Resenha: Interagindo com homens sexistas dispara a ameaça a identidade social entre mulheres engenheiras

Gustavo Siquara

O estudo em questão teve como objetivo avaliar a ameaça a identidade social de mulheres engenheiras em interação com homens sexistas e a possível diminuição do desempenho. Na interação entre os indivíduos existem padrões e julgamentos que fazemos sobre os outros. A interação pode ser um pouco mais complicada quando se trabalha com o papel de gênero. Nesse sentido atitudes sexistas despertam um interesse particular na interação tal como na área de engenharia e matemática. Mulheres nesse campo de atuação normalmente tem um estereotipo negativo de incompetência e atitudes sexistas de ameaça ambiental.
A ameaça à identidade social pode resultar em um baixo desempenho e incertezas sobre o seu pertencimento. O que os autores propõem é que o estereotipo negativo e comportamentos sexistas dos homens criam um ambiente de desvalorização da mulher e das suas contribuições e habilidades. A hipótese do estudo é que atitudes sexistas dos homens engenheiros e matemáticas possam ativar a ameaça à identidade social em mulheres através dos comportamentos interpessoais que desvalorizam as contribuições e habilidades das mulheres. Para a investigação do estudo foi realizados um total de cinco experimentos. No estudo 1, foi investigado se o nível de sexismo do homem poderia predizer o comportamento para as mulheres com quem eles interagem. Nesse caso os autores procuraram predizer se quanto mais sexista o homem poderia mostrar uma maior dominância sutil na interação com as mulheres. Nos estudos de 2 a 5 os autores examinaram se o nível de sexismo tem efeito sobre os padrões de interação. Ou seja, eles investigaram se os homens sexistas poderiam ativar a ameaça a identidade social.
As discussões gerais do estudo ressaltam que as mulheres são minorias no campo das engenharias e matemáticas, com isso tem mais interações com homens. O estudo mostrou de modo geral que a interação pode ter consequências negativas para o desempenho das mulheres nesse campo. Quando as mulheres engenheiras ou matemáticas interagem com homens sexistas podem experienciar ameaça a identidade social e especificamente ameaça ao estereotipo o que pode diminuir o desempenho nesse domínio. O resultado do estudo 1 apontou que quanto maior o escore de sexismo do homem maior domínio e interesse sexual ele exibiu para a mulher com quem ele acredita ser uma colega estudante de engenharia. Nos estudos 2 a 5 evidenciou que mulheres ao detectarem sinais de comportamentos sexistas elas serão desvalorizadas e correm o risco de serem vistas sobre a lente de um estereotipo negativo. Com isso as mulheres que tiveram interação com homens sexistas tiveram um desempenho pior em comparação quando as mulheres tinham interação com homens não sexistas. O ambiente pode ser um potente local para criar a ameaça.
Outro achado interessante foi de que as mulheres intelectualmente de baixo desempenho reportaram sentir mais atraídas pelos homens que mostraram dominância e comportamento de interesse sexual. Esses resultados são complexos, mas o comportamento dos homens sexistas pode ser reforçado pelas mulheres nesses casos, resultando na atração por eles. Assim cria um ciclo que aumenta o atraso apresentado pelas mulheres e continuam com o domínio que eles têm sobre os estereótipos negativos.
O estudo mostra a influencia da ameaça ao estereotipo a partir do ambiente e da sua relação interpessoal. Proporcionar um ambiente menos sexistas, ou discriminatório é essencial para o desenvolvimento de todas as pessoas. No estudo foi apresentado a interação comportamental em relação às mulheres e homens sexistas a partir da matemática, no entanto poderíamos pensar em outros temas como classes sociais ou étnicas. De maneira geral isso reforça a importância de se buscar um ambiente mais inclusivo e menos estereotipado. Pois em muitos casos os estereótipos podem ter influencia negativa a partir da categorização social ou de gênero das pessoas. Os métodos de intervenção devem ser baseados na mudança do estereotipo já que a forma de inter-relação irá afetar diretamente o desempenho do individuo. Um dos achados mais interessantes no estudo foi o caso das mulheres que tinham um desempenho inferior reforçavam o comportamento dos homens sexistas. Isso pode fazer com que se perpetue o estereotipo e cada vez mais as mulheres vão se sentir menos eficaz nessa área de conhecimento. Se esse ciclo não for quebrado cada vez mais o estereotipo irá afetar as relações interpessoais e os grupos minoritários.

Resenha: Logel, C., Spencer, S. J., Iserman, E. C., Walton, G. M. Hippel, W. Bell, A. E. (2009) Interacting With Sexist Men Triggers Social Identity Threat Among Female Engineers. Journal of Personality and Social Psychology, 96, (6), 1089-1103.

Resenha: sexismo, homofobia e outras expressões correlatas da violência

chamada

Anna Paula Brandão

O artigo pretende expor as práticas e abordagens para com as vítimas de violência, apontando os modelos teóricos que dão suporte aos profissionais inseridos em programas de apoio a vítimas de violência, comparando esses modelos e dialogando com as políticas sociais. O objetivo da autora é tratar do sexismo e da homofobia expressos através de atos de violência, destacando a importância da compreensão de questões sociais e estruturais para abordar esse tema.
Os debates sobre feminismo ganham força a partir dos anos 80, entretanto a autora relata o tímido espaço em que esse tema é abordado na academia brasileira, em contraposição a grande produção acadêmica nas áreas das ciências sociais, antropologia, história e psicologia social em países de língua anglo-saxônica. Destaca ainda as políticas sociais pautadas nas questões de gênero, com uma série de serviços e instituições especializadas, a partir da década de 80, como um possível apaziguador dos debates e discussões em torno da violência de gênero. Como se o reconhecimento público (através de políticas sociais) bastasse e encerrasse a discussão.
Entretanto, a despeito da rede especializada e da ampla quantidade de informações sobre o tema, muitas questões continuam sem superação no que tange o tema da violência, o que sinaliza uma necessidade de estar ainda pensando e dialogando sobre isso. A autora considera de extrema importância o aporte teórico estrangeiro para embasar nossos estudos, mas destaca a necessidade de estudos locais, adaptados as particularidades e singularidades brasileiras. O objetivo da autora com esse artigo é justamente contemplar a demanda por estudos no tema da homofobia, sexismo e violência.
O artigo sinaliza a falta de modelos que superem o reconhecimento de vítimas e os agressores, alegando a necessidade de ir além da descrição e catalogação de perfis, sugerindo a elaboração de estratégias mais eficazes na prevenção e combate a violência de gênero. A violência de gênero, estando enraizada de maneira forte e velada em uma sociedade que se estrutura através de relações de poder entre os indivíduos, é perpassada por uma série de variáveis e fatores que devem ser levados em conta na análise da conjuntura. O que a autora destaca é justamente uma dificuldade dos psicólogos em articular todas essas questões para adequarem a suas abordagens.
O sexismo, a homofobia e a violência de gênero, temas centrais no artigo, são cuidadosamente conceituados para esclarecer alguns pontos no debate. “Sexismo é uma posição, ou uma postura misógina, de desprezo frente ao sexo oposto” (von Smigay, 2002). É, portanto, uma atitude de discriminação frente ao sexo oposto que pode ser desempenhada por homens ou mulheres. Considerando a cultura ocidental, perpassado por valores patriarcais que ainda estão em voga, existe uma representação social a cerca das mulheres, dos papéis, espaços e funções que ela deve desempenhar na sociedade. Essa representação subsidia práticas que, na grande maioria dos casos, “desprezam, desqualificam, desautorizam e violentam as mulheres” (Von Smigay, 2002).
A homofobia está associada a uma atitude de medo e rejeição à homossexualidade (Weinberg, 1972 apud von Smigay, 2002). A autora através de Welzer-Lang (1994) discorre sobre como o medo organiza uma série de questões do dia-a-dia das pessoas. O medo, que pode desencadear o ódio, estrutura comportamentos de fuga. Em uma análise etimológica, o artigo fragmenta a palavra homofobia, situando homo como o idêntico, e fobia como o medo, portanto chegamos ao medo do simular. Extrapolando a análise etimológica, na homofobia existe um medo, um receio de se identificar, de ser simular ao objeto de preconceito e marginalização social. É nesse ponto que podemos pensar o quanto o preconceito inscreve muito mais o preconceituoso do que o objeto de preconceito (Crochík, 1995 apud Von Smigay, 2002). No medo por algo que posso surgir no sujeito preconceituoso, emergem as atitudes de rejeição, incorrendo, em alguns casos, em violência.
Em terceiro vem o conceito de violência de gênero, e autora logo destaca a importância de não haver confusões com violência contra as mulheres. Antes de tudo é necessário destacar que a especificidade dessa violência retrata uma conjuntura sociocultural em que é essencial essa distinção para evitar o prejuízo de incorrer no erro de que toda violência é igual e merece os mesmos aparelhos de atenção e tratamento. Existe, portanto, um tipo de violência que se circunscreve através de relações de poder compreendidas através do sexismo e da homofobia. Em uma cultura que coloca o homem viril em uma posição socialmente privilegiada, desprezando aqueles considerados desvirilizados – nesse ponto podemos pensar nas mulheres, nos homossexuais, nas crianças e nos idosos – a violência não pode ser abordada apenas como atos de agressão entre indivíduos iguais perante a lei. Se há uma estrutura social de desigualdade – e ela pode ser corroborada através, por exemplo, da análise das relações entre mulher e homem nas famílias, no lugar das crianças e idosos na sociedade, na representação social a cerca dos homossexuais – essa estrutura deve ser considerada através da legislação e das políticas públicas.
A partir da década de 90, o artigo cita 3 rupturas, ou modificações importantes. Em primeiro, o abandono “de uma lógica dual e contrastante, que opõem homens e mulheres”, em segundo a ruptura com “determinações mecânicas e imediatas”, em terceiro “uma recusa dos conceitos ou das perspectivas de universalização e generalização”. Esse três pontos repercutiram em um modo diferente de pensar a mulher, a começar pela necessidade em se referir ao termo no plural – as mulheres – sinalizando uma complexa e conflituosa relação social (von Smigay, 2002).
Um ponto importante do artigo é a questão da socialização dos homens. Existe um compartilhamento de valores hierárquicos e dominantes ensinados aos homens no espaço doméstico e reafirmados nos espaços públicos e este aprendizado orienta a discriminação a indivíduos e grupos considerados desvirilizados. “Tanto o sexismo quanto a homofobia estruturam o medo de abandonar as atribuições de seu grupo sexual”, assim a autora coloca o sexismo e a homofobia como formas de manter um status quo, uma relação de hierarquia. Sendo dispersa através de uma infinidade de estruturas sociais, é possível observar a sua sustentação até mesmo através das mulheres, que aprendem as normas nas relações interpessoais e romper com essas regras se mostra muito complexo, incorrendo muitas vezes na simples culpabilização das vítimas pela manutenção das estruturas de poder.
No que tange os modelos de intervenção, o artigo destaca três perspectivas: clínica, psicoeducativa e feminista. A perspectiva clínica possui base psicológica e, genericamente falando, possuem um foco na análise e abordagem das vítimas, sendo criticada por tirar o foco dos agentes de agressão, centrando os estudos e discussões em cima do sofrimento psíquico da vítima. A perspectiva psicoeducativa pauta-se em uma reinserção social do agressor. Dentro dessa perspectiva uma série de teorias é citada para compreender o contexto de emergência dos agressores e a dificuldade de modificação da relação entre agressor e vítima, além de apontar o contexto familiar como um espaço socializante que expressa uma série de violências. Dentro dessa questão do contexto familiar é importante, entretanto, ressaltar o contexto sociocultural como base para as estruturas de violência no contexto privado, sob o perigo de dedicar uma grande parcela de responsabilidade social a um contexto domiciliar que teoricamente não poderia ser acessado por políticas sociais de atenção e cuidado. Na perspectiva feminina há um foco sob o sujeito político, uma ideia de sistema de gênero pautado na hierarquia do masculino, além de uma desigualdade na maneira como a violência atinge os membros de uma família.
Para concluir o artigo, a autora traz a necessidade de uma compreensão política da violência. Ela ressalta a existência de uma violência específica contra grupos sociais desprestigiados. Portanto, “a violência não se dá em um vazio; está na cultura” (von Smigay, 2002), ela deve ser analisada sobre a ótica de uma cultura falocêntrica que localiza agressores e vítimas.

Referência: Smigay, K. Sexismo, homofobia e outras expressões correlatas da violência: desafios para a psicologia política. Psicologia em Revista, 8, 11, 32-46, 2002

Resenha: Homofobia e outras expressões correlatas de violência – desafios para a psicologia política.

Robério Oliveira Pedroza Júnior

A tese deste artigo pretende contribuir para o debate sobre a violência de gênero, sexismo e homofobia situando estes temas em um plano político. Para tanto, expor e avaliar a ótica pela qual foi pesquisado e teorizado, com uma maior aceitação e preferência entre os pesquisadores e teóricos, o tema da violência, onde a temática da violência de gênero generalizadamente se encontrou como subtópico.
No cenário da América Latina, e, principalmente no Brasil, há pouco interesse na investigação sistematizada e pouco se publica sobre esses temas. O Estado incorporou a violência de gênero em suas políticas sociais no final da década de oitenta, e alguns de seus programas passaram a ser gerenciados por agentes sociais, porém, paradoxalmente, persistiu o desinteresse pelo debate teórico. Outra forma de contradição vem do o fato que o tema da violência – e aqui se encontram as violências específicas, foco deste artigo – ganha espaço entre as entidades classistas, particularmente no Conselho Nacional d Psicologia, nos Conselhos Regionais de Psicologia, encontros da Associação Brasileira de Psicologia Social, e na recente criada Sociedade Brasileira de Psicologia Política. Os contornos do problema da violência parecem ter atingidos estruturas claras, ficando os agentes sociais responsáveis pela sua erradicação; pouca contribuição teórica tem sido ofertada de modo que contribua para as ações e para que se continue a investigar o tema. Para isso também, o artigo no qual se constrói essa resenha, procura contribuir, tendo em foco, principalmente, o sexismo e a homofobia.
Há poucos modelos eficazes no combate à violência de gênero, não sendo bastante apenas as ações por equipamentos de contenção, como centros de apoios, delegacias especializadas, ou programas de intervenção. A temática da violência de gênero é de difícil abordagem e está profundamente ligada aos processos de socialização, sendo um desafio à psicologia e aos psicólogos que não estão aptos a operar e entender seus possíveis desdobramentos psicossociais.
Antes de tudo, o que se propõe é que o sexismo e a homofobia podem ganhar uma análise específica e diferenciada, não estando veiculada restritamente aos estudos sobre preconceito social. Teorias e modelos que não levam em consideração o sistema de gêneros irão falhar ao tentar lindar com essas questões. O sexismo é um conceito que define um desprezo frente ao sexo oposto, a discriminação em relação às mulheres ou pessoas tidas como feminilizadas. Em uma cultura aqui designada como falocrática, preparam-se representações sociais que, partilhadas, geram opiniões e tendências a ações que desqualifiquem e violente mulheres, tidas como uma categoria de menor prestígio social. Marcado por um pensamento essencialista, no sexismo atribui-se características inerentes a cada sexo. A homofobia é uma postura de medo de contato e rejeição em relação à homossexualidade; em um indivíduo os medos organizam o ódio, podendo gerar evitamento, fuga, e impedindo a confrontação das causas que o provocam (Welzer-Lang, 1994).
O conceito de violência de gênero não representa somente sinônimo de violência contra a mulher. Atualmente, busca-se desvincular esse conceito de sua necessária trajetória onde se buscou qualificar uma violência específica, diferentes de outras formas de violência e buscar modelos explicativos acerca de sua origem. A produção teórica deste conceito, atualmente, procura se afastar do modelo explicativo, para que se configure o que seria o feminino e dessa forma estender o entendimento das ações discriminatórias. Nessa nova análise conceitual, é na cultura que se identifica a síntese da violência. Nessa perspectiva feminista, identifica-se a violência como valorada durante a socialização constitutiva do masculino. Isso rompe com a concepção de que a agressão é resultados de atos desviantes de um agressor. Os agressores são socializados para o sexismo, misoginia e homofobia e agem segundo a norma desta cultura.
As teorias sobre a gênese e os efeitos da violência, no qual sempre se colocou o debate sobre sexismo e homofobia, atendem pressupostos e modelos que possuem diferentes focos: os sujeitos psicológicos, as condutas disfuncionais ou sobre o sujeito político. Os modelos que tem por foco os sujeitos psicológicos atendem a uma perspectiva clínica, consideram a violência como fenômenos imprevisíveis que podem causar consequências psíquicas traumáticas a quem é agredido; se interessam pela etiologia, diagnóstico e prevenção. Os modelos psicoeducativos são aqueles cujo o foco é dirigido às condutas disfuncionais; aqui a violência é caracterizada como uma disfunção. Se difere do ultimo modelo, pois o foco é dirigido ao agressor. Neste modelo figura-se a Teoria da Aprendizagem Social (Bandura; 1973) que sugere que indivíduos expostos constantemente a contextos de violência acabam por assimilar referências de comportamento violento, como em situações de stress e conflito. É proposto como formas de intervenção, medidas de ressocialização do indivíduo, procurando sanar tais formas de comportamento, os oferecendo alternativas frente a estímulos que desencadeiem a violência. Ainda neste modelo a Teoria do Poder, identifica a violência como uma disfunção social. O exemplo disto, o contexto familiar, seria marcado por distribuições internas desiguais de poder, que com o desgaste e o convívio, provocariam naturalmente situações de violência. A perspectiva feminista, a qual tem foco o sujeito político, identifica pontos frágeis nesse modelo e suas teorias afirmando que é falha qualquer tentativa de analisar um contexto familiar ou qualquer outro contexto social de distribuição assimétrica de poder – no qual se encontre uma gênese da violência – fora das influências do sistema patriarcal. Também se diferente da teoria da aprendizagem social, pois não considera a violência como resposta aprendida a conflitos; o sujeito aprende qual o objeto pode ser hostilizado e oprimido.
Este artigo acaba por contribuir para a reformulação da causa, onde se encontra a origem da violência, principalmente a homofobia e o sexismo. Identificando na cultura o gênese destes tipos de violência, aponta uma nova direção ao debate da causa em busca da resolução de impasses que ainda circundam o tema. O sexismo e a homofobia se situam na cultura, assentada no sistema de gêneros, e, portanto, necessitam de uma analise diferenciada e específica. Cabe, sobretudo, um olhar sobre o sujeito político no campo de produção de conhecimento sobre o tema, visto que a violência de gênero e contra grupos socialmente minoritários, perpetrada pela cultura, encerra ações intencionais de manutenção da violência pelos agressores.

Referência: Karin Ellen von Smigay. Sexismo, homofobia e outras expressões correlatas: desafios para a psicologia política. Psicologia em Revista, Belo Horizonte, v. 8, n. 11, p. 32-46, jun. 2002. Disponível em:http://www1.pucminas.br/imagedb/documento/DOC_DSC_NOME_ARQUI20041214154032.pdf

Resenha: Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Contribuição: Bernardo Follador Lo Bianco de Oliveira

Este artigo trata de um estudo realizado por Maria Cristina Ferreira sobre a aplicação do Inventário de Sexismo Ambivalente, desenvolvido por Glick e Fiske (1996), em uma amostra brasileira. Este instrumento tem demonstrado boas características psicométricas, no que se refere à identificação e comparação de atitudes sexistas – inclusive as maneiras mais modernas e encobertas – não só nos Estados Unidos, como no Chile, na Alemanha e no México. O objetivo do trabalho foi replicar a estrutura bi-fatorial do sexismo (hostil e benevolente) no Brasil, verificando as relações desses fatores com as diferenças de gênero.

Maria Cristina Ferreira é graduada em Psicologia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1972), e possui mestrado e doutorado em Psicologia pela Fundação Getúlio Vargas – RJ (1977 e 1985). Atualmente é professora titular na Universidade Salgado de Oliveira e atua principalmente com os seguintes temas: comportamento organizacional, psicologia transcultural, papéis de gênero e medidas psicológicas. Ela apresentou este artigo em 2004 na XXXI Reunião Anual da Sociedade Brasileira de Psicologia, no Simpósio Relações sociais de gênero: Possibilidades e perspectivas de análises psicossoal.

O artigo foi dividido em três partes: uma introdução com a revisão de literatura, uma segunda parte, de título método, que explica os procedimentos de aplicação do instrumento e, por fim, a discussão dos resultados obtidos.

A autora inicia sua revisão de literatura remetendo à obra de Gordon Allport “A natureza do preconceito” (1954) a origem dos estudos científicos do preconceito sob a perspectiva psicossocial. Porém hoje a definição que se tornou consenso é a de Smith e Mackie (1995), que o define como uma atitude negativa dirigida a membros de determinados grupos sociais em função de uma pertença ao grupo. Enquanto um tipo de atitude o preconceito apresenta um componente cognitivo – crenças e representações negativas que caracterizam membros de determinados grupos sociais –, um afetivo – sentimentos e avaliações negativas –, e um comportamental – associado à discriminação e a atos hostis –. Em meio aos diferentes tipos de preconceito encontramos o sexismo, que compreende avaliações negativas e atos discriminatórios direcionados a mulheres devido a sua condição de gênero.

As teorias feministas explicam o sexismo como um resquício da cultura patriarcal. Elas apontam que a dicotomia público versus privado característica das sociedades patriarcais dotou o homem de um poder estrutural – controle das instituições econômicas, políticas e legais – e delegou às mulheres o cuidado da casa e dos filhos, concedendo, assim, ao primeiro a característica de grupo dominante. Esses valores, reforçados constantemente durante o processo de socialização, dariam origem às representações das mulheres como dóceis, submissas e responsáveis.

A literatura mais recente, porém, tem mostrado que as atitudes tradicionais a respeito da mulher têm sido substituídas por novas formas de sexismo. Os estudos de Swin, Aikin, Hall e Hunter (1995) apontam que atualmente a antipatia dirigida ao sexo feminino tem se expressado de forma mais simbólica ou indireta na atualidade. Esse sexismo moderno é caracterizado pela negação de que a discriminação contra a mulher ainda exista e por um antagonismo contra as lutas e políticas de apoio à população feminina.

Glick e Flicke (1996), ao estudarem estas novas formas de sexismo, propuseram que este tipo de preconceito se expressa através de duas facetas distintas: sexismo hostil e sexismo benevolente. O primeiro manifesta-se através de grande antipatia com as mulheres e o segundo por meios de sentimentos e condutas positivas em relação a estas – caracterizados pela visão idealizada da mulher como objeto romântico e pelas atitudes de reverência e proteção. Entretanto, estes mesmos autores, registram que apesar de se manifestar através de atitudes de proteção, idealização e afeto, o sexismo benevolente é permeado pela mesma ideologia do sexismo hostil – crenças sobre a inferioridade feminina – e também pode ser usado para justificar as desigualdades de gênero. Fundamentados nessas concepções teóricas, Glick e Flicke desenvolveram o Inventário de Sexismo Ambivalente, composto de 22 afirmativas com opções de resposta Likert de 6 pontos.

Na segunda parte do artigo a autora explica os procedimentos utilizados para aplicação deste inventário. A amostra foi composta de 540 universitários do Rio de Janeiro, de ambos os sexos e de idade média 21,83 anos. As 22 afirmativas da versão original do Inventário de Sexismo Ambivalente foram todas mantidas, traduzidas e corrigidas por 4 pessoas bilíngües. Porém houve uma dificuldade de tradução nos itens fraseados negativamente e decidiu-se trabalhar com todos os itens fraseados no sentido positivo. A aplicação do questionário se deu nas próprias salas de aula e os participantes foram solicitados a contribuir para uma pesquisa sobre a percepção das pessoas a respeito de diferentes grupos sociais. Os que deram suas opiniões a respeito de cada uma das frases do questionário de acordo com a escala Likert de 6 pontos, variando de “discordo fortemente” a “concordo fortemente”.

Os resultados obtidos foram bem semelhantes àqueles coletados em outros países. A estrutura fatorial obtida reproduziu fielmente a estrutura original, com os itens apresentando cargas fatoriais elevadas em um fator associado ao sexismo hostil ou em outro fator associado ao sexismo benevolente. Tais fatores foram responsáveis por 29% da variância do instrumento e sua consistência interna (Alfa de Cronbach) revelou resultados de 0,84 e 0,75 respectivamente. Os homens apresentaram escores significativamente mais altos para a escala de sexismo hostil, mas na escala de sexismo benevolente não houve distinção entre os sexos.

Ferreira conclui o seu artigo discutindo os resultados do estudo. Ficou evidente que a estrutura bi-dimensional obtida com a análise fatorial reproduziu integralmente as duas formas de sexismo (hostil e benevolente) dos estudos Glick e Flicke, confirmando que se trata de construtos independentes. Também ficou comprovado que o instrumento pode mensurar estes construtos em uma amostra brasileira de forma válida e fidedigna. A convergência dos resultados com amostras diversificadas obtidas anteriormente apontam a favor da posição de que o sexismo benevolente e hostil se caracterizam por ideologias válidas transculturalmente.

A autora considera as mulheres rejeitarem apenas o sexismo hostil, mas aceitarem o sexismo benevolente, como um sinal de que elas também impõem resistências às políticas que buscam reduzir as desigualdades entre os sexos. O sexismo benevolente ser aceito na mesma proporção por ambos os gêneros indica que ele pode estar sendo utilizado para levar a mulher a aceitar o maior poder estrutural dos homens e ainda ser recompensada por isso, já que este poder seria usado para lhe proteger. O fato de ele ser associado à proteção, admiração e afeto masculino, mascara toda a sua ideologia patriarcal que busca reforçar as desigualdades. Em outras palavras, ao endossarem o sexismo benevolente, as mulheres reforçam toda a ideologia hierárquica da relação entre os sexos afirmando que os homens não as dominam, mas as protegem. Ferreira conclui o texto afirmando que o sexo feminino ainda não tomou consciência do modo sutil através do qual o sexismo benevolente perpetua os valores patriarcais que limitam suas oportunidades.

O trabalho de Maria Cristina Ferreira alcançou a maioria dos seus objetivos, replicar a estrutura bi-fatorial do sexismo e analisar as relações entre esses fatores e as diferenças de gêneros. Porém, podemos questionar se uma amostra de 540 alunos de nível superior é a melhor amostragem para testar a fidedignidade e a validade de um instrumento na realidade brasileira. O ponto forte do artigo é sua revisão de literatura que, de forma breve e abrangente, cobre as bases que fundamentam a ambivalência do sexismo; tornando-o uma leitura agradável para iniciar-se no assunto.

Referencia: Ferreira, M.C. (2004). Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de genero. Temas em Psicologia da SBP. Vol.2. No 22. Pg. 119-126.

Resenha: Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Daiana Nogueira

Conceitualizando o preconceito como uma antipatia ou hostilidade dirigida a grupos ou a membros específicos de um grupo, devido a generalizações incorretas, Gordon Allport (1954), em sua obra “A natureza do preconceito”, impulsionou os primeiros estudos científicos sobre o preconceito dentro de uma perspectiva psicossocial. Ainda muito utilizado atualmente, esta definição sugere que o fenômeno do preconceito é constituído por bases de natureza cognitiva, afetiva e comportamental. O componente cognitivo é expresso através dos estereótipos presentes nas atitudes preconceituosas. Já o componente afetivo, por sua vez, pode ser verificado nos sentimentos e avaliações negativas dirigidas a certos grupos ou membros destes. Por fim, tem-se o componente comportamental do preconceito, relacionado diretamente com a discriminação e atos hostis direcionados a determinados grupos sociais.

Dentre as diversas, e inúmeras, possibilidades de expressão do preconceito, o Sexismo, ou avaliações negativas e atos discriminatórios dirigidos às mulheres, é amplamente verificado atualmente em diferentes contextos sociais. A literatura propõe a existência de dois tipos de manifestação do referido preconceito: o Sexismo institucional e o Sexismo interpessoal. Enquanto o primeiro está associado às práticas de discriminação e exclusão promovidas por entidades, organizações e comunidades, o segundo tipo de Sexismo refere-se à atitudes e condutas negativas que os homens direcionam às mulheres durantes as relações interpessoais cotidianas. As teorias feministas, por sua vez, defendem que o Sexismo, qualquer que seja a sua classificação, é um claro resquício de uma cultura patriarcal, apoiada em atitudes de desvalorização do sexo feminino como forma de legitimar e perpetuar o poder, dominação e controle do sexo masculino.

A literatura mais recente, no entanto, tem demonstrado, segundo Ferreira (2004), que as chamadas atitudes tradicionais a respeito das mulheres vêm sendo substituídas por novas formas de Sexismo, nas quais a antipatia ou hostilidade em relação à elas tem se expressado de forma simbólica ou indireta. Sob esta perspectiva, o Sexismo antigo (old-fashioned) é compreendido pelo endosso aos papéis de gênero tradicionais e aos estereótipos sobre a menor competência feminina, enquanto o chamado Sexismo moderno baseia-se na negação da existência de discriminação contra as mulheres e em avaliações negativas mais implícitas e encobertas em relação a estas.

Glick e Fiske (1996), a partir da análise das contemporâneas manifestações do Sexismo, defendem uma diferenciação entre Sexismo Hostil e Sexismo Benevolente, sendo o hostil caracterizado por intensa antipatia contra mulher, e o benevolente caracterizado por sentimentos e condutas positivas em relação ao sexo feminino. Além da definição, as origens e impactos destes tipos de Sexismo moderno também são distintos. O Sexismo hostil é oriundo de uma sociedade patriarcal, com inúmeros e intensos estereótipos acerca dos papéis destinados a cada gênero. Já o Sexismo benevolente, é estruturado através do poder biológico de procriação que detém a mulher, além da sua função social de cuidar dos filhos e satisfazer sexualmente o parceiro, assim o sexo feminino é concebido ideologicamente como um objeto romântico e reverenciado afetivamente por seu papel de mãe e esposa.

Ferreira (2004) propôs, através do inventário de Sexismo Ambivalente construído e validado por Glick e Fiske (1996), verificar a estrutura fatorial do referido inventário em amostras populacionais brasileiras. Para tanto, se valeu de 540 estudantes universitários, de 17 a 28 anos, pertencentes aos cursos das áreas de humanas e tecnológicas de universidades públicas e privadas da cidade do Rio de Janeiro. A referida amostra foi composta por 270 homens e 270 mulheres. O instrumento traduzido foi composto por 22 itens, que deveriam ser respondidos com base numa escala Likert de 6 pontos.

A aplicação do inventário de Sexismo Ambivalente em amostras populacionais brasileiras reproduziu integralmente as duas formas de Seximo – hostil e benevolente- reveladas pelo estudo original, atestando que estas duas formas de Sexismo constituem construtos independentes. Apesar de independentes, os construtos Sexismo hostil e o Sexismo Benevolente, se mostraram nos resultados obtidos como positivamente correlacionados, o que sugere que estas duas formas de Sexismo constituem facetas ideológicas de um mesmo sistema que diferencia os papéis e posições masculinas e femininas.

No que diz respeito ao Sexismo hostil e aos estereótipos negativos, os homens se mostraram mais sexistas do que as mulheres. As mulheres, por sua vez, rejeitaram o Sexismo Hostil, mas aceitam o Sexismo Benevolente e os estereótipos positivos na mesma proporção que os homens. Tal resultado pode ser interpretado pelo conteúdo presente em cada tipo de Sexismo, já que no primeiro tipo de Sexismo a mulher é ofendida, discriminada e punida, enquanto no segundo tipo, ela é protegida e reverenciada pelo sexo masculino. Ao endossarem em grau semelhante ao dos homens o Sexismo Benevolente, as mulheres estariam adotando também uma ideologia patriarcal, hierárquica e desigual, estimulando as práticas do Sexismo Hostil e contribuindo para a legitimação deste.

Frente a estes resultados, Ferreira (2004) defende que as desigualdades de gênero continuam sendo legitimadas por homens e mulheres pertencentes a diferentes grupos nacionais, sendo o Sexismo Benevolente uma forma implícita de perpetuar as mais variadas atitudes discriminatórias contra as mulheres. Este tipo de Sexismo aceito pelas mulheres, propicia também a aceitação do poder estrutural dos homens e reforça o papel feminino de dependência e busca constante por proteção e apoio oferecidos pelo sexo masculino.

Referência: Ferreira, M. C. Sexismo Hostil e Benevolente: inter-relações e diferenças de gênero. Temas em Psicologia, 12, 2,119-126, 2004.