Artigo publicado: Stereotyping Based on Voice in the Presence of Individuating Information

Título: Stereotyping Based on Voice in the Presence of Individuating Information: Vocal Femininity Affects Perceived Competence but Not Warmth

Autores: Sei Jin Ko, Charles M. Judd, and Diederik A. Stapel

Periódico: Personality and Social Psychology Bulletin, 2009, 35, 198-211

Resumo: clique aqui para obter

Biblioteca: inclusão de conteúdo

Acrescentado à biblioteca o artigo Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate, de Maria de Fátima Araújo.

Notícia do dia: Detienen en México a la reina de la belleza de Sinaloa con un arsenal de armas y dinero

Não é incomum ouvir a afirmação de que a vida imita a ficção. No México, ao contrário, a ficção vai muito além da realidade. Clique aqui para ler a notícia publicada no El País sobre a prisão de uma miss mexicana.

Resenha: Trajetórias Escolares, Corpo Negro e Cabelo Crespo: Reprodução de Estereótipos ou Ressignificação Cultural?

Valter da Mata

O presente artigo procura evidenciar a importância do ambiente escolar no processo de construção das identidades pessoal e social dos indivíduos negros. Destaca o papel privilegiado onde encontram-se o corpo e o cabelo negro, que podem assumir um lugar especial na reprodução de estereótipos ou ainda ressignificação cultural.
Por ser um trabalho de caráter antropológico, a autora não utiliza os referenciais teóricos clássicos da psicologia, embora utilize de dimensões de grande tradição na psicologia como a identidade e os estereótipos. O estudo mostra-se extremamente oportuno uma vez que a Lei 10.639/2003 tornou obrigatória a inclusão dos conteúdos da cultura africana e afro-brasileira nos currículos escolares. A questão racial brasileira ainda está longe de ser tratada com a importância devida, embora ultimamente venha aos poucos, sendo incluída no ambiente acadêmico.
No processo de construção da identidade da identidade, a escola assume um lugar de destaque, porque muito provavelmente será o primeiro ambiente no qual ocorrerá o encontro onde a criança negra poderá pensar em termos de “nós” – familiares e vizinhos enquanto negros e ou “outros” – alguns colegas e professores enquanto brancos.
A autora coloca que a relação que a relação que o negro tem em relação ao seu corpo e seu cabelo é recheado de significados, remetendo-o a uma experiência subjetiva que não raramente está associada a sentimentos de inferioridade e baixa auto-estima.
Nesse processo de construção de identidade, a autora afirma que “o corpo fala a respeito do nosso estar no mundo, pois a nossa localização na sociedade dá-se pela sua mediação no espaço e no tempo”. A questão é que o corpo negro encontra-se ainda aprisionado à escravidão e essa diferença cromática é muitas vezes utilizada como argumento para justificar a colonização e explicar e naturalizar diferenças econômicas.
Na escola, a exposição do corpo negro é contextualizada de modo a reproduzir a estrutura hierárquica existente na nossa sociedade, ou seja, todos os símbolos de negritude serão necessariamente associados a qualificações depreciativas.
A autora se detém na experiência subjetiva experimentada por mulheres negras jovens e adultas que freqüentam salões de beleza étnicos, procurando os diversos sentidos dessas experiências, procurando descobrir através de entrevistas, como essas mulheres significam as experiências decorrentes do processo de ter esse cabelo negro e o corpo negro. Ressalta que os problemas com o cabelo se iniciam na mais tenra infância, onde são submetidas a dolorosos penteados em forma de trança, passando depois a sofisticados processos de relaxamento e alisamento capilar. Os depoimentos destacados pelo artigo ilustram os sentimentos dessas mulheres a respeito de como esse elemento – cabelo – foi importante na construção da sua identidade.
Ser negro no Brasil deixa o indivíduo vulnerável a possíveis situações de discriminação e a reação dos indivíduos a essas situações irá variar de indivíduo para indivíduo, estando intimamente ligada a construção da sua identidade pessoal e social, as suas experiências de socialização e de informação. É comum se avaliar essas reações como mais politizadas ou menos politizadas, mais corretas ou menos corretas. Isso se deve principalmente porque no Brasil, as relações raciais se dão em torno do fenótipo, podendo as pessoas ser categorizadas como mais negros ou menos negros, quando são avaliados seus traços físicos, assim como se apresentam esteticamente.
O artigo procura destacar a construção da questão racial na subjetividade e no cotidiano dos indivíduos, além do peso da educação escolar nesse processo. As entrevistas mostram discursos ambivalentes e também situações tensas vividas pelas respondentes em relação ao uso do cabelo. O uso desse cabelo pode revelar a trajetória da vida de uma pessoa, sua condição de resistência e o movimento vivido no interior de um grupo social. Exemplifica que não raramente, cabelos cortados ou raspados estão associados a ritos de passagem, como aprovação no vestibular ou ainda entrada em instituições totais como presídios e conventos, podendo estar simbolicamente relacionados com a castração. Por outro lado a cabeleira solta e rebelde pode expressar rebeldia e independência e ainda relutância às normas sociais.
Esse artigo permite uma problematizarão acerca dos múltiplos significados que o corpo e o cabelo podem assumir no processo de construção da identidade, especialmente nos indivíduos negros. Reflete também a importância que a escola assume nesse processo, quanto a Possi biliar a construção de uma identidade positivamente afirmada ou permanecer tão somente como um espaço reprodutor de uma ordem vigente, ratificando crenças estereotipadas a respeito desse grupo social.

Fonte: Gomes, N.L. (2000), Trajetórias Escolares, Corpo Negro e Cabelo Crespo: Reprodução de Estereótipos ou Ressignificação Cultural? Revista Brasileira de Educação, Set-Dez, nº 21, São Paulo, Brasil, pp. 40-51

Resenha: Confirming gender stereotypes: a social role perspective

Aline Campos

Na nossa cultura popular, é prevalente a idéia de que homens e mulheres são diferentes em muitos aspectos relevantes para seus relacionamentos amorosos. Já na literatura científica, as diferenças não parecem ser tão grandes assim. Relatórios de meta-análise, por exemplo, indicam que homens e mulheres se comportam de foram semelhante em 98% das vezes (Canary e Hause, 1993; Wilkins e Anderson, 1991).
A questão é que quando as diferenças aparecem, elas tendem a confirmar os estereótipos de gênero: as mulheres se comportam de um modo esperado para o feminino, como expressar suas emoções com facilidade; e os homens, de um modo esperado para o masculino, como buscar mais autonomia. E estas diferenças são mais evidentes em certas circunstâncias, como em situações difíceis ou aversivas.
Na presente pesquisa, os autores examinam se homens e mulheres em relações íntimas tendem a se comportar de acordo com os estereótipos de gênero, quando em situações de vulnerabilidade emocional. A vulnerabilidade emocional é definida como um estado no qual uma pessoa está aberta para que seus sentimentos sejam feridos, ou para experienciar a rejeição.
Para entender esta confirmação dos estereótipos de gênero, os autores buscaram explicação na teoria do papel social de Eagly (1987). Esta propõe que, quando em situações delicadas, homens e mulheres recorrem a comportamentos compatíveis com seus papéis sociais.
Os papéis sociais são expectativas de comportamento segregadas em torno das questões de gênero; são aprendidos através da socialização, e exigem habilidades especificas para cada sexo. Por exemplo, as mulheres, como exercem socialmente o papel de cuidadoras, desenvolvem habilidades relacionais; os homens, como provedores, desenvolvem habilidades de liderança no trabalho.
Estes papéis são normativos, e quando as pessoas estão em situações ambíguas ou difíceis, tendem a deixar as expectativas normativas guiar seu comportamento (Crick e Dodge, 1994; e outros). Assim, em momentos de pressão, homens e mulheres tenderiam a agir de acordo com as normas sociais e seus papéis, ativando os estereótipos de gênero; em situações mais tranqüilas, minimizariam estas diferenças. Os autores consideram que os homens e mulheres agem assim porque é mais fácil e menos arriscado.
A presente pesquisa investigou trinta e nove casais heterossexuais, em relacionamentos de duração em torno de 18.5 meses. Eram estudantes universitários norte-americanos, em idades variando de 17 a 27 anos, predominantemente europeu-americanos (96%), e também afro-americanos (2%), asiático-americanos (1%), outros (1%).
Os participantes eram convidados a completar um questionário que avaliava sua dificuldade percebida em discutir tópicos emocionais em um relacionamento –o Questionário de Dificuldades de Questões de Relacionamento, DRIQ, (Vogel, Wester et al.1999 e Vogel, Tucker et al. 1999). Deste questionário foram escolhidos tópicos considerados fáceis e difíceis pelos casais e dados aos mesmos para discussão, que era então filmada e observada por avaliadores. Estes últimos utilizavam o sistema de marcação global e registravam o desempenho do casal em relação a quatro variáveis dependentes: expressividade emocional, restrição emocional, comportamentos de retirada, comportamentos de demanda. As médias das avaliações dos observadores foram identificadas para se obter escores por participantes e por casal.
Estes foram os resultados para cada variável dependente:
1 – Expressão emocional: Refere-se a falar sobre sentimentos positivos ou negativos. Os casais se mostraram menos expressivos emocionalmente ao discutirem um assunto que consideravam difícil, do que quando consideravam o tópico fácil. Os homens exibiram menor expressão emocional do que as mulheres na discussão de assuntos difíceis, confirmando o estereótipo. Na discussão de tópicos fáceis, homens e mulheres convergiam em comportamento.
2 – Restrição de afeto: Refere-se a evitar falar sobre os próprios sentimentos ou recusar a lidar com os sentimentos dos outros. Os casais mostraram mais restrição no afeto ao discutirem temas difíceis, do que quando os temas eram fáceis. Aqui também houve confirmação do estereótipo de gênero: os homens mostravam mais restrição de afeto do que as mulheres quando envolvidos em temas difíceis. Não havia diferenças significativas entre os gêneros quando os temas eram fáceis.
3 – Comportamentos de retirada: Refere-se a uma evitação de discutir alguma questão. Neste item, casais exibiram níveis semelhantes de retirada com tópicos fáceis ou difíceis. Os homens, ao discutirem um tópico difícil, exibiram mais comportamentos de retirada do que as mulheres, enquanto não houve diferenças para tópicos fáceis.
4 – Comportamentos de demanda: Refere-se a tentar mudar o comportamento do outro ou entrar em uma discussão para pedir uma mudança de comportamento. Os casais discutindo tópicos fáceis mostraram menos comportamentos de demanda do que ao discutirem tópicos difíceis. Para esta variável, contrariando as expectativas, não houve diferença na exibição de comportamento de demanda entre homens e mulheres através das condições do experimento.
Em resumo, a pesquisa confirmou a hipótese de que há uma mudança comportamental na direção dos estereótipos quando homens e mulheres discutem tópicos relacionais que consideram difíceis. Num exame das médias, foi demonstrado que as mudanças de comportamento foram mais evidentes nos comportamentos dos homens do que no das mulheres. Isso indica que as diferenças encontradas em cada casal se deveram mais ao comportamento masculino.
Os autores consideram provável que isto tenha ocorrido porque a expressão verbal de emoções, usada no estudo, é uma área mais associada aos papéis femininos do que masculinos. Assim, as mulheres teriam mais facilidade em manter este comportamento estável em situações aversivas.
O presente estudo teve suas limitações: a média do tempo de relacionamento dos casais, a predominância de casais europeus americanos, o uso exclusivo de observações na medição dos resultados. Apesar das limitações, o estudo indica que homens e mulheres comportam-se de modo semelhante na maioria do tempo, mas em tempos críticos, de vulnerabilidade emocional, divergem, confirmando alguns estereótipos de gênero.

Fonte: Vogel, D.L., Weser, S.R., Heesacker, M. e Madon, S. (2003). Confirming Gender Sterotypes: A Social Role Perspective. Sex Roles, Vol.48, nos. 11/12.

Estereótipos e publicidade: loira ao volante

Biblioteca: inclusão de conteúdo

Acrescentado à biblioteca o artigo Género e espaço rural: O caso de uma aldeia alentejana, de Renato Miguel do Carmo.

Estereótipos e publicidade: seja lá aonde você for, ela te seguirá

Contribuição: Diogo Araújo

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Artigo publicado: Social Network Influence in Mate Selection

Título: Can I Make my Own Decision? A Cross-Cultural Study of Perceived Social Network Influence in Mate Selection

Autores: Shuangyue Zhang and Susan L. Kline

Periódico: Journal of Cross-Cultural Psychology 2009;40 3-23

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Resenha: Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Aline Campos

A autora investiga a teoria do sexismo hostil e benevolente desenvolvida por Glick e Fiske (1996), e de que modo os homens e mulheres endossam esta ideologia. Ela pesquisou como o sexismo ambivalente se manifesta em uma amostra brasileira, submetendo 540 estudantes universitários brasileiros ao Inventário de Sexismo Ambivalente, criado pelos mesmos autores.
A autora apresenta o tema do preconceito, em suas manifestações declaradas ou sutis. Inicia com a definição de preconceito lançada por Allport em 1954: o preconceito é uma hostilidade ou antipatia dirigida a grupos ou membros destes grupos, devido a generalizações incorretas.
Afirma que atualmente o preconceito é visto como uma atitude negativa dirigida a membros de determinados grupos sociais, devido à sua pertença a estes grupos (Smith e Mackie, 1995). Como atitude, o preconceito tem três componentes: o cognitivo, manifestado pela presença dos estereótipos; o afetivo, que é o preconceito em si; e o comportamental, resultando em atos discriminatórios (Fiske, 1998).
O sexismo, preconceito relativo às diferenças entre os sexos, desfavorece as mulheres, em função de sua condição de gênero (Lips, 1993). Este pode ser institucional (por exemplo, através de uma política salarial que prejudica as mulheres) ou interpessoal (por exemplo, a presença de atitudes negativas dirigidas às mulheres).
As teorias feministas explicam o sexismo como derivado da cultura patriarcal, na qual os homens têm a primazia do grupo dominante e controlam o espaço público, enquanto as mulheres são responsáveis pelo privado, e pela reprodução dos valores patriarcais na família.
O sexismo é um instrumento para garantir as desigualdades de gênero, e promove atitudes de desvalorização da mulher através da socialização. Cria representações das mulheres como dóceis, passivas e submissas, e dos homens como fortes e responsáveis.
Mais recentemente, atitudes sexistas tradicionais vêm sendo substituídas por novas formas, indiretas ou simbólicas. O sexismo antigo sugere, por exemplo, estereótipos sobre menor competência feminina; já o moderno nega que ainda exista a discriminação contra as mulheres, e antagoniza sua luta por uma maior inserção social e apoio governamental. O sexismo moderno também incentiva sentimentos negativos em relação às mulheres, só que de forma mais encoberta.
Glick e Fiske (1996) contribuíram ao estudo das novas formas de sexismo, desenvolvendo a teoria do sexismo ambivalente, segundo a qual o sexismo se manifesta através de duas atitudes: hostil e benevolente. O sexismo hostil apresenta uma antipatia explícita contra as mulheres, enquanto o sexismo benevolente exalta um combinado de sentimentos e condutas positivas em relação à mulher – tais como, “o homem não pode viver sem as mulheres”.
A visão benevolente, apesar de atestar aspectos positivos do feminino, reforça o preconceito, pois mantém a visão de que a mulher é frágil, dependente do homem, e naturalmente talentosa para o cuidado. A mulher é vista de forma romântica, e isto discrimina contra mulheres que não cabem neste padrão idealizado, como as feministas.
O sexismo hostil e o benevolente incluem de três componentes, estes também sujeitos à ambivalência. O primeiro componente é o paternalismo, que se manifesta de forma hostil através da dominação, e de forma benevolente através da proteção às mulheres. O segundo é a diferenciação entre os sexos, que se manifesta de forma hostil pela competitividade, e de forma benevolente pela noção de complementaridade. O terceiro é a heterossexualidade, que se manifesta negativamente pela hostilidade entre os sexos, e positivamente pela intimidade (Fiske e Glick, 1995).
No presente estudo, a autora investigava a aplicação do Inventário de Glick e Fiske em uma amostra brasileira. Este inventário consiste em 22 afirmativas, com opções de resposta Likert de seis pontos, e é considerado como fidedigno e válido. Para medir o sexismo hostil, aparecem frases como “quando uma mulher conquista um homem ela costuma mantê-lo sobre rédea curta”; “muitas mulheres, com a desculpa de buscarem igualdade, estão é querendo favores especiais”; e “as mulheres querem obter poder para exercer controle sobre os homens”. Na avaliação do sexismo benevolente, aparecem itens como: “as mulheres devem ser amadas e protegidas pelos homens”; “num desastre, as mulheres devem ser salvas antes dos homens”; e “uma boa mulher deve ser colocada num pedestal pelo seu homem”.
Os resultados do estudo brasileiro confirmaram aqueles apresentados em outros países: o sexismo hostil e o benevolente são construtos independentes, porém correlacionados positivamente. Homens apresentaram escores significantemente mais altos do que as mulheres na escala de sexismo hostil, e na escala de sexismo benevolente não se diferenciam das mesmas. Ou seja, as mulheres tendem a refutar o sexismo hostil e endossar o sexismo benevolente.
As mulheres provavelmente dão suporte ao sexismo benevolente por se sentirem protegidas e recompensadas por este. Porém, o sexismo benevolente é subsidiado pela mesma ideologia que sustenta o sexismo hostil, o patriarcalismo, um sistema que fomenta a desigualdade entre os sexos e a supremacia masculina. Numa proposta aparentemente benevolente, as mulheres são apresentadas como frágeis e necessitadas da proteção, admiração e afeto masculinos.
Sendo assim, endossar o sexismo benevolente preserva os valores patriarcais que limitam as oportunidades das mulheres, e acaba validando o sexismo hostil.

Fonte: Ferreira, M. C. (2004). Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero. Temas em Psicologia da SBP, Vol.12, no 21, 119-126.