Resenha: estereótipos sociais de universitários em relação aos ambientalistas

Lucas Gondim Da Silva

Abalizado por Dias (2000), inicialmente, o texto introduz a temática das relações homem-natureza, relatando que, principalmente através da filosofia, das artes, da ciência e da religião, oriente e ocidente preocupam-se com os problemas ambientais desde a antiguidade. Segundo este mesmo autor, a preocupação ambientalista tem sua divulgação aumentada cada vez mais. O artigo também versa sobre o surgimento de movimentos ambientalistas, que, tidos como marco histórico-político internacional, engendrou-se por conta da tomada de consciência sobre a exploração predatória de recursos naturais e da evidente queda na qualidade ambiental, fruto da busca indiscriminada por lucros.
A proliferação de movimentos ambientalistas e de grupos sociais envolvidos com esta questão é tida como conseqüência da preocupação com essa temática. O fortalecimento dos movimentos ambientais atuais, em suas diversas nuances, é apontado como decorrente da percepção do quadro mundial de degradação ambiental. Viola (1987) é citado como diferenciador de três períodos na história deste movimento no Brasil: de 1974 a 1981, de 1982 a 1985 e a partir de 1986. Neste intere, houve uma transição de um movimento inicialmente apolítico para o surgimento da ecopolítica, com a participação ativa do movimento ecológico na cena partidária. A partir de então, surgem os ambientalistas, que, segundo Grisi (200) apesar da forte ligação com o termo ecologista, tem diferenças significativas, sendo o ambientalista associado ao movimento social de mesmo nome, que prega a valorização dos desejos culturais e da natureza, não unicamente dos meios de produção. Já o ecólogo seria o cientista que estuda a ecologia. Em seguida, o termo ambientalista é explicado pela concepção de mais autores. Chega-se, então, à conclusão de pode referir-se tanto ao interessado pelo meio ambiente como ao envolvido na preservação do meio ambiente. Explicita-se que o artigo refere-se ao ambientalista a partir de suas ações, de sua militância preservacionista.
Na seqüencia, o trabalho introduz a noção de que a questão ambiental é de escopo psicossocial, oferecendo uma breve explicação sobre as inter-relações homem-meio e como esta é usada para atrair a atenção de novos adeptos à causa. Em seguida, fala-se sobre a formação de certas crenças influenciadoras na percepção de determinados grupos sobre os ambientalistas, entre os quais se encontra o grupo de estudantes universitários, foco da pesquisa base deste artigo.
É introduzido, então, o conceito de estereótipos, desde o plano etimológico às definições de vários autores como Tajfel, Turner, Braly, Martinez, Morales e Pereira. Também são relatados estudos acerca dos estereótipos e, então, o artigo tem esclarecido o objetivo de realizar uma investigação exploratória descritiva dos estereótipos, acerca de ambientalistas, com a participação de estudantes universitários.
Na seção de métodos, fala-se sobre a amostra, que contou com 325 estudantes universitários, em média com 24 anos, de ambos os sexos e de cursos de ciências humanas, saúde e tecnologia. O instrumento é apresentado, sendo explicado o processo que vai da avaliação preliminar à verificação de necessidade de ajustes nas instruções, uma segunda versão e posterior correção, resultando em uma folha em branco na qual os participantes deveriam relacionar livremente atributos negativos e positivos dos ambientalistas. O procedimento consistiu em os participantes responderem aos questionários individualmente, com posterior processamento e análise dos dados pelo programa estatístico SPSS.
Em resultados e discussões, esclarece-se o intento de procurar através da palavra estímulo “ambientalistas” averiguar os conteúdos definidores deste construto, objetivando –se achar uma visão socialmente compartilhada sobre estes atores sociais. Através de análises de sinonímias e idiossincrasias, houve a categorização geradora de categorias que expressavam tanto a visão positiva como a visão negativa associada aos ambientalistas e uma terceira categoria, que não se encaixava em visões grupais, sendo por isso descartadas. Após a análise das categorias obtidas, constata-se que as mesmas podem ser estruturadas em núcleos de significação, sendo estes a dimensão política, dimensão ecológica e dimensão pessoal. Cada um desses eixos é interpretado como componente de uma dimensão semântica específica. Esta permite, já num nível interpretativo, compreender a estruturação dos significados em cada núcleo de significação. Tais dados permitiram a organização de atributos de estereotipia.
A análise seguinte permite concluir que há indicadores de estereótipos representativos acerca dos ambientalistas e que, considerando que o estereótipo faz parte da dimensão cognitiva da estrutura atitudinal dos indivíduos, supõe-se que essa visão social interfere diretamente no envolvimento afetivo-avaliativo e comportamental com as questões ambientais. Tal conclusão pode ser verificada empiricamente tanto através do comportamento pró-ambiental como das atitudes frente aos ambientalistas e da formação de discursos diferenciados sobre o tema, mas que se relacionam entre si. Pode-se, então, através do enfoque da Psicologia Social, estudar a preocupação ambiental e promover o melhor entendimento da questão e políticas efetivas no escopo socioambiental. Os resultados obtidos através deste estudo podem contribuir efetivamente para o aumento da eficácia das ações dos ambientalistas junto à opinião pública e também através do conhecimento da dinâmica psicossocial envolvida na questão ambiental.

Referência: Moreira, E., Costa, J., Costa, R. e Araújo, L. Estereótipos sociais de universitários em relação aos ambientalistas. Estudos de Psicologia (PUC-Campinas), 21, 2, 117-127, 2002

Resenha: a expressão das formas indiretas de racismo na infância

João Raphael Gomes da Silva Oliveira

O ponto inicial do artigo é uma observação crítica sobre o quanto a expressão do racismo nos adultos se apresentou na sociedade a partir da primeira metade do século XX e de que maneira ele continua se manifestando na contemporaneidade a partir das crianças. As autoras procuram levantar as formas indiretas de racismo na infância, levando em consideração que esse estudo apresenta carência de análises sobre esse tema.
Levando em consideração as novas formas de preconceito e racismo dos adultos, encontra-se no artigo teorias do racismo: ambivalente (resultado do conflito dos americanos brancos em relação aos americanos negros), a teoria do racismo simbólico (que afirma que atitudes contra os negros decorrem de ameaça aos valores do individualismo) e a teoria do preconceito sutil (que distingue duas formas de preconceito: o sutil e o flagrante). Todas as teorias citadas nesse parágrafo analisam aspectos do racismo velado. Porém, a teoria que busca ser enfatizada é a teoria do racismo aversivo. Segundo essa teoria, os contextos de resposta do indivíduo diante de uma possível situação de preconceito são o que determinam as expressões mais abertas ou veladas do racismo.
Através de alguns experimentos, tomando como base os estudos de Dovidio e Gaertner, foi possível chegar a conclusão de que quando a norma anti-racista está amostra a discriminação não se manifesta. De acordo com pesquisas de outro estudioso sobre expressões do Racismo Moderno (McConahay, 1986), a manifestação do racismo depende de quem pergunta e de quem é perguntado como em uma entrevista, por exemplo. Alguns desses estudos foram replicados e os resultados sustentaram que a norma social anti-racista se manifesta hoje de forma indireta ou encoberta.
Observamos que em determinado momento da infância a criança evolui de uma fase egocêntrica, para uma fase de sociocentrismo, em que os julgamentos sociais se baseiam na categorização e percepção de semelhanças e dessemelhanças entre grupos sociais, tudo isso por volta dos 7-8 anos que é quando as crianças, segundos os pesquisadores, reconhecem termos de tolerância e comportamento. No primeiro estudo os resultados indicaram não existir efeito do gênero sobre a discriminação. Foi observado que tanto as crianças mais novas quanto as mais velhas recompensavam mais o branco do que o negro num objetivo que buscava investigar o efeito do contexto de igualdade ou diferenciação sobre a expressão das formas indiretas de racismo levando em consideração a função da idade.
Em um segundo estudo, com a finalidade de verificar a influencia de uma norma anti-racista entre crianças brancas e negras, verificou-se que em um cenário de entrevistas a ausência da entrevistadora negra desativava os conteúdos da norma anti-racista e as crianças brancas acabaram expressando o preconceito apesar de ter relação com as crianças negras. Em outras palavras, o que tem buscado saber é se nas idades em que as crianças apresentam racismo de forma direta elas estão buscando uma análise sob o efeito de se mostrarem igualitárias. Em um terceiro experimento, foi verificado que na faixa etária de 5-7 anos, as crianças ainda não adquiriram ou interiorizaram a norma anti-racista, ao contrario das crianças que tem mais de 7 anos de idade que apresentaram ter o mesmo padrão de preconceito das suas mães.
Portanto, podemos concluir, através desses três estudos e levando em consideração as vertentes teóricas citadas acima que as novas formas de racismo tem-se confirmado como expressões sutis e indiretas por meio de reflexo das pressões das normas sociais anti-racistas sobre o indivíduo. Ficou claro que a partir dos 8 anos, nas crianças brancas, de acordo com o estudo, ocorre uma interiorização da norma anti-racista. O que também foi verificado é que em crianças mais velhas o comportamento discriminatório passa cada vez mais a se expressar de modo indireto e distante da punição social e que o processo de mudança para essa situação merece ter como ponto de início o estudo sobre como isso infere no processo de interiorização desse tipo de normas sociais e como tudo isso se configura a partir dos 8 anos de idade.

Referência Bibliográfica: França, D. e Monteiro, B. A expressão das formas indirectas de racismo na infância. Análise Psicológica, 22, 4, 705-720, 2004.

Resenha: diferenças e igualdades nas relações de gênero

Renata Bárbara da Silva

O artigo traz uma discussão acerca da questão da diferença e da igualdade nas relações de gênero e a influência do movimento feminista, discorre sobre a crise da masculinidade e de mudanças socioculturais sobre essa temática. Inicialmente, a autora se respalda nas concepções da historiadora estadunidense Joan Scott para analisar o conceito de gênero e sua aplicabilidade enquanto categoria analítica. O termo “gênero”, no sentido gramatical, designa indivíduos de sexos diferentes, masculino/feminino. Para a literatura feminista, no entanto, gênero é um construto sociocultural, diferentemente do conceito de sexo, que se refere a diferenças biológicas. Segundo Scott (1995, apud ARAÚJO), “gênero” é utilizado para designar as relações sociais entre os sexos e rejeitar de forma radical explicações biológicas que deixam implícitas diversas formas de subordinação feminina.
“Gênero é um elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre as diferenças percebidas entre os sexos e também um modo primordial de dar significado às relações de poder” (SCOTT, 1995, apud ARÁUJO). Nesse sentido, gênero seria a primeira forma de articular o poder.
A utilização desse conceito enquanto categoria analítica incide em visões antagônicas entre diversos autores, principalmente no que se refere ao estatuto cognitivo do conceito. A autora , no entanto, defende o uso do conceito de gênero como categoria de análise, apoiando-se em Scott (1995), Tilly (1994) e Saffiotti (1997), que fazem crítica ao caráter descritivo dos estudos sobre a história da mulher. Concebe gênero como uma categoria empírica e histórica, portanto, empreende valor de categoria analítica. Emergente de uma realidade empírica, o conceito de gênero, expressa as relações históricas e as formas de existência da realidade social.
De acordo ao artigo, o conceito de gênero pode ser ademais empregado em uma categoria política, que permite a análise da questão da igualdade e da diferença, apontando para uma nova perspectiva de interpretação e transformação da realidade social. A autora aponta três perspectivas principais sob as quais o debate acerca da diferença entre os sexos se desenvolveu: a essencialista, na qual há uma exaltação da “diferença sexual”, psicologizando e biologizando as constatações sociológicas e culturais historicamente produzidas; o discurso culturalista, onde as diferenças sexuais provêm da socialização e da cultura; e por último, a perspectiva da feminista Françoise Collin (1992), na qual propõe um dialogo contínuo, que incorpora a igualdade e as diferenças sem negá-las, num constante jogo dialético em que a pluralidade e o diálogo são os princípios fundamentais. Esses argumentos são reforçados pelas propostas desconstrutivistas de Scott (1995) da oposição igualdade/diferença. Para ela, com a desconstrução dessa antítese será possível não só dizer que os seres humanos nascem iguais mas diferentes, como também sustentar que a igualdade reside na diferença.
O debate sobre a igualdade versus diferença, entretanto, só foi introduzido no movimento feminista entre a década de 70 e 80, quando atribuindo uma valência positiva à diferença, direcionou-se a luta em favor da igualdade na diferença. Essa revisão no feminismo surge a partir do momento em que se percebeu uma ambiguidade nos discursos, em que as mulheres se esforçavam para assimilar os modelos considerados masculinos em detrimento dos femininos.
A autora considera que a grande conquista do projeto feminista igualdade na diferença foi a possibilidade de mudança nas relações de gênero, na medida em que as mulheres (e os homens) puderam se libertar dos velhos estereótipos e construir novas formas de se relacionar, agir e se comportar.
Outro reflexo provocado pelo movimento feminista foi a crise da masculinidade, uma vez que esse movimento foi responsável por mudanças radicais nos valores, nos costumes e nas relações de trabalho e família, e de transformações socioeconômicas e culturais num contexto amplo caracterizado pela ascensão do capitalismo. Por consequência, observa-se hoje, pelo menos nas sociedades ocidentais, um distanciando dos modelos estereotipados de gênero, permitindo que homens e mulheres possam desenvolver novas formas de subjetividade.

Referência: Araújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17, 2,41-52.

Resenha: imagens e significado e o processamento dos estereótipos

Robson de Almeida Silva

O estudo relatado no artigo em questão procurou determinar a existência de diferença entre a avaliação de uma categoria alvo, realizada por meio da simples apresentação do rótulo verbal da categoria e a avaliação de uma categoria alvo em que se acrescentava, durante a apresentação, uma fotografia de exemplares típicos de cada categoria. Também buscou avaliar a influência do tamanho da cidade de residência do participante na avaliação da distância social, estando em jogo nesse caso a investigação sobre os efeitos contextuais na avaliação dos estereótipos. Para ambos os focos foi utilizado a escala de distância social de Bogardus como instrumento.

Como embasamento teórico o artigo inicia apresentado uma apanhado histórico sobre a forma como o estudo do estereótipo se desenvolveu no âmbito da psicologia social, neste sentido é destacado os diferentes métodos de estudos do estereótipos na medida em que é proposto a diferenciação entre o fenômeno enquanto um conjunto compartilhado de crenças e como o processo de estereotipação. O estudos partiram do auto-relato ao qual buscava-se o conteúdo, para o métodos experimentais onde a investigação girava em torno de quais os mediadores cognitivos responsáveis pelo processo de estereotipização.

De forma geral, a discussão teórica chega ao ponto onde é posto que estereótipos passaram a ser considerados como crenças compartilhadas referentes aos atributos pessoais, especialmente traços de personalidade e aos comportamentos de um grupo de pessoas, já a estereotipização, definida como o processo de aplicar um julgamento estereotipado a um indivíduo de forma a apresentá-lo como tendo traços que são comuns a outros membros de uma mesma categoria.

O estudo contou com 2006 participantes distribuídos em 49% do sexo masculino e 51% do sexo feminino, a coleta de dados foi realizada de forma computadorizada. O experimento foi realizado de acordo com um delineamento 2 x 3, sendo que na primeira condição, foi utilizado os tipos de escala de distância social (sem foto x com foto), enquanto a segunda condição se referia à cidade de residência do participante (Juiz de Fora, Além Paraíba ou Vila Velha).

Por fim, os resultados da pesquisa revelam a existência de diferenças na avaliação da categoria alvo quando apresentada por meio de estímulos inteiramente abstratos como o relato verbal, se comparada com a avaliação realizada quando foram acrescentadas em formato de imagens (fotografias) de exemplares do grupo alvo. No que diz respeito ao segundo proposito do estudo, percebeu-se que o grau de distância social em relação aos membros da categoria alvo recebeu influência do tamanho da cidade em que o participante do experimento reside.

Referência: Pereira, M. E. ; Martins, A. ; Cupertino, C. ; Ferreira, F. Imagens e significado e o processamento dos estereótipos. Estudos de Psicologia, 7, 2, 389-397, 2002.

Resenha – Investigações psicológicas no ciberespaço: O impacto do interesse, filiação grupal e conhecimento na adesão às crenças ufológicas.

Graciara Oliveira Silva

Nesse estudo, os autores apresentam uma breve introdução sobre o sistema de crenças, explicando que umas podem ser mais justificadas e, por isso, mais endossadas do que outras. Isso acontece quando a decisão de crer ou não crer é objeto de uma reflexão e crítica aprofundadas, diferente das crenças constitutivas do sujeito que crê, uma vez que a justificação não é tão importante.
Para adentrar nas crenças ufológicas, os autores pontuaram que a princípio nós não duvidamos que somos seres humanos com atributos que nos identificam como tal e diferenciam-nos dos demais seres vivos que se evoluíram no planeta Terra. Nessa perspectiva evolucionista que nos afasta do criacionismo, e também do antropocentrismo, os autores refletem:

Ao mesmo tempo em que temos certeza de que pertencemos a uma espécie que se desenvolveu no planeta Terra, consideramos como justificada a crença que o nosso pequeno planeta ocupa uma posição quase irrisória face à imensidão do universo. Seríamos, então, os únicos entes pensantes nesse imenso universo ou seria mais sensato supor que talvez em uns poucos dentre os milhões de astros celestes tivessem surgido formas de vida e civilizações diferentes das modalidades que conhecemos? (Pereira; Silva; Silva, 2006, p.376).

Nesse sentido, os autores afirmam que as crenças sobre a existência de extraterrestres e civilizações em outros planetas são plausíveis, porém, duvidosas por causa da falta de comprovação, visto que elas são justificadas por “argumentos construídos com base em evidências sobre a presença de objetos voadores não-identificados” (Idem, p.376). Em seguida, refletem mais:

As crenças se referem a entes reais ou elas fazem alusões apenas a potencialidades derivadas dos arrazoados desenvolvidos por mentes humanas? O que possibilita tantas pessoas acreditarem que tais seres existam, que são mais civilizados e nos visitam com freqüência? Por outro lado, como duvidar de que não somos únicos no universo, sem acreditar que eles se encontram entre nós? (Idem, p.376).

Segundo os autores, a justificação para as crenças ufológicas são construídas a partir de observações por meio de registros visuais e audiovisuais dos discos voadores. Por isso, o objetivo desse estudo foi o de “investigar as crenças a respeito de dois entes: extraterrestres e objetos voadores não-identificados” (Idem, p. 376)
Os autores afirmam que as crenças são sustentadas e compartilhadas muito mais pelo “endossamento subjetivo” do que pelo “estatuto epistemológico”e, por isso, a adesão ou o endosso geram repercussões em vários segmentos.
Nessa perspectiva de crenças compartilhadas, os autores optaram por ampliar o número de participantes da pesquisa para a coleta de dados através da internet. Eles defendem que há uma tendência cada vez mais fortalecida de pesquisas reais em ambientes virtuais. Destaco que muitos estudiosos questionam essa divisão entre o real e o virtual, e o conceito de virtualização do pensador francês Pierre Lévy em sua obra O Que é o Virtual (1996), promovendo uma abertura ainda maior para a práticas de tais pesquisas.
A partir do problema de pesquisa de “identificar as diferenças nos padrões de crenças compartilhadas por pessoas envolvidas ou não com grupos de pesquisas ufológicas sobre temas relacionados com a presença de extraterrestres e de objetos voadores não-identificados” (Idem, p.376), os autores conceituaram de uma forma geral as crenças, pontuaram sua importância na psicologia social e apresentaram suas hipóteses.
A primeira hipótese foi a de que o nível de conhecimento sobre os eventos ufológicos seria diretamente proporcional à adesão à crença. Em seguida, apresentaram hipóteses adicionais que desdobraram nas seguintes variáveis: interesse pelo assunto e filiação em grupos de estudo e pesquisa ufológica.
Em resumo, o instrumento de pesquisa utilizado abordou as seguintes categorias: 1) crenças sobre os extraterrestres e a humanidade; 2) crenças sobre as interferências dos extraterrestres no planeta Terra; 3) crenças sobre as relações entre extraterrestres e humanos; 4) crenças sobre os extraterrestres, a ciência e os cientistas; 5) crenças sobre os extraterrestres e as teorias conspiratórias. Segundo os autores, uma interpretação geral dos resultados sugere que:

[…] dentre as cinco modalidades de crenças consideradas, as relativas aos extraterrestres e a humanidade obtiveram um maior grau de adesão, seguida pelas crenças relativas aos extraterrestres, a ciência e aos cientistas. As crenças a respeito das interferências dos extraterrestres no planeta Terra obtiveram um baixo grau de adesão. Os resultados também sugerem que, globalmente, os participantes não aderem ou rejeitam as suposições relativas às teorias conspiratórias ou às crenças acerca das relações entre extraterrestres e humanos (Idem, p. 379).

Os resultados desse estudo apresentaram padrões diferenciados de adesão às crenças. Foi verificado que a primeira hipótese era verdadeira. Porém, “o interesse pelo assunto e, em menor grau, a filiação aos grupos de pesquisa ufológicos, exerceram uma influência mais significativa na adesão às crenças ufológicas que o grau de conhecimento” (Idem, p. 383). Por fim, concluiram que os resultados desse estudo apontam para a possibilidade de “desenvolver modelos preditivos a respeito do grau de adesão às crenças ufológicas” (Idem, p.383) e de continuação em outro estudo.

Pereira, M. E. ; Silva, J. e Silva, P. Investigações psicológicas no ciberespaço: O impacto do interesse, filiação grupal e conhecimento na adesão às crenças ufológicas. Interação (Curitiba), 10, 375-384, 2006.