Foto do dia: eles (2)

Resenha: metodologia para análise de estereótipos em filmes históricos

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Vanessa Kelly dos Santos Carvalho

Langer inicia o artigo, com o tópico “História e Imagem”, no qual exalta a importância da imagem no contexto atual e a partir dessa constatação, justifica a necessidade que acadêmicos e profissionais têm de saber interpretar signos visuais. Como um veículo de transmissão de imagens, o autor dá destaque ao cinema, foco de seu estudo que ele propõe como uma ferramenta de pesquisas, em especial para historiadores.
De acordo com o autor, a imagem visual se constitui por narrativas que tanto receptor quanto emissor, interpretam como representações fiéis da realidade, mas que são estruturadas pela cultura. Partindo dessa noção, Langer introduz o conceito de schemata, tendo como referência o historiador da arte Grombrich, que com este termo estaria se referindo a padrões culturais de fundo de inconsciente, que influenciariam o trabalho dos artistas. O autor apresenta como possível ilustração, aquilo que ocorre com a fotografia, através da qual não é possível captar a realidade neutra, embora se trate de uma representação muito semelhante. Apesar dessa argumentação se mostrar válida, não fica evidenciado de que modo se poderia comprovar a existência da schemata, enquanto estrutura de conteúdos culturais padronizados. Em seu lugar, talvez se pudesse falar no conceito de esquema que de acordo com Fiske e Taylor (apud Krüger, 2004) seriam estruturas mentais constituídas por conhecimentos e expectativas em relação ao mundo.
Langer apresenta a definição de estereótipos, a partir do também historiador Elias Thomé Saliba, como tipos específicos de schemata que se constituem em representações da realidade social ou histórica tomadas como verdadeiras, mas que seriam quase sempre fantasias ou produtos da imaginação. Essa definição parece desconsiderar a questão das relações intergrupais na formação dos estereótipos ao tratá-los como “produtos da imaginação”, remetendo-os a condição de formação individual. Um aspecto básico a se destacar, é que os estereótipos vêm de crenças compartilhadas coletivamente embora sua aplicação seja individual. Além disso, também não foi lembrado que se trata de um mecanismo de identificação dos grupos com seus membros e que os distingue de outros. Talvez uma definição mais completa de estereótipo possa ser dada por Krüeger (2004): “crença coletivamente compartilhada acerca de algum atributo, característica ou traço psicológico, moral ou físico atribuído extensivamente a um agrupamento humano, formado mediante a aplicação de um ou mais critérios”. (p. 36). Krüeger também aponta que estes podem ser positivos ou negativos, voltados para o grupo de pertencimento ou grupo distinto.

É relevante o destaque que Langer atribui ao cinema enquanto meio de divulgação e desenvolvimento dos estereótipos, considerando a força das imagens na veiculação de informações. Entretanto, é questionável apresentar o cinema como uma espécie de etapa final de um processo evolutivo dos veículos de comunicação. O autor traça um esquema no qual os estereótipos teriam se apresentado inicialmente nas artes plásticas, passando para a literatura e histórias em quadrinhos, tomando uma forma definitiva com o cinema. Com relação a essa assertiva, é válido lembrar que a construção dos estereótipos é um processo contínuo que pode ser alterado por diversas variáveis de modo a não ser concebível a idéia de que este chegue a um estado estático e definitivo. Além disso, a influência das fontes de veiculação dos estereótipos pode variar em intensidade também devido a características individuais, e esta intensidade não implica na anulação de outras fontes.
Seguindo a proposta do artigo, Langer enfatiza os estereótipos aplicados a diferentes momentos históricos, ressaltando contribuição do cinema para a divulgação destes.
O segundo tópico é intitulado por “A Imagem Fílmica”. Neste, o autor aponta a partir do historiador Marc Ferro, que o filme deve ser percebido como fonte de imaginação que precisa ser integrado ao contexto social de sua produção. Ele faz essa afirmação numa contraposição às obras escritas, no entanto, também não se pode dizer que estas façam retratos fiéis da realidade, destituídos de estereótipos.
No tópico “Modelo de análise de estereótipos em filmes históricos”, o autor define como filmes históricos e, portanto como objeto de pesquisa, aqueles filmes que contém em sua estrutura narrativa, alguns conteúdos relacionados diretamente à fatos históricos, classificando-os em: obras de reconstrução histórica, biografias, ficção histórica e adaptações literárias com fundo histórico. É importante considerar que toda produção humana tem relação com o contexto histórico no qual se insere. O que parece, a partir dos títulos que lhe serviram de exemplo, é que o autor adotou como característica de relação a fatos históricos, o distanciamento temporal e cultural em relação ao contexto presente.
Langer propõe cinco etapas para análise de estereótipos em filmes históricos: definição do objeto e tema de pesquisa, seleção do filme, crítica externa do filme, crítica interna do filme e comparação e análise de conteúdos. Na primeira etapa é sugerido ao pesquisador que inicialmente escolha o tema, período e contexto histórico que vai ser trabalhado e que detenha de conhecimento bibliográfico sobre o assunto pretendido. É necessário que se busque ao máximo essas condições, no entanto é valido lembrar que o pesquisador nunca vai estar totalmente imune a atribuição de estereótipos. A segunda etapa seria de seleção de obras, na qual se deveriam privilegiar conteúdos temáticos, valor estético, artístico e comercial.
As duas etapas que se seguem são denominadas pelo autor como “critica interna e externa” do filme. Essas denominações são questionáveis, pois ambas referem-se a análise de aspectos sobre o filme. A diferença é que na “crítica externa” o foco se voltaria mais para a produção em si, custos, estilo do filme, fotografia, biografia dos produtores, diretores e roteiristas e publicidade, questões que não se pode supor estar à parte do filme. Já quanto a “crítica interna” a análise teria foco no conteúdo do enredo.
Langer classifica tipos de conteúdo em: objetivo, implícito e inconsciente. O primeiro seria aquele percebido de forma direta por diálogos, figurino, gestos, enredo, arquitetura e cenários. A análise desse conteúdo poderia ser feita, segundo sugestão do autor, por meio de observação do roteiro original e críticas de especialistas do campo cinematográfico. Por sua vez, “conteúdo implícito” diria respeito aquilo que os cineastas gostariam de transmitir como mensagem, mas não o fazem de forma direta. O autor procura exemplificar esse aspecto por meio do filme Invasores de Corpos, não qual seria feita uma alusão ao medo do comunismo, utilizando a imagem de extraterrestres que transformam humanos em zumbis. É fato que as produções cinematográficas muitas vezes carregam conteúdos que por alguma razão não são apresentados explicitamente e que representam opiniões dos cineastas ou informações que se quer divulgar. No entanto, com relação ao exemplo utilizado não fica claro de que modo e através de que fontes o autor chegou a esta constatação. Langer complementa que mesmo produções de alto custo também não fogem as influências de ideologias implícitas e nem há justificativa pela qual fugiriam à regra. O autor acaba incorrendo em atribuição de estereotipização ao analisar que personagens do filme El Cid demonstravam atitudes nazistas, as quais definiu como “gestos e expressões inferindo conquista do mundo”. Se mostra válida sua argumentação de que embora o filme possa se situar em momentos passados, trás informações ligadas ao contexto de sua realização.
Ainda com relação aos “conteúdos implícitos” o autor ressalta outros aspectos a serem observados nos filmes: modelos de representações ideológicas, modelos históricos e patrióticos, público-alvo e receptividade e estereótipos. Sobre “modelos de representações ideológicas” e “modelos históricos e patrióticos”, o autor se refere a tentativa de utilizar o enredo para apresentar certas ideologias como padrões a serem seguidos e para glorificar personagens históricos e seus países de origem.
A respeito do “público-alvo e receptividade” o autor lembra as situações nas quais os filmes fazem mais sucesso em outros países que no próprio local de origem. Langer tenta encontrar uma explicação para tal, podendo-se destacar a aversão das sociedades em verem retratadas suas próprias fragilidades. Essa é uma das possibilidades, mas muitas outras explicações podem existir além das apresentadas pelo autor, a depender de cada contexto.
Sobre a ocorrência de estereótipos, Langer aponta que pode se dar devido a questões ideológicas ou por motivos técnicos. Como exemplos, ele cita os filmes Gladiador e A Lenda de um Guerreiro, cujos figurinos poderiam ter sido elaborados da forma apresentada por uma questão de re-utilização de outros mais antigos, o que é pouco provável. Ele complementa afirmando que nestas produções soldados romanos são apresentados bem reconstruídos enquanto os germanos são estereotipados. Primeiramente, é válido lembrar que o uso de estereótipos é inevitável em produções cinematográficas, e mesmo que fosse possível fazê-lo inviabilizaria o entendimento do público. No caso dos filmes citados, poderia ter ocorrido maior uso de rótulos para um grupo, não significando que o outro fosse apresentado conforme a realidade pura. Neste ponto, o autor pareceu se ater mais aos estereótipos do tipo negativo, o que é confirmado pelos seus exemplos de alvos de estereótipos conforme observados em filmes norte-americanos e europeus sobre África, Ásia e América Latina.
Por fim, Langer define como “conteúdos inconscientes”, aqueles que ultrapassariam as intenções dos cineastas, podendo ser de ordem individual ou coletiva. Sobre esses conteúdos, o autor trás como ilustração os comportamentos tipicamente ocidentais que aparecem em muitos filmes, mas não apresenta como garantir a não-intencionalidade ou mesmo que se trata de algo não percebido de forma “consciente” pelos idealizadores das obras.
A última etapa sugerida por Langer para análise de estereótipos nos filmes históricos é de “comparação e análise de conteúdos”. Nesta fase, o pesquisador deveria comparar os conteúdos com o conhecimento histórico e sociológico que se tem na sociedade na qual foi feita a produção, com o tema retratado e outras produções seguindo a mesma temática.
O autor finaliza o artigo ressaltando o reconhecimento do filme como um documento histórico que precisa ser observado a luz do contexto de sua produção e analisado de forma crítica, tentando desconstruir estereótipos.

Referência: Langer, J. Metodologia para análises de estereótipos em filmes históricos. Revista História Hoje, 2, 5, Nov-2004.

Tipos e figuras: evolution of dance

Estereótipos e música: Jesus Negão

Contribuição: Rafael Oliveira

Resenha: Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental

Carol Aguiar

Os estereótipos se constituem no conhecimento e nas crenças que um indivíduo tem acerca de um grupo social. A aplicação dos estereótipos é bastante convidativa aos percipientes sociais na medida em que oferece um tratamento simplificado das informações, evitando uma sobrecarga cognitiva, e auxilia a dar sentido ao complexo ambiente social. Por outro lado, os estereótipos podem ter implicações prejudiciais, já que substituem uma avaliação individualizada. Por esse último aspecto, as crenças estereotípicas são condenadas em diversas situações, o que leva os indivíduos a buscarem estratégias para suprimi-las.
Nesse artigo, a autora tem por objetivo discutir se é realmente possível a supressão dos julgamentos estereotipados ou se eles, por se tratarem de um processo tão natural e até inevitável, não podem ser colocados sob controle consciente. Para isso, inicialmente são apresentadas evidências de que a tentativa de controle mental para a supressão dos estereótipos não só falham no seu objetivo como pode resultar no seu oposto. Em seguida, são colocadas características moderadoras da supressão dos estereótipos e, por fim, são apresentadas estratégias alternativas que têm se revelado eficazes como mecanismos de controle da expressão dos estereótipos.
Os mecanismos de controle mental: A tentativa de banir os pensamentos estereotipados da mente pode conduzir a efeitos indesejados. Essa perspectiva parte do pressuposto de que para que o indivíduo seja capaz de detectar pensamentos que deseja banir, ele precisará, num primeiro momento, estar consciente desses pensamentos, o que trará como consequência a hiperacessibilidade dos mesmos. Em consonância com essa vertente de pensamento, pesquisas têm mostrado que a tentativa de controlar um determinado pensamento pode fazer com que este fique mais acessível do que se a tentativa de supressão não tivesse ocorrido. Assim, por exemplo, uma série de estudos conuzidos por Macrae et al (1994, apud Bernardes, 2003) sugere que os pensamentos estereotípicos, uma vez suprimidos, retornam à consciência e exercem impacto nas avaliações e comportamentos dos indivíduos em relação a outros grupos sociais. Esse efeito irônico da supressão dos estereótipos foi denominado de efeito de richochete (ERE). O conhecimento da existência do efeito de ricochete pode nos conduzir à seguinte indagação: até que ponto as campanhas que buscam diminuir a expressão do preconceito são eficazes no seu objetivo ou, ao contrário, são contraproducentes, tornando os pensamentos preconceituosos ainda mais acessíveis?
Influências moderadoras da supressão – limitações ao ERE: neste ponto do artigo, o ERE deixa de ser entendido como um efeito inevitável e alguns fatores moderadores são apresentados. Em primeiro lugar, a atitude individual acerca da estereotipização é colocada como o fator de moderação mais importante. Sugere-se, portanto, que pessoas que condenam a estereotipização tendem a apresentar as consequências indesejadas da supressão em menor grau do que aquelas que não condenam. Outro fator moderador é especificamente qual estereótipo está a ser suprimido. Sobre esse aspecto, nota-se que há uma diferença significativa entre as consequências da supressão de estereótipos acerca de grupos para os quais existem fortes normas pessoais e sociais contra a estereotipização e acerca de grupos para os quais não há normas claras e difundidas. Um terceiro fator moderador da supressão bastante significativo se refere à motivação dos indivíduos para inibir o estereótipo. Dessa forma, mesmo que indivíduos com baixo nível de preconceito tenham os estereótipos ativados, eles podem ser bem sucedidos em evitar o subsequente ERE já que estão instrinsecamente motivados para controlar as suas reações estereotípicas.
Estratégias alternativas à supressão dos estereótipos: A supressão dos estereótipos não é o único recurso a que os indivíduos que desejam evitar julgamentos estereotipados podem recorrer. Uma outra possibilidade é a substituição dos pensamentos estereotípicos por outros, ou seja, mais do que suprimir os pensamentos indesejados, esses pensamentos podem ser substituídos por crenças igualitárias que desconstruam a visão estereotipada. Outra estratégia possível se refere à individualização do alvo, que se constitui na procura por informações individualizadas sobre o alvo e a tentativa de formar as impressões a partir dessas informações.
Considerações Finais: A utilização dos estereótipos no cotidiano é inevitável. Caso contrário, em qualquer situação social, teríamos que avaliar uma quantidade muito superior de informações do que a nossa capacidade cognitiva está preparada para fazer. Como consequência, as tomadas de decisão rápidas não seriam possíveis. Entretanto, em aglumas situações, a estereotipização torna-se um recurso que distorce a realidade e, por essa razão, é socialmente condenada. Para evitar os julgamentos preconceituosos, a supressão ainda é a estratégia dominante. Por essa razão, torna-se de grande importância que os efeitos indesejados por ela acarretados, assim como seus fatores moderadores, sejam conhecidos para evitar que mecanismos desenvolvidos visando à diminuição dos preconceitos acabem tendo um efeito eliciador ou potencializador dos mesmos.

Referência: Bernardes, D. Dizer não aos estereótipos sociais: as ironias do controlo mental. Análise Psicológica. 21,3, 307-321, 2003.

Notícia do dia: O que você leva na cabeça faz diferença?

De acordo com a pesquisa do site Mediacurve.com, sim. Vestir uma indumentária tipicamente judia ou muçulmana gera diferenças na percepção da pessoa. Clique aqui para ler o relato da pesquisa no caso masculino, e aqui, no caso feminino.

Estereótipos e humor: terremoto no Ceará

Depois dos terremotos ocorridos na Ásia, o Governo Brasileiro resolveu cobrir todo o país. O então recém-criado Centro Sísmico Nacional, poucos dias após entrar em funcionamento, já detectou que haveria um grande terremoto no Nordeste do país.

Assim, enviou um telegrama à delegacia de polícia de Icó, uma cidadezinha no interior do Estado do Ceará. Dizia a mensagem:

“Urgente. Possível movimento sísmico na zona.
Muito perigoso. Richter 7.
Epicentro a 3 km da cidade.
Tomem medidas e informem resultados com urgência.”

Somente uma semana depois, o Centro Sísmico recebeu um telegrama que dizia:

“Aqui é da Polícia de Icó:
Movimento sísmico totalmente desarticulado.
Richter tentou se evadir, mas foi abatido a tiros.
Desativamos as zonas. Todas as putas estão presas.
Epicentro, Epifânio, Epicleison e os outros cinco irmãos estão detidos.
Não respondemos antes porque, logo depois, houve um terremoto da porra por aqui e não fomos avisados….”

Estereótipos de gênero e publicidade

Contribuição: Maria Fernanda

Estereótipos e quadrinhos: o mais fraco

Contribuição: Aline Costa

Resenha – Masculino e Feminino: Alguns aspectos da perspectiva psicanalítica

Luciana Matos

O texto vem trazer uma nova visão a respeito do desenvolvimento psicossexual masculino e feminino, contrapondo-se à teoria clássica freudiana. Freud trouxe diversos significados aos conceitos masculino e feminino, detendo-se no nível psicossexual do desenvolvimento, que envolve os níveis biológico e sociológico. Ele propõe a concepção da bissexualidade constitucional, onde todo ser humano, no início da vida, seria uma síntese de traços masculinos e femininos. Na teoria clássica, o masculino/feminino são percebidos através das posições ativo/passivo e fálico/castrado, que serviriam de base para a identificação sexual.
Ainda na perspectiva freudiana, o desenvolvimento sexual masculino e heterossexual se daria através da passagem pela ansiedade da castração e da identificação do menino com o pai, abrindo mão do amor incestuoso pela mãe. Já a feminilidade seria desenvolvida por um percurso mais difícil, onde a menina sentiria inveja do pênis, o que pode faze-la sentir inferiorizada, ficando passiva e masoquista, tendo o clitóris como um pênis defeituoso, não conseguindo deslocar o erotismo para a vagina. A feminilidade se desenvolveria de forma saudável quando a menina, voltando-se para o pai, desenvolvesse o desejo de ter um bebê.

Questões recentes na discussão psicanalítica do masculino e do feminino

As novas perspectivas psicanalíticas contrapõem-se á idéia freudiana de que o desenvolvimento psicossexual, tanto da masculinidade quanto da feminilidade, se dê a partir da aprendizagem resultante de frustração, conflito e trauma, sua ultrapassagem e elaboração. Novas abordagens não descartam essa possibilidade, mas propõem que esta não seja tida como uma abordagem universal.
Segundo Freud, a mulher se constituiria como passiva, narcisista, masoquista e com um superego mais frágil que o homem. Esta concepção suscitou críticas, pois caracteriza a estrutura feminina como inferior. A questão do masoquismo, por exemplo, foi tida por Blum (1977 apud Afonso) como um resíduo de um conflito infantil não resolvido, mas não como algo essencialmente feminino. Muito do que foi visto na teoria freudiana sobre a sexualidade feminina precoce foi baseado na observação direta e crianças, porém, ultimamente, os estudos psicanalíticos se baseiam em observação na prática clínica ou descobertas de disciplinas como a embriologia.
Outras questões da feminilidade trazidas por Freud como a transferência do gozo clitoriano para o gozo vaginal, o complexo de castração feminino e a inveja do pênis, são questionadas. Não existem evidências anatômicas nem fisiológicas da transferência clitóris-vagina, e, além disso, não há distinção entre os dois orgasmos. Alguns autores também consideram a metáfora da castração feminina como algo que varia de menina para menina, podendo a mesma sentir-se confortável com sua feminilidade se valorizada pelo pai e bem relacionada com a mãe. Além disso, consideram que nem todas as meninas entram no Édipo por esta via. Autores contemporâneos também relativizam a questão da inveja do pênis e propõem que haja uma inveja sexual em ambos os sexos. Além disso, se discute também a maternidade como central na fundação da feminilidade.
Os homens parecem ter sido um pouco deixados de lado no discurso psicanalítico com o falocentrismo e a ênfase nas questões femininas, pois já eram vistos como possuidores do pênis, e por isso, masculinos, ativos, agressivos, dominadores. Porém, diversos autores questionam alguns aspectos do desenvolvimento psicossocial masculino trazidos por Freud. Person (1986) relaciona o interesse masculino em ter parceiras múltiplas, que faz parte de um ideal de ego masculino, como um espelhamento dos medos sexuais dos homens, como tamanho, perícia, potência e rejeição. Ela traz ainda que a indisponibilidade das parceiras sexuais na adolescência desperta a ferida narcísica original do menino, podendo leva-lo a ereções inoportunas, como se perdesse o controle do falo, o que leva-nos a compreender o medo da impotência e da ejaculação precoce masculinos.
Os últimos estudos feitos a respeito dos aspectos desenvolvimentais pré-edipianos vêm reavaliando os papéis dos pais devido às mudanças na constituição familiar, como o aumento do número de divórcios, aumento do número de pais com a custódia dos filhos, divisão dos cuidados com as crianças devido às atividades profissionais das mulheres. Assim, acredita-se que o pai vem acessando o seu mundo pré-edipiano, permitindo-o reconhecer defesas e repressões, antes ativadas apenas na fase edipiana dos filhos. Esse novo papel do pai permite uma reformulação do processo de separação-individuação, além de levantar questões a respeito da necessidade de um objeto transicional, já que passam a existir muitos objetos disponíveis.

Conclusão

Ao trazer novas perspectivas a respeito da masculinidade e feminilidade, contrapondo alguns conceitos freudianos, o autor permite pensa-los de maneira mais atual e relativizada, enxergando-os de forma contextualizada e menos determinista. Concordando com alguns conceitos, revendo outros e ainda adequando outros às situações atuais, o autor propõe discussões bastante interessantes para a prática psicanalítica na atualidade.

Referência: Afonso, J. Masculino e Feminino: Alguns aspectos da perspectiva psicanalítica. Análise Psicológica, 25, 3, 331-342, 2007.