Resenha: Música, Comportamento Social e Relações Interpessoais

Ana Carolina Rocha Oliveira

O artigo desenvolvido por Beatriz Ilari discorre pelas relações entre os comportamentos sociais e o papel que a musica pode adquirir nesse contexto. Ou seja, a autora do artigo pretende demonstrar quanto a musica pode ser um fator também importante no modo em que as pessoas interagem e são atraídas umas pelas outras nas suas relações afetivas.
O estudo parte de uma citação de Pinker (1997), em que o linguista sugere que o mundo provavelmente seria igual mesmo sem que existisse a música. Dessa suposição, vários outros autores e pesquisadores, que discordavam da afirmação inicial de Pinker, passaram a estudar e aplicar instrumentos que comprovassem que a música pode ser um fator de importância na evolução das sociedades, sendo produto de um fenômeno social em diferentes culturas.
Entretanto, ate o momento da presente pesquisa, já era possível reconhecer na música as diferentes funções dentro das atividades humanas, principalmente, quando em referência as relações interpessoais. Deste modo, Ilari comenta a teoria desenvolvida por Huron (1999), em que este estabelece um vinculo entre a música e os efeitos que ela causa sobre a atração e consequentemente sobre as relações interpessoais, inclusive as de natureza amorosa.
Ao falar sobre atração interpessoal, a autora do artigo descreve brevemente sobre o papel da mesma na formação das relações entre indivíduos demonstrando que, seja pela perspectiva evolucionista (em que será ponto de partida para a procriação e descendência), seja pela perspectiva cognitivista (em que estará correlacionada aos esquemas cognitivos dos ideais criados de parceiros e relacionamentos), a atração entre as pessoas se deve principalmente a partir do contexto social em que estas estão inseridas. De tal forma, é possível constatar o quanto as atitudes, as crenças e os valores comuns atuarão como forças poderosas e essenciais na atração interpessoal, estabelecendo assim, uma ligação entre essas forças de atração e a escolha por determinados gostos musicais.
Outra ligação que pode ser feita e que está presente no artigo, é a ideia de que tanto a música quanto a atração interpessoal consideram a indução ou surgimento de sentimentos, visto que podem exercer efeitos significativos no comportamento social dos indivíduos em interação. No entanto, as semelhanças vão até esse ponto. Diferentemente da atração entre pessoas, que tem uma conexão obvia com os afetos, o mesmo não se pode garantir da dualidade música-afeto, que geralmente terá seu grau de excitação dependente dos gêneros musicais escolhidos para cada situação, de acordo com o contexto social (North e Hargreaves, 1997).
Diante de todo o inicial teórico sobre a música e suas relações e efeitos no comportamento social, Ileari conclui que as escolhas musicais por determinados gêneros são condutas aprendidas devido às influências grupais, posto que servem como guia às nossas percepções e o modo como avaliamos os outros. Ou seja, nos relacionamentos interpessoais, como a atração, os fatores de interesse apresentam-se como respostas individuais aos estereótipos. Zillman e Bhatia (1989) associavam a percepção do grupo em relação aos gostos musicais de outros grupos aos estereótipos, trazendo estes como esquemas cognitivos impostos social e culturalmente, sendo determinantes para as atitudes interpessoais. E é a partir dessa contextualização que ela parte para o método.
Diante de sua amostra de 50 pessoas (já que 10 foram invalidadas por terem uma relação mais formal com a música: ex. de músicos profissionais e amadores), entre jovens e adultos, numa idade média de 27 anos, Ileari dividiu seu instrumento em três partes. No primeiro momento, exibiu alguns classificados pessoais para que o participante escolhesse o parceiro ideal, com o objetivo de que fosse determinado o papel que a música desempenha nas relações interpessoais, na atração e na escolha do parceiro. Na segunda parte, foi feita uma coleta de dados procurando verificar se os estereótipos brasileiros seguiam pelo mesmo caminho das amostras coletadas nos Estados Unidos e na Europa. Já no terceiro momento, o participante era encaminhado a responder algumas questões abertas sobre ele mesmo e a relação com a música para investigar se realmente existem funções especificas da música nas relações interpessoais.
Na primeira parte da pesquisa, concluiu-se que a música está entre um dos muitos fatores que interferem na atração entre as pessoas não sendo, no entanto, uma característica direta ou mesmo com forte efeito sobre a escolha dos parceiros. O que não significa que a música se torne menos importante, já que, durante a coleta, as respostas, que foram divididas em grupos de maior ou menor frequência do fator musical nos anúncios, resultaram na ausência de diferenças entre eles.
No segundo momento, foram agrupadas em categorias todas as 147 palavras utilizadas pelos participantes para adjetivar os gêneros musicais listados. Das categorias capacidades individuais, personalidade, julgamento de valor, condição socioeconômica, localização geográfica, educação, grupo social, atitudes e ideologia política, as que obtiveram os maiores números de palavras associadas foram personalidade e atitudes, demonstrando quanto às pessoas inferem das preferências musicais os modos de agir e de se portar dos outros indivíduos.
Dentre os gêneros propostos, a maioria das pessoas manteve o padrão de associação de palavras estereotipadas em relação a MPB, ao jazz, a música clássica, ao samba/pagode, ao rock/pop, a música do mundo e ao sertanejo, assim como já havia sido mostrado em pesquisas anteriores como a de Zillman e Bhatia (1989). De todos, os gêneros que tiveram maior destaque foram os gêneros sertanejo e música do mundo. O primeiro pela convergência de adjetivos similares da amostra e o segundo pela divergência e antagonismos de adjetivação.
Na terceira parte do estudo, os participantes foram questionados quanto às possibilidades da musica exercer algum papel na vida amorosa, se os gostos musicais diferentes eram relevantes na escolha do companheiro e se a musica fez parte de algum momento significante na vida dos entrevistados. O resultado para primeira questão foi unânime a favor do papel exercido pela música num contexto amoroso. Na segunda questão, a mesma porcentagem de pessoas (86%) acreditava ser possível estabelecer relacionamentos com pessoas de diferente gosto musical. Na ultima pergunta, também a maioria dos entrevistados conseguiu se lembrar de pelo menos um evento de suas vidas em que a música foi fundamental, sendo o maior número de eventos listados associados às relações interpessoais.
De acordo com a análise da pesquisa tirou-se que a musica e as relações interpessoais possuem uma ligação de fato, mas que se correspondem indiretamente ao contexto subjetivo e experiências de vida de cada pessoa, revelando, simplificadamente, quatro usos possíveis e distintos da música dentro dessas relações, tal como: objetivos de excitação, fundo acústico, facilitadora de atividades que promovem a aproximação de indivíduos e artefato mnemônico.
Ou seja, a pesquisa reforça o papel de importância da música nas relações interpessoais, corroborando a ideia de que música e atração são elementos que tendem a se associar a partir dos esquemas cognitivos tão só o uso de estereótipos, de experiências e até mesmo de funções específicas dadas à música nos possíveis relacionamentos, garantindo essa situação para alem das barreiras culturais.
A música é indefinida. Ela pode significar varias coisa em vários lugares diferentes. A música ultrapassa a barreira do sensível e atingi o que mais profundo possa existir em nós mesmos. A música serve para conhecer e fazer interagir com outras pessoas e grupos, aproximando-os, tanto quanto para ser elemento de excitação ou armazenamento de lembranças. A música não só tem importância como ela é por si só fator fundamental para criar cenários e ambientes sonoros propícios nas relações afetivas e amorosas, facilitando e influenciando o humor, os sentimentos, a sensibilidade e a integração interpessoal, seja lá de que forma for. Evidenciando aqui, o erro da afirmativa de Pinker (1997).
A música está além dos gêneros musicais. Os gêneros são partes de um todo musical e representam as diferentes formas de interação entre as pessoas assim como entre grupos. Talvez, como foi encontrado pela pesquisa Ileari, as pessoas de mais idade realmente tenham mais dificuldade de conseguir conciliar diferentes gostos musicais dentro de um relacionamento, pois fica mais difícil manter atividades de lazer compatíveis. Porém, não necessariamente isso ocorra se os outros dados apresentados da pesquisa estejam corretos, já que a maioria das pessoas confessou não ver problemas em manter um relacionamento com outra que aprecie um gênero musical divergente, acreditando, inclusive, ser uma chance de aprender e vivenciar novos contextos e estilos.
Ou seja, considerando o respeito às diferenças e os limites estabelecidos pela convivência diária, será visível e viável o beneficio que tais diferenças venham a acarretar no relacionamento. Ate porque, a música é também uma forma de libertação. No estudo Ileari, 11% dos entrevistados citou a musica como a arte mais acessível e capaz de libertar a mente das preocupações do cotidiano.
Portanto, tem-se que a autora conseguiu em parte comprovar suas ideias sobre a interferência da música nas interações interpessoais. Concluiu que, apesar de ser uma influência indireta e generalizada, o estudo deve manter investigações que consigam agregar novos dados e inserir novos fatores ainda não tratados para que sejam analisados e, progressivamente, construir novas estatísticas condizentes com a realidade social.
Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198

Resenha: a expressão das formas indiretas de racismo na infância

João Raphael Gomes da Silva Oliveira

O ponto inicial do artigo é uma observação crítica sobre o quanto a expressão do racismo nos adultos se apresentou na sociedade a partir da primeira metade do século XX e de que maneira ele continua se manifestando na contemporaneidade a partir das crianças. As autoras procuram levantar as formas indiretas de racismo na infância, levando em consideração que esse estudo apresenta carência de análises sobre esse tema.
Levando em consideração as novas formas de preconceito e racismo dos adultos, encontra-se no artigo teorias do racismo: ambivalente (resultado do conflito dos americanos brancos em relação aos americanos negros), a teoria do racismo simbólico (que afirma que atitudes contra os negros decorrem de ameaça aos valores do individualismo) e a teoria do preconceito sutil (que distingue duas formas de preconceito: o sutil e o flagrante). Todas as teorias citadas nesse parágrafo analisam aspectos do racismo velado. Porém, a teoria que busca ser enfatizada é a teoria do racismo aversivo. Segundo essa teoria, os contextos de resposta do indivíduo diante de uma possível situação de preconceito são o que determinam as expressões mais abertas ou veladas do racismo.
Através de alguns experimentos, tomando como base os estudos de Dovidio e Gaertner, foi possível chegar a conclusão de que quando a norma anti-racista está amostra a discriminação não se manifesta. De acordo com pesquisas de outro estudioso sobre expressões do Racismo Moderno (McConahay, 1986), a manifestação do racismo depende de quem pergunta e de quem é perguntado como em uma entrevista, por exemplo. Alguns desses estudos foram replicados e os resultados sustentaram que a norma social anti-racista se manifesta hoje de forma indireta ou encoberta.
Observamos que em determinado momento da infância a criança evolui de uma fase egocêntrica, para uma fase de sociocentrismo, em que os julgamentos sociais se baseiam na categorização e percepção de semelhanças e dessemelhanças entre grupos sociais, tudo isso por volta dos 7-8 anos que é quando as crianças, segundos os pesquisadores, reconhecem termos de tolerância e comportamento. No primeiro estudo os resultados indicaram não existir efeito do gênero sobre a discriminação. Foi observado que tanto as crianças mais novas quanto as mais velhas recompensavam mais o branco do que o negro num objetivo que buscava investigar o efeito do contexto de igualdade ou diferenciação sobre a expressão das formas indiretas de racismo levando em consideração a função da idade.
Em um segundo estudo, com a finalidade de verificar a influencia de uma norma anti-racista entre crianças brancas e negras, verificou-se que em um cenário de entrevistas a ausência da entrevistadora negra desativava os conteúdos da norma anti-racista e as crianças brancas acabaram expressando o preconceito apesar de ter relação com as crianças negras. Em outras palavras, o que tem buscado saber é se nas idades em que as crianças apresentam racismo de forma direta elas estão buscando uma análise sob o efeito de se mostrarem igualitárias. Em um terceiro experimento, foi verificado que na faixa etária de 5-7 anos, as crianças ainda não adquiriram ou interiorizaram a norma anti-racista, ao contrario das crianças que tem mais de 7 anos de idade que apresentaram ter o mesmo padrão de preconceito das suas mães.
Portanto, podemos concluir, através desses três estudos e levando em consideração as vertentes teóricas citadas acima que as novas formas de racismo tem-se confirmado como expressões sutis e indiretas por meio de reflexo das pressões das normas sociais anti-racistas sobre o indivíduo. Ficou claro que a partir dos 8 anos, nas crianças brancas, de acordo com o estudo, ocorre uma interiorização da norma anti-racista. O que também foi verificado é que em crianças mais velhas o comportamento discriminatório passa cada vez mais a se expressar de modo indireto e distante da punição social e que o processo de mudança para essa situação merece ter como ponto de início o estudo sobre como isso infere no processo de interiorização desse tipo de normas sociais e como tudo isso se configura a partir dos 8 anos de idade.

Referência Bibliográfica: França, D. e Monteiro, B. A expressão das formas indirectas de racismo na infância. Análise Psicológica, 22, 4, 705-720, 2004.

Resenha: Homofobia e outras expressões correlatas de violência – desafios para a psicologia política.

Robério Oliveira Pedroza Júnior

A tese deste artigo pretende contribuir para o debate sobre a violência de gênero, sexismo e homofobia situando estes temas em um plano político. Para tanto, expor e avaliar a ótica pela qual foi pesquisado e teorizado, com uma maior aceitação e preferência entre os pesquisadores e teóricos, o tema da violência, onde a temática da violência de gênero generalizadamente se encontrou como subtópico.
No cenário da América Latina, e, principalmente no Brasil, há pouco interesse na investigação sistematizada e pouco se publica sobre esses temas. O Estado incorporou a violência de gênero em suas políticas sociais no final da década de oitenta, e alguns de seus programas passaram a ser gerenciados por agentes sociais, porém, paradoxalmente, persistiu o desinteresse pelo debate teórico. Outra forma de contradição vem do o fato que o tema da violência – e aqui se encontram as violências específicas, foco deste artigo – ganha espaço entre as entidades classistas, particularmente no Conselho Nacional d Psicologia, nos Conselhos Regionais de Psicologia, encontros da Associação Brasileira de Psicologia Social, e na recente criada Sociedade Brasileira de Psicologia Política. Os contornos do problema da violência parecem ter atingidos estruturas claras, ficando os agentes sociais responsáveis pela sua erradicação; pouca contribuição teórica tem sido ofertada de modo que contribua para as ações e para que se continue a investigar o tema. Para isso também, o artigo no qual se constrói essa resenha, procura contribuir, tendo em foco, principalmente, o sexismo e a homofobia.
Há poucos modelos eficazes no combate à violência de gênero, não sendo bastante apenas as ações por equipamentos de contenção, como centros de apoios, delegacias especializadas, ou programas de intervenção. A temática da violência de gênero é de difícil abordagem e está profundamente ligada aos processos de socialização, sendo um desafio à psicologia e aos psicólogos que não estão aptos a operar e entender seus possíveis desdobramentos psicossociais.
Antes de tudo, o que se propõe é que o sexismo e a homofobia podem ganhar uma análise específica e diferenciada, não estando veiculada restritamente aos estudos sobre preconceito social. Teorias e modelos que não levam em consideração o sistema de gêneros irão falhar ao tentar lindar com essas questões. O sexismo é um conceito que define um desprezo frente ao sexo oposto, a discriminação em relação às mulheres ou pessoas tidas como feminilizadas. Em uma cultura aqui designada como falocrática, preparam-se representações sociais que, partilhadas, geram opiniões e tendências a ações que desqualifiquem e violente mulheres, tidas como uma categoria de menor prestígio social. Marcado por um pensamento essencialista, no sexismo atribui-se características inerentes a cada sexo. A homofobia é uma postura de medo de contato e rejeição em relação à homossexualidade; em um indivíduo os medos organizam o ódio, podendo gerar evitamento, fuga, e impedindo a confrontação das causas que o provocam (Welzer-Lang, 1994).
O conceito de violência de gênero não representa somente sinônimo de violência contra a mulher. Atualmente, busca-se desvincular esse conceito de sua necessária trajetória onde se buscou qualificar uma violência específica, diferentes de outras formas de violência e buscar modelos explicativos acerca de sua origem. A produção teórica deste conceito, atualmente, procura se afastar do modelo explicativo, para que se configure o que seria o feminino e dessa forma estender o entendimento das ações discriminatórias. Nessa nova análise conceitual, é na cultura que se identifica a síntese da violência. Nessa perspectiva feminista, identifica-se a violência como valorada durante a socialização constitutiva do masculino. Isso rompe com a concepção de que a agressão é resultados de atos desviantes de um agressor. Os agressores são socializados para o sexismo, misoginia e homofobia e agem segundo a norma desta cultura.
As teorias sobre a gênese e os efeitos da violência, no qual sempre se colocou o debate sobre sexismo e homofobia, atendem pressupostos e modelos que possuem diferentes focos: os sujeitos psicológicos, as condutas disfuncionais ou sobre o sujeito político. Os modelos que tem por foco os sujeitos psicológicos atendem a uma perspectiva clínica, consideram a violência como fenômenos imprevisíveis que podem causar consequências psíquicas traumáticas a quem é agredido; se interessam pela etiologia, diagnóstico e prevenção. Os modelos psicoeducativos são aqueles cujo o foco é dirigido às condutas disfuncionais; aqui a violência é caracterizada como uma disfunção. Se difere do ultimo modelo, pois o foco é dirigido ao agressor. Neste modelo figura-se a Teoria da Aprendizagem Social (Bandura; 1973) que sugere que indivíduos expostos constantemente a contextos de violência acabam por assimilar referências de comportamento violento, como em situações de stress e conflito. É proposto como formas de intervenção, medidas de ressocialização do indivíduo, procurando sanar tais formas de comportamento, os oferecendo alternativas frente a estímulos que desencadeiem a violência. Ainda neste modelo a Teoria do Poder, identifica a violência como uma disfunção social. O exemplo disto, o contexto familiar, seria marcado por distribuições internas desiguais de poder, que com o desgaste e o convívio, provocariam naturalmente situações de violência. A perspectiva feminista, a qual tem foco o sujeito político, identifica pontos frágeis nesse modelo e suas teorias afirmando que é falha qualquer tentativa de analisar um contexto familiar ou qualquer outro contexto social de distribuição assimétrica de poder – no qual se encontre uma gênese da violência – fora das influências do sistema patriarcal. Também se diferente da teoria da aprendizagem social, pois não considera a violência como resposta aprendida a conflitos; o sujeito aprende qual o objeto pode ser hostilizado e oprimido.
Este artigo acaba por contribuir para a reformulação da causa, onde se encontra a origem da violência, principalmente a homofobia e o sexismo. Identificando na cultura o gênese destes tipos de violência, aponta uma nova direção ao debate da causa em busca da resolução de impasses que ainda circundam o tema. O sexismo e a homofobia se situam na cultura, assentada no sistema de gêneros, e, portanto, necessitam de uma analise diferenciada e específica. Cabe, sobretudo, um olhar sobre o sujeito político no campo de produção de conhecimento sobre o tema, visto que a violência de gênero e contra grupos socialmente minoritários, perpetrada pela cultura, encerra ações intencionais de manutenção da violência pelos agressores.

Referência: Karin Ellen von Smigay. Sexismo, homofobia e outras expressões correlatas: desafios para a psicologia política. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 8, n. 11, p. 32-46, jun. 2002. Disponível em:http://www1.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20041214154032.pdf

Resenha – Investigações psicológicas no ciberespaço: O impacto do interesse, filiação grupal e conhecimento na adesão às crenças ufológicas.

Graciara Oliveira Silva

Nesse estudo, os autores apresentam uma breve introdução sobre o sistema de crenças, explicando que umas podem ser mais justificadas e, por isso, mais endossadas do que outras. Isso acontece quando a decisão de crer ou não crer é objeto de uma reflexão e crítica aprofundadas, diferente das crenças constitutivas do sujeito que crê, uma vez que a justificação não é tão importante.
Para adentrar nas crenças ufológicas, os autores pontuaram que a princípio nós não duvidamos que somos seres humanos com atributos que nos identificam como tal e diferenciam-nos dos demais seres vivos que se evoluíram no planeta Terra. Nessa perspectiva evolucionista que nos afasta do criacionismo, e também do antropocentrismo, os autores refletem:

Ao mesmo tempo em que temos certeza de que pertencemos a uma espécie que se desenvolveu no planeta Terra, consideramos como justificada a crença que o nosso pequeno planeta ocupa uma posição quase irrisória face à imensidão do universo. Seríamos, então, os únicos entes pensantes nesse imenso universo ou seria mais sensato supor que talvez em uns poucos dentre os milhões de astros celestes tivessem surgido formas de vida e civilizações diferentes das modalidades que conhecemos? (Pereira; Silva; Silva, 2006, p.376).

Nesse sentido, os autores afirmam que as crenças sobre a existência de extraterrestres e civilizações em outros planetas são plausíveis, porém, duvidosas por causa da falta de comprovação, visto que elas são justificadas por “argumentos construídos com base em evidências sobre a presença de objetos voadores não-identificados” (Idem, p.376). Em seguida, refletem mais:

As crenças se referem a entes reais ou elas fazem alusões apenas a potencialidades derivadas dos arrazoados desenvolvidos por mentes humanas? O que possibilita tantas pessoas acreditarem que tais seres existam, que são mais civilizados e nos visitam com freqüência? Por outro lado, como duvidar de que não somos únicos no universo, sem acreditar que eles se encontram entre nós? (Idem, p.376).

Segundo os autores, a justificação para as crenças ufológicas são construídas a partir de observações por meio de registros visuais e audiovisuais dos discos voadores. Por isso, o objetivo desse estudo foi o de “investigar as crenças a respeito de dois entes: extraterrestres e objetos voadores não-identificados” (Idem, p. 376)
Os autores afirmam que as crenças são sustentadas e compartilhadas muito mais pelo “endossamento subjetivo” do que pelo “estatuto epistemológico”e, por isso, a adesão ou o endosso geram repercussões em vários segmentos.
Nessa perspectiva de crenças compartilhadas, os autores optaram por ampliar o número de participantes da pesquisa para a coleta de dados através da internet. Eles defendem que há uma tendência cada vez mais fortalecida de pesquisas reais em ambientes virtuais. Destaco que muitos estudiosos questionam essa divisão entre o real e o virtual, e o conceito de virtualização do pensador francês Pierre Lévy em sua obra O Que é o Virtual (1996), promovendo uma abertura ainda maior para a práticas de tais pesquisas.
A partir do problema de pesquisa de “identificar as diferenças nos padrões de crenças compartilhadas por pessoas envolvidas ou não com grupos de pesquisas ufológicas sobre temas relacionados com a presença de extraterrestres e de objetos voadores não-identificados” (Idem, p.376), os autores conceituaram de uma forma geral as crenças, pontuaram sua importância na psicologia social e apresentaram suas hipóteses.
A primeira hipótese foi a de que o nível de conhecimento sobre os eventos ufológicos seria diretamente proporcional à adesão à crença. Em seguida, apresentaram hipóteses adicionais que desdobraram nas seguintes variáveis: interesse pelo assunto e filiação em grupos de estudo e pesquisa ufológica.
Em resumo, o instrumento de pesquisa utilizado abordou as seguintes categorias: 1) crenças sobre os extraterrestres e a humanidade; 2) crenças sobre as interferências dos extraterrestres no planeta Terra; 3) crenças sobre as relações entre extraterrestres e humanos; 4) crenças sobre os extraterrestres, a ciência e os cientistas; 5) crenças sobre os extraterrestres e as teorias conspiratórias. Segundo os autores, uma interpretação geral dos resultados sugere que:

[…] dentre as cinco modalidades de crenças consideradas, as relativas aos extraterrestres e a humanidade obtiveram um maior grau de adesão, seguida pelas crenças relativas aos extraterrestres, a ciência e aos cientistas. As crenças a respeito das interferências dos extraterrestres no planeta Terra obtiveram um baixo grau de adesão. Os resultados também sugerem que, globalmente, os participantes não aderem ou rejeitam as suposições relativas às teorias conspiratórias ou às crenças acerca das relações entre extraterrestres e humanos (Idem, p. 379).

Os resultados desse estudo apresentaram padrões diferenciados de adesão às crenças. Foi verificado que a primeira hipótese era verdadeira. Porém, “o interesse pelo assunto e, em menor grau, a filiação aos grupos de pesquisa ufológicos, exerceram uma influência mais significativa na adesão às crenças ufológicas que o grau de conhecimento” (Idem, p. 383). Por fim, concluiram que os resultados desse estudo apontam para a possibilidade de “desenvolver modelos preditivos a respeito do grau de adesão às crenças ufológicas” (Idem, p.383) e de continuação em outro estudo.

Pereira, M. E. ; Silva, J. e Silva, P. Investigações psicológicas no ciberespaço: O impacto do interesse, filiação grupal e conhecimento na adesão às crenças ufológicas. Interação (Curitiba), 10, 375-384, 2006.