Resenha: Normas sociais e preconceito: o impacto da igualdade e da competição no preconceito automático contra os negros

Gilcimar Santos Dantas

O trabalho tem como objetivo investigar o quanto os valores relacionados à competição e à igualdade contribuem na expressão do preconceito automático contra negros. O estudo parte de uma perspectiva conhecida como processos duais ou automatismo e controle, que afirma que existem dois tipos de cognição. Uma que se manifesta de modo controlado, através de uma estrutura evolutivamente mais recente, que ocorre de modo mais lento, que requer esforço e que se caracteriza por ser mais analítica. Já a segunda ocorre de modo automático, decorrente de uma estrutura evolutivamente mais primitiva, que ocorre sem esforço, de maneira rápida e inconsciente, disparada a partir de características superficiais do alvo e que possui maiores relações com o preconceito. Este último tipo de cognição, quando ocorre, se torna difícil de controlar podendo influenciar as atitudes e os comportamentos subsequentes. Boa parte dos estudos sobre este tema costuma estudar os fenômenos intrapsíquicos subjacentes à expressão do preconceito automático. Entretanto, o presente estudo busca investigar o papel das normas sociais na expressão do preconceito automático contra negros. Para isso, foi utilizado o Teste de Atitudes Implícitas (IAT), que apresenta, em milésimos de segundo, faces de pessoas negras e palavras tanto de conteúdo negativo quanto positivo, assim como faces de pessoas brancas e palavras tanto de conteúdo negativo quanto positivo. O participante precisa fazer o mais rápido possível a associação destas faces com essas palavras e quanto mais alta for a associação entre faces negras e conteúdos negativos e faces brancas e conteúdos positivos, maior a expressão do preconceito automático. Para verificar o impacto dos valores relacionados á competição e à igualdade, os autores realizaram três estudos.

No primeiro estudo, 35 participantes foram alocados em três condições experimentais, sendo que na primeira os participantes eram requeridos a pensarem em argumentos sobre a igualdade formal e escreverem sobre eles. No segundo, os participantes eram solicitados a pensarem e escreverem argumentos sobre meritocracia competitiva e no terceiro (o grupo controle) era requerido que os participantes pensassem e escrevessem sobre vida extraterrestre. Após este momento os participantes respondiam ao IAT e o objetivo dos pesquisadores era saber se a expressão do preconceito implícito sofria influência dos contextos aos quais os grupos foram alocados. Os resultados demonstraram uma maior expressão do preconceito contra negros entre os participantes alocados no contexto de meritocracia competitiva, uma menor expressão (mas inda existente) do preconceito contra negros entre os participantes alocados no contexto igualitário e uma expressão ainda menor (mas ainda presente) do preconceito contra negros entre os participantes alocados no grupo controle.

No segundo estudo, o objetivo foi saber os sentidos da igualdade por parte dos participantes. Para isto um novo grupo de 35 participantes foi convidado a responder à pergunta: “Para você, o que é igualdade”? O primeiro sentido foi formado por respostas em termos de “igualdade de direitos e deveres” enquanto que os demais tipos de expressão de igualdade foram “solidariedade”, “não preconceito”, “igualdade como cidadania” e “igualdade como respeito às diferenças”. Estes resultados levaram à conclusão de que existem diferentes formas de perceber a igualdade, o que levou ao terceiro estudo que tinha como objetivo saber se argumentos da percepção de igualdade, decorrentes das respostas do segundo estudo, anulariam a expressão do preconceito contra negros no IAT.

No terceiro estudo, foram criados mais três grupos, que totalizaram um número de 35 participantes. O primeiro grupo foi solicitado a pensar e escrever argumentos referentes à competição individualista (como no primeiro estudo), o segundo foi solicitado, também, a pensar e a escrever argumentos referentes à igualdade solidária (decorrente dos argumentos dos participantes do segundo estudo), enquanto que foi requerido ao terceiro grupo a pensar e a escrever argumentos a respeito da igualdade formal (a mesma do primeiro estudo). Assim como no primeiro estudo, os participantes foram submetidos ao IAT e o objetivo dos pesquisadores foi o mesmo do primeiro estudo. Os resultados deste terceiro estudo mostraram que o contexto da meritocracia competitiva produziu grande ativação de preconceito automático contra negros, enquanto que no contexto de igualdade formal (apesar de ainda existir), o preconceito automático contra negros foi menor e no contexto de igualdade solidária este preconceito não se manifestou.

Os resultados destes estudos sugerem que apesar de muitos indivíduos se mostrarem favoráveis a atitudes não preconceituosas, tais atitudes podem não ser tão significativas assim, a ponto de impedirem a manifestação do preconceito implícito. A realização de estudos nesta abordagem parece ser muito importante no contexto brasileiro que, ao contrário de alguns países, possui um longo histórico de expressão de preconceito implícito contra indivíduos negros. Um outro ponto importante, apresentado nestes estudos é que a expressão do preconceito contra negros foi intensificada no contexto da meritocracia competitiva, assim como foi amenizada no contexto de igualdade formal e anulada no contexto da igualdade solidária sem que os participantes tivessem consciência. Estes dados trazem à discussão o paradigma do agente racional que afirma que a tomada de consciência é suficiente para uma revisão e, por sua vez, uma mudança das atitudes preconceituosas. Isto sugere o quanto pode ser difícil controlar preconceitos automatizados e que para muda-los não se depende apenas de uma tomada de consciência, mas também de determinadas estratégias de redução do preconceito.

Referência: Lima, M., E., O., Machado, C., Ávila, J., Lima, C. & Vala, J. (2005). Normas sociais e preconceito: o impacto da igualdade e da competição no preconceito automático contra os negros. Psicologia: Reflexão e Crítica, 19, 2, 309-319.

Resenha: Estilo de vida como indicador de saúde na velhice

Pérola Cavalcante Dourado

O artigo em questão retrata o quanto o estilo de vida influencia na saúde e qualidade de vida na velhice. Para além dos aspectos comumente enfocados como providenciais para uma velhice tranquila, como a manutenção de uma condição física favorável, e ações de previdência para uma vida financeira confortável, o texto enfoca o estilo de vida no tocante às ações mentais, estímulos à cognição, e ações como abrir-se a novos conhecimentos e práticas.
Embora hoje percebamos o advento de trabalhadores em idade de aposentar-se que optam por manter-se na ativa, percebe-se como tendência natural que a aposentadoria coincida cronologicamente com a entrada na velhice. Normalmente atribui-se ao aposentado e idoso características como obsolescência mental, desestímulo social e ausência de estímulos cognitivos, fatores que aliados a uma sensação de inabilidade social, por ter pertencido a gerações anteriores e por possivelmente não abrir-se a novos aprendizados, o que consequentemente trariam a situação de isolamento social.
O cenário atual nos impele cada vez mais a pensar em políticas de valorização da população de idosos, pois o aumento da expectativa de vida, aliada a baixas taxas de natalidade em muitos países, especialmente na Europa, fazem com que propiciar um envelhecimento com saúde tenha se tornado um dos desafios do século XXI. É importante ressaltar a importância do que representam as diferenças entre as áreas médicas destinadas tanto a pesquisar e curar; patologias atribuídas à senilidade, a Geriatria, e acompanhar e assistir o envelhecimento natural, proposta da Gerontologia de propiciar qualidade de vida nessa etapa da vida. É também importante ressaltar a importância de pesquisar o fenômeno do envelhecimento, e também as características individuais, resultantes de caracteres genéticos, socioculturais, históricos e psicológicos, o que traz uma miscelânea de padrões que não podem ser igualados.
Diferenciando a senescência, ato natural de envelhecer, de senilidade, que concerne às patologias que incapacitam ou cerceiam a autonomia do idoso, há de se atentar para que sejam propostos instrumentos que preservem tanto quanto possível a capacidade funcional do idoso, ou seja, sua autonomia e independência.
São dados como deteriorantes do estímulo à cognição o desuso, desestímulo de novos aprendizados, e o desengajamento social. É determinada a estrita relação entre a cognição e a qualidade de vida buscada, no sentido de que a primeira fará com que os idosos permaneçam abertos a mudanças e mentalmente ativos e produtivos, fazendo uso de suas habilidades pré-existentes, e até as que ainda não foram descobertas e utilizadas, a fim de manter um estilo de vida saudável.

Referência bibliográfica: Figuereido, V. L. M. Estilo de vida como indicador de saúde na velhice. Ciência & Cognição, 04, 12, 156-164, 2007

Valores psicossociais e orientação à dominância social: um estudo acerca do preconceito

Márcia Deocleciano

Valores psicossociais e orientação à dominância social: um estudo acerca do preconceito” Psicologia: Reflexão e Crítica, 20 (3), 490-498, Porto Alegre 2007, dos pesquisadores Sheyla Fernandes, Joseli Da Costa, Leoncio Camino e Roberto Mendoza traz um estudo cujo objetivo foi analisar as relações existentes entre o preconceito, através da orientação à dominância social, e os valores psicossociais, a partir de quatro sistemas: o religioso, o materialista, o pós-materialista e o hedonista, onde as considerações apresentadas tem o preconceito como resultado das construções ideológicas amplamente compartilhadas pelos grupos sociais. Os pesquisadores começam o presente trabalho visando abordar o preconceito e os valores de estudantes universitários de uma capital nordestina, traçando uma análise teórico-empírica em função das relações estabelecidas entre os níveis individuais de preconceito e a adesão aos sistemas de valores. Trouxe como considerações teóricas estudos desde 1954 «A natureza do preconceito», Allport a estudos recentes (Fernandes & Almeida, 2006; Lima & Vala, 2004a) onde apontam que as mudanças sociais ocorridas que visam à dissolução ou, pelo menos, a moderação das desigualdades sociais, não se mostram bem sucedidas.

Quanto ao método utilizado foi uma amostra composta por 205 estudantes universitários do curso de psicologia de duas universidades da cidade de João Pessoa, Paraíba, sendo 77,6 % de mulheres e 22,4 % de homens, com idade variando entre 16 e 30 anos (Média 21,5; Moda 20; DP 2,54). Destes 89,3% eram solteiros e 48,3% se dedicavam exclusivamente aos estudos. Os sujeitos foram escolhidos em função de sua presença nas salas de aula no momento da coleta de dados. Os questionários foram aplicados coletivamente mas respondendo individualmente.

Os resultados indicaram inicialmente que todos os sistemas de valores se apresentaram importantes para a construção de uma sociedade ideal, enquanto que a dominância social foi fortemente rejeitada pelos participantes deste estudo. Ainda acrescentam que a respeito deste resultado, duas pontuações se fazem pertinentes: a primeira se faz atuante desde o período que sucede a Segunda Grande Guerra, podendo ser explicada a partir dos princípios normativos de alguns países que coíbem qualquer tipo de discriminação (Lima, 2002), atenuando superficialmente os sentimentos negativos dirigidos aos grupos marginalizados. A segunda indica que os valores considerados importantes para uma sociedade adequadamente justa seguem o mesmo padrão imposto pelas ideologias políticas elaboradas socialmente (Da Costa, 2000; Lima, 1997; Lima & Camino, 1995; Pereira et al., 2001a) fazendo-se necessária uma nova pesquisa para enriquecer os estudos na esfera psicossociológica.

Resenha: O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente

Márcia Deocleciano

O presente texto do pesquisador Ricardo Franklin Ferreira, da Universidade de São Marcos, publicado na revista psicologia e Sociedade; 69-86; Jan./Jun. 2002, tece comentários acerca de algumas condições históricas para o desenvolvimento do preconceito contra a população negra, que muitas vezes é difícil de ser compreendido e combatido em função de um mito que o nega. O mesmo afirma que existe mecanismos subliminares de encobertamento permeados por um aparente tratamento cordial, desenvolvendo a crença de que a discriminação étnico- racial não existe. Considerando assim que , ‘não temos de compreender o que não existe’.

Pesquisas apontam que o preconceito é sistematicamente considerado como atributo do “outro”. Os resultados da pesquisa Datafolha apontam que 89% dos brasileiros afirmam saber da existência do preconceito contra os brasileiros negros, mas somente 10% o admitem como seu.

No Brasil, o preconceito não é abertamente afirmado, dificultando a elaboração de leis que favoreçam sua reversão. A ideologia de que vivemos num país em que as diferenças são aceitas e valorizadas, ‘um verdadeiro exemplo para as outras nações’, encobre o problema. Em função disso, a população negra encontra-se submetida a um processo em que as condições de existência e o exercício de cidadania tornam-se muito mais precários com relação à população considerada branca. Em decorrência, a construção de uma identidade positivamente afirmada, requisito necessário para as pessoas se engajarem em políticas efetivas voltadas para a melhoria de suas condições sociais, torna-se um processo dificultado.

O autor aborda sobre a temática do preconceito silenciado e pra isso narra a experiência vividas de uma configuração familiar muito comum cuja mãe é branca o pai sendo negro, onde tiveram três filhos sendo estes consideradas com relação a cor da pele; as duas filhas morenas e o filho da cor da pele do pai considerado como sendo negro. Só depois que a família começou a participar de grupos de militância começaram a enxergar e aceitar que todos eram na verdade negros e não ´moreno claro ou moreno escuro`.

É muito comum tratar o afro-descendente como ‘moreno’, palavra fortemente enraizada na cultura brasileira. É um exemplo de uma situação que revela uma estratégia simbólica de fuga de uma realidade em que a discriminação impera constituída, conservando a incapacidade de desenvolver atitudes afirmativas quanto às especificidades raciais. Em função do processo de desvalorização da pessoa negra, os afrodescendentes tendem a introjetar a visão dominante de mundo branco, visto como superior. Em decorrência, tendem a desvalorizar o mundo negro ou assumirem como insignificante para suas vidas o fato de serem afrodescendentes.

O texto aponta três condições favoráveis ao desenvolvimento do preconceito e sua forma de expressão no Brasil sendo um terreno fértil a constituição do racismo silencioso: (a) uma concepção constitutiva das subjetividades ocidentais, desenvolvida na modernidade, que busca ordem, desvalorizando ou eliminando o ‘diferente’; (b) um processo histórico, legitimado por tal concepção, que levou à escravidão do africano e redução de sua condição a mero objeto de uso; (c) posteriormente, já após a Abolição, o desenvolvimento de concepções, apoiadas pela ciência, acerca da inferioridade racial do negro, a ponto de se ‘prever’ sua extinção na constituição do povo brasileiro.

É importante uma análise mais aprofundada dos grupos de militância negra, no sentido de criar mecanismos que evitem o problema apontado por Figueiredo (1995), num ensaio onde são analisados aspectos da identidade das pessoas que participam da militância como um modo de vida. Ele ressalta que o militante tende a desenvolver uma identidade apoiada em procedimentos de exclusão e vedamento que resultam na “repetição estéril do próprio terreno que pretendia transformar” (p.114), independentemente do contexto – político, religioso, científico, – e da direção – ‘revolucionária’, ‘conservadora’ ou ‘alternativa’ – em que a militância esteja sendo exercida. Tratando-se do desenvolvimento de uma identidade articulada em torno de características etno-raciais, o fechamento em torno importante a participação do afro-descendente em grupos de movimento negro, pois o militante tem a chance de recuperar os valores da cultura e da história africana. Através de um processo de reconstrução, pode revisar os valores introjetados e os estereótipos negativos assimilados durante o processo de socialização, com objetivo de favorecer, uma auto-estima mais positiva e relacionamentos harmoniosos no âmbito sócio-cultural mais amplo.

Cabe aqui a proposta de um amplo debate, em termos educacionais, sobre o preconceito, as práticas discriminatórias e maneiras de superá-los, pois a escola é um núcleo estruturante formador de futuros adultos. Além disso, creio ser uma importante contribuição a educação formal enfatizar as nossas raízes nos currículos e reconstruir a história do processo de formação do povo brasileiro, não mais sob a ótica branca oficial, mas com uma visão mais abrangente. Também a participação em grupos de militância, sejam eles voltados para valores religiosos, como o Candomblé, com objetivos políticos ou culturais, pode favorecer um processo de reconstrução pessoal junto a interlocutores que vivem a mesma problemática, através do exercício de revisão dos padrões negativos introjetados e da possibilidade de contato com dados da história omitida. A militância é um espaço onde a vergonha de ser negro pode transformar-se em orgulho de ser negro, onde o indivíduo passa a ter nova história, além de intensificar a luta, que já vinha desenvolvendo desde o início da escravidão, por sua afirmação.

Também na academia, o debate sobre tais questões deve ser ampliado. A psicologia brasileira pode e deve ter um papel fundamental para ajudar na compreensão de como os processos psicológicos para a compreensão mais ampliada da problemática do afro-descendente, principalmente frente às armadilhas que um discurso social e político, Concluindo, creio ser importante que a pessoa branca deixe de negar suas raízes culturais africanas e indígenas, assim como o negro brasileiro, sua raízes culturais européias e também indígenas. Portanto, esta é uma luta do brasileiro, seja ele negro ou branco, é uma luta do brasileiro que é, culturalmente, ‘negro e branco e índio’.

Referência: Ferreira, R. F. (2002). O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente. Vol. 14 (1): 69-86.

Resenha: Brites, J. Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe entre empregadas domésticas e seus empregadores

Rose Luz Silva Perez

O texto Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe entre empregadas domésticas e seus empregadores foi escrito pela antropóloga e professora da Universidade Federal de Juiz de Fora, Jurema Brites. O texto consolidou-se como resultado da pesquisa etnográfica realizada por ela no período de 1995 a 1998. O estudo aborda um tema bastante interessante que perpassa o cotidiano de grande parte da população brasileira: a ambiguidade da interação entre patroas e domésticas. São analisadas as características que envolvem esta relação e como, de maneira extremamente sutil, é perpetuada a distância social entre universos distintos e estabelecida a naturalização da desigualdade social.
Os dois atores envolvidos nesta relação, provenientes de realidades completamente diferentes, estabelecem ao mesmo tempo uma interação permeada pela cumplicidade e o antagonismo. Este fato para a autora, gera a ambiguidade afetiva, pois, se de um lado a doméstica cuida do que há de mais precioso na vida familiar que são os filhos, o marido e a casa, por outro, deve haver um espaço bem demarcado que difere o universo da empregada doméstica e o de seus patrões.
A questão que se impõe diz respeito a como a desigualdade é reproduzida ao longo dos anos pelas classes média e alta, sendo internalizada sistematicamente pelas crianças que recebem os cuidados das domésticas. Neste aspecto, é dada ênfase quanto à acentuada proximidade e afetividade que marcam a relação entre as babás e crianças e como se reproduzem patroas adultas com um forte sentido de hierarquia. Para a autora, os constantes rituais de separação de espaços domésticos como o banheiro, o pequeno quarto, entre outras informações subliminares, vão configurando o terreno fértil para a manutenção da distância social e do sistema altamente estratificado de gênero, classe e cor.
As reflexões provenientes da pesquisa realizada são confrontadas com conceitos de diversos outros autores sobre o tema, o que amplia a percepção e crítica sobre o mesmo. No entanto, não foram citados maiores detalhamentos sobre o trabalho etnográfico efetivado, a exemplo do quantitativo da amostra dos patrões e domésticas, o que poderia oportunizar maior clareza sobre a extensão do grupo pesquisado. Não obstante, os resultados apresentados despertam no leitor a necessidade de um olhar mais cuidadoso sobre as relações estabelecidas no interior dos lares e de como, sem que possamos nos dar conta, contribuímos para a perpetuação da desigualdade social.
Referência: Brites, J. Afeto e desigualdade: gênero, geração e classe entre empregadas domésticas e seus empregadores. Cadernos Pagu, 29, 91-109, 2007.

Resenha: Mulheres ciganas – medo, relações intergrupais e confrontos identitários

Jaime Naupuile Dala


O artigo com o título em epígrafe procurou compreender através da teoria da identidade social, os estereótipos presentes no imaginário rural associados ao grupo cigano, bem como os sentimentos associados a este grupo humano. Inicialmente são apresentados os conceitos de identidade social e processos grupais. Os autores entendem como identidade social tal como proposta por Henri Tajfel, apresenta-se como um valioso recurso teórico. A teoria procura elucidar a constituição da identidade no âmbito das relações intergrupais, enfatizando os processos que limitam um determinado campo da identificação. Neste caso a categorização social se revela como um conceito fundamental na descrição dos processos identitários. Para Tajfel, a categorização é o processo social no qual “se reúnem os objetos ou acontecimentos sociais em grupos, que são equivalentes no que diz respeito as ações, intenções e sistemas de crenças do individuo” (p.290). Este processo se fundamenta na necessidade da criação de condições que permitam apreender nos diversos contextos sociais, elementos ordenadores da realidade que facilitam definir as fronteiras entre endogrupo e o exogrupo a fim de se construir a identidade social, derivado do conhecimento do seu grupo de pertença, o que facilita a elaboração de estereótipos que são um conjunto de crenças sobre os atributos inerentes a pessoas de um determinado grupo. Quando pensamos nos outros através de lentes estereotipadas, desenvolvemos expectativas e certas interpretações do seu comportamento, com base nos recursos simbólicos cria-se mecanismos de proteção. Os autores aludem que o grupo cigano tem sido alvo de ameaça de estereótipos associados a preconceito racial devido o sentimento de medo que grupo maioritário vive como impulsionador dos maus tratos relacionados aos ciganos, confirmando características presentes no imaginário social amplamente difundido acerca deste grupo social que tem sido considerado como ladrões, malfeitores e amaldiçoados. Adicionando-se a realidade da própria historia humana ser de conflitos, contada pelos rastros do confronto entre grupos de diferentes épocas, que visam criar e manter espaços do grupo de pertença. Para o esclarecimento sobre a raiz de atitude de medo entre o grupo maioritário, as mulheres rurais, os autores recorrem a Delumeau que a descreve de seguinte maneira: O medo se encontra na apreensão provocada entre pessoas que não se conhecem, ou que se conhecem mal, que vêm de fora, que não se parecem conosco e que, sobretudo, não vivem da mesma maneira que vivemos. Falam uma outra língua e têm códigos que não compreendemos. Tem costumes, comportamentos, práticas culturais que diferem das nossas, não se vestem como nós, não comem como nós, têm religião, cerimónias e ritos cujo significado nos escapa. Por todas essas razões, eles nos assustam e somos tentados a toma-los como bodes expiatórios em caso de perigo. Se uma desgraça acontece a uma coletividade, é por causa do estrangeiro.
O mundo polarizado pela ideologia política, raça, etnia, classes sociais moldam as identidades e a medida que se desenvolvem, os sentimentos vão sendo fortemente marcados por regras, normas sociais, valores, crenças bem como sistema de papéis, difundidos pelos grupos sociais de pertença que guiam comportamentos aumentando assim a autoestima e o senso de distinção do outro. Carvalho, Machado e Suyama (2002) assinalam que o desenvolvimento do ser humano ocorre através do confronto de ações, emoções motivações e significados, como elementos importantes na formação do carácter do individuo. Nesse sentido, o carácter é forjado a partir das práticas sociais vivenciadas decorrentes das interações, construídas em contextos históricos determinados pelos elementos culturais e das informações veiculadas pelos meios de comunicação social que provocam sentimentos de medo e insegurança. Fiorin (224) enfatiza que entre a difusão de uma cultura do medo, um sentimento individual e socialmente partilhado, referenciado por objetos sociais que são oferecidos às nossas relações cotidianas já interpretados e revestidos de uma ideologia que contribui para a discriminação.
O artigo enfatiza que o grupo cigano integra uma cultura que durante muitos séculos sofre de injustiças, preconceitos e perseguições, até os dias atuais, o reflexo de uma história de sofrimento e marginalização. Fatos recentes na Europa registram a perseguição à população cigana. Em países como Itália, Roménia e França, acampamentos de ciganos foram incendiados e os seus habitantes expulsos. O que ocorre são fatos de desumanização que continuam marcando negativamente a historia deste grupo humano. O desrespeito à cultura deste povo é identificado não só nos fatos acima citados, mas também nas tentativas de aculturação. Vaz (2005) alude que apesar da Constituição Federal brasileira garantir os mesmos direitos a todos que nascem no país, na prática eles são violados quando se trata de populações pertencentes a minorias étnicas, e com os ciganos, não é diferente. A realidade de exclusão que vive o grupo cigano, está relacionada com sentimentos de estereótipos e preconceito racial praticados pelo grupo maioritário enraizado nas crenças amplamente difundidas a partir dos grupos de pertencimentos.
Os objetivos do estudo foram: (1) conhecer alguns elementos que compõem os estereótipos presentes no imaginário rural acerca do grupo étnico cigano, bem como os sentimentos associados ao grupo. Tendo em conta que as relações entre grupos ciganos e não ciganos poderiam favorecer a apreensão mais nítida dos processos identitários; (2) verificar como o medo medeia a elaboração de identidades e práticas sociais de solidariedade e exclusão.
O estudo foi realizado numa população de 10 mulheres rurais não ciganas, com idades entre 34 e 67 anos; 09 casadas e 01 divorciada; 04 eram escolarizadas, 04 tinham o ensino primário e 02 o ensino fundamental; todas moradoras de uma mesma comunidade rural localizada no interior de um estado brasileiro. Os dados foram coletados através de entrevistas orientadas por um roteiro semiestruturado organizado em três módulos de informação: a) dados pessoais dos participantes; b) questões sobre o cotidiano da comunidade rural e c) questões contemplando o grupo cigano, tanto na dimensão representacional. O tratamento dos dados foi realizado através do sotwere ALCESTE.
Os resultados do estudo confirmaram que, os estereótipos compartilhados pelas mulheres rurais em relação ao ser cigano contêm uma série de características negativamente valorizadas: os ciganos são percebidos como sujos, amaldiçoados, pessoas que pedem, roubam, que buscam uma maneira fácil de ganhar dinheiro sem trabalhar, que enganam os outros e que viajam constantemente, não tendo uma moradia fixa; são tidos, portanto, como um povo de cultura estranha. Além demais os estereótipos entre mulheres rurais do grupo maioritário aumentam devido o poder místico atribuídas as mulheres ciganas que usam para amedrontar membros do exogrupo e, assim, conseguir o que desejam, constituem elementos que acabam por determinar o sentimento de medo neste caso particular de algumas mulheres rurais que preferem atender rapidamente aos pedidos das ciganas, visto que se não o fizerem podem ser amaldiçoadas. O estudo assinala que com base na teoria da identidade social, permitiu compreender como os indivíduos se posicionam em relação as suas redes de pertenças grupais, sempre motivados pela busca de uma autoimagem positiva, através de atribuição de valores positivos ao próprio grupo e consequentemente, valores negativos aos outros grupos identificados como opositores na inevitável comparação social estabelecida. Com base nos instrumentos constantes na constituição brasileira sobre esse grupo, e por outro lado a possibilidade de conhecer os membros do exogrupo sua organização, práticas e costumes, usando os recursos académicos disponíveis assim como as leis igualitárias de bom tratamento entre seres humanos que orientam as sociedades modernas, poderiam contribuir para reflexão positiva que diminuiria paulatinamente as práticas de exclusão do grupo cigano da convivência social. O artigo finaliza com uma importante questão a ser levada em conta é como agem os grupos os grupos definidos através de atributos negativos. A questão dos negros em um mundo racista, das mulheres em mundo machista, dos homossexuais em um mundo heterossexista ou mesmo dos ciganos como um dos grupos depositários do medo no mundo ocidental. Os interesses ideológicos em jogo nas sociedades e difundidos amplamente aparecem serem os panos do fundo que propiciam a prática de preconceitos, discriminação e exclusão social.
A pesquisa é interessante, leva os leitores uma reflexão crítica da realidade atual que necessita da busca permanente dos valores baseados nas leis igualitárias e justiça social para um bem-estar da humanidade na presente época. O artigo foi bem trabalhado e merece uma leitura completa.
Referência: Bonomo, M., et al. Mulheres ciganas: medo, relações intergrupais e confrontos identitários. 03, 10, 747-758, 2010.

Resenha: A Legitimação da Discriminação em Diferentes Contextos Normativos

Nilton Pedrett

Neste artigo os autores intentaram contribuir para literatura sobre os processos psicossociais da discriminação objetiva contra grupos minoritários. O questionamento que norteia o artigo é: como, em sociedades altamente normatizadas, democráticas e jucicializadas, onde a expressão preconceito é alvo dos rigores da lei, as minorias continuam sendo discriminadas? quais mecanismos estão atuando nos agentes, mesmo que a emissão de comportamentos preconceituosos sejam antinormativos?

Os autores analisam o problema sob o prisma dos autores que versam sobre as chamadas “novas expressões do preconceito”, assim como a hipótese da “legitimação da desigualdade”. Procedem desenvolvendo um modelo teórico sobre os mecanismos de legitimação em diferentes contextos normativos.

Chegam a conclusão que o preconceito “não estaria a diminuir” mas a emissão de comportamentos discriminatórios estaria sendo influenciada pela normatização antipreconceito. Logo, haveria uma espécie de migração de comportamentos explícitos por formas mais sutis de discriminação.

Ao analisarem as pesquisas com medidas explícitas e implícitas de preconceito, perceberam que as pessoas avaliam negativamente grupos minoritários, mesmo não emitindo comportamentos discriminatórios. Concluem que a persistência da discriminação não pode ser reduzida às medidas de atitude preconceituosa.

Ao citar o estudo de Tyler (2006), afirmam que os processos de legitimação do preconceito são “especialmente relevantes nas sociedades democráticas, na medida em que os comportamentos antinormativos […] necessitam ser legitimados.”. Os atores sociais precisam encontrar justificativas para seus atos, segundo Berger & Luckmann (1967). Em tais culturas, as pessoas integraram conceitos de liberdade e igualitarismo, que funcionam como supressores de pensamentos e comportamentos preconceituosos. Para diminuir o desconforto de se perceber como alguém francamente preconceituoso, buscam justificativas para seus preconceitos que não as faça senti-ser como tal e para não serem publicamente censuradas por agir como tal. Tal hipótese carece ainda de amplos testes empiricos, porém, apontam, são importantes para a compreensão dos mecanismos de funcionamento da pessoa.

Citam também a “teoria da dominancia social” de Sidanius e Pratto (1999), sobre os consensos sociais que legitimam as desigualdades e a hegemonia de um grupo sobre o outro.

À seguir exploram duas hipóteses: “O papel mediador de Fatores Justificadores” (H1) e “o papel moderador das normas sociais” (H2).

Na H1, há a idéia de que a relação entre preconceito e a discriminação é mediada por fatores justificadores da discriminação. QUanto mais forte for o preconceito, maior será a motivação para as pessoas encontraram justificadores para ele.

na H2: Propõe que nos contextos onde as normas antipreconceitos são salientes, a discriminação seria resultado de um “processo psicossocial” no qual o preconceito ativa ou facilita o uso de justificações que fazem com que a discriminação seja percebida como legitima e justa.

O artigo termina com um teste empírico realizado pelos autores, numa situação hipotética de contratação de um candidato negro a uma vaga numa loja e apresenta dados testando as duas hipóteses, em um estudo sobre a discriminação contra pessoas de cor negra. A conclusão foi de que a relação entre o preconceito e a discriminação do candidato negro foi mediada pela percepção de que sua contratação seria uma ameaça para os negócios da loja. Quanto maior o preconceito, maior a percepção da ameaça e, consequentemente, maior a discriminação contra o candidato negro.

Pereira, C. R.; Vala, J. (2011). A Legitimação da Discriminação em Diferentes Contextos Normativos. In Cultura e Produção das Diferenças: Estereotipos e Preconceito (pp. 363–404). Brasília: TechnoPolitik.

Resenha: O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente

Jerry Kambale Musema

A partir das experiencias vividas por Ferreira (2002), o autor no seu trabalhou buscou-se ampliar melhor o intendimento a respeito da construção da identidade afro-brasileira. Iniciando seu trabalho com as afirmações do especialista em denunciar os disfarces na aparências, Nelson Rodrigues de que o Brasil a muitos anos se fez acreditar que não existia a discriminação etnoracial, como já avia sido afirmado pelo próprio Ferreira no seus trabalhos ( 1999- 2000).
Percebe-se que a discriminação existe no Brasil, e esta enraizada em muitas pessoas; mas ainda sabendo da sua existência, a maioria não querem falar a seu respeito; segundo a Revista Veja (10.01.1996) e a Datafolha (Rodrigues, 1995), considerando suas pesquisas, afirmaram que a população Brasileira considera a discriminação como algo que o “outro” tem, e nunca com a própria pessoa.
Nesse mesmo contexto que o autor aponta o fato da palavra “moreno” que acaba parecendo “politicamente correto” mas no fundo, seria considerada como uma situação que demostra “uma estratégia simbólica de fuga de uma realidade em que a discriminação impera”. As classes dominadas procuram um espelho nas classes dominantes; e isso acaba dificultando a forma de se lidar com o preconceito racial que esta encoberta por “frases educadas”. Essa ideologia leva a uma preservação do problema, e consequentemente levando uma grande parte a acreditar que ela não existe e não há necessidade de ser enfrentada. É importante levar em consideração a analisa de Bauman (1999), “libertando das restrições morais a ação com um propósito, a modernidade tornou o genocídio possível” (p.58). Em nome da modernidade ouvi o grande massacre dos judeus; e isso acontece ainda nos dias de hoje, o exemplo dos índios no Brasil; podemos sitar também algumas das tribos na Africa que sofreram e ainda continuam sofrendo em nome da modernidade. Assim essas concepções da modernidade, tornou o africano no brasil como escravo, “o escravo em negro, e o negro numa pessoa destinada a ‘desaparecer’, em nome da constituição de um povo cordial e moreno”.
Na época do século XX o branqueamento era defendido por muitos pesquisadores brasileiros. Destacando no artigo uma das tristes colocação, pelo antropólogo Roquete Pinto em 1927, que fazia uma previsão em que “em 2012 a população brasileira seria constituída por 80% de brancos e 20% de mestiços, nenhum negro e nenhum índio”.  Nesse contexto o autor tenta mostrar três “condições” para o crescimento do preconceito e a forma que ela esta sendo expresso no Brasil: a primeira é de eliminação ou diminuição do chamado “diferente”; a segunda, pela concepção legitimado pelo processo histórico, e assim levando o Africano a ser escravizado e considerado apenas como objeto e não como ser humano; ultimo é inferiorização do negro a ponto de “prever sua extinção na constituição do povo brasileiro.”
Por ter essa referencia da identidade proveniente de um mundo branco, o negro começa a se desvalorizar, assim se vendo como sem valor. Salienta, Pereira (1987), “a escola é um lugar onde a criança alimenta subliminarmente a figura do negro caricatural”. A escola deveria ser o lugar onde as crianças poderiam aprender a sua verdadeira história que ajudaria a levantar seus auto-estimas, mas infelizmente, a escola tem ensinado a mesma história deturpada ‘eurocêntrica’ como tem feito a sociedade, assim ao em vez de resolver problemas existentes, acaba incentivando o negro aos valores do dominador, “valores brancos”.
Outro ponto importante a citar na “referencia de identidade no mundo branco” é o do padrão de beleza que é sempre proveniente do branco como referencial; dessa forma desvalorizando a beleza negra, a considerando como inferior e para se superar deve tentar chegar perto do padrão branco para poder ser visto como bela. Essa visão levou a maioria de nossos povos negros a uma baixa auto-estima; e com isso, o individuo começa a ter a impressão de não fazer parte de nem um grupo, de tal forma que não se dá seu valor como ser humano.
Em decorrência, desse tempo que o negro passa em conflito, muitas perguntas que quer ter as respostas, sem esquecer a discriminação sofrida. O autor chama essas fases de “experiências que destroem a funcionalidade da visão de mundo presente e, ao mesmo tempo, sugerem nova direção no sentido de uma transformação ou ressocialização”. Apos essas fases conflituosas, o afro-descendente passa por uma fase de “ intensa metamorfose pessoal” aonde ele vai deixando os velhos pensamento e vai construindo os novos com bases africanas. Para Cross (1991), essa nova identidade deve levar ao afro-descendente manter uma boa relação com as pessoas da sua cor, e também criar boas relações com pessoas de outras cores, mas mantendo o respeito a sua identidade.
Ao final do artigo, o autor apresenta mais uma vez os dois discursos que esta sendo propondo: um que aceita a existência do racismo, e outro o nega. Apesar dos dois, o mais importante é que o negro possa mostrar que a sua cultura é algo positiva e também combatendo a discriminação, tendo em mente que ela é uma luta continua. Além disso “enfatizar as nossas raízes nos currículos e reconstruir a história do processo de formação do povo brasileiro, não mais sob a ótica branca oficial, mas com uma visão mais abrangente.”
Referência: Ricardo Franklin Ferreira. O Brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do Afro-descendente; Psicologia & Sociedade; 14 (1): 69-86; jan./jun.2002
Disponivel em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v14n1/v14n1a05.pdf&gt;

Resenha: Valores psicossociais e orientação à dominância social: um estudo acerca do preconceito.

Jaime Naupuile Dala

O artigo de autoria de Sheyla Fernandes; Joseli da Costa; Leoncio Camino e Roberto Mendoza, tem por objetivo explorar as relações existentes entre o preconceito, através da orientação à dominância social, e os valores psicossociais, a partir de quatro sistemas: o religioso, o materialista e o pós materialista e o hedonista.
O preconceito e as áreas afins têm sido estudos em psicologia social quase desde que o campo começou, por causa da forte influencia que exercem sobre o comportamento dos indivíduos. O preconceito é estudado de várias formas como étnico, racial, de género, dentre outros, e fazem parte de processos mais amplos e se manifestam também de várias formas. É importante assinar que os preconceitos se perpetuam devidos os processos relativos às lutas sociais pelo poder onde se utiliza a avaliação negativa contra outras pessoas ou grupos sociais. Os autores entendem o preconceito, como um sentimento de antipatia que tem base numa generalização errada e inflexível, podendo ser só sentido ou abertamente expresso, e que pode ser dirigido a um grupo como um todo ou a um individuo por ser membro de tal grupo. São comportamentos distorcidos e negativos associados a crenças, assimiladas através de processos de socialização com objetivos pré-determinados, de desqualificar e discriminar membros pertencentes a grupos externos. Partindo de uma visão dialética, os autores consideram que os preconceitos se desenvolvem no interior dos processos de exclusão social e se modificam junto com estes, podendo ser definidos como uma forma de relação intergrupal onde, no quadro das relações de dominação entre grupos, desenvolvem-se e expressam-se atitudes negativas e depreciatórias, bem como comportamentos hostis e discriminatórios em relação a membros de um grupo pelo fato de pertencerem a esse grupo.
Para justificar como o processo de exclusão se desenvolve e se institucionaliza, e a forma como as classes sociais se posicionam nas sociedades, seus autores buscam a teoria da dominância social (Pratto, Sidanius, Stalworth & Malle, 1994; Sidanius & Pratto, 1999), elaborada na década de 1990, que visa fazer uma intercessão entre os aspectos individuais, cognitivos, de personalidade e os aspectos sociais pertencentes à natureza do preconceito, com o objetivo central de oferecer uma visão holística sobre o desenvolvimento dos sistemas de desigualdades sociais e da manutenção desses sistemas nas sociedades. Essa teoria enfatiza que todas as sociedades humanas tendem a se estruturar em sistemas de grupos baseados em hierarquias sociais, consistindo em um pequeno número de grupos dominantes e hegemônicos no topo da pirâmide social e grupos subordinados na parte inferior. Esses sistemas de hierarquias grupais são muito difíceis de se modificar, possuem um alto grau de estabilidade, embora existam sistemas paralelos que lutem contra as hierarquias sociais e que, em alguns casos, observam-se algumas mudanças no sentido de moderar as desigualdades sociais. Entretanto, apesar dos princípios democráticos e as normas das organizações internacionais que apelam as sociedades para adoção de leis que visam a dissolução ou moderação das desigualdades sociais entre seres humanos, essas normas não se relevam bem-sucedidas, pelo contrário o que está a modificar são as formas pelas quais as pessoas expressam o preconceito, de maneira mais subjetiva e sutil.
Tal como observado pelos autores o preconceito não atua sozinho, uma série de variáveis aparecem interligadas com provável direcionamento à dominância social ou igualdade social onde os valores sociais como princípios guias de comportamentos dos indivíduos. Rokeach (1968, 1973), surgem como um dos primeiros autores a estudar esse tema, e apresenta valores como crenças que o individuo possui sobre as formas de comportamento ou os estados finais de existência que são preferíveis numa dada situação, quando comparados com outras possíveis formas de comportamento ou estados finais de existência. Este conceito remete-nos a existência de um sistema funcional ou hierarquia de valores individuais devidamente organizados em função de continuo de importância, orientam as atitudes e comportamentos dos indivíduos para satisfação das diversas necessidades ou motivações. Schwartz (1996) como impulsionador das pesquisas sobre valores, define-os como concepções que o individuo possui sobre o desejável, concepções que por serem transituacionais, guiam a forma como os atores sociais selecionam seu comportamento, avaliam pessoas e explicam suas ações, na buca do desejável. Schwartz analisa os valores com base nos dez construtos motivacionais de segunda ordem (poder, realização, hedonismo, estimulação, autodermição, universalismo, benevolência, tradição, conformidade e segurança) e quatro construtos motivacionais da primeira ordem, (abertura à mudança, conservação, autotranscendência e autopromoção), que estabelecem relações de compatibilidade quando situados próximos e relações de conflito quando estão situados distantes. Esses valores respondem a três necessidades básicas e universais na natureza humana: biológicas de sobrevivência dos grupos e interação social estável.
Considerando que as sociedades incitam a competir para sobreviver, Inglehart (1977), numa perspectiva sociológica analisou as mudanças ocorridas nas condições de produção de algumas sociedades europeias, e constatou que essas mudanças eram acompanhadas por uma modificação na hierarquia dos valores dessas sociedades. Do mesmo modo, as mudanças culturais, indicadas pela criação de novos valores acompanhavam igualmente, as modificações nas condições de produção dessas sociedades. Denominou esse processo de feedback económico-cultural, por nele se emergirem dois conjuntos de valores como seus indicadores: valores materialistas e valores pós-materialistas. Os estudos têm demostrado que os valores materialistas representados por lucro, riqueza, status e autoridade, estão diretamente relacionados à ideia de dominância social. Por outro lado os valores pós-materialistas, (liberdade de expressão, sociedade menos impessoal, maior influência da opinião pessoal sobre o governo etc) ou seja realização profissional, responsabilidade, competência e dedicação ao trabalho, se opõem à noção de dominância. Segundo esse autor as condições de produção no começo do capitalismo deram primazia a construção dos valores materialistas e a prioridade dada a esses valores, facilitou o desenvolvimento do capitalismo nas sociedades industriais.
Na pesquisa o objetivo central foi avaliar as relações entre as dimensões de valores psicossociais e os níveis individuais de predisposição ao preconceito numa amostra composta por 205 participantes, sendo 77,6% de mulheres e 22,4% de homens, com idade variando entre 16 e 30 anos. Estudantes universitários da cidade de João Pessoa capital do estado do Paraíba situado no nordeste brasileiro.
Método, no momento de coleta de dados, os sujeitos foram escolhidos em função da sua presença nas salas de aula. Assim, para coleta de dados, além de questões sócio-demográficas, dois instrumentos foram utilizados: (1) a escala de orientação à dominância social (Sidanius & Pratto, 1999), destinada a avaliar níveis individuais de orientação à dominância social e (2) o questionário de valores psicossociais (QVP-24), este instrumento foi abundantemente aplicado a amostras de estudantes universitários e se mostrou apto a analisar os valores psicossociais (Lima, 1997; Pereira & Camino, 1999).
Resultados, para verificar a estruturação dos sistemas de valores psicossociais foi realizado um escalonamento multidimensional (Multidimensional Scaling – MDS), técnica capaz de produzir, através de distâncias euclidianas, uma interpretação da variáveis em termos de agrupamentos. Para analisar a escala de orientação à dominância social foi realizada uma analise fatorial dos componentes principais com rotação varimax.
Analisar as relações existentes entre os valores psicossociais e o preconceito, em função de quatro indicadores (os sistemas de valores religioso, pós-materialista, hedonista e materialista) e o preconceito a partir da orientação à dominância social, foi o motivo central da presente pesquisa. Para tal, os resultados indicam que todos os sistemas de valores se apresentaram importantes para a construção de uma sociedade ideal. No que tange a dominância social foi fortemente rejeitada pelos participantes do estudo. A investigação sobre as relações existentes entre valores e preconceitos, foi encontrado pelos autores, que os valores materialistas explicam a orientação à dominância social, variável indicadora de favorabilidade às hierarquias grupais ou preconceito e possui relação com valores psicossociais, enquanto os valores pós-materialistas inversamente explicam a orientação a dominância social, ou seja rejeitam grupos dominantes que praticam a exclusão social, pois que os valores pós-materialistas avaliam a importância do bem-estar social, da realização profissional e do bem-estar individual.
O estudo mostrou-se importante no presente momento em que as pessoas buscam por todos os meios normas de justiça social e de igualdade de oportunidades para todos os seres humanos independentemente da sua raça ou género. O estudo trouxe a tona várias contribuições para explicar o fenómeno de exclusão social, marginalização e discriminação através da prática de preconceito um mal consubstanciado no pré-julgamento, aprendido principalmente nos ambientes familiares, prevalecentes em várias sociedades. Apesar da pesquisa ser clara e consistente e objetiva, deixou duas pontuações pertinentes: a primeira relaciona-se às formas modernas de expressão das emoções negativas frente os grupos minoritários, as chamadas formas sutis e veladas de preconceito e a segunda indica que os valores considerados importantes para uma sociedade adequadamente justa seguem o mesmo padrão imposto pelas ideologias politicas elaboradas socialmente. Finalmente os autores aludem que a esfera psicossociológica se apresenta intrinsecamente complexa e em constante mudança, para tal aconselham mais estudos, inclusive consideram que o presente estudo foi limitado por ter sido realizado com uma amostra homogênea. É o artigo que vale apena ser lido.
Referência: Fernandes, S., Costa, J., Camino, L., & Mendoza R. Valores psicossociais e orientação à dominância social: um estudo acerca do preconceito. Psicologia: reflexão e crítica, 03, 20, 490 – 498, 2007.

Resenha: Sobreviver ao medo da violação – constrangimentos enfrentados pelas mulheres.

Pérola Cavalcante Dourado


O artigo em questão retrata a realidade social que nos obriga a um estado de vigília permanente. Por questões sociais diversas, na maioria das cenas cotidianas é quase concreta a probabilidade da iminência de, de modo geral, sofrermos algum tipo de violência derivante de ato criminoso. Porém às mulheres cabe especialmente o temor do medo da violação. Senão a violação em si, ações derivantes, como assédio moral, constrangimentos diversos, e a consequente evitação de toda e qualquer situação de possível risco. É privilégio exclusivo das mulheres? Não, porém os dados apresentados no artigo reiteram que a prevalência dos casos de violência sexual nos cabe. Seria a famigerada vulnerabilidade do sexo feminino, o suposto “sexo frágil”? Ou o reflexo de uma realidade que ainda não nos encara de forma minimamente igualitária, nos tornando inevitavelmente vítimas em algum grau de padrões sexistas, patriarcais e paternalistas?
Esse temor é algo com que as mulheres convivem efetivamente, pois essa ameaça de fato existe. Em sociedades que encaram de forma mais branda tais ações sexualmente criminosas, infelizmente é comum tais atos serem tratados com viés absolutamente machista e complacente, tornando-se inclusive a vítima passível de penalidade, incrivelmente. E em tantas outras culturas, (inclusive a nossa) são retratados inúmeros casos de abusos, “míni-violações”, como são chamados no texto os atos de serem molestadas em vias ou transporte públicos, e mesmo o estupro, advindos de pessoas próximas, familiares e mesmo cônjuges, sem que as vítimas relatem esses casos, e os denunciem criminalmente. Ou seja, o medo nesses casos torna-se um ciclo vicioso, que possivelmente antecede sua incidência, e após a concretização, inibe uma ação de combate e/ou responsabilização penal.
No artigo é relatada a vivência do grupo pesquisado, composto de dezoito jovens estudantes, para verificação do impacto causado em suas rotinas por esse temor. Foi verificado que mesmo a sua liberdade, direito assegurado Constitucionalmente a todos, é cerceada. São inúmeras as situações consideradas de risco, como atividades noturnas, transitar por vias mal iluminadas, andar desacompanhada em ambientes inóspitos ou desertos, e mesmo lidar com pessoas/situações desconhecidas. Ou seja, é grande o impacto no bem estar, qualidade de vida, segurança e independência, aspectos fundamentais, e direitos que deveriam ser assegurados a todo cidadão.
Os meios considerados como vias de resolução, ou mesmo amenização dessa opressiva realidade é a revisão sistemática da formação dos indivíduos, no sentido de imiscuir-lhes o respeito e igualdade entre os sexos/gêneros, e assegurar legislação mais eficaz, que de fato iniba e puna rigorosamente seus autores. Como agente dessa transformação, a Psicologia tem papel fundamental, por seu caráter de permanente transformação social.
Referência: Berta, M., Ornelas, J. H., & Maria, S. G. (25 de Janeiro de 2007). Sobreviver ao medo da violação: Constrangimentos enfrentado pelas mulheres. Análise Psicológica , pp. 135-147.