Resenha: Dialética das relações raciais

Núbia dos Santos da Hora

Apesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.

O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história. Apesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.
O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história, se transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado.pesar das grandes manifestações atuais o preconceito não é um desafio contemporâneo. Ele vem se transformando diante das novas formas de socialização e em virtude de pressões sociais que culminam com a modificação e persistência de expressão do preconceito nos seus mais diversos formatos. Como dito por Ianni “a história do mundo moderno é também a história da questão racial”, e do mesmo modo que as relações de classe, as relações raciais vão sendo transformadas, transfigurando ao longo da história que culmina na modernidade. Essa questão é para muitos pesquisadores, cientistas, filósofos um grande embate enfrentado pelos atores, agentes e passivos, da discriminação ao redor do mundo. E assim como os conflitos de classe não se explicam por si mesmos, os conflitos raciais também não explicados. Há sempre um momento anterior, ligado ao modo de produção da vida material, consumo, exploração do trabalho, apropriação de excedentes, capaz de revelar o fundamento das contradições aparentes.
O fundamento destas lutas entre grupos dominantes e dominados, manifestadas em termos de “classe”, “raça”, são as contradições imanentes às sociedades capitalistas ou que tendiam à organização capitalista. O que se coloca, aqui, não é a simples estratificação baseada em cor de pele, origem étnica, mas sim um tipo específico de racismo relacionado à expansão do modo capitalista de produção. Daí ser possível falar em “racialização do mundo”, como faz Octavio Ianni. Nesse processo, já não são mais as classes que estão em conflito, nem as “raças”, mas as “civilizações”.
O “choque das civilizações” está embutido no processo de expansão política e econômica desde os antigos impérios, mas se intensifica a partir da era cristã. O Império Romano, o Mercantilismo, as Cruzadas, a tomada do “Novo” Mundo, as Colônias, o Imperialismo Industrial, manifestaram de diferentes maneiras a hierarquia das civilizações. As relações entre a expansão do capitalismo e as diferentes formas de discriminação racial não são diretas, mas sutis. São relações que dependem da realidade econômica, mas também dos jogos de força política, da manipulação de valores, crenças, símbolos e signos, da apropriação de discursos, enfim, da “racialização” das disputas políticas e econômicas.
É neste sentido que se pode dizer que existem “enigmas escondidos na questão racial”. Enigmas que variam conforme o momento e o contexto e que estão presentes “desde os inícios dos tempos modernos, em todo o mundo”. Como afirma Ianni “a ‘raça’ não é uma condição biológica e racializar uns e outros, pela classificação e hierarquização”, revela-se inclusive uma técnica política, onde são considerados inúmeros fatores, ao passo que hierarquizar as civilizações, e, no mesmo contínuo a hierarquização de povos, nações, nacionalidades e etnias. Com essa hierarquização a classificação dos mesmos tornou-se praticamente indissociável às sociedades e a formação dos estereótipos positivos ou negativos acaba por revelar as referências deste ou daquele povo, nação, grupo étnico, muitas vezes ratificado por teóricos que se empenharam em qualificar e desqualificar pessoas pertencentes a grupos determinados em favor de conduzir e perpetuar emblemas ideológicos de nações ou civilizações.
A diferença é transformada em estigma. Uma “ideologia racial”, forjada ao longo de séculos e que se recria a cada momento da história, se transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado. transmite por gerações e gerações, através dos meios de comunicação, da indústria cultural, envolvendo também sistemas de ensino, instituições religiosas e partidos políticos que acabam por legitimar suas atitudes institucionalizando formas de preconceito veladas à grande população e materializando suas práticas ao sabor das hierarquizações produzidas com o intuito de conformar dominantes e dominados nos lugares sociais a que foram “destinados”.
A imposição desta “ideologia racial”, contudo, torna-se cada vez mais difícil. Produz reações, “contra-ideologias”, indignação e reivindicação. Os indivíduos que sofrem a estigmatização se dão conta de que a desigualdade que lhes é imposta não é “natural”, mas forjada segundo as prioridades do sistema ou de grupos dominantes. E nesse processo atravessado por vivências, o estigmatizado desenvolve a sua percepção, sensibilidade, compreensão, construindo e reconstruindo a sua consciência para assim reconstruir a sua identidade. Para Ianni, é dessa “autoconsciência crítica”, que nasce a transformação, a ruptura e a transfiguração. Surge então a esperança de que a dialética das relações raciais possa converter-se em outras formas de sociabilidade, outros jogos de forças sociais, outro tipo de sociedade, outro modo de produção e processo civilizatório. As contradições raciais tendem a desenvolver-se de tal modo que estão próximas de colocar em causa a ordem burguesa atual, revelando sua incapacidade de resolvê-las.
Lutas de classe, contradições raciais, são apresentadas como o motor da história e este motor apenas pode ser impulsionado por uma contradição anterior, entre forças produtivas e relações de produção. O modo como ocorre este movimento, no entanto, é particular em cada época, e ainda está para ser desvendado.

Referência: Ianni, O. Dialética das relações raciais. Estudos Avançados, 2004, 18, 50,21-30.

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