Resenha: A Legitimação da Discriminação em Diferentes Contextos Normativos

Nilton Pedrett

Neste artigo os autores intentaram contribuir para literatura sobre os processos psicossociais da discriminação objetiva contra grupos minoritários. O questionamento que norteia o artigo é: como, em sociedades altamente normatizadas, democráticas e jucicializadas, onde a expressão preconceito é alvo dos rigores da lei, as minorias continuam sendo discriminadas? quais mecanismos estão atuando nos agentes, mesmo que a emissão de comportamentos preconceituosos sejam antinormativos?

Os autores analisam o problema sob o prisma dos autores que versam sobre as chamadas “novas expressões do preconceito”, assim como a hipótese da “legitimação da desigualdade”. Procedem desenvolvendo um modelo teórico sobre os mecanismos de legitimação em diferentes contextos normativos.

Chegam a conclusão que o preconceito “não estaria a diminuir” mas a emissão de comportamentos discriminatórios estaria sendo influenciada pela normatização antipreconceito. Logo, haveria uma espécie de migração de comportamentos explícitos por formas mais sutis de discriminação.

Ao analisarem as pesquisas com medidas explícitas e implícitas de preconceito, perceberam que as pessoas avaliam negativamente grupos minoritários, mesmo não emitindo comportamentos discriminatórios. Concluem que a persistência da discriminação não pode ser reduzida às medidas de atitude preconceituosa.

Ao citar o estudo de Tyler (2006), afirmam que os processos de legitimação do preconceito são “especialmente relevantes nas sociedades democráticas, na medida em que os comportamentos antinormativos […] necessitam ser legitimados.”. Os atores sociais precisam encontrar justificativas para seus atos, segundo Berger & Luckmann (1967). Em tais culturas, as pessoas integraram conceitos de liberdade e igualitarismo, que funcionam como supressores de pensamentos e comportamentos preconceituosos. Para diminuir o desconforto de se perceber como alguém francamente preconceituoso, buscam justificativas para seus preconceitos que não as faça senti-ser como tal e para não serem publicamente censuradas por agir como tal. Tal hipótese carece ainda de amplos testes empiricos, porém, apontam, são importantes para a compreensão dos mecanismos de funcionamento da pessoa.

Citam também a “teoria da dominancia social” de Sidanius e Pratto (1999), sobre os consensos sociais que legitimam as desigualdades e a hegemonia de um grupo sobre o outro.

À seguir exploram duas hipóteses: “O papel mediador de Fatores Justificadores” (H1) e “o papel moderador das normas sociais” (H2).

Na H1, há a idéia de que a relação entre preconceito e a discriminação é mediada por fatores justificadores da discriminação. QUanto mais forte for o preconceito, maior será a motivação para as pessoas encontraram justificadores para ele.

na H2: Propõe que nos contextos onde as normas antipreconceitos são salientes, a discriminação seria resultado de um “processo psicossocial” no qual o preconceito ativa ou facilita o uso de justificações que fazem com que a discriminação seja percebida como legitima e justa.

O artigo termina com um teste empírico realizado pelos autores, numa situação hipotética de contratação de um candidato negro a uma vaga numa loja e apresenta dados testando as duas hipóteses, em um estudo sobre a discriminação contra pessoas de cor negra. A conclusão foi de que a relação entre o preconceito e a discriminação do candidato negro foi mediada pela percepção de que sua contratação seria uma ameaça para os negócios da loja. Quanto maior o preconceito, maior a percepção da ameaça e, consequentemente, maior a discriminação contra o candidato negro.

Pereira, C. R.; Vala, J. (2011). A Legitimação da Discriminação em Diferentes Contextos Normativos. In Cultura e Produção das Diferenças: Estereotipos e Preconceito (pp. 363–404). Brasília: TechnoPolitik.

Resenha: O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente

Jerry Kambale Musema

A partir das experiencias vividas por Ferreira (2002), o autor no seu trabalhou buscou-se ampliar melhor o intendimento a respeito da construção da identidade afro-brasileira. Iniciando seu trabalho com as afirmações do especialista em denunciar os disfarces na aparências, Nelson Rodrigues de que o Brasil a muitos anos se fez acreditar que não existia a discriminação etnoracial, como já avia sido afirmado pelo próprio Ferreira no seus trabalhos ( 1999- 2000).
Percebe-se que a discriminação existe no Brasil, e esta enraizada em muitas pessoas; mas ainda sabendo da sua existência, a maioria não querem falar a seu respeito; segundo a Revista Veja (10.01.1996) e a Datafolha (Rodrigues, 1995), considerando suas pesquisas, afirmaram que a população Brasileira considera a discriminação como algo que o “outro” tem, e nunca com a própria pessoa.
Nesse mesmo contexto que o autor aponta o fato da palavra “moreno” que acaba parecendo “politicamente correto” mas no fundo, seria considerada como uma situação que demostra “uma estratégia simbólica de fuga de uma realidade em que a discriminação impera”. As classes dominadas procuram um espelho nas classes dominantes; e isso acaba dificultando a forma de se lidar com o preconceito racial que esta encoberta por “frases educadas”. Essa ideologia leva a uma preservação do problema, e consequentemente levando uma grande parte a acreditar que ela não existe e não há necessidade de ser enfrentada. É importante levar em consideração a analisa de Bauman (1999), “libertando das restrições morais a ação com um propósito, a modernidade tornou o genocídio possível” (p.58). Em nome da modernidade ouvi o grande massacre dos judeus; e isso acontece ainda nos dias de hoje, o exemplo dos índios no Brasil; podemos sitar também algumas das tribos na Africa que sofreram e ainda continuam sofrendo em nome da modernidade. Assim essas concepções da modernidade, tornou o africano no brasil como escravo, “o escravo em negro, e o negro numa pessoa destinada a ‘desaparecer’, em nome da constituição de um povo cordial e moreno”.
Na época do século XX o branqueamento era defendido por muitos pesquisadores brasileiros. Destacando no artigo uma das tristes colocação, pelo antropólogo Roquete Pinto em 1927, que fazia uma previsão em que “em 2012 a população brasileira seria constituída por 80% de brancos e 20% de mestiços, nenhum negro e nenhum índio”.  Nesse contexto o autor tenta mostrar três “condições” para o crescimento do preconceito e a forma que ela esta sendo expresso no Brasil: a primeira é de eliminação ou diminuição do chamado “diferente”; a segunda, pela concepção legitimado pelo processo histórico, e assim levando o Africano a ser escravizado e considerado apenas como objeto e não como ser humano; ultimo é inferiorização do negro a ponto de “prever sua extinção na constituição do povo brasileiro.”
Por ter essa referencia da identidade proveniente de um mundo branco, o negro começa a se desvalorizar, assim se vendo como sem valor. Salienta, Pereira (1987), “a escola é um lugar onde a criança alimenta subliminarmente a figura do negro caricatural”. A escola deveria ser o lugar onde as crianças poderiam aprender a sua verdadeira história que ajudaria a levantar seus auto-estimas, mas infelizmente, a escola tem ensinado a mesma história deturpada ‘eurocêntrica’ como tem feito a sociedade, assim ao em vez de resolver problemas existentes, acaba incentivando o negro aos valores do dominador, “valores brancos”.
Outro ponto importante a citar na “referencia de identidade no mundo branco” é o do padrão de beleza que é sempre proveniente do branco como referencial; dessa forma desvalorizando a beleza negra, a considerando como inferior e para se superar deve tentar chegar perto do padrão branco para poder ser visto como bela. Essa visão levou a maioria de nossos povos negros a uma baixa auto-estima; e com isso, o individuo começa a ter a impressão de não fazer parte de nem um grupo, de tal forma que não se dá seu valor como ser humano.
Em decorrência, desse tempo que o negro passa em conflito, muitas perguntas que quer ter as respostas, sem esquecer a discriminação sofrida. O autor chama essas fases de “experiências que destroem a funcionalidade da visão de mundo presente e, ao mesmo tempo, sugerem nova direção no sentido de uma transformação ou ressocialização”. Apos essas fases conflituosas, o afro-descendente passa por uma fase de “ intensa metamorfose pessoal” aonde ele vai deixando os velhos pensamento e vai construindo os novos com bases africanas. Para Cross (1991), essa nova identidade deve levar ao afro-descendente manter uma boa relação com as pessoas da sua cor, e também criar boas relações com pessoas de outras cores, mas mantendo o respeito a sua identidade.
Ao final do artigo, o autor apresenta mais uma vez os dois discursos que esta sendo propondo: um que aceita a existência do racismo, e outro o nega. Apesar dos dois, o mais importante é que o negro possa mostrar que a sua cultura é algo positiva e também combatendo a discriminação, tendo em mente que ela é uma luta continua. Além disso “enfatizar as nossas raízes nos currículos e reconstruir a história do processo de formação do povo brasileiro, não mais sob a ótica branca oficial, mas com uma visão mais abrangente.”
Referência: Ricardo Franklin Ferreira. O Brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do Afro-descendente; Psicologia & Sociedade; 14 (1): 69-86; jan./jun.2002
Disponivel em: <http://www.scielo.br/pdf/psoc/v14n1/v14n1a05.pdf&gt;

Resenha: Valores psicossociais e orientação à dominância social: um estudo acerca do preconceito.

Jaime Naupuile Dala

O artigo de autoria de Sheyla Fernandes; Joseli da Costa; Leoncio Camino e Roberto Mendoza, tem por objetivo explorar as relações existentes entre o preconceito, através da orientação à dominância social, e os valores psicossociais, a partir de quatro sistemas: o religioso, o materialista e o pós materialista e o hedonista.
O preconceito e as áreas afins têm sido estudos em psicologia social quase desde que o campo começou, por causa da forte influencia que exercem sobre o comportamento dos indivíduos. O preconceito é estudado de várias formas como étnico, racial, de género, dentre outros, e fazem parte de processos mais amplos e se manifestam também de várias formas. É importante assinar que os preconceitos se perpetuam devidos os processos relativos às lutas sociais pelo poder onde se utiliza a avaliação negativa contra outras pessoas ou grupos sociais. Os autores entendem o preconceito, como um sentimento de antipatia que tem base numa generalização errada e inflexível, podendo ser só sentido ou abertamente expresso, e que pode ser dirigido a um grupo como um todo ou a um individuo por ser membro de tal grupo. São comportamentos distorcidos e negativos associados a crenças, assimiladas através de processos de socialização com objetivos pré-determinados, de desqualificar e discriminar membros pertencentes a grupos externos. Partindo de uma visão dialética, os autores consideram que os preconceitos se desenvolvem no interior dos processos de exclusão social e se modificam junto com estes, podendo ser definidos como uma forma de relação intergrupal onde, no quadro das relações de dominação entre grupos, desenvolvem-se e expressam-se atitudes negativas e depreciatórias, bem como comportamentos hostis e discriminatórios em relação a membros de um grupo pelo fato de pertencerem a esse grupo.
Para justificar como o processo de exclusão se desenvolve e se institucionaliza, e a forma como as classes sociais se posicionam nas sociedades, seus autores buscam a teoria da dominância social (Pratto, Sidanius, Stalworth & Malle, 1994; Sidanius & Pratto, 1999), elaborada na década de 1990, que visa fazer uma intercessão entre os aspectos individuais, cognitivos, de personalidade e os aspectos sociais pertencentes à natureza do preconceito, com o objetivo central de oferecer uma visão holística sobre o desenvolvimento dos sistemas de desigualdades sociais e da manutenção desses sistemas nas sociedades. Essa teoria enfatiza que todas as sociedades humanas tendem a se estruturar em sistemas de grupos baseados em hierarquias sociais, consistindo em um pequeno número de grupos dominantes e hegemônicos no topo da pirâmide social e grupos subordinados na parte inferior. Esses sistemas de hierarquias grupais são muito difíceis de se modificar, possuem um alto grau de estabilidade, embora existam sistemas paralelos que lutem contra as hierarquias sociais e que, em alguns casos, observam-se algumas mudanças no sentido de moderar as desigualdades sociais. Entretanto, apesar dos princípios democráticos e as normas das organizações internacionais que apelam as sociedades para adoção de leis que visam a dissolução ou moderação das desigualdades sociais entre seres humanos, essas normas não se relevam bem-sucedidas, pelo contrário o que está a modificar são as formas pelas quais as pessoas expressam o preconceito, de maneira mais subjetiva e sutil.
Tal como observado pelos autores o preconceito não atua sozinho, uma série de variáveis aparecem interligadas com provável direcionamento à dominância social ou igualdade social onde os valores sociais como princípios guias de comportamentos dos indivíduos. Rokeach (1968, 1973), surgem como um dos primeiros autores a estudar esse tema, e apresenta valores como crenças que o individuo possui sobre as formas de comportamento ou os estados finais de existência que são preferíveis numa dada situação, quando comparados com outras possíveis formas de comportamento ou estados finais de existência. Este conceito remete-nos a existência de um sistema funcional ou hierarquia de valores individuais devidamente organizados em função de continuo de importância, orientam as atitudes e comportamentos dos indivíduos para satisfação das diversas necessidades ou motivações. Schwartz (1996) como impulsionador das pesquisas sobre valores, define-os como concepções que o individuo possui sobre o desejável, concepções que por serem transituacionais, guiam a forma como os atores sociais selecionam seu comportamento, avaliam pessoas e explicam suas ações, na buca do desejável. Schwartz analisa os valores com base nos dez construtos motivacionais de segunda ordem (poder, realização, hedonismo, estimulação, autodermição, universalismo, benevolência, tradição, conformidade e segurança) e quatro construtos motivacionais da primeira ordem, (abertura à mudança, conservação, autotranscendência e autopromoção), que estabelecem relações de compatibilidade quando situados próximos e relações de conflito quando estão situados distantes. Esses valores respondem a três necessidades básicas e universais na natureza humana: biológicas de sobrevivência dos grupos e interação social estável.
Considerando que as sociedades incitam a competir para sobreviver, Inglehart (1977), numa perspectiva sociológica analisou as mudanças ocorridas nas condições de produção de algumas sociedades europeias, e constatou que essas mudanças eram acompanhadas por uma modificação na hierarquia dos valores dessas sociedades. Do mesmo modo, as mudanças culturais, indicadas pela criação de novos valores acompanhavam igualmente, as modificações nas condições de produção dessas sociedades. Denominou esse processo de feedback económico-cultural, por nele se emergirem dois conjuntos de valores como seus indicadores: valores materialistas e valores pós-materialistas. Os estudos têm demostrado que os valores materialistas representados por lucro, riqueza, status e autoridade, estão diretamente relacionados à ideia de dominância social. Por outro lado os valores pós-materialistas, (liberdade de expressão, sociedade menos impessoal, maior influência da opinião pessoal sobre o governo etc) ou seja realização profissional, responsabilidade, competência e dedicação ao trabalho, se opõem à noção de dominância. Segundo esse autor as condições de produção no começo do capitalismo deram primazia a construção dos valores materialistas e a prioridade dada a esses valores, facilitou o desenvolvimento do capitalismo nas sociedades industriais.
Na pesquisa o objetivo central foi avaliar as relações entre as dimensões de valores psicossociais e os níveis individuais de predisposição ao preconceito numa amostra composta por 205 participantes, sendo 77,6% de mulheres e 22,4% de homens, com idade variando entre 16 e 30 anos. Estudantes universitários da cidade de João Pessoa capital do estado do Paraíba situado no nordeste brasileiro.
Método, no momento de coleta de dados, os sujeitos foram escolhidos em função da sua presença nas salas de aula. Assim, para coleta de dados, além de questões sócio-demográficas, dois instrumentos foram utilizados: (1) a escala de orientação à dominância social (Sidanius & Pratto, 1999), destinada a avaliar níveis individuais de orientação à dominância social e (2) o questionário de valores psicossociais (QVP-24), este instrumento foi abundantemente aplicado a amostras de estudantes universitários e se mostrou apto a analisar os valores psicossociais (Lima, 1997; Pereira & Camino, 1999).
Resultados, para verificar a estruturação dos sistemas de valores psicossociais foi realizado um escalonamento multidimensional (Multidimensional Scaling – MDS), técnica capaz de produzir, através de distâncias euclidianas, uma interpretação da variáveis em termos de agrupamentos. Para analisar a escala de orientação à dominância social foi realizada uma analise fatorial dos componentes principais com rotação varimax.
Analisar as relações existentes entre os valores psicossociais e o preconceito, em função de quatro indicadores (os sistemas de valores religioso, pós-materialista, hedonista e materialista) e o preconceito a partir da orientação à dominância social, foi o motivo central da presente pesquisa. Para tal, os resultados indicam que todos os sistemas de valores se apresentaram importantes para a construção de uma sociedade ideal. No que tange a dominância social foi fortemente rejeitada pelos participantes do estudo. A investigação sobre as relações existentes entre valores e preconceitos, foi encontrado pelos autores, que os valores materialistas explicam a orientação à dominância social, variável indicadora de favorabilidade às hierarquias grupais ou preconceito e possui relação com valores psicossociais, enquanto os valores pós-materialistas inversamente explicam a orientação a dominância social, ou seja rejeitam grupos dominantes que praticam a exclusão social, pois que os valores pós-materialistas avaliam a importância do bem-estar social, da realização profissional e do bem-estar individual.
O estudo mostrou-se importante no presente momento em que as pessoas buscam por todos os meios normas de justiça social e de igualdade de oportunidades para todos os seres humanos independentemente da sua raça ou género. O estudo trouxe a tona várias contribuições para explicar o fenómeno de exclusão social, marginalização e discriminação através da prática de preconceito um mal consubstanciado no pré-julgamento, aprendido principalmente nos ambientes familiares, prevalecentes em várias sociedades. Apesar da pesquisa ser clara e consistente e objetiva, deixou duas pontuações pertinentes: a primeira relaciona-se às formas modernas de expressão das emoções negativas frente os grupos minoritários, as chamadas formas sutis e veladas de preconceito e a segunda indica que os valores considerados importantes para uma sociedade adequadamente justa seguem o mesmo padrão imposto pelas ideologias politicas elaboradas socialmente. Finalmente os autores aludem que a esfera psicossociológica se apresenta intrinsecamente complexa e em constante mudança, para tal aconselham mais estudos, inclusive consideram que o presente estudo foi limitado por ter sido realizado com uma amostra homogênea. É o artigo que vale apena ser lido.
Referência: Fernandes, S., Costa, J., Camino, L., & Mendoza R. Valores psicossociais e orientação à dominância social: um estudo acerca do preconceito. Psicologia: reflexão e crítica, 03, 20, 490 – 498, 2007.

Resenha: Sobreviver ao medo da violação – constrangimentos enfrentados pelas mulheres.

Pérola Cavalcante Dourado


O artigo em questão retrata a realidade social que nos obriga a um estado de vigília permanente. Por questões sociais diversas, na maioria das cenas cotidianas é quase concreta a probabilidade da iminência de, de modo geral, sofrermos algum tipo de violência derivante de ato criminoso. Porém às mulheres cabe especialmente o temor do medo da violação. Senão a violação em si, ações derivantes, como assédio moral, constrangimentos diversos, e a consequente evitação de toda e qualquer situação de possível risco. É privilégio exclusivo das mulheres? Não, porém os dados apresentados no artigo reiteram que a prevalência dos casos de violência sexual nos cabe. Seria a famigerada vulnerabilidade do sexo feminino, o suposto “sexo frágil”? Ou o reflexo de uma realidade que ainda não nos encara de forma minimamente igualitária, nos tornando inevitavelmente vítimas em algum grau de padrões sexistas, patriarcais e paternalistas?
Esse temor é algo com que as mulheres convivem efetivamente, pois essa ameaça de fato existe. Em sociedades que encaram de forma mais branda tais ações sexualmente criminosas, infelizmente é comum tais atos serem tratados com viés absolutamente machista e complacente, tornando-se inclusive a vítima passível de penalidade, incrivelmente. E em tantas outras culturas, (inclusive a nossa) são retratados inúmeros casos de abusos, “míni-violações”, como são chamados no texto os atos de serem molestadas em vias ou transporte públicos, e mesmo o estupro, advindos de pessoas próximas, familiares e mesmo cônjuges, sem que as vítimas relatem esses casos, e os denunciem criminalmente. Ou seja, o medo nesses casos torna-se um ciclo vicioso, que possivelmente antecede sua incidência, e após a concretização, inibe uma ação de combate e/ou responsabilização penal.
No artigo é relatada a vivência do grupo pesquisado, composto de dezoito jovens estudantes, para verificação do impacto causado em suas rotinas por esse temor. Foi verificado que mesmo a sua liberdade, direito assegurado Constitucionalmente a todos, é cerceada. São inúmeras as situações consideradas de risco, como atividades noturnas, transitar por vias mal iluminadas, andar desacompanhada em ambientes inóspitos ou desertos, e mesmo lidar com pessoas/situações desconhecidas. Ou seja, é grande o impacto no bem estar, qualidade de vida, segurança e independência, aspectos fundamentais, e direitos que deveriam ser assegurados a todo cidadão.
Os meios considerados como vias de resolução, ou mesmo amenização dessa opressiva realidade é a revisão sistemática da formação dos indivíduos, no sentido de imiscuir-lhes o respeito e igualdade entre os sexos/gêneros, e assegurar legislação mais eficaz, que de fato iniba e puna rigorosamente seus autores. Como agente dessa transformação, a Psicologia tem papel fundamental, por seu caráter de permanente transformação social.
Referência: Berta, M., Ornelas, J. H., & Maria, S. G. (25 de Janeiro de 2007). Sobreviver ao medo da violação: Constrangimentos enfrentado pelas mulheres. Análise Psicológica , pp. 135-147.

Resenha: Aparência física e amizade íntima na adolescência

Leandro Andrade Moreira

O artigo apresentado tem como tema as relações de amizade íntima entre adolescentes e sua relação com a percepção da aparência física Portanto, inicialmente, são apresentados os conceitos de intimidade e intimidade corporal, referente à aparência física. O autor entende como intimidade uma “relação emocional caracterizada pela concessão mútua de bem-estar, pelo consentimento implícito para revelação dos assuntos privados, podendo envolver a esfera dos sentidos e pela partilha de interesses e atividades comuns”. No artigo, em alguns estudos efetuados referidos pelo autor e para o melhor desenvolvimento da pesquisa, o conceito de intimidade/amizade íntima foi estruturado em oito dimensões: sinceridade e espontaneidade; sensibilidade e conhecimento; vinculação; exclusividade; dádiva e partilha; imposição; atividades comuns; confiança e lealdade.
Intimidade corporal pode ser entendida como a percepção que temos de nós próprios e do nosso corpo, ou seja, pelo nosso auto-conceito. Este, por sua vez, é determinante de uma satisfação global do adolescente que influencia em sua satisfação relacional e sua auto-estima, intimamente ligada à forma como se relaciona socialmente.
Segundo o autor é na adolescência que surgem as verdadeiras formas de relações de amizade com base na intimidade. Isto ocorre devido ser nesse período da vida que o individuo amadurece a ponto de expressar melhor valores como a honestidade, descoberta de si e dos outros e até a verdade e todas as suas conseqüências na procura do prazer relacional. Portanto, o estudo relatado opta por trabalhar com adolescentes no décimo segundo ano de escolaridade.
O objetivo geral do estudo foi analisar a relação entre a percepção sobre a aparência física e as relações de amizade na adolescência. Os objetivos específicos pretendiam avaliar a influencia e a diferença entre os sexos com relação a percepção sobre a aparência física, nível de desenvolvimento de relações de amizade íntima. A hipótese do estudo é de que há influencia da percepção que os adolescentes fazem de sua aparência física na forma como estabelecem relações de amizades íntimas.
O estudo foi realizado numa população de 318 adolescentes através da aplicação de três escalas: escala de amizade íntima; escala de percepção de auto-conceito; notação social da família. Além de considerar outras variáveis como escola, sexo, idade, concelho de residência, número de anos matriculado, repetições e anos repetidos antes do décimo segundo ano.
Os resultados do estudo confirmaram que as vivências de relações de amizade íntima são fortemente influenciadas pelo sexo. Foi observado que em ambos os sexos é dado um valor semelhante as relações com o sexo feminino, porém isso pode ocorrer por diferentes causas. Para o sexo feminino isto pode estar relacionado á alguns fenômenos de identificação inter-pares, valorização de idéias e sentimentos comuns ou até por processos de socialização semelhantes. Para o sexo masculino esse valor pode ter relação a afirmação perante o sexo oposto e de sua masculinidade. Percebeu-se que o sexo feminino possui um grau mais relevado de maturidade, porém um auto-conceito mais baixo. Através do estudo também pôde ser observado uma associação estatisticamente significativa na relação entre as principais variáveis de estudo: percepção sobre a aparência física e amizade íntima.

Referência: Cordeiro, R. Aparência física e amizade íntima na adolescência: Estudo num contexto pré-universitário. Análise Psicológica, 4, 509-517, 2007.

Resenha: representação social de crianças acerca do velho e do envelhecimento.

Sidinéa Muniz de Freitas

A velhice é significada de maneira diferente durante o decorrer da história. Percebe-se a transição de características relacionadas com a fase da velhice; anteriormente eram conceituadas como pessoas que emanavam respeito, eram anciãos. Na contemporaneidade essa adjetivação foi reformulada para um termo um pouco mais brando, mais jovial… pessoa com certa idade, idade avançada. Observa-se que em muitos casos esses indivíduos acabam sendo tão massacrados pelos informes midiáticos imperantes que acabam internalizado e consequentemente externalizando um desejo quase insano de adquirir uma gota de juventude que vivera em outra época, negando assim outra fase da vida para de certa forma serem valorizados e percebidos pela sociedade.
No artigo “Representação social das crianças acerca do velho e do envelhecimento”, Lopes e Park destacam que Featherstone (1998) aponta para uma desconstrução da categoria velhice igualando velhos e adultos jovens. Dessa forma ocorre na contemporaneidade uma revisão dos estereótipos relacionados à velhice. Essa representação do ser em suas diferenciadas fases de vida social estão também inseridas no contexto infantil, dessa forma a criança consegue apreender as informações do mundo que a cerca, englobando toda a estruturação nele existente. Essa afirmação pode ser confirmada de acordo com o que mencionam as autoras ao promoverem uma conversa com um grupo de crianças acerca da velhice e de como estas a definiam. Ora, ao definir o que seria uma pessoa velha, a maioria das crianças mencionaram características físicas como cor do cabelo ( branco) e rugas no rosto. No entanto algumas crianças maiores citaram doenças e limitações, espaços ( circulando por praças,festas públicas) e até a morte como principais elementos que as ajudam a definir o que seriam as pessoas velhas.
Percebe-se ao se fazer uma releitura sobre o artigo que as autoras consegue transmitir com clareza, coesão e objetividade que o corpo e também a aparência física são os principais meios pelo qual os indivíduos sejam estes adultos ou crianças utilizam-se para um reconhecimento acerca de qual contexto estão inseridos. No entanto observa-se no decorrer dos parágrafos escritos que independentemente da faixa etária que o indivíduo se encontre a passagem do tempo será sempre o ponto de partida para que os seres possam realizar um mútuo reconhecimento.

Referência:  LOPES, Ewellyne Suely de Lima; PARK, Margareth Brandini. Representação social das crianças acerca do velho e do envelhecimento., Estudos de Psicologia 2007,12(2), 141-148.
Disponível em: <http:WWW.scielo.br/pdf/epsici/v12n2/a06v12n2.pdf>

Resenha: pensamento, crenças e complexidade humana

Adriana Araújo

O artigo apresenta as relações da influência cultural no pensamento humano, mostrando a partir de teorias e de uma pesquisa bem fundamentada que o funcionamento mental não se limita a cognição, lógica e racionalidade.

Ao iniciar a discussão a autora usou a teoria da complexidade que explica a complexidade do mundo real, onde os objetos e fenômenos da natureza só podem ser compreendidos através de uma visão multidimensional e de que todo conhecimento precisará de complementos e apresentará incertezas. O funcionamento do psiquismo humano segundo o autor Araújo, citado no artigo, de maneira complexa recebe influência tanto de fatores internos quanto dos externos. Ele afirma também que todos os aspectos constituintes do sujeito, que sejam eles biológico, afetivo, sociocultural (crença) ou cognitivo atuam simultaneamente influenciando-o totalmente desde sua maneira de ser até o pensar. Ao relacionar cultura e pensamento humano a autora também busca embasar-se na perspectiva de autores como Morin, Vygotsky, Martins e Branco. E na elaboração e fundamentação da pesquisa foi usada a teoria dos modelos organizadores do pensamento criado por Moreno e colabores. Os modelos organizadores do pensamento relata que o ser humano constrói modelos de realidade na sua interação com o mundo e consigo mesmo, como também esses modelos o influência tanto internamente na construção do conhecimento, quanto externamente nos conteúdos da sua realidade. Esses modelos permitem relacionar claramente pensamento e crença quando em sua abordagem defende, que a organização do pensamento está relacionada a sentimentos, emoções, desejos, fantasias, representações sociais, crenças além da cognição, lógica de racionalidade.
Na pesquisa o objetivo foi verificar a influência das crenças na organização do pensamento, as perguntas realizadas com as pessoas entrevistadas foi com relação a crença religiosa e o conteúdo foi a sexualidade. Duas questões foram respondidas por grupo de pessoas religiosas de diversas denominações e um grupo de estudantes. Ao fazer a análise foi verificado que os entrevistados mudam a forma de pensar de acordo com a natureza da crença, a subjetividade não anula a dinâmica do pensamento psíquico, algo que é muito interessante também é que os modelos organizadores com relação a temática sexualidade tiveram associados a significados, conteúdos que envolvem crenças religiosas, mesmo que implícitos no contexto da pergunta que foi aplicada. A pesquisa confirmou as teorias apresentadas pela autora, tornando o artigo coerente e bem contextualizado.

Houveram muitas repetições de informações, tornando as vezes a leitura cansativa, apesar de ser um texto muito enriquecedor. Geralmente alguns autores radicalizam e concluem pesquisas através de uma análise fragmentada do objeto de estudo em seus artigos, isso pode ser muito perigoso a depender da temática. Pátaro fez diferente ,reconheceu que não pode tirar respostas conclusivas com relação a pesquisa, e informou ter surgido novos questionamentos e hipóteses. A pesquisa foi clara , consistente e verdadeira ao colocar diante do leitor as incertezas e fragilidades do pensamento humano que é comumente influenciado pela cultura.

Referência: Pátaro, C. O. Pensamento, crenças e complexidade humana. Ciência & Cognição, 04, 12,134-149, 2007.

Resenha: o brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afrodescendente

Ominlandê Onawale Lima

O artigo mostra de forma explícita a concepção do racismo no Brasil. Na visão do especialista Nelson Rodrigues, o preconceito racial existente no nosso país é velado, e isso acaba “cegando a população”, a qual acredita veementemente que o país vive uma democracia racial.
O preconceito no Brasil, justamente por ser tão mascarado, revela-se capaz de alienar as pessoas a pensarem de modo conformista, de modo em que se não é percebido, não há o que ser combatido. Dessa forma, na visão do autor Ricardo Ferreira, cria-se uma dificuldade inclusive no estabelecimento de leis para coibir tais ações racialmente preconceituosas.
A grande questão é que o racismo presente na sociedade brasileira esconde-se atrás de termos como “moreno”, “denegrir”, entre outros. A forma com que ele é acobertado é algo repugnante, e ainda mais desastroso é perceber que a população parece inerte em meio a tanta ilusão.
É importante enfatizar que o passado de escravidão torna-se causa direta do que acontece atualmente, no sentido de estabelecer uma visão eurocêntrica como dominante nos mais sutis aspectos do nosso dia-a-dia. Aspectos estes, que parecem se tonar invisível aos olhos da maioria da população, exceção feita a determinadas organizações raciais que lutam para reverter tal situação.
Portanto, o artigo gira em torno de nos conscientizar quanto à existência do racismo no Brasil. Muitas vezes manipulado, ele acaba por se esconder em diversas faces, as quais são veladas pelos setores mais influentes da nossa sociedade. Cabem a nós, cidadãos, compreendermos a real existência de tal problema e percebermos maneiras de enfrentá-lo, sem nos deixar influenciar pelas camadas mais altas, que persistem em ocultá-lo.

Referência: Ferreira, R. F. O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente. Psicologia & Sociedade, 14, 1,69-86, 2002.

Resenha: estilo de vida como indicador de saúde na velhice

Janaína Alvarez

O artigo de Vera Lygia Menezes Figueiredo tem com objetivo explorar o tema envelhecimento saudável e quais fatores podem influenciar na qualidade de vida dos idosos, dentre eles o estilo de vida como importante indicador de saúde.
Para muitos velhice é sinônimo de aposentadoria, na qual os adultos saem do cenário social, principalmente nas sociedades modernas industrializadas que objetivam funcionalidade. Mesmo com o aumento do número de idosos e da expectativa de vida, ainda há um atraso em possibilitar altenativas de ocupação desses idosos, que possuem estereótipos e preconceitos sobre se isso seria possível, o que contribui para que eles sintam-se inativos diante das gerações atuais, e com tempo ele pode se enxegar desvinculado da sociedade, sem compreender-se como pertecente socialmente.
Diante disso, há idosos que se isolam ou permitem que exista um isolamento social, outros vivem bem, mas com uma rotina bem estruturada que não permite muita estimulação cognitiva, e ainda aqueles que por desajustamentos psicológicos diversos vivem sob uma qualidade de vida abaixo do esperado. Em todos esses estilos de vidas citados, existem características comuns como uso deficitário das funções cognitivas, retração da expressividade emocional, e redução das trocas relacionais e com o meio.
Só a partir da virada do século XX que começou o interesse pelo estudo dos fenômenos do envelhecimento, diante da projeção de aumento dessa população específica nos Estados Unidos e outros países da Europa. Após reduzirem taxas como da mortalidade infantil, mortalidade materna, e da mortalidade por doenças crônicas, a expectativa de vida da crescente população idosa requer atenção, até porque é um consenso no meio científico que a expectativa de vida é um dos indicadores mais importantes de saúde. Contudo, disciplinas médicas como geriatria e gerontologia surgem na década de 30 e 50, respectivamente, e seus estudos com outros campos, até mesmo interdisciplinares possibilitam estudos enriquecedores.
O crescimento da população idosa no mundo já é um fenômeno, e com isso, torna-se o maior desafio desse século o envelhecer com saúde. As pesquisam já demonstram possibilidades, mas ainda encontram barreiras nas diferenças individuais cercadas de peculiaridades que dificultam conceituar de modo homogêneo.
A Organização das Nações Unidas (ONU) redefine o conceito de saúde em 1947 como um estado de completo bem-estar físico, psíquico e social, mas a Organização Mundial de Saúde (OMS) em 1994 traz esse conceito como a busca de uma qualidade de vida. Ampliando-se o conceito de saúde, os idosos deixam de ser passivos para serem chamados a um engajamento ativo pela promoção da saúde, sobretudo acompanhada de direitos.
Com o envelhecimento há a senescência, que é a condição daquele que está envelhecendo, já senelidade para o envelhecimento patológico. Dentre os fatores precipitantes de incapacidade funcional destaca-se a área cognitiva, como por exemplo, perda de memória, que por conta das diferenças individuais novamente há uma dificuldade em classificar os déficits principalmente nesses casos. Diante desses impecilhos, o mais importante não é impedir o declínio funcional biológico, muitas vezes esperado, mas providenciar alternativas que ajude na preservação da capacidade funcional para se ter uma velhice saudável.
Dessa forma, o estilo de vida vai impactar na saúde na velhice, por isso a importância de observar além das demências e patologias típicas dessa fase, mas também a relação desses idosos com o mundo, pois algumas fragilidades dizem respeito ao biológico, mas outras ao ambiente externo. Para promoção e prevenção da saúde o estilo de vida deve ser considerado dentre outros indicadores, pois através dele o indivíduo vai entender suas limitações e enxergar possibilidades de adaptações para responder aos desafios impostos no dia-a-dia.
Referência bibliográfica: Figuereido, V. L. M. Estilo de vida como indicador de saúde na velhice. Ciência & Cognição, 04, 12, 156-164, 2007

Resenha: Políticas de educação inclusiva e a instituição na educação da pessoa com deficiência mental

Rosana dos Santos

Segundo Marta Pires Relvas, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Neurociência e Comportamento, a pessoa com deficiência mental distingue-se pela incapacidade de generalizar, classificar, abstrair e analisar, quando esta está no período escolar. Sendo que a primeira suspeita que podemos observar nesses indivíduos é com relação ao lento desenvolvimento motor.
A Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE), define a pessoa com deficiência mental como aquela comumente associada ao funcionamento intelectual significativamente inferior à média, com manifestação antes dos dezoito anos e limitações associadas a duas ou mais áreas de habilidades adaptativas tais como: comunicação, cuidado pessoal, habilidades sociais, dentre outros.
No decorrer dos períodos históricos a compreensão e concepção acerca da pessoa com deficiência foi se modificando. Em certo momento as crianças com deficiência mental era retirada do convívio familiar e comunitário para residirem em instituições segregadas ou em escolas especiais, frequentemente situadas em locais distantes da família.
Contudo, a partir da década de 1990, com a implementação de leis legais, tais como a Constituição Brasileira de 1988, e a Lei de Diretrizes e Base para a Educação Nacional (LDBEM), cresceu a discussão e busca de condições para efetivação dos direitos referentes à pessoa com deficiência.
O oferecimento da educação especial, bem como a inclusão da pessoa com deficiência mental na escola regular é um direito constitucional do indivíduo, em que o Estado deve assegurar. Sendo assim, o artigo de Silvia Meletti, traz uma discussão sobre as políticas de Educação inclusiva e o paradigma de institucionalização, que consiste no acolhimento de pessoas com deficiência mental em instituições, onde é oferecido um trabalho especializado de cunho meramente assistencialista e clínico, sem tanta enfâse pedagógica.
Além disso a autora traz a análise de uma pesquisa realizada com alguns profissionais da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE). Tendo como base a seguinte questão: “gostaria que você me falasse um pouco sobre o seu trabalho, sobre o que você quiser me contar a respeito de seu papel aqui na instituição”.
Nesta análise podemos perceber qual a concepção de algumas profissionais da associação, com relação a pessoa com deficiência mental e a definição que os mesmos têm acerca da Educação Especial. Logo, de acordo com os dados observados e descritos, a autora demonstra que a pessoa com deficiência mental ainda é vista a partir do rótulo de deficiente, onde não se levam em consideração as habilidades e possibilidades que esta possui ou venha desenvolver; às vezes estas, também são tratadas de forma infantilizada, outras vezes são vistas como imaturas, incapazes de superar certas limitações.
Esta vissão contribui, intensificamente, para a omissão e descasso do Estado, sobretudo no que diz respeito a contribuição que este deve destinar a escolas que contemplam a modalidade de ensino em questão; bem como a disponibilização de recursos necessários à eficácia da inclusão dessas pessoas.
Levando em conta que a ideia de construção de uma escola na instituiçâo especial, camufla a importância e o dever da escola regular, de educar qualitativamente a pessoa com deficiência, Silvia Meletti, pontua três esferas que revelam a justificativa que certos profissionais dão para manter a instituição especializada como a principal instituição que possa garantir “inclusão” e promover um maior desenvolvimento cognitivo, motor e social das pessoas com deficiência mental; tais esferas são: a manutenção da pessoa com deficiência mental no âmbito da filantropia; a indistinção entre reabilitação e educação e o não acesso a processos efetivos de escolarização; manutenção da condição segregada da pessoa com deficiência mental na instituição especial “inclusiva”.
Logo a sustentação do discurso dos eixos supracitados dificultam a inclusão das pessoas com deficiência mental no sistema de ensino regular, além de contribui para a manutenção do assistencialismo institucionalizado, tal como acontecia décadas atrás, tendo um caráter meramente clínico, sem cunho pedagógico. Isso deixa uma lacuna para o Estado e as escolas de ensino regular, deixar de cumprir o dever de promover a adaptação estrutural, organizacional e curricular para atender de forma qualitativa às necessidades das pessoas com deficiência mental.

Referência: Meletti, S. Políticas de educação inclusiva e a instituição especializada na educação da pessoa com deficiência mental. Ciências & Cognição: 13, 5, 199-213, 2008.