Publicada a atividade 04

atividade 05

  • Nível: Especialização e graduação
  • Estimativa de tempo: 50 minutos
  • Tópicos: Atitudes e comportamentos
  • Objetivo: Avaliar as relações entre as congruências e discrepâncias entre as nossas  atitudes e os nossos comportamentos
  • Atividades:
    • 1) considere os resultados encontrados no quadro 1 da seção III da apresentação;
    • 2) leia a discussão apresentada na seção III Descompasso;
    • 3) reconheça situações comuns nas quais as pessoas se comportam de uma maneira incompatível com o que elas acreditam;
    • 4) identifique situações nas quais as elas agem em desacordo com o que não acreditam.
    • 5) identifique algum teoria psicossocial que se refira às relações entre atitudes e comportamentos.

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais

Rosicley Almeida Lima

A pesquisa relatada por Ilari (2006) objetivou analisar a relação entre música e relacionamento interpessoal amoroso. Muitos estudiosos se debruçam há décadas sobre o papel da música na história da evolução da espécie humana e até hoje não chegaram a um consenso em relação ao assunto.
O texto ressalta que a funcionalidade da música no mundo ocidental, pelo menos, está relacionada direta ou indiretamente, aos relacionamentos interpessoais. Em qualquer fase da vida, em envolvimentos profissionais ou pessoais, em atividades de cunho festivo ou religioso, a música se faz presente na história das civilizações como um dos instrumentos de atração interpessoal. A atração interpessoal é apresentada como “uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros…” (p. 2), e que remete às nossas experiências ao longo da vida. De acordo com o texto atitudes, crenças e valores em comum são elementos importantes na atração interpessoal e é justamente isso que a relaciona com o desenvolvimento do gosto musical, já que ambos dependem de contingências sociais.
É sabido que a música possui diferentes objetivos nas mais variadas culturas, como excitar e acalmar, sendo que o grupo social irá definir a ‘adequação’ de cada ritmo ao momento em que a música é tocada. Desse modo, a música é capaz de despertar as mais diversas sensações, pois está intimamente relacionada com as situações do cotidiano.
O texto traz resultados de estudos da psicologia da música (nem sabia que existia) sobre o papel desta na atração heterossexual, ou melhor, sobre o modo como o gosto musical influencia na escolha de parceiros do sexo oposto. E a conclusão foi que os estereótipos comumente associados aos grupos sociais também se aplicam aos estilos musicais, uma mostra da interferência cultural na relação música-indivíduo. Para Ilari, “os estereótipos associados à música, que nada mais são do que esquemas cognitivos que passam pelo viés de categorias impostas social e culturalmente, aparentam ser determinantes nas atitudes interpessoais.” (p. 3). O gosto musical, nesses casos é considerado representante de um conjunto de crenças e valores que servem para categorizar as pessoas.
A pesquisa já realizada nos EUA e em alguns países europeus, dessa vez foi aplicada em uma amostra brasileira composta por 50 jovens (metade homens e metade mulheres) adultos entre 12 e 43 anos frequentadores de um restaurante universitário de Campinas/SP, todos com pouco ou nenhum envolvimento formal (cursos, etc.) com o meio musical. O instrumento desenvolvido para a coleta de dados consistiu em três partes: primeiro, os participantes foram expostos a cinco pares de classificados pessoais e a partir disso, deveriam escolher, em cada par, o parceiro de sua preferência, ressaltando que a variável música (por ex., toca violão) estava presente em apenas um classificado de cada par. Em seguida, o instrumento traz a seguinte proposição incompleta: “As pessoas que ouvem….(estilo musical) são geralmente….(adjetivo)”, e os participantes deveriam atribuir no mínimo dois adjetivos com base nos estilos propostos, a saber: MPB, jazz, música clássica, samba/pagode, rock/pop e sertanejo, considerados os mais populares em nosso país. Por último, todos responderam questões abertas sobre sexo, idade, experiência educacional, experiência musical prévia e tempo de escuta musical, e ainda questões abertas sobre a relevância da música nas vivências pessoais, inclusive nas relações interpessoais.
Os resultados parciais mostraram que a maioria dos participantes relacionou gosto musical a características da personalidade e às atitudes. A classe social e consequentemente o status também foram associações frequentes. Um exemplo disso são as relações envolvendo o gênero sertanejo, maior concordância de adjetivos entre os participantes, que foi considerado música para indivíduos humildes, moradores ou não da zona rural, além de muito sentimentais. Nota-se uma forte associação ainda com a música sertaneja de raiz e um contraponto com o ‘moderno’ sertanejo de duplas que com suas letras românticas e grande influência de instrumentos como a guitarra, em pouco ou quase nada se parecem com a música sertaneja de Tonico e Tinoco, por exemplo. E se a pesquisa tivesse acontecido nos tempos atuais do sertanejo universitário certamente os estereótipos de classe social e de personalidade relacionados a esse estilo estariam ainda mais confusos e/ou discrepantes.
Para 86% dos entrevistados, a música é importante no relacionamento amoroso na medida em que influencia os sentimentos de ambos os parceiros (80%), tornando-os mais ou menos sensíveis enquanto indivíduos e também par (71%), e ainda promove a conexão entre o casal (68%), ajudando a chegar ao romance (67%). Um dado surpreendente é o de que 14% da amostra afirmou não namorar alguém com gosto musical diferente do seu, reforçando o poder dos estereótipos envolvidos com a música; uma das justificativas seria a de que essa contradição entre os gostos musicais seria crucial nas saídas dos parceiros para se divertirem juntos. Porém, a maioria dos participantes se mostrou aberto para a experiência de se relacionar com alguém de gosto musical oposto ao seu, sinalizando a existência das diferenças e o necessário respeito a elas.
Como dado mais significativo sobre a díade música-relacionamento amoroso, a maioria esmagadora da amostra (92%) descreveu no mínimo dois episódios de suas vidas em que determinada música teve destaque especial, fazendo com que sua audição elicie necessariamente respostas de recordações desses episódios.
A autora resumiu em três os objetivos da música nos relacionamentos interpessoais: objetivos de excitação, elevando-a (música rápida) ou diminuindo-a (música lenta); objetivos de fundo acústico para criar um clima de acordo com o contexto e ainda suprir possíveis falhas na comunicação verbal, por exemplo; objetivos de interação social facilitando a aproximação e a troca de experiências; objetivo de fortalecer a memória afetiva, fazendo com que determinada música ajude o indivíduo a lembrar de fatos ou pessoas de seu convívio.
Ilari conclui que a música tem relação indireta nas relações interpessoais e consequentemente na escolha de parceiros amorosos, seja facilitando a aproximação, tornando mais ou menos agradável os encontros, trazendo à memória recordações do passado, e assim por diante. Dessas observações a autora infere que o papel da música na história da evolução humana precisa ser reconsiderado.
Subestimar a função da música no desenvolvimento das relações humanas é negar o seu caráter principal de linguagem entre os indivíduos nos mais diversos momentos de sua história pessoal e coletiva. Obviamente, particularidades culturais devem ser levadas em conta quando explicamos o papel da música na vida das pessoas, pois sem dúvida, ela consiste em um indicativo das representações sociais, haja vista os muitos estereótipos que alimenta.

Referência: Ilari, B. (2006). Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 191-198.

Resenha: música, comportamento social e relações interpessoais.

Agnaldo Júnior Santana Lima

A autora inicia seu artigo afirmando que não existem evidências que possam comprovar a existência de um gene musical propriamente dito, mesmo diante do esforço de pesquisadores de campos como a neurociências e a genética. Contudo, a música continua tendo um caráter universal e tendo um papel importante nas sociedades e culturas. A música vem mantendo funções tradicionais e sentidos próprios em diferentes sociedades ao longo da história. No Mundo Ocidental a música exerce funções relacionadas às relações interpessoais, tais como ninar crianças e entreter.
A atração interpessoal pode ser definida como uma experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros, e é um elemento crucial no desenvolvimento de vínculos. Para a psicologia cognitiva, a atração está relacionada aos esquemas cognitivos que são construídos a partir dos ideais de parceiros e relacionamentos amorosos construídos ao longo da vida.
Como fatores associados à atração interpessoal podem ser citados: a atração física, proximidade, interação e exposição continuada aos outros indivíduos, além de uma semelhança real ou percebida entre estes. A atração interpessoal depende também do contexto social, que forma crenças pessoais, valores e atitudes, o mesmo pode ser dito sobre a formação do gosto musical.
A atração e a música estão ligadas à indução e/ou surgimento de sentimentos. As formas de utilização e apreciação da música variam de acordo com uma combinação de crenças pessoais e objetivos de excitação, entrelaçados àqueles do grupo social ao qual pertencemos.
No estudo em questão, a autora buscou determinar o papel da música nas relações interpessoais, na atração e escolha de parceiros, além de verificar se os estereótipos associados aos gêneros musicais encontrados em amostras norte-americanas e européias, poderiam ser encontrados numa amostra brasileira. Por fim, o estudo investigou se existem ou não funções específicas da música nas relações interpessoais, baseando-se nos relatos dos participantes.
O estudo contou com a participação de 60 jovens e adultos, com idade entre 12 e 43 anos, recrutados em Campinas, SP. Músicos e estudantes de música foram excluídos da amostra final, que foi composta por 50 jovens adultos com idade média de 27 anos. Foi elaborado para o estudo um instrumento de coleta de dados em três partes. Na primeira, o participante deveria escolher o parceiro que lhe parecesse mais atraente numa lista de classificados. Na segunda parte, o participante deveria completar frases relacionando estilos musicais com adjetivos. A terceira parte consistia num questionário sócio-demográfico bem como questões relativas à importância da música nas relações sociais.
No estudo, a música pareceu não ter efeitos positivos ou negativos na escolha de parceiros. Os participantes do estudo tenderam a associar o gosto musical mais à personalidade e às atitudes do que a outras características. Estereótipos de personalidade foram encontrados apenas para alguns gêneros musicais. A autora aponta a possibilidade da existência de uma relação direta entre o conhecimento musical e o gosto do participante e sua percepção dos ouvintes de música. A maioria dos participantes demonstrou certa abertura para namorar pessoas com gostos musicais contrastantes. Foram revelados quatro usos distintos da música no contexto das relações interpessoais: objetivos de excitação, fundo acústico, facilitadoras de atividades que promovem a aproximação de indivíduos e artefato mnemônico.
Os resultados do estudo reforçam a ideia de que a música exerce um papel importante nas relações interpessoais, embora não tenha aparentado exercer um efeito direto sobre a atração interpessoal e a escolha de parceiros.

Referência: ILARI, Beatriz. Música, comportamento social e relações interpessoais. Psicologia em estudo, Maringá, v. 11, n. 1, Apr. 2006

Resenha: Música, Comportamento Social e Relações Interpessoais

Natália Canário Gomes

Beatriz Ilari é graduada em Educação Artística (Música) pela Universidade de São Paulo (1994), mestre em Artes – Música – pela Montclair State University (1998) e PhD em Educação Musical – pela McGill University (2002). Além disto, tem experiência na área de psicologia da música, com ênfase em cognição e aprendizagem. Em 2006, Ilari publicou o artigo “Música, Comportamento Social e Relações Interpessoais”, no qual trata do estudo que realizou, com três diferentes objetivos, referentes à música e às relações interpessoais.

Num primeiro momento, a autora buscou determinar o papel da música nessas relações, na atração e na escolha de parceiros. Em seguida, a intenção foi verificar se os estereótipo ligados aos estilos musicais detectados na Europa e EUA, poderiam também ser encontrados numa amostra do Brasil. Por fim, o estudo procurou esclarecer se existem funções específicas da música nas relações interpessoais.

A revisão de literatura feita pela pesquisadora mostra que, apesar de ainda não se ter confirmado a existência de um gene musical, a música continua a ser universal e exerce papel importante nas sociedades e culturas. Para Gregory (1997, citado por Ilari, 2006), a música é um fenômeno social que desempenha funções tradicionais e tem sentidos próprios nas diversas culturas ao longo da história, e que dependem de aspectos específicos das mesmas. Já para Huron (1999, citado por Ilari, 2006), a música tem importância evolutiva, pois cria cenários para os relacionamentos humanos (inclusive os amorosos), além de exercer efeitos sobre a atração e sobre o desenvolvimento de relações interpessoais.

Tomando como base o trabalho de Reeder (2000), a autora propõe que a atração seja definida como uma “experiência que leva os indivíduos a relatarem uma conexão especial com os outros” (Ilari, 2006), sendo considerada por muitos estudiosos um dos componentes do desenvolvimento das relações entre os indivíduos. Para os evolucionistas, a atração interpessoal é essencial para a formação de vínculos que resultem em descendentes e, consequentemente, na perpetuação da espécie. A psicologia cognitiva, por sua vez, postula que a atração relaciona-se aos esquemas cognitivos, construídos a partir dos ideais – formulados no decorrer da vida – tanto de parceiros, como de relacionamentos amorosos.

Dentre os fatores que influenciam a atração interpessoal já identificados estão: a atração física (um dos principais), a proximidade, interação e exposição a outras pessoas, bem como a semelhança real ou percebida entre as mesmas. Além destes, as atitudes, crenças e valores comuns também são muito importantes, tendo em vista que a atração interpessoal envolve reciprocidade entre os indivíduos. O contexto social e a cultura são determinantes para estas atitudes, crenças e valores, e, portanto, mantém uma relação crucial com o estabelecimento da atração e com o desenvolvimento de relações interpessoais. A relevância, para o estudo, desta afirmação é que, tanto a música, quanto a atração interpessoal, dependem do contexto social.

Mas, outra semelhança entre música e atração pode ser observada: ambas são capazes de eliciar sentimentos. Os sentimentos induzidos pela música têm impacto sobre o comportamento social. Isto se deve, em parte, ao fato de que diferentes níveis de excitação são alcançados a depender do estilo musical, o que explicaria a seleção de cada um desses gêneros para os diversos contextos sociais. Fora isso, são os fatores culturais e situacionais que determinarão o que se deve considerar “música adequada”, já que, não só os usos da música, mas também a percepção dela, são comportamentos aprendidos e determinados pelos membros do grupo.

Autores como Zillman e Bhatia (1989, citado por Ilari, 2006) estudaram os efeitos da atração heterossexual quando associada aos estilos musicais, e chegaram ao resultado de que a preferência musical interfere na atração intepessoal, e na percepção e avaliação da personalidade alheia. Puderam também chegar à conclusão de que a influência exercida pela música sobre a atração está relacionada aos estereótipos associados aos seus diferentes estilos, e às respostas individuais a estes estereótipos.

Embasada pala revisão teórica, a autora conduziu seu estudo com uma amostra de cinquenta adultos e jovens, com média de 27 anos de idade. Nenhum deles tinha mais de três anos de instrução musical formal, nem tomava aulas de música no momento da realização da pesquisa. O grau de escolaridade dos paricipantes variou do primeiro grau completo, à pós-graduação.

Na primeira parte do estudo – que tinha o objetivo de verificar quais os efeitos da música na atração interpessoal e na escolha de parceiros – os participantes foram expostos a cinco pares de classificados e deveriam escolher, em cada par, o parceiro que considerasse mais atraente. Os textos de cada par eram equivalentes, tendo como única variável a música. A conclusão que se pode chegar, após a análise dos dados desta etapa da pesquisa, foi que a música parece ser apenas mais um fator considerado na atração/escolha de parceiro, não tendo nenhum efeito significativo, seja positivo ou negativo.

O segundo objetivo era relativo à forma como as pessoas avaliam as demais basenado-se nas preferências por estilos e gostos musicais. O instrumento utilizado nesta fase era constituido de uma sentença incompleta, onde o participante deveria atribuir dois adjetivos ou mais ao gênero musical indicado. Os gêneros foram: MPB, jazz, música clássica, samba/pagode, rock/pop e sertanejo. Assim, os adjetivos e expressões idiomáticas levantados durante a coleta de dados foram alocados em dez categorias emergentes, que permitiam determinar se as associações entre estilos musicais e adjetivos/expressões estavam mais relacionadas à personalidade ou a determinados grupos sociais. A partir dos resultados observou-se que os participantes, de maneira geral, tenderam a correlacionar o gosto musical mais às atitudes e à personalidade.

No entanto, também foram encontradas algumas associações relacionadas à estratificação social e status. Como exemplo pode-se citar o jazz e a música clássica, que foram ligadas a pessoas cultas e instruídas, o que pode estar relacionado à dificuldade de de acesso às mesmas através da mídia e de órgãos culturais. Em contrapartida, as pessoas que gostam de samba e pagode, gêneros amplamente divulgados e associados ao carnaval, foram tidas como energéticas e extrovertidas. Contudo, o estilo musical que abrigou o maior número de adjetivos e expressões idiomáticas convergentes foi o sertanejo. Já o que obteve maior diversidade de respostas foi o “música do mundo”, o que talvez se deva à sua presença relativamente recente no Brasil.

A última parte do estudo era constituído de questões abertas gerais, como sexo, idade, experiência educacional, experiência musical prévia e tempo médio de escuta musical, e de questões mais direcionadas (três abertas e duas fechadas) sobre a importância da música nas relações interpessoais, nos namoros e em outros eventos da vida. Os dados coletados mostraram que apenas 14% da amostra apontou a música como sem importância alguma em suas relações amorosas – dos outros 86%, a grande maioria afirmou que a música ajuda a criar uma atmosfera que propicia o humor e os sentimentos.

Também 14% da amostra disse que nunca namoraria alguém com gosto musical diferente do seu – estas pessoas eram da faixa etária mais elevada, e argumentavam que gostos musicais distintos levam a problemas nos relacionamentos amorosos. Um ponto interessante foi que, deste subgrupo, três participantes usaram como argumento a suposição que gostos musicais diferentes refletem diferenças sociais e educacionais, fatores indispensáveis para um bom relacionamento. No entanto, de maneira geral, concluiu-se que o gosto musical não está entre os elementos mais fundamentais para um relacionamento a dois.

Quanto à importância da música em eventos da vida, apenas 8% da amostra afirmou não lembrar de nenhum momento importante. Entre os demais, grande parte dos episódios relatados diziam respeito a alguma forma de relacionamento interpessoal, principalmente as referentes a comemorações, festas, passeios, viagens e cerimônias religiosas. A análise mais aprofundada desta última parte do estudo foi capaz de revelar quatro usos da música no contexto das relações interpessoais: objetivos de excitação, dependendo do contexto social; fundo acústico, para a criação de ambientes sonoros e para preencher as “lacunas” durante a falta de interação em eventos sociais; facilitadora de atividades que promovem a aproximação entre os indivíduos; e artefato mnemônico.

Terminadas todas as análises, pode-se dizer que realmente a música exerce um papel importante nas relações interpessoais, ainda que não o faça de forma direta. O que é ainda mais relevante é que os estereótipos encontrados relativos a gêneros musicais, tanto de personalidade, como os relacionados com a estratificação social e ao status, mostraram-se influenciando na atração interpessoal, o que, se partirmos da perspectiva cognitivista, era esperado. A psicologia cognitiva também está de acordo com a conclusão de qua a música serve como elemento de ligação entre pessoas e eventos, facilitando o armazenamento na memória. Quanto aos evolucionistas, parece ser coerente a afirmação de que a música propicia um ambiente onde seja capaz haver a aproximação dos indivíduos, podendo resultar em relações amorosas, necessárias à sobrevivência da espécie.

Todas estas considerações trazidas pelo artigo são bastante interessantes, dado que pouco se pára para refletir sobre importância “prática” da música (e das artes, como um todo) na vida das pessoas. Em geral, a música costuma ser vista apenas como meio de diversão, o que leva a pensar que ela é dispensável. Apesar de algumas limitações nas conclusões tiradas, devido, principalmente, ao tamanho reduzido da amostra, este estudo é um indicativo de que essa concepção da música como supérfula deve ser repensada. Além disto, a questão levantada sobre a influência dos estereótipos relacionados a estilos musicas na atração interpessoal é um bom tópico para estudos posteriores, posto que as diferenças quanto aos gostos musicais chegam a levar a conflitos interpessoais mais graves, formando verdadeiros grupos de ódio, que merecem maior atenção dos pesquisadores.


Referência: Ilari, B. Música, Comportamento Social e Relações Interpessoais. Psicologia em Estudo, Maringá, v.11, n.1, p.191-198, 2006.

Resenha: Victoria’s Dirty Secret: how sociocultural norms influence adolescent girls and women

Vanessa Carvalho

O artigo teve base numa pesquisa realizada por Erin J. Strahan e Anne E. Wilson da Universidade Wilfrid Laurier, Adéle Lafrance da Universidade de Toronto, Nicole Ethler, Steven J. Spencer e Mark P. Zanna da Universidade de Waterloo. O intuito foi de estudar as influências das normas socioculturais para mulheres adolescentes e adultas, tendo como foco de interesse os padrões de beleza.
Os autores iniciam o texto fazendo um levantamento de algumas pesquisas envolvendo o tema. Dentre dados obtidos em estudos anteriores é dito que a insatisfação das mulheres com seu corpo é conseqüência das normas socioculturais de aparência ideal. Essas normas trariam a noção de que a valorização da mulher estaria atrelada a sua aparência física.
No primeiro tópico “Papel das mensagens da mídia na imagem corporal das mulheres”, Strahan et al. tratam da influência da mídia na divulgação dos quase inatingíveis padrões de beleza e peso ideais o que vem gerando diversas críticas. Citando, Hofschire e Greenberg (2002), os autores mostram que as imagens expostas pela mídia estão negativamente relacionadas a satisfação com o próprio corpo e diretamente ligadas com a internalização de corpo ideal. Apesar de muitas pesquisas trazerem essas evidências, os autores também apontam que outros pesquisadores têm opiniões opostas. São destacados como riscos da influencia da mídia: aparecimento de distúrbios alimentares e comparação a padrões irreais.
Strahan et al. se voltam para a proposição de que as normas socioculturais podem afetar a auto-imagem das mulheres pelo aumento do nível no qual baseiam sua auto-estima em aparência física. Reforçando a relevância desse estudo, é feita uma referência a Crocker (2002) que considera arriscado quando a auto-valorização se baseia em contingências externas, porque gera busca por aprovação dos outros.
Os autores apresentam como uma peculiaridade de seu estudo, a investigação de uma contingência externa específica para auto-valorização: a aparência física. Eles propõem que normas socioculturais de aparência levam as mulheres a crer que seu valor depende de sua aparência.
Segundo Strahan et al. a modelo criado para a pesquisa se baseou em estudos anteriores que demonstraram que imagens refletindo padrões de beleza, comumente levam as mulheres a sentir-se insatisfeitas com seu corpo. Eles fazem uma interessante referência a Fredrickson e Roberts (1987) que afirmaram que as mulheres aprendem socialmente que seu valor se deve à aparência física, dando importância à perspectiva de uma terceira pessoa. A partir dessa base teórica, a hipótese de Strahan et al. é de que as imagens da mídia refletindo normas socioculturais de aparência, podem gerar nas mulheres a preocupação se estão suficientemente magras ou atraentes aos olhos de outras pessoas. Outra justificativa dada pelos autores para a relevância de estudos como este é que se confirmadas as hipóteses, o fato pode representar arriscadas implicações para as mulheres.
O processo da pesquisa, segundo apresentado pelos autores, foi dividido em duas etapas principais: “Estudo 1” e “Estudo 2”. Durante o “Estudo 1”, Strahan et al. apontam como objetivo, realizar o exame do impacto que a apresentação de imagens com padrões típicos de aparência ideal poderiam gerar com relação a satisfação das mulheres quanto a seu corpo, bem como quanto a sua preocupação com a percepção dos outros. De acordo com os autores, a pesquisa teve foco nas mulheres por considerá-las mais susceptíveis aos efeitos negativos dos padrões de beleza.
Ao descrever o método utilizado, os pesquisadores reataram que o verdadeiro objetivo da pesquisa era ocultado com o pedido de que os participantes tentassem lembrar ao máximo possível os detalhes das imagens exibidas. Essa estratégia parece válida considerando que permite evitar a interferência de algumas variáveis. Além disso, é um meio de garantir a atenção dos participantes.
Conforme apresentado no artigo, foram escolhidas como participantes apenas mulheres da graduação de psicologia. Estas foram distribuídas entre grupo experimental e grupo controle. Na condição controle, foram exibidos comerciais neutros e que não continham pessoas, seguindo o modelo de pesquisas anteriores. Por sua vez, na condição experimental, foram mostrados comerciais neutros intercalados com comerciais que segundo autores, apresentavam normas socioculturais relacionadas a aparência. Um deles se relaciona com o título do texto e consiste numa peça publicitária da grife de lingeries Victoria’s Secret. Após assistir aos comerciais, as participantes eram informadas de que haveria um intervalo antes de testar sua memória. Neste intervalo, é que ocorria a verdadeira coleta de dados por meio de questionários.
No artigo, os resultados foram agrupados em “Aparência como base para auto-valorização”, “Satisfação com o corpo” e “Preocupação com a percepção dos outros”. De acordo com relato de Strahan et al. os resultados corroboraram com sua hipótese, porque as participantes do grupo experimental basearam mais sua auto-estima na aparência que aquelas do grupo controle. Eles também apontam que um teste sobre a influência para outras dimensões da auto-valorização (além da aparência), mostrou que outros fatores como desempenho acadêmico e apoio familiar não foram afetados, embora o domínio “aprovação dos outros” o tenha. Com relação a essa observação dos autores, é importante lembrar a particularidades de cada situação e sujeito, pois questões relacionadas a baixa auto-estima quanto a aparência, em alguns casos podem ter proporções a ponto de interferir em outras dimensões da valorização pessoal.
A respeito da “satisfação com o corpo”, os autores também apresentam um resultado conforme esperado, porque as participantes do grupo experimental demonstraram menos satisfação com seu corpo. Além disso, também foi mais saliente nesse grupo a preocupação com a opinião dos outros. Sendo assim, pode-se dizer que o resultado geral, foi consistente com as formulações prévias dos pesquisadores, a partir da observação de que a auto-valorização estava mais relacionada a aparência quando normas socioculturais estavam em destaque.
A segunda etapa do estudo, “Estudo 2”, foi realizada com estudantes de escolas públicas. Neste caso, os autores apresentaram como objetivo, a investigação da possibilidade de reduzir os impactos da veiculação de padrões de beleza, por meio de uma intervenção nesse intento. A partir dessa intervenção, Strahan et al. esperavam que os participantes se sentissem desafiados a reduzir legitimidade das normas socioculturais de aparência, contestando a idéia de que seguir esses padrões traria aceitação social.
Durante essa etapa, os pesquisadores relatam ter utilizado como participantes homens e mulheres adolescentes, sem deixar muito claro o motivo para a mudança de perfil comparando-se com as participantes do “Estudo 1”, principalmente no que diz respeito a mudança de faixa etária e inclusão dos homens (no “estudo 1” apresentados como dispensáveis para essa pesquisa). Não se sabe até que ponto, essa mudança pode ter interferido nos resultados.
A descrição do método demonstra que neste caso, também houve tentativa de ocultar os objetivos da pesquisa. Na condição de controle, a intervenção se voltava para questões de incentivo ao voluntariado. Na condição experimental, era esperado que a intervenção levasse os participantes a se basear menos na aparência em sua auto-avaliação, além de que se mostrassem mais satisfeitos com seu corpo e menos preocupação com a percepção dos outros.
Segundo Strahan et al., a intervenção foi formulada em duas etapas: “sessão 1” e “sessão 2”. Durante a “sessão 1” foi realizada um discussão sobre o ideal de beleza para homens e mulheres, nesta discussão os facilitadores apresentavam exemplos e enfatizavam o quanto certos padrões são irreais, além dos riscos que a tentativa de atingi-los pode significar. Na “sessão 2”, os participantes eram estimulados aplicar os conhecimentos expostos e incitados ao debate sobre o tema. É importante considerar que a eficiência desse formato de intervenção depende da predisposição e perfil de cada um, mas de um modo geral, parece ter sido bem formulado.
Os autores apontam que o teste dos efeitos da intervenção foi feito uma semana depois. Esse procedimento por um lado permite avaliar a consistência da intervenção, mas talvez possa reduzir a garantia da correlação com dados obtidos. Durante essa etapa da pesquisa Strahan et al., relatam que aos participantes era dito que iriam avaliar campanhas publicitárias, utilizando modelos. Os resultados esperados a partir dos instrumentos eram: rejeição às normas socioculturais de aparência e menos internalização da forma física ideal.
Como resultados do grupo experimental, os autores apontam que homens e mulheres pareceram rejeitar mais a legitimidade dos padrões de beleza em comparação com os participantes do grupo controle.
Sobre a investigação da “aparência como base para auto-valorização”, Strahan et al. relevam que era esperado na condição experimental, que os participantes utilizassem menos a aparência como base de sua valorização. Os resultados foram de acordo com essa hipótese para as mulheres, embora os garotos pareçam não ter sido afetados pela intervenção. No entanto, os autores lembram que no grupo controle a comparação entre homens e mulheres, mostrou que as garotas baseavam mais sua auto-estima em aparência que os garotos.
Com relação a “satisfação com o corpo”, a hipótese formulada pelos pesquisadores era de que os participantes se apresentariam mais satisfeitos com seu corpo na condição experimental e que esse resultado seria mais saliente para as garotas. Novamente, o apresentado coincidia com o esperado e os garotos demonstravam ter sido menos afetados pela intervenção.
As expectativas dos autores sobre “preocupação com a percepção dos outros” seguiam raciocínio semelhante aos itens anteriores. Deste modo, foi relatado por eles que o esperado era que os participantes, principalmente as mulheres, na condição experimental demonstrariam menos preocupação com a opinião dos outros. Neste caso, a hipótese sobre as garotas também foi corroborada pelos resultados e entre os garotos não houve diferença significativa entre o grupo experimental e o grupo controle.
De modo geral, a partir do exposto por Strahan et al., comparando os resultados entre homens e mulheres do grupo controle foi observado que os garotos aceitavam menos as normas socioculturais de beleza. Esse dado é apresentado como justificativa para o fato da intervenção não ter gerado resultados significativos para os homens. Segundo autores, a intervenção pode não ter afetado os garotos pelo fato destes, serem mais imunes as normas socioculturais. Entretanto, é válido flexibilizar as causas dos resultados, pois conforme afirmado pelos próprios autores podem haver inúmeras outras explicações, inclusive de que o modelo utilizado não se adequou a participantes masculinos.
Ao realizar um auto-questionamento sobre a aplicabilidade dos resultados, Strahan et al. reconhecem que a depender de características particulares nem todas as mulheres reagem da mesma forma a exposição de padrões socioculturais de aparência física. A proposta é de que ainda assim, a maioria das mulheres legitimam os padrões de aparência ideal. Esse elemento, pode estar relacionado ao fato já citado pela referência a Fredrickson e Roberts (1987) de que as mulheres são socializadas aprendendo que devem buscar a adequação aos padrões de beleza. Além disso, ocorre a ainda vigente percepção da mulher como objeto sexual que desconsidera fatores como carreira e inteligência como atributos valoráveis.
A partir dos resultados obtidos, os autores apontam possíveis implicações para as mulheres. Dentre elas, é afirmado que a exposição a mensagens de normas de beleza podem levar as mulheres a basear mais sua auto-estima em aparência e como a maioria não se encaixa nos padrões, a tendência é que se auto-avaliem negativamente. Citando Crocker (2002), os autores reforçam os riscos para o bem-estar, além dos comportamentos auto-destrutivos que podem ser adotados por conta desses padrões.
Strahan et al. ressaltam que poucas opções são deixadas as mulheres porque se não se submetem aos riscos de tentar seguir os padrões, por outro lado, correm o risco da rejeição social. Os autores concluem o artigo, afirmando que embora os resultados do “Estudo 1”, apontem a tendência feminina a se auto-valorizar pela aparência e legitimar normas socioculturais de beleza, após a exposição a imagens que apresentam tais padrões, ainda pode haver esperança. Essa seria justificada pelos resultados do “Estudo 2” que mostram que um trabalho de intervenção pode trazer mudanças de comportamento.

Conclusão

Os resultados apresentados nesta e em pesquisas anteriores reforçam a necessidade de contestação da veiculação de peças publicitárias, dentre outros veículos da mídia, que refletem normas socioculturais de aparência física. Mostra-se necessário que o próprio consumidor pressione uma mudança de postura da indústria.
Vale ressaltar que algumas empresas começam a utilizar-se da quebra de padrões como uma estratégia de marketing. Mesmo que se trate de mera estratégia para atrair simpatia dos consumidores, e não um valor real da empresa pode-se considerar que se tratam de iniciativas positivas. Os resultados especificamente do “Estudo 2”, mostram que é válido valer-se de campanhas utilizando contra-estereótipos no intuito de sensibilizar quanto as fantasiosas noções de padrões de beleza.

Referência: Strahan, E. J., Lafrance, A., Wilson, A. E., Ethler, N., Spencer, S. J. & Zanna, M. P. Victoria’s Dirty Secret: How Sociocultural Norms Influence Adolescent Girls and Women. Personality and Social Psychology Bulletin, 34, 288-301, 2008.