Editorial do The Times of India discute um conjunto de atitudes preconceituosos e estereótipos persistentes na moderna Índia que oferece suporte para a expressão da discriminação racial e étnica. Clique aqui para ler a notícia
Categoria: Discriminação
Resenha – Homossexualidade e preconceito: aspectos da subcultura homossexual no Rio de Janeiro
Maria Fernanda Saback
Liberdade ou isolamento?
No artigo “Homossexualidade e preconceito: aspectos da subcultura homossexual no Rio de Janeiro” encontramos importantes reflexões acerca dos preconceitos enfrentados por homossexuais a partir da década de 70 e as construções de espaços urbanos na formação das subculturas, assim como a transição desses locais até os dias atuais. Os autores fazem uma distinção nítida entre a formação dos guetos nas cidades norte-americanas que seriam espaços urbanos maiores, completamente dominados pelos que ali se segregam com seus mercados e toda uma arquitetura socioeconômica voltada para os mesmos. A subcultura seria a formação de espaços menores de encontros e de identificação, possibilitando um maior entrosamento e afirmação dessas identidades grupais menores, tantas vezes excluídas pela maioria da sociedade.
De acordo com Plummer, as subculturas são resultantes de sociedades complexas onde não existe um sistema de valor único. Nesse sentido as subculturas seriam entendidas como uma forma de resistência, criando-se um espaço de livre expressão. Seguindo essa lógica os autores apontam para uma formação grupal positiva, envolvendo três aspectos: o reconhecimento de que certas desvantagens não são derivadas de experiências pessoais, que os aspectos minoritários do grupo são ilegítimos e derivados de preconceito e o desenvolvimento de uma identidade grupal positiva que como conseqüência gera a noção de comunidades homossexuais. Pessoas que participam de uma comunidade estabelecem relações virtuais ou face a face de modo que nem toda comunidade é uma subcultura. No Rio de Janeiro o autor defende que se pode falar tanto em comunidade quanto em subcultura homossexual (a noção de comunidade implica uma noção de identidade compartilhada, no caso especifico dos homossexuais.).
Fica registrada a importância desses espaços, na medida em que a rua é considerada um lugar heterossexual. Na medida em que se criam lugares específicos fica liberado a livre expressão de seu modo de ser, como andar de mãos dadas, beijarem, etc. Sob esse aspecto criam-se espaços de transitoriedade e de refugio ao preconceito. Por outro lado alguns lugares podem também ficar estigmatizados e serem alvos fáceis de manifestações homofóbicas. Nesse sentido há uma certa contradição, pois que se criam espaços para se estar mais livre, ter uma sensação de identidade, não obstante a própria necessidade de se criar espaços próprios revela o caráter excludente e preconceituoso da sociedade carioca, nesse caso. O texto, porém reafirma a construção de tais lugares como resistência cultural de grande simbologia.
No caso da subcultura brasileira, os homossexuais, apesar da identidade gay, parecem ter fundado sua união pela noção de diferença sexual. Ou seja, existe um aspecto comum de resistência ao preconceito, de compartilhamento da marginalidade, formando laços entre indivíduos estranhos, não necessariamente comuns. Portanto existem também as diferenças e inclusive a formação de subgrupos rotulados pelos próprios membros da comunidade: transformistas, drag queens, michês, boys, go-go-boys, bichas, bofes, bichas velhas, entendidos, ursos, barbies, dentre outros citados no artigo.
É chamada a atenção para o fenômeno atual da barbies que seriam homens que se dedicam ao culto do corpo, raspam os pelos – verdadeiros narcisos, buscando a virilidade e a eterna juventude. Tal fato por sua vez não surpreende na medida em que são valores também buscados fora da comunidade e da subcultura homossexual, reflexo da sociedade moderna. O texto chama a atenção justamente para o fato de existirem estilos dominantes de acordo com cada época, assim como espaços urbanos que vão sendo trocados ou reinvestidos, na medida em que não há guetos homossexuais no Brasil como nos Estados Unidos ou Europa. Verifica-se uma transição de um estilo mais afeminado desde a dec. de 70 para esse protótipo do supermacho e então na década de 90 o modelo dominante colocado como andrógino das barbies. É importante ressaltar, ainda que o artigo não trate com ênfase este assunto que há preconceitos entre os subgrupos gays, refletindo também as condições socioeconômicas de seus integrantes como em outras derivações sociais.
Encontramos ainda as mudanças espaciais, no deslocamento de espaços do centro da cidade, que eram muito freqüentados por homossexuais na década de setenta para bairros como Copacabana, Ipanema, Botafogo, Leblon e Barra da Tijuca. O centro, que sempre foi um local de utilização de homossexuais mais humildes, somando ao fenômeno da AIDS contribuiu para os deslocamentos já mencionados do espaço urbano (banheiros, cinemas e parques deixaram de ser largamente utilizados). Há um destaque para o bairro de Copacabana, que apesar de seu declínio e de hoje ser grande zona de prostituição, é ainda um espaço onde homossexuais de diversas origens se reúnem, principalmente no carnaval. Tem como marco seu quiosque rainbow que pode ser visto por qualquer transeunte na orla.
Vale salientar como afirma Trevisan a ambigüidade da criação e ampliação desses espaços, que podem ser invadidos pela policia, sendo um marco de que a tolerância serve para atender aos limites da comunidade. “Entre seus iguais (em termos de estigma) o homossexual pode estabelecer uma identidade positiva, mas corre o risco de viver num mundo incompleto e artificial se ficar muito preso à comunidade gay”. A formação das comunidades são formas de acomodação ao estatuto de estigmatizados?
O comportamento de consumo é referido como uma importante forma de simbolizar atos e a própria identidade da subcultura gay, na medida em que disponibilizam meios e recursos de identificação assim como também de estigma. Mas de todo modo gera uma certa abertura, no sentido de ampliar a visibilidade dentro da sociedade como um todo. Ainda assim permanece a questão: seria esse o inicio para uma liberdade, ou esse sonho é só mais uma mentira de nossa complexa sociedade moderna que é supostamente democrática? Liberdade ou isolamento? Liberdade demarcada? Como o homem pode superar suas dificuldades em tratar o diferente?
Referência: Nunan, A. e Jablonki, B. Homossexualidade e preconceito: aspectos da subcultura homossexual no Rio de Janeiro. Arquivos Brasileiros de Psicologia, 54, 1, 21-32, 2002.
Resenha: estereótipos sobre idosos: uma representação social gerontofóbica
Ivanilde Souza
Das interpretações reinantes no contexto social para o fenômeno do envelhecimento, a mais cristalizada fortalece a compreensão de que o processo de envelhecimento representa uma época sombria, decrépita, coalhado de doenças e repleta de temores da morte. Neste artigo, Rosa Maria Lopes, professora coordenadora da Escola Superior de Enfermagem do Instituto Superior Politécnico de Viseu e Maria de Lurdes Martins, enfermeira graduada do Hospital S. Teotónio, S.A., em Viseu, fazem uma análise dos estereótipos sobre os idosos, reinantes no discurso social, os quais revelam uma percepção limitada desta população.
O termo “ancianismo” criado pela gerontologia e utilizado neste artigo é definido como um processo de discriminação sistemática, contra as pessoas por que são velhas.
Assim, este estudo vem contribuir para o esclarecimento de algumas questões sobre a atual situação do idoso na sociedade. A urgência de trazer à cena estas questões, as quais estas autoras exploram, justifica-se se levarmos em consideração que as representações sociais, como por exemplo, a dos idosos, está intimamente relacionada com o tratamento que é dispensado a este grupo, tanto em termos de relações proximais, como de relações institucionais.
No sentido de elucidar estas questões e baseados nos pressupostos teóricos defendidos por vários autores, este artigo traz conceitos referentes a estereótipos, crenças e atitudes. Estereótipos são “generalizações” e simplificação de crenças acerca de um grupo de pessoas, podendo ser de natureza positiva ou negativa. O estereótipo positivo é aquele em que se atribuem características positivas a todos os membros de uma categoria particular, por exemplo, “todos os idosos são prudentes”. Contrariamente, um estereótipo negativo, atribui características negativas a todas as pessoas de uma determinada categoria, de que é exemplo “todos os idosos são senis”.
Crenças, conjunto de informações sobre um assunto ou pessoas, determinante das nossas intenções e comportamentos, formando-se a partir das informações que recebemos. Por exemplo: a “idéia” de que todos os idosos são sensatos e dóceis e nunca se zangam.
Atitude, conjunto de juízos que se desenvolvem a partir das nossas experiências e da informação que possuímos das pessoas ou grupos. Pode ser favorável ou desfavorável, e embora não seja uma intenção pode influenciar comportamentos.
Em seguida traz um estudo realizado na Université de Montreal, que teve como objetivo identificar os estereótipos mais freqüentes aplicados aos idosos. Este estudo verificou que a maioria destes estereótipos estão ligados não a características específicas do envelhecimento, mas sim a traços da personalidade e a fatores socioeconômicos. Uma das justificativas para a construção dos estereótipos é que estes cumprem a função de simplificar os fenômenos sociais, por um lado; por outro, esta simplificação leva a uma ignorância acerca das suas especificidades, o que faz com que sejam minimizadas as características individuais de cada sujeito. No caso dos idosos – utilizados como exemplo pelas autoras deste artigo – aqueles que são ativos socialmente e que não se enquadram aos estereótipos de invalidez e improdutividade são considerados, muitas vezes, como tendo um comportamento social atípico, pelo que se enquadram numa exceção.
O fato é que os estereótipos são gerados porque há uma carência no sentido de aprofundamento dos processos de envelhecimento, fato que exerce uma influência direta na maneira como os indivíduos interagem com a pessoa idosa e na percepção que eles próprios têm de si mesmo, como bem coloca os autores.
Se analisarmos de forma mais aprofundada a condição dos idosos, talvez seja possível perceber uma discrepância entre a visão negativa de pessoas mais jovens acerca do envelhecimento e a percepção dos próprios idosos quando atribuem significado às suas experiências. Apesar da convivência com doenças e agravos, suas histórias de vida revelam ganhos e não apenas limitações, contribuindo para isto o apoio familiar e o social, os dois atuando como um diferencial na sua existência. Desta forma, há de se ter a preocupação de não estigmatizar a velhice.
Referência: Martins, R. M. e Rodrigues, M. L. Estereótipos sobre idosos: uma representação social gerontofóbica. Millenium. Revista do ISPV, 29, 249-254, 2004.
Notícia do dia: o racismo sobrevive
Editorial publicado no The Times of Trenton, de Trenton, Nova Jersey, discute, nesta época de Barack Obama, as diversas formas pelas quais o racismo persiste na sociedade norte-americana. Clique aqui para ler o editorial
Estereótipos e publicidade: raparigas de salto alto
Resenha – A face oculta do racismo no Brasil: uma análise psicossociológica
Sheila Lima
O texto versa sobre as novas formas de expressão do racismo, uma vez que os seus atos explícitos são proibidos por lei. Os autores sugerem que existe na sociedade moderna um discurso contraditório, onde se reconhece a existência do racismo, mas individualmente não se assume a responsabilidade pelo mesmo. Para os referidos autores, os atos explícitos de discriminação racial e étnica estariam acabando, o que não significaria, contudo, que o preconceito racial o esteja. O que ocorre é uma mudança nas formas de expressão e conteúdo do preconceito, alterando, por conseguinte, a expressão de um racismo aberto e agressivo para outro que não desafia as normas sociais.
Muitas abordagens teóricas vêm tentar explicar essa nova modalidade de preconceito que não desafia as normas anti-racistas. Para os autores que abordam essa problemática (Katz, Wackenhut e Hass, 1986; MMcConahay, 1986; Pettigrew e Meertens, 1995; Meertens e Pettigrew, 1999; Vala, 1999), nos últimos 30 ou 40 anos as sociedades vêm desenvolvendo restrições institucionais à pratica discriminatória baseada nas diferenças de raça. Tais abordagens consideram que a diminuição do racismo é um fenômeno aparente, uma vez que as atitudes preconceituosas permaneceriam presentes em cada individuo. O que ocorreria é que a discriminação manifesta estaria sendo substituída por outras formas mais sutis.
Autores como Sears e Kinder (1971, apud Camino et al ,2001) propõem a teoria do racismo simbólico, cujo núcleo seria a afirmação de valores igualitários (de acordo com o Pós Modernismo) e, simultaneamente, a oposição às políticas que estariam de acordo com esses referidos valores. Um exemplo disso seria a política de cotas para ingresso na universidade, cujo ataque teria por base o argumento de uma igualdade de direitos para todas as pessoas, independente de sua origem.
Essa nova abordagem apresenta problemas metodológicos, uma vez que essas novas formas de preconceito se manifestam a partir de crenças e práticas distintas do racismo clássico. Para os autores, o foco dessa abordagem engloba a compreensão das características próprias de cada ambiente social a fim de construir em cada um desses contextos medidas adequadas, ou seja, não englobaria a construção de escalas a priori.
No que se refere ao aspecto conceitual, essa nova abordagem significa que as pessoas experimentam, consciente ou inconscientemente, “um conflito psicológico devido ao confronto entre suas atitudes íntimas preconceituosas e as normas sociais contra o preconceito” (Camino et al, 2001), o que levaria à construção de formas adequadas e capciosas de preconceito. Entretanto, esse conflito pode ter tido sua origem a partir dos argumentos que circulam na própria sociedade e não nos processos psicológicos individuais. Todavia, as concepções atuais sobre o preconceito utilizam uma abordagem individualista e processual, não adaptada aos fenômenos sociais ligados aos processos de exclusão, o que se configura como um elemento dificultador para a elucidação da referida problemática.
Os autores ressaltam que o processo de globalização e a conseqüente intensificação das relações entre diferentes culturas e etnias produz um fenômeno ambíguo: por um lado um maior respeito à diversidade dos valores culturais, e, por outro lado, o crescimento dos movimentos nacionalistas, provocando fenômenos de fanatismo e discriminação contra etnias e grupos minoritários. Além disso, o desenvolvimento econômico e tecnológico do capitalismo acentua a diferença entre ricos e pobres no âmbito individual e político.
Estudos atuais sobre grupos demonstram que nos países ocidentais o preconceito se expressa pela negação de traços positivos ao grupo-alvo, ao invés de atribuição de traços negativos ao mesmo. Isso sugere que as práticas discriminatórias estão adquirindo expressões cada vez mais tênues, a fim de preservar o ideal de não-discriminação dos grupos sociais a partir dos critérios de raça.
Numa pesquisa que atingiu todo o território nacional, Venturi e Paulino (1995, apud Camino et al ,2001)) constataram que 89% dos brasileiros reconheciam a existência de preconceito racial no Brasil, contudo, apesar dessa consciência, só 10% admitia ser pessoalmente preconceituoso. O fato do individuo não se reconhecer preconceituoso, por outro lado, não exclui a demonstração desse mesmo preconceito. Martiniano Silva (1995, apud Camino et al ,2001) argumenta que esse racismo seria muito mais engenhoso e mascarado, e, por conseguinte, mais eficiente em sua função de discriminar e mais difícil de erradicar.
Essa disparidade produz uma dissonância cognitiva que permite aceitar a existência social dos estereótipos negativos sobre os negros e, ao mesmo tempo, negar que a própria pessoa endossa tais crenças. Dessa forma, uma visão racial estereotipada tenderá a se manifestar mais facilmente quando essa mesma visão for atribuída a outros.
Os resultados da pesquisa realizada pelos autores apontam que estudantes atribuíram aos negros adjetivos como alegres e simpáticos, entretanto, esses mesmos estudantes acreditam que o povo brasileiro considera os negros como desonestos, agressivos e pouco inteligentes. Os resultados do estudo refletem o conflito no qual o brasileiro vive: a consciência da discriminação que o negro sofre e os laços criados pela miscigenação e as pressões politicamente corretas que impedem que o papel de cada um nesse processo de discriminação seja elucidado.
Mesmo existindo a manutenção de uma postura politicamente correta, fica claro o consenso de que a discriminação existe e que a mesma passa a ter novas justificativas mais aceitáveis socialmente. Um ponto relevante destacado é a formação de uma nova categorização social que vai substituir o conceito de raça e que seria fruto desse processo dissociativo: a adaptação aos valores modernos e progressistas. A ideologia neoliberal, portanto, nega a existência de uma hierarquia de raças, mas pressupõe a existência de diferenças no sentido do progresso econômico e social.
A cor da pele estaria associada a esse progresso: a cor branca estaria ligada aos valores progressistas do primeiro mundo e a cor negra aos valores tradicionais e menos avançados do terceiro mundo. Da mesma forma os negros teriam aptidões naturais relacionadas ao esporte ou às artes, enquanto que os brancos teriam aptidões intelectuais e para atividades ligadas ao poder. Essa nova forma de categorizar estaria de acordo com as normas anti-racistas, culminando na facilitação dos processos de exclusão, na preservação da discriminação racial e na retirada do sentimento de responsabilidade individual.
Embora possamos concordar que as manifestações públicas de racismo são severamente criticadas no espaço social, o mesmo se faz muito presente e se mostra cada dia mais forte, sendo preciso apenas analisar as estatísticas brasileiras para fins de constatação: os negros são aqueles que moram em situações menos favoráveis, os que possuem empregos com menor remuneração, que dependem de um sistema de saúde que, embora bem elaborado, não consegue atender a toda a demanda da população, além disso, estudos recentes apontam que epidemias como o HIV/AIDS têm sofrido uma pauperização, o que significa que esses índices têm crescido entre em negros e pobres.
Em outubro de 2005, Carlos Lopes, representante do Programa das Nações Unidades para o Desenvolvimento (PNUD) afirmou em entrevista quando indagado sobre a forma como o racismo se expressa no Brasil: “Quando se analisa a distribuição de recursos em termos raciais, desde que as estatísticas permitam essa desagregação, chega-se facilmente à conclusão de que há uma diferença entre brancos e negros. Se há melhora social no país, a situação dos brancos melhora mais. Quanto menos negros você tem em determinada zona, melhores os indicadores”. No mesmo mês, o relator especial das Nações Unidas sobre formas contemporâneas de racismo e discriminação racial, Doudou Diène, considera em seu relatório de visita ao Brasil: “toda a sociedade está organizada a partir de uma perspectiva racista: os negros são excluídos de todos os setores da sociedade e confinados aos trabalhos difíceis, com baixos salários, e seus direitos básicos, incluindo o direito à vida, sendo violados”.
Esse relatório apresenta alguns dados estatísticos que nos fazem questionar até que ponto o racismo se apresenta de forma oculta ou mesmo se não seríamos nós, brasileiros, que fechamos os olhos para dados tão gritantes. Somente a titulo de ilustração, no referido relatório consta, por exemplo, que a renda média mensal de mulheres negras no Brasil, em 2003, foi de R$ 279,70, contra R$ 428,30 para os homens negros, R$ 554,60 para as mulheres brancas e R$ 931,10 para os homens brancos. Na Bahia, as mulheres negras recebem 40% do salário de um homem branco que exerce a mesma função. Além disso, a expectativa de vida de negros é menor (67,87) que a dos brancos (73,99). Segundo Diène (2005), isso demonstra a persistência do racismo e discriminação social de forma estrutural e sistêmica.
Quando consideramos tais dados e outros, infelizmente, tão comuns à nossa sociedade, não podemos deixar de considerar que, efetivamente, o povo brasileiro vive um processo dissociativo: todos esses índices nos são velhos conhecidos e, simultaneamente, cada dia fechamos mais os olhos para essa realidade. No final, o que resta é um “faz de conta”: todos nós sabemos que o racismo existe, mas não admitimos nossa contribuição para sua persistência e isso ocorre no mesmo momento em que a questão da desigualdade e, por conseguinte, a problemática do racismo deveria ser o elemento de discussão, reflexão e combate mais importante para cada brasileiro.
Referências
1. Camino, L., Silva, P. Machado, A. e Pereira, C. A face oculta do racismo no Brasil: uma analise psicossociológica. Revista Psicologia Política, 1, 1, 13-36, 2001.
2. Relatório do relator especial sobre formas contemporâneas de racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância relacionada, Doudou Diène, em sua missão no Brasil (17-26 de outubro de 2005) disponível em http://www.irohin.org.br/imp/n15/07.htm.
Relatório de Doudou Diène terá impacto no sistema ONU no Brasil? Disponível em http://www.irohin.org.br/imp/n15/07.htm.
Kuelhos, a loja sem preconceitos
Resenha: as novas formas de expressão do preconceito e do racismo
Leiza Nazareth Torres
Lima & Vala (2004) iniciam o artigo destacando os diversos tipos de racismo que tem surgido na modernidade, formas menos diretas, entretanto que não deixam de ser prejudiciais. Nesta perspectiva, a psicologia social produziu diversas teorizações a respeito das novas expressões de racismo e preconceito, tais como racismo moderno, racismo simbólico, racismo aversivo, racismo ambivalente, preconceito sutil e o racismo cordial.
Dessa forma, o artigo recapitula historicamente o preconceito e o racismo desde a antiguidade greco-romana, em que este processo era baseado na cultura e não na condição racial, até os dias atuais em que este processo não é tão direto, principalmente após a Segunda Guerra Mundial e as mudanças provocadas pela mesma como os movimentos pelos direitos civis nos EUA, as conseqüências do nazismo e a declaração dos Direitos Humanos. Neste sentido, as formas de expressão do racismo modificaram drasticamente, o que levou o mundo a pensar que na verdade o racismo não existia mais.
Entretanto estes processos não se extinguiram, apenas mudaram a sua expressão, principalmente devido às pressões da legislação anti-racista. Assim, os autores distinguem as novas formas sutis e veladas de preconceito e racismo.
Racismo simbólico: presente nos EUA, representando uma forma resistência às mudanças no status quo das relações racializadas após a Declaração dos Direitos Humanos.
Racismo moderno: idéia de que os negros recebem mais do que merecem, violando os valores importantes para os brancos, como igualdade e liberdade. Este tipo de racismo também é mais atuante nos EUA.
Racismo aversivo: atitude racial, mais comum entre os americanos brancos que possuem fortes valores igualitários, mas que vivenciam uma ambivalência que resulta do conflito entre sentimentos e crenças associados a valores igualitários e sentimentos negativos em relação aos negros, geralmente desconforto, ansiedade, nervosismo e medo.
Preconceito sutil: Presente na Europa e caracterizado por preconceito contra grupos exógenos, tendo como alvo minorias culturais. Esta é uma forma mais velada e disfarçada de preconceito.
Racismo cordial: discriminação em relação às pessoas não brancas caracterizada por uma cortesia superficial que esconde atitudes discriminatórias que vão se expressar em piadas, ditos populares, brincadeiras, entre outros, sempre de cunho racial, presente no Brasil.
A partir desta premissa há uma constatação, através de uma pesquisa, de que 89% dos brasileiros consideram que exista racismo no Brasil, porém apenas 10% afirmam serem racistas. Mas então quem são os outros 79%? Allport (1954) ressalta que o racismo, apesar de ser uma problemática social, sempre é visto como um problema do outro, distante de cada um de nós, o que pode ser uma justificativa para este tipo de resultado nas pesquisas.
No presente artigo, Lima & Vala (2004) retratam uma realidade que todos nós brasileiros conhecemos muito bem, mas preferimos fingir que o racismo e o preconceito não existem e que vivemos num paraíso democrático. Mas então porque houve tanto protesto contra as cotas nas universidades? E porque ainda, segundo o jornal Correio da Bahia do dia 15 de maio de 2008, os brasileiros têm preferência em adotar crianças brancas, apesar de 80% falarem que não tem preferência de cor em relação à cor da criança a ser adotada? E porque assassinatos de crianças negras, nas periferias, em condições de extrema violência não causam tanto clamor público, como o assassinato de Isabella Nardoni? Sem contar a declaração do coordenador do curso de medicina da Ufba, Natalino Dantas, que culpou o “baixo QI” dos baianos pelo péssimo desempenho da faculdade de Medicina da Bahia na prova do ENAD.
Percebemos, portanto, que no Brasil, as pessoas têm consciência de que vivem em uma sociedade em que há discriminação racial, entretanto elas não se sentem responsáveis por esta situação, o que pode acarretar numa problemática, já que para combater o racismo é necessário que o mesmo seja reconhecido como um problema a ser solucionado.
Os autores finalizam o artigo enfatizando a necessidade de novas pesquisas investigativas das novas formas de expressões de preconceito e racismo no âmbito da psicologia social brasileira, com intuito de encontrar elementos comuns e particulares que diferenciam e assemelham o racismo e o preconceito no Brasil e em outros países.
Referência: Lima, M.E e Vala, J. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo.Estudos em Psicologia, Natal, 9,3,2004.
Notícia do dia: 15 mulheres são queimadas vivas no Quênia acusadas de bruxaria
Contribuição: Leiza Torres
Desta vez foi no Quênia, mas o teor da notícia é sempre o mesmo: acusação de bruxaria + mulheres = carnificina. Clique aqui para ler a matéria.
Notícia do dia: estereótipos e esquiadoras
Praticante do salto em esqui, uma das modalidade de disputa dos jogos olímpicos de inverno, entram na justiça para garantir às mulheres o direito de disputar os jogos olímpicos de 2010. Clique aqui para ler a matéria publicada no jornal Globe and Mail, de Toronto, Canadá.


