Artigo publicado: Rosenberg Self-Esteem Scale Across Eight Countries

Título: Examining the Differential Item Functioning of the Rosenberg Self-Esteem Scale Across Eight Countries

Autores: Baranika, L., Meadeb, A., Lakeya, C., Lance, C.,Huc, C., Huad, W. e Michalos, A.

Periódico: Journal of Applied Social Psychology, 38, 7, 1867-1904, 2008

Resumo: clique aqui para obter

Tipos e figuras: vovó Arlinda

Contribuição: Vanessa Carvalho

Resenha: Victoria’s Dirty Secret: how sociocultural norms influence adolescent girls and women

Vanessa Carvalho

O artigo teve base numa pesquisa realizada por Erin J. Strahan e Anne E. Wilson da Universidade Wilfrid Laurier, Adéle Lafrance da Universidade de Toronto, Nicole Ethler, Steven J. Spencer e Mark P. Zanna da Universidade de Waterloo. O intuito foi de estudar as influências das normas socioculturais para mulheres adolescentes e adultas, tendo como foco de interesse os padrões de beleza.
Os autores iniciam o texto fazendo um levantamento de algumas pesquisas envolvendo o tema. Dentre dados obtidos em estudos anteriores é dito que a insatisfação das mulheres com seu corpo é conseqüência das normas socioculturais de aparência ideal. Essas normas trariam a noção de que a valorização da mulher estaria atrelada a sua aparência física.
No primeiro tópico “Papel das mensagens da mídia na imagem corporal das mulheres”, Strahan et al. tratam da influência da mídia na divulgação dos quase inatingíveis padrões de beleza e peso ideais o que vem gerando diversas críticas. Citando, Hofschire e Greenberg (2002), os autores mostram que as imagens expostas pela mídia estão negativamente relacionadas a satisfação com o próprio corpo e diretamente ligadas com a internalização de corpo ideal. Apesar de muitas pesquisas trazerem essas evidências, os autores também apontam que outros pesquisadores têm opiniões opostas. São destacados como riscos da influencia da mídia: aparecimento de distúrbios alimentares e comparação a padrões irreais.
Strahan et al. se voltam para a proposição de que as normas socioculturais podem afetar a auto-imagem das mulheres pelo aumento do nível no qual baseiam sua auto-estima em aparência física. Reforçando a relevância desse estudo, é feita uma referência a Crocker (2002) que considera arriscado quando a auto-valorização se baseia em contingências externas, porque gera busca por aprovação dos outros.
Os autores apresentam como uma peculiaridade de seu estudo, a investigação de uma contingência externa específica para auto-valorização: a aparência física. Eles propõem que normas socioculturais de aparência levam as mulheres a crer que seu valor depende de sua aparência.
Segundo Strahan et al. a modelo criado para a pesquisa se baseou em estudos anteriores que demonstraram que imagens refletindo padrões de beleza, comumente levam as mulheres a sentir-se insatisfeitas com seu corpo. Eles fazem uma interessante referência a Fredrickson e Roberts (1987) que afirmaram que as mulheres aprendem socialmente que seu valor se deve à aparência física, dando importância à perspectiva de uma terceira pessoa. A partir dessa base teórica, a hipótese de Strahan et al. é de que as imagens da mídia refletindo normas socioculturais de aparência, podem gerar nas mulheres a preocupação se estão suficientemente magras ou atraentes aos olhos de outras pessoas. Outra justificativa dada pelos autores para a relevância de estudos como este é que se confirmadas as hipóteses, o fato pode representar arriscadas implicações para as mulheres.
O processo da pesquisa, segundo apresentado pelos autores, foi dividido em duas etapas principais: “Estudo 1” e “Estudo 2”. Durante o “Estudo 1”, Strahan et al. apontam como objetivo, realizar o exame do impacto que a apresentação de imagens com padrões típicos de aparência ideal poderiam gerar com relação a satisfação das mulheres quanto a seu corpo, bem como quanto a sua preocupação com a percepção dos outros. De acordo com os autores, a pesquisa teve foco nas mulheres por considerá-las mais susceptíveis aos efeitos negativos dos padrões de beleza.
Ao descrever o método utilizado, os pesquisadores reataram que o verdadeiro objetivo da pesquisa era ocultado com o pedido de que os participantes tentassem lembrar ao máximo possível os detalhes das imagens exibidas. Essa estratégia parece válida considerando que permite evitar a interferência de algumas variáveis. Além disso, é um meio de garantir a atenção dos participantes.
Conforme apresentado no artigo, foram escolhidas como participantes apenas mulheres da graduação de psicologia. Estas foram distribuídas entre grupo experimental e grupo controle. Na condição controle, foram exibidos comerciais neutros e que não continham pessoas, seguindo o modelo de pesquisas anteriores. Por sua vez, na condição experimental, foram mostrados comerciais neutros intercalados com comerciais que segundo autores, apresentavam normas socioculturais relacionadas a aparência. Um deles se relaciona com o título do texto e consiste numa peça publicitária da grife de lingeries Victoria’s Secret. Após assistir aos comerciais, as participantes eram informadas de que haveria um intervalo antes de testar sua memória. Neste intervalo, é que ocorria a verdadeira coleta de dados por meio de questionários.
No artigo, os resultados foram agrupados em “Aparência como base para auto-valorização”, “Satisfação com o corpo” e “Preocupação com a percepção dos outros”. De acordo com relato de Strahan et al. os resultados corroboraram com sua hipótese, porque as participantes do grupo experimental basearam mais sua auto-estima na aparência que aquelas do grupo controle. Eles também apontam que um teste sobre a influência para outras dimensões da auto-valorização (além da aparência), mostrou que outros fatores como desempenho acadêmico e apoio familiar não foram afetados, embora o domínio “aprovação dos outros” o tenha. Com relação a essa observação dos autores, é importante lembrar a particularidades de cada situação e sujeito, pois questões relacionadas a baixa auto-estima quanto a aparência, em alguns casos podem ter proporções a ponto de interferir em outras dimensões da valorização pessoal.
A respeito da “satisfação com o corpo”, os autores também apresentam um resultado conforme esperado, porque as participantes do grupo experimental demonstraram menos satisfação com seu corpo. Além disso, também foi mais saliente nesse grupo a preocupação com a opinião dos outros. Sendo assim, pode-se dizer que o resultado geral, foi consistente com as formulações prévias dos pesquisadores, a partir da observação de que a auto-valorização estava mais relacionada a aparência quando normas socioculturais estavam em destaque.
A segunda etapa do estudo, “Estudo 2”, foi realizada com estudantes de escolas públicas. Neste caso, os autores apresentaram como objetivo, a investigação da possibilidade de reduzir os impactos da veiculação de padrões de beleza, por meio de uma intervenção nesse intento. A partir dessa intervenção, Strahan et al. esperavam que os participantes se sentissem desafiados a reduzir legitimidade das normas socioculturais de aparência, contestando a idéia de que seguir esses padrões traria aceitação social.
Durante essa etapa, os pesquisadores relatam ter utilizado como participantes homens e mulheres adolescentes, sem deixar muito claro o motivo para a mudança de perfil comparando-se com as participantes do “Estudo 1”, principalmente no que diz respeito a mudança de faixa etária e inclusão dos homens (no “estudo 1” apresentados como dispensáveis para essa pesquisa). Não se sabe até que ponto, essa mudança pode ter interferido nos resultados.
A descrição do método demonstra que neste caso, também houve tentativa de ocultar os objetivos da pesquisa. Na condição de controle, a intervenção se voltava para questões de incentivo ao voluntariado. Na condição experimental, era esperado que a intervenção levasse os participantes a se basear menos na aparência em sua auto-avaliação, além de que se mostrassem mais satisfeitos com seu corpo e menos preocupação com a percepção dos outros.
Segundo Strahan et al., a intervenção foi formulada em duas etapas: “sessão 1” e “sessão 2”. Durante a “sessão 1” foi realizada um discussão sobre o ideal de beleza para homens e mulheres, nesta discussão os facilitadores apresentavam exemplos e enfatizavam o quanto certos padrões são irreais, além dos riscos que a tentativa de atingi-los pode significar. Na “sessão 2”, os participantes eram estimulados aplicar os conhecimentos expostos e incitados ao debate sobre o tema. É importante considerar que a eficiência desse formato de intervenção depende da predisposição e perfil de cada um, mas de um modo geral, parece ter sido bem formulado.
Os autores apontam que o teste dos efeitos da intervenção foi feito uma semana depois. Esse procedimento por um lado permite avaliar a consistência da intervenção, mas talvez possa reduzir a garantia da correlação com dados obtidos. Durante essa etapa da pesquisa Strahan et al., relatam que aos participantes era dito que iriam avaliar campanhas publicitárias, utilizando modelos. Os resultados esperados a partir dos instrumentos eram: rejeição às normas socioculturais de aparência e menos internalização da forma física ideal.
Como resultados do grupo experimental, os autores apontam que homens e mulheres pareceram rejeitar mais a legitimidade dos padrões de beleza em comparação com os participantes do grupo controle.
Sobre a investigação da “aparência como base para auto-valorização”, Strahan et al. relevam que era esperado na condição experimental, que os participantes utilizassem menos a aparência como base de sua valorização. Os resultados foram de acordo com essa hipótese para as mulheres, embora os garotos pareçam não ter sido afetados pela intervenção. No entanto, os autores lembram que no grupo controle a comparação entre homens e mulheres, mostrou que as garotas baseavam mais sua auto-estima em aparência que os garotos.
Com relação a “satisfação com o corpo”, a hipótese formulada pelos pesquisadores era de que os participantes se apresentariam mais satisfeitos com seu corpo na condição experimental e que esse resultado seria mais saliente para as garotas. Novamente, o apresentado coincidia com o esperado e os garotos demonstravam ter sido menos afetados pela intervenção.
As expectativas dos autores sobre “preocupação com a percepção dos outros” seguiam raciocínio semelhante aos itens anteriores. Deste modo, foi relatado por eles que o esperado era que os participantes, principalmente as mulheres, na condição experimental demonstrariam menos preocupação com a opinião dos outros. Neste caso, a hipótese sobre as garotas também foi corroborada pelos resultados e entre os garotos não houve diferença significativa entre o grupo experimental e o grupo controle.
De modo geral, a partir do exposto por Strahan et al., comparando os resultados entre homens e mulheres do grupo controle foi observado que os garotos aceitavam menos as normas socioculturais de beleza. Esse dado é apresentado como justificativa para o fato da intervenção não ter gerado resultados significativos para os homens. Segundo autores, a intervenção pode não ter afetado os garotos pelo fato destes, serem mais imunes as normas socioculturais. Entretanto, é válido flexibilizar as causas dos resultados, pois conforme afirmado pelos próprios autores podem haver inúmeras outras explicações, inclusive de que o modelo utilizado não se adequou a participantes masculinos.
Ao realizar um auto-questionamento sobre a aplicabilidade dos resultados, Strahan et al. reconhecem que a depender de características particulares nem todas as mulheres reagem da mesma forma a exposição de padrões socioculturais de aparência física. A proposta é de que ainda assim, a maioria das mulheres legitimam os padrões de aparência ideal. Esse elemento, pode estar relacionado ao fato já citado pela referência a Fredrickson e Roberts (1987) de que as mulheres são socializadas aprendendo que devem buscar a adequação aos padrões de beleza. Além disso, ocorre a ainda vigente percepção da mulher como objeto sexual que desconsidera fatores como carreira e inteligência como atributos valoráveis.
A partir dos resultados obtidos, os autores apontam possíveis implicações para as mulheres. Dentre elas, é afirmado que a exposição a mensagens de normas de beleza podem levar as mulheres a basear mais sua auto-estima em aparência e como a maioria não se encaixa nos padrões, a tendência é que se auto-avaliem negativamente. Citando Crocker (2002), os autores reforçam os riscos para o bem-estar, além dos comportamentos auto-destrutivos que podem ser adotados por conta desses padrões.
Strahan et al. ressaltam que poucas opções são deixadas as mulheres porque se não se submetem aos riscos de tentar seguir os padrões, por outro lado, correm o risco da rejeição social. Os autores concluem o artigo, afirmando que embora os resultados do “Estudo 1”, apontem a tendência feminina a se auto-valorizar pela aparência e legitimar normas socioculturais de beleza, após a exposição a imagens que apresentam tais padrões, ainda pode haver esperança. Essa seria justificada pelos resultados do “Estudo 2” que mostram que um trabalho de intervenção pode trazer mudanças de comportamento.

Conclusão

Os resultados apresentados nesta e em pesquisas anteriores reforçam a necessidade de contestação da veiculação de peças publicitárias, dentre outros veículos da mídia, que refletem normas socioculturais de aparência física. Mostra-se necessário que o próprio consumidor pressione uma mudança de postura da indústria.
Vale ressaltar que algumas empresas começam a utilizar-se da quebra de padrões como uma estratégia de marketing. Mesmo que se trate de mera estratégia para atrair simpatia dos consumidores, e não um valor real da empresa pode-se considerar que se tratam de iniciativas positivas. Os resultados especificamente do “Estudo 2”, mostram que é válido valer-se de campanhas utilizando contra-estereótipos no intuito de sensibilizar quanto as fantasiosas noções de padrões de beleza.

Referência: Strahan, E. J., Lafrance, A., Wilson, A. E., Ethler, N., Spencer, S. J. & Zanna, M. P. Victoria’s Dirty Secret: How Sociocultural Norms Influence Adolescent Girls and Women. Personality and Social Psychology Bulletin, 34, 288-301, 2008.

Estereótipos e música: cotidiano

Contribuição: Ivanilde Cerqueira

Estereótipos e gênero: máquinas e máquinas

Contribuição: Judson Rocha Jr.

Fonte: Calzzzinha´s Flogs

Resenha – Sobreviver ao medo da violação: Constrangimentos enfrentados pelas mulheres

Manuela Moura

O artigo “Sobreviver ao medo da violação: constrangimentos enfrentados pelas mulheres”, dos autores Margarida Berta, José H. Ornelas e Susana G. Maria é fruto de uma pesquisa muito interessante que visou estudar quais as possíveis causas, efeitos e conseqüências que o medo da violação tem no cotidiano da sociedade e na vida das mulheres principalmente.
Estudos mostram que, em comparação com o homem, a mulher possui menos probabilidade de ser agredida. Porém, são elas quem mais sentem medo de serem violadas. Então, estes autores se propõem a estudar de onde vem a ansiedade vivida pelas mulheres diante do sentimento de insegurança social.
Clemente & Kleiman (1977, cit. Por Stanko, 1993) suscitam basicamente duas explicações: a primeira é baseada nas características atribuída as mulheres de que elas são seres frágeis e dependentes, enquanto que o homem é socialmente visto como alguém que não sabe expressar sentimentos, portanto mais rígidos ou socialmente vistos como “fortes”. A segunda explicação baseia-se em um tipo de crime específico que afeta particularmente as mulheres: o crime de violação.
Os mesmo autores citados acima enfatizam a necessidade de pesquisar sobre esse crime de gênero feminino, uma vez que este afeta a maioria das mulheres, quer elas tenham sido vítimas ou não, mas que ainda assim se sentem ameaçadas.
Pesquisas mostram que depois do homicídio, o abuso sexual é o crime mais temido pelas mulheres. Porém, o medo de violação é mais vivido pelas mulheres do que pelos homens, e pode-se supor que este medo está associado ao caráter sexual inerente a ele. Portanto, percebe-se que essas mulheres, além de serem as mais temerosas, são também as mais cuidadosas, adotando com maior freqüência medidas de prevenção.
Day (1994) postula que o quê as mulheres mais temem são os meios públicos (rua), sítios isolados, sair no turno da noite, ter a visibilidade limitada, passar por locais ou situações desconhecidas e por pessoas estranhas. Infelizmente, não há nenhuma garantia de que essas medidas irão proteger, mas muitas vezes acabam por inibir a liberdade das mulheres e restringir o acesso a meios comunitários. Então, conforme essa teoria, a violação não apenas apresenta conseqüências para a sobrevivente, mas acabam por condicionar a vida das mulheres em geral.
Existem alguns fatores interdependentes no espaço social que acabam por compor um pano de fundo para tal medo. São exemplos desses fatores: “a existência do crime de violação propriamente dito (sua prevalência e deficiente resposta legal e social em face de este crime), assim como o assédio e todo o tipo de incivilidades públicas percebidas como intrusivas; a própria cultura social e seus valores que incluem a desigualdade dos papéis sexuais e sociais de ambos os gêneros; as conseqüências da violação; os mitos sociais sobre o crime em questão; a educação; e a comunicação social”.
Todos estes fatores potencializam a interiorização de valores por parte de homens e mulheres e, conseqüentemente, obrigam à adoção de comportamentos constrangedores e limitantes por parte das mulheres.
É importante pensar que a liberdade para se viver em segurança deveria ser um direito de todos os cidadãos, porém este tipo de crime culmina na construção de um controlo social, suscitando nas mulheres o sentimento exacerbado de medo, ansiedade e apreensão.
Esses sentimentos de ansiedade e insegurança não devem ser tomados como algo particular, e sim como uma construção social, fato que causa um impacto considerável na sociedade e na vida dos cidadãos como um todo.
Riger e Gordon (1981) vão defender que o medo de violação se origina e é continuamente reforçado pela história, religião, cultura, instituições sociais que fazem parte do cotidiano de todas as mulheres. Estes mesmos autores trazem que a violação é motivada pelo poder e domínio exercidos nas sobreviventes, e não pelo desejo sexual. Sendo assim, apenas pode-se vislumbrar uma mudança nessa sociedade patriarcal e oprimida através de transformações nas instituições sociais e culturais.
Para investigar essas e outras questões importantes, os autores dessa pesquisa se basearam na metodologia de Investigação Participada Feminista (IPF), contando com as contribuições da Psicologia para a compreensão da violência contra as mulheres enquanto um problema social, decorrente do abuso de poder por parte dos homens, cujo processo de socialização incentiva.
Existem cinco itens que são importantes na definição da metodologia de investigação feminista que contribuíram para o presente estudo: “1º) há uma focalização no gênero (feminino) e na desigualdade social que esta condição acarreta; 2º) procura-se dar voz às experiências pessoais e cotidianas das mulheres (ou mesmo de outros grupos marginalizados); 3º) paralelamente ao objeto propriamente dito da investigação, encontra-se um compromisso social, para que uma real mudança ocorra nas condições opressoras sob as quais o grupo em estudo se encontra; 4º) a reflexão dos próprios investigadores sobre questões que abordam o gênero, raça, classe social e orientação sexual podem influenciar o processo de investigação, daí que; 5º) se abandone, de algum modo, a tradicional investigação positivista, que apóia uma relação formal entre investigador e “investigado”, dando lugar a um ênfase participativo por parte do último na própria construção da investigação” (Cosgrove & McHugh, 2000).
Este estudo, ao se basear nessa perspectiva, tem em si uma expectativa de catalisar mudanças sociais e de proporcionar a conscientização do fenômeno social do medo da violação. Sendo assim, tal pesquisa mostrou-se importante na medida em que se propõe a alertar, refletir e esclarecer acerca de um tema que se encontra no âmago da cultura e da sociedade.
Por fim, para melhor esclarecer quais os princípios norteadores desta pesquisa, faz-se importante mencionar quais as questões de investigação utilizadas. São elas:
1. De que modo o crime de violação afeta a vida das mulheres em geral?
2. Que comportamentos de prevenção as mulheres em geral adotam ou não para evitar este crime?
3. Que tipo de constrangimentos provoca ou não o crime de violação nas mulheres em geral?
4. A que níveis as mulheres em geral sentem ou não a sua liberdade condicionada por causa do medo da violação?
5. Qual a origem do medo da violação?

Metodologia do estudo
Foram selecionados 18 participantes do sexo feminino com idades compreendidas entre os 19 e os 25 anos. Todas elas eram universitárias no Instituto Superior de Psicologia Aplicada.
Para avaliar as respostas das participantes foi elaborado um instrumento baseado na escala “Fear of Rape Scale” (Fors) validada por Senn e Dzinas (1996). Este instrumento tem por objetivo conhecer a realidade do medo da violação e os condicionamentos que a sua existência provoca na vida das mulheres, a partir das experiências das participantes. Tal instrumento abarca dez itens. São eles:
1) Qual o crime que mais temem?
2) Na condição de mulheres, qual o crime que pensam que mais as afetam?
3) (referida a violação) O que vos faz sentir?
4) (violação não referida) E a violação, já pensaram sobre isso?
5) Qual o local/locais onde pensam haver uma maior probabilidade de acontecer? E em que altura do dia?
6) O que fazem ou deixam de fazer por causa desse crime? (precauções em casa/ rua/transportes públicos/relações sociais/altura do dia)
7) De que modo pensam que o medo da violação afeta a vossa liberdade?
8 ) De onde pensam ter surgido esse medo?
9) Esta abordagem dos condicionamentos que afeta a liberdade das mulheres parece-lhes pertinente? Em que medida?
10) Que outras idéias gostariam de acrescentar acerca deste tema?
Por fim, o procedimento utilizado foi a construção de quatro grupos de debate, contando com um total de 18 participantes. O enquadre do encontro foi definido por contato telefônico. Estes grupos eram coordenados por uma facilitadora, cuja função era resumir as idéias que foram sendo expostas; questionar o grupo sobre o que foi relatado; facilitar e promover idéias, colocar os tópicos de diversas formas; procurar saber se alguém pretendia acrescentar algo às questões que foram sendo levantadas; incentivar as pessoas menos participativas a expressar as suas idéias e promover opiniões, não emitindo juízos de valor.

Discussão dos resultados
Os resultados foram muito interessantes, corroborando em sua maioria a teoria. Grande parte das participantes neste estudo parecia ter uma opinião formada e estarem esclarecidas quanto às realidades e mitos da violação. Entre os diversos mitos existentes, elas pareciam ter conhecimento sobre o mito da mulher provocar a violação através de comportamentos ousados, do uso de um vestuário provocador, por circular em horários tardios, bem como o mito de que os violadores cometem o crime pela gratificação sexual.
Boa parte das participantes apontou na condição de mulheres o crime de violação como aquele que mais temem para si, como para aqueles que a rodeiam, e não o sexual.
Algumas delas consideram, ainda, que em face de uma situação percebida como perigosa, automaticamente pensam no risco de violação. Elas demonstraram possuir uma consciência comum de vulnerabilidade sexual e, conseqüentemente, em relação aos crimes de caráter sexual.
Alguns outros medos foram citados em menor freqüência, sendo alguns deles o medo frente às situações de risco passadas, enquanto outras associaram maiores níveis de medo à possibilidade de vitimação. O medo de violação parece estar relacionado com as conseqüências deste crime a vários níveis, encontrando-se enraizado na sua ansiedade como conseqüência da violação.
Também foi levantada que a possibilidade da violação acontecer por parte de conhecidos e no seio familiar não é uma realidade que lhes é alheia. O violador pode ser alguém conhecido da vítima, quer seja um companheiro de circunstância, amigo, colega, alguém com quem a vítima manteve ou mantém uma relação amorosa, inclusive em contexto de relação extra-conjugal.
Uma grande parte das participantes considerou maior probabilidade da violência contra as mulheres também ocorrer no contexto privado, como por exemplo, o lar. Em contrapartida, foi dado um número menor de respostas quanto à consideração da maior probabilidade de vitimização ser em local público, como na rua, ou em locais descampados/isolados, ou em locais escuros, em parques de estacionamento, em becos, em parques e principalmente quando se encontram sós.
Essas mulheres acabam por adotar comportamentos de precaução em casa, freqüentemente trancando as portas e janelas, verificando quem é quando lhe batem à porta, não abrindo a porta a estranhos, optando por utilizar alarmes.
No que tange às precauções adotadas quando estão na rua, tanto de caráter de evitação, como em estratégias de coping, percebe-se que a maioria das mulheres escolhe por trancar as portas do carro e fechar os vidros, tomar precauções quanto ao local onde estacionam o carro, procuram estar mais em estado de alerta, tanto na rua como nos transportes públicos, em face de situações entendidas como perigosas mudam de passeio, aproximam-se de zonas com mais gente ou de locais /alguém que lhes transmita segurança, quando se sentem ameaçadas correm ou apressam o passo, caminham para sítios mais iluminados ou, ainda, utilizam objetos de defesa como medida de proteção.
Day (1999), através do estudo anteriormente referido, sugeriu que a aparência, a raça e o preconceito social, podem determinar quais os homens que são temidos como potenciais ofensores. Bem como os delinqüentes que são sempre alvos de suspeita e de insegurança, sendo classificadas como pessoas perigosas.
O medo da violação é visto como limitador da liberdade por metade das participantes, causando-lhes em algum nível o sentimento de constrangimento e de limitação ao andarem sozinhas, de se movimentarem livremente, assim como consideram interferir em suas relações interpessoais, na escolha de emprego, na escolha do vestuário e ao nível do comportamento em geral.
Por fim, com base numa pressuposta diferenciação biológica, as mulheres eram/são vistas como seres delicados e vulneráveis. As normas culturais de violência e atitudes sexistas contribuem para os crimes de caráter sexual, dado que a socialização dos papéis sexuais conduz ao desenvolvimento de mitos sobre o crime de abuso sexual que resultam das atitudes sociais face às mulheres e da violência interpessoal (White & Humphrey, 1991, cit. Por White & Humphrey, 1997; Fonow et al., 1992).

Conclusão
As mulheres parecem encarar a violação como o crime que mais temem, sobrevivendo às sua ameaça adaptando estratégias que lhes permitam sentirem-se mais seguras.
Os fatores sociais que culminam no medo de violação são a cultura social que abarca a identidade do gênero e os papéis sociais e sexuais, bem como a desigualdade entre esses, a educação, as conseqüências reais do crime de violação, os mitos sociais sobre a violação que acabam por distorcer a percepção da sua realidade, a comunicação social; e, por fim, a prevalência do crime de violação, assim como as experiências de assédio no cotidiano dessas mulheres.
Sendo assim, a violação, e o receio freqüente em face desse crime, deixará de ser prevalente quando for alcançada a igualdade entre gêneros e quando estes deixarem de ser encarados como uma dimensão não muito importante na estrutura da sociedade, atendendo aos seus membros como indivíduos e não como pertencentes a um grupo sexual.
Por fim, faz-se necessário promover uma sensibilização pública focada no esclarecimento daquilo que constitui a igualdade entre gêneros e seus papéis sociais, bem como uma conscientização social que vise potencializar essa mudança. É preciso também apresentar contextualização adequada das realidades acerca da violência sexual, dispersando mitos, dissipando a culpabilização das sobreviventes e, desse modo, minimizando a ansiedade das mesmas perante o ato de violação.

Referência: Berta, M., Ornelas, J e Maria, S. Sobreviver ao medo da violação: Constrangimentos enfrentados pelas mulheres. Análise Psicológica, 25, 1, 135-147, 2008.

Estereótipos e quadrinhos: algo justifica pensar que a tira do Cascão é racista?

Contribuição: Ivanilde Cerqueira

Acompanhe a discussão na Revista Fórum sobre a tira do Cascão.

Artigo publicado: Reasoning about Foods

Título: Children’s Gender- and Ethnicity-based Reasoning about Foods

Autores: Virginia Lam and Patrick Leman

Periódico: Social Development, doi:10.1111/j.1467-9507.2008.00493.x

Resumo: clique aqui para obter

Notícia do dia: metidos fazem mais sucessos entre as mulheres

Contribuição: Pamela Pitágoras

Quem disse que cara de pau não funciona? Clique aqui para ler a matéria publicada na BBC Brasil

Estereótipos e música: stop radioactivity