Resenha: Música, Comportamento Social e Relações Interpessoais

Ana Carolina Rocha Oliveira

O artigo desenvolvido por Beatriz Ilari discorre pelas relações entre os comportamentos sociais e o papel que a musica pode adquirir nesse contexto. Ou seja, a autora do artigo pretende demonstrar quanto a musica pode ser um fator também importante no modo em que as pessoas interagem e são atraídas umas pelas outras nas suas relações afetivas.
O estudo parte de uma citação de Pinker (1997), em que o linguista sugere que o mundo provavelmente seria igual mesmo sem que existisse a música. Dessa suposição, vários outros autores e pesquisadores, que discordavam da afirmação inicial de Pinker, passaram a estudar e aplicar instrumentos que comprovassem que a música pode ser um fator de importância na evolução das sociedades, sendo produto de um fenômeno social em diferentes culturas.
Entretanto, ate o momento da presente pesquisa, já era possível reconhecer na música as diferentes funções dentro das atividades humanas, principalmente, quando em referência as relações interpessoais. Deste modo, Ilari comenta a teoria desenvolvida por Huron (1999), em que este estabelece um vinculo entre a música e os efeitos que ela causa sobre a atração e consequentemente sobre as relações interpessoais, inclusive as de natureza amorosa.
Ao falar sobre atração interpessoal, a autora do artigo descreve brevemente sobre o papel da mesma na formação das relações entre indivíduos demonstrando que, seja pela perspectiva evolucionista (em que será ponto de partida para a procriação e descendência), seja pela perspectiva cognitivista (em que estará correlacionada aos esquemas cognitivos dos ideais criados de parceiros e relacionamentos), a atração entre as pessoas se deve principalmente a partir do contexto social em que estas estão inseridas. De tal forma, é possível constatar o quanto as atitudes, as crenças e os valores comuns atuarão como forças poderosas e essenciais na atração interpessoal, estabelecendo assim, uma ligação entre essas forças de atração e a escolha por determinados gostos musicais.
Outra ligação que pode ser feita e que está presente no artigo, é a ideia de que tanto a música quanto a atração interpessoal consideram a indução ou surgimento de sentimentos, visto que podem exercer efeitos significativos no comportamento social dos indivíduos em interação. No entanto, as semelhanças vão até esse ponto. Diferentemente da atração entre pessoas, que tem uma conexão obvia com os afetos, o mesmo não se pode garantir da dualidade música-afeto, que geralmente terá seu grau de excitação dependente dos gêneros musicais escolhidos para cada situação, de acordo com o contexto social (North e Hargreaves, 1997).
Diante de todo o inicial teórico sobre a música e suas relações e efeitos no comportamento social, Ileari conclui que as escolhas musicais por determinados gêneros são condutas aprendidas devido às influências grupais, posto que servem como guia às nossas percepções e o modo como avaliamos os outros. Ou seja, nos relacionamentos interpessoais, como a atração, os fatores de interesse apresentam-se como respostas individuais aos estereótipos. Zillman e Bhatia (1989) associavam a percepção do grupo em relação aos gostos musicais de outros grupos aos estereótipos, trazendo estes como esquemas cognitivos impostos social e culturalmente, sendo determinantes para as atitudes interpessoais. E é a partir dessa contextualização que ela parte para o método.
Diante de sua amostra de 50 pessoas (já que 10 foram invalidadas por terem uma relação mais formal com a música: ex. de músicos profissionais e amadores), entre jovens e adultos, numa idade média de 27 anos, Ileari dividiu seu instrumento em três partes. No primeiro momento, exibiu alguns classificados pessoais para que o participante escolhesse o parceiro ideal, com o objetivo de que fosse determinado o papel que a música desempenha nas relações interpessoais, na atração e na escolha do parceiro. Na segunda parte, foi feita uma coleta de dados procurando verificar se os estereótipos brasileiros seguiam pelo mesmo caminho das amostras coletadas nos Estados Unidos e na Europa. Já no terceiro momento, o participante era encaminhado a responder algumas questões abertas sobre ele mesmo e a relação com a música para investigar se realmente existem funções especificas da música nas relações interpessoais.
Na primeira parte da pesquisa, concluiu-se que a música está entre um dos muitos fatores que interferem na atração entre as pessoas não sendo, no entanto, uma característica direta ou mesmo com forte efeito sobre a escolha dos parceiros. O que não significa que a música se torne menos importante, já que, durante a coleta, as respostas, que foram divididas em grupos de maior ou menor frequência do fator musical nos anúncios, resultaram na ausência de diferenças entre eles.
No segundo momento, foram agrupadas em categorias todas as 147 palavras utilizadas pelos participantes para adjetivar os gêneros musicais listados. Das categorias capacidades individuais, personalidade, julgamento de valor, condição socioeconômica, localização geográfica, educação, grupo social, atitudes e ideologia política, as que obtiveram os maiores números de palavras associadas foram personalidade e atitudes, demonstrando quanto às pessoas inferem das preferências musicais os modos de agir e de se portar dos outros indivíduos.
Dentre os gêneros propostos, a maioria das pessoas manteve o padrão de associação de palavras estereotipadas em relação a MPB, ao jazz, a música clássica, ao samba/pagode, ao rock/pop, a música do mundo e ao sertanejo, assim como já havia sido mostrado em pesquisas anteriores como a de Zillman e Bhatia (1989). De todos, os gêneros que tiveram maior destaque foram os gêneros sertanejo e música do mundo. O primeiro pela convergência de adjetivos similares da amostra e o segundo pela divergência e antagonismos de adjetivação.
Na terceira parte do estudo, os participantes foram questionados quanto às possibilidades da musica exercer algum papel na vida amorosa, se os gostos musicais diferentes eram relevantes na escolha do companheiro e se a musica fez parte de algum momento significante na vida dos entrevistados. O resultado para primeira questão foi unânime a favor do papel exercido pela música num contexto amoroso. Na segunda questão, a mesma porcentagem de pessoas (86%) acreditava ser possível estabelecer relacionamentos com pessoas de diferente gosto musical. Na ultima pergunta, também a maioria dos entrevistados conseguiu se lembrar de pelo menos um evento de suas vidas em que a música foi fundamental, sendo o maior número de eventos listados associados às relações interpessoais.
De acordo com a análise da pesquisa tirou-se que a musica e as relações interpessoais possuem uma ligação de fato, mas que se correspondem indiretamente ao contexto subjetivo e experiências de vida de cada pessoa, revelando, simplificadamente, quatro usos possíveis e distintos da música dentro dessas relações, tal como: objetivos de excitação, fundo acústico, facilitadora de atividades que promovem a aproximação de indivíduos e artefato mnemônico.
Ou seja, a pesquisa reforça o papel de importância da música nas relações interpessoais, corroborando a ideia de que música e atração são elementos que tendem a se associar a partir dos esquemas cognitivos tão só o uso de estereótipos, de experiências e até mesmo de funções específicas dadas à música nos possíveis relacionamentos, garantindo essa situação para alem das barreiras culturais.
A música é indefinida. Ela pode significar varias coisa em vários lugares diferentes. A música ultrapassa a barreira do sensível e atingi o que mais profundo possa existir em nós mesmos. A música serve para conhecer e fazer interagir com outras pessoas e grupos, aproximando-os, tanto quanto para ser elemento de excitação ou armazenamento de lembranças. A música não só tem importância como ela é por si só fator fundamental para criar cenários e ambientes sonoros propícios nas relações afetivas e amorosas, facilitando e influenciando o humor, os sentimentos, a sensibilidade e a integração interpessoal, seja lá de que forma for. Evidenciando aqui, o erro da afirmativa de Pinker (1997).
A música está além dos gêneros musicais. Os gêneros são partes de um todo musical e representam as diferentes formas de interação entre as pessoas assim como entre grupos. Talvez, como foi encontrado pela pesquisa Ileari, as pessoas de mais idade realmente tenham mais dificuldade de conseguir conciliar diferentes gostos musicais dentro de um relacionamento, pois fica mais difícil manter atividades de lazer compatíveis. Porém, não necessariamente isso ocorra se os outros dados apresentados da pesquisa estejam corretos, já que a maioria das pessoas confessou não ver problemas em manter um relacionamento com outra que aprecie um gênero musical divergente, acreditando, inclusive, ser uma chance de aprender e vivenciar novos contextos e estilos.
Ou seja, considerando o respeito às diferenças e os limites estabelecidos pela convivência diária, será visível e viável o beneficio que tais diferenças venham a acarretar no relacionamento. Ate porque, a música é também uma forma de libertação. No estudo Ileari, 11% dos entrevistados citou a musica como a arte mais acessível e capaz de libertar a mente das preocupações do cotidiano.
Portanto, tem-se que a autora conseguiu em parte comprovar suas ideias sobre a interferência da música nas interações interpessoais. Concluiu que, apesar de ser uma influência indireta e generalizada, o estudo deve manter investigações que consigam agregar novos dados e inserir novos fatores ainda não tratados para que sejam analisados e, progressivamente, construir novas estatísticas condizentes com a realidade social.
Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198

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