Foto do dia: bukitinggi kids (people of the world)

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Foto do dia: Aroosak (people of the world)

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Foto do dia: hula dancers手叉腰 (people of the world)

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Notícia do dia: Jovem negro tem 2,6 mais chance de ser assassinado que um branco

Contribuição: Diogo Araújo

Uma pesquisa realizada em conjunto pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a ONG Observatório de Favelas prevê que mais de 33,5 mil jovens serão assassinados entre 2006 e 2012. Dentre estes que perderão a vida, a maioria será de jovens negros. Este indicador alarmante da efetiva discriminação racial existente no Brasil foi noticiado pelo portal G1. Clique aqui para ler a reportagem.

Resenha: Estereótipos e mulheres na cultura marroquina

Yasmin Oliveira

O artigo “Estereótipos e mulheres na cultura marroquina” de Fatima Sadiqi faz parte de um dossiê sobre a questão de gênero no Islã, da revista brasileira cadernos pagu. Tem como objetivo esclarecer o público de língua portuguesa e espanhola sobre a atual situação, no Marrocos, sobre o Islã a as relações de gênero.

Fatima Sadiqi, autora deste artigo é professora da Universidade de Fez, Marrocos. Ela apresenta os estereótipos sobre as mulheres e como estes são significativos na cultura local, que aplica representações poderosas para transmitir e sustentar tais estereótipos. No entanto, realça que as marroquinas não são receptoras e transmissoras passivas, elas utilizam estratégias para lutar contra tais estereótipos.

Segundo Sadiqi, os estereótipos, sobre as mulheres no Marrocos, podem ser definidos como crenças culturais incompletas e inexatas mantidas por algumas pessoas e que se encontram inscritos em expressões lingüísticas ou em discursos subliminares.

No país em questão, a importância peculiar destes estereótipos se dá porque a sociedade marroquina é extremamente reguladora e cria uma forte postura cultural que se manifesta nos modelos de pensamento e nas atitudes.

O artigo se encontra estruturado, didaticamente, em três sessões principais: os componentes principais da cultura marroquina; estereótipos e a relação de gênero na cultura; e reações das mulheres aos estereótipos negativos.

A apresentação inicial que ela faz sobre a cultura marroquina é essencial para o entendimento de como essas relações de gênero se dão e quais os estereótipos negativos ligados às mulheres marroquinas.

Ao delinear os componentes que constituem a cultura, Sadiqi, a partir de sua definição, explica que todas as culturas controlam seus membros diferindo apenas quanto ao grau de controle. O forte nível de controle exercido nesta cultura está, principalmente, ligado às instituições sociais descritas pela autora: história, geografia, Islã, oralidade, realidade multilíngüe, organização social, status econômico, e sistema político. Todas desempenham impacto direto na percepção de gênero e determinação de papéis.

Entre os componentes culturais mais importantes para a percepção de gênero dos marroquinos, está a geografia. O país encontra-se entre a África e a Europa. Essa aproximação com culturas diferentes tornou-o flexível: com uma tolerância religiosa, de uma heterogeneidade cultural e uma complexidade lingüística. Flexibilidade esta, que admite uma atitude mais positiva com relação às mudanças dos papéis relativos aos gêneros.

A política atual é um dos mais ilustrativos exemplos, de tolerância e até ambigüidade, trazidos por Sadiqi. O poder público, e conseqüentemente o ambiente político, são culturalmente de competência apenas dos homens. No entanto, a própria monarquia tem trabalhado insistentemente para a entrada das mulheres no ambiente político.

Fatores como a história nacional, que apresenta o ponto de vista patriarcal, de subordinação das mulheres, reforçam os estereótipos negativos. Assim como, a oralidade, típica da cultura marroquina, que devido à força e ao valor atribuído a fala e as expressões verbais locais, ajudam a perpetuar os papéis de gênero no país.

De acordo com o texto pode-se dizer que a linguagem é o fator essencial para o entendimento do processo de criação, estabelecimento e perpetuação dos estereótipos no Marrocos. Na cultura marroquina a fala possui um forte valor. Isso ocorre pois as línguas maternas, o berbere e o árabe marroquino, são tradições lingüísticas orais. Dessa forma o falado publicamente se iguala aos contratos escritos (valor da cultura ocidental). A oralidade é típica desta sociedade e é a forma mais comum de transmissão dos estereótipos sobre as mulheres.

As línguas faladas também estão associadas ao status social. As mulheres com baixo nível de educação e classe social falam, normalmente, apenas o berbere e/ou o árabe marroquino, dessa maneira são, na maioria dos casos, analfabetas e ainda mais alheias ao contexto político.

A relevância de estudar a cultura marroquina e seus conseqüentes estereótipos de gênero é poder traçar a evolução das relações de gênero no país. Apesar da heterogeneidade observável das mulheres marroquinas, elas fazem parte da mesma organização social, a que Sadiqi se propôs, exaustivamente, a explicar. E é na unidade primordial da sociedade – a família – que se inicia o processo de estereotipagem. Estes estereótipos construídos no nível familiar, vão sendo valorizados no contexto sócio-cultural, perpetuando-os.

Os estereótipos explícitos sobre as mulheres no Marrocos costumam reforçar os modelos de “boas mães” e “esposas”. Enquanto que os estereótipos implícitos são percebidos nos comportamentos e na fala e são extremamente danosos e permanentes. Ambos podem ser negativos ou positivos, ou ainda, ditos como “nocivos”, no sentido da pressão que fazem sobre as mulheres.

No entanto, as marroquinas reagem a estas crenças negativas. As estratégias de reação aos estereótipos variam de acordo com as variáveis sociais, como as de origem geográfica, de classe, nível de educação, estado civil, entre outras.

Segundo a autora, elas utilizam artifícios variados, como o uso de outros estereótipos, os chamados “contratipos”, que substituem os estereótipos negativos já existentes, assim com as, tentativas de grupos de defesa femininos que estão em processo de busca por modelos de mulheres bem sucedidas tanto na vida pública quanto na educação. O Marrocos é carregado de estereótipos negativos em relação às mulheres, a maioria deles difíceis de serem evitados devido à cultura local. E a primeira ação necessária para combatê-los, de acordo com Sadiqi, é torná-los conscientes.

Apesar de todas as dificuldades existentes, estratégias de reação aos estereótipos negativos estão sendo elaboradas. Assim como, o delineamento dos estereótipos que afetam as marroquinas. E como é possível observar pelo exemplo da própria autora do artigo – uma profissional renomada da Universidade de Fez – modelos estão aos poucos sendo erguidos.

Referências:
Sadiqi, F. Estereótipos e mulheres na cultura marroquina. Cadernos pagu (30), 11-32, 2008.
Harrak, F.;Aouad, O. Apresentação. Cad. Pagu, Campinas, ( 30), 2008 .

Estereótipos e música: all I need

Contribuição: Gilcimar Dantas

Estereótipos e música: gypsy woman

From nowhere through a caravan
Around the campfire light
A lovely woman in motion
With hair as dark as night
Her eyes were like that of a cat in the dark
That hypnotized me with love

She was a gypsy woman
She was a gypsy woman

She danced around and round to a guitar melody
From the fire her face was all aglow
How she enchanted me
Oh, how I’d like to hold her near
And kiss and forever whisper in her ear

I love you, gypsy woman
I love you, gypsy woman

All through the caravan
She was dancing with all the men
Waiting for the rising sun
Everyone was having fun
I hate to see the lady go
Knowing she’ll never know
That I love her, I love her

She was a gypsy woman
A gypsy woman
A gypsy woman
A gypsy woman

Resenha: o brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente

Gilcimar Dantas

A expressão do preconceito racial no Brasil é um fenômeno difícil de ser compreendido, percebido e, portanto, enfrentado. Isto se dá por conta dos seus mecanismos subliminares que encontram suporte na cordialidade dando a impressão de que não há racismo neste país, levando à conclusão de que não se deve adotar nenhum tipo de postura frente a tal situação. Segundo o autor, em uma pesquisa realizada pelo Datafolha, em 1996, 89% dos brasileiros afirmaram que existia racismo no Brasil, entretanto apenas 10% admitiram esse racismo como seu, apesar de serem unânimes ao admitirem que o racismo é percebido em outras pessoas. Sendo assim, neste campo extremamente confuso, se torna altamente difícil a concretização de medidas que contribuam para a mudança desse quadro. Por conta disso, a população negra acaba tendo dificuldades em construir uma identidade positivamente afirmada que culminaria no engajamento em políticas com o objetivo de melhoria de sua condição social.

Tendo como referência as situações acima citadas, o autor busca investigar alguns processos presentes na construção da identidade do negro brasileiro partindo de algumas experiências vividas por três mulheres de uma família negra. Essas três pessoas possuem aparências diferentes no que tange o gradiente de cor, sendo consideradas anteriormente uma delas como morena, outra como morena e a última como parda. Não obstante, devido a episódios de discriminação racial e à participação em grupos de militância elas passaram a se enxergar como negras independente da tonalidade mais escura ou mais clara de pele.

Segundo o depoimento de membros dessa família, os filhos quando eram crianças não ouviam falar de preconceito racial e quando esses assuntos viam à tona eram tratados de maneira jocosa. Para o autor, essa forma de lidar com o preconceito é algo comum na sociedade, entendendo que a melhor maneira de lidar com racismo é o silêncio e que o termo moreno, palavra arraigada na cultura brasileira, é uma forma politicamente correta de se referir ao negro, que tem como função a fuga de uma realidade de discriminação levando esse indivíduo a se identificar com símbolos ligados ao grupo dominante.

Dentre os espaços favoráveis às distorções dos referenciais da comunidade negra está a escola, a qual é um microcosmo da sociedade que rodeia a criança, reproduzindo de maneira subliminar uma imagem caricatural do negro, estimulando os estereótipos de submissão do afro-descendente. Tudo isso apoiado numa visão de mundo eurocêntrica que cria um processo pedagógico que leva a pessoa negra a não reivindicar os seus referenciais culturais e seus interesses políticos e sociais. Além disso, os padrões de beleza derivados da estética branca são usados como referência correta e positiva em contraposição a uma estética negra considerada primitiva, menor e exótica.

Uma das mulheres entrevistadas afirma que se esfregava muito quando começou a tomar banho sozinha pois achava que a cor da sua pele era sujeira. Outra disse que na época da escola foi ridicularizada por seus amigos e seu namorado. Assim, essas mulheres buscavam se aproximar ao máximo dos padrões de indivíduos considerados brancos. Neste contexto, as pessoas negras tendem a internalizar valores desqualificados sobre si mesmas e nunca se sentindo satisfeitas com os seus êxitos, pois jamais conseguirão atingir o ideal branco.

De todo modo, essa pessoa tomando consciência da desvalorização a qual esta submetida, ela pode fazer um movimento contrário ao que está estabelecido assumindo uma postura de valorização de suas características culturais e raciais. Essas experiências são, normalmente, conflitivas, pois afrontam uma maneira de ver o mundo e a si mesma levando-a a um questionamento sobre uma realidade de rejeição difícil de ser negada e que, por sua vez, a leva a uma ruptura com todo um mundo simbólico. Após essa ruptura, o individuo passa a desenvolver uma nova estrutura com referenciais em matrizes africanas, voltando-se ao engajamento em organizações que buscam estratégias de combate ao racismo e em movimentos que valorizam a cultura negra.

O autor chama à atenção ao fato de as pessoas que adotam a militância como modo de vida tenderem a desenvolver uma identidade apoiada em procedimentos de vedamento e exclusão que resultam na repetição do terreno que elas mesmas se decidiram modificar. De qualquer forma, ele considera importante a presença de pessoas negras em movimentos de militância

Mas é importante estar atento também à importância de reivindicações de especificidades á comunidade negra exatamente por conta da exclusão em esferas da sociedade aonde os brancos são a maioria ou, até mesmo, a totalidade. Nestes contextos, quando se tenta delimitar um espaço no intuito de que a presença e o direito dessas pessoas sejam garantidos, muitos costumam dizer que está havendo racismo ao revés. Na verdade, não é disso que se trata, mas sim de uma necessidade de garantir que coisas se concretizem em um espaço aonde os negros sofrem de uma imensa desvantagem. De toda sorte, não existem subsídios políticos, financeiros e ideológicos para se reproduzirem um terreno tal qual ele se encontra, sendo que forma contrária, por parte dos negros.

Para o autor, o afro-descendente passa a abandonar ideologias simplificadoras, reconhecendo as impressões anteriores sobre negritude como românticas e idealizadas, havendo uma decepção com os grupos radicais e passando a participar de grupos mais envolvidos seriamente com o combate à discriminação e de valorização das matrizes africanas. Neste sentido, a pessoa passaria a ter atitudes mais abertas e menos defensivas nas quais, além de manter relações com outras pessoas negras, construiria relacionamentos significativos com outros indivíduos não-negros respeitando as auto-definições destes. Poderá, também, participar de coalizões com outros membros de grupos organizados a respeito de outros pontos de vista. A partir de então, referências de raça e africanidade passam a ser questões de grande importância na vida dessa pessoa. Uma das mulheres entrevistadas, nesse sentido, afirma que agora é negra, não precisa mais lutar contra isso e que, não nasceu negra, se tornou negra.

Para Ferreira, um processo histórico, no Brasil, articulado a um projeto de modernidade apoiado cientificamente desenvolveu meios que acabam por deslegitimar o africano, juntamente com o mito da democracia racial que tende a negar esse fato. Mas, de qualquer forma o que foi apresentado no então trabalho também apresenta mecanismos que tornam possíveis uma reversão desse quadro. Sendo assim, se fazem necessários o debate sobre preconceito e discriminação na escola sob uma ótica mais abrangente, a participação em grupos de militância com objetivos políticos e culturais e fomentos dessa discussão na academia através de estudos voltados à questão do afro-descendente.

Por fim, o autor conclui ser importante que a pessoa branca não negue as sua raízes culturais africanas e indígenas, assim como o negro não negue as sua raízes européias e indígenas, pois esta é uma luta do brasileiro que é culturalmente negro, branco e indígena.

Isso é, de fato, relevante, mas é necessário se ter a sensibilidade para o foco num referencial ancestral o qual o indivíduo negro possa se sentir pertencente, ter um passado do qual deva se orgulhar e construir a sua identidade para não cair em um discurso que afirma que todos são miscigenados e que, por sua vez, não faz sentido reivindicar direitos a um grupo racial específico.

Referência: Ferreira, R. F. (2002). O brasileiro, o racismo silencioso e a emancipação do afro-descendente. Vol. 14 (1): 69-86.

Notícia do dia: para especialistas, preconceito incentiva e facilita o tráfico de pessoas

As consequências do preconceito se manifestam em vários níveis e nos mais diversos domínios. Nas palavras de Thaís Dumet, coordenadora do projeto de Combate ao Tráfico de Pessoas da OIT, “temos uma sociedade machista, adultocêntrica e preconceituosa. O tráfico de pessoas é objeto de preconceito porque atinge mulheres, negros, pobres, crianças, e a população segregada socialmente”. Clique aqui para ler a reportagem publicada no UOL.

Resenha: A expressão das formas indirectas de racismo na infância

Contribuição: Aruanã Fontes

O racismo tem se tornado cada vez mais indireto, discreto e sutil na sociedade contemporânea. Assim, buscam-se atenuar as expressões explícitas do preconceito, substituindo-as por novas formas que não evidenciem seu caráter discriminatório. Vários estudos na área da psicologia social têm se debruçado sobre este tema para descrevê-lo ou constatar as suas causas, entretanto normalmente focam nos adultos. França e Monteiro contemplam este assunto, direcionando seus estudos para as novas expressões do racismo, porém na infância. As autoras, no artigo, buscam confrontar as teorias cognitivas do desenvolvimento que consideram que a partir dos 7 ou 8 anos as crianças – devido ao desenvolvimento das capacidades cognitivas – se tornam menos preconceituosas. Para isso elas fazem uma breve revisão da literatura acerca da discriminação sutil em adultos, a fim de aproximar estes conceitos da realidade das crianças. Dentre as abordagens apontadas, a teoria do racismo aversivo de Dovidio e Gaertner merece destaque. Esta teoria afirma que as expressões de racismo dependem do contexto de resposta. Assim, nos meios em que o socialmente esperado não se faz claro, ou que há uma justificativa para a discriminação, o racismo se faz evidente. Gaertner concluiu que a saliência da norma anti-racista faz com expressões de racismo sejam evitadas. Esta justificativa, para França e Monteiro, serve também para o fato de as crianças acima de 8 anos começarem a reduzir ou extinguir suas manifestações de discriminação. Para as autoras a partir desta idade já há interiorização das normas sociais anti-racista, e o discernimento dos locais em que pode ou não discriminar as outras crianças. França e Monteiro elaboram três estudos com crianças brancas, com uma quantidade balanceada de crianças entre 8 e 10 anos e entre 5 e 7 anos, para comprovar que as primeiras já se assemelham aos adultos no que diz respeito a expressão discreta do racismo. Vale salientar que todas tinham capacidade de realizar e entender as tarefas requeridas. No primeiro estudo foi dada uma instrução na qual cada criança teria que recompensar duas crianças-alvo (uma negra e uma branca) por ter ajudado em uma tarefa, carregando tijolos – historia fictícia. O contexto poderia ser: igualitário – os alvos com o mesmo desempenho na tarefa –, o qual comporta justificação para a discriminação; ou contexto de diferenciação – o alvo negro com menor desempenho que o branco ou vice-versa – onde a discriminação era justificável. A discriminação seria, então, detectada através da distribuição dos doces em cada contexto. As autoras confirmaram as hipóteses de que: no geral o alvo Negro seria discriminado; as crianças menores o discriminariam em qualquer contexto e as maiores apenas no contexto em que havia justificativa para tal. O segundo estudo foi realizado em escolas onde cada criança participava de uma entrevista. Uma entrevistadora negra dava notas de brinquedo à criança para que as distribuíssem para duas crianças em fotos – uma branca e uma negra – dizendo que estas notas seriam revertidas em dinheiro real, para ajudar as crianças a comprarem suas bicicletas. Este estudo procurava testar o impacto do nível de saliência da norma anti-racista – representada pela presença ou ausência da entrevistadora – na discriminação – observada através da quantia de dinheiro que destinada aos alvos. Constatou-se que, como esperado, as crianças mais novas discriminaram o alvo negro independente da saliência da norma, ou seja, estando a entrevistadora presente ou não. Já no grupo de crianças mais velhas, houve discriminação somente no contexto onde a norma anti-racista não era saliente, no qual a entrevistadora tinha se retirado. Para investigar o período da infância no qual já existi a interiorização das normas contra o racismo, foi elaborado um terceiro estudo com um grupo de crianças e de mães. Foi mostrada, então, uma lista com 11 grupos (doentes de SIDA, homossexuais, índios, condutores de risco, negros, cegos, pessoas feias, gordas, racistas, pessoas sujas e políticos). Para as mães foi perguntado o quanto era normal ter sentimentos negativos com relação a cada grupo, e para as crianças o quanto elas gostavam destes. As escalas para os dois grupos iam de 1 (acha certo – para as mães – ou gosta – para as crianças) a 3 – o extremo oposto. Os resultados mostraram que os grupos os quais as mães achavam mais aceitável o preconceito, as crianças de todas as idades mostravam discriminação com relação a estes. Contudo, com relação ao grupo de negros, as mães não consideram permitido o preconceito e as crianças de 5 a 7 anos os discriminaram. Porém, as mais velhas revelaram sentimentos positivos com relação ao grupo focado, se mostrando compatíveis com as normas do seu grupo de referência. A partir dos estudos, pode-se constatar que as crianças a partir dos 8 anos já interiorizaram, pelos menos parcialmente, as normas anti-racistas. Ao contrário do que a teoria cognitiva do desenvolvimento afirma, elas não deixam ter preconceitos, e sim driblam as regras sociais. Assim, em contextos onde essas regras não estão salientes ou em que há justificação para a discriminação, que não a racial, elas se mostram racista. Estudos como estes tem grande relevância, pois ao verificar expressões indiretas de racismo na infância devemos mudar nossas práticas com relação às crianças, ou seja, os estudos implicam em uma transformação na maneira de ver os comportamentos delas. Nas escolas, por exemplo, é preciso estar atento as relações entre as crianças, já que, muitas vezes, quem percebe as formas sutis são apenas aquelas que sofrem com o racismo. Estas formas são muitas vezes tidas como exagero da vitima, o que vai interferir na formação de sua identidade racial.

Referência França, D. X. e Monteiro, M. B. (2004). A expressão das formas indirectas de racismo na infância. Análise Psicológica. Vol. 4 (22): 705-720.