setembro de 2001 – a sua vida muda completamente. A xenofobia contra muçulmanos acaba tornando a dinâmica social e psicológica da família de Khan insuportável. A jornada de Khan que é apresentada no filme trata-se de sua tentativa de provar que não é um terrorista. Recomendo!