Resenha: o brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afrodescendente

Ominlandê Onawale Lima

O artigo mostra de forma explícita a concepção do racismo no Brasil. Na visão do especialista Nelson Rodrigues, o preconceito racial existente no nosso país é velado, e isso acaba “cegando a população”, a qual acredita veementemente que o país vive uma democracia racial.
O preconceito no Brasil, justamente por ser tão mascarado, revela-se capaz de alienar as pessoas a pensarem de modo conformista, de modo em que se não é percebido, não há o que ser combatido. Dessa forma, na visão do autor Ricardo Ferreira, cria-se uma dificuldade inclusive no estabelecimento de leis para coibir tais ações racialmente preconceituosas.
A grande questão é que o racismo presente na sociedade brasileira esconde-se atrás de termos como “moreno”, “denegrir”, entre outros. A forma com que ele é acobertado é algo repugnante, e ainda mais desastroso é perceber que a população parece inerte em meio a tanta ilusão.
É importante enfatizar que o passado de escravidão torna-se causa direta do que acontece atualmente, no sentido de estabelecer uma visão eurocêntrica como dominante nos mais sutis aspectos do nosso dia-a-dia. Aspectos estes, que parecem se tonar invisível aos olhos da maioria da população, exceção feita a determinadas organizações raciais que lutam para reverter tal situação.
Portanto, o artigo gira em torno de nos conscientizar quanto à existência do racismo no Brasil. Muitas vezes manipulado, ele acaba por se esconder em diversas faces, as quais são veladas pelos setores mais influentes da nossa sociedade. Cabem a nós, cidadãos, compreendermos a real existência de tal problema e percebermos maneiras de enfrentá-lo, sem nos deixar influenciar pelas camadas mais altas, que persistem em ocultá-lo.

Referência: Ferreira, R. F. O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente. Psicologia & Sociedade, 14, 1,69-86, 2002.

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais

Rosicley Almeida Lima

A pesquisa relatada por Ilari (2006) objetivou analisar a relação entre música e relacionamento interpessoal amoroso. Muitos estudiosos se debruçam há décadas sobre o papel da música na história da evolução da espécie humana e até hoje não chegaram a um consenso em relação ao assunto.
O texto ressalta que a funcionalidade da música no mundo ocidental, pelo menos, está relacionada direta ou indiretamente, aos relacionamentos interpessoais. Em qualquer fase da vida, em envolvimentos profissionais ou pessoais, em atividades de cunho festivo ou religioso, a música se faz presente na história das civilizações como um dos instrumentos de atração interpessoal. A atração interpessoal é apresentada como “uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros…” (p. 2), e que remete às nossas experiências ao longo da vida. De acordo com o texto atitudes, crenças e valores em comum são elementos importantes na atração interpessoal e é justamente isso que a relaciona com o desenvolvimento do gosto musical, já que ambos dependem de contingências sociais.
É sabido que a música possui diferentes objetivos nas mais variadas culturas, como excitar e acalmar, sendo que o grupo social irá definir a ‘adequação’ de cada ritmo ao momento em que a música é tocada. Desse modo, a música é capaz de despertar as mais diversas sensações, pois está intimamente relacionada com as situações do cotidiano.
O texto traz resultados de estudos da psicologia da música (nem sabia que existia) sobre o papel desta na atração heterossexual, ou melhor, sobre o modo como o gosto musical influencia na escolha de parceiros do sexo oposto. E a conclusão foi que os estereótipos comumente associados aos grupos sociais também se aplicam aos estilos musicais, uma mostra da interferência cultural na relação música-indivíduo. Para Ilari, “os estereótipos associados à música, que nada mais são do que esquemas cognitivos que passam pelo viés de categorias impostas social e culturalmente, aparentam ser determinantes nas atitudes interpessoais.” (p. 3). O gosto musical, nesses casos é considerado representante de um conjunto de crenças e valores que servem para categorizar as pessoas.
A pesquisa já realizada nos EUA e em alguns países europeus, dessa vez foi aplicada em uma amostra brasileira composta por 50 jovens (metade homens e metade mulheres) adultos entre 12 e 43 anos frequentadores de um restaurante universitário de Campinas/SP, todos com pouco ou nenhum envolvimento formal (cursos, etc.) com o meio musical. O instrumento desenvolvido para a coleta de dados consistiu em três partes: primeiro, os participantes foram expostos a cinco pares de classificados pessoais e a partir disso, deveriam escolher, em cada par, o parceiro de sua preferência, ressaltando que a variável música (por ex., toca violão) estava presente em apenas um classificado de cada par. Em seguida, o instrumento traz a seguinte proposição incompleta: “As pessoas que ouvem….(estilo musical) são geralmente….(adjetivo)”, e os participantes deveriam atribuir no mínimo dois adjetivos com base nos estilos propostos, a saber: MPB, jazz, música clássica, samba/pagode, rock/pop e sertanejo, considerados os mais populares em nosso país. Por último, todos responderam questões abertas sobre sexo, idade, experiência educacional, experiência musical prévia e tempo de escuta musical, e ainda questões abertas sobre a relevância da música nas vivências pessoais, inclusive nas relações interpessoais.
Os resultados parciais mostraram que a maioria dos participantes relacionou gosto musical a características da personalidade e às atitudes. A classe social e consequentemente o status também foram associações frequentes. Um exemplo disso são as relações envolvendo o gênero sertanejo, maior concordância de adjetivos entre os participantes, que foi considerado música para indivíduos humildes, moradores ou não da zona rural, além de muito sentimentais. Nota-se uma forte associação ainda com a música sertaneja de raiz e um contraponto com o ‘moderno’ sertanejo de duplas que com suas letras românticas e grande influência de instrumentos como a guitarra, em pouco ou quase nada se parecem com a música sertaneja de Tonico e Tinoco, por exemplo. E se a pesquisa tivesse acontecido nos tempos atuais do sertanejo universitário certamente os estereótipos de classe social e de personalidade relacionados a esse estilo estariam ainda mais confusos e/ou discrepantes.
Para 86% dos entrevistados, a música é importante no relacionamento amoroso na medida em que influencia os sentimentos de ambos os parceiros (80%), tornando-os mais ou menos sensíveis enquanto indivíduos e também par (71%), e ainda promove a conexão entre o casal (68%), ajudando a chegar ao romance (67%). Um dado surpreendente é o de que 14% da amostra afirmou não namorar alguém com gosto musical diferente do seu, reforçando o poder dos estereótipos envolvidos com a música; uma das justificativas seria a de que essa contradição entre os gostos musicais seria crucial nas saídas dos parceiros para se divertirem juntos. Porém, a maioria dos participantes se mostrou aberto para a experiência de se relacionar com alguém de gosto musical oposto ao seu, sinalizando a existência das diferenças e o necessário respeito a elas.
Como dado mais significativo sobre a díade música-relacionamento amoroso, a maioria esmagadora da amostra (92%) descreveu no mínimo dois episódios de suas vidas em que determinada música teve destaque especial, fazendo com que sua audição elicie necessariamente respostas de recordações desses episódios.
A autora resumiu em três os objetivos da música nos relacionamentos interpessoais: objetivos de excitação, elevando-a (música rápida) ou diminuindo-a (música lenta); objetivos de fundo acústico para criar um clima de acordo com o contexto e ainda suprir possíveis falhas na comunicação verbal, por exemplo; objetivos de interação social facilitando a aproximação e a troca de experiências; objetivo de fortalecer a memória afetiva, fazendo com que determinada música ajude o indivíduo a lembrar de fatos ou pessoas de seu convívio.
Ilari conclui que a música tem relação indireta nas relações interpessoais e consequentemente na escolha de parceiros amorosos, seja facilitando a aproximação, tornando mais ou menos agradável os encontros, trazendo à memória recordações do passado, e assim por diante. Dessas observações a autora infere que o papel da música na história da evolução humana precisa ser reconsiderado.
Subestimar a função da música no desenvolvimento das relações humanas é negar o seu caráter principal de linguagem entre os indivíduos nos mais diversos momentos de sua história pessoal e coletiva. Obviamente, particularidades culturais devem ser levadas em conta quando explicamos o papel da música na vida das pessoas, pois sem dúvida, ela consiste em um indicativo das representações sociais, haja vista os muitos estereótipos que alimenta.

Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198.

Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

Thianne Passos Luz

O artigo “As novas formas de expressão do preconceito e do racismo” de autoria dos doutores em Psicologia Social Marcus Eugênio Oliveira Lima e Jorge Vala traz os conceitos de novas e sofisticadas formas de expressão de preconceito e racismo na contemporaneidade. Essas formas se diferenciam de maneiras antigas de discriminação na medida em que são mais sutis e encobertas.

Iniciando seu texto com uma citação de J.J. Rousseau, Lima e Vala explica que o preconceito e o racismo parecem ser tão antigos quanto são as relações de poder entre os homens e a necessidade de justificação destas. Desde a antiguidade greco-romana já existia um preconceito de base cultural contra os escravos. No entanto, desde então até a os dias de hoje as sociedades modificaram consideravelmente suas formas de expressão de preconceito e de racismo. Depois da Segunda Guerra Mundial, por exemplo, mudanças sociais, econômicas e políticas ocorreram em todo o mundo, como as críticas ao regime nazifascista, a Declaração dos Direitos Humanos (1948), a condenação da UNESCO às classificações raciais (1950), as lutas pelos direitos civis no EUA entre outros movimentos que foram imprescindíveis para que surgissem novas formas de expressão de preconceito e racismo, apesar de tudo isso possivelmente ter criado uma aparente atmosfera de igualdade, liberdade e fraternidade entre todos.

Os autores apontam para um fato interessante. Preconceito e racismo sempre foram percebidos como problemas do outro. Pesquisas realizadas por Turra e Venturi (1995) mostram que 89% dos pesquisados afirmam que existe racismo no Brasil, mas apenas 10% admitem ser racistas. Ainda são mencionadas pesquisas feitas na Europa, Estados Unidos da América e Austrália. Na distinção entre preconceito e racismo, o primeiro conceito é explicado através da definição de Gordon Allport (1954), como uma atitude hostil contra um indivíduo, simplesmente porque ele pertence a um grupo desvalorizado socialmente. O segundo termo é classificado como mais do que uma atitude, constitui-se num processo de hierarquização, exclusão e discriminação contra um indivíduo ou toda uma categoria social que é definida como diferente com base em alguma marca física externa (real ou imaginada), a qual é ressignificada em termos de uma marca cultural interna que define padrões de comportamento (Lima e Vala, 2004).

Fazendo uma breve contextualização histórica do racismo, e baseado em pesquisas, os autores identificaram as seguintes novas formas de expressão de preconceito e racismo: o racismo moderno na Austrália e nos EUA (McConahay & Hough, 1976; Pedersen & Walker, 1997), em que admite-se que a desigualdade não é decorrente de questões sociais e sim econômicas, a inferioridade social é explicada a partir de crenças de fundamentação biológica; o racismo simbólico nos EUA (Kinder & Sears, 1981), que se baseia em sentimentos e crenças de que os negros violam os valores tradicionais americanos do individualismo ou da ética protestante nos EUA; o racismo aversivo também nos EUA (Gaertner & Dovidio, 1986), seria o tipo de atitude racial que caracterizaria americanos brancos que têm fortes valores igualitários, mas que apresentam uma certa ambivalência, resultante do conflito entre sentimentos e crenças associados a valores igualitários e sentimentos negativos com relação aos negros; o racismo ambivalente nos EUA (Katz & Hass, 1988), que se caracteriza por atitudes contra (fundamentada na ética protestante de trabalho árduo, realização pessoal e disciplina) e favoráveis (fundamentadas no igualitarismo e no humanitarismo) que coexistem nos indivíduos.
Foi identificado também o preconceito sutil na Europa (Pettigrew & Meertens, 1995) que seria aquele mais frio e indireto, uma forma mais velada de preconceito e que possui três dimensões: defesa dos valores tradicionais, exagero das diferenças culturais e a negação de emoções positivas caracterizada pela rejeição à expressão de simpatia e admiração com relação aos membros do exogrupo; e o racismo cordial no Brasil (Turra & Venturi, 1995) que é definido como uma forma de discriminação contra os cidadãos não brancos (negros e mulatos), que se caracteriza por uma polidez superficial que reveste atitudes e comportamentos discriminatórios, que se expressam ao nível das relações interpessoais através de piadas, ditos populares e brincadeiras de cunho “racial”.
“As novas formas de expressão do preconceito e do racismo” é muito interessante para um esclarecimento de que o preconceito e o racismo estão presentes no dia-dia de todos, em vários lugares do mundo. Os autores deste artigo concluem pontuando que a conceituação e classificação das novas formas de preconceito e racismo existentes hoje demonstram que sua identificação é complicada e também difícil de ser combatida. Mas o combate é necessário, pois não é porque o preconceito e o racismo são expressos de forma menos explicita que antigamente que eles não tragam danos à sociedade e a quem sofre com eles.

Referência: Lima, M. E. e Vala, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos em Psicologia (Natal), 9, 3, 2004

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais.

Agnaldo Júnior Santana Lima

A autora inicia seu artigo afirmando que não existem evidências que possam comprovar a existência de um gene musical propriamente dito, mesmo diante do esforço de pesquisadores de campos como a neurociências e a genética. Contudo, a música continua tendo um caráter universal e tendo um papel importante nas sociedades e culturas. A música vem mantendo funções tradicionais e sentidos próprios em diferentes sociedades ao longo da história. No Mundo Ocidental a música exerce funções relacionadas às relações interpessoais, tais como ninar crianças e entreter.
A atração interpessoal pode ser definida como uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros, e é um elemento crucial no desenvolvimento de vínculos. Para a psicologia cognitiva, a atração está relacionada aos esquemas cognitivos que são construídos a partir dos ideais de parceiros e relacionamentos amorosos construídos ao longo da vida.
Como fatores associados à atração interpessoal podem ser citados: a atração física, proximidade, interação e exposição continuada aos outros indivíduos, além de uma semelhança real ou percebida entre estes. A atração interpessoal depende também do contexto social, que forma crenças pessoais, valores e atitudes, o mesmo pode ser dito sobre a formação do gosto musical.
A atração e a música estão ligadas à indução e/ou surgimento de sentimentos. As formas de utilização e apreciação da música variam de acordo com uma combinação de crenças pessoais e objetivos de excitação, entrelaçados àqueles do grupo social ao qual pertencemos.
No estudo em questão, a autora buscou determinar o papel da música nas relações interpessoais, na atração e escolha de parceiros, além de verificar se os estereótipos associados aos gêneros musicais encontrados em amostras norte-americanas e européias, poderiam ser encontrados numa amostra brasileira. Por fim, o estudo investigou se existem ou não funções específicas da música nas relações interpessoais, baseando-se nos relatos dos participantes.
O estudo contou com a participação de 60 jovens e adultos, com idade entre 12 e 43 anos, recrutados em Campinas, SP. Músicos e estudantes de música foram excluídos da amostra final, que foi composta por 50 jovens adultos com idade média de 27 anos. Foi elaborado para o estudo um instrumento de coleta de dados em três partes. Na primeira, o participante deveria escolher o parceiro que lhe parecesse mais atraente numa lista de classificados. Na segunda parte, o participante deveria completar frases relacionando estilos musicais com adjetivos. A terceira parte consistia num questionário sócio-demográfico bem como questões relativas à importância da música nas relações sociais.
No estudo, a música pareceu não ter efeitos positivos ou negativos na escolha de parceiros. Os participantes do estudo tenderam a associar o gosto musical mais à personalidade e às atitudes do que a outras características. Estereótipos de personalidade foram encontrados apenas para alguns gêneros musicais. A autora aponta a possibilidade da existência de uma relação direta entre o conhecimento musical e o gosto do participante e sua percepção dos ouvintes de música. A maioria dos participantes demonstrou certa abertura para namorar pessoas com gostos musicais contrastantes. Foram revelados quatro usos distintos da música no contexto das relações interpessoais: objetivos de excitação, fundo acústico, facilitadoras de atividades que promovem a aproximação de indivíduos e artefato mnemônico.
Os resultados do estudo reforçam a ideia de que a música exerce um papel importante nas relações interpessoais, embora não tenha aparentado exercer um efeito direto sobre a atração interpessoal e a escolha de parceiros.

Referência: ILARI, Beatriz. Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em estudo, Maringá, v. 11, n. 1, Apr. 2006

Resenha: As Novas Formas de Expressão do Preconceito e do Racismo

André Faro

O racismo e o preconceito étnico refletem os contextos sócio-históricos onde acontecem relações sociais pautadas no critério da racialização. Assim, apesar dos marcantes avanços que a sociedade ostenta no que diz respeito às relações intergrupais e a dissolução de seus conflitos, estes dois fenômenos sociais ainda são realidades perenes em nível global; dado que inclui o Brasil neste campo de estudos sobre a manifestação de atitudes hostis, antipáticas ou odiosas contra indivíduos e/ou grupos minoritários.
Frente a este campo em aberto, Lima e Vala (2004) realizaram, alinhados às discussões atuais no campo da Psicologia Social, uma exposição acerca dos novos e complexos mecanismos de expressão da discriminação. Para tanto, são trabalhadas as chamadas novas expressões de racismo e do preconceito, particularmente as teorias do racismo moderno e simbólico na Austrália e EUA; racismo aversivo e ambivalente nos EUA; o preconceito sutil na Europa e o racismo cordial no Brasil.
Inicialmente os autores definem o preconceito e o racismo demonstrando as nuances de cada conceito. Conceitualmente, o preconceito pode ser entendido como uma atitude hostil contra um determinado sujeito, motivada pelo fato do mesmo pertencer a um grupo que é socialmente desvalorizado (Allport, 1954). Já o racismo envolve uma rede mais ampla de aspectos para sua caracterização, logo: é um processo de hierarquização, discriminação e exclusão de um grupo, ou mesmo um componente deste, que é distinto dos demais por possuir alguma marca física externa (real ou imaginária) que, no olhar do outro, associa-se a alguma característica interna. Em síntese, é a busca por uma redução do sociocultural e psicológico às marcas biológicas (Guimarães, 1999), não se processando apenas em nível individual, mas também com um caráter institucional, político e cultural.
Uma constatação histórica que Lima e Vala (2004) apontam, argumentada também por outros autores, é que o preconceito e o racismo mudaram em relação à forma que vinham sendo manifestados nas últimas décadas: minimizaram-se as expressões abertas e, por outro lado, formas veladas e mais discretas de discriminação foram ampliadas no âmbito das relações sociais. Expressões flagrantes, preconceituosas e racistas, são cada vez menos freqüentes numa escala macro-social – mas nem por isso menos nocivas –, sendo paulatinamente substituídas por manifestações sutis e maquiadas nos relacionamentos interpessoais. Por sua vez, estas não geram um impacto explícito por sua expressão, mas possuem o mesmo poder de repercussão em nível micro-social. Para os autores, esta transformação se processou em virtude das pressões sociais derivadas das políticas anti-racistas e democráticas, adequando-se a cada contexto em que se deprecie a diferença no outro.
Os primeiros modelos referidos no texto são as teorias do Racismo Simbólico e o Racismo Moderno, ambas estudadas nos EUA. O primeiro alude à percepção de que os negros vão de encontro aos valores tradicionais da ética protestante americana; leia-se obediência, ética no trabalho, disciplina e sucesso, já o segundo pauta-se na idéia de que os negros estão obtendo um retorno econômico e social maior do que merecem, além de transgredirem os valores dos brancos. Sob a ótica destes dois tipos de racismo, constata-se que o eixo da discriminação concentra-se no sentimento de invasão, apropriação dos direitos e distorção dos valores dos brancos, causando a rejeição da noção de igualdade racial.
Um segundo tipo é o Racismo Aversivo, estudado na realidade americana. Neste construto considera-se que embora as pessoas defendam a plena refutação da prática de racismo aberto, um preceito politicamente correto e adequado aos valores cristãos, apresentam diversos sentimentos de evitação (desconforto, ansiedade, medo, dentre outros) no contato com os negros. Como destacado pelos autores, na ausência de uma imposição social em direção ao igualitarismo, os racistas aversivos discriminam os negros não através de ódio ou hostilidade, mas pela ampla preferência de não-negros em situações em que o contexto justifique, implicitamente, a discriminação.
O Racismo Ambivalente, terceiro a ser discutido, também foi investigado nos EUA. O pressuposto é que as pessoas possuem duas orientações morais em conflito: uma é valorização da igualdade democrática, que induz a reconhecer a discriminação e assim expressar simpatia pelos negros, e a outra é o valor moral do individualismo, que se liga à noção de liberdade pessoal e responsabilidade individual. Dada a vivência destes princípios opostos, as pessoas tendem a oscilar entre os dois extremos, seja com uma exagerada simpatia ou pelo desconforto frente aos negros. Por conseqüência do conflito, há uma radicalização das respostas racistas a fim de minimizar a tensão gerada pela discrepância de pressupostos; este movimento é chamado de “amplificação da resposta” e se efetiva tanto no pólo da extrema bondade perante os negros (ex. piedade), como por considerar os negros como desviantes dos princípios morais (ex. preguiçosos).
O Preconceito Sutil, quarto modelo, é estudado tanto nos EUA em relação aos negros, como na Austrália, em relação aos aborígenes. Este tipo de preconceito faz o oposto da forma mais explícita, o flagrante, no qual a expressão de rejeição ao outro é claramente manisfesta, seja através de repúdio e humilhação ou mesmo agressão física. No Sutil, a viabilização do preconceito assume em três frentes: 1. O indivíduo defende os valores tradicionais de seu grupo, localizando no outro a violação destes; 2. Homogeneíza as características culturais do seu grupo e exagera as diferenças para com o outro; 3. Não expressa, e sente, emoções positivas para com o outro grupo, evitando, assim, reconhecer qualquer aspecto construtivo no diferente.
O Racismo Cordial, quinto e último construto, é pesquisado na realidade brasileira, sendo específico por ser investigado em uma sociedade multirracial. Sua definição baseia-se na discriminação direcionada a sujeitos não-brancos, estando calcado principalmente na falsa civilidade, ou polidez superficial, quando se manifestam comportamentos e atitudes preconceituosas. São formas habitualmente dissimuladas que se apresentam nas relações interpessoais por meio de brincadeiras, piadas ou ditados populares com conteúdo essencialmente discriminatório. Deste modo, o impacto do preconceito é disfarçado em meio a um hábito mascarado e suas conseqüências são voltadas para uma demonstração de contínua exclusão social.
Em geral, Lima e Vala (2004) apontam as novas formas de apresentação do racismo e do preconceito na atualidade, ressaltando o caráter subliminar e dissimulado que ameaça indivíduos e grupos minoritários, por sua vez ainda excluídos e colocados à margem social. No final, os autores demonstram que apesar de todas estas novas conformações teóricas serem alvo de críticas diversas, tais construtos fornecem essenciais subsídios para compreendermos a presença duradoura da discriminação no âmbito das relações interpessoais, com sua plasticidade insidiosa que corrói moralmente a sociedade.

Fonte: Lima, M.E. & Vala, J. (2004). As novas expressões do preconceito de racismo. Estudos de Psicologia (Natal) 9(3), 401-411