Resenha: Interagindo com homens sexistas dispara a ameaça a identidade social entre mulheres engenheiras

Gustavo Siquara

O estudo em questão teve como objetivo avaliar a ameaça a identidade social de mulheres engenheiras em interação com homens sexistas e a possível diminuição do desempenho. Na interação entre os indivíduos existem padrões e julgamentos que fazemos sobre os outros. A interação pode ser um pouco mais complicada quando se trabalha com o papel de gênero. Nesse sentido atitudes sexistas despertam um interesse particular na interação tal como na área de engenharia e matemática. Mulheres nesse campo de atuação normalmente tem um estereotipo negativo de incompetência e atitudes sexistas de ameaça ambiental.
A ameaça à identidade social pode resultar em um baixo desempenho e incertezas sobre o seu pertencimento. O que os autores propõem é que o estereotipo negativo e comportamentos sexistas dos homens criam um ambiente de desvalorização da mulher e das suas contribuições e habilidades. A hipótese do estudo é que atitudes sexistas dos homens engenheiros e matemáticas possam ativar a ameaça à identidade social em mulheres através dos comportamentos interpessoais que desvalorizam as contribuições e habilidades das mulheres. Para a investigação do estudo foi realizados um total de cinco experimentos. No estudo 1, foi investigado se o nível de sexismo do homem poderia predizer o comportamento para as mulheres com quem eles interagem. Nesse caso os autores procuraram predizer se quanto mais sexista o homem poderia mostrar uma maior dominância sutil na interação com as mulheres. Nos estudos de 2 a 5 os autores examinaram se o nível de sexismo tem efeito sobre os padrões de interação. Ou seja, eles investigaram se os homens sexistas poderiam ativar a ameaça a identidade social.
As discussões gerais do estudo ressaltam que as mulheres são minorias no campo das engenharias e matemáticas, com isso tem mais interações com homens. O estudo mostrou de modo geral que a interação pode ter consequências negativas para o desempenho das mulheres nesse campo. Quando as mulheres engenheiras ou matemáticas interagem com homens sexistas podem experienciar ameaça a identidade social e especificamente ameaça ao estereotipo o que pode diminuir o desempenho nesse domínio. O resultado do estudo 1 apontou que quanto maior o escore de sexismo do homem maior domínio e interesse sexual ele exibiu para a mulher com quem ele acredita ser uma colega estudante de engenharia. Nos estudos 2 a 5 evidenciou que mulheres ao detectarem sinais de comportamentos sexistas elas serão desvalorizadas e correm o risco de serem vistas sobre a lente de um estereotipo negativo. Com isso as mulheres que tiveram interação com homens sexistas tiveram um desempenho pior em comparação quando as mulheres tinham interação com homens não sexistas. O ambiente pode ser um potente local para criar a ameaça.
Outro achado interessante foi de que as mulheres intelectualmente de baixo desempenho reportaram sentir mais atraídas pelos homens que mostraram dominância e comportamento de interesse sexual. Esses resultados são complexos, mas o comportamento dos homens sexistas pode ser reforçado pelas mulheres nesses casos, resultando na atração por eles. Assim cria um ciclo que aumenta o atraso apresentado pelas mulheres e continuam com o domínio que eles têm sobre os estereótipos negativos.
O estudo mostra a influencia da ameaça ao estereotipo a partir do ambiente e da sua relação interpessoal. Proporcionar um ambiente menos sexistas, ou discriminatório é essencial para o desenvolvimento de todas as pessoas. No estudo foi apresentado a interação comportamental em relação às mulheres e homens sexistas a partir da matemática, no entanto poderíamos pensar em outros temas como classes sociais ou étnicas. De maneira geral isso reforça a importância de se buscar um ambiente mais inclusivo e menos estereotipado. Pois em muitos casos os estereótipos podem ter influencia negativa a partir da categorização social ou de gênero das pessoas. Os métodos de intervenção devem ser baseados na mudança do estereotipo já que a forma de inter-relação irá afetar diretamente o desempenho do individuo. Um dos achados mais interessantes no estudo foi o caso das mulheres que tinham um desempenho inferior reforçavam o comportamento dos homens sexistas. Isso pode fazer com que se perpetue o estereotipo e cada vez mais as mulheres vão se sentir menos eficaz nessa área de conhecimento. Se esse ciclo não for quebrado cada vez mais o estereotipo irá afetar as relações interpessoais e os grupos minoritários.

Resenha: Logel, C., Spencer, S. J., Iserman, E. C., Walton, G. M. Hippel, W. Bell, A. E. (2009) Interacting With Sexist Men Triggers Social Identity Threat Among Female Engineers. Journal of Personality and Social Psychology, 96, (6), 1089-1103.

Resenha: Neurociência da Raça

Gustavo Siquara

Os autores do estudo trazem fazem uma revisão sobre os artigos que utilizaram Neuroimagem e as estruturas cerebrais a partir da exposição a faces de pessoas negras e brancas. O objetivo dessa resenha foi analisar os achados encontrados do artigo que apresenta e discute os estudos de neuroimagem em respostas a categoriais de raça negras e brancas em participantes Americanos. Com o advento da neurociência está sendo possível demonstrar as bases neurais de diferentes processos psicológicos e sociais. A algumas décadas os cientistas já estudam sobre a representação mental de raça e etnia. Mais atualmente tem surgindo estudos que apresentam evidências eletrofisiológicas, ressonância magnética funcional e outros métodos fisiológicos para entender como os indivíduos processam, avaliam e utilizam a variação humana ao longo da dimensão da raça. As áreas cerebrais que apresentam maiores ligações com a temática de etnias e raças são: amigdala, Córtex cingulado anterior, córtex pré-frontal dorsolateral e giro fusiforme.
A amigdala é uma estrutura subcortical muito relacionada a estudos de atitudes, crenças e tomada de decisão no estudo de brancos e negros. Em humanos a amigdala tem um papel essencial relacionado a aprendizagem emocional e medo. Essa estrutura apresenta muitas ligações com o córtex que detecta estímulos emocionalmente relevantes no ambiente, modulando o funcionamento cognitivo a atenção e a memória. A história das relações raciais nos EUA é especialmente marcada por emoções complexas incluindo medo e hostilidade. Embora ainda não seja encontrada em alguns estudos, existe uma predominância maior da ativação da amigdala quando tem que julgar faces de seu outgroup. Essa diversidade de achados está ligado principalmente a complexidade do funcionamento cerebral, principalmente por um fenômeno tão complexo como o preconceito. Outras áreas cerebrais serão apresentadas mais a frente a respeito da ativação da amigdala.
Há algumas décadas já existem estudos que apresentam medidas de associação implícitas em relação brancos e negros e o preconceito. As medidas implícitas tem apresentado um bom poder preditivo em relação ao preconceito. Os estudos também apontam que existe associação entre as medidas implícitas e a ativação da amigdala, com isso atitudes preconceituosas relacionadas à raça podem ser mediadas pela amigdala em respostas a faces de ingroup e do outgroup. No entanto a ativação da amigdala e consequentemente das medidas implícitas parecem ser moduladas por outras áreas cerebrais que apresentam efeito em atitudes sobre o preconceito.
Estudos com crianças que apresentam síndrome de Willians, que é uma condição genética marcada por comportamento excessivamente amigável, tem uma redução de ativação da amigdala em situações de ameaça e do giro fusiforme na interação com faces brancas e negras. A baixa ativação da amigdala foi detectada para faces relacionadas à raça mais não relacionadas ao gênero. Esse resultado sugere que a variabilidade da ativação da amigdala entre os indivíduos e as diferenças individuais dos grupos parece emergir de muitas influencias, incluindo temperamento, diferenças individuais e exposição a atitudes culturais. Em outras palavras a ativação da amigdala pode refletir a percepção da mente que diferencia a característica perceptual do estimulo da raça. Os resultados sugerem que a representação neural de atitudes implícitas e explicitas em relação a raça provavelmente está dentro de um larga sobreposição e interação de sistemas cerebrais.
Outra região cerebral que tem apresentado relações nos estudos sobre raça é a região do Córtex cingulado anterior. Geralmente as pesquisas apontam essa região sendo ativada quando o individuo experiência algum conflito entre uma resposta preponderante e intencional. São resposta que exigem um controle cognitivo como a tarefa de Stroop. Alguns estudos têm apontado que o córtex cingulado anterior reflete o conflito entre a resposta preponderante, automática de atitudes raciais e as respostas explicitas intencionais sobre a crença do igualitarismo sobre a raça. Nesse sentido os estudos indicam que a resposta de ativação da amigdala está correlacionada com o aumento da ativação do córtex cingulado anterior. Ou seja, quando o individuo inibe a resposta preponderante e regula a expressão do preconceito vai haver simultaneamente o aumento da ativação do córtex cingulado anterior. Outras pesquisas já apontam previamente que indivíduos podem ser intrinsecamente motivados ao controle de atitudes raciais, mas outros necessitam de uma motivação externa como as normas de igualitarismo para implementar o controle do preconceito. Os resultados dessas pesquisas mostram que a motivação intrínseca de inibição do preconceito é mais eficaz em comparação a indivíduos que são externamente motivados. Os indivíduos que são motivados mais internamente conseguem controlar mais expressão do preconceito.
A região dorsolateral pré-frontal está relacionada ao controle dos estímulos. Os estudos apontam essa área como ligada a regulação cognitiva das emoções modulando as respostas da amigdala. Também está envolvida no monitoramento e implementação do controle do comportamento. Conjuntamente com o córtex cingulado anterior a região dorsolateral pré-frontal no controle de respostas conflitantes e em atitudes implícitas no controle e regulação dos comportamentos ligados a raça. Lesões nessa região estão associados a redução do autocontrole e auto monitoramento. As regiões do córtex cingulado anterior e o dorso lateral pré-frontal são ativadas quando os indivíduos veem faces negras ou brancas e são correlacionadas com medidas implícitas. Essa região parece ser uma base para o controle da expressão do preconceito.
Os sistemas de controle de atitudes raciais são explicados de duas formas. A psicologia social tem proposto que processamentos complexos sociais e pessoais motivam e influenciam outros aspectos menos complexos a construir categorias bases, como as raças. Nesse processamento primeiro requer a detecção e categorização da avaliação da raça. A outra proposta envolve o alto processamento cognitivo pessoal e motivacional que exerce algum controle sobre processos cognitivos mais baixos. Nesse caso quando existe um conflito as áreas do córtex cingulado e do dorsolateral pré-frontal que regulam as emoções envolvidas na ativação da amigdala. Há evidencias de que outras regiões do córtex pré-frontal também está envolvida nesse processo de regulação racial.
A circuitaria cerebral envolvidas nos processos raciais são maleáveis. Os estudos apontam que a ativação dessas áreas cerebrais automatizadas é resultado de aspectos maleáveis que dependem de situações e fatores diferentes. Em um estudo que foi apresentado fotos de familiares, pessoas negras admiradas e indivíduos brancos, houve uma mudança na ativação da amigdala na apresentação de estímulos de raças de outros grupos. Ou seja, houve uma diminuição da ativação da amigdala quando apresentados em membros do outgroup. Esses achados implicam na exposição a contra estereótipos/faces familiares podem diminuir a presença do preconceito.
Um dos objetivos do artigo foi entender quais os processos cerebrais e como os circuitos neurais estão implicados na emoção e no processamento cognitivo que podem estar envolvidos na identificação, avaliação dos grupos e a expressão do comportamento. Outros estudos devem estar presentes no sentido de entender como a raça pode influenciar a tomada de decisão.
Os avanços na área de neurociências permitem entender melhor o comportamento. Ao analisarmos algo complexo e multideterminado como é o nosso comportamento não podemos deixar de levar em conta aspectos biológicos e também sociais. A integração de ambos os estímulos iram provavelmente oferecer as melhores respostas sobre o nosso comportamento. A negação ou preponderância de qualquer uma dessas questões, acredito que irá diminuir e limitar o nosso entendimento sobre o comportamento. A medida que entendermos cada vez mais comportamentos sociais mais que também tem influencias biológicas (vice-versa) iram surgir novas questões que deverão ser respondidas e se tornaram naturalmente cada vez mais complexas.

Referência: Kubota, J. T., Banaji, M. R., Phelps, E. A. (2012) The Neuroscience of race. Nature Neurosciense, 15(7), 940-948.

Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

Gilcimar Santos Dantas

O objetivo do texto é analisar as novas formas de expressão do preconceito e do racismo que se manifestam nas sociedades formalmente democráticas e que começaram a surgir após as mudanças sociais decorrentes dos direitos civis e da declaração dos Direitos Humanos. Para isto, os autores analisam os racismos simbólico e moderno, da Austrália e dos Estados Unidos, o racismo ambivalente, dos Estados Unidos, o preconceito sutil, da Europa, e o racismo cordial, do Brasil.

Para os autores, dentre as várias formas possíveis de preconceito, existe uma que é peculiar e que se dirige a grupos com características físicas supostamente herdadas. Neste sentido, o racismo possuiria processos de hierarquização, exclusão e discriminação a partir de características físicas externas, mas se diferenciaria do preconceito porque além de possuir as características acima, este não existe apenas em um nível individual, mas também institucional e cultural. Ou seja, o racismo não seria apenas uma atitude, mas também englobaria processos de discriminação e de exclusão social. Neste caso, os autores trabalham as novas formas de racismo a seguir.

O racismo simbólico seria uma forma de resistência a mudanças no status quo das relações raciais, na qual as atitudes contra os negros seriam, muito mais, decorrentes de uma percepção de ameaça aos valores e à cultura do grupo dominante do que de uma noção de ameaça econômica. O racismo moderno se baseia nas crenças de que o racismo é uma coisa do passado, de que os negros estão subindo rapidamente em espaços aonde não são bem vindos e que os meios e as demandas dos negros são injustos e que as instituições estão lhe dando muito crédito. Segundo o racismo aversivo, pessoas brancas, ao entrarem em contato com pessoas negras, elas não as discriminariam, pelo contrário, elas as tratariam de modo igualitário, mas quando há um contexto no qual se justifica a discriminação, essas mesmas pessoas discriminariam indivíduos negros. O racismo ambivalente possui duas orientações que podem gerar conflito ou ambivalência por parte de quem faz o julgamento. Sendo assim, pessoas brancas podem sentir simpatia pelos negros ao aderirem a valores humanitários e de igualdade. Por outro lado, a adesão a valores individualistas levaria os brancos a verem os negros como desviantes destes mesmos valores. O racismo sutil seria uma forma mais velada de racismo que se caracteriza pelas crenças de defesa dos valores tradicionais, pelo exagero das diferenças culturais e pela negação de emoções positivas aos membros do exogrupo. O racismo cordial, típico do Brasil, decorre do mito da democracia racial e da ideologia do branqueamento. Seria um racismo sem intenção e, às vezes, de brincadeira, mas que exerce influência negativa na vida das pessoas negras.

Sobre a discussão a respeito das formas abertas de racismo, o Brasil parece estar em uma condição diferente. Os estudos sobre formas mais sutis e ambíguas de racismo nos Estados Unidos e na Europa mostram que esta forma de preconceito começa a surgir no início da segunda metade do século XX. Entretanto, no Brasil, as formas sutis de racismo já começam a entrar em prática no fim do século XIX quando se tenta trabalhar em uma forma de lidar com um país recém-saído da escravização (Azevedo, 1988). Ideias de que o Brasil é um país igualitário aonde pessoas de todas as raças convivem de modo harmônico, que os maiores problemas do país são de ordem econômica e que aqueles que tentam discutir as diferenças com base na questão racial são causadores de problema é algo antigo e não só defendido pelos mais conservadores. O que parece (principalmente após o surgimento das políticas de Ações Afirmativas) é que muitos brasileiros tem caminhado na direção contrária em relação à questão racial, contradizendo uma perspectiva que foi mantida com muito orgulho durante muito tempo. Pode-se ter como exemplo as reações contrárias à política de cotas com protestos nas ruas, artigos nos jornais, produções de livros e falas públicas de pessoas famosas. O racismo velado já existia há muito tempo no Brasil, disfarçado pela cordialidade. A suposição é que, de certa maneira, ele tem mostrado seu lado mais explícito à medida que grupos não dominantes têm trabalhado para mudar essa realidade.

Referências: Lima, M. E. O. e Vala, J. (2004). As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos de psicologia, 3, 401-411.
Azevedo, C., M., M. (1989). Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites do século XIX. Anamblume. São Paulo.

Resenha: Aparência física e amizade íntima na adolescência – Estudo no contexto pré-universitário

Aline Almeida


O presente artigo tem como autor Raul A. Cordeiro e foi publicado no ano de 2006, através do Instituto Politécnico de Portalegre em Portugal. O autor inicia o artigo, trazendo alguns conceitos importantes como o de intimidade, e como esta, está relacionada com a amizade no período da adolescência. Neste sentido, Cordeiro destaca oito dimensões nas quais estes conceitos podem ser estruturados. São elas: Sinceridade e Espontaneidade; Sensibilidade e Conhecimento; Vinculação; Exclusividade; Dádiva e Partilha; Imposição; Actividades Comuns; Confiança e Lealdade.
O autor justifica o fato de relacionar a amizade com a aparência física, pelo fato de que é no período da adolescência em que há grandes mudanças corporais, afirmação do auto-conceito e estabelecimento de pares. Desta forma, neste período qualquer vinculação que o indivíduo passa, perpassa a avaliação corpórea se sí e do outro. Ele destaca ainda o status cultural concedido ao corpo, como instrumento de poder, e do quanto este conceito é construído durante toda a adolescência.
Um fato que pode-se acrescentar á discussão é o de a cultura brasileira, especificamente a baiana, cada vez mais incita a criança e o adolescente a desenvolver de forma cada vez mais precoce a sexualidade. É visto de forma cada vez mais maciça, um excesso de estímulo por meio de músicas, vestuário e da mídia, o que torna o culto á aparência física e a necessidade de intimidade sexual cada vez mais precoce. Com isso, deve-se observar as diferenças de cultura entre Portugal, local onde o estudo foi realizado, e o Brasil. Pode-se inferir, que possivelmente, os dados caso o estudo fosse realizado aqui no país, seriam diferentes.
O estudo tem como objetivo geral, analisar a relação entre a percepção sobre a aparência física e as relações de amizade íntima na adolescência. Para tanto, antes que os dados fossem recolhidos, algumas hipóteses foram formuladas. A principal delas diz respeito á suposição de que a percepção que os adolescentes têm da sua aparência física, influencia a forma como estabelecem relações íntimas de amizade. Esta formulação se deve, segundo o autor, a estudos realizados anteriormente que relatam a percepção sobre a aparência física é de suma importância para a construção da identidade do indivíduo e por consequência, papel fundamental para o estabelecimento de relações amizade íntima.
O estudo foi realizado com 318 adolescentes que estudavam em duas escolas secundárias, sendo estes divididos entre o sexo feminino e masculino. Para tanto foram aplicadas três escalas, são elas: Escala de Amizade Íntima, Escala de Percepção de Auto-Conceito e Notação Social da família, entre outras variáveis que o autor não descreve.
Entre os principais resultados obtidos, pode-se destacar que os dados que referem-se á amizade íntima são mais altos no sexo feminino do que no sexo oposto. Uma hipótese colocada frente a esse dado, é o de que como as meninas tem uma definição mais precoce acerca do sua identidade, o que facilita o seu posicionamento e entendimento do seu papel nas relações sociais, especificamente de amizade.
Outro resultado interessante é o de que no sexo masculino as respostas que predominaram quanto á amizade íntima foi o de Actividades comuns, enquanto no sexo feminino, as meninas valorizam mais outras características da amizade íntima. Um dado que pode ser relacionado com este resultado, é o de que os meninos alcançam de forma tardia a maturidade exigida para a manutenção de amizade íntima, o que confere a este indivíduo, recorrentes aproximações a seus pares através de atividades e gostos em comum.

Resenha: crenças essencialistas sobre policiais e delinquentes

Saulo Santos Menezes de Menezes

O estudo de Pereira e cols. buscou avaliar o impacto do país de origem e da direção do transplante de cérebro no julgamento da conduta social de policiais e criminosos, e analisar, segundo o modelo das explicações folk das condutas sociais, as justificativas apresentadas pelos participantes para as suas respostas.
As hipóteses a serem testadas foram a da existência de alguma diferença no grau de essencialização entre os participantes espanhóis e brasileiros, diferenças de julgamento nas circunstâncias em que o cérebro é transplantado de um policial para um delinquente (condição hegemônica) ou na direção inversa (condição não-hegemônica), e a manifestação de diferenças em relação ao modelo explicativo adotado para a elaboração das justificativas para as respostas.
Para tanto, a pesquisa coletou dados em instituições de ensino superior localizadas no Brasil e Espanha. Foram feitos enunciados de histórias na quais se apresentava a versão onde o cérebro de um delinquente é transplantado para um policial. Cada participante avaliou a história relativa exclusivamente a uma das duas versões da categoria entitativa policial-criminoso, ou seja, do transplante do cérebro de policial para criminoso ou do criminoso para policial.
Os resultados mostraram que, para os participantes espanhóis, o cérebro de um policial pode modificar o padrão de conduta de um delinquente, mas o inverso não é verdadeiro. Por outro lado, o padrão de resposta dos participantes brasileiros não indicou qualquer diferença entre os valores esperados e obtidos nas respostas relacionadas com a direção do transplante do cérebro. Os participantes, desta forma, concordaram com o ponto de vista de que apenas uma alteração na natureza biológica do indivíduo pode gerar mudanças comportamentais.
Percebeu-se, no geral, que as fontes de explicação contemplam as causas internas, a história causal, as pressões situacionais e as razões, demonstrando a importância dos papéis, do status, do ambiente social e da dinâmica individual e coletiva no processo de essencialização da categoria entitativa policial/criminoso. Houve também uma indicação de que, enquanto alguns participantes concordaram com o ponto de vista de que apenas uma alteração na natureza biológica do indivíduo pode gerar mudanças comportamentais, outros foram absolutamente explícitos ao se referirem a teorias claramente essencializadoras. Neste ponto, os hábitos, costumes, rotinas, tradições culturais mostraram-se elementos importantes.
Portanto, a presença de uma teoria implícita tornou possível a expressão do raciocínio categórico essencialista nas circunstâncias em que o agente acolhe uma teoria que lhe permita justificar a estabilidade ou a mudança do comportamento. Os dados também sugeriram que estas teorias implícitas podem ser diferenciadas e que as explicações que se centram nas pressões situacionais explicam de forma predominante, mas não exclusivamente, a estabilidade da conduta. Assim, as pressões situacionais podem ser fundamentais para explicar a ausência de mudanças nas condutas que se seguem ao presumido transplante.

Referência: Pereira, M. E.; Estramiana, J. L. A.; Vasconcelos, C.; Alves, M. V. Crenças Essencialistas Sobre Policiais e Delinquentes. Psicologia: Teoria e Pesquisa Out-Dez 2010, Vol. 26, n. 4, pp. 707-715.

Cheirar Cola: Aspectos sociais e fisiológicos do uso crônico de solventes

Aline Almeida

O presente artigo tem como autores Mariana Martins Ferraz e Alfred Sholl-Franco, que possuem titulação de graduanda do curso de Medicina na UFRJ e Doutor em Ciências pela UFRJ, respectivamente. Ambos participam do programa de Neurobilogia da Universidade citada.
Os autores iniciam o texto colocando em pauta a questão do quanto o uso de drogas por adolescentes é um problemas que preocupa diversos setores da sociedade. Neste ponto, vale a pena ressaltar, o grande contingente de estudos científicos publicados acerca do assunto. Este tema é pesquisado por diversas áreas das ciências, e cada um fornece uma visão, de acordo com o seu objeto de estudo, sobre o fenômeno em questão. Ferraz e Franco também destacam a importância do debate sobre o assunto no meio científico para que novas propostas de intervenção possam ser criadas.
Discorrendo um pouco sobre o conteúdo do artigo, pode-se destacar a ênfase na condição fisiológica do sujeito ao utilizar algumas drogas, especificamente, solventes orgânicos. Por solventes orgânicos, entende-se como colas, tintas, thinners, aerossol, removedores e cosméticos. Segundo os autores, a maioria dos adolescentes que utilizam estas substâncias encontra-se em situação de rua. O uso acentuado dessa substância pode se dar ao fato de basto custo e facilidade no acesso, somado ao fato de causar sensações de euforia.
Quanto à parte fisiológica, os solventes orgânicos, extremamente neurotóxicos, além de deteriorarem a bainha de mielina causando a diminuição da velocidade do impulso nervoso, também dissolvem a membrana celular dos neurônios desregulando, assim, a concentração de íons intracelulares e dificultando a sinapses neuronais. Adicionado a isto, a maior parte destas drogas contém tolueno como principal componente, substância que, de forma aguda, pode comprometer o nervo vago com risco de depressão respiratória e arritmias. De forma crônica, o tolueno pode causar alterações cerebelares com distúrbios de movimento e instabilidade postural devido à importância dos neurônios cerebelares nos movimentos finos e manutenção da postura. O uso crônico de tolueno também pode causar déficit cognitivo, que seria o achado mais precoce da neurotoxicidade desta substância. Clinicamente, os pacientes podem apresentar apatia, demência subcortical, dificuldades de concentração, etc. Além do tolueno, outro componente dos solventes orgânicos é o n-hexano, que se acredita ser responsável por causar neuropatia periférica, gerando outros distúrbios de condução.
Para finalizar o artigo, os autores expressam o desejo de que outros estudos somados á esse, possam colaborar para a reabilitação de jovens usuários e aqueles que fazem parte de grupos de risco para que se atentem quanto aos prejuízos do uso dessas substâncias. Desta forma, o artigo, abre margem para outros estudos que enfoquem mais na área social e psicológica deste tema.

Referência:
 Ferraz,M.M, Franco,A.S. “Cheirar cola”: Aspectos sociais e fisiológicos do uso de solventes. Revista Ciências e Cognição, 2007; vol. 11. Pg. 204-207.

Resenha: As novas formas de expressão do preconceito e do racismo

Jerry Kambale Musema

Neste artigo o autor propõe uma reflexão quanto às novas formas de expressão do preconceito e do racismo, constatando suas diferenciações, denominando-as como ‘novas expressões’ de preconceito e racismo, pontuando conceitualmente o racismo moderno e simbólico da Austrália e dos EUA, os racismos aversivos e ambivalentes no EUA, juntamente com o preconceito sutil da Europa e o racismo cordial do Brasil, esclarecendo o diferencial entre preconceito e racismo.
O preconceito contemporâneo é visto como uma atitude invasiva étnica que pode ser dirigida a um grupo como um todo ou a um indivíduo, por fazer parte de um determinado grupo com suas peculiaridades tanto físicas quantas fenotípicas. O racismo por outro lado é fruto de uma discriminação étnica representada pela cor da pele ou uma marca física rotulado como diferente, sendo ampliado para a exclusão hierárquica social, ficando explicito que o racismo é uma distinção biológica entre grupos e o preconceito é a atitude excludente que pode sofrer o individuo tanto institucionalmente quanto culturalmente. O preconceito é a forma verbal do racismo, isto é, o preconceito se resume como uma atitude sendo uma consequência restringindo-se em ato/ação, enquanto o racismo constitui em discriminação étnica racial juntamente a exclusão social.
As novas formas de expressão do preconceito e do racismo são mostradas através de dados quanto às mudanças históricas relacionados aos estereótipos, após a 2ª guerra mundial é perceptível um preconceito, mas leve e um racismo acobertado devido aos movimentos pelos direitos civis nos EUA, Declaração dos Direitos Humanos entre outras atitudes raciais, evidenciando transformações quanto a uma nova demonstração de racismo e preconceito referente ao comportamento discriminatório habitual das pessoas e nas suas relações interpessoais. Revelando que estamos muito longe da igualdade racial e social.
O conceito de racismo simbólico se baseia em um sentimento de intimidação, contra os negros, quanto os mesmos representarem uma ameaça aos valores éticos, sociais, culturais e econômicos, contestando os valores do grupo dominante, atingindo desta forma o status quo. O conceito de racismo moderno é apresentado como uma forma oculta de racismo, não transparecendo socialmente, sendo encoberto por expressões antirracistas. Sendo assim, é perceptível que os dois conceitos de racismo têm a mesma base, quanto à ameaça do negro aos valores ditos como importantes pelos brancos, visto que a sua afirmação é crescente, mediante preconceitos e discriminação.
O conceito de racismo aversivo constitui em mostrar a ambiguidade dos valores éticos, democráticos e antirracistas dos brancos americanos, quando os mesmos que defendem a igualdade democrática são defrontados com situações inter-racial em que os brancos tem que justiçar a discriminação, esses discriminam os negros. Os racistas não incluem os negros como seres cidadãos, portanto não estão no rol daqueles que tem direito a democracia. Em uma análise psicanalista e etiológica é notório que o racista dominante se esconde por trás de um discurso vazio não racista que contribui para o desenvolvimento de estereótipos e preconceitos.
O conceito de racismo ambivalente ressalta os pressupostos do racismo aversivo, pois ambos procuram mostrar a sociedade uma imagem democrática não preconceituosa, entretanto na visão psicanalítica existe dois tipos de atitudes o pró e anti negros. As atitudes anti negros tem uma percepção e sentimentos negativos aos negros, quanto a sua cultura, demonstrando aversão a qualquer tipo de afeto ou sentimento. Enquanto as atitudes pró-negros produzem um afeto exacerbado como demonstração de não discriminação aos negros, na tentativa de encobertar seus verdadeiros sentimentos.
O preconceito sutil é estudado na Europa, proveniente do preconceito direcionado a uma pequena cultura de antigas ex-colônias, surgindo assim uma nova expressão de preconceito, esse não somente atingi aos negros como também grupos exógenos ou externos, esse preconceito se fundamenta em três dimensões, a primeira está relacionado a valores tradicionais e crenças, a segunda enfatiza o exagero das diferenças e dos seus estereótipos e por último a negação e a rejeição do exogrupo. Diferentemente do preconceito flagrante, que se subdivide em duas dimensões que se baseiam em rejeições, a primeira diz respeito a um conceito de que o exogrupo apresenta uma ameaça a economia e o ultimo diz respeito a rejeição intima, em que eles não se relacionam emocionalmente, nem sexualmente com os integrantes do exogrupo.Sendo assim pode-se verificar que o preconceito flagrantes é mais direto e quente, ao passo que o preconceito sutil não se manifesta abertamente, sendo mais frio e indireto.
O racismo cordial tipicamente brasileiro, onde a maioria da população é birracial e se julgam não racistas, porém traz um preconceito “não intencional”, revestido de brincadeiras e zombarias, fortalecendo o mito racial e a teoria do embranquecimento, popularizando desta maneira o racismo de forma interpessoal contribuindo para a propagação e ridicularizando os estereótipos dos negros.
O autor traz contribuições teóricas, empíricas e conceituais, quanto a reflexões de novas formas de expressões de preconceito e racismo, afirmando que essas novas expressões devem ser estudadas e analisadas, pois elas aos serem expressas ou mesmo ocultas são formas de conscientizar-se para combatê-las.

Refêrencia: Estudos de Psicologia 2004, 9(3), 401 http://www.scielo.br/pdf/epsic/v9n3/a02v09n3.pdf

Resenha: Os estereótipos e o viés linguístico intergrupal

Saulo Santos Menezes de Almeida

Neste trabalho, Pereira e cols. procuram determinar como participantes adultos e crianças, de etnia branca e negra, utilizam as categorias linguísticas para codificar cenas apresentadas de forma visual em que aparecem personagens do ingroup e do outgroup. As cenas apresentadas são socialmente consideradas socialmente positivas e negativas.
De natureza experimental, quatro estudos verificaram as ações negativas dos membros do ingroup e as positivas dos membros do outgroup, e as positivas dos membros do ingroup e as negativas dos membros do outgroup. Vale ressaltar que as hipóteses foram testadas levando em consideração a perspectiva motivacional do modelo das categorias linguísticas intergrupais onde se tende a eliciar respostas abstratas e o modelo cognitivo onde as respostas que fogem às expectativas tendem a ser interpretadas de forma mais concreta.
Para todos estes estudos é então levado em consideração o modelo de categorias linguísticas intergrupais e o viés linguístico intergrupal. Semin e Fiedler (1988), através de seus estudos, diferenciam quatro categorias linguísticas predominantemente utilizadas na descrição de pessoas e eventos: 1) os verbos que descrevem ações, comportamentos específicos e observáveis com começo e fim delimitados; 2) os verbos que interpretam ação, onde se encontra subjacente uma interpretação; 3) os verbos que fazem referências a estados duradouros; e 4) os adjetivos, que se referem às características disposicionais do indivíduo.
O viés linguístico intergrupal sugere que há uma tendência na avaliação do comportamento dos outros de uma forma diferenciada, sendo que se a ação for uma ação positiva dos membros do próprio grupo, a causa do comportamento é atribuída a fatores de natureza pessoal ou interna, enquanto o mesmo tipo de ação, executada por membros do outgroup, tende a ser interpretada como produzida por fatores de natureza externa ou situacional. Sendo que, no caso dos comportamentos negativos observa-se o oposto. Portanto, o viés linguístico intergrupal pode ser interpretado como um indicador implícito de preconceito.
O primeiro experimento procurou responder em que medida indivíduos avaliam personagens que pertencem ao próprio grupo e a um grupo externo de uma forma diferenciada, e se as categorias linguísticas usadas são as mesmas. Para tanto, utilizou-se de uma amostra de 87 participantes adultos selecionados por critério de conveniência em locais públicos da cidade de Salvador. Os dados foram obtidos através de uma escala em que se apresentou uma série de alternativas e o participante indicou a que melhor retratava a natureza da cena visualmente apresentada.
O experimento utilizou um caderno de apresentação em que estavam desenhadas seis cenas, três socialmente positivas e três negativas. Foram elaborados dois conjuntos de cenas, em que todos os personagens centrais eram crianças, sendo que cada conjunto retratava os personagens centrais como de etnia branca ou negra. Os resultados deste experimento mostraram que não foi encontrada qualquer diferença no plano estatístico, nem na avaliação da etnia do personagem retratado nem na análise de cada uma das cenas em separado.
Tentando responder as mesmas questões do primeiro experimento, o segundo experimento utilizou uma amostra de 88 participantes, e ao invés de indicar a opção que melhor retrataria a natureza da cena, estes foram convidados a elaborar uma frase a respeito da cena e do seu protagonista. Os resultados indicaram que, ao contrário do esperado, participantes negros e brancos codificaram uma cena negativa em que um membro do outgroup é retratado negativamente de uma forma mais abstrata do que concreta que a avaliação dos membros do ingroup. No entanto, os participantes avaliaram mais positivamente às ações encetadas pelos membros do próprio grupo.
Quanto ao terceiro experimento, assim como o quarto, ao contrário dos anteriores, investigaram-se os padrões de codificação linguística em uma amostra de 40 crianças frequentadoras de uma escola particular da cidade do Salvador, e adotou um procedimento computadorizado para apresentação das cenas e coleta dos dados. Os resultados apontaram que os participantes brancos, de uma forma compatível com as hipóteses do viés linguístico intergrupal, codificaram as cenas positivas em que são representados membros do ingroup de uma forma mais abstrata que as cenas em que são representados membros do outgroup.
Os resultados apresentados pelos participantes negros, no entanto, apontam numa direção contrária, já que as ações positivas encetadas pelos membros do outgroup foram avaliadas de uma forma mais abstrata que as realizadas pelos membros do ingroup. No caso das cenas negativas, os resultados não estão de acordo com o esperado na literatura. No caso da influência conjunta da etnia do participante e do personagem, não foram encontradas diferenças significativas na codificação de nenhuma das seis cenas, assim como no caso da influência isolada da etnia do participante. No caso da influência da etnia do personagem, foram encontradas diferenças significativas marginais em três cenas.
No quarto experimento utilizaram-se relatos livres apresentados por cada um dos participantes. A amostra foi constituída por 21 participantes selecionados. Pode-se observar que participantes brancos e negros avaliaram de forma mais abstrata os comportamentos positivos apresentados pelos membros do seu próprio grupo étnico. E os resultados indicaram que a etnia do participante e a do personagem interagira apenas na cena em que o personagem ajuda uma senhora idosa a atravessar a rua.
Assim, os estudos apontaram que, de uma forma geral, não se encontrou qualquer evidência sistemática de que os participantes codificaram de forma mais abstrata as cenas positivas em que eram representados membros do ingroup e a as cenas negativas em que eram representados membros do outgroup.

Referência: Pereira, M. E.; Fagundes, A. L. M.; Silva, J. F.; Takei, R. Os estereótipos e o viés linguístico intergrupal. Interação em Psicologia, 2003, 7(1), p. 125-137.

Resenha: Estilo de vida como indicador de saúde na velhice

Rose Luz Silva Perez


Após a revisão de pesquisa bibliográfica sobre o tema do envelhecimento, a autora discute sobre a importância do estilo de vida como fator determinante para a qualidade de vida na velhice. Tendo em vista o incremento acentuado do número de idosos na população adulta mundial, o tema torna-se relevante quando se discute sobre saúde coletiva e envelhecimento saudável.
Na sociedade contemporânea, a longevidade tem sido cada vez mais buscada como meta não apenas pela medicina, mas também pelos cidadãos. Porém, em contrapartida, na visão da autora, em função das imagens estereotipadas e/ou preconceituosas sobre os indivíduos idosos, não vem sendo realizado investimento compatível para o reengajamento funcional ou ocupacional destes após a aposentadoria, o que tende a trazer prejuízos para a saúde. Os insuficientes e inexpressivos estímulos socioculturais atrelados à dificuldade natural dos idosos de se adaptarem aos padrões vigentes da sociedade podem, sorrateiramente, fragilizar o sentido de pertencimento social e o de ser desejante.
O empobrecimento da qualidade de vida na velhice não encontra respaldo científico, sobretudo no primeiro terço da velhice. Por questões diversificadas, inúmeros idosos perdem o seu prazer de viver. O surgimento da geriatria como especialização dentro da área da medicina na década de 30 e o da gerontologia na década de 50, demonstram o status e a importância que vem sendo dada ao tema, já que envelhecer com saúde tornou-se um desafio primordial conforme preconiza a Organização Mundial de Saúde. A ciência vem acumulando uma diversidade considerável de saberes sobre o processo de envelhecimento, porém, as diferenças individuais, as quais são dependentes de eventos de origem psicológica, sócio-histórica e genético-biológica, revelam em si a dificuldade para homogeneizar um fenômeno por natureza complexo e heterogêneo.
A autora destaca o conceito de “Envelhecimento Ativo” definido como o processo de otimização de oportunidades para a saúde, sendo o bem-estar psicossocial uma de suas principais vertentes para a qualidade de vida. Neste sentido, deve ser estimulada a ampla participação do idoso nas esferas de construção de políticas públicas, na vida social e comunitária.

São destacadas algumas pesquisas que demonstram que o declínio das habilidades físicas e mentais não resulta somente do avanço da idade, mas também dos fatores socioculturais que contextualizam o idoso. Acerca dos fatores precipitantes de incapacidade funcional, é destacada a área cognitiva. A necessidade de estímulo para o constante uso desta área é descrito como fator preponderante para o quadro de saúde do idoso e manutenção da capacidade funcional do mesmo. Esta última tem como principais características a autonomia e a independência, considerados como fatores diferenciadores entre a senescência e a senilidade. Assim, é defendido que o estilo de vida seja considerado como indicador de saúde na velhice como forma de receber mais atenção e cuidado ao se pensar em prevenção ou promoção da saúde na senescência.

Referência: Figuereido, V. L. M. Estilo de vida como indicador de saúde na velhice. Ciência & Cognição, 04, 12, 156-164, 2007. 

Resenha: Representação social de crianças acerca do velho e do envelhecimento

Priscila Bahia

Nos tempos atuais, envelhecer não é mais privilégio de poucos países, consiste numa realidade populacional; estima-se inclusive que no Brasil, em 2020, o contingente será superior a 30 milhões de pessoas. E acompanhando a mudança no perfil populacional há alterações (ou não) nas imagens e representações desta faixa etária na sociedade. Percebe-se, na sociedade contemporânea, a coexistência de diversas imagens de velhos, estes como ativos e com capacidade para viver a sua vida plenamente; mas também como improdutivos, doentes, solitários e assexuados por exemplo.
As autoras, Ewellyne Suely de Lima Lopes e Margareth Brandini Park, objetivaram com o presente estudo investigar a representação social de um grupo de crianças, no total de 31, acerca do velho e do envelhecimento. Para tanto, utilizaram como metodologia desenho, entrevista semi-estruturada e brincadeira tematizada. A compreensão de como o velho e o envelhecimento são apreendidos e representados possibilita o entendimento de comportamentos e sentimentos para com esta faixa etária.
Os resultados mostraram que as crianças deram ênfase às características físicas (cabelos brancos, rugas, ausência de dentes, voz enfraquecida) como uma forma de reconhecer os velhos; as diferenças entre as imagens corpóreas possibilitam o reconhecimento da faixa etária de cada membro. Contudo houve relatos de relatividade destas características físicas, como uma pessoa ser velha e ter cabelos negros, sendo necessário recorrer a outro aspecto. As crianças também apresentaram a representação de velho associada à representação de avós, além de doenças, fragilidade, limitações/dependências físicas e morte. Porém as crianças também trouxeram imagens desta faixa etária como incluídos ativamente nas atividades e integrados à sociedade. Já quanto ao envelhecimento as crianças o definiram como um ciclo ao qual estão todos sujeitos, inclusive eles.
A coexistência de distintas imagens sobre esta faixa etária, ora discurso de dependência física, ora discurso de sujeitos inclusos na sociedade, também se fez presente no estudo. Isto demonstra a diversidade de informações e relações estabelecidas com este grupo específico, conteúdos que servem como base para a construção das representações sociais. Entretanto fica a pergunta: diante de tamanha heterogeneidade, quais imagens sobressaem-se sobre as outras? Pois lembremos que, ao pensar em um grupo, possivelmente os aspectos negativos chegam primeiro.

Referência: Lopes, E. S. L.; Park, M. B. (2007). Representação social de crianças acerca do velho e do envelhecimento. Estudos de Psicologia, 12(2), 141-148.
Disponível em: <http:www.scielo.br/pdf/epsici/v12n2/a06v12n2.pdf>