Resenha: sexismo, homofobia e outras expressões correlatas da violência

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Anna Paula Brandão

O artigo pretende expor as práticas e abordagens para com as vítimas de violência, apontando os modelos teóricos que dão suporte aos profissionais inseridos em programas de apoio a vítimas de violência, comparando esses modelos e dialogando com as políticas sociais. O objetivo da autora é tratar do sexismo e da homofobia expressos através de atos de violência, destacando a importância da compreensão de questões sociais e estruturais para abordar esse tema.
Os debates sobre feminismo ganham força a partir dos anos 80, entretanto a autora relata o tímido espaço em que esse tema é abordado na academia brasileira, em contraposição a grande produção acadêmica nas áreas das ciências sociais, antropologia, história e psicologia social em países de língua anglo-saxônica. Destaca ainda as políticas sociais pautadas nas questões de gênero, com uma série de serviços e instituições especializadas, a partir da década de 80, como um possível apaziguador dos debates e discussões em torno da violência de gênero. Como se o reconhecimento público (através de políticas sociais) bastasse e encerrasse a discussão.
Entretanto, a despeito da rede especializada e da ampla quantidade de informações sobre o tema, muitas questões continuam sem superação no que tange o tema da violência, o que sinaliza uma necessidade de estar ainda pensando e dialogando sobre isso. A autora considera de extrema importância o aporte teórico estrangeiro para embasar nossos estudos, mas destaca a necessidade de estudos locais, adaptados as particularidades e singularidades brasileiras. O objetivo da autora com esse artigo é justamente contemplar a demanda por estudos no tema da homofobia, sexismo e violência.
O artigo sinaliza a falta de modelos que superem o reconhecimento de vítimas e os agressores, alegando a necessidade de ir além da descrição e catalogação de perfis, sugerindo a elaboração de estratégias mais eficazes na prevenção e combate a violência de gênero. A violência de gênero, estando enraizada de maneira forte e velada em uma sociedade que se estrutura através de relações de poder entre os indivíduos, é perpassada por uma série de variáveis e fatores que devem ser levados em conta na análise da conjuntura. O que a autora destaca é justamente uma dificuldade dos psicólogos em articular todas essas questões para adequarem a suas abordagens.
O sexismo, a homofobia e a violência de gênero, temas centrais no artigo, são cuidadosamente conceituados para esclarecer alguns pontos no debate. “Sexismo é uma posição, ou uma postura misógina, de desprezo frente ao sexo oposto” (von Smigay, 2002). É, portanto, uma atitude de discriminação frente ao sexo oposto que pode ser desempenhada por homens ou mulheres. Considerando a cultura ocidental, perpassado por valores patriarcais que ainda estão em voga, existe uma representação social a cerca das mulheres, dos papéis, espaços e funções que ela deve desempenhar na sociedade. Essa representação subsidia práticas que, na grande maioria dos casos, “desprezam, desqualificam, desautorizam e violentam as mulheres” (Von Smigay, 2002).
A homofobia está associada a uma atitude de medo e rejeição à homossexualidade (Weinberg, 1972 apud von Smigay, 2002). A autora através de Welzer-Lang (1994) discorre sobre como o medo organiza uma série de questões do dia-a-dia das pessoas. O medo, que pode desencadear o ódio, estrutura comportamentos de fuga. Em uma análise etimológica, o artigo fragmenta a palavra homofobia, situando homo como o idêntico, e fobia como o medo, portanto chegamos ao medo do simular. Extrapolando a análise etimológica, na homofobia existe um medo, um receio de se identificar, de ser simular ao objeto de preconceito e marginalização social. É nesse ponto que podemos pensar o quanto o preconceito inscreve muito mais o preconceituoso do que o objeto de preconceito (Crochík, 1995 apud Von Smigay, 2002). No medo por algo que posso surgir no sujeito preconceituoso, emergem as atitudes de rejeição, incorrendo, em alguns casos, em violência.
Em terceiro vem o conceito de violência de gênero, e autora logo destaca a importância de não haver confusões com violência contra as mulheres. Antes de tudo é necessário destacar que a especificidade dessa violência retrata uma conjuntura sociocultural em que é essencial essa distinção para evitar o prejuízo de incorrer no erro de que toda violência é igual e merece os mesmos aparelhos de atenção e tratamento. Existe, portanto, um tipo de violência que se circunscreve através de relações de poder compreendidas através do sexismo e da homofobia. Em uma cultura que coloca o homem viril em uma posição socialmente privilegiada, desprezando aqueles considerados desvirilizados – nesse ponto podemos pensar nas mulheres, nos homossexuais, nas crianças e nos idosos – a violência não pode ser abordada apenas como atos de agressão entre indivíduos iguais perante a lei. Se há uma estrutura social de desigualdade – e ela pode ser corroborada através, por exemplo, da análise das relações entre mulher e homem nas famílias, no lugar das crianças e idosos na sociedade, na representação social a cerca dos homossexuais – essa estrutura deve ser considerada através da legislação e das políticas públicas.
A partir da década de 90, o artigo cita 3 rupturas, ou modificações importantes. Em primeiro, o abandono “de uma lógica dual e contrastante, que opõem homens e mulheres”, em segundo a ruptura com “determinações mecânicas e imediatas”, em terceiro “uma recusa dos conceitos ou das perspectivas de universalização e generalização”. Esse três pontos repercutiram em um modo diferente de pensar a mulher, a começar pela necessidade em se referir ao termo no plural – as mulheres – sinalizando uma complexa e conflituosa relação social (von Smigay, 2002).
Um ponto importante do artigo é a questão da socialização dos homens. Existe um compartilhamento de valores hierárquicos e dominantes ensinados aos homens no espaço doméstico e reafirmados nos espaços públicos e este aprendizado orienta a discriminação a indivíduos e grupos considerados desvirilizados. “Tanto o sexismo quanto a homofobia estruturam o medo de abandonar as atribuições de seu grupo sexual”, assim a autora coloca o sexismo e a homofobia como formas de manter um status quo, uma relação de hierarquia. Sendo dispersa através de uma infinidade de estruturas sociais, é possível observar a sua sustentação até mesmo através das mulheres, que aprendem as normas nas relações interpessoais e romper com essas regras se mostra muito complexo, incorrendo muitas vezes na simples culpabilização das vítimas pela manutenção das estruturas de poder.
No que tange os modelos de intervenção, o artigo destaca três perspectivas: clínica, psicoeducativa e feminista. A perspectiva clínica possui base psicológica e, genericamente falando, possuem um foco na análise e abordagem das vítimas, sendo criticada por tirar o foco dos agentes de agressão, centrando os estudos e discussões em cima do sofrimento psíquico da vítima. A perspectiva psicoeducativa pauta-se em uma reinserção social do agressor. Dentro dessa perspectiva uma série de teorias é citada para compreender o contexto de emergência dos agressores e a dificuldade de modificação da relação entre agressor e vítima, além de apontar o contexto familiar como um espaço socializante que expressa uma série de violências. Dentro dessa questão do contexto familiar é importante, entretanto, ressaltar o contexto sociocultural como base para as estruturas de violência no contexto privado, sob o perigo de dedicar uma grande parcela de responsabilidade social a um contexto domiciliar que teoricamente não poderia ser acessado por políticas sociais de atenção e cuidado. Na perspectiva feminina há um foco sob o sujeito político, uma ideia de sistema de gênero pautado na hierarquia do masculino, além de uma desigualdade na maneira como a violência atinge os membros de uma família.
Para concluir o artigo, a autora traz a necessidade de uma compreensão política da violência. Ela ressalta a existência de uma violência específica contra grupos sociais desprestigiados. Portanto, “a violência não se dá em um vazio; está na cultura” (von Smigay, 2002), ela deve ser analisada sobre a ótica de uma cultura falocêntrica que localiza agressores e vítimas.

Referência: Smigay, K. Sexismo, homofobia e outras expressões correlatas da violência: desafios para a psicologia política. Psicologia em Revista, 8, 11, 32-46, 2002

Resenha: Homofobia e outras expressões correlatas de violência – desafios para a psicologia política.

Robério Oliveira Pedroza Júnior

A tese deste artigo pretende contribuir para o debate sobre a violência de gênero, sexismo e homofobia situando estes temas em um plano político. Para tanto, expor e avaliar a ótica pela qual foi pesquisado e teorizado, com uma maior aceitação e preferência entre os pesquisadores e teóricos, o tema da violência, onde a temática da violência de gênero generalizadamente se encontrou como subtópico.
No cenário da América Latina, e, principalmente no Brasil, há pouco interesse na investigação sistematizada e pouco se publica sobre esses temas. O Estado incorporou a violência de gênero em suas políticas sociais no final da década de oitenta, e alguns de seus programas passaram a ser gerenciados por agentes sociais, porém, paradoxalmente, persistiu o desinteresse pelo debate teórico. Outra forma de contradição vem do o fato que o tema da violência – e aqui se encontram as violências específicas, foco deste artigo – ganha espaço entre as entidades classistas, particularmente no Conselho Nacional d Psicologia, nos Conselhos Regionais de Psicologia, encontros da Associação Brasileira de Psicologia Social, e na recente criada Sociedade Brasileira de Psicologia Política. Os contornos do problema da violência parecem ter atingidos estruturas claras, ficando os agentes sociais responsáveis pela sua erradicação; pouca contribuição teórica tem sido ofertada de modo que contribua para as ações e para que se continue a investigar o tema. Para isso também, o artigo no qual se constrói essa resenha, procura contribuir, tendo em foco, principalmente, o sexismo e a homofobia.
Há poucos modelos eficazes no combate à violência de gênero, não sendo bastante apenas as ações por equipamentos de contenção, como centros de apoios, delegacias especializadas, ou programas de intervenção. A temática da violência de gênero é de difícil abordagem e está profundamente ligada aos processos de socialização, sendo um desafio à psicologia e aos psicólogos que não estão aptos a operar e entender seus possíveis desdobramentos psicossociais.
Antes de tudo, o que se propõe é que o sexismo e a homofobia podem ganhar uma análise específica e diferenciada, não estando veiculada restritamente aos estudos sobre preconceito social. Teorias e modelos que não levam em consideração o sistema de gêneros irão falhar ao tentar lindar com essas questões. O sexismo é um conceito que define um desprezo frente ao sexo oposto, a discriminação em relação às mulheres ou pessoas tidas como feminilizadas. Em uma cultura aqui designada como falocrática, preparam-se representações sociais que, partilhadas, geram opiniões e tendências a ações que desqualifiquem e violente mulheres, tidas como uma categoria de menor prestígio social. Marcado por um pensamento essencialista, no sexismo atribui-se características inerentes a cada sexo. A homofobia é uma postura de medo de contato e rejeição em relação à homossexualidade; em um indivíduo os medos organizam o ódio, podendo gerar evitamento, fuga, e impedindo a confrontação das causas que o provocam (Welzer-Lang, 1994).
O conceito de violência de gênero não representa somente sinônimo de violência contra a mulher. Atualmente, busca-se desvincular esse conceito de sua necessária trajetória onde se buscou qualificar uma violência específica, diferentes de outras formas de violência e buscar modelos explicativos acerca de sua origem. A produção teórica deste conceito, atualmente, procura se afastar do modelo explicativo, para que se configure o que seria o feminino e dessa forma estender o entendimento das ações discriminatórias. Nessa nova análise conceitual, é na cultura que se identifica a síntese da violência. Nessa perspectiva feminista, identifica-se a violência como valorada durante a socialização constitutiva do masculino. Isso rompe com a concepção de que a agressão é resultados de atos desviantes de um agressor. Os agressores são socializados para o sexismo, misoginia e homofobia e agem segundo a norma desta cultura.
As teorias sobre a gênese e os efeitos da violência, no qual sempre se colocou o debate sobre sexismo e homofobia, atendem pressupostos e modelos que possuem diferentes focos: os sujeitos psicológicos, as condutas disfuncionais ou sobre o sujeito político. Os modelos que tem por foco os sujeitos psicológicos atendem a uma perspectiva clínica, consideram a violência como fenômenos imprevisíveis que podem causar consequências psíquicas traumáticas a quem é agredido; se interessam pela etiologia, diagnóstico e prevenção. Os modelos psicoeducativos são aqueles cujo o foco é dirigido às condutas disfuncionais; aqui a violência é caracterizada como uma disfunção. Se difere do ultimo modelo, pois o foco é dirigido ao agressor. Neste modelo figura-se a Teoria da Aprendizagem Social (Bandura; 1973) que sugere que indivíduos expostos constantemente a contextos de violência acabam por assimilar referências de comportamento violento, como em situações de stress e conflito. É proposto como formas de intervenção, medidas de ressocialização do indivíduo, procurando sanar tais formas de comportamento, os oferecendo alternativas frente a estímulos que desencadeiem a violência. Ainda neste modelo a Teoria do Poder, identifica a violência como uma disfunção social. O exemplo disto, o contexto familiar, seria marcado por distribuições internas desiguais de poder, que com o desgaste e o convívio, provocariam naturalmente situações de violência. A perspectiva feminista, a qual tem foco o sujeito político, identifica pontos frágeis nesse modelo e suas teorias afirmando que é falha qualquer tentativa de analisar um contexto familiar ou qualquer outro contexto social de distribuição assimétrica de poder – no qual se encontre uma gênese da violência – fora das influências do sistema patriarcal. Também se diferente da teoria da aprendizagem social, pois não considera a violência como resposta aprendida a conflitos; o sujeito aprende qual o objeto pode ser hostilizado e oprimido.
Este artigo acaba por contribuir para a reformulação da causa, onde se encontra a origem da violência, principalmente a homofobia e o sexismo. Identificando na cultura o gênese destes tipos de violência, aponta uma nova direção ao debate da causa em busca da resolução de impasses que ainda circundam o tema. O sexismo e a homofobia se situam na cultura, assentada no sistema de gêneros, e, portanto, necessitam de uma analise diferenciada e específica. Cabe, sobretudo, um olhar sobre o sujeito político no campo de produção de conhecimento sobre o tema, visto que a violência de gênero e contra grupos socialmente minoritários, perpetrada pela cultura, encerra ações intencionais de manutenção da violência pelos agressores.

Referência: Karin Ellen von Smigay. Sexismo, homofobia e outras expressões correlatas: desafios para a psicologia política. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 8, n. 11, p. 32-46, jun. 2002. Disponível em:http://www1.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20041214154032.pdf

Notícia do dia: Jovem negro tem 2,6 mais chance de ser assassinado que um branco

Contribuição: Diogo Araújo

Uma pesquisa realizada em conjunto pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República, Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e a ONG Observatório de Favelas prevê que mais de 33,5 mil jovens serão assassinados entre 2006 e 2012. Dentre estes que perderão a vida, a maioria será de jovens negros. Este indicador alarmante da efetiva discriminação racial existente no Brasil foi noticiado pelo portal G1. Clique aqui para ler a reportagem.

Resenha: Effects of exposure to sex-stereotyped video game characters on tolerance of sexual harassment

Thiago Falcão

O artigo em questão se concentra em um ponto no qual, segundo os autores, a literatura que faz convergir o fenômeno dos videogames com os estudos em psicologia social se deparam com um vazio – com uma falta de pesquisas formais sobre a influência dessa nova mídia num “nicho” de violência em específico: a violência contra a mulher.
A pesquisa em questão, então, se concentra em encontrar uma relação entre as ações sexistas representadas nos jogos eletrônicos e dois tipos de atitude ligadas à violência contra as mulheres: julgamentos de assédio sexual e atitudes de tolerância à prática do estupro. De acordo com a revisão feita por Dill e seus colegas, os jogos eletrônicos configuram, hoje, a mídia de massa que mais sustenta os estereótipos relacionados a papéis sexuais: personagens hiper-masculinos e hostis e violência enaltecida fazem dupla com personagens femininos bonitos, de busto farto e tratados geralmente como objeto sexual.
“Adolescentes descreveram personagens femininos como sexualmente promíscuos, vestindo pouca roupa e como sendo magras, com seios fartos. Em contraste, eles viam tipicamente a figura masculina como fisicamente poderosa, com homens dominantes, violentos e cruéis” (DILL et al, 2008, p. 1, tradução livre).
Um ponto de argumentação bastante forte utilizado no artigo é o tratamento dado à figura feminina na série de jogos Grand Theft Auto (GTA). Segundo os autores, o jogo se utiliza de conteúdo depreciativo e lida com situações relacionadas ao sexo que envolvem violência e termos considerados inapropriados.
O escopo do artigo está relacionado à teoria dos Modelos Gerais de Agressão (ANDERSON et al, 2007), que descreve como estruturas de conhecimento relacionadas à agressão são formadas e como elas são ativadas em momentos posteriores. A proposta de Dill e de seus colegas é, então, a de que a exposição a estereótipos negativos de gênero em videogames vai contribuir para a formação de esquemas e scripts para as relações sociais entre homem e mulher.
Os autores se baseiam em algumas teorias que associam a imagem do homem moderno projetada pela mídia como ser dominador e agressivo (Teoria da Masculinidade Hegemônica, Connel 1987, Lull 2003; Teoria do Sexismo Ambivalente, Glick et al, 2004) para fazer assunções a cerca de certos comportamentos – como o caso de mitos relativos ao estupro, por exemplo – que seriam desencadeados – e inerentes – à essência de sociedades patriarcais.
Daí, fazendo uma ponte com outros estudos que relacionam a representação sexista em outras formas midiáticas à atitude violenta, Dill e seus colegas fazem uma ponte para com os videogames, adentrando um universo ainda, segundo os autores, não abordado na literatura em psicologia social.
Os autores então, se debruçaram sobre o seguinte problema: investigar o conteúdo sexista de títulos dos videogames (masculinidade agressiva, feminilidade transformada em objeto) em duas situações: (1) julgamento de assédio sexual e (2) atitudes de apoio a estupro. De posse de quatro hipóteses ([i] Exposição a imagens de conteúdo sexista em personagens de videogames vai resultar num maior grau de tolerância ao assédio sexual; [ii] Exposição a imagens de conteúdo sexista em personagens de videogames vai resultar em um aumento nas atitudes de tolerância ao estupro; [iii] A exposição percebida pelos participantes ao conteúdo dos jogos violentos vai se correlacionar negativamente com os julgamentos progressivos de assédio sexual; [iv] A exposição percebida pelos participantes ao conteúdo dos jogos violentos vai se correlacionar positivamente com as atitudes de tolerância ao estupro), Dill e seus colegas partiram para uma manipulação experimental na qual dois grupos viram duas seqüências independentes de imagens, uma contendo profissionais respeitáveis (grupo de controle) e outra contendo imagens estereotipadas provenientes de alguns jogos eletrônicos. Dill e seus colegas afirmam que, as imagens experimentais funcionam, além de como manipulação, como priming para todo o conteúdo sexista de videogames experimentado pela juventude americana.
Os resultados indicaram suporte para a primeira hipótese, ou seja, a exposição experimental ao conteúdo tendencioso alterou o julgamento sobre aspectos do assédio sexual, mas nenhuma confirmação foi encontrada para a segunda hipótese. Um ponto forte no estudo foi detectar que houve, numa exposição de curto tempo, uma tolerância alta para o assédio de homens velhos a mulheres mais novas (figura do professor e da aluna). Os autores alertam, contudo, para o fato de que modelos mais complexos não mostraram correlação entre videogames e violência num maior espaço de tempo (long term), mas que os estudos de short term associaram os fatos.
A leitura do artigo se faz muito positiva no que diz respeito a entender efeitos de longa exposição e curta exposição, e é um relato inédito de como se dá a relação entre representações estereotipadas no videogame e processos de cognição. O ponto mais positivo do artigo, contudo, está na legitimação do tratamento dos videogames enquanto mídia real, que pode provocar reações – tanto quanto qualquer outra mídia, mediante o tempo de exposição, ou outras variáveis, como envolvimento, temas, etc.

Fonte: Dill, K., Brown, B. e Collins, M. Effects of exposure to sex-stereotyped video game characters on tolerance of sexual harassment. Journal of Experimental Social Psychology 44 (2008). 1402-1408.