Resenha: Sexismo hostil e benevolente: inter-relações e diferenças de gênero

Daiana Nogueira

Conceitualizando o preconceito como uma antipatia ou hostilidade dirigida a grupos ou a membros específicos de um grupo, devido a generalizações incorretas, Gordon Allport (1954), em sua obra “A natureza do preconceito”, impulsionou os primeiros estudos científicos sobre o preconceito dentro de uma perspectiva psicossocial. Ainda muito utilizado atualmente, esta definição sugere que o fenômeno do preconceito é constituído por bases de natureza cognitiva, afetiva e comportamental. O componente cognitivo é expresso através dos estereótipos presentes nas atitudes preconceituosas. Já o componente afetivo, por sua vez, pode ser verificado nos sentimentos e avaliações negativas dirigidas a certos grupos ou membros destes. Por fim, tem-se o componente comportamental do preconceito, relacionado diretamente com a discriminação e atos hostis direcionados a determinados grupos sociais.

Dentre as diversas, e inúmeras, possibilidades de expressão do preconceito, o Sexismo, ou avaliações negativas e atos discriminatórios dirigidos às mulheres, é amplamente verificado atualmente em diferentes contextos sociais. A literatura propõe a existência de dois tipos de manifestação do referido preconceito: o Sexismo institucional e o Sexismo interpessoal. Enquanto o primeiro está associado às práticas de discriminação e exclusão promovidas por entidades, organizações e comunidades, o segundo tipo de Sexismo refere-se à atitudes e condutas negativas que os homens direcionam às mulheres durantes as relações interpessoais cotidianas. As teorias feministas, por sua vez, defendem que o Sexismo, qualquer que seja a sua classificação, é um claro resquício de uma cultura patriarcal, apoiada em atitudes de desvalorização do sexo feminino como forma de legitimar e perpetuar o poder, dominação e controle do sexo masculino.

A literatura mais recente, no entanto, tem demonstrado, segundo Ferreira (2004), que as chamadas atitudes tradicionais a respeito das mulheres vêm sendo substituídas por novas formas de Sexismo, nas quais a antipatia ou hostilidade em relação à elas tem se expressado de forma simbólica ou indireta. Sob esta perspectiva, o Sexismo antigo (old-fashioned) é compreendido pelo endosso aos papéis de gênero tradicionais e aos estereótipos sobre a menor competência feminina, enquanto o chamado Sexismo moderno baseia-se na negação da existência de discriminação contra as mulheres e em avaliações negativas mais implícitas e encobertas em relação a estas.

Glick e Fiske (1996), a partir da análise das contemporâneas manifestações do Sexismo, defendem uma diferenciação entre Sexismo Hostil e Sexismo Benevolente, sendo o hostil caracterizado por intensa antipatia contra mulher, e o benevolente caracterizado por sentimentos e condutas positivas em relação ao sexo feminino. Além da definição, as origens e impactos destes tipos de Sexismo moderno também são distintos. O Sexismo hostil é oriundo de uma sociedade patriarcal, com inúmeros e intensos estereótipos acerca dos papéis destinados a cada gênero. Já o Sexismo benevolente, é estruturado através do poder biológico de procriação que detém a mulher, além da sua função social de cuidar dos filhos e satisfazer sexualmente o parceiro, assim o sexo feminino é concebido ideologicamente como um objeto romântico e reverenciado afetivamente por seu papel de mãe e esposa.

Ferreira (2004) propôs, através do inventário de Sexismo Ambivalente construído e validado por Glick e Fiske (1996), verificar a estrutura fatorial do referido inventário em amostras populacionais brasileiras. Para tanto, se valeu de 540 estudantes universitários, de 17 a 28 anos, pertencentes aos cursos das áreas de humanas e tecnológicas de universidades públicas e privadas da cidade do Rio de Janeiro. A referida amostra foi composta por 270 homens e 270 mulheres. O instrumento traduzido foi composto por 22 itens, que deveriam ser respondidos com base numa escala Likert de 6 pontos.

A aplicação do inventário de Sexismo Ambivalente em amostras populacionais brasileiras reproduziu integralmente as duas formas de Seximo – hostil e benevolente- reveladas pelo estudo original, atestando que estas duas formas de Sexismo constituem construtos independentes. Apesar de independentes, os construtos Sexismo hostil e o Sexismo Benevolente, se mostraram nos resultados obtidos como positivamente correlacionados, o que sugere que estas duas formas de Sexismo constituem facetas ideológicas de um mesmo sistema que diferencia os papéis e posições masculinas e femininas.

No que diz respeito ao Sexismo hostil e aos estereótipos negativos, os homens se mostraram mais sexistas do que as mulheres. As mulheres, por sua vez, rejeitaram o Sexismo Hostil, mas aceitam o Sexismo Benevolente e os estereótipos positivos na mesma proporção que os homens. Tal resultado pode ser interpretado pelo conteúdo presente em cada tipo de Sexismo, já que no primeiro tipo de Sexismo a mulher é ofendida, discriminada e punida, enquanto no segundo tipo, ela é protegida e reverenciada pelo sexo masculino. Ao endossarem em grau semelhante ao dos homens o Sexismo Benevolente, as mulheres estariam adotando também uma ideologia patriarcal, hierárquica e desigual, estimulando as práticas do Sexismo Hostil e contribuindo para a legitimação deste.

Frente a estes resultados, Ferreira (2004) defende que as desigualdades de gênero continuam sendo legitimadas por homens e mulheres pertencentes a diferentes grupos nacionais, sendo o Sexismo Benevolente uma forma implícita de perpetuar as mais variadas atitudes discriminatórias contra as mulheres. Este tipo de Sexismo aceito pelas mulheres, propicia também a aceitação do poder estrutural dos homens e reforça o papel feminino de dependência e busca constante por proteção e apoio oferecidos pelo sexo masculino.

Referência: Ferreira, M. C. Sexismo Hostil e Benevolente: inter-relações e diferenças de gênero. Temas em Psicologia, 12, 2,119-126, 2004.

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