Resenha: Políticas de educação inclusiva e a instituição na educação da pessoa com deficiência mental

Rosana dos Santos

Segundo Marta Pires Relvas, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento, a pessoa com deficiência mental distingue-se pela incapacidade de generalizar, classificar, abstrair e analisar, quando esta está no período escolar. Sendo que a primeira suspeita que podemos observar nesses indivíduos é com relação ao lento desenvolvimento motor.
A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), define a pessoa com deficiência mental como aquela comumente associada ao funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas tais como: comunicação, cuidado pessoal, habilidades sociais, dentre outros.
No decorrer dos períodos históricos a compreensão e concepção acerca da pessoa com deficiência foi se modificando. Em certo momento as crianças com deficiência mental era retirada do convívio familiar e comunitário para residirem em instituições segregadas ou em escolas especiais, frequentemente situadas em locais distantes da família.
Contudo, a partir da década de 1990, com a implementação de leis legais, tais como a Constituição Brasileira de 1988, e a Lei de Diretrizes e Base para a Educação Nacional (LDBEM), cresceu a discussão e busca de condições para efetivação dos direitos referentes à pessoa com deficiência.
O oferecimento da educação especial, bem como a inclusão da pessoa com deficiência mental na escola regular é um direito constitucional do indivíduo, em que o Estado deve assegurar. Sendo assim, o artigo de Silvia Meletti, traz uma discussão sobre as políticas de Educação inclusiva e o paradigma de institucionalização, que consiste no acolhimento de pessoas com deficiência mental em instituições, onde é oferecido um trabalho especializado de cunho meramente assistencialista e clínico, sem tanta enfâse pedagógica.
Além disso a autora traz a análise de uma pesquisa realizada com alguns profissionais da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Tendo como base a seguinte questão: “gostaria que você me falasse um pouco sobre o seu trabalho, sobre o que você quiser me contar a respeito de seu papel aqui na instituição”.
Nesta análise podemos perceber qual a concepção de algumas profissionais da associação, com relação a pessoa com deficiência mental e a definição que os mesmos têm acerca da Educação Especial. Logo, de acordo com os dados observados e descritos, a autora demonstra que a pessoa com deficiência mental ainda é vista a partir do rótulo de deficiente, onde não se levam em consideração as habilidades e possibilidades que esta possui ou venha desenvolver; às vezes estas, também são tratadas de forma infantilizada, outras vezes são vistas como imaturas, incapazes de superar certas limitações.
Esta vissão contribui, intensificamente, para a omissão e descasso do Estado, sobretudo no que diz respeito a contribuição que este deve destinar a escolas que contemplam a modalidade de ensino em questão; bem como a disponibilização de recursos necessários à eficácia da inclusão dessas pessoas.
Levando em conta que a ideia de construção de uma escola na instituiçâo especial, camufla a importância e o dever da escola regular, de educar qualitativamente a pessoa com deficiência, Silvia Meletti, pontua três esferas que revelam a justificativa que certos profissionais dão para manter a instituição especializada como a principal instituição que possa garantir “inclusão” e promover um maior desenvolvimento cognitivo, motor e social das pessoas com deficiência mental; tais esferas são: a manutenção da pessoa com deficiência mental no âmbito da filantropia; a indistinção entre reabilitação e educação e o não acesso a processos efetivos de escolarização; manutenção da condição segregada da pessoa com deficiência mental na instituição especial “inclusiva”.
Logo a sustentação do discurso dos eixos supracitados dificultam a inclusão das pessoas com deficiência mental no sistema de ensino regular, além de contribui para a manutenção do assistencialismo institucionalizado, tal como acontecia décadas atrás, tendo um caráter meramente clínico, sem cunho pedagógico. Isso deixa uma lacuna para o Estado e as escolas de ensino regular, deixar de cumprir o dever de promover a adaptação estrutural, organizacional e curricular para atender de forma qualitativa às necessidades das pessoas com deficiência mental.

Referência: Meletti, S. Políticas de educação inclusiva e a instituição especializada na educação da pessoa com deficiência mental. Ciências & Cognição: 13, 5, 199-213, 2008.

Estereótipos e humor: a discriminação do “louco”

Contribuição: Camila Novaes

Os pacientes com transtorno mental carregam o estigma da loucura. As pessoas que se auto-categorizam como sãs vêem de forma negativa aqueles que demonstram estar fora da realidade. A generalização acontece e o sintoma parece ser a única imagem mental que vem à mente do preconceituoso. O preconceito contra estes pacientes pode ser visto em diversas anedotas sobre o tema. Afinal, preconceito contra o quê? Escolha a categoria em que você se encaixa. Quem é o louco aqui?

GRAVAÇÃO NA SECRETÁRIA ELETRÔNICA DO CENTRO DE SAÚDE MENTAL

“Obrigado por ligar para o Instituto de Saúde Mental, sua mais saudável companhia em seus momentos de maior loucura.

Se você é obsessivo e compulsivo pressione 1, repetidamente;
Se você é dependente, peça a alguem que pressione o 2 por você;
Se tem múltiplas personalidades pressione o 3, 4, 5, e o 6;
Se você é paranóico, sabemos quem é você, o que faz e o que quer. Espere na linha enquanto rastreamos sua chamada;
Se você sofre de alucinações, pressione o 7 e sua chamada será transferida para o Departamento de Elefantes Cor de Rosa;
Se você é esquizofrênico, escute cuidadosamente e uma vozinha lhe dirá que número pressionar;
Se você é depressivo, não importa que número disque. Ninguém vai responder;
Se você sofre de amnésia, pressione o 8 e diga em voz alta seu nome, endereço, número da carteira de identidade, data do nascimento, estado civil e o nome de solteira de sua mãe;
Se você sofre de stress pós-traumático, pressione lentamente a tecla # até que alguém tenha piedade de você;
Se sofre de indecisão, deixe sua mensagem logo que escute o bip… Ou antes do bip… Ou depois do bip… Ou durante o bip… De qualquer modo, espere o bip…;
Se sofre de perda de memória para fatos recentes, pressione 9. Se sofre de perda de memória para fatos recentes, pressione 9. Se sofre de perda de memória para fatos recentes, pressione 9. Se sofre de perda de memória para fatos recentes, pressione 9;
Se tem baixa auto-estima, por favor desligue. Nossos operadores estão ocupados atendendo pessoas mais importantes.”

Resenha: Dizer «não» aos estereótipos sociais: As ironias do controlo mental

Janielly Braz

É possível evitar a esteriotipização? Os indivíduos que desejam suprimir qualquer tipo de pensamento que forme um estereótipo podem obter sucesso? Essa é a questão chave do artigo de Dora Luiza Geraldes Bernades, para isso a autora faz uma revisão teórica sobre a tentativa de suprimir os pensamentos estereotipados e suas implicações.

Sabe-se, através de evidências empíricas, que se um indivíduo tentar suprimir um determinado tipo de pensamento o mesmo pode retornar a consciência com maior impacto, se comparado a alguém que não participou do mesmo tipo de tarefa, esse feito irônico é denominado efeito ricochete (Wegner, 1994).

O mesmo ocorre com os estereótipos? Considerando que os mesmos são ferramentas importantes para dinamizar o raciocínio quanto á percepção das informações que estão no entorno social do sujeito, pois pensar a partir de categorias é um processo muito mais eficiente. Porém não se pode esquecer que, como cita a autora, o estereótipo é uma faca de dois gumes, pois possui implicações nefastas para o indivíduo – vítima, além das implicações histórico-sociais já conhecidas.

Um recente estudo feito por Macrae, Bodenhausen e seus colaboradores (Macrae, Bodenhausen & Milne, 1998; Macrae, Bodenhausen, Milne & Jetten, 1994) sugeriu ser uma tarefa impossível conter o pensamento preconceituoso e até mesmo tal tentativa pode suscitar o oposto, ocorrendo um aumento nas categorizações estereotipadas se comparado a sujeitos que não participaram da tentativa de controle desse tipo de pensamento, seria então o efeito ricochete do estereótipo (ERE).

Foi à observação desse efeito que fez com que Macrae e seus colaboradores (Macrae et al., 1994) questionassem até que ponto é possível, mesmo para os indivíduos que possuem a real intenção, controlar o uso dos estereótipos? Devido a implicações sociais profundas a supressão dos estereótipos é muito mais complexa que a supressão de outros tipos de pensamentos, por isso a autora faz uma revisão literária de estudos sobre a supressão dos estereótipos.

Experimentos feitos por Macrae et al. (1994a) confirmaram que o efeito ricochete ocorre realmente com os estereótipos, ou seja, ao ser tentada a supressão os pensamentos voltam à consciência ocasionando impacto na avaliação de determinados comportamentos. Porém partindo do pressuposto que na vida social não há instruções tão explícitas para supressão do pensamento estereotipado como verificar esse efeito no dia a dia?

Uma alternativa seria o aumento da consciência contra a estereotipização e preconceito, ocasionando numa supressão espontânea dos estereótipos, algo que funcionasse como uma vontade natural do indivíduo.

Há também de se considerar a atitude pessoal do indivíduo, pois o efeito ricochete não ocorrerá da mesma maneira em indivíduos que diferem quanto ao grau de preconceito. “Monteith, Spicer e Tooman (1998) verificaram que as pessoas com alto e baixo preconceito diferem no grau de acessibilidade do estereótipo de homossexual após tentativa de supressão”. Lepore e Brown (1997) verificaram que os participantes com baixo preconceito podem não mostrar evidências de ativação do estereótipo. Isso ocorre também com indivíduos que possuem o compromisso pessoal de conter o preconceito, existindo então uma motivação interna para controlar o preconceito.

Como a supressão dos estereótipos está sujeito a diversos fatores, segundo a autora, mesmo indivíduos com alto nível de preconceito podem não aplicar os estereótipos caso as normas sociais façam com que eles não se baseiem nisso. Ainda há os indivíduos que procuram adotar uma prática mais justa e não estereotipar os componentes de um outro grupo, nesse caso ele não vai suprimir o estereótipo, mas vai estabelecer um novo estado mental. Baseada nesses dados a autora conclui que a supressão dos pensamentos estereotipados pode não ser a melhor forma de conter o preconceito. Mesmo assim a supressão não deve ser descartada, pois também pode servir para alertar sobre os lados negativos dos estereótipos, o fato de deixá-los mais evidentes pode ser uma forma de mostrar o quanto são indesejados.

As considerações trazidas pelo artigo são interessantes principalmente por avaliar o quanto é difícil desmanchar os estereótipos após o contato com eles e o quanto é necessário estudos futuros sobre outras vias que possibilitem acabar com o preconceito.

Referência: Bernardes, D. Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental. Análise Psicológica. 21,3, 307-321, 2003.

Resenha: Dizer não aos estereótipos sociais: As ironias do controle mental

Jamyle Reis

O artigo tem como objetivo apresentar uma ampla revisão teórica sobre os mecanismos de supressão dos estereótipos e dos contextos que resulta em efeitos não almejados. Começa abordando estereotipização como o conhecimento e as crenças que o individuo tem sobre um grupo social. Segue justificando o processo de estereotipização como um mecanismo que permite simplificar as informações do complexo mundo social. Para a autora é quase consenso acreditar que estamos propensos a pensar com o auxilio de categorias. A principal questão que o artigo busca responder é até que ponto é possível controlar a expressão do pensamento categorical.
O segundo tópico abordado é os mecanismos de controle mental que se caracteriza pela tentativa de controlar as respostas estereotípicas. A autora com base em Macrae e colaborares defende que a tentativa de inibir um pensamento pode contribuir para que ele se torne ainda mais acessível. Cita o modelo teórico de supressão desenvolvido por Wegner (1994, Wegner e Erber, 1992), em que primeiro ocorre um processo de monitorização de pensamentos que tem como meta a vigilância de qualquer pensamento a ser evitado. Ao mesmo tempo, começa um segundo processo operativo cuja meta principal é a reorientação da consciência para repelir o pensamento indesejado e focar sua atenção num pensamento de distração. Entretanto o individuo pode falhar nesse processo caso haja pressões do contexto, distração e se não houver recursos cognitivos e motivação para suprimir os estereótipos, de modo que este processo não apenas falhe, mas também ocorra seu oposto. Esse oposto é o efeito irônico de Ricochete (ERE).
O terceiro tópico refere-se às conseqüências irônicas da supressão dos estereótipos, é citado três experimento relatados por Macrae et al (1994a) em que apresenta um aumento na acessibilidade e de dependência dos estereótipos após a tentativa de inibição de estereótipos de skinhead. Nestes experimentos, num primeiro momento os participantes desempenham uma tarefa em que metade dos participantes tinha que suprimir o estereótipo e a outra metade não recebeu nenhuma instrução para suprimir o estereótipo. No experimento 1, na tarefa subseqüente, os participantes de ambos grupos tiveram como instrução escrever um segundo parágrafo sobre outro skinhead, sem que fosse dada qualquer instrução de supressão. Os resultados demonstraram que participantes que tiveram instrução de suprimir na primeira tarefa tiveram um ERE na segunda tarefa, em relação aos participantes que não tiveram essa instrução. No experimento 2, verificou-se que participantes que tiveram a instrução de supressão sentaram-se mais afastados de uma cadeira que seria supostamente ocupada por skinhead do que os que não tiveram a instrução. No experimento 3, ficou evidenciado que o que o estereótipo fica mais acessível após tentativas de inibição. Achado de Macrae et al.(1998) aponta que um elevado self focus (atenção dirigida) está ligado a tentativa de inibição da utilização de estereótipos. Isso ocorre possivelmente devido à atenção auto-dirigida que aumenta a saliência de crenças pessoais que sugerem que estereotipização não é adequada. No que se refere à memória, a tentativa de supressão pode levar a uma maior acessibilidade e melhor memória para esses pensamentos.
O quarto tópico por um lado apresenta uma serie de influencias que podem moderar o impacto da ERE após a supressão de estereótipos, por outro lado aponta que a inibição de estereótipo pode não resultar na ERE. Entre os fatores de moderação da ERE, a influência do nível de preconceito em que a atitude pessoal frente à esterotipização após a supressão é considerado fator mais importante. Questiona que estereótipo está para ser suprimido. Uma vez que o alvo é um importante aspecto para supressão. Outro questionamento é até que ponto o estereótipo é ativado. Visto que a ativação de estereótipo em indivíduos com baixo nível de preconceito, pode não acontecer. A prática de supressão do estereótipo ocorre de maneira diferente em individuo com baixo e alto nível de preconceito, no primeiro caso essas pessoas são altamente motivadas a suprimir preconceito, devido suas crenças igualitárias. No segundo caso, os indivíduos são motivados a suprimir estereótipos devido a pressões externas.
Entre as estratégias alternativas para supressão de estereótipos é apontado o papel de pensamentos substitutos em que os pensamentos estereótipos podem ser substituídos por crenças igualitárias. Outra estratégia é a individuação do alvo e construir impressões com base nestas informações. Além disso, um aspecto importante de ser mencionado na regulação da vida mental é os objetivos do processamento do individuo. Aqueles que têm como objetivo não estereotipizar, ao invés de suprimir, pode adotar como estratégia pensar de forma igualitária.
Por fim, investigações recentes sobre controle de pensamento consideram que tentar suprimir os pensamentos, crenças e desejos podem ser uma perda de tempo. Expulsos da mente, essas cognições podem retornar, ainda mais forte. Demonstrações do efeito ricochete dos estereótipos apontam que a supressão pode ser uma estratégia ineficaz de controle mental. A literatura também indica que as tentativas de inibir o estereótipo não são igualmente prejudiciais em todos os casos. Devido os inúmeros fatores envolvidos na supressão dos estereótipos é preciso que investigações futuras dediquem-se a estratégias alternativas de controle mental e as compare em termos de eficácia e efeitos negativos.

Fonte: Bernardes, D. Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental. Análise Psicológica. 21,3, 307-321, 2003