Resenha: A Legitimação da Discriminação em Diferentes Contextos Normativos

Nilton Pedrett

Neste artigo os autores intentaram contribuir para literatura sobre os processos psicossociais da discriminação objetiva contra grupos minoritários. O questionamento que norteia o artigo é: como, em sociedades altamente normatizadas, democráticas e jucicializadas, onde a expressão preconceito é alvo dos rigores da lei, as minorias continuam sendo discriminadas? quais mecanismos estão atuando nos agentes, mesmo que a emissão de comportamentos preconceituosos sejam antinormativos?

Os autores analisam o problema sob o prisma dos autores que versam sobre as chamadas “novas expressões do preconceito”, assim como a hipótese da “legitimação da desigualdade”. Procedem desenvolvendo um modelo teórico sobre os mecanismos de legitimação em diferentes contextos normativos.

Chegam a conclusão que o preconceito “não estaria a diminuir” mas a emissão de comportamentos discriminatórios estaria sendo influenciada pela normatização antipreconceito. Logo, haveria uma espécie de migração de comportamentos explícitos por formas mais sutis de discriminação.

Ao analisarem as pesquisas com medidas explícitas e implícitas de preconceito, perceberam que as pessoas avaliam negativamente grupos minoritários, mesmo não emitindo comportamentos discriminatórios. Concluem que a persistência da discriminação não pode ser reduzida às medidas de atitude preconceituosa.

Ao citar o estudo de Tyler (2006), afirmam que os processos de legitimação do preconceito são “especialmente relevantes nas sociedades democráticas, na medida em que os comportamentos antinormativos […] necessitam ser legitimados.”. Os atores sociais precisam encontrar justificativas para seus atos, segundo Berger & Luckmann (1967). Em tais culturas, as pessoas integraram conceitos de liberdade e igualitarismo, que funcionam como supressores de pensamentos e comportamentos preconceituosos. Para diminuir o desconforto de se perceber como alguém francamente preconceituoso, buscam justificativas para seus preconceitos que não as faça senti-ser como tal e para não serem publicamente censuradas por agir como tal. Tal hipótese carece ainda de amplos testes empiricos, porém, apontam, são importantes para a compreensão dos mecanismos de funcionamento da pessoa.

Citam também a “teoria da dominancia social” de Sidanius e Pratto (1999), sobre os consensos sociais que legitimam as desigualdades e a hegemonia de um grupo sobre o outro.

À seguir exploram duas hipóteses: “O papel mediador de Fatores Justificadores” (H1) e “o papel moderador das normas sociais” (H2).

Na H1, há a idéia de que a relação entre preconceito e a discriminação é mediada por fatores justificadores da discriminação. QUanto mais forte for o preconceito, maior será a motivação para as pessoas encontraram justificadores para ele.

na H2: Propõe que nos contextos onde as normas antipreconceitos são salientes, a discriminação seria resultado de um “processo psicossocial” no qual o preconceito ativa ou facilita o uso de justificações que fazem com que a discriminação seja percebida como legitima e justa.

O artigo termina com um teste empírico realizado pelos autores, numa situação hipotética de contratação de um candidato negro a uma vaga numa loja e apresenta dados testando as duas hipóteses, em um estudo sobre a discriminação contra pessoas de cor negra. A conclusão foi de que a relação entre o preconceito e a discriminação do candidato negro foi mediada pela percepção de que sua contratação seria uma ameaça para os negócios da loja. Quanto maior o preconceito, maior a percepção da ameaça e, consequentemente, maior a discriminação contra o candidato negro.

Pereira, C. R.; Vala, J. (2011). A Legitimação da Discriminação em Diferentes Contextos Normativos. In Cultura e Produção das Diferenças: Estereotipos e Preconceito (pp. 363–404). Brasília: TechnoPolitik.

Resenha: Diferença e igualdade nas relações de gênero – revisitando o debate

Louise Correia Vital

O artigo “Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate” da autora Maria de Fátima Araújo situa o leitor, a partir de um enfoque histórico, no debate sobre a diferença e igualdade no âmbito das questões de gênero.
Primeiramente, o texto se inicia apresentando o argumento de que em diversas áreas do conhecimento procuram ou procuraram estudar a “diferença sexual”, como na antropologia e nas ciências sociais. Porém, apenas com o feminismo foi instaurado uma nova forma de análise das diferenças e igualdades entre os sexos. Este novo olhar permitiu que não só se pensasse nessas questões dicotomicamente, entre os sexos, mas também dentro deles: “não só entre homens e mulheres, mas entre mulheres e entre homens”.
A partir da utilização do conceito de “gênero” pelas feministas americanas como uma categoria de análise social, e não no seu sentido puro gramatical de “indivíduos de sexos diferentes”, houve um deslocamento dos estudos sobre a ‘mulher’ para se estudar as ‘relações de gênero’. Pois não é possível dissociar o mundo da mulher do homem e vice-versa. Sendo assim, o termo foi associado mais à relações sociais entre os sexos, e não à padrões de comportamento naturalizados. A definição apresentada pela autora abarca bem esta mudança: O termo “gênero” torna-se, antes, uma maneira de indicar “construções culturais” – a criação inteiramente social de ideias sobre papéis adequados aos homens e às mulheres. Trata-se de uma forma de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas de homens e de mulheres. “Gênero” é, segundo essa definição, uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado. Com a proliferação dos estudos sobre sexo e sexualidade, “gênero” tornou-se uma palavra particularmente útil, pois oferece um meio de distinguir a prática sexual dos papéis sexuais atribuídos às mulheres e aos homens (Scott, 1995: 75).
O estudo sobre gênero percebe, então, as representações deste como estruturador da percepção e da organização concreta e simbólica da vida social, como disse a própria autora “Na medida em que essas referências estabelecem distribuições de poder (um controle ou um acesso diferencial às fontes materiais e simbólicas), o gênero torna-se envolvido na concepção e na construção do poder em si mesmo. ”
A utilização do gênero como metodologia de estudo analítico foi proposto por autoras como Scott(1995) e a historiadora francesa Louise Tilly(1994) como forma de criticar a forma puramente descritiva com que se dava os estudos sobre a mulher. Elas acreditam que o gênero deveria ser aceito como uma verdadeira categoria de análise, por meio de uma conceitualização que possa desafiar os conceitos dominantes atualmente na disciplina histórica. A autora corrobora com a ideia do gênero como uma categoria empírica e histórica, e portanto, como uma categoria analítica. Sendo assim, ela escreve: “Apreendido da realidade empírica, [o gênero] ele expressa as relações históricas e as formas de existência da realidade social. ”
Além desta categoria, Maria entende o gênero como sendo também uma categoria política que pode ser usado também para estudar a problemática da igualdade e diferença entre os sexos. A diferença entre os seres humanos já foi tratada em diversos âmbitos – filosófico, religioso, biológico, psicológico, antropológico e social. Atualmente esse debate continua muito forte, com a diferença no discurso: não mais “direito à diferença”, mas sim “respeito às diferenças” e a “preservação das particularidades culturais”
Historicamente, a discussão que cerceia o gênero desenvolveu-se a partir de dois vieses: um essencialista, que acreditava na naturalização de certas características, como a “essência feminina”, exaltando a diferença desta com a do sexo oposto; e a culturalista, em que acredita que as diferenças sexuais são resultados da socialização e da cultura. Uma terceira abordagem que se desenvolveu acerca desta temática foi exposta pela feminista francesa Françoise Collin (1992). Ela trouxe os conceitos dicotômicos de igualdade e diferença como constituindo uma única categoria, em que não só há um respeito pelas diferenças, como também uma necessidade. Collin propôs pensar a diferença em 3 níveis: entre o sujeito-mulher e sua condição de mulher; entre as mulheres; e entre as mulheres e o mundo dos homens. Com relaçao a sua primeira distinção, ela diz que uma mulher não é só uma mulher. “Um sujeito mulher não se reduz à sua feminilidade; ao contrário, é um sujeito heterogêneo ”. Sobre a diferença entre as mulheres, diz que é importante construir uma nova forma de socialização entre elas, para que seja possível incluir essas diferenças. E em relação a diferença entre as mulheres e o mundo dos homens, diz ser necessário uma nova forma de compreender essa relação. A proposta de Collin é de incorporar em um diálogo contínuo as diferenças e igualdades, sem haja negação de uma ou de outra, ou seja, desconstruir a análise binária que vem sendo feita desses elementos.
Sobre a questão da igualdade, no início do movimento feminista, a luta pela igualdade se sobrepôs à luta pela diferença. As mulheres tentaram ocupar o lugar do homem, transgredindo a norma que permitia classificar a mulher como o avesso do homem, porém “na luta pela igualdade tropeçaram na diferença”. A diferença, naquela época, era vista como sinônimo de desigualdade. Ao tentar ocupar o lugar do homem na sociedade, essas mulheres se viram em um confronto com sua real identidade. Somente no final dos anos 80 isso se inverteu e as mulheres resolveram defender o direito de serem diferentes dos homens.
Por fim, o último tópico do texto em questão fala sobre a crise da masculinidade e as novas relações de gênero. As mudanças no mundo da mulher decorrente do feminismo não foi isolado do mundo dos homens, esse também se modificou. Assim como feminino, repensar o masculino pressupõe rever modelos de comportamento, teorias e discursos que foram usados para explicar o “masculino” ou a “essência masculina”. A crisa da masculinidade tem início no século XVII na frança, onde existiam mulheres que possuíam mais escolaridade e conhecimento e por isso se questionavam sobre o lugar da mulher na sociedade da época. As chamadas “preciosas francesas” defendiam a igualdade entre os sexos, o direito ao amor e ao prazer sexual, o acesso à mAraújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17,2,41-52esma educação intelectual dada aos homens. Na Inglaterra, com o desenvolvimento do amor romântico e a ascensão do individualismo – pois um está diretamente ligado ao outro – houveram muitas discussões acerca dos papéis dos homens e das mulheres na família, no casamento e na expressão da sexualidade. Portanto, vê-se que assim como as mudanças no mundo dos homens estão diretamente ligados a questões históricas, o mundo das mulheres não escapa à isso. Com a ascensão do capitalismo e a destituição da estrutura paternalista, houve uma abertura para que a mulher pudesse se inserir no espaço público – trabalhando, por prazer ou necessidade. Devido a essas transformações socais, percebe-se que os homens, assim como as mulheres, buscam maneiras diferentes e distantes do sexismo para se inserir e se afirmar como ser masculino na sociedade, partindo do princípio de que não há uma masculinidade, assim como não há uma única feminilidade. Diante desse quadro, é possível, para a autora, afirmar que relações de gêneros mais democráticas podem vir a surgir, tendo o direito à igualdade e o respeito às diferenças como suporte.
A partir do que foi apresentado, Maria se utiliza do debate histórico sobre a igualdade-diferença e as transformações sociais ocorridas para discutir a questão da igualdade-diferença, a ideia de gênero como categoria de análise e a crise da masculinidade. O que foi apresentado ao final do texto pela autora tem um caráter bastante otimista. Segundo ela, os homens estão buscando novas formas de se inserir na sociedade, “tomando consciência das tensões e conflitos impostos pelo machismo” valorizando a subjetividade e relações íntimas, fugindo do sexismo que por anos vigorou e provocando relações de gênero mais democráticas. Esta idealização pode ainda estar longe de se tornar realidade. É verdade que muitos dos comportamentos-padrão que eram atribuídos a ambos os sexos está sendo hoje muito debatido e alguns deles até desclassificados, porém, presumir que essas modificações se estende para todos os homens ou a maioria não é verídico, e ainda que fosse, admitir que apenas isto desenvolverá relações mais harmoniosas entre os sexos é uma visão bastante ingênua por parte da autora. Uma vez que todos os dias presenciamos formas antigas e retrógradas de comportamento por parte dos homens (e das mulheres). Mesmo os direitos humanos ainda se encontra muito distante deste ideal. Certamente não se pode negar as conquistas e a importância do espaço que existe para que esses debates sobre gênero estejam mais presentes no dia a dia. Porém, uma mudança de valores desta magnitude, como infere a autora, ainda não existe, mas vê-se que a tendência é continuar caminhando em direção a tal ideal, talvez as futuras gerações possam desfrutar disto.

Referência Bibliográfica:Araújo, M. F. Diferença e igualdade nas relações de gênero: revisitando o debate. Psicologia clínica, 2005, 17,2,41-52

Resenha: Flutuações e diferenças de gênero no desenvolvimento da orientação sexual – Perspectivas teóricas.

Apohena Noroya

O artigo faz uma revisão de pesquisas que abordam as diferenças de gênero e suas flutuações no desenvolvimento da orientação sexual. As autoras são psicólogas clínicas portuguesas e uma delas realiza pós doutorado. Elas fazem um apanhado sobre as conceituações e diferenças entre a identidade de gênero, papéis sexuais e orientação sexual, assim como, de que forma (geralmente numa ótica estereotipada) a sociedade vê as flutuações de orientação sexual – uma hora heterossexual, na outra bissexual, transexual, pansexual, polisexual.
Na introdução as autoras falam da importância da compreensão do que leva as pessoas a relacionarem-se entre si, investigando as relações dos sexos e dos gêneros com a diversidade de comportamentos humanos. Elas afirmam que para uma melhor entendimento psicológico da identidade sexual é preciso definir separadamente os conceitos de sexo- estrutura anatômica e gênero- aspectos psicossociais do sexo. No desenvolvimento da identidade sexual é preciso destacar três componentes que vão se desenvolvendo gradativamente: a identidade de gênero, os papeis sexuais e a orientação sexual.
Durante a fase da identidade de gênero, a criança se reconhece num processo de auto-identificação como menino ou menina, os papeis sociais e sexuais dizem respeito aos estereótipos das características masculinas e femininas, sobre os ditames sociais do que se espera socialmente da aparência,comportamento e aspectos da personalidade destas pessoas. Em relação a orientação sexual, as autoras falam da preferência por parceiros do sexo oposto, do mesmo sexo ou por ambos os sexos, destacando dois aspectos essenciais distintos: a preferência física sexual e a preferência afetiva. Sendo assim, as categorias homossexual, heterossexual e bissexual se caracterizam não como nomes mas sim como adjetivos que se referem ao sexo do parceiro que uma pessoa escolhe para se relacionar afetivamente e sexualmente.
Ao abordar a questão da fluidez no desenvolvimento da orientação sexual, as autoras se detém a exemplificar e explicar este tema através do universo feminino. Através de pesquisas as autoras constataram que a sexualidade da mulher é relativamente fluida, a identidade sexual das mulheres passa por diversas mudanças nas atrações sexuais ao longo do tempo, passam de heterossexuais, a homossexuais ou bissexuais. Embora alguns estudos sobre desenvolvimento afirmem que uma vez se assumindo homossexual para si e para os outros não haja mais alteração da identidade sexual, outros estudos dizem que algumas mulheres se assumem como lésbicas por não se encaixarem ou não se aceitarem como bissexuais.
Apesar das atrações sexuais entre as mulheres parecerem bastante estáveis, as identidades e os comportamentos são bem mais fluidos e diversificados, exemplo disto é o fato das lésbicas geralmente se reportarem a um colega de escola homem entre as suas primeiras atrações sexuais. Elas podem inclusive ficar com homens mais tarde novamente espontaneamente, não por pressão social, embora não se vejam ou não se assumam como bissexuais. Segundo alguns autores, os bissexuais tem uma maior capacidade de experimentar atrações por ambos os sexos o que dará aos seus sentimentos subjetivos uma maior suscetibilidade de serem influenciados pelo ambiente, se afastando assim, da identidade sexual minoritária. As autoras acreditam que há consistência de mudanças na orientação sexual ao longo do tempo, exemplo disto são os bissexuais se tornarem homossexuais em sua orientação sexual, embora se mantenham em sua identidade sexual como bissexuais.
Em relação às diferenças de gênero no desenvolvimento da orientação sexual, as autoras verificaram através de pesquisas que sujeitos do sexo feminino tem maior probabilidade de experienciar relações heterossexuais antes de ter experiências com o mesmo sexo e os rapazes a ter experiências primarias com o mesmo sexo. As diferenças de gênero na orientação sexual podem ser compreendidas através: a)preferências por relações sexuais descomprometidas, assim como no interesse em estímulos visuais, b)importância subjetiva da fidelidade emocional e sexual e c)no valor da percepção de características do parceiro. Sendo que, as diferenças de gênero prevalecem independente da orientação sexual. Em termos de atrações sexuais verificou-se que os sujeitos do sexo masculino apresentam um contexto sexual, de sexo descomprometido e estímulos visuais, enquanto as mulheres seguem um contexto emocional, atribuindo maior importância a fidelidade emocional.
Diferenças de gênero X idade foram encontradas em relação a convicção da identidade sexual mas não em relação aos primeiros comportamento sexuais. Resultados de estudos comprovaram que as mulheres mais jovens afirmavam mais identidades bissexuais que os homens jovens. Verificou-se que as diferenças de gênero tem sido muito importantes em relação as questões de comportamento sexuais, numero de parceiros sexuais e idade de iniciação, mas em relação a orientação sexual não foram encontradas diferenças significativas entre as categorizações gay, heterossexual ou bissexual.
Em sua conclusão as autoras falam do privilégio feminino visto na fluidez, na permissão de uma maior possibilidade de escolhas e de mudanças no ciclo de vida, enquanto o homens ainda são muito cobrados em manter uma maior exclusividade de orientação sexual refletindo numa maior rigidez social. As relações, a sexualidade e os amores são influenciados pelo meio e predispostas biologicamente, na sua subjetividade individual sem ser separados de um contexto social de inserção.

Referência:
Almeida, J. e Carvalheira, A. A. Flutuações e diferenças de género no desenvolvimento da orientação sexual: Perspectivas teóricas. Análise Psicológica, 25, 3, 343-350, 2007