Título: Identity as Self-Interpretation
Autor: Svend Brinkmann
Periódico: Theory & Psychology, 18, 404-422, 2008
Resumo: clique aqui para obter
Título: Identity as Self-Interpretation
Autor: Svend Brinkmann
Periódico: Theory & Psychology, 18, 404-422, 2008
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O estudo conduzido por Figueiras e cols.(2007) acerca das crenças de senso comum sobre medicamentos genéricos na população portuguesa reflete um aumento da divulgação e comercialização dos mesmos no país, o que é uma realidade correlata ao Brasil.
O aspecto econômico atrelado aos medicamentos genéricos é de alta relevância, entretanto, os autores do artigo apontam para estudos que demonstram insegurança para com esses e maior confiança na eficácia dos medicamentos de marca. Contudo, os genéricos vêm se popularizando, e vêm mostrando uma aceitação crescente.
Segundo Figueiras e cols.(2007), as crenças de senso comum atreladas aos medicamentos genéricos são permeadas pelas “… características individuais, crenças subjectivas sobre o tratamento e representações da doença do consumidor…” (Figueiras, Marcelino e Cortes, 2007, p.427).
Ao incluir as representações da doença, os autores atribuem um valor também à gravidade da mesma, que será uma das variáveis do presente estudo. Dessa maneira, quanto mais grave for a enfermidade em questão, menor será a confiança num tratamento à base de medicamentos genéricos.
Um dado interessante, trazido por Figueiras e cols (2007), aponta que, em estudos anteriores (Carroll, Wolgang, Kotzan e Perri, 1988 ) doentes que embora tivessem passado por experiência bem-sucedida com medicamento genérico, tinham uma menor probabilidade de voltar a usar este tipo de remédio em casos de doenças mais graves ou crônicas.
A adesão aos medicamentos genéricos perpassa, então, o meio social, através do qual os indivíduos irão adquirir experiências, vivências, que estão nas origens das crenças. Somado a isso, as representações sociais das doenças, e sua gravidade, também são veiculadas nesse âmbito (social).
É possível que, com o aumento crescente de informações acerca dos genéricos, algumas especulações quanto à sua eficácia ou efeitos colaterais sejam modificadas, contudo estamos ainda muito presos à prescrição médica, a qual se dá acentuadamente a favor dos medicamentos de marca. A contribuição dos profissionais de saúde, sobretudo dos médicos, na divulgação dos genéricos, é, dessa maneira, imprescindível, uma vez que, a margem de influência de um profissional como esse é bastante alta, sobretudo em setores mais carentes da população.
Corroborando com essa hipótese, um dado trazido da leitura de Figueiras, Marcelino e Cortes, (2007), pelos autores do artigo, indica que indivíduos com menos escolaridade têm crenças mais negativas quanto aos genéricos. Essa freqüência maior de crenças negativas também é encontrada em pessoas mais velhas.
Na leitura de outros estudos, os autores identificaram também diferenças quanto ao gênero envolvendo queixas somáticas e preocupação com a saúde. Por conta disso, decidiram por investigar, no estudo em questão, as diferenças de gênero associadas
às crenças sobre a medicação (genérica e de marca) para quatro doenças específicas, com graus de gravidade distintos.
Como resultados, eles obtiveram que: a concordância com a prescrição de medicamentos genéricos é inversamente proporcional à gravidade da doença; que os homens tendem a concordar mais com o uso de genéricos para doenças leves e que as mulheres associam mais fortemente o uso de medicamentos de marca às doenças mais graves.
A concordância com a prescrição de genéricos de uma forma geral, entretanto, chamou a atenção dos pesquisadores. Isto, por conta da implementação desses medicamentos ser recente em Portugal. Dentre as possíveis explicações, Figueiras e colaboradores elencaram: o fato de um participante da pesquisa poder dar respostas que ele acredita que são as esperadas; a disponibilidade de informação acerca dos genéricos e o custo menor, que é um fator bastante atrativo.
Quanto às diferenças de gênero encontradas no estudo, Figueiras e cols.(2007), sugerem a influência das diferentes formas de avaliação da saúde nessa esfera.
As mulheres, por apresentarem mais queixas e recorrerem mais aos cuidados médicos que os homens, acabam tendo uma percepção de gravidade das doenças diferenciada. Como a gravidade é um fator central na decisão entre um medicamento genérico e um de marca, e este fator tem conotações distintas para os dois gêneros, pode-se atribuir certa influência deste aspecto (gênero) nos resultados. Contudo, os pesquisadores marcam que, por se tratar de um estudo piloto, essas relações devem ser interpretadas com certo cuidado.
O estudo sobre as crenças acerca dos medicamentos genéricos reflete uma preocupação atual envolvendo a repercussão desses remédios na população. Na realidade portuguesa, os índices encontrados foram positivos, o que reflete a popularização desses fármacos devido à informação disponibilizada, sobretudo na mídia, e a redução de custos com a saúde.
Os medicamentos genéricos também vêm se popularizando no cenário brasileiro devido à sua divulgação e baixo custo. Contudo, por conta das diferenças entre as populações brasileira e portuguesa, esses resultados não podem ser generalizados para a nossa realidade.
Dessa forma, a leitura do artigo deixa uma enorme curiosidade a respeito do que poderia ser encontrado no Brasil, sobretudo, por conta de uma série de representações negativas do sistema de saúde. Esse cenário envolve, além de outros fatores, as implicações que o custo dos tratamentos traz para pessoas de renda mais baixa, para as quais o impacto econômico da utilização de remédios genéricos ou de marca é bastante acentuado.
Referência: Figueiras, M. J., Marcelino, D., Cortes, M. A., Horne, R. e Weinman, J. Crenças de senso comum sobre medicamentos genéricos vs.medicamentos de marca: Um estudo piloto sobre diferenças de género. Análise Psicológica, 25, 3, 427-437, 2007
Título:Conflict Transformation: A Longitudinal Investigation of the Relationships Between Different Types of Intragroup Conflict and the Moderating Role of Conflict Resolution
Autores: Lindred L. Greer, Karen A. Jehn e Elizabeth A. Mannix
Periódico:Small Group Research, 39, 278-302, 2008
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Baseando-se no grande raio de abrangência da comunicação através da TV, a propaganda contra-intuitiva surge como uma proposta de releitura das mensagens levadas aos telespectadores a fim de diluir ou quem sabe até suprimir os estereótipos difundidos. Há uma expectativa de incitar o telespectador quanto às suas fontes de conhecimento, sugerindo a utilização não só do senso comum, mas também do senso crítico na avaliação da informação transmitida. Assim, é válido afirmar que a propaganda contra-intuitiva visa operacionalizar o desenvolvimento do pensamento, passando de uma esfera superficial a uma esfera de pensamento crítico, reflexivo.
Em seu artigo, Francisco Leite aponta a expressão “propaganda contra-intuitiva”, adotada por Peter Fry para descrever as propagandas que rompem com os padrões, como uma tentativa de desafiar a intuição, ou seja, o senso comum, e que se propõe a uma nova avaliação a respeito dos objetos estereotipados. Trata-se de um olhar diferenciado para as outras realidades nas quais estão inseridos os indivíduos vítimas de comportamentos preconceituosos. O que se assemelha à proposta da pesquisadora e socióloga Jane Elliot em seu documentário Olhos Azuis, ao proporcionar uma inversão de papéis entre “percebedor” e “alvo”. Com isso, Elliot permitiu que os que se encontravam no lugar de vantagem pudessem experimentar a perspectiva do alvo e assim contribuir para a supressão desses estereótipos.
Além da inserção de representantes de grupos estereotipados, a propaganda contra-intuitiva se propõe a promover-lhes um novo patamar, atribuindo-lhes uma nova posição antes jamais experimentada. A campanha pela “Real Beleza” desenvolvida pela empresa DOVE é um bom exemplo dessa tentativa inovadora. Ao mostrar a beleza da mulher gordinha, da ruiva, da negra, dentre outras, a propaganda promove um novo conceito a respeito desses grupos estigmatizados, incluindo-os nos “padrões” de beleza. Entretanto, é preciso muita cautela, uma vez que esse processo também pode surtir efeitos contrários, contribuindo para a produção do sentido reverso das informações presentes na propaganda.
Ainda tomando como exemplo a propaganda da DOVE, tem-se que ao invés de uma tentativa de formatar as informações já fixadas, colocadas em xeque pelo comercial, em prol de uma reconstrução do conceito de beleza, pode-se fazer uma leitura dessa propaganda onde essas mulheres são negadas enquanto referenciais de beleza. É o efeito reverso que foi denominado por Wegner (1994, apud Leite) de ricochete e nada mais é do que a ausência de motivação para suprimir um dado estereótipo, causada por estados de sonolência ou distração, levando o indivíduo a reforçar tais pensamentos preconceituosos. Diante disso, o autor se propôs a discutir se seria realmente válido investir nas propagandas contra-intuitivas enquanto mecanismo de supressão de estereótipos.
De maneira simplista, os estereótipos podem ser concebidos como crenças compartilhadas socialmente sobre atributos típicos de um dado grupo. Dependendo da classificação dessas crenças enquanto centrais ou periféricas na vida do indivíduo, o seu processo de dissolução pode exigir grandes esforços. Na tentativa de estabelecer estratégias de atuação, o autor faz uso de um modelo teórico de supressão sugerido pelo cientista social Daniel Wegner, o qual pressupõe a existência de dois processos: monitoração e reorientação. A utilização do mecanismo de monitoração do pensamento permitiria ao indivíduo um acesso ao conteúdo mental, de forma que se tornasse mais fácil controlá-lo. Concomitantemente, o indivíduo experimentaria a reorientação da consciência, o que permitiria afastar deliberadamente os pensamentos indesejados ao destinar sua atenção a qualquer outro pensamento distrator. Não obstante, a eficácia desses mecanismos ainda é questionada.
Aqui vale apontar para dois fatores que justificam a força da propaganda enquanto ferramenta estratégica na formação e transformação da opinião pública: força da justificativa e contínua exposição. “A propaganda pela sua base estratégica de sempre renovar seu discurso de sedução, capta tendências e as disseminam de forma pioneira contribuindo para a construção de novos reflexos sociais e culturais.” (Leite, 2008). As informações armazenadas na memória são de extrema importância na tomada de decisão, promovendo constantemente a reconfiguração na estrutura cognitiva do indivíduo. A apresentação de um estímulo ativa o sistema de interação entre crenças e estereótipos, interferindo no comportamento que o indivíduo apresenta perante o foco de sua avaliação. Uma vez que se apresente um estímulo novo e positivo, por exemplo, em relação aos negros, pode haver uma modificação nas informações armazenadas pelos telespectadores, influenciando na alteração dos seus comportamentos em relação aos representantes desse grupo.
. Dessa forma, é preciso pontuar as propagandas contra-intuitivas como “uma tendência que considera em seus enredos comerciais as diversas políticas de representação identitária ao projetar na sua narrativa outros sentidos para a percepção dos estereótipos negativos socioculturais” (Leite, 2008). Ainda que possuam certas limitações, as propagandas contra-intuitivas são de grande importância no que diz respeito à estimulação do questionamento a respeito das informações transmitidas, o que visa aflorar no telespectador também o senso crítico.
Referência: Leite, F. Comunicação e cognição: os efeitos da propaganda contra-intuitiva no deslocamento de crenças e estereótipos. Ciência & Cognição, 13,1, 131-141, 2008
Editorial do The Scotsman, da Escócia, discute os impactos negativos da ingestão exagerada de bebida alcoólica entre os escoceses e, pedindo desculpas pelos uso dos estereótipos, indica os limites de tolerância de homens e mulheres. Clique aqui para ler.
Liberdade ou isolamento?
No artigo “Homossexualidade e preconceito: aspectos da subcultura homossexual no Rio de Janeiro” encontramos importantes reflexões acerca dos preconceitos enfrentados por homossexuais a partir da década de 70 e as construções de espaços urbanos na formação das subculturas, assim como a transição desses locais até os dias atuais. Os autores fazem uma distinção nítida entre a formação dos guetos nas cidades norte-americanas que seriam espaços urbanos maiores, completamente dominados pelos que ali se segregam com seus mercados e toda uma arquitetura socioeconômica voltada para os mesmos. A subcultura seria a formação de espaços menores de encontros e de identificação, possibilitando um maior entrosamento e afirmação dessas identidades grupais menores, tantas vezes excluídas pela maioria da sociedade.
De acordo com Plummer, as subculturas são resultantes de sociedades complexas onde não existe um sistema de valor único. Nesse sentido as subculturas seriam entendidas como uma forma de resistência, criando-se um espaço de livre expressão. Seguindo essa lógica os autores apontam para uma formação grupal positiva, envolvendo três aspectos: o reconhecimento de que certas desvantagens não são derivadas de experiências pessoais, que os aspectos minoritários do grupo são ilegítimos e derivados de preconceito e o desenvolvimento de uma identidade grupal positiva que como conseqüência gera a noção de comunidades homossexuais. Pessoas que participam de uma comunidade estabelecem relações virtuais ou face a face de modo que nem toda comunidade é uma subcultura. No Rio de Janeiro o autor defende que se pode falar tanto em comunidade quanto em subcultura homossexual (a noção de comunidade implica uma noção de identidade compartilhada, no caso especifico dos homossexuais.).
Fica registrada a importância desses espaços, na medida em que a rua é considerada um lugar heterossexual. Na medida em que se criam lugares específicos fica liberado a livre expressão de seu modo de ser, como andar de mãos dadas, beijarem, etc. Sob esse aspecto criam-se espaços de transitoriedade e de refugio ao preconceito. Por outro lado alguns lugares podem também ficar estigmatizados e serem alvos fáceis de manifestações homofóbicas. Nesse sentido há uma certa contradição, pois que se criam espaços para se estar mais livre, ter uma sensação de identidade, não obstante a própria necessidade de se criar espaços próprios revela o caráter excludente e preconceituoso da sociedade carioca, nesse caso. O texto, porém reafirma a construção de tais lugares como resistência cultural de grande simbologia.
No caso da subcultura brasileira, os homossexuais, apesar da identidade gay, parecem ter fundado sua união pela noção de diferença sexual. Ou seja, existe um aspecto comum de resistência ao preconceito, de compartilhamento da marginalidade, formando laços entre indivíduos estranhos, não necessariamente comuns. Portanto existem também as diferenças e inclusive a formação de subgrupos rotulados pelos próprios membros da comunidade: transformistas, drag queens, michês, boys, go-go-boys, bichas, bofes, bichas velhas, entendidos, ursos, barbies, dentre outros citados no artigo.
É chamada a atenção para o fenômeno atual da barbies que seriam homens que se dedicam ao culto do corpo, raspam os pelos – verdadeiros narcisos, buscando a virilidade e a eterna juventude. Tal fato por sua vez não surpreende na medida em que são valores também buscados fora da comunidade e da subcultura homossexual, reflexo da sociedade moderna. O texto chama a atenção justamente para o fato de existirem estilos dominantes de acordo com cada época, assim como espaços urbanos que vão sendo trocados ou reinvestidos, na medida em que não há guetos homossexuais no Brasil como nos Estados Unidos ou Europa. Verifica-se uma transição de um estilo mais afeminado desde a dec. de 70 para esse protótipo do supermacho e então na década de 90 o modelo dominante colocado como andrógino das barbies. É importante ressaltar, ainda que o artigo não trate com ênfase este assunto que há preconceitos entre os subgrupos gays, refletindo também as condições socioeconômicas de seus integrantes como em outras derivações sociais.
Encontramos ainda as mudanças espaciais, no deslocamento de espaços do centro da cidade, que eram muito freqüentados por homossexuais na década de setenta para bairros como Copacabana, Ipanema, Botafogo, Leblon e Barra da Tijuca. O centro, que sempre foi um local de utilização de homossexuais mais humildes, somando ao fenômeno da AIDS contribuiu para os deslocamentos já mencionados do espaço urbano (banheiros, cinemas e parques deixaram de ser largamente utilizados). Há um destaque para o bairro de Copacabana, que apesar de seu declínio e de hoje ser grande zona de prostituição, é ainda um espaço onde homossexuais de diversas origens se reúnem, principalmente no carnaval. Tem como marco seu quiosque rainbow que pode ser visto por qualquer transeunte na orla.
Vale salientar como afirma Trevisan a ambigüidade da criação e ampliação desses espaços, que podem ser invadidos pela policia, sendo um marco de que a tolerância serve para atender aos limites da comunidade. “Entre seus iguais (em termos de estigma) o homossexual pode estabelecer uma identidade positiva, mas corre o risco de viver num mundo incompleto e artificial se ficar muito preso à comunidade gay”. A formação das comunidades são formas de acomodação ao estatuto de estigmatizados?
O comportamento de consumo é referido como uma importante forma de simbolizar atos e a própria identidade da subcultura gay, na medida em que disponibilizam meios e recursos de identificação assim como também de estigma. Mas de todo modo gera uma certa abertura, no sentido de ampliar a visibilidade dentro da sociedade como um todo. Ainda assim permanece a questão: seria esse o inicio para uma liberdade, ou esse sonho é só mais uma mentira de nossa complexa sociedade moderna que é supostamente democrática? Liberdade ou isolamento? Liberdade demarcada? Como o homem pode superar suas dificuldades em tratar o diferente?
Referência: Nunan, A. e Jablonki, B. Homossexualidade e preconceito: aspectos da subcultura homossexual no Rio de Janeiro. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 54, 1, 21-32, 2002.
Das interpretações reinantes no contexto social para o fenômeno do envelhecimento, a mais cristalizada fortalece a compreensão de que o processo de envelhecimento representa uma época sombria, decrépita, coalhado de doenças e repleta de temores da morte. Neste artigo, Rosa Maria Lopes, professora coordenadora da Escola Superior de Enfermagem do Instituto Superior Politécnico de Viseu e Maria de Lurdes Martins, enfermeira graduada do Hospital S. Teotónio, S.A., em Viseu, fazem uma análise dos estereótipos sobre os idosos, reinantes no discurso social, os quais revelam uma percepção limitada desta população.
O termo “ancianismo” criado pela gerontologia e utilizado neste artigo é definido como um processo de discriminação sistemática, contra as pessoas por que são velhas.
Assim, este estudo vem contribuir para o esclarecimento de algumas questões sobre a atual situação do idoso na sociedade. A urgência de trazer à cena estas questões, as quais estas autoras exploram, justifica-se se levarmos em consideração que as representações sociais, como por exemplo, a dos idosos, está intimamente relacionada com o tratamento que é dispensado a este grupo, tanto em termos de relações proximais, como de relações institucionais.
No sentido de elucidar estas questões e baseados nos pressupostos teóricos defendidos por vários autores, este artigo traz conceitos referentes a estereótipos, crenças e atitudes. Estereótipos são “generalizações” e simplificação de crenças acerca de um grupo de pessoas, podendo ser de natureza positiva ou negativa. O estereótipo positivo é aquele em que se atribuem características positivas a todos os membros de uma categoria particular, por exemplo, “todos os idosos são prudentes”. Contrariamente, um estereótipo negativo, atribui características negativas a todas as pessoas de uma determinada categoria, de que é exemplo “todos os idosos são senis”.
Crenças, conjunto de informações sobre um assunto ou pessoas, determinante das nossas intenções e comportamentos, formando-se a partir das informações que recebemos. Por exemplo: a “idéia” de que todos os idosos são sensatos e dóceis e nunca se zangam.
Atitude, conjunto de juízos que se desenvolvem a partir das nossas experiências e da informação que possuímos das pessoas ou grupos. Pode ser favorável ou desfavorável, e embora não seja uma intenção pode influenciar comportamentos.
Em seguida traz um estudo realizado na Université de Montreal, que teve como objetivo identificar os estereótipos mais freqüentes aplicados aos idosos. Este estudo verificou que a maioria destes estereótipos estão ligados não a características específicas do envelhecimento, mas sim a traços da personalidade e a fatores socioeconômicos. Uma das justificativas para a construção dos estereótipos é que estes cumprem a função de simplificar os fenômenos sociais, por um lado; por outro, esta simplificação leva a uma ignorância acerca das suas especificidades, o que faz com que sejam minimizadas as características individuais de cada sujeito. No caso dos idosos – utilizados como exemplo pelas autoras deste artigo – aqueles que são ativos socialmente e que não se enquadram aos estereótipos de invalidez e improdutividade são considerados, muitas vezes, como tendo um comportamento social atípico, pelo que se enquadram numa exceção.
O fato é que os estereótipos são gerados porque há uma carência no sentido de aprofundamento dos processos de envelhecimento, fato que exerce uma influência direta na maneira como os indivíduos interagem com a pessoa idosa e na percepção que eles próprios têm de si mesmo, como bem coloca os autores.
Se analisarmos de forma mais aprofundada a condição dos idosos, talvez seja possível perceber uma discrepância entre a visão negativa de pessoas mais jovens acerca do envelhecimento e a percepção dos próprios idosos quando atribuem significado às suas experiências. Apesar da convivência com doenças e agravos, suas histórias de vida revelam ganhos e não apenas limitações, contribuindo para isto o apoio familiar e o social, os dois atuando como um diferencial na sua existência. Desta forma, há de se ter a preocupação de não estigmatizar a velhice.
Referência: Martins, R. M. e Rodrigues, M. L. Estereótipos sobre idosos: uma representação social gerontofóbica. Millenium. Revista do ISPV, 29, 249-254, 2004.
Editorial publicado no The Times of Trenton, de Trenton, Nova Jersey, discute, nesta época de Barack Obama, as diversas formas pelas quais o racismo persiste na sociedade norte-americana. Clique aqui para ler o editorial
Uma das principais características da psicologia social contemporânea é a ausência de modelos teóricos unificadores e o conseqüente predomínio das teorias de curto e médio alcance. Praticamente inevitável, se analisado á luz da intensa especialização teórica, conceitual e metodológica que se observa em todos os ramos da psicologia, tal situação gera uma série de dificuldades para o entendimento do que vem a ser a psicologia social. Trata-se de uma disciplina de natureza nomotética, onde a dimensão empírica e a metodologia experimental dominam ou seria a psicologia social uma disciplina de cunho emancipatório, na qual os métodos idiográficos e metodologia qualitativa predominam? Teríamos de fato três psicologias sociais, uma individualista e experimental, uma holista e sociológica e uma terceira, fundamentada nos princípios do interacionismo simbólico? Ou o critério de diferenciação da psicologia social deveria ser geográfico, de forma que teríamos uma psicologia anglo-americana, uma psicologia social européia e uma psicologia social latino-americana?
Inevitavelmente o professor ou o estudioso da psicologia social se obriga – ou é obrigado – a refletir sobre o assunto. A obra Psicologia Social. Perspectivas Psicológicas e Sociológicas, de autoria de dois cientistas sociais espanhóis, José Luis Álvaro e Alicia Garrido (São Paulo: McGraw-Hill, 2007, 414 páginas) certamente constitui um volume indispensável para ajudar a refletir sobre as questões anteriormente esboçadas. Trata-se de uma obra abrangente, que nas suas mais de quinhentas páginas oferece um panorama consistente e sistemático dos principais desenvolvimentos teóricos e metodológicos da psicologia social ao longo do desenvolvimento histórico da disciplina.
Sob o ponto de vista formal, a ordem cronológica organiza a apresentação das várias teorias comentadas nos diversos capítulos. O capítulo 1, referente aos antecessores da psicologia social na segunda metade do século XIX, dedica-se à apresentação e discussão do desenvolvimento das idéias psicossociológicas na Franca (Émile Durkheim, Gabriel Tarde e Gustave Le Bon), na Alemanha (Wilhelm Wundt, Wilhelm Dilthey e Karl Marx), na Inglaterra (Herbert Spencer) e nos Estados Unidos (William James e John Dewey). Tomando como ponto de partida os princípios do positivismo, Álvaro e Garrido discutem a tese da unidade da ciência e avaliam como tal tese repercutiu, e ainda repercute, na psicologia social contemporânea e ao mesmo tempo apontam para um paradoxo que a psicologia social enfrenta desde a sua origem: ao mesmo tempo em que surge numa época em que estava em voga a busca por princípios unificadores da ciência, os seus princípios surgem em tantos lugares distintos e seus postulados são diferentes entre si que não se pode nem mesmo falar de um mito de fundação ou de uma origem única para a psicologia social. Desde a própria origem, a psicologia social será marcada pela pluralidade e tal pluralidade irá acompanhar e determinar os passos de todo o seu desenvolvimento posterior.
O capítulo 2 analisa de forma aprofundada a consolidação da psicologia como uma disciplina independente nas primeiras décadas do século XX. As duas primeiras seções do capítulo são dedicadas à discussão de como a psicologia social conseguiu se diferenciar e se tornar autônoma em relação às duas disciplinas que lhes serviram de matrizes: a psicologia e a sociologia. Essa dualidade na origem marca a consolidação e o desenvolvimento posterior da psicologia social, seja sob o ponto de vista teórico e conceitual, seja sob o ponto de vista metodológico. No que concerne às contribuições da psicologia, observa-se que praticamente todos os sistemas psicológicos do início do século XX sugeriam alguma forma de conceber a psicologia social: a teoria do campo psicofísico da psicologia da Gestalt irá repercutir de forma significativa na obra de Kurt Lewin; o comportamentalismo de J. B. Watson atualizar-se-á na psicologia social de Floyd Allport; as idéias de base psicanalítica de Sigmund Freud e discípulos exercerão um forte impacto em teorias como as da personalidade autoritária e na hipótese da frustração-agressão. A diferenciação da psicologia social no âmbito da sociologia é analisada em termos das contribuições de autores como Edward Ross, Max Weber, Georg Simmel e George Herbert Mead. A seção final do capítulo é dedicada a apresentação das diferenças de natureza metodológica entre a psicologia social oriunda da psicologia – assentada quase que exclusivamente em técnicas experimentais – e a psicologia social de base sociológica, centrada em uma dimensão metodológica mais eclética e pluralista.
Os capítulos 3 e 4 são dedicados à análise da evolução da psicologia social como um campo independente de investigações entre os anos 30 e 70 do século XX. Os fundamentos para a discussão das diversas perspectivas teóricas da psicologia social foram os problemas de natureza epistemológicos suscitados pelo movimento do positivismo lógico do Círculo de Viena e pela sociologia do conhecimento de Karl Mannheim. No terceiro capítulo são discutidas teorias eminentemente psicossociais, como as de Kurt Lewin, e teorias que apontam para o impacto dos processos cognitivos na investigação do comportamento social, tais como as de Frederic Bartlett e Lev Vygotski, além de teorias de origem sociológica, como, por exemplo, o interacionismo simbólico, o funcionalismo estrutural de Talcott Parsons e a escola de Frankfurt. O quarto capítulo é dedicado a análise de algumas teorias mais recentes. A influência da psicologia da gestalt na psicologia pode ser facilmente referida, a considerar a sua influência em teorias como a de Fritz Heider, Solomon Asch, Leon Festinger, Stanley Milgram e Muzafer Sherif. Ainda na vertente psicológica, são analisadas as influências da psicologia comportamental sobre as obras de Carl Hovland, Robert Zajonc, John Thibaut e Harold Kelley. Em contrapartida, as contribuições de autores como George Homans, Peter Blau, Herbert Blumer, Erving Goffman e Alfred Shultz, assim como a da etnometodologia de Harold Garfinkel, foram recenseadas sobre a ótica das influências das teorias sociológicas sobre a psicologia social.
O quinto e último capítulo, que se inicia a partir de uma breve, mas bem conduzida, reflexão sobre as mudanças na concepção de ciência que influenciaram a psicologia social desde os anos 70, apresenta, em mais de 130 páginas, uma análise cuidadosa das principais vertentes da psicologia social contemporânea. Trata-se de um recenseamento exaustivo, onde os princípios e fundamentos de muitas teorias de origem européias, freqüentemente desprezadas pelos manuais tradicionais da psicologia, são apresentados com um certo grau de detalhamento. Assim, teorias mais específicas, como as da atribuição da causalidade ou a da categorização social e relações intergrupais da Universidade de Bristol, ou modelos mais abrangentes, como os da cognição social ou o das representações sociais, são apresentados e discutidos de forma relativamente aprofundada. Além disso, teorias fora da corrente principal da psicologia social psicológica, tais como o construcionismo social de Kenneth Gergen, o enfoque etogênico de Rom Harré e o modelo retórico de Michael Billig, têm os seus fundamentos apreciados. Por outro lado, teorias que exercem um forte impacto na psicologia social sociológica contemporânea, como a teoria da ação estrutural de Sheldon Stryker, a teoria da estruturação de Anthony Giddens, a sociologia figurativa de Norbert Elias e o construtivismo estruturalista de Pierre Bourdieau têm os seus fundamentos apresentados e discutidos em uma seção inteiramente dedica às vertentes sociológicas da psicologia social.
Ainda sob o aspecto formal, o livro apresenta pequenas resenhas acerca da vida e obra de 40 teóricos de destaque na psicologia social e é acompanhada por 50 páginas de referências bibliográficas, onde se encontram arrolados trabalhos clássicos e contemporâneos de leitura obrigatória para o psicólogo social.
Como pode ser depreendido da leitura desta resenha, o volume escrito por Álvaro e Garrido vem preencher uma importante lacuna na literatura psicossocial acessível aos leitores brasileiros, pois se trata de um livro que apresenta de uma forma abrangente – mas aprofundada – as principais teorias contemporâneas, discute as bases epistemológicas e históricas que as deram origem e avalia criticamente as contribuições destas teorias para o desenvolvimento da psicologia social.
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