Resenha: Aparência física e amizade íntima na adolescência

Leandro Andrade Moreira

O artigo apresentado tem como tema as relações de amizade íntima entre adolescentes e sua relação com a percepção da aparência física Portanto, inicialmente, são apresentados os conceitos de intimidade e intimidade corporal, referente à aparência física. O autor entende como intimidade uma “relação emocional caracterizada pela concessão mútua de bem-estar, pelo consentimento implícito para revelação dos assuntos privados, podendo envolver a esfera dos sentidos e pela partilha de interesses e atividades comuns”. No artigo, em alguns estudos efetuados referidos pelo autor e para o melhor desenvolvimento da pesquisa, o conceito de intimidade/amizade íntima foi estruturado em oito dimensões: sinceridade e espontaneidade; sensibilidade e conhecimento; vinculação; exclusividade; dádiva e partilha; imposição; atividades comuns; confiança e lealdade.
Intimidade corporal pode ser entendida como a percepção que temos de nós próprios e do nosso corpo, ou seja, pelo nosso auto-conceito. Este, por sua vez, é determinante de uma satisfação global do adolescente que influencia em sua satisfação relacional e sua auto-estima, intimamente ligada à forma como se relaciona socialmente.
Segundo o autor é na adolescência que surgem as verdadeiras formas de relações de amizade com base na intimidade. Isto ocorre devido ser nesse período da vida que o individuo amadurece a ponto de expressar melhor valores como a honestidade, descoberta de si e dos outros e até a verdade e todas as suas conseqüências na procura do prazer relacional. Portanto, o estudo relatado opta por trabalhar com adolescentes no décimo segundo ano de escolaridade.
O objetivo geral do estudo foi analisar a relação entre a percepção sobre a aparência física e as relações de amizade na adolescência. Os objetivos específicos pretendiam avaliar a influencia e a diferença entre os sexos com relação a percepção sobre a aparência física, nível de desenvolvimento de relações de amizade íntima. A hipótese do estudo é de que há influencia da percepção que os adolescentes fazem de sua aparência física na forma como estabelecem relações de amizades íntimas.
O estudo foi realizado numa população de 318 adolescentes através da aplicação de três escalas: escala de amizade íntima; escala de percepção de auto-conceito; notação social da família. Além de considerar outras variáveis como escola, sexo, idade, concelho de residência, número de anos matriculado, repetições e anos repetidos antes do décimo segundo ano.
Os resultados do estudo confirmaram que as vivências de relações de amizade íntima são fortemente influenciadas pelo sexo. Foi observado que em ambos os sexos é dado um valor semelhante as relações com o sexo feminino, porém isso pode ocorrer por diferentes causas. Para o sexo feminino isto pode estar relacionado á alguns fenômenos de identificação inter-pares, valorização de idéias e sentimentos comuns ou até por processos de socialização semelhantes. Para o sexo masculino esse valor pode ter relação a afirmação perante o sexo oposto e de sua masculinidade. Percebeu-se que o sexo feminino possui um grau mais relevado de maturidade, porém um auto-conceito mais baixo. Através do estudo também pôde ser observado uma associação estatisticamente significativa na relação entre as principais variáveis de estudo: percepção sobre a aparência física e amizade íntima.

Referência: Cordeiro, R. Aparência física e amizade íntima na adolescência: Estudo num contexto pré-universitário. Análise Psicológica, 4, 509-517, 2007.

Resenha: permanência das Representações do Gênero em Sexologia

Narena de Alencar Moreira

O objetivo do artigo foi questionar a adoção de estereótipos de gênero pela sexologia, sendo que esta tem mostrado em suas pesquisas uma função sexual masculina, puramente biológica e fisiológica, indiferente aos aspectos relacionais, emocionais e contextuais, enquanto a função sexual feminina seria exclusivamente emocional e psicológica, ignorando-se os fatores biológicos, sendo os desejos sexuais “naturais” no homem e inexistentes na mulher.
No artigo o autor aponta que pesquisas têm sido feitas seguindo uma abordagem organicista, o que representa um avanço na área. Contudo, essas pesquisas ainda não atribuem a mesma importância para a função sexual do homem e da mulher. Mesmo que baseadas em fatores biológicos, essas pesquisas ainda parecem seguir estereótipos de gênero, bem difundidos no senso comum.
A questão é intensificada quando estes estereótipos de gênero ultrapassam as barreiras do senso comum e passam a interferir nas práticas científicas. Assim, a ciência iria ao encontro do senso comum, através das pesquisas realizadas, ao invés de questionar estes valores. Vemos o velho disfarçado de novo. As velhas concepções sobre a sexualidade disfarçada de novas descobertas científicas.
A análise traçada pelo autor resgata o contexto histórico dessa ciência da sexualidade a partir do final do século XIX, ilustrando como desde então os debates em torno do tema caracterizam a sexualidade do homem como simples, urgente e constante, além de centrada na genitália, enquanto a sexualidade da mulher seria complexa, problemática, intermitente, difusa no que diz respeito ao corpo e assim não necessariamente relacionada ao orgasmo. O modelo predominante se baseia em uma dominação do homem e submissão da mulher, adotando apenas em sua definição uma relação heterossexual. A partir dos anos 1970 são formuladas as primeiras críticas a esse modelo, contudo essa concepção vigora mesmo nos dias de hoje.
Além do reducionismo criticado pelo autor, que prioriza alguns aspectos em detrimento de outros, outro ponto é problematizado, a medicalização da sexualidade. “Atualmente, a sexologia cede lugar a uma ‘medicina sexual’, que visa a se constituir como especialidade médica dos transtornos da função sexual” (Giami, 2007). Deste modo, a sexualidade é reduzida a transtornos a serem medicados, excluindo-se a função sexual normal e os fatores que extrapolam a área da biologia. O termo sexualidade, que implica também em uma abordagem psicológica, dá lugar ao termo “saúde sexual” ou “função sexual”. “Não é mais o aspecto comportamental nem psicológico que constitui o objeto de interesse científico, mas a função somática dos órgãos genitais em sua dimensão biofisiológica” (Giami, 2007).
Seguindo-se o desenvolvimento da chamada medicina sexual, é possível notar que as pesquisas sobre disfunções da sexualidade masculina são maioria. Como o autor aponta, “os trabalhos fundamentais relativos à função sexual masculina, notadamente a ereção, foram muito mais desenvolvidos após o início dos anos 80 que aqueles sobre a função sexual feminina (sobre os transtornos do desejo e da excitação)” (Giami, 2004 apud Giami, 2007). De maneira similar, os instrumentos de avaliação destes transtornos são bem diferentes, segundo o gênero. Enquanto na avaliação de transtornos relacionados à sexualidade feminina são inseridas questões sobre fatores psicológicos e subjetivos, na avaliação da sexualidade masculina esses fatores são desprezados, atendo-se apenas a um funcionamento corporal mecânico.
Perante as críticas feitas pelo autor, faz necessário ressaltar a importância da reavaliação dos valores que têm sido transmitidos não só pelo senso comum, mas também pela ciência, que além de aprisionar a mulher em um conceito de sexualidade ultrapassado e limitado, também dificulta o estudo da sexualidade masculina, que certamente está além dos fatores biológicos. Sendo a vivência humana complexa e multifatorial, há de ser também complexa também a experiência sexual, para homens e mulheres, levando-se em consideração seus variados aspectos.

Referência: Giami, A. (2007). Permanência das representações do gênero em sexologia: as inovações científicas e médicas comprometidas pelos estereótipos de gênero. Revista Saúde Coletiva, 17(2), 301-320