Resenha: Interagindo com homens sexistas dispara a ameaça a identidade social entre mulheres engenheiras

Gustavo Siquara

O estudo em questão teve como objetivo avaliar a ameaça a identidade social de mulheres engenheiras em interação com homens sexistas e a possível diminuição do desempenho. Na interação entre os indivíduos existem padrões e julgamentos que fazemos sobre os outros. A interação pode ser um pouco mais complicada quando se trabalha com o papel de gênero. Nesse sentido atitudes sexistas despertam um interesse particular na interação tal como na área de engenharia e matemática. Mulheres nesse campo de atuação normalmente tem um estereotipo negativo de incompetência e atitudes sexistas de ameaça ambiental.
A ameaça à identidade social pode resultar em um baixo desempenho e incertezas sobre o seu pertencimento. O que os autores propõem é que o estereotipo negativo e comportamentos sexistas dos homens criam um ambiente de desvalorização da mulher e das suas contribuições e habilidades. A hipótese do estudo é que atitudes sexistas dos homens engenheiros e matemáticas possam ativar a ameaça à identidade social em mulheres através dos comportamentos interpessoais que desvalorizam as contribuições e habilidades das mulheres. Para a investigação do estudo foi realizados um total de cinco experimentos. No estudo 1, foi investigado se o nível de sexismo do homem poderia predizer o comportamento para as mulheres com quem eles interagem. Nesse caso os autores procuraram predizer se quanto mais sexista o homem poderia mostrar uma maior dominância sutil na interação com as mulheres. Nos estudos de 2 a 5 os autores examinaram se o nível de sexismo tem efeito sobre os padrões de interação. Ou seja, eles investigaram se os homens sexistas poderiam ativar a ameaça a identidade social.
As discussões gerais do estudo ressaltam que as mulheres são minorias no campo das engenharias e matemáticas, com isso tem mais interações com homens. O estudo mostrou de modo geral que a interação pode ter consequências negativas para o desempenho das mulheres nesse campo. Quando as mulheres engenheiras ou matemáticas interagem com homens sexistas podem experienciar ameaça a identidade social e especificamente ameaça ao estereotipo o que pode diminuir o desempenho nesse domínio. O resultado do estudo 1 apontou que quanto maior o escore de sexismo do homem maior domínio e interesse sexual ele exibiu para a mulher com quem ele acredita ser uma colega estudante de engenharia. Nos estudos 2 a 5 evidenciou que mulheres ao detectarem sinais de comportamentos sexistas elas serão desvalorizadas e correm o risco de serem vistas sobre a lente de um estereotipo negativo. Com isso as mulheres que tiveram interação com homens sexistas tiveram um desempenho pior em comparação quando as mulheres tinham interação com homens não sexistas. O ambiente pode ser um potente local para criar a ameaça.
Outro achado interessante foi de que as mulheres intelectualmente de baixo desempenho reportaram sentir mais atraídas pelos homens que mostraram dominância e comportamento de interesse sexual. Esses resultados são complexos, mas o comportamento dos homens sexistas pode ser reforçado pelas mulheres nesses casos, resultando na atração por eles. Assim cria um ciclo que aumenta o atraso apresentado pelas mulheres e continuam com o domínio que eles têm sobre os estereótipos negativos.
O estudo mostra a influencia da ameaça ao estereotipo a partir do ambiente e da sua relação interpessoal. Proporcionar um ambiente menos sexistas, ou discriminatório é essencial para o desenvolvimento de todas as pessoas. No estudo foi apresentado a interação comportamental em relação às mulheres e homens sexistas a partir da matemática, no entanto poderíamos pensar em outros temas como classes sociais ou étnicas. De maneira geral isso reforça a importância de se buscar um ambiente mais inclusivo e menos estereotipado. Pois em muitos casos os estereótipos podem ter influencia negativa a partir da categorização social ou de gênero das pessoas. Os métodos de intervenção devem ser baseados na mudança do estereotipo já que a forma de inter-relação irá afetar diretamente o desempenho do individuo. Um dos achados mais interessantes no estudo foi o caso das mulheres que tinham um desempenho inferior reforçavam o comportamento dos homens sexistas. Isso pode fazer com que se perpetue o estereotipo e cada vez mais as mulheres vão se sentir menos eficaz nessa área de conhecimento. Se esse ciclo não for quebrado cada vez mais o estereotipo irá afetar as relações interpessoais e os grupos minoritários.

Resenha: Logel, C., Spencer, S. J., Iserman, E. C., Walton, G. M. Hippel, W. Bell, A. E. (2009) Interacting With Sexist Men Triggers Social Identity Threat Among Female Engineers. Journal of Personality and Social Psychology, 96, (6), 1089-1103.

Resenha: Sobreviver ao medo da violação – constrangimentos enfrentados pelas mulheres.

Pérola Cavalcante Dourado


O artigo em questão retrata a realidade social que nos obriga a um estado de vigília permanente. Por questões sociais diversas, na maioria das cenas cotidianas é quase concreta a probabilidade da iminência de, de modo geral, sofrermos algum tipo de violência derivante de ato criminoso. Porém às mulheres cabe especialmente o temor do medo da violação. Senão a violação em si, ações derivantes, como assédio moral, constrangimentos diversos, e a consequente evitação de toda e qualquer situação de possível risco. É privilégio exclusivo das mulheres? Não, porém os dados apresentados no artigo reiteram que a prevalência dos casos de violência sexual nos cabe. Seria a famigerada vulnerabilidade do sexo feminino, o suposto “sexo frágil”? Ou o reflexo de uma realidade que ainda não nos encara de forma minimamente igualitária, nos tornando inevitavelmente vítimas em algum grau de padrões sexistas, patriarcais e paternalistas?
Esse temor é algo com que as mulheres convivem efetivamente, pois essa ameaça de fato existe. Em sociedades que encaram de forma mais branda tais ações sexualmente criminosas, infelizmente é comum tais atos serem tratados com viés absolutamente machista e complacente, tornando-se inclusive a vítima passível de penalidade, incrivelmente. E em tantas outras culturas, (inclusive a nossa) são retratados inúmeros casos de abusos, “míni-violações”, como são chamados no texto os atos de serem molestadas em vias ou transporte públicos, e mesmo o estupro, advindos de pessoas próximas, familiares e mesmo cônjuges, sem que as vítimas relatem esses casos, e os denunciem criminalmente. Ou seja, o medo nesses casos torna-se um ciclo vicioso, que possivelmente antecede sua incidência, e após a concretização, inibe uma ação de combate e/ou responsabilização penal.
No artigo é relatada a vivência do grupo pesquisado, composto de dezoito jovens estudantes, para verificação do impacto causado em suas rotinas por esse temor. Foi verificado que mesmo a sua liberdade, direito assegurado Constitucionalmente a todos, é cerceada. São inúmeras as situações consideradas de risco, como atividades noturnas, transitar por vias mal iluminadas, andar desacompanhada em ambientes inóspitos ou desertos, e mesmo lidar com pessoas/situações desconhecidas. Ou seja, é grande o impacto no bem estar, qualidade de vida, segurança e independência, aspectos fundamentais, e direitos que deveriam ser assegurados a todo cidadão.
Os meios considerados como vias de resolução, ou mesmo amenização dessa opressiva realidade é a revisão sistemática da formação dos indivíduos, no sentido de imiscuir-lhes o respeito e igualdade entre os sexos/gêneros, e assegurar legislação mais eficaz, que de fato iniba e puna rigorosamente seus autores. Como agente dessa transformação, a Psicologia tem papel fundamental, por seu caráter de permanente transformação social.
Referência: Berta, M., Ornelas, J. H., & Maria, S. G. (25 de Janeiro de 2007). Sobreviver ao medo da violação: Constrangimentos enfrentado pelas mulheres. Análise Psicológica , pp. 135-147.

Resenha: estereótipos e mulheres na cultura marroquina

Victoria Dourado

O tema a ser tratado se refere ao artigo: “Estereótipos de mulheres na cultura marroquina”, escrito por Fatima Sadiqi e publicado em 2008. O texto se inicia com o tópico “introdução” e apresenta como ponto de partida a explicação de que, inicialmente, o termo “estereótipo” dizia respeito a um molde de impressão usado para reproduzir cópias de um único modelo. Ainda na introdução, o texto traz que no Marrocos os estereótipos são expressões de crenças e valores, mais tarde demonstradas pela autora como inconscientes visto que resultam de uma programação cultural, no caso, a marroquina. O texto se organiza em torno de três tópicos didaticamente elaborados para esclarecer as emblemáticas relações de gênero no contexto islâmico: a primeira aborda os principais componentes da cultura marroquina, a segunda se ocupa dos estereótipos e relações de gênero e, por último, discute às reações das mulheres frente aos estereótipos negativos.

O texto faz uso da explicação de que a cultura é um sistema de práticas, rituais e crenças de uma determinada comunidade que, em níveis diferentes, exerce controle sobre o comportamento de seus membros para afirmar que a cultura marroquina é extremamente reguladora no que diz respeito às percepções de gênero e delimitação de papéis e, faz isso porque possui instituições sociais influentes, as quais são elencadas pela autora: história, geografia, Islã, oralidade, multilinguismo, organização social, status econômico, e sistema político.
Dentre elas, se destaca a história nacional do Marrocos, tradicionalmente oral, que tem sido oficializada exclusivamente por homens e às mulheres, em sua maioria, são analfabetas, resta-lhes à subordinação consequência do viés masculino emprestado à história – amplamente valorizada pelo Estado e pelo sistema educacional – que, ao retratá-las como inferiores aos homens as mantêm marginalizadas. O fator geográfico também se sobressai tendo em vista que, pela localização próxima ao continente europeu, o Marrocos permitiu uma relativização da tradição patriarcal, na medida em que foram assimilados elementos tipicamente europeus que possibilitaram uma atitude mais favorável aos papéis de gênero.
Tendo em vista o aspecto cultural do Islã, evidencia-se a aproximação do discurso feminista das expressões típicas dessa tradição, a fim de inserir o gênero feminino no contexto que lhe é próprio: a sociedade islâmica.
Tal cultura difere da sociedade ocidental, pois a oralidade é um importante instrumento de transmissão de valores positivos e negativos, nesse sentido, essa oralidade se constitui como o modo mais corriqueiro de transmitir os estereótipos sobre as mulheres. Ao mesmo tempo, a oralidade possui também um caráter marginal, uma vez que, é repassada através das línguas maternas de pouco prestígio: berbere e árabe marroquino. A oralidade, em seu aspecto vulgar, está intimamente relacionada com a característica das mulheres marroquinas que analfabetas são mantidas alheias ao contexto sócio político cultural. Atrelado a isso, o multilinguismo é tido como característica formadora da identidade marroquina e está associado à classe social e nível de educação. Nesse cenário linguístico, as mulheres monolíngues – ou seja, que falam apenas berbere ou árabe pertencem a classes menos favorecidas, ressaltando, mais uma vez, a faceta marginal da oralidade. Em contrapartida, essas mulheres se apresentam como bem-sucedidas em suas atividades rotineiras.
Por fim, a organização social impõe na percepção e na construção de gênero uma grande influência. Os papéis sociais de homens e mulheres são rigidamente assegurados pela significação que a família, estruturalmente patriarcal assume nesse contexto. Inclui-se ao sistema patriarcal a exclusão das mulheres. E, para que a estrutura se mantenha, é necessário que sejam impostos tabus, sanções e rituais (expressos principalmente pelo uso da linguagem) que restrinjam a liberdade feminina uma vez que é considerada uma ameaça ao status quo masculino.
Tendo como base que a família é onde começa a socialização, apesar da diversidade social entre as mulheres marroquinas, os estereótipos de fracas, emocionais, más, trabalhadoras, pacientes e obedientes. O desenvolvimento dessa estereotipagem ocorre de modo inconsciente. Os estereótipos se propagam devido ao caráter de presumibilidade. Isso ocorre através dos processos de difusão e insistência. A validade e o alcance do estereótipo, portanto, estão relacionados a possibilidade de atingir a sabedoria social numa sociedade. Os estereótipos de gênero marroquinos são propagados através da linguagem oral, manifestada em verbetes e provérbios, tais como: “a mulher é fraca” e “a mulher é uma víbora”. Tais expressões são tentativas de transmitir, principalmente aos homens, os valores de depreciação da mulher.
Esses estereótipos podem ser explícitos ou implícitos. Os explícitos evidenciam uma atitude positiva em relação à atividade doméstica da mulher, mas desqualificam a sua atuação como líder feminina. São exemplos, os provérbios populares: consulte sua mulher, mas não leve sua opinião em consideração e a mente de uma mulher é pequena. Essas expressões demonstram a intenção de neutralizar o poder transgressor da opinião e da voz femininas.
Os estereótipos implícitos são reconhecidos nos comportamentos e nas falas, de modo inconsciente e espontâneo caracterizando as mulheres como: fracas líderes, conselheiras irrelevantes ou interlocutoras desinteressantes, nas temáticas religiosas ou sociais.
Outra classificação subdivide-se em estereótipos negativos ou positivos. Os positivos não geram problemas preocupantes às mulheres. Os negativos, contudo, criam preconceitos e compõe a imagem da mulher frente à coletividade. A maioria dos estereótipos marroquinos é negativa. Em comparação às ideias e conceitos acerca do homem, as características atribuídas às mulheres são, majoritariamente, negativas. É comum observar expressões populares orais que utilizam elementos alusivos à mulher, a fim de transmitir conteúdos pejorativos. São exemplos: “mercado de mulher”, para significar algo sem valor e “trabalho de mulher”, para indicar que algo foi mal-feito.
É importante destacar o estereótipo relacionado à “linguagem da mulheres”, difundido graças ao dualismo homem/líder e mulher/subordinada. Esse estereótipo define que a comunicação oral feminina é vazia de conteúdo e emitida em tons muito agudos e altos. Assim, as mulheres falariam em demasia e sobre assuntos doméstico e irrelevantes para a sociedade.
A fala da mulher marroquina também está ligada ao estereótipo do “mau-olhado”. Isso representa que quando algum evento com efeitos prejudiciais ocorre após conversar com uma mulher ou ter-lhe como companhia, atribui-se o dano ao poder de sua influência. Esse estereótipo atinge as mulheres velhas, divorciadas ou viúvas. Destaca-se que os homens com essas características são vistos como maridos em potencial, excluindo-se o caráter pejorativo. Esse estereótipo se refere à tentativa de neutralizar o papel social e a manifestação da opinião dessas mulheres, as quais apresentam maior liberdade para transmitir ideias e optar por comportamentos alternativos.
Há ainda a visão pejorativa de que as mulheres devem trabalhar arduamente para adquirir respeito e relevância sociais. A meninas são ensinadas a trabalhar, a fim de estarem aptas a encontrar um bom marido. Exige-se que a mulher, além de submissa, seja, também, uma exemplar chefe doméstica. Relação paradoxal de características, exigindo maiores sacrifícios.
As marroquinas reagem à estereotipagem a partir da afirmação um contratipo, isto é, um estereótipo positivo que substitua aquele pejorativo. Contratipos, contudo, são estereótipos e, portanto, são representações frágeis e superficiais de um grupo social. Opta-se, também, por reivindicar oportunidades de representações políticas femininas, a fim de opor à opinião de que as mulheres não são boas líderes ou que não possuem condições construir opiniões e posições relevantes. Deve-se, também, combater a simplificação das características femininas, expressão da ideologia da superioridade masculina, criando a necessidade de compreensão das peculiaridades. Demonstra-se que os estereótipos podem ser bastante prejudiciais à coletividade de homens e de mulheres e ao sucesso no contexto das organizações. Sendo assim, se faz evidente que a construção dos estereótipos relativiza a heterogeneidade e complexidade inerente às mulheres do Marrocos.

Referência: Sadiqi, F. Estereótipos e mulheres na cultura marroquina. Cadernos Pagu (30), 11-32, 2008.

Resenha: mujeres musulmanas – estereotipos occidentales versus realidad social

Juliana Costa Santos

O artigo de uma temática bastante contemporânea e desconstrói conceitos que estão presentes no imaginário de boa parte da população. A autora, Djaouida Moualhi, já nos primeiros parágrafos, coloca-se como personagem da sua própria história: mulher, muçulmana, imigrante e magrebe. Este ultimo termo se refere à região no noroeste da África, onde existe uma concentração de países islâmicos, como é o caso do Marrocos, da Tunísia e da Argélia.
No começo da sua explanação ela traz à tona alguns tipos mais comuns de estereótipos que os ocidentais tem em relação aos muçulmanos e as suas condições de vida, com foco nas questões femininas. Aos poucos ela demonstra como algumas tradições muçulmanas são vistas pelos ocidentais e as consequências dessa visão, sempre fazendo um paralelo com o Cristianismo. Um exemplo é o pensamento de que os muçulmanos são fanáticos e muitas vezes violentos. Segundo a autora esse discurso teve seu começo na época das cruzadas (Robinson, 1990: 18 apud Moualhi, 2000). De acordo com Moualhi (2000), este pensamento remete ao século XIX, quando a maioria dos países árabes e muçulmanos estavam sendo colonizados por potencias ocidentais. Neste momento a sua religião era a maior forma de expressão e resistência, o que levou os colonizadores a demonizarem e condenarem a prática. Outros exemplos citados são o uso do véu, a poligamia e a clitoridectomia (retirada do clitóris).
Na seção seguinte, a autora se dedica a falar detalhadamente sobre os exemplos citados anteriormente, desmistificando cada um deles e apresentando alguns fatos. Em relação ao uso do véu, ela cita o pensamento ocidentalizado de um autor, que define como “símbolo por excelência da marginalização e da alienação” (Manyer, 1996: 67, apud Moualhi, 2000). No entanto ela diz que mulheres que usam véu não atrapalham a sua emancipação, já que o veem como símbolo de elegância e preservação, e não de repressão. Este é um tópico bastante interessante, visto que, aqui no Brasil, é comum observar o discurso criticado pela autora e tantos outros que mobilizam a população em prol de uma luta contra a repressão de mulheres pelo uso do véu, quando na realidade, boa parte das pessoas “compra a briga” sem saber se a “parte interessada” de fato se sente como pensamos. O mesmo funciona para a clitoridectomia, uma prática existente apenas em alguns países de cultura islâmica, mas que surgiu muito antes do islamismo, Lerner (1990), citado por Moualhi (2000) apresentou a existência deste tipo de prática entre egípcios, fenícios, gregos, etc. Segundo algumas culturas que praticam este ato, trata-se de uma circuncisão feminina, com motivos diversos como: higiene, sacrifício, etc.
Apesar de trazer a realidade sobre alguns estereótipos, a autora também aproveita para falar da existência de graves acontecimentos machistas e discriminatórios na cultura islâmica, como a dependência e subordinação da esposa em relação ao seu marido e como as leis o favorece em caso de separação, custódia dos filhos, etc. No entanto, criticando ou não a cultura, ela deixa bastante claro que essas práticas e suas “regras” não são universais. Ainda que exista apenas um Alcorão e um Charia (espécie de livro de “leis” islâmicas), as interpretações são diversas e as leis também. Cada país pode agir de uma forma diferente. Algumas práticas são comuns em alguns países de cultura islâmica, enquanto podem ser condenadas em outro. A visão unificada sobre o mundo islâmico, segundo Moualhi (2000), faz parte do etnocentrismo ocidental.

Referência: Moualhi, D. Mujeres musulmanas: estereotipos occidentales versus realidad social. Papers, 60, 291-304, 2000. Disponível em: http://ddd.uab.es/pub/papers/02102862n60/02102862n60p291.pdf

Resenha: sobreviver ao medo da violação

Victória Santana

O presente artigo discute a situação da mulher frente a antecipação do sofrimento relacionado ao medo da violação, quais as estratégias usadas para lidar com a ansiedade que essa situação inflige. A população feminina é a mais temerosa e que mais toma medidas de proteção contra crimes e é, entretanto, a que apresente menor probabilidade de sofrer crimes em relação aos homens. A questão é explicar o porque desse medo por outra via que não a possibilidade de ser vitimada (Stanko, 1995) .
As autoras trazem como referência duas hipóteses para a explicação desse medo seria a primeira de que os homens apesar de sofrer do mesmo sentimento por conta da imagem masculina na sociedade disfarçam-no com outros tipos de comportamentos (Clemente & Kleiman, 1977, cit. Por Stanko, 1993), a segunda hipótese seria de que as mulheres relacionam essa ansiedade a um tipo de crime violento em especial, o medo da violação, o qual os homens geralmente não temem (Riger et al., 1978). A autora relata várias pesquisas e autores que falam sobre como o medo da violação – abuso sexual – está difundido entre as mulheres como mais temido que o próprio homicídio, enquanto os homens não dão importância devida a esse risco. Além do medo, as mulheres são as que mais tomam medidas de precaução, ainda assim, é importante ressaltar que os tipo de precaução tomadas pelas mulheres não as protegem de fato por na verdade restringirem o acesso e a liberdade do público feminino aos espaços sociais ao mesmo tempo em que essa violência não está restrita a lugares como ruas à noite, sítio escuros, ou lugares com pouca visibilidade. As autoras asseguram que não a violação por si traz graves consequências à sobrevivente, mas que é de fato importante estudar as consequências que o medo das mulheres as violação tem por si só, mesmo sem nunca terem sido vítimas de crimes dessa espécie.
O medo da violação nas mulheres não deve explicado como individual, mas como um processo social que atinge o ser feminino. Como os estudos feministas apontam a violação é uma forma da sociedade machista subjulgar a mulher, mantendo-a numa posição de vulnerabilidade. As autoras trazem a contribuição dos estudos feministas e da psicologia na violência contra mulher, mostrando a faceta de poder e que é socialmente incentivada. O presente estudo conta com uma metodologia que traz aspectos importantes das teorias feministas e que procuram atentar para 1) há uma focalização no gênero (feminino) e na desigualdade social que esta condição acarreta; 2) procura-se dar voz às experiências pessoais e quotidianas das mulheres (ou mesmo de outros grupos marginalizados); 3) paralelamente ao objeto propriamente dito da investigação, encontra-se um compromisso social, para que uma real mudança ocorra nas condições opressoras sob as quais o grupo em estudo se encontra; 4) a reflexão dos próprios investigadores sobre questões que abordam o gênero, raça, classe social e orientação sexual podem influenciar o processo de investigação, daí que; 5) se abandone, de algum modo, a tradicional investigação positivista, que apoia uma relação formal entre investigador e “investigado”, dando lugar a um ênfase participativo por parte do último na própria construção da investigação (Cosgrove & McHugh, 2000). O estudo investigou 18 mulheres, entre 19 e 25 anos, a amostra foi obtida por conveniência na população do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, tendo em vista a maior vitimização de mulheres na faixa etária entre 18 e 24 anos. Foi utilizado como instrumento um guia ou roteiro de discussão baseado na escala “Fear of Rape Scale” O guião é constituído por 10 itens, os quais compreendem a: 1) Qual o crime que mais temem?; 2) Na condição de mulheres, qual o crime que pensam que mais as afetam?; 3) (referida a violação) O que vos faz sentir?, (violação não referida) E a violação, já pensaram sobre isso?; 4) Qual o local/locais onde pensam haver uma maior probabilidade de acontecer? E em que altura do dia?; 5) O que fazem ou deixam de fazer por causa desse crime? (precauções em casa/ rua/transportes públicos/relações sociais/altura do dia); 6) De que modo pensam que o medo da violação afeta a vossa liberdade?; 7) De onde pensam ter surgido esse medo?; 8) Esta abordagem dos condicionalismos que afetam a liberdade das mulheres parece-lhes pertinente? Em que medida?; 9) Que outras ideias gostariam de acrescentar acerca deste tema?. O procedimento escolhido para coleta de dados foi grupo de discussão, onde após contatarem por telefone a disponibilidade das participantes foram realizados três grupos de discussão e posteriormente um quarto grupo. Foi realizada a seguir a análise de conteúdo das transcrições dos grupos de discussão. Os resultados confirmaram as pesquisas anteriores em vários países de que o receio de ser vítima de um crime de violação, a maioria das participantes (n=11) afirmaram ser o crime de violação o maior medo tanto para si mesmas quanto para os que a rodeiam. Todas as participantes afirmam adotar comportamentos para a prevenir abusos quando estão na rua, como trancar a porta do carro, ter cuidado no lugar onde estaciona. A maioria diz que não tem preocupações com o vestuário. É interessante ressaltar o fato de as precauções tomadas pela maioria das participantes são em relação ao período noturno, durante o dia existe um maior sentimento de segurança em relação ao abuso. Os dados levantados pelo estudo parecem confirmar a perspectiva de Stanko (1993, 1995). Outro fato interessante é que as mulheres afirmam tomarem maiores precauções com pessoas desconhecidas que com pessoas próximas, apesar de ser conhecido que em muitos são pessoas que cometem crimes de abuso sexual. As participantes também mencionam os fatores relacionados à cultura como influenciadores no medo da violação, como por exemplo, os papeis socialmente acordado sobre os comportamentos esperados de cada gênero o que corrobora o estudo de Hall, Howard e Bueziu (citado por Fonow et.al, 1992) sobre o fator de dominação machista que está implícito nesse tipo de violência direcionado à mulher. As autoras consideram a partir do estudo que o crime que mais atemoriza as mulheres é o da violação, e que as precauções tomadas surgem num contexto de diminuição da liberdade individual que vai muito além da proteção das mulheres. O contexto cultural em que essas mulheres estão inseridas trazem a vulnerabilidade como uma característica feminina que a predisporia a ser vítima desse tipo de crime de cunho dominador masculino. Assim, a pesquisa trouxe contribuições que contribuem para a confirmação de hipóteses anteriormente levantadas e que devem ser compreendidas a partir do olhar da psicologia sobre as diferenças de gênero que afetam as expressões de ansiedade em homens e mulheres de maneiras diferentes, trazendo danos muito maiores às mulheres que aos homens.

Referência: Berta, M., Ornelas, J. H., & Maria, S. G. (25 de Janeiro de 2007). Sobreviver ao medo da violação: Constrangimentos enfrentado pelas mulheres. Análise Psicológica , pp. 135-147.

Resenha: Significações e subjetividade em mulheres portadoras de transtornos alimentares

Maria Ivete Valadares dos Anjos

Matos, J e Almeida, L, no artigo Significação e subjetividade em mulheres portadoras de transtornos alimentares, contribuem, com suas análises e pesquisas, para o entendimento deste fenômeno, ainda pouco explorado, que atinge em maior grau as mulheres jovens.

È ressaltado no texto, dois componentes contraditórios no ocidente industrializado: cultua-se a “cultura do corpo” na qual o mito da magreza é associado ao sucesso, à beleza e a felicidade, enquanto que, em outro extremo, se contrapondo a esta diretriz, existe a presença de uma propaganda massiva, induzindo ao consumo de alimentos atrativos, calóricos e de pouco valor nutritivo.

Os fast foods se espalharam e se instalaram nas grandes metrópoles, provocando uma mudança nos hábitos alimentares, principalmente na população jovem, levando-a em direção a uma mudança relacionada com a aparência física, devido a um aumento considerável de peso e conseqüente obesidade.

Os autores sugerem que o transtorno alimentar é causado por multifatores: a pressão social associada à vulnerabilidade biológica ou psicológica (baixa auto-estima, traços obsessivos-compulsivos) e ainda o fator sócio-cultural, como responsáveis pelo aumento da incidência desses transtornos e pela gravidade das conseqüências.

Citam a realização de pesquisas relacionadas a cada um desses fatores:

– pesquisas baseadas em mecanismos fisiológicos, reveladoras da importância de um determinado nível de serotonina e noradrenalina (responsáveis pela sensação de prazer)
no organismo, como preponderantes para o equilíbrio fisiológico, visto que as pessoas portadoras destes distúrbios possuem estas substâncias muito abaixo do nível apresentado por indivíduos que não apresentam estes transtornos.

– pesquisas realizadas com gêmeos indicando a presença de componentes genéticos e hereditários.

-pesquisas centradas em fatores psicológicos e psiquiátricos, sugerindo que a baixa auto-estima, auto-avaliação negativa e a depressão pré-mórbida representam fatores de risco na apresentação desses sintomas.

-pesquisas que abordam os aspectos sócio-culturais, reforçam a importância desses fatores (sócio-culturais), visto que os grupos sociais mais atingidos ou mais vulneráveis encontram-se em paises ocidentais desenvolvidos, nas classes sociais mais altas, grupos de atrizes, modelos, bailarinos, nutricionistas e jockeys, adolescentes e jovens.

O texto alerta sobre a gravidade do problema e o aumento de sua incidência e cita três principais transtornos: o da compulsão alimentar periódica , que induz a obesidade, a anorexia e bulimia nervosa, que levam ao emagrecimento exagerado. Credita o aumento do interesse demonstrado pela sociedade e pela comunidade científica pelo tema, ao crescimento dessas patologias numa proporção que pode ser considerada alarmante. Também sugere que essa nova realidade provocou uma mudança na constituição subjetiva feminina.

Matos e Almeida utilizaram o referencial teórico-metodológico da Rede de Significações, fundamentado epistemologicamente pelo paradigma da complexidade e teoricamente pela perspectiva sócio-histórica do desenvolvimento humano, que entende a significação como a atividade mais fundamental do homem e como resultante das relações interpessoais (Smolka, 2004)

“A RedSig envolve uma concepção da pessoa que tanto se constitui e é determinada pelas relações que estabelece consigo mesma, com os diversos parceiros de interação e com os contextos, como também os constitui e pode modificá-los. Pessoa e meio se encontram, portanto, numa relação de interdependência, se constroem e são construídos, sendo ao mesmo tempo ativos e passivos nessas construções (Rossett i-Ferreira et.al. 2004).”

Os autores realizaram suas pesquisas entrevistando três mulheres portadoras desses sintomas. O resultado aponta para a importância dos fatores sócio-culturais. O anseio pelo atendimento aos padrões de beleza, que exige da mulher a manutenção de um corpo de aparência magra, gera uma insatisfação com o próprio corpo resultando numa relação conflituosa entre o corpo e o alimento. Este conflito leva a uma busca de soluções prejudiciais à saúde, como dietas de restrição alimentar baseadas em falsas crenças, de emagrecimento rápido.

“Vista como um reflexo de quem somos, ou seja, de nossas identidades, de nossos estilos de vida e de nossas competências,a aparência física tornou-se sinônimo de nosso valor pessoal (Hirschmann e Munter, 1991).”

Freud, em 1905, revelava o homem como um ser desejante, percebendo a presença de um componente psíquico – desejo de pertence. Essa forma de perceber o indivíduo faz-se corroborada por diversas teorias sociológicas, dentre as quais a RedSig, que entende que o homem se constrói relacionalmente e quer/busca, fazer parte.
Diante destas duas faces da mesma moeda, presentes na sociedade: uma, que desperta o desejo de estar inserido no padrão de beleza atual, associado a uma idéia de sucesso, que enaltece a silhueta magra e a outra, que desperta/direciona o ser em busca de vivenciar o prazer, através da satisfação de outro instinto, tão forte quanto o de pertence, o de sobrevivência por meio da alimentação, a mulher sucumbe.

Conclusão

O tema escolhido pelos autores é relevante, diante da sua complexidade e atualidade. Faz-se indispensável destacar os aspectos ligados ao prazer e a compulsividade presentes nos transtornos alimentares.
As mulheres, históricamente, representam a face submetida à realidade sócio-cultural pertinente a cada fase do processo histórico da humanidade. Ocuparam status de seres sem alma, sem inteligência , propriedades da família e/ou seus senhores, foram jogadas às fogueiras, como bruxas,quando ousavam revelar os seus saberes.
E, mesmo após adquirirmos o direito ao voto, ao trabalho, ao sexo por prazer, após o advento da pílula anticoncepcional e tantas conquistas oriundas do movimento feminista , continuamos reféns de padrões impostos pelo sistema mundial dominante.
Ditou-se um padrão de beleza, imposto pela mídia, inter-relacionado com fatores sócio-culturais, e nos tornamos frágeis perseguindo esta meta. E não percebemos que esta é uma meta externa. Sentimos culpa por não atingi-la, e carregamos um sentimento de fracasso e desleixo, assumindo o insucesso como pessoal e a ausência de força de vontade para atingir o objetivo.
E adoecemos, física e psicológicamente, gravemente, podendo inclusive alcançar um desfecho fatal, envolvendo a morte, perseguindo “o ideal de beleza”.
Concordo com os autores quando destacam a importância da realização de estudos e pesquisas relacionadas a esse tema, relacionadas aos aspectos subjetivos, com o objetivo de compreender e modificar o quadro grave que se delineia no mundo contemporâneo, no campo dos transtornos alimentares, dentro de uma perspectiva sócio-cultural-histórica.

Referência: Mattos, J. e Almeida, L.  Significações e subjetividade em mulheres portadoras de transtornos alimentares. Ciências & Cognição: 13, 5, 51-69, 2008, 

Estereótipos e humor: gênero e quadros de referência

Duas mulheres conversando:

1ª-Como foi sua transa ontem?

2ª – Uma catástrofe! Meu marido chegou do trabalho, jantou em 3 minutos, depois tivemos sexo durante 4 minutos e após 2 minutos, ele já estava dormindo! E sua transa, como foi?

1ª – Foi fantástica! Meu marido chegou em casa levou-me para jantar e depois passeamos à pé, durante 1 hora até voltarmos para casa. Após 1 hora de preliminares à luz de velas, fizemos sexo durante 1 hora e, no fim, ainda conversamos durante mais 1 hora!

Dois homens conversando:

1° – Como foi tua trepada ontem?

2° – Foi fantástica! Cheguei em casa e o jantar estava na mesa; jantei, dei uma rapidinha e dormi feito pedra! E a sua?

1º – Uma catástrofe! Cheguei em casa e não havia luz porque esqueci de pagar a última conta. Tive que levar minha mulher para jantar fora. A comida foi uma porcaria e caríssima, tão cara que fiquei sem dinheiro para pagar o táxi de volta. Não tivemos outra alternativa senão ir a pé para casa. Chegamos em casa e como não tínhamos eletricidade, fomos obrigados a acender velas! Eu estava tão stressado que precisei de 1 hora até funcionar e uma hora até conseguir terminar. Foi de tal maneira irritante que não peguei no sono durante 1 hora, e fui bombardeado pela minha mulher com uma infindável conversa fiada.

Resenha: Estereótipos e mulheres na cultura marroquina

Yasmin Oliveira

O artigo “Estereótipos e mulheres na cultura marroquina” de Fatima Sadiqi faz parte de um dossiê sobre a questão de gênero no Islã, da revista brasileira cadernos pagu. Tem como objetivo esclarecer o público de língua portuguesa e espanhola sobre a atual situação, no Marrocos, sobre o Islã a as relações de gênero.

Fatima Sadiqi, autora deste artigo é professora da Universidade de Fez, Marrocos. Ela apresenta os estereótipos sobre as mulheres e como estes são significativos na cultura local, que aplica representações poderosas para transmitir e sustentar tais estereótipos. No entanto, realça que as marroquinas não são receptoras e transmissoras passivas, elas utilizam estratégias para lutar contra tais estereótipos.

Segundo Sadiqi, os estereótipos, sobre as mulheres no Marrocos, podem ser definidos como crenças culturais incompletas e inexatas mantidas por algumas pessoas e que se encontram inscritos em expressões lingüísticas ou em discursos subliminares.

No país em questão, a importância peculiar destes estereótipos se dá porque a sociedade marroquina é extremamente reguladora e cria uma forte postura cultural que se manifesta nos modelos de pensamento e nas atitudes.

O artigo se encontra estruturado, didaticamente, em três sessões principais: os componentes principais da cultura marroquina; estereótipos e a relação de gênero na cultura; e reações das mulheres aos estereótipos negativos.

A apresentação inicial que ela faz sobre a cultura marroquina é essencial para o entendimento de como essas relações de gênero se dão e quais os estereótipos negativos ligados às mulheres marroquinas.

Ao delinear os componentes que constituem a cultura, Sadiqi, a partir de sua definição, explica que todas as culturas controlam seus membros diferindo apenas quanto ao grau de controle. O forte nível de controle exercido nesta cultura está, principalmente, ligado às instituições sociais descritas pela autora: história, geografia, Islã, oralidade, realidade multilíngüe, organização social, status econômico, e sistema político. Todas desempenham impacto direto na percepção de gênero e determinação de papéis.

Entre os componentes culturais mais importantes para a percepção de gênero dos marroquinos, está a geografia. O país encontra-se entre a África e a Europa. Essa aproximação com culturas diferentes tornou-o flexível: com uma tolerância religiosa, de uma heterogeneidade cultural e uma complexidade lingüística. Flexibilidade esta, que admite uma atitude mais positiva com relação às mudanças dos papéis relativos aos gêneros.

A política atual é um dos mais ilustrativos exemplos, de tolerância e até ambigüidade, trazidos por Sadiqi. O poder público, e conseqüentemente o ambiente político, são culturalmente de competência apenas dos homens. No entanto, a própria monarquia tem trabalhado insistentemente para a entrada das mulheres no ambiente político.

Fatores como a história nacional, que apresenta o ponto de vista patriarcal, de subordinação das mulheres, reforçam os estereótipos negativos. Assim como, a oralidade, típica da cultura marroquina, que devido à força e ao valor atribuído a fala e as expressões verbais locais, ajudam a perpetuar os papéis de gênero no país.

De acordo com o texto pode-se dizer que a linguagem é o fator essencial para o entendimento do processo de criação, estabelecimento e perpetuação dos estereótipos no Marrocos. Na cultura marroquina a fala possui um forte valor. Isso ocorre pois as línguas maternas, o berbere e o árabe marroquino, são tradições lingüísticas orais. Dessa forma o falado publicamente se iguala aos contratos escritos (valor da cultura ocidental). A oralidade é típica desta sociedade e é a forma mais comum de transmissão dos estereótipos sobre as mulheres.

As línguas faladas também estão associadas ao status social. As mulheres com baixo nível de educação e classe social falam, normalmente, apenas o berbere e/ou o árabe marroquino, dessa maneira são, na maioria dos casos, analfabetas e ainda mais alheias ao contexto político.

A relevância de estudar a cultura marroquina e seus conseqüentes estereótipos de gênero é poder traçar a evolução das relações de gênero no país. Apesar da heterogeneidade observável das mulheres marroquinas, elas fazem parte da mesma organização social, a que Sadiqi se propôs, exaustivamente, a explicar. E é na unidade primordial da sociedade – a família – que se inicia o processo de estereotipagem. Estes estereótipos construídos no nível familiar, vão sendo valorizados no contexto sócio-cultural, perpetuando-os.

Os estereótipos explícitos sobre as mulheres no Marrocos costumam reforçar os modelos de “boas mães” e “esposas”. Enquanto que os estereótipos implícitos são percebidos nos comportamentos e na fala e são extremamente danosos e permanentes. Ambos podem ser negativos ou positivos, ou ainda, ditos como “nocivos”, no sentido da pressão que fazem sobre as mulheres.

No entanto, as marroquinas reagem a estas crenças negativas. As estratégias de reação aos estereótipos variam de acordo com as variáveis sociais, como as de origem geográfica, de classe, nível de educação, estado civil, entre outras.

Segundo a autora, elas utilizam artifícios variados, como o uso de outros estereótipos, os chamados “contratipos”, que substituem os estereótipos negativos já existentes, assim com as, tentativas de grupos de defesa femininos que estão em processo de busca por modelos de mulheres bem sucedidas tanto na vida pública quanto na educação. O Marrocos é carregado de estereótipos negativos em relação às mulheres, a maioria deles difíceis de serem evitados devido à cultura local. E a primeira ação necessária para combatê-los, de acordo com Sadiqi, é torná-los conscientes.

Apesar de todas as dificuldades existentes, estratégias de reação aos estereótipos negativos estão sendo elaboradas. Assim como, o delineamento dos estereótipos que afetam as marroquinas. E como é possível observar pelo exemplo da própria autora do artigo – uma profissional renomada da Universidade de Fez – modelos estão aos poucos sendo erguidos.

Referências:
Sadiqi, F. Estereótipos e mulheres na cultura marroquina. Cadernos pagu (30), 11-32, 2008.
Harrak, F.;Aouad, O. Apresentação. Cad. Pagu, Campinas, ( 30), 2008 .